quinta-feira, 28 de maio de 2009

Posted by Eduardo G. Junior In | No comments
II. PRIMEIRO CICLO DE DISCURSOS Jó 3.1-14.22

a) Jó amaldiçoa a vida e bendiz a morte (Jó 3.1-26)

O grito que escutamos provêm de uma alma torturada pela mais dilacerante agonia. As palavras que neste e noutros discursos se proferem não devem ser minuciosamente dissecadas como se fossem deliberadas, cuidadosamente ponderadas e exprimissem as mais profundas convicções de Jó. Em breve Jó acusaria os amigos de aguçarem as armas da sua dialética nos discursos de um homem desesperado, discursos que ele próprio reconhecia serem como o vento (Jó 6.26). Ao assistirmos a este impressionante espetáculo de aflição, fixemos os nossos olhos, não em cada aspecto da tragédia, mas na agonia de espírito que está por detrás de cada um desses aspectos.

1. JÓ AMALDIÇOA O DIA DO SEU NASCIMENTO (3.1-12). Deus lá em cima não tenha cuidado dele (4). É Deus quem chama os dias, na sua sucessão, tal como chama as estrelas (Cf. Is 40.26). Que o dia que chamou Jó à desgraça jamais volte a ser chamado! Contaminem-no as trevas e a sombra da morte (5). Preferível, "que as trevas e a sombra da morte lhe chamem seu". Negros vapores do dia o espantem (5). Trata-se de uma referência a eclipses. Não se goze entre os dias do ano... (6). Possa esse dia desaparecer do calendário, deixar de ser contado entre os alegres dias do ano! A voz do contentamento e da alegria havia festejado a sua entrada no mundo (cf. Jo 16.21). Mas que essa voz se cale para sempre e a escuridão e o esquecimento tomem aquela noite, a noite em que nasceu! Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam o dia (8), isto é, os encantadores, aos quais era atribuído o poder de chamar a má sorte sobre certos dias. Pranto (8). Em certa versão a palavra aparece substituída por "leviatã", palavra que no capítulo 41 se refere ao crocodilo. Há quem veja aqui uma referência ao dragão da mitologia popular que, enrolando-se em volta do sol, podia causar eclipses. As pestanas dos olhos da alva (9). A alva é como uma formosa donzela. "Ah, quem me dera não ter nascido ou ter nascido morto!" é o grito dos versículos 10-12.

2. AS AGRURAS DA EXISTÊNCIA. (Jó 3.13-26). As tribulações da vida são contrastadas com o plácido sono da morte. Jó medita na morte e quanto mais pensa nela mais ela o fascina. Pensa naqueles que o acompanhariam nesse sono eterno: homens categorizados (14-15); crianças nascidas mortas (16); homens maus cujas paixões cessaram de os perturbar a eles (cf. Isaías 57.20) e aos outros; os cansados que acharam, enfim, o seu lugar de repouso (17); escravos para quem deixou de soar o estridente grito do opressor (18); os grandes e os pequenos, uma vez separados pelos preconceitos do mundo, agora lado a lado (19).

São Francisco de Assis podia, dirigindo-se à morte, dizer: "Tu, mui amável e doce morte". Jó podia ter empregado precisamente as mesmas palavras mas por razões diferentes. Para São Francisco a morte era uma criatura do seu Deus e Rei que ele podia chamar a louvar o Criador como as outras criaturas; um marco iluminado pela radiância da imortalidade e apontar para o lar celestial onde belos e desconhecidos tesouros, acumulados por um grande amor - amor de Pai - aguardavam os homens. Mas para Jó a morte era uma evasão à vida, algo que o faria mergulhar no esquecimento, que libertaria a sua alma do "arco e da flecha da cruel fortuna". A luz e a claridade da vida surgem como um duvidoso privilégio. É uma luz que apenas põe em foco o triste destino daqueles a quem assaltou a miséria e a amargura (20). É uma claridade que escarnece daquele que se perdeu na vida, daquele que se sente prisioneiro da sua sorte, cercado por todos os lados, incapacitado, pelo próprio Deus, de fugir à sua desventura (23). Certo comentador observa com acuidade: "A luz, sem liberdade, não passa de uma pobre dádiva". A mais radiosa claridade é sempre um escárnio para o homem ou para o pássaro que, por estarem presos, não a podem gozar. Contraste-se a atitude implícita no versículo 23 com a de Salmos 118.5. Em Jó vemos o homem para quem a morte perdeu o seu terror e se tornou o mais alto e cobiçado tesouro. Porque antes do meu pão vem o meu suspiro (24). É provavelmente mais correta a seguinte versão: "os suspiros são o meu pão de cada dia". Cf. Salmos 42.3. No vers. 26 substitua-se o tempo perfeito pelo presente.




Fonte: Bible Commentary de John W. Scott

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