quarta-feira, 15 de julho de 2009

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I. PRÓLOGO Rm 1.1-17

I.a A dedicatória (Rm 1.1-7)

A saudação abreviadamente é - "Paulo a todos os chamados em Roma". A forma é semelhante à adotada em todas as suas cartas, porquanto era este o estilo epistolar ordinariamente usado no primeiro século. Temos no grego muitos exemplos disso, todos seguindo o mesmo modelo, primeiro o nome do escritor, depois o do leitor acompanhado da saudação. Esta fórmula varia na literatura paulina de acordo com as circunstâncias. Aqui, visto dirigir-se a uma igreja que ele não fundou nem até ali visitou, apresenta suas credenciais. É servo de Jesus Cristo (1; lit. "escravo"), pessoa cuja vida é de invariável lealdade e inquestionável obediência, escravo, propriedade de Jesus Cristo. O apóstolo pertencia à classe cujas orelhas foram furadas e cuja liberdade estava em ser cativo. Entre as várias palavras gregas do Novo Testamento, que se traduzem por "servo", este vocábulo doulos é o mais forte e o mais frequente. É interessante lembrar que a categoria do escravo dependia do seu senhor. Chamado para ser apóstolo (1); lit. "enviado", "mensageiro", assim traduzido em 2Co 8.23; Fp 2.25. É escolha divina, chamamento imperioso para uma função, a que não se pode desobedecer. Na biografia bíblica, este chamado segue normalmente ao apelo para arrependimento e à entrega pessoal pela fé, bem como à convocação para seguir o Senhor no modo de vida. A chamada especial aqui é para o apostolado. Paulo invariavelmente afirmava que fora chamado diretamente para este elevado ofício (cf. "não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum", Gl 1.1). Essa dignidade normalmente provinha por mediação da Igreja viva. O título pertenceu primeiramente aos Doze, cuja honra procedia de haverem estado com Jesus nos dias de Sua carne. Mais tarde foi dado a outros líderes e pregadores da igreja (cf. At 14.14). Separado para o evangelho de Deus (1). É assim que Paulo se apresenta. É consagrado ou "posto de parte" para o serviço do evangelho. Dedicação é a resposta do homem ao ato da escolha divina, e estas idéias devem ser postas em relevo. A separação é toda de Deus, que consagra Seus servos, os quais, por seu turno, se dedicam a Ele.

Temos agora um exemplo do hábito que Paulo tinha de "afastar-se por uma tangente". Na maioria de suas saudações e noutras partes ele expande o pensamento, umas idéias seguindo outras em rápida sucessão. Aqui a palavra "apóstolo" conduz ao "evangelho" que, por sua vez, leva o escritor a uma passagem de grande valor cristológico. O estilo é lacônico e de longo alcance. Passa a definir o evangelho de Deus como divino (1), predito (2) e cristocêntrico (3-5).

O evangelho não é invenção de homens; procede do céu. Vemos isto na ênfase da preposição - de Deus (1); Paulo tem aqui em mente a origem do evangelho. Antes de descrever sobre que versa esse evangelho, o apóstolo afirma a harmonia que há entre sua mensagem e a revelação dada antes ao povo judeu. Está de acordo com todas as promessas dos antigos profetas; firma-se nas Sagradas Escrituras (2); isto é, no Velho Testamento.

O principal traço característico do evangelho é apresentar-nos Jesus Cristo como sendo tudo em todas as coisas. Em conseqüência, Paulo se deixa cativar pela apreensão (conhecimento) que tem do Senhor, que Se antecipou em tomar conta dele (apreendê-lo) no poder de Sua ressurreição. Nesta passagem cristológica (vers. 3-5), ele dá ênfase primeiro à encarnação, visto como este é que deve ser o ponto de partida da mensagem evangélica. Mas a vinda de Cristo segundo a carne (3) foi cumprimento de profecia messiânica; desta forma, fica justificada a declaração feita no vers. 2. Depois, segundo o espírito de santidade (4), isto é, quanto à Sua perfeição moral, Ele se manifestou como sendo Filho de Deus desde toda a eternidade mediante o milagre da ressurreição. A palavra declarado (4) da versão de Almeida tem atrás de si o grego "determinado" ou "designado", a sugerir que a obra da redenção do mundo fora predestinada na eternidade, antes da encarnação de Cristo.

Este evangelho sublime, divino, profetizado e cristocêntrico torna-se, como tal, a regra dos cristãos. Quem escreve a carta e os que a lêem são um em Jesus Cristo, nosso Senhor (4). Note-se o uso que Paulo faz dos nomes oficiais e universais do Filho de Deus, que é Salvador, Messias e Rei. Mediante Ele, os romanos recebem graça, e, por acréscimo, Paulo recebe o apostolado (5). Graça, favor divino por pecadores indignos, é a nova relação em que os crentes estão para com Deus. O fim para o qual ele recebeu o apostolado é a obediência à fé (5), ou submissão confiante de todos os gentios ao Salvador do mundo. Paulo é o apóstolo da gentilidade, e daí o seu interesse pelos romanos, como participantes potenciais e atuais da graça divina. Donde conclui o direito que tem de se dirigir a eles. A todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados para serdes santos (7). Há evidentemente uma comunidade cristã na metrópole, preciosa ao coração de Deus e cujo destino é novidade de vida para a perfeição moral. A dedicatória, propriamente, conclui com uma bênção, em que se combinam graça e paz, uma idéia grega e outra hebraica.

I.b Ação de graças e súplica (Rm 1.8-12)

O apóstolo exprime sua satisfação a respeito de cada um dos cristãos romanos, porque a fé que eles possuem não está escondida num canto obscuro, mas é do domínio público. Arautos da fé, têm eles sido a tal ponto que Deus, a quem Paulo adora em espírito pela pregação de Seu Filho, é testemunha da menção contínua que deles faz em suas orações. A idéia central de suas petições é que Deus apresse o dia em que possa encontrá-los, se é da vontade divina, havendo uma razão dupla para esse pedido. É que deseja firmá-los, repartindo com aqueles irmãos um dom espiritual, e também receber o conforto da fé mútua, deles e sua.

I.c Explicação pessoal (Rm 1.13-17)

Os cristãos de Roma deviam saber que, embora impedido de realizar esse desejo, Paulo muitas vezes houvera proposto visitá-los, para ver o mesmo trabalho espiritual, feito entre eles como já fora feito alhures, entre outros gentios. Sente-se devedor tanto a civilizados como a incivilizados, a sábios como a ignorantes. A comissão que recebera foi para pregar o evangelho a toda gente e, quanto ao seu ardor pessoal, sente que tem para com os romanos uma dívida de evangelização, porquanto se orgulha (note-se a meiose, não me envergonho) de pregar o evangelho, o qual é capaz de salvar a todos quantos crêem, judeus ou gregos, embora aqueles antes que os outros tenham direito e interesse nisso (16). No evangelho a justificação divina (ver a nota introdutória à II seção) revela-se de fé em fé-os crentes levam outros a crer! Isto havia sido revelado igualmente aos profetas (cf. vers. 2) como se vê pelas palavras de Habacuque, O justo (isto é o justificado) viverá por fé (17; cf. Hc 2.4).

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