Jejum — Enciclopédia Bíblica Online
Na Bíblia, “jejuar” significa, em sentido básico, abster-se voluntariamente de alimento diante de Deus, e “jejum” designa essa própria prática como sinal religioso de humilhação, súplica, arrependimento ou busca de direção. No Antigo Testamento, o campo principal é expresso por צוּם (ṣûm, “jejuar”) e צוֹם (ṣôm, “jejum”), mas, no núcleo cultual do Dia da Expiação, a ideia aparece sobretudo na fórmula “afligir a alma”, isto é, humilhar-se diante de Deus (Lv 16.29-31; Lv 23.27-32; Nm 29.7). Por isso, jejum não é mera privação física: ele funciona como linguagem corporal de dependência, luto, confissão e oração intensa, seja em crise nacional, seja em aflição pessoal (Jz 20.26; 1Sm 7.6; 2Sm 12.16-23; Ed 8.21-23; Ne 1.4). Os Profetas, porém, deixam claro que o jejum só é verdadeiro quando acompanha justiça, misericórdia e conversão real, e não quando se torna rito vazio ou encenação religiosa (Is 58.3-7; Jr 14.12; Zc 7.5-6).
No Novo Testamento, “jejuar” é expresso principalmente por νηστεύω (nēsteuō, “jejuar”) e “jejum” por νηστεία (nēsteia, “jejum”), mas o seu sentido é reordenado a partir de Jesus. Ele não aboliu a prática; antes, rejeitou seu uso hipócrita e exibicionista, ensinando que o jejum deve ser vivido diante do Pai, em secreto (Mt 6.16-18). Ao mesmo tempo, declarou que, enquanto o noivo estava presente, o tempo não era de luto; depois de sua retirada, o jejum voltaria a ter lugar, agora sob horizonte cristológico e escatológico (Mt 9.14-15; Mc 2.18-20; Lc 5.33-35). Em Atos e nas cartas, o jejum aparece ligado à oração, ao discernimento e ao envio ministerial, e nunca como mecanismo automático de mérito espiritual (At 13.2-3; At 14.23; 2Co 6.5; Cl 2.20-23). Assim, biblicamente, “jejuar” é humilhar-se diante de Deus por meio da abstinência, e “jejum” é o nome dessa prática quando ela expressa arrependimento, dependência, consagração e busca sincera da vontade divina (Sl 35.13; Jl 2.12-13; Mt 4.2).
Delimitação lexical e sentido bíblico do jejum
No plano lexical, o jejum bíblico deve ser definido como abstinência voluntária de alimento em contexto religioso, distinguindo-se tanto das proibições alimentares permanentes quanto de restrições parciais de certos alimentos. No Antigo Testamento, o campo principal é formado por צוּם (ṣûm, “jejuar”) e צוֹם (ṣôm, “jejum”); a própria documentação lexical de die-bibel.de observa que esses são os termos mais frequentes para a prática, ao lado de expressões correlatas de auto-humilhação. No Novo Testamento, o núcleo vocabular passa para νηστεύω (nēsteuō, “jejuar”), νηστεία (nēsteia, “jejum”) e νῆστις/νήστεις (nēstis/nēsteis, “em jejum”, “sem ter comido”), isto é, formas que descrevem, em sentido próprio, a condição de privação alimentar. Essa delimitação já impede duas confusões frequentes: jejum não é, no uso bíblico estrito, o mesmo que lei dietética, nem coincide automaticamente com qualquer forma de ascese corporal.
A particularidade mais importante do campo hebraico é que os textos cultuais centrais do Dia da Expiação não costumam formular a prática com o substantivo técnico צוֹם, mas com a perífrase עִנִּיתֶם אֶת־נַפְשֹׁתֵיכֶם (ʿinnîtem ʾet-nafšōtêkem, “afligireis / humilhareis as vossas almas”). Essa redação aparece com clareza em Levítico 23, BHS, onde o dia é definido por auto-humilhação e cessação do trabalho, e reaparece em Números 29, BHS, no contexto sacrificial do décimo dia do sétimo mês (Lv 23.27-32; Nm 29.7). A consequência exegética é decisiva: no estrato sacerdotal, o jejum não é apresentado primariamente como técnica ascética, mas como gesto cultual de rebaixamento do eu diante de Deus, integrado ao rito expiatório. A própria tradição lexicográfica de die-bibel.de reconhece esse uso de ענה נפש como alternativa semântica que abrange práticas de auto-humilhação, inclusive o jejum.
A tradução grega da Septuaginta confirma esse deslocamento semântico. Em Levítico 16, LXX e Levítico 23, LXX, a fórmula hebraica é vertida por ταπεινώσατε τὰς ψυχὰς ὑμῶν ou ταπεινώσετε τὰς ψυχὰς ὑμῶν (tapeinōsate / tapeinōsete tas psychas hymōn, “humilhai / humilhareis as vossas almas”), não por νηστεύω nem por νηστεία. Isso mostra que a ponte entre o campo hebraico e o grego não é linear nem mecânica: a LXX preserva, em textos cultuais programáticos, a ideia de humilhação interior-corpórea, enquanto o vocabulário técnico do jejum aparece com mais nitidez em outros contextos narrativos e práticos. Em outras palavras, o conceito bíblico de jejum é maior que o simples emprego do termo técnico; ele inclui também a linguagem ritual da autoaflição.
Outro traço importante do campo semântico é o uso perifrástico de expressões ligadas ao não comer. Em 1 Samuel, Saul cai por terra porque “não comeu pão” — לֹא אָכַל לֶחֶם (lōʾ ʾākal leḥem, “não comeu pão”) — durante todo o dia e toda a noite (1Sm 28.20), formulação que mostra como a língua bíblica pode descrever o jejum pela ausência do ato alimentar sem empregar o termo צוֹם. Algo semelhante reaparece em Lucas, onde João Batista é caracterizado como alguém que veio μὴ ἐσθίων ἄρτον (mē esthiōn arton, “não comendo pão”) nem bebendo vinho (Lc 7.33). A equivalência não é absoluta em todos os contextos, mas o padrão é claro: o campo lexical do jejum admite descrições indiretas que destacam a renúncia concreta ao alimento como sinal visível de um estado religioso específico.
No Novo Testamento propriamente dito, o uso explícito do verbo νηστεύω é transparente. Em Mateus 6, NA28, Jesus emprega a fórmula Ὅταν δὲ νηστεύητε (hotan de nēsteuēte, “quando jejuardes”), e logo depois νηστεύων (nēsteuōn, “jejuando”), o que mostra que o verbo designa uma prática reconhecida, mas cuja validade depende do modo e da motivação com que é exercida (Mt 6.16-18). Em Mateus 9, NA28, a mesma raiz aparece na pergunta sobre por que os discípulos de João e os fariseus νηστεύομεν (nēsteuomen, “jejuamos”), ao passo que os discípulos de Jesus οὐ νηστεύουσιν (ou nēsteuousin, “não jejuam”), culminando no futuro νηστεύσουσιν (nēsteusousin, “jejuarão”) após a retirada do noivo (Mt 9.14-15). O dado lexical é simples, mas teologicamente decisivo: no NT, νηστεύω não nomeia um rito autônomo; ele é reconfigurado pela presença e pela ausência do Messias.
Já o substantivo νηστεία pode assumir valor quase técnico. Em Atos 27, NA28, a expressão τὴν νηστείαν ἤδη παρεληλυθέναι (tēn nēsteian ēdē parelēlythenai, “já ter passado o Jejum”) funciona como marcador cronológico em Atos 27.9, o que pressupõe um dia de jejum suficientemente conhecido para ser mencionado sem explicação adicional. No mesmo capítulo, porém, aparece também ἀσιτία (asitia, “falta de alimento”, “inanição”) em Atos 27.21, e depois ἄσιτοι (asitoi, “sem comer”) em Atos 27.33, termos que pertencem ao campo vizinho da privação alimentar, mas não designam tecnicamente o jejum religioso. A distinção lexical é importante: νηστεία remete à prática reconhecida; ἀσιτία descreve a condição de não alimentação, aqui agravada pelas circunstâncias marítimas e pelo perigo.
O adjetivo νήστεις (nēsteis, “em jejum”, “de estômago vazio”) confirma essa nuance. Em Marcos 8, NA28, Jesus declara que não quer despedir a multidão νήστεις εἰς οἶκον αὐτῶν (nēsteis eis oikon autōn, “em jejum para suas casas”), para que não desfaleçam no caminho; a mesma construção reaparece em Mateus 15, NA28, novamente em contexto de carência física real, não de disciplina cultual (Mc 8.3; Mt 15.32). Isso mostra que o léxico do jejum, no grego neotestamentário, cobre tanto a prática religiosa deliberada quanto o estado corporal de estar sem alimento. A semântica, portanto, só se decide pelo contexto.
Convém, por fim, delimitar negativamente uma passagem muitas vezes aproximada do tema. Em Colossenses 2, NA28, o texto não usa νηστεία nem νηστεύω, mas ταπεινοφροσύνῃ (tapeinophrosynē, “humildade”, “humilhação”) em associação com “culto dos anjos” e, adiante, com ἀφειδίᾳ σώματος (apheidia sōmatos, “severidade para com o corpo”) (Cl 2.18, 23). Por isso, Colossenses 2 não constitui testemunho lexical explícito para “jejum”, ainda que alguns intérpretes proponham um eco conceitual da fórmula semítica de auto-humilhação. Exegeticamente, a formulação mais segura é esta: o texto pode tocar um universo ascético contíguo ao jejum, mas não o nomeia com o vocabulário técnico que aparece em Mateus, Atos ou na tradição cultual reinterpretada pela LXX.
Teorias modernas sobre a origem do jejum
Antes da análise do material bíblico propriamente dito, convém registrar, em chave metodológica, como o jejum foi interpretado na história moderna dos estudos da religião. No fim do século XIX, o tema atraiu especialmente a atenção da antropologia religiosa comparada, que procurou examinar práticas de jejum em diversas culturas consideradas então “primitivas”, com o objetivo de reconstruir uma teoria geral de sua origem e de seu desenvolvimento histórico (Westermarck 1907). Esse enquadramento é relevante porque mostra que o jejum não foi lido apenas como ato devocional isolado, mas como fenômeno religioso amplo, submetido a explicações históricas, psicológicas e sociais.
Uma primeira linha interpretativa adotou perspectiva individualista. Nessa leitura, o jejum foi entendido como prática capaz de produzir estados intensificados de consciência, favorecendo sonhos, visões e experiências extraordinárias; tais experiências, por sua vez, foram tratadas como base originária da própria conceptualidade religiosa. Essa formulação aparece de modo clássico em Edward B. Tylor, para quem a alteração da consciência provocada por privações corporais podia ser associada ao surgimento das representações religiosas mais fundamentais (Tylor 1871: 410). Nessa hipótese, o valor do jejum não reside primariamente em seu lugar litúrgico ou comunitário, mas em seu potencial de induzir experiências subjetivas interpretadas como contato com o sagrado.
Outra corrente partiu de um ponto de vista coletivista e deslocou a explicação do plano da consciência individual para o da formação ritual da comunidade. Nessa linha, o jejum foi concebido como rito preparatório para a ingestão sacramental de alimento santo, de modo que sua função não seria, em primeiro lugar, provocar visões, mas preparar a participação em um ato coletivo carregado de valor religioso. A partir dessa perspectiva, chegou-se a sustentar que, no próprio jejum, estaria uma das raízes comunitárias da religião, já que a abstinência precederia e qualificaria o momento de comunhão cultual (Smith 1894: 434). A diferença em relação à interpretação anterior é substancial: enquanto a primeira privilegia a experiência interior do indivíduo, esta enfatiza a estrutura simbólica do grupo e a formação de coesão ritual.
Em período mais recente, a antropologia semântica afastou-se das grandes teorias sobre a origem da religião e voltou-se antes para a análise das culturas enquanto sistemas vivos de significação. Nessa abordagem, o jejum não deve ser isolado do conjunto de regras de pureza por meio das quais uma comunidade organiza seu universo simbólico e sua autocompreensão. Jacob Neusner, nesse horizonte, chama a atenção para o fato de que práticas como o jejum só podem ser corretamente compreendidas quando inseridas na rede mais ampla de classificações religiosas que estruturam identidade, pertença e ordem social (Neusner 1973: 137–42). Com isso, o interesse deixa de recair apenas sobre a pergunta pelas origens e passa a concentrar-se no modo como o jejum funciona dentro de um sistema cultural determinado.
A consequência metodológica dessa evolução é significativa. O problema hermenêutico já não consiste apenas em definir o que o jejum “é” em abstrato, mas em determinar como cada tradição o insere em seu campo mais amplo de sentido. Esse deslocamento impede que o material bíblico seja lido de forma simplista, seja como puro ascetismo individual, seja como mera convenção cultual desprovida de densidade simbólica. Ao mesmo tempo, permanece válida a observação de que as implicações completas dessa mudança de paradigma ainda não foram exploradas de modo exaustivo pela exegese bíblica, sobretudo no que diz respeito à articulação entre jejum, pureza, identidade comunitária e linguagem ritual.
Jejum cultual, auto-humilhação e expiação
O primeiro núcleo normativo do jejum bíblico aparece no Dia da Expiação. Dentro da legislação do Antigo Testamento, trata-se do único jejum anual de alcance nacional explicitamente vinculado ao calendário cultual, e sua formulação não parte do substantivo técnico צוֹם (ṣôm, “jejum”), mas da ordem de auto-humilhação: תְּעַנּוּ אֶת־נַפְשֹׁתֵיכֶם / וְעִנִּיתֶם אֶת־נַפְשֹׁתֵיכֶם (teʿannû / weʿinnîtem ʾet-nafšōtêkem, “afligireis / humilhareis as vossas almas”). Essa linguagem estrutura o rito em Levítico 16.29 e 16.31, volta em Levítico 23.27, 23.29 e 23.32, e reaparece em Números 29.7. O ponto decisivo é que o texto legal não define o dia primeiramente como exercício ascético autônomo, mas como ato de auto-rebaixamento diante de Deus no contexto da expiação, sempre associado à interrupção completa do trabalho e à convocação sagrada do povo. A síntese lexicológica de WiBiLex, no âmbito da Deutsche Bibelgesellschaft, vai na mesma direção ao descrever o jejum, nesse contexto, como rito coletivo de autodemissão e submissão diante de Deus, integrado ao Grande Dia da Expiação.
A principal dificuldade interpretativa está na expressão hebraica ligada à “alma”. O hebraico não diz simplesmente “jejuar”, mas ordena que Israel “aflija” ou “humilhe” a própria vida diante de Deus. Por isso, as traduções divergem justamente no ponto mais importante: KJV/ASV preservam “afflict your souls”; ESV/NASB preferem “humble yourselves”; a NIV, em linha semelhante, tende a explicitar a ideia de autonegação. Essas diferenças não são irrelevantes. “Afflict your souls” conserva a literalidade semítica; “humble yourselves” traduz melhor o valor cultual de submissão; e a interpretação mais prática, próxima de “negar-se”, aproxima-se do entendimento histórico do texto como jejum. Exegeticamente, porém, o dado mais seguro é que o rito não se reduz a privação física: trata-se de humilhação cúltica integral, da qual a abstinência alimentar é a expressão histórica mais reconhecível. Em Levítico 23.29, a gravidade do mandamento é reforçada pela ameaça de exclusão do povo para quem “não se humilhar” naquele dia, e Levítico 23.32 fixa ainda o quadro temporal do rito “de tarde a tarde”, indicando observância plena e delimitada.
A Septuaginta preserva esse desenho com grande precisão e, justamente por isso, oferece um dado exegético relevante. Em Levítico 16.29 e 16.31, o grego traduz a fórmula hebraica por ταπεινώσατε / ταπεινώσετε τὰς ψυχὰς ὑμῶν (tapeinōsate / tapeinōsete tas psychas hymōn, “humilhai / humilhareis as vossas almas”); o mesmo ocorre em Levítico 23.27 e 23.29, onde aparece também μὴ ταπεινωθήσεται (mē tapeinōthēsetai, “não for humilhada”), e novamente em Levítico 23.32. O dado é significativo porque a tradução grega, no principal texto legal sobre o rito, não substitui a linguagem hebraica por νηστεία (nēsteia, “jejum”), mas conserva a semântica da auto-humilhação. Isso mostra que, no nível mais profundo da teologia sacerdotal, o centro do dia não é a técnica do jejuar em si, mas a postura penitencial e expiatória do povo diante de Deus. O jejum, nesse quadro, é menos um fim do que a forma ritual concreta assumida por essa autodemissão cultual.
Esse pano de fundo explica a naturalidade com que Atos 27.9 fala simplesmente de “o Jejum”: τὴν νηστείαν (tēn nēsteian, “o Jejum”). O artigo definido mostra que Lucas não pensa em qualquer prática devocional, mas num dia suficientemente conhecido para funcionar como marcador cronológico por excelência. Aqui a comparação de versões é realmente útil: KJV/ASV/ESV/NASB mantêm “the Fast”, preservando o dado grego; a NIV opta por explicitar o referente e verte “the Day of Atonement”, o que corresponde bem ao pano de fundo veterotestamentário. Essa passagem neotestamentária, portanto, ilumina retroativamente a legislação mosaica: o dia caracterizado na Torá pela auto-humilhação ritual já podia, no judaísmo do século I, ser designado por antonomásia como “o Jejum”. O movimento semântico é coerente: a linguagem de “humilhar a alma” em Levítico e Números torna-se, no uso judaico posterior refletido em Atos, o nome reconhecível do próprio dia sagrado.
Jejum, luto, culpa e súplica pessoal
Fora do calendário expiatório nacional, o material mais antigo associa o jejum sobretudo a grupos menores e a indivíduos, em contextos de luto, humilhação pessoal e reforço da oração suplicante. No relato da morte de Saul e Jônatas, a reação de Davi e de seus homens é descrita por uma cadeia de gestos que culmina em וַיָּצֻמוּ (wayyāṣumû, “e jejuaram”): eles pranteiam, choram e jejuam até a tarde, não apenas por Saul e Jônatas, mas também “pelo povo do Senhor e pela casa de Israel” (2Sm 1.11-12). Algo análogo ocorre após a morte de Abner. Quando o povo tenta levar Davi a comer, ele jura que não provará pão nem qualquer outra coisa antes do pôr do sol; o texto, embora não empregue aí novamente o verbo técnico do jejum, descreve clara abstinência voluntária em ambiente funerário, e o narrador sublinha que o povo percebeu esse gesto e o aprovou, reconhecendo nele sinceridade e inocência política (2Sm 3.35-37). Nesse primeiro conjunto, o jejum funciona como expressão pública de luto reverente, não como exercício ascético autônomo.
O episódio mais denso desse campo semântico aparece quando a criança nascida do adultério de Davi adoece. O narrador formula o gesto com intensidade incomum: וַיָּצָם דָּוִד צוֹם (wayyāṣom dāwid ṣôm, “Davi jejuou um jejum”), construção de acusativo cognato que reforça a ação e sugere jejum severo; em seguida, o texto acrescenta que ele passou a noite em terra e recusou pão (2Sm 12.16-17). Quando a criança morre, porém, o rei se levanta, lava-se, unge-se, adora no templo e volta a comer. A explicação dada por ele define a lógica do episódio: enquanto a criança vivia, o jejum estava ligado à súplica — “quem sabe o Senhor terá compaixão de mim, e viverá a criança?” —, mas, depois da morte, continuar jejuando não teria eficácia restauradora: “Agora que morreu, por que jejuaria eu?” (2Sm 12.22-23). Exegeticamente, isso mostra que aqui o jejum não é luto pelo morto, mas petição intensa antes do desfecho. A observação preservada por Hertzberg em 1, 2 Samuel (OTL) permanece útil nesse ponto: a morte da criança pode ter sido recebida como expiação do pecado, o que tornaria inadequado o luto ordinário após o juízo consumado.
No Saltério, esse mesmo elo entre humilhação interior, jejum e oração aparece de forma ainda mais explícita. O salmista afirma: עִנֵּיתִי בַצּוֹם נַפְשִׁי (ʿinnîtî baṣṣôm napšî, “humilhei / afligi a minha alma com jejum”), e acrescenta logo em seguida que sua oração voltava ao seu peito (Sl 35.13). Aqui, o paralelismo é teologicamente importante: jejuar não é gesto isolado, mas forma concreta de auto-humilhação em favor de outros, acompanhado de intercessão. A comparação de versões mostra como a ambiguidade hebraica é relevante: KJV/ASV preservam “afflicted my soul with fasting”, enquanto NVI/NVT/ESV/NASB preferem formulações do tipo “humilhei-me com jejum”; a diferença de superfície não altera o núcleo semântico, pois o verso une deliberadamente a linguagem de “afligir a alma” ao jejum. A mesma família conceitual aparece na legislação de votos, quando Números fala de juramento “לְעַנֹּת נָפֶשׁ” (leʿannōt nāpeš, “para afligir a alma”) — expressão que várias traduções vertem como “afligir a alma”, “humilhar-se” ou “negar-se a si mesma” (Nm 30.14, na numeração da BHS). Nesse caso, o texto não descreve diretamente um jejum realizado, mas mostra que a autoaflição voluntária já integrava o universo jurídico-religioso do Israel antigo, o que ajuda a explicar por que jejum e humilhação pessoal aparecem tão estreitamente ligados em outros contextos.
A narrativa de Acabe confirma que esse vínculo não é apenas litúrgico, mas penitencial. Ao ouvir a palavra de juízo, o rei rasga as vestes, põe pano de saco sobre a carne, jejua, deita-se em saco e anda cabisbaixo; o texto usa aqui explicitamente וַיָּצֹם (wayyāṣom, “e jejuou”) para o gesto exterior (1Rs 21.27). Mas a interpretação divina do episódio, dois versículos depois, já não retoma o verbo do jejum; em vez disso, pergunta se Elias viu que Acabe נִכְנַע (nikhnaʿ, “se humilhou”) diante do Senhor, e precisamente por essa humilhação o juízo é adiado para os dias de seu filho (1Rs 21.29). A exegese narrativa é transparente: o jejum, por si só, não é apresentado como mérito autônomo; seu significado está em manifestar humilhação real perante Deus. O mesmo eixo semântico já estava presente nos textos anteriores, mas aqui a própria narrativa o explicita. Assim, no campo do luto, da culpa e da súplica pessoal, o jejum bíblico aparece como exteriorização corporal do quebrantamento, da petição e da aceitação do juízo divino, e não como simples rito formal ou ornamento de piedade (1Rs 21.27-29).
Jejum público nas crises nacionais de Israel
Quando o jejum passa do âmbito individual para o plano coletivo, seu perfil teológico se amplia. Ele deixa de ser apenas exteriorização de luto pessoal ou de culpa privada e se torna gesto comunitário de dependência de Deus diante de guerra, ameaça, juízo ou necessidade nacional. Isso já aparece com nitidez em Juízes 20.26, depois de nova derrota militar diante de Benjamim: “todo o povo” sobe a Betel, chora diante do Senhor, permanece ali e “jejuam naquele dia até a tarde” (וַיָּצ֥וּמוּ בַיּוֹם־הַה֖וּא עַד־הָעָ֑רֶב, wayyāṣûmû bayyôm-hahûʾ ʿad-hāʿāreb, “jejuaram naquele dia até a tarde”), oferecendo ao mesmo tempo holocaustos e sacrifícios pacíficos. O jejum, portanto, não aparece isolado, mas articulado a pranto, consulta a Deus e culto sacrificial. Algo semelhante ocorre em 1 Samuel 7.5-10, quando Samuel convoca Israel a Mispá, o povo se reúne, derrama água diante do Senhor, jejua “naquele dia” e confessa: “pecamos contra o Senhor”. Nesse quadro, o jejum já não é apenas sinal de tristeza, mas rito de arrependimento comunitário acompanhado de intercessão e seguido de livramento militar. A ligação entre jejum, confissão e súplica é explícita no texto e define bem a lógica do jejum nacional em situação de crise (Jz 20.26-28; 1Sm 7.5-10).
Nem toda abstinência coletiva, porém, possui o mesmo valor teológico. Em 1 Samuel 14.24, Saul coloca o povo sob juramento: “maldito o homem que comer pão antes da tarde, antes que eu me vingue dos meus inimigos”, de modo que “todo o povo não provou pão” (לֹא טָעַם כָּל־הָעָם לָחֶם, lōʾ ṭāʿam kol-hāʿām lāḥem, “todo o povo não provou pão”). Aqui o texto não usa o verbo usual do jejum, nem descreve humilhação diante de Deus; trata-se de abstinência imposta pelo rei em função de sua própria agenda de vingança. Essa diferença é exegética e teologicamente importante: o texto aproxima-se formalmente de um jejum público, mas o enquadra como imposição régia extraordinária, não como ato legítimo de arrependimento ou busca de direção. Por isso, o episódio funciona melhor como contraste do que como paradigma. O material veterotestamentário permite, assim, distinguir entre o jejum comunitário de humilhação diante de Deus e a mera privação alimentar decretada por autoridade humana em contexto militar.
Na história posterior de Judá, o jejum coletivo se torna meio explícito de busca por socorro divino. Em 2 Crônicas 20.3, diante da aproximação de uma grande coalizão inimiga, Josafá “pôs o rosto para buscar o Senhor” e “proclamou jejum sobre todo Judá” (וַיִּקְרָא־צֹ֖ום עַל־כָּל־יְהוּדָֽה, wayyiqrāʾ-ṣôm ʿal-kol yehûdāh, “proclamou jejum sobre todo Judá”). O texto prossegue mostrando que Judá se reúne “para buscar socorro do Senhor”, de modo que o jejum é apresentado como resposta pública de fé diante de ameaça bélica. Em Esdras 8.21-23, o mesmo padrão recebe formulação particularmente rica: Esdras declara junto ao rio Aava, “proclamei ali jejum” (וָאֶקְרָא שָׁם צוֹם, wāʾeqrāʾ šām ṣôm, “proclamei ali jejum”), “para nos humilharmos diante do nosso Deus” (לְהִתְעַנּוֹת לִפְנֵי אֱלֹהֵינוּ, lehitʿannôt lip̄nê ʾĕlōhênû, “para nos humilharmos diante do nosso Deus”) e pedir “caminho reto” para o povo, as crianças e os bens. Aqui a ambiguidade tradutória é relevante, porque o hebraico combina o substantivo “jejum” com o infinitivo reflexivo de ענה, “humilhar-se/afligir-se”: KJV preserva “afflict ourselves”, enquanto NIV/ESV/NASB preferem “humble ourselves”, e todas essas opções procuram traduzir a mesma ideia de rebaixamento coletivo perante Deus na busca de proteção. O versículo 23 fecha o episódio com uma nota de resposta favorável: “jejuamos e pedimos ao nosso Deus sobre isto, e ele nos ouviu” (2Cr 20.3-4; Ed 8.21-23).
No período pós-exílico, o jejum público aparece também como forma de renovação pactual e de solidariedade nacional. Neemias 9.1-3 descreve os “filhos de Israel” reunidos “em jejum, com pano de saco e terra sobre si” (בְּצוֹם וּבְשַׂקִּים וַאֲדָמָה עֲלֵיהֶם, beṣôm ûḇeśaqqîm waʾădāmāh ʿălêhem, “em jejum, com sacos e terra sobre eles”), separados dos estrangeiros, confessando seus pecados e as iniquidades de seus pais, lendo a Torá e prostrando-se diante do Senhor. A reunião não é apenas emotiva; ela é litúrgica, penitencial e didática. Em Ester 4, o mesmo movimento assume forma diaspórica e urgente. O decreto de extermínio produz entre os judeus “luto grande... jejum, choro e lamentação” (וְצוֹם וּבְכִי וּמִסְפֵּד, weṣôm ûḇekî ûmispēd, “jejum, choro e pranto”) em cada província (Et 4.3). Depois, Ester ordena: “ajuntai todos os judeus... e jejuai por mim; não comais nem bebais por três dias, noite e dia” (וְצ֣וּמוּ עָלַי וְאַל־תֹּאכְלוּ וְאַל־תִּשְׁתּוּ שְׁלֹשֶׁת יָמִים לַיְלָה וָיוֹם, weṣûmû ʿālay weʾal-tōʾkĕlû weʾal-tištû šĕlōšet yāmîm laylā wāyôm, “jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias, noite e dia”), acrescentando que ela e suas servas fariam o mesmo, antes de sua entrada arriscada diante do rei (Et 4.16-17). Aqui o jejum público é total, solidário e orientado para intervenção em circunstância extrema; ele não aparece como ornamento espiritual, mas como mobilização coletiva sob ameaça de aniquilação.
Jeremias 36 completa esse quadro ao mostrar que o jejum público podia servir também como ocasião litúrgica oficial para ouvir a palavra profética. Jeremias manda Baruque ler o rolo “no dia de jejum” (בְּי֣וֹם צ֑וֹם, bĕyôm ṣôm, “no dia de jejum”), e o narrador informa depois que, no nono mês, “proclamaram jejum diante do Senhor” para todo o povo em Jerusalém e para os que vinham das cidades de Judá (קָרְא֨וּ צ֜וֹם לִפְנֵ֧י יְהוָ֛ה, qārĕʾû ṣôm lip̄nê YHWH, “proclamaram jejum diante do Senhor”) (Jr 36.6-9). Essa cena é importante porque sugere que já havia, no período monárquico tardio, jejuns públicos com dimensão litúrgica reconhecida, exatamente como também se pode inferir do material antigo. Reunidos em conjunto, esses textos permitem uma distinção precisa: o jejum individual concentra a aflição de uma pessoa ou de um pequeno grupo; o jejum nacional, ao contrário, reúne o povo inteiro em solidariedade cultual diante de ameaça, culpa ou necessidade histórica. Seu traço característico não é apenas a ausência de alimento, mas a reunião do corpo comunitário para chorar, confessar, pedir direção e submeter-se ao Senhor (Jr 36.6-9).
Jejum profético, sinceridade e justiça pactual
A correção profética do jejum parte da constatação de que uma prática religiosamente reconhecível pode ser teologicamente inválida. Em Isaías 58, o povo pergunta por que jejuou sem ser atendido: לָמָּה צַּמְנוּ וְלֹא רָאִיתָ עִנִּינוּ נַפְשֵׁנוּ וְלֹא תֵדָע (lāmāh ṣamnû welōʾ rāʾîtā, ʿinnînû nap̄šênû welōʾ tēdaʿ, “por que jejuamos, e não viste? humilhamos a nossa alma, e não atentaste?”). A queixa é imediatamente desmontada pelo próprio texto: “no dia do vosso jejum” eles buscam o próprio interesse e oprimem os seus trabalhadores; além disso, jejuam “para contenda e rixa” e para ferir “com punho perverso” (Is 58.3-4). A ambiguidade de עִנִּינוּ נַפְשֵׁנוּ (ʿinnînû nap̄šênû) é relevante e só aqui justifica comparação de versões: KJV/ASV preservam “afflicted our soul”, ao passo que NIV/ESV/NASB preferem “humbled ourselves”; a diferença mostra que o problema do texto não é a mera abstinência corporal, mas a pretensão de auto-humilhação desacompanhada de conversão real. A LXX conserva essa dupla estrutura ao verter ἐνηστεύσαμεν (enēsteusamen, “jejuamos”) e ἐταπεινώσαμεν τὰς ψυχὰς ἡμῶν (etapeinōsamen tas psychas hēmōn, “humilhamos as nossas almas”), o que confirma que, no próprio texto bíblico, jejum e humilhação interior se distinguem sem se separar.
A resposta divina em Isaías 58.5-9 redefine o jejum por dentro. O profeta pergunta se o jejum escolhido por Deus consiste apenas em curvar a cabeça como junco, deitar-se sobre pano de saco e cinza e chamar isso de “dia aceitável ao Senhor” (Is 58.5). A seguir, o texto desloca o centro do rito para a ética da aliança: o jejum verdadeiro é soltar as correntes da impiedade, desatar as ataduras do jugo, libertar os oprimidos, repartir o pão com o faminto, acolher o desabrigado e vestir o nu (Is 58.6-7). Só então vêm as promessas de resposta divina, luz, cura e restauração (Is 58.8-9). A LXX reforça essa releitura ao repetir νηστεία (nēsteia, “jejum”) justamente nos versículos em que o jejum exterior é negado e o jejum ético é afirmado, de modo que a crítica profética não aboliu a prática, mas a subordinou à justiça concreta. É nesse sentido que a literatura especializada observa, a propósito de Isaías 58 e Joel, uma aproximação sonora e temática entre צֹום (ṣôm, “jejum”) e יֹום (yôm, “dia”): o “dia” do jejum só é verdadeiro quando suportado por fidelidade pactual, e não por encenação religiosa.
O livro de Joel confirma esse mesmo eixo, mas o formula em chave de retorno integral a Deus. O apelo “voltai para mim de todo o vosso coração, com jejum, com choro e com pranto” usa explicitamente a tríade cultual e emocional que caracteriza a penitência comunitária; contudo, o versículo seguinte desloca o ponto decisivo para a interioridade: “rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes” (Jl 2.12-13). A sequência é significativa, porque impede a falsa alternativa entre rito e interioridade: o profeta não exclui o jejum, antes o reinsere numa conversão que alcança o coração. Logo depois, a convocação pública retoma a linguagem cultual: “santificai um jejum”, “convocai uma assembleia solene”, “ajuntai o povo”, e até noivos e crianças devem participar, enquanto os sacerdotes choram entre o pórtico e o altar e suplicam pela compaixão de Deus (Jl 2.15-17). O movimento do texto vai, portanto, da interioridade sincera ao rito coletivo legítimo. Não se trata de oposição entre coração e jejum, mas de submissão do jejum ao coração arrependido.
Jeremias formula a mesma crítica em linguagem ainda mais dura. Em Jeremias 14.12, Deus declara que, mesmo que o povo jejue, não ouvirá o seu clamor; mesmo que ofereça holocausto e oferta de cereal, não o aceitará. A força do versículo está em aproximar três atos cultuais legítimos — jejum, holocausto e oferta — e negar-lhes eficácia por causa da persistência da culpa e da falsa segurança do povo. O contexto imediato explica a recusa: trata-se de uma comunidade que “amou vaguear”, não refreou os pés e agora será visitada em sua iniquidade (Jr 14.10-12). Zacarias 7 retoma o problema em forma interrogativa. Os emissários perguntam se devem continuar chorando e abstendo-se no quinto mês, como fizeram por tantos anos; a resposta divina, porém, desmascara a motivação: “quando jejuastes... acaso foi para mim, para mim mesmo, que jejuastes?” (כִּי־צַמְתֶּם ... הֲצוֹם צַמְתֻּנִי אָֽנִי, kî-ṣamtem ... haṣṣôm ṣamtunî ʾānî, “quando jejuastes... foi para mim que jejuastes?”). O versículo seguinte radicaliza a crítica: assim como o comer e o beber acabam sendo “para vós mesmos”, também o jejum pode tornar-se autorreferente. Por isso, Zacarias desloca a discussão do calendário para a obediência antiga já conhecida: juízo verdadeiro, misericórdia, compaixão e proteção do vulnerável (Zc 7.3-7, 9-10). A crítica profética, assim, não é antiritual; ela é anti-hipocrisia. O jejum continua possível, mas só tem valor quando deixa de ser prática voltada para si e se integra à verdade, à justiça e à misericórdia exigidas pela aliança.
Jejuns memoriais na restauração pós-exílica judaica
No período pós-exílico, o jejum deixa de aparecer apenas como resposta imediata a crise, culpa ou luto e passa também a funcionar como memória litúrgica estabilizada. Esse desenvolvimento já se percebe em Esdras 8.21-23, onde Esdras proclama jejum junto ao rio Aava “para nos humilharmos diante do nosso Deus” e pedir dele caminho reto, e em Neemias 9.1, onde os filhos de Israel se reúnem “em jejum, com pano de saco e terra sobre si”. Esses textos mostram que, no pós-exílio, o jejum comunitário permanece ligado à humilhação, à oração e à confissão; ao mesmo tempo, Zacarias evidencia uma etapa adicional, na qual certos jejuns já haviam adquirido forma recorrente e calendário próprio. O próprio Anchor Bible Dictionary observa, nesse ponto, que o número de jejuns públicos anuais aumentou no período pós-exílico, mencionando precisamente Esdras 8.21-23 e Neemias 9.1 como sinais desse alargamento do uso comunitário do jejum.
A formulação mais explícita aparece em Zacarias 8.19, onde se lê quatro vezes צוֹם (ṣôm, “jejum”): “o jejum do quarto, o jejum do quinto, o jejum do sétimo e o jejum do décimo”. A importância do versículo está em dois níveis. Primeiro, ele pressupõe que esses quatro jejuns já eram conhecidos pela comunidade judaica restaurada. Segundo, ele os reinscreve numa nova economia teológica: aquilo que havia sido sinal de calamidade deverá tornar-se “alegria, júbilo e festas felizes” para a casa de Judá, desde que o povo ame “a verdade e a paz”. Em Zacarias 7.3-7, a crítica já havia preparado esse deslocamento, quando o Senhor pergunta se, durante setenta anos, o povo realmente jejuou “para mim”, e se o comer e o beber não eram também “para vós mesmos”. A tensão, portanto, não é entre jejuar e não jejuar, mas entre memória ritual autorreferente e memória purificada pela restauração divina. O Anchor sintetiza esse movimento ao afirmar que Zacarias exorta à continuidade desses jejuns, mas sob o entendimento de que eles agora devem ser recebidos como “estações de alegria e júbilo”, porque o templo foi reconstruído.
A identificação histórica desses quatro jejuns não é explicitada no próprio Zacarias, mas a tradição judaica posterior os correlacionou com eventos centrais da catástrofe babilônica. Essa associação, além de coerente com o material histórico, é hoje também refletida na literatura de referência da Deutsche Bibelgesellschaft, segundo a qual os quatro jejuns de Zacarias remontam seguramente a costumes da época do exílio, embora só em tradição judaica posterior tenham sido ligados de forma concreta a acontecimentos exílicos específicos. Nessa reconstrução tradicional, o jejum do décimo mês remete ao início do cerco de Jerusalém, quando Nabucodonosor veio contra a cidade no décimo mês (2Rs 25.1; Jr 52.4); o jejum do quarto mês foi ligado à ruptura das muralhas e ao agravamento extremo da fome na cidade (2Rs 25.3-4; Jr 52.6-7; cf. Jr 39.2); o jejum do quinto mês passou a recordar o incêndio do templo e da cidade (2Rs 25.8-9; Jr 52.12-13); e o jejum do sétimo mês foi associado à morte de Gedalias e à consequente desolação da terra com a fuga do remanescente ao Egito (2Rs 25.22-26). O vínculo entre os jejuns e esses eventos, portanto, é historicamente plausível, mas deve ser formulado com cuidado: Zacarias menciona os jejuns; a correlação detalhada com os episódios do exílio pertence ao desenvolvimento posterior da tradição judaica.
Essa transformação do luto em memória ritual ajuda também a situar o jejum de Ester. Em Ester 4.16, Ester ordena que todos os judeus de Susã se reúnam e jejuem por ela, sem comer nem beber por três dias, noite e dia; mais tarde, Ester 9.31 mostrará que o ciclo de Purim preservou elementos de jejum e clamor ligados àquela crise. A Bíblia registra que, além dos quatro jejuns de Zacarias, o jejum de Purim foi posteriormente acrescentado a esse horizonte memorial. A diferença, porém, permanece importante: em Ester 4 o jejum ainda é resposta imediata a um perigo de extermínio; já em Zacarias 7–8, o problema é como a memória de antigas ruínas deve continuar sendo observada depois que Deus iniciou a restauração. A resposta profética não elimina o passado traumático, mas o reinterpreta: a comunidade não deve absolutizar a dor de sua história, e sim submeter até mesmo seu calendário de luto à fidelidade renovadora do Senhor.
Jejum, revelação e recepção da palavra
Um eixo menos evidente, mas exegeticamente importante, é aquele em que o jejum se aproxima da recepção de revelação. O caso paradigmático é o de Moisés. Em Êxodo 34.28, o texto afirma que ele permaneceu com o Senhor “quarenta dias e quarenta noites”, sem comer pão nem beber água, no contexto da renovação da aliança e da entrega das palavras do pacto; Deuteronômio 9.9-10 retoma o mesmo quadro ao relacionar essa permanência no monte com o recebimento das tábuas escritas pelo dedo de Deus. O ponto central não é a ascese por si mesma, mas a concentração absoluta do mediador no espaço da revelação. A tradição rabínica chegou a interpretar essa permanência de Moisés em chave mais diretamente revelacional, como preparação para a recepção do mistério divino (b. Yoma 4b). Ainda assim, o dado bíblico imediato não deve ser exagerado: o texto enfatiza, antes de tudo, a excepcionalidade da presença de Moisés diante de Deus e a origem divina da aliança, não uma técnica mística desenvolvida de indução visionária. Essa cautela é necessária para que a leitura permaneça ancorada no próprio texto.
A narrativa de Elias confirma que a relação entre abstinência e revelação pode assumir forma distinta. Em 1 Reis 19, o profeta, exausto e desejoso de morrer, recebe alimento miraculoso do mensageiro do Senhor e caminha “na força daquela comida” quarenta dias e quarenta noites até Horebe, onde lhe vem a palavra divina e a teofania do “som de um silêncio delicado”. Exatamente por isso, esse episódio não deve ser descrito como jejum deliberado em sentido estrito. A estrutura narrativa sugere antes um percurso sustentado por provisão sobrenatural até o local da manifestação. O paralelo com Moisés é inegável na duração dos quarenta dias e na chegada ao monte de Deus, mas a ênfase literária recai menos sobre abstinência voluntária e mais sobre sustento extraordinário que conduz ao encontro revelacional. Nessa linha, a permanência de Moisés pode ser lida como caso limite de jejum em ambiente de revelação, ao passo que Elias mostra que a tradição bíblica também conhece o motivo complementar do alimento divinamente concedido para preparar a escuta da palavra.
O relato de Ana merece formulação mais prudente. Em 1 Samuel 1.7, o texto não usa o vocabulário técnico do jejum; ele diz apenas que, provocada por Penina, ela chorava e “não comia”. Mais adiante, em 1 Samuel 1.14-15, Eli a toma por embriagada por causa de sua oração silenciosa e intensa, mas ela responde que não bebeu vinho nem bebida forte e que estava derramando a alma diante do Senhor. Exegeticamente, não se pode afirmar com segurança que aqui haja um jejum formal; o que se pode dizer é que o relato conserva uma associação notável entre abstenção de alimento, perturbação profunda do espírito e oração de intensidade incomum. Por isso, é plausível falar em vestígio narrativo de uma prática de auto-restrição ligada à súplica extrema, mas não em exemplo inequívoco de jejum revelacional. A sobriedade interpretativa é importante porque o próprio texto se concentra mais na dor da esterilidade e na oração “de coração” do que em qualquer ritual explicitamente nomeado.
É no livro de Daniel que a aproximação entre jejum e recepção de revelação se torna realmente explícita. Em Daniel 9.3, o profeta declara que voltou o rosto ao Senhor Deus para buscar resposta “com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza”. Aqui o jejum é parte de um complexo penitencial e suplicante, e a revelação que se segue nasce precisamente nesse ambiente de oração insistente e humilhação. Já em Daniel 10.2-3, a situação é mais matizada: Daniel afirma que esteve de luto por três semanas e que não comeu לֶחֶם חֲמֻדוֹת (leḥem ḥămudôt, “pão de delícias” / “alimento agradável”), nem carne nem vinho entraram em sua boca, nem se ungiu. Nesse ponto, a comparação de versões é realmente útil, porque a expressão hebraica não indica necessariamente abstinência total. KJV/ASV conservam “pleasant bread”, enquanto ESV/NIV/NASB preferem “choice food” ou “delicacies”. A diferença mostra que Daniel 10 descreve melhor uma restrição intensificada, não um jejum absoluto. Ainda assim, o dado teológico permanece claro: a autoprivação prepara o profeta para a visão e para a compreensão do conflito revelado no capítulo. O jejum, aqui, não é apenas penitência; é também disposição deliberada para receber entendimento.
Esse desenvolvimento torna-se ainda mais nítido na literatura apocalíptica judaica e judaico-cristã posterior. O motivo de jejuar para tornar-se mais receptivo à revelação reaparece repetidamente em 2 Esdr 5.13, onde o vidente é instruído a orar, chorar e jejuar sete dias para ouvir coisas ainda maiores; o mesmo horizonte é representado nos testemunhos preservados em 2 Bar. 5:7f. e Ascen. Is. 2:7–, nos quais a abstinência se associa ao ambiente de manifestação e visão. A partir desse conjunto, torna-se metodologicamente inadequado reduzir todo jejum bíblico a penitência por pecado. Em certas passagens, sobretudo quando a narrativa se move em direção à visão, ao oráculo ou ao entendimento profético, o jejum funciona também como gesto de disponibilidade radical para a palavra que vem de Deus.
Ascetismo judaico no período dos Testamentos
Depois da base veterotestamentária, a literatura judaica do período entre os Testamentos torna mais visível uma intensificação do ideal ascético, não apenas em círculos sectários, mas também na piedade mais ampla. Em Tobias 12.8, certas tradições textuais preservam de modo explícito a tríade oração, jejum e esmola, enquanto outras destacam oração e esmola sem nomear o jejum; em ambos os casos, porém, a passagem situa a autoprivação no interior de uma ética de justiça e misericórdia, e não como técnica autônoma de mérito. Judite 4.9 descreve o povo em “jejum rigoroso” diante da ameaça militar, ao passo que Judite 8.11-17 insiste que a confiança em Deus não deve converter-se em tentativa de impor-lhe prazos ou condições. Nesse mesmo horizonte, a tradição sapiencial de Ben Sira é usualmente aproximada da crítica ao ritualismo por meio da referência transmitida como Sirácida 36.26, e o Testament of Joseph formula de modo particularmente expressivo a valoração positiva da disciplina ascética: “os que jejuam por causa de Deus recebem beleza de rosto” (T. Jos. 3:4), aproximação que a tradição exegética costuma pôr em diálogo com a aparência saudável de Daniel 1.15 e com a advertência de Jesus contra a ostentação do rosto abatido em Mateus 6.16-18.
O ascetismo sectário fornece um segundo traço decisivo desse período. Josefo descreve os essênios como grupo de disciplina severa, marcado por continência, desprezo do luxo e domínio das paixões (JW 2.8.5), de modo que o jejum se encaixa naturalmente nesse ethos de rigor. Já os manuscritos de Qumran não oferecem um corpo tão explícito de regras comunitárias sobre jejuns discricionários quanto se poderia esperar, mas a centralidade da auto-humilhação cultual e da disciplina comunitária torna plausível que tais práticas fossem assumidas no ambiente do grupo. Em outro extremo do judaísmo helenístico, Fílon apresenta os terapeutas do Egito como comunidade dada à contemplação, cuja relação com a comida é deliberadamente restritiva: durante o dia dedicam-se à sabedoria e só tomam alimento ao cair do sol, havendo casos de extensão do jejum por períodos ainda mais longos (Vita Cont. 34). Nessa configuração, o jejum já não aparece apenas como resposta ocasional à culpa ou ao perigo, mas como expressão regular de uma forma de vida que procura ordenar corpo, tempo e desejo à busca de Deus.
A piedade farisaica, por sua vez, é representada no Novo Testamento por um padrão de regularidade ascética. Em Lucas 18.12, o fariseu da parábola declara: νηστεύω δὶς τοῦ σαββάτου (nēsteuō dis tou sabbatou, “jejuo duas vezes por semana”), colocando o jejum ao lado do dízimo como marca de sua identidade religiosa. Esse dado, entretanto, exige formulação cuidadosa. A apresentação lucana mostra que o jejum frequente podia funcionar como sinal reconhecível de devoção; contudo, a sua reconstrução como disciplina farisaica regular do período anterior a 70 d.C. não deve ser afirmada sem reservas. A tradição rabínica preserva jejuns às segundas e quintas em contextos especiais, sobretudo ligados à seca e à súplica pública (b. Taʿan. 12a), e a Didache 8.1 pressupõe, já em contexto cristão, um contraste deliberado com um padrão judaico de jejum no segundo e no quinto dias da semana. Por isso, o retrato de Lucas é historicamente plausível como sinal de ascetismo respeitado, mas sua precisão sociológica quanto ao farisaísmo pré-70 precisa permanecer aberta à cautela. Também a advertência rabínica contra a multiplicação de jejuns de luto após a destruição do Templo, preservada sob a referência b. Taʿan. 57, confirma por outro caminho que a reação ascética a grandes desastres podia tornar-se intensa e disseminada.
Ao lado dos grupos e das práticas coletivas, o período também conhece figuras individuais cuja reputação se constrói em torno da austeridade. A tradição rabínica situa Hanina ben Dosa nesse campo de piedade carismática, estreitamente ligada a oração eficaz, autoprivação e subsistência mínima (b. Taʿan. 24b). Já João Batista é descrito por Jesus como alguém que veio “nem comendo nem bebendo” — μήτε ἐσθίων μήτε πίνων (mēte esthiōn mēte pinōn, “nem comendo nem bebendo”) —, fórmula que não precisa ser reduzida a simples nota dietética, pois projeta uma figura de sobriedade extrema e de radical simplicidade vinculada ao deserto (Mt 11.18). O contraste imediato com o Filho do Homem, que vem “comendo e bebendo”, mostra que a tradição evangélica via em João um tipo reconhecível de santidade austera. Nessa perspectiva, o ascetismo judaico do período não se limitava a normas coletivas: ele podia também produzir personagens cuja autoridade espiritual era lida precisamente a partir da disciplina do corpo e da renúncia visível.
O quadro geral, portanto, é de ampla aceitação do jejum voluntário como sinal de devoção no judaísmo desse período. Textos sapienciais e narrativos o associam à oração, à esmola, à integridade moral e à confiança em Deus; grupos sectários o absorvem em programas mais severos de disciplina; figuras carismáticas o convertem em marca pessoal de santidade; e a memória literária do mundo romano chega a pressupor o costume judaico como traço suficientemente conhecido para tornar-se proverbial. É nesse sentido que Suetônio põe na boca de Augusto a observação de que “nem mesmo um judeu” jejua com tanto escrúpulo em seu sábado quanto ele naquele dia (Aug. 76). Mesmo que a observação romana revele incompreensão parcial do costume judaico, ela mostra que a associação entre judaísmo e jejum já circulava de forma reconhecível fora do próprio mundo judaico. O ascetismo, assim, não aparece nessa época como elemento marginal, mas como um dos idiomas mais visíveis da devoção judaica, ainda que submetido, em diferentes correntes, a críticas contra o ritualismo vazio e a tentativas de reinscrevê-lo numa vida de justiça, esmola, oração e fidelidade.
Ascetismo judaico no período intertestamentário
No período intertestamentário, o jejum deixa de aparecer apenas como resposta extraordinária a culpa, guerra ou luto e passa a integrar, de forma mais visível, a própria fisionomia da piedade judaica. Essa intensificação não se limita a grupos sectários, mas alcança também a devoção mais ampla. Em Tobias 12.8, a tradição sapiencial aproxima jejum, oração e esmola como práticas convergentes de justiça religiosa; em Judite 4.9, o povo recorre ao jejum em contexto de crise, enquanto Judite 8.16 adverte que tal prática não deve ser usada para constranger a vontade divina. A mesma tensão reaparece em Ben Sira, cuja tradição crítica ao ritualismo vazio é usualmente evocada aqui a propósito de Sirácida 36.26. Já o Testamento de José formula positivamente o valor ascético do jejum ao dizer que os que jejuam por causa de Deus recebem “beleza de rosto” (T. Jos. 3:4), perspectiva que se aproxima, por afinidade temática, da aparência saudável de Daniel 1.15 e, em outro registro, do contraste de Mateus 6.16-18 entre a ostentação do rosto abatido e a piedade secreta.
Esse alargamento da disciplina ascética se torna ainda mais nítido nos grupos judaicos do período. Josefo, ao descrever os essênios, associa sua forma de vida a rigor, continência e severa ordenação dos impulsos, quadro no qual o jejum se ajusta naturalmente como prática de autodomínio e piedade sectária (Jewish War 2.8.5). Em ambiente distinto, Fílon apresenta os terapeutas do Egito como comunidade contemplativa de disciplina alimentar rigorosa, marcada por longos intervalos de abstinência e por alimentação tardia, ordenada ao serviço da sabedoria e da devoção (Vita Cont. 34). Já os manuscritos do Mar Morto não oferecem um corpo explícito de regras comunitárias sobre jejuns voluntários comparável ao que poderia ser esperado, à exceção do horizonte do Dia da Expiação; isso sugere cautela metodológica, pois não se deve atribuir ao material de Qumran um código de jejuns discricionários mais detalhado do que o efetivamente atestado.
A piedade farisaica é retratada no Novo Testamento por meio da declaração do fariseu em Lucas 18.12: νηστεύω δὶς τοῦ σαββάτου (nēsteuō dis tou sabbatou, “jejuo duas vezes por semana”). O versículo mostra que o jejum regular podia funcionar como sinal reconhecível de devoção. Ainda assim, sua reconstrução histórica exige precisão. A tradição rabínica menciona jejuns na segunda e na quinta-feira em contextos especiais de seca e súplica pública (b. Taʿan. 12a), e a Didache 8.1 pressupõe, já em meio cristão, um padrão judaico de jejum nesses dias, ao instruir os cristãos a jejuar em dias diferentes. Por outro lado, as advertências rabínicas contra a proliferação de jejuns de luto após a destruição do Templo mostram que a reação ascética a desastres nacionais podia tornar-se intensa e até excessiva (b. Taʿan. 57). O quadro mais equilibrado, portanto, é este: Lucas 18.12 testemunha um ideal reconhecível de jejum frequente; b. Taʿan. 12a e Did. 8.1 mostram que a associação de certos dias da semana ao jejum circulava em tradições judaicas e judaico-cristãs; e b. Taʿan. 57 confirma que a sensibilidade ascética podia se ampliar em momentos de trauma histórico.
Ao lado de correntes coletivas, o período conhece também figuras individuais cuja reputação religiosa se ligava à austeridade. Entre elas está Haninah ben Dosa, cuja memória rabínica o apresenta como homem de oração eficaz e vida austera, inserindo-o no perfil de asceta carismático (b. Taʿan. 24b). Em outro registro, João Batista aparece nos Evangelhos como figura de sobriedade extrema. Jesus o descreve dizendo que ele veio “nem comendo nem bebendo”, fórmula que, em Mateus 11.18, não deve ser reduzida a mera nota dietética, pois sinaliza um estilo de vida austero e profético, coerente com sua identidade de pregador no deserto. A justaposição imediata entre João e o Filho do Homem, que vem “comendo e bebendo”, mostra que a tradição evangélica percebia com clareza a diferença entre uma santidade marcada pela abstenção e outra marcada pela liberdade de mesa.
O resultado geral é que o jejum voluntário se torna, nesse período, marca amplamente estimada de devoção judaica. Ele pode servir à oração, à esmola, à penitência, ao luto, à expectativa escatológica e ao autodomínio; pode caracterizar tanto grupos organizados quanto indivíduos de forte autoridade religiosa. Essa visibilidade era suficientemente conhecida fora do judaísmo para tornar-se quase proverbial no mundo romano. Suetônio, ao descrever Augusto, põe em circulação a observação de que nem mesmo um judeu guardaria o jejum sabático com tanto escrúpulo quanto ele naquele dia (Aug. 76). Ainda que a formulação romana revele compreensão parcial ou estereotipada dos costumes judaicos, ela testemunha um dado importante: no imaginário do século I, o vínculo entre judaísmo e jejum já era publicamente reconhecível.
Jejum e disciplina no cristianismo primitivo
No cristianismo primitivo, o jejum não desaparece com a ressignificação cristológica do tema, mas continua a existir em estreita continuidade com o ambiente judaico do século I. Sua presença no Novo Testamento, porém, não aparece ainda sob a forma de uma disciplina universal rigidamente codificada; antes, emerge como prática associada a oração intensa, discernimento comunitário, consagração ministerial e, em alguns contextos, à própria condição de sofrimento apostólico. Esse quadro já se vê em Antioquia, onde profetas e mestres servem ao Senhor “e jejuam” (λειτουργούντων δὲ αὐτῶν τῷ κυρίῳ καὶ νηστευόντων, leitourgountōn de autōn tō kyriō kai nēsteuontōn, “ministrando ao Senhor e jejuando”), e precisamente nesse contexto o Espírito Santo ordena a separação de Barnabé e Saulo; em seguida, a comunidade jejua de novo, ora, impõe as mãos e os envia (At 13.2-3). O mesmo padrão reaparece quando Paulo e Barnabé estabelecem presbíteros nas igrejas: a nomeação é acompanhada de oração “com jejuns” ou “tendo jejuado” (At 14.23). O dado exegético é claro: o jejum não é tratado como meio automático de poder espiritual, mas como prática que acompanha momentos de solenidade e discernimento eclesial.
A tradição lucana oferece ainda uma figura paradigmática de piedade contínua na pessoa de Ana. Ela é descrita como viúva que “não se afastava do templo, servindo com jejuns e súplicas noite e dia” (νηστείαις καὶ δεήσεσιν λατρεύουσα νύκτα καὶ ἡμέραν, nēsteiais kai deēsesin latreuousa nykta kai hēmeran, “servindo com jejuns e súplicas noite e dia”) (Lc 2.37). Essa apresentação não apenas valoriza o jejum como expressão de devoção perseverante, mas também ajuda a explicar por que a piedade de viúvas dedicadas à oração continuou a ser idealizada em meios cristãos posteriores, em conexão com o tipo de vida mencionado em Atos 6.1 e 1 Timóteo 5.5. Em chave semelhante, Cornélio é retratado em Atos 10 como homem de oração e esmola, e precisamente nesse ponto a tradição manuscrita posterior sentiu a força da tríade clássica da piedade, acrescentando também o jejum em alguns testemunhos textuais (P50, A2, D). O mesmo impulso expansivo aparece em 1 Coríntios 7.5, onde certos manuscritos — entre eles Codex Sinaiticus, K e L — acrescentam “jejum” à abstinência temporária para dedicação à oração. O próprio texto crítico de 1 Coríntios 7, porém, não traz νηστεία, e essa ausência é exegética e textualmente relevante: no estágio mais antigo do texto paulino preservado no NA28, a ênfase recai sobre a oração, não sobre uma exigência explícita de jejum.
Nas cartas paulinas, o jejum aparece ainda num segundo registro, menos litúrgico e mais existencial. Em 2 Coríntios 6.4-5, Paulo enumera “aflições, necessidades, angústias... vigílias, jejuns” (νηστείαις, nēsteiais, “jejuns”), mas o contexto não torna absolutamente inequívoco se se trata de abstinência deliberada ou, pelo menos em parte, de privação decorrente das circunstâncias. Já em 2 Coríntios 11.27-28, a distinção se torna mais clara, porque Paulo já mencionou antes “fome e sede” e depois acrescenta “muitas vezes em jejuns” (ἐν νηστείαις πολλάκις, en nēsteiais pollakis, “muitas vezes em jejuns”), o que favorece a leitura de prática voluntária, e não mera carência involuntária. Nesse ponto, o jejum aparece como linguagem de autodomínio e serviço apostólico. Também é digno de nota que, quando Paulo enfrenta disputas alimentares em comunidades culturalmente mistas, como em 1 Coríntios 8 e Romanos 14, ele se mostra disposto a aceitar soluções de autolimitação por amor ao outro; isso não equivale a instituir jejuns obrigatórios, mas revela que a renúncia alimentar continuava sendo vista como meio legítimo de ordenar a vida cristã em favor da comunhão.
Essa aceitação, contudo, não é irrestrita. Colossenses 2 mostra que formas exageradas de ascese já produziam dificuldades na igreja. O texto fala de ταπεινοφροσύνη (tapeinophrosynē, “humildade” ou “auto-humilhação”) em associação com culto dos anjos, visões e severidade para com o corpo, e volta a mencionar práticas de rigor ascético em 2.23. Aqui a questão não é a rejeição de toda disciplina corporal, mas a crítica a um ascetismo submetido a regulamentos exteriores e incapaz de vencer verdadeiramente as paixões. A observação paralela de 1 Timóteo 4.8, segundo a qual o exercício corporal tem alguma utilidade, mostra que o cristianismo nascente não demonizou a disciplina do corpo; o que rejeitou foi sua absolutização ou seu descolamento da centralidade de Cristo. O jejum, assim, podia ser aceito, mas não como princípio autônomo de perfeição religiosa.
A configuração histórica mais ampla confirma esse quadro. O Novo Testamento não oferece sinal claro de jejum batismal obrigatório, embora essa prática apareça mais tarde em tradições como Didache 7.4 e Justin, Apologia 61.2. Também não se encontra ainda no corpus neotestamentário um jejum cristão fixo duas vezes por semana, disciplina que surge de modo explícito apenas em Didache 8.1, em contraste deliberado com o costume judaico. O desenvolvimento de um jejum público estatutário na Sexta-Feira Santa pertence já ao século II, em ligação com a controvérsia quartodecimana (Eus., Hist. Eccl. 5.23–25); a posterior independência do cálculo cristão da Páscoa em relação ao calendário judaico favoreceu, então, a consolidação de um jejum anual preparatório, do qual a Quaresma se desenvolveria mais tarde. O quadro do período apostólico, porém, permanece mais fluido: o cristianismo primitivo não aboliu o jejum herdado do judaísmo, mas também ainda não o havia transformado em sistema universalmente padronizado. Sua prática aparece, antes, como matéria de consciência, de piedade e de discernimento comunitário, subordinada à oração, à missão e à fidelidade a Cristo.
O jejum de Jesus e a prova messiânica no deserto
A passagem ao Novo Testamento exige começar pelo deserto, porque é ali que o jejum de Jesus recebe sua moldura propriamente cristológica. Em Mateus 4.1-2, Jesus é conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo, e o narrador formula a experiência com vocabulário explícito de jejum: καὶ νηστεύσας ἡμέρας τεσσεράκοντα καὶ νύκτας τεσσεράκοντα, ὕστερον ἐπείνασεν (kai nēsteusas hēmeras tesserakonta kai nyktas tesserakonta, hysteron epeinasen, “e, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome”). A redação é importante porque distingue nitidamente o ato de jejuar do momento subsequente da fome: primeiro vem a abstinência deliberada; depois, a necessidade física se manifesta. O jejum, portanto, não é apresentado como acidente de percurso, mas como parte constitutiva da cena inaugural em que a identidade filial de Jesus será provada.
A formulação mateana aproxima deliberadamente Jesus de Moisés. Em Êxodo 34.28, o mediador permanece com o Senhor “quarenta dias e quarenta noites”, e o texto acrescenta: לֶחֶם לֹא אָכַל וּמַיִם לֹא שָׁתָה (leḥem lōʾ ʾākal ûmayim lōʾ šātāh, “não comeu pão e não bebeu água”), precisamente no contexto da renovação da aliança e da escrita das palavras do pacto. O paralelo não depende apenas do número quarenta, mas do conjunto da cena: revelação, prova, aliança e palavra divina. Em Mateus 4.4, a primeira resposta de Jesus cita Deuteronômio 8.3 — “não só de pão viverá o homem” —, de modo que a tipologia mosaica e a memória do deserto de Israel se cruzam no mesmo ponto. O resultado exegético é claro: o jejum de Jesus não é descrito como exercício ascético isolado, mas como momento em que ele assume e recapitula, em sua própria pessoa, a história do povo e do mediador da aliança.
Lucas 4.1-2 conserva o mesmo cenário básico, mas altera a forma de descrevê-lo. Em vez de usar νηστεύω (nēsteuō, “jejuar”), o texto diz: Καὶ οὐκ ἔφαγεν οὐδὲν ἐν ταῖς ἡμέραις ἐκείναις καὶ συντελεσθεισῶν αὐτῶν ἐπείνασεν (Kai ouk ephagen ouden en tais hēmerais ekeinais kai synteleistheisōn autōn epeinasen, “e não comeu nada naqueles dias e, terminados eles, teve fome”). A diferença é exegética, ainda que não destrua a convergência fundamental com Mateus. Mateus nomeia diretamente o jejum; Lucas descreve a abstinência total sem empregar o verbo técnico. Por isso, a redação lucana é mais narrativa e menos terminológica. Ainda assim, o sentido global permanece o mesmo: antes de iniciar publicamente sua missão, Jesus atravessa um período de privação extrema no deserto, sob a condução do Espírito e sob a pressão da tentação. O detalhe lucano reforça também a humanidade concreta da cena, porque o texto deixa ver o corpo que finalmente sente fome ao término do período.
Marcos 1.12-13, por sua vez, preserva a forma mais breve e mais sóbria da tradição. O Espírito impele Jesus ao deserto; ele permanece ali quarenta dias, é tentado por Satanás, está com as feras, e os anjos o servem: καὶ οἱ ἄγγελοι διηκόνουν αὐτῷ (kai hoi angeloi diēkonoun autō, “e os anjos o serviam”). O dado decisivo é que Marcos não menciona jejum nem descreve diretamente abstinência alimentar. Essa diferença não deve ser ignorada. No nível literário, Marcos concentra a cena na pressão escatológica do deserto, na tentação e na assistência celestial. Exatamente por isso, a nota sobre o serviço dos anjos admite uma leitura significativa: ela não obriga a concluir que Jesus recebeu alimento, mas torna plausível a percepção de que Marcos não constrói a cena em torno do jejum como fazem Mateus e, de modo indireto, Lucas. Sua ênfase recai no confronto e na proteção divina, não na explicitação do rito ascético.
A aproximação com Elias acrescenta um segundo nível tipológico, embora deva ser formulada com precisão. Em 1 Reis 19.8, Elias come, bebe e segue “na força daquela comida” quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus: וַיֵּלֶךְ בְּכֹחַ הָאֲכִילָה הַהִיא אַרְבָּעִים יוֹם וְאַרְבָּעִים לָיְלָה (wayyēlek bĕkōaḥ hāʾăḵîlāh hahîʾ ʾarbāʿîm yôm weʾarbāʿîm lāylāh, “e caminhou na força daquela comida quarenta dias e quarenta noites”). Ao contrário de Moisés, Elias não é descrito aqui como alguém que jejua deliberadamente; ele é sustentado por alimento recebido do mensageiro do Senhor para alcançar o lugar da manifestação divina. Ainda assim, o paralelo de duração e de teofania é forte demais para ser ignorado. Quando a tradição evangélica associa Jesus ao deserto por quarenta dias, ela o coloca no horizonte dos grandes mediadores proféticos e pactuais de Israel. A diferença, porém, é igualmente teológica: Jesus não vai apenas ao encontro de uma nova palavra; ele próprio atravessa a prova como Filho obediente, em quem a vocação de Israel, de Moisés e de Elias alcança sua concentração messiânica.
Por isso, o ganho exegético principal dessa cena não está em discutir o jejum como disciplina devocional genérica, mas em perceber sua função na revelação da identidade de Jesus. O deserto é o lugar em que o Filho recusa transformar pedra em pão para satisfazer a si mesmo, recusa testar Deus e recusa receber reinos sem cruz. O jejum, nesse contexto, não é fim em si mesmo; ele dramatiza a obediência do Messias. Mateus o formula de modo mais explícito e o aproxima diretamente de Moisés; Lucas mantém a privação, mas em redação menos técnica; Marcos conserva a estrutura mais concisa e desloca a ênfase para a tentação e o serviço angélico. Lidos em conjunto, os três relatos mostram que a prova do deserto não serve para exibir capacidade ascética, mas para manifestar que a missão de Jesus será conduzida pela palavra de Deus e não pela autossatisfação, pelo espetáculo ou pelo poder ilegítimo (Mt 4.1-11; Lc 4.1-13; Mc 1.12-13).
O jejum secreto diante do Pai
No Sermão da Montanha, o ensino sobre o jejum aparece integrado a uma tríade cuidadosamente ordenada: esmola, oração e jejum. A sequência é visível no paralelismo de Mateus 6.2-4, 6.5-6 e 6.16-18, sempre com a mesma oposição básica entre prática religiosa exibida “diante dos homens” e devoção realizada “em secreto” perante o Pai. Nessa moldura, o enunciado Ὅταν δὲ νηστεύητε (Hotan de nēsteuēte, “quando jejuardes”) é significativo porque pressupõe a continuidade da prática do jejum, mas desloca seu valor do olhar social para o olhar divino. A repetição da fórmula “teu Pai, que vê em secreto” mostra que a questão principal não é a licitude do jejum, mas a redefinição de seu destinatário e de sua recompensa (Mt 6.16-18).
A redação de Mateus 6.16-18 é precisa. Jesus proíbe que os discípulos se tornem σκυθρωποί (skythrōpoi, “sombrio[s]”, “de semblante abatido”) como os hipócritas, “pois desfiguram o rosto” ou “alteram a aparência” — ἀφανίζουσιν τὰ πρόσωπα αὐτῶν (aphanizousin ta prosōpa autōn) — para parecer aos homens que estão jejuando. Aqui a comparação de versões é realmente útil, porque o verbo ἀφανίζω não é transparente em português. KJV/ESV/NASB vertem com a ideia de “desfigurar o rosto”, ao passo que outras traduções preferem a noção de “descuidar da aparência” ou “mostrar um semblante abatido”. O núcleo semântico, contudo, é o mesmo: o jejum pode ser transformado em performance visível, isto é, numa encenação de piedade destinada a gerar reconhecimento humano. Por isso, quando Jesus declara que tais pessoas “já receberam a sua recompensa”, ele desloca a crítica do rito em si para sua economia de prestígio: o ganho já foi obtido, mas ele é apenas humano, não teológico (Mt 6.16).
Em contraste, o discípulo deve ungir a cabeça e lavar o rosto. A ordem σὺ δὲ νηστεύων ἄλειψαί σου τὴν κεφαλὴν καὶ τὸ πρόσωπόν σου νίψαι (sy de nēsteuōn aleipsai sou tēn kephalēn kai to prosōpon sou nipsai, “tu, porém, ao jejuar, unge a tua cabeça e lava o teu rosto”) não institui um ritual novo, mas manda conservar a aparência ordinária da vida diária. Em vez de converter o corpo em anúncio público do sacrifício religioso, o texto manda neutralizar os sinais externos que fariam do jejum um espetáculo. O objetivo é formulado com clareza: “para que não pareças aos homens que jejuas, mas ao teu Pai, que está em secreto” (Mt 6.17-18). A piedade legítima, assim, não é invisível porque seja irreal, mas porque recusa transformar a relação com Deus em capital simbólico diante do próximo.
Esse bloco adquire maior relevo quando lido na arquitetura literária de Mateus 6. A unidade 6.2-18 apresenta três exemplos paralelos de justiça religiosa; no centro dela, porém, a instrução breve sobre oração em 6.5-6 é expandida pela inclusão do Pai-Nosso e de sua aplicação sobre o perdão em 6.9-15. A observação é importante porque mostra que a seção do jejum participa de uma tradição catequética de forte simetria formal, ainda que o arranjo final do evangelho tenha ampliado o bloco da oração. Essa organização também ajuda a perceber a tensão interna entre Mateus 5.16 — “assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai” — e Mateus 6.1-18, onde atos de justiça realizados para serem vistos perdem seu valor diante de Deus. A diferença, porém, não é contraditória. Em Mateus 5.16, o alvo é a glória do Pai; em Mateus 6.1-18, o alvo censurado é a autopromoção religiosa. A publicidade não é rejeitada em si; o que é rejeitado é a instrumentalização da devoção para obtenção de honra humana (Mt 5.16; 6.1-18).
Nesse ponto, a aproximação com a sabedoria judaica é particularmente iluminadora. Sirácida 23.19 descreve o pecador como alguém cujo temor se limita aos olhos humanos e que não percebe que os olhos do Senhor são “dez mil vezes mais brilhantes que o sol” e penetram os lugares ocultos. A afinidade com Mateus 6 é evidente: o problema religioso fundamental não é o fato de alguém ser visto, mas por quem ele deseja ser visto. Em ambos os textos, a crítica incide sobre uma religiosidade regulada pelo olhar humano e não pela presença divina. O ensino de Jesus, porém, radicaliza essa linha sapiencial ao aplicá-la diretamente às práticas de justiça religiosa. Assim, o jejum só é legítimo quando deixa de ser encenado para os homens e passa a existir sob a inspeção do Pai, “que vê em secreto” (Mt 6.18; Sir 23.19).
A relação com Mateus 9.14-15 mostra ainda que o evangelho não trata todas as formas de jejum de maneira uniforme. Em Mateus 6.16-18, o jejum é pressuposto e regulado quanto à motivação. Em Mateus 9.15, porém, ele é ligado à ausência do noivo: enquanto o noivo está presente, os filhos da câmara nupcial não podem prantear; quando ele for tirado, “então jejuarão” — τότε νηστεύσουσιν (tote nēsteusousin, “então jejuarão”). O dado é relevante porque impede uma leitura simplista. Dentro do próprio primeiro evangelho, o jejum não é abolido, mas também não é absolutizado. Ele pode ser uma disciplina legítima de piedade secreta, e pode também adquirir coloração de luto na ausência do noivo. O que Mateus exclui não é o jejum como tal, e sim sua deformação em espetáculo religioso ou sua aplicação desajustada ao momento da presença messiânica (Mt 9.14-15).
O resultado teológico da perícope é claro. Jesus não apresenta o jejum como meio de conquista de prestígio, nem como obrigação cujo valor resida no sofrimento visível do praticante. Seu valor depende da interioridade diante de Deus. Por isso, o verdadeiro contraste em Mateus 6.16-18 não é entre jejuar e não jejuar, mas entre duas economias de recompensa: a do reconhecimento humano e a da comunhão com o Pai. O discípulo pode jejuar; o que não pode fazer é converter o jejum em máscara de santidade. Nessa forma, a prática é reinserida no coração da piedade do reino: escondida dos homens, transparente diante de Deus, e despojada de toda teatralidade religiosa (Mt 6.16-18).
O noivo, o jejum e a novidade escatológica
A perícope decisiva para a releitura cristológica do jejum é a controvérsia preservada em Marcos 2.18–22, com paralelos em Mateus 9.14–17 e Lucas 5.33–39. É a única cena neotestamentária em que a conveniência do jejum é colocada diretamente em questão. O ponto de partida é simples: os discípulos de João e os fariseus jejuam; os de Jesus, não. A formulação de Marcos é direta — “os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando” — e a pergunta recai sobre a diferença entre esses grupos e os discípulos de Jesus. A resposta de Jesus desloca imediatamente a discussão do terreno disciplinar para o terreno nupcial: enquanto o noivo está presente, os “filhos da câmara nupcial” — οἱ υἱοὶ τοῦ νυμφῶνος (hoi huioi tou nymphōnos, “os convidados do noivo / os filhos da câmara nupcial”) — não podem jejuar. O jejum, portanto, é reinterpretado a partir da presença do próprio Jesus.
Marcos e Lucas formulam a impossibilidade em termos de jejum: “não podem jejuar”; Mateus, porém, modifica o centro da frase e escreve μὴ δύνανται ... πενθεῖν (mē dynantai ... penthein, “não podem lamentar / prantear”). Essa troca é exegética e significativa. Em Mateus, o vínculo entre jejum e luto fica mais explícito do que em Marcos e Lucas, como se a questão principal fosse a inadequação do pranto ritual enquanto o noivo está com os seus. O evangelista, assim, não nega a prática do jejum em si, mas delimita com mais nitidez um tipo específico de jejum, o jejum de tristeza e ausência. Isso ajuda a explicar por que, no mesmo evangelho, o jejum pode ser pressuposto como prática legítima de devoção secreta em Mateus 6.16–18 e, ao mesmo tempo, ser declarado impróprio enquanto a presença do noivo define o tempo do ministério de Jesus. A tensão é apenas aparente: Mateus não contradiz a tradição; ele a interpreta de maneira mais precisa.
O versículo seguinte introduz a inflexão decisiva: “virão dias quando o noivo lhes será tirado, e então jejuarão”. Em Marcos, a redação é mais concentrada: καὶ τότε νηστεύσουσιν ἐν ἐκείνῃ τῇ ἡμέρᾳ (kai tote nēsteusousin en ekeinē tē hēmera, “e então jejuarão naquele dia”); em Lucas, a forma é plural: “naqueles dias”. A diferença não deve ser exagerada, mas merece nota. Marcos concentra o foco numa “hora” singularmente marcada pela retirada do noivo; Lucas difunde essa ausência em um período mais amplo. Em ambos os casos, porém, a lógica é idêntica: o jejum futuro não decorre de uma regra geral atemporal, mas da mudança de situação provocada pela retirada do noivo. Por isso, o dito não elimina o jejum; ele o reinscreve no tempo escatológico inaugurado por Jesus. Uma leitura possível — e que precisa ser assumida como inferência, não como certeza demonstrável — é que a imagem converse deliberadamente com Joel 2.15–16, onde a convocação do jejum solene e a menção ao noivo e à noiva aparecem no mesmo campo simbólico; se esse eco estiver presente, a palavra de Jesus opera uma inversão: o tempo do jejum coletivo não é abolido, mas redefinido pela presença e ausência do noivo messiânico.
As duas pequenas parábolas finais impedem que a discussão seja reduzida a uma mera regulamentação de calendário. O remendo de pano novo em veste velha e o vinho novo em odres velhos mostram que a questão não é apenas quando jejuar, mas em que estrutura simbólica o jejum pode continuar existindo. A novidade trazida por Jesus não cabe sem tensão nos recipientes religiosos anteriores. Em Marcos, o dito termina com a incompatibilidade entre o novo e o velho; em Lucas, há um acréscimo final, “o velho é bom”, que torna a cena ainda mais realista, porque reconhece a força da preferência humana pelo padrão antigo. Assim, a controvérsia não opõe simplesmente ascetismo e anti-ascetismo; ela opõe a tentativa de encaixar a novidade messiânica em formas inadequadas e a necessidade de uma reconfiguração mais profunda da prática religiosa. O jejum, nesse contexto, não desaparece, mas já não pode ser pensado fora da novidade escatológica trazida por Jesus.
A interpretação moderna dessa passagem seguiu dois caminhos principais. Uma leitura clássica da crítica das formas entendeu que a tradição originária refletia uma postura de Jesus contrária ao jejum, posteriormente ajustada pela igreja pós-pascal para harmonizá-la com sua própria prática; nessa direção se situam M. Dibelius (1971, 65) e R. Bultmann (1963, 19, 49). Discussões recentes ainda registram essa linha ao notar que alguns veem em Marcos 2.20 uma justificação retrospectiva de jejuns cristãos posteriores, como os pressupostos em Didache 8.1. Ainda assim, a leitura unitária se mostra mais convincente no próprio nível do texto: Jesus não rejeita o jejum de maneira absoluta, mas o declara inadequado ao tempo inaugural de sua presença. Quando o noivo é retirado, o jejum volta a ser apropriado, não como retorno automático ao padrão anterior, mas como prática reinterpretada pela ausência do Cristo e pela tensão escatológica que essa ausência inaugura. A perícope, portanto, desloca o jejum do eixo puramente ascético para o eixo cristológico e escatológico: o que decide sua conveniência já não é a tradição em si, mas a relação entre a comunidade e o noivo.
João Batista e os estilos religiosos
O contraste entre João Batista e Jesus esclarece que, no Novo Testamento, a discussão sobre o jejum não deve ser reduzida a uma oposição abstrata entre austeridade e liberdade, mas lida à luz de momentos distintos da história da salvação. Em Mateus 11.16-19, Jesus compara “esta geração” a crianças irresolutas que rejeitam tanto a música festiva quanto o cântico fúnebre; em seguida, aplica a imagem aos dois ministérios: João veio μήτε ἐσθίων μήτε πίνων (mēte esthiōn mēte pinōn, “nem comendo nem bebendo”), e o acusam de ter demônio; o Filho do Homem veio ἐσθίων καὶ πίνων (esthiōn kai pinōn, “comendo e bebendo”), e o acusam de glutão e beberrão. Lucas 7.33-34 reforça o contraste ao explicitar que João “não come pão nem bebe vinho”, enquanto Jesus é criticado por sua convivência de mesa. O ponto do dito não é apenas descrever hábitos alimentares diferentes, mas mostrar a cegueira de uma geração que recusa tanto a austeridade profética quanto a alegria messiânica.
No caso de João, a sobriedade radical corresponde ao seu lugar teológico. O mesmo capítulo de Mateus o situa como profeta escatológico, mais que profeta, e como a figura de Elias que havia de vir, isto é, como o último grande mensageiro do período preparatório. Sua forma de vida austera, lida em conjunto com a tradição do deserto e com a descrição de Mateus 11.18, se ajusta a uma missão de convocação ao arrependimento, simplicidade e dependência de Deus. Nessa moldura, o jejum não é acessório, mas plenamente coerente com um ministério que opera sob o sinal da penitência e da preparação. Por isso, o ascetismo de João não deve ser entendido como desvio pessoal excêntrico, mas como forma adequada à sua vocação profética.
Já o ministério de Jesus se move em outro registro simbólico. Quando os discípulos de João perguntam por que eles e os fariseus jejuam, mas os discípulos de Jesus não, a resposta em Mateus 9.14-15 não contrapõe simplesmente disciplina e indisciplina. Jesus declara que os convidados do noivo não podem prantear enquanto o noivo está com eles. A escolha do verbo πενθεῖν (penthein, “lamentar”, “prantear”) em Mateus mostra com especial clareza que o problema em vista é o jejum como sinal de luto e aflição. Enquanto a presença do noivo define o tempo presente, o modo adequado não é o da tristeza penitencial que marcava o ministério preparatório de João, mas o da alegria escatológica própria da irrupção do Reino. O jejum voltará a ter lugar quando o noivo for tirado; porém, nesse momento, ele já estará reinterpretado a partir da ausência de Cristo, e não simplesmente reproduzido como costume anterior.
As parábolas do remendo novo em veste velha e do vinho novo em odres velhos, que seguem imediatamente a resposta sobre o noivo, impedem que o contraste entre João e Jesus seja tratado como mera diferença de temperamento. Elas indicam que os dois estilos correspondem a estágios distintos da ação de Deus. O movimento de João trabalha no horizonte da reparação e da chamada à conversão; por isso, a austeridade lhe convém. A missão de Jesus, ao contrário, inaugura a novidade escatológica do Reino; por isso, exige estruturas simbólicas mais flexíveis, como “odres novos” para “vinho novo”. O contraste não desqualifica João, nem legitima um relaxamento religioso indiscriminado. Ele mostra que práticas semelhantes podem ser adequadas ou inadequadas conforme o momento redentivo em que se situam. Assim, a diferença entre João Batista e Jesus ajuda a perceber que, no Evangelho, o valor do jejum depende menos de sua dureza exterior do que de sua correspondência à obra de Deus em cada fase de sua revelação.
João Batista e os estilos religiosos
O contraste entre João Batista e Jesus esclarece que, no Novo Testamento, a discussão sobre o jejum não deve ser reduzida a uma oposição abstrata entre austeridade e liberdade, mas lida à luz de momentos distintos da história da salvação. Em Mateus 11.16-19, Jesus compara “esta geração” a crianças irresolutas que rejeitam tanto a música festiva quanto o cântico fúnebre; em seguida, aplica a imagem aos dois ministérios: João veio μήτε ἐσθίων μήτε πίνων (mēte esthiōn mēte pinōn, “nem comendo nem bebendo”), e o acusam de ter demônio; o Filho do Homem veio ἐσθίων καὶ πίνων (esthiōn kai pinōn, “comendo e bebendo”), e o acusam de glutão e beberrão. Lucas 7.33-34 reforça o contraste ao explicitar que João “não come pão nem bebe vinho”, enquanto Jesus é criticado por sua convivência de mesa. O ponto do dito não é apenas descrever hábitos alimentares diferentes, mas mostrar a cegueira de uma geração que recusa tanto a austeridade profética quanto a alegria messiânica.
No caso de João, a sobriedade radical corresponde ao seu lugar teológico. O mesmo capítulo de Mateus o situa como profeta escatológico, mais que profeta, e como a figura de Elias que havia de vir, isto é, como o último grande mensageiro do período preparatório. Sua forma de vida austera, lida em conjunto com a tradição do deserto e com a descrição de Mateus 11.18, se ajusta a uma missão de convocação ao arrependimento, simplicidade e dependência de Deus. Nessa moldura, o jejum não é acessório, mas plenamente coerente com um ministério que opera sob o sinal da penitência e da preparação. Por isso, o ascetismo de João não deve ser entendido como desvio pessoal excêntrico, mas como forma adequada à sua vocação profética.
Já o ministério de Jesus se move em outro registro simbólico. Quando os discípulos de João perguntam por que eles e os fariseus jejuam, mas os discípulos de Jesus não, a resposta em Mateus 9.14-15 não contrapõe simplesmente disciplina e indisciplina. Jesus declara que os convidados do noivo não podem prantear enquanto o noivo está com eles. A escolha do verbo πενθεῖν (penthein, “lamentar”, “prantear”) em Mateus mostra com especial clareza que o problema em vista é o jejum como sinal de luto e aflição. Enquanto a presença do noivo define o tempo presente, o modo adequado não é o da tristeza penitencial que marcava o ministério preparatório de João, mas o da alegria escatológica própria da irrupção do Reino. O jejum voltará a ter lugar quando o noivo for tirado; porém, nesse momento, ele já estará reinterpretado a partir da ausência de Cristo, e não simplesmente reproduzido como costume anterior.
As parábolas do remendo novo em veste velha e do vinho novo em odres velhos, que seguem imediatamente a resposta sobre o noivo, impedem que o contraste entre João e Jesus seja tratado como mera diferença de temperamento. Elas indicam que os dois estilos correspondem a estágios distintos da ação de Deus. O movimento de João trabalha no horizonte da reparação e da chamada à conversão; por isso, a austeridade lhe convém. A missão de Jesus, ao contrário, inaugura a novidade escatológica do Reino; por isso, exige estruturas simbólicas mais flexíveis, como “odres novos” para “vinho novo”. O contraste não desqualifica João, nem legitima um relaxamento religioso indiscriminado. Ele mostra que práticas semelhantes podem ser adequadas ou inadequadas conforme o momento redentivo em que se situam. Assim, a diferença entre João Batista e Jesus ajuda a perceber que, no Evangelho, o valor do jejum depende menos de sua dureza exterior do que de sua correspondência à obra de Deus em cada fase de sua revelação.
Jejum, oração e envio missionário eclesial
No cristianismo nascente, o jejum reaparece de forma particularmente nítida quando a comunidade entra em momentos de discernimento, consagração e governo espiritual. Em Atos 13.2, a igreja de Antioquia é descrita servindo ao Senhor e jejuando — λειτουργούντων δὲ αὐτῶν τῷ κυρίῳ καὶ νηστευόντων (leitourgountōn de autōn tō kyriō kai nēsteuontōn, “enquanto ministravam ao Senhor e jejuavam”) — precisamente no contexto em que o Espírito Santo ordena a separação de Barnabé e Saulo para a obra missionária. O versículo seguinte reforça a mesma estrutura: τότε νηστεύσαντες καὶ προσευξάμενοι (tote nēsteusantes kai proseuxamenoi, “então, tendo jejuado e orado”), a comunidade lhes impõe as mãos e os envia. O jejum, portanto, não aparece como ascese privada desligada da missão, mas como prática comunitária que acompanha a escuta do Espírito, a oração e o envio apostólico. Em Atos 14.23, o mesmo padrão retorna quando Paulo e Barnabé designam presbíteros em cada igreja: προσευξάμενοι μετὰ νηστειῶν (proseuxamenoi meta nēsteiōn, “tendo orado com jejuns”), eles os encomendam ao Senhor. A recorrência da fórmula mostra que, em Atos, o jejum pertence ao vocabulário solene do discernimento eclesial e da constituição ministerial, não ao de uma obrigação legal uniforme.
Ascese cristã, disciplina e seus limites
Nas cartas paulinas, o vocabulário do jejum reaparece em listas de sofrimentos apostólicos, mas não de modo uniforme. Em 2 Coríntios 6.4-5, Paulo descreve os ministros de Deus “em aflições... em trabalhos, em vigílias, em jejuns” (ἐν νηστείαις, en nēsteiais, “em jejuns”); contudo, a tradução desse termo no versículo não é pacífica. KJV/ASV/NKJV preservam “jejuns”, enquanto ESV/NIV/NASB/NRSV vertem “fome” ou “falta de alimento”, o que mostra que o contexto admite duas leituras: abstinência deliberada ou privação imposta pelas circunstâncias. Em 2 Coríntios 11.27, porém, a formulação se torna mais precisa, porque Paulo já havia mencionado “fome e sede” (ἐν λιμῷ καὶ δίψει, en limō kai dipsei) antes de acrescentar “muitas vezes em jejuns” (ἐν νηστείαις πολλάκις, en nēsteiais pollakis). Nesse segundo caso, como a carência involuntária já foi explicitada separadamente, “jejuns” se entende com mais probabilidade como autoprivação deliberada. O resultado exegético é que, em Paulo, o mesmo termo pode oscilar entre o sofrimento padecido e a disciplina assumida, e o discernimento depende da sintaxe imediata de cada lista.
Quando o problema passa da autobiografia apostólica para as tensões alimentares das igrejas, Paulo não transforma o jejum em norma, mas aceita com notável facilidade soluções de autolimitação. Em 1 Coríntios 8, ele afirma que o alimento não nos apresenta a Deus — “nem, se não comermos, ficamos piores; nem, se comermos, ficamos melhores” —, mas insiste que a liberdade do forte não deve tornar-se pedra de tropeço para o fraco; por isso, conclui que, se a comida escandaliza o irmão, ele jamais comerá carne (1Co 8.8-13). Em Romanos 14, o mesmo princípio reaparece de outra forma: um crê poder comer de tudo, outro, sendo fraco, come legumes; quem come não deve desprezar quem não come, e quem não come não deve julgar quem come, porque ambos, em sua intenção, agem para o Senhor (Rm 14.2-6). Não se trata ainda de um sistema ascético formal, mas de uma ética de renúncia pastoral: Paulo aceita a restrição alimentar quando ela serve à paz da comunidade e à preservação da consciência do outro.
O caso de Colossenses 2 exige cuidado maior, porque aí o texto não usa νηστεία (nēsteia, “jejum”), mas ataca um complexo ascético mais amplo. Em Colossenses 2.18, Paulo adverte contra quem insiste em ταπεινοφροσύνη (tapeinophrosynē, “humildade”, “auto-humilhação”) e “culto dos anjos”, vinculado a pretensas visões; em 2.21-23, ele acrescenta a cadeia de proibições “não toques, não proves, não manuseies” e fala de ἐθελοθρησκία (ethelothrēskeia, “culto autoimposto”), ταπεινοφροσύνη e ἀφειδία σώματος (apheidia sōmatos, “severidade / falta de indulgência para com o corpo”). Aqui a comparação de versões é realmente relevante: em 2.18, KJV/ASV falam em “humildade voluntária”; NLT prefere “piedosa negação de si”; ESV/CSB vertem “ascetismo”; NASB/NRSV usam “auto-humilhação”; em 2.23, várias versões combinam “culto autoimposto”, “falsa humildade” e “tratamento severo do corpo”. O texto, portanto, não nomeia diretamente o jejum, mas descreve um ambiente em que auto-humilhação, disciplina corporal e pretensão visionária se unem. Nesse sentido, é plausível entender ταπεινοφροσύνη, aqui, como termo que toca o mesmo universo semítico da autoaflição religiosa e pode incluir práticas de jejum; ainda assim, a formulação exegética mais segura é esta: Colossenses critica um ascetismo exterior e visionário, não o jejum em abstrato.
A crítica culmina em Colossenses 2.23, onde essas práticas têm apenas “aparência de sabedoria”, mas “não têm valor algum” contra a satisfação da carne. O argumento é importante porque impede tanto a glorificação ingênua da disciplina corporal quanto sua rejeição indiscriminada. A mesma moderação reaparece em 1 Timóteo 4.1-8. Ali o erro consiste em proibir casamento e ordenar abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ações de graças (1Tm 4.3-5). Em seguida, o texto relativiza a disciplina física ao afirmar que “o exercício corporal” (ἡ σωματικὴ γυμνασία, hē sōmatikē gymnasia) é útil “em pequena medida” ou “para pouco” (πρὸς ὀλίγον, pros oligon), ao passo que a piedade é útil para tudo (1Tm 4.8). A redação não despreza toda forma de treinamento do corpo; ela apenas lhe recusa centralidade soteriológica. Assim, o Novo Testamento pode reconhecer algum valor na disciplina ascética, mas recusa elevá-la à condição de princípio decisivo da vida cristã.
O conjunto desses textos permite uma formulação equilibrada. O cristianismo apostólico não suprimiu a possibilidade do jejum; ao contrário, conheceu jejuns voluntários, autolimitações alimentares por amor ao próximo e formas legítimas de disciplina. Contudo, também combateu com vigor o ascetismo que absolutiza o corpo, submete o crente a regulamentos exteriores ou faz da auto-humilhação uma via autônoma de superioridade espiritual. Em Paulo, a pergunta decisiva nunca é quão severa é a prática, mas se ela serve ao evangelho, à edificação da igreja e à submissão a Cristo. Fora desse eixo, a disciplina pode conservar aparência de sabedoria e, ainda assim, fracassar exatamente no ponto em que promete ser mais eficaz.
Variantes textuais e cautelas exegéticas
Uma cautela técnica se impõe em algumas passagens neotestamentárias nas quais a tradição manuscrita expandiu o campo do jejum. No texto do NA28 disponível em die-bibel.de, Marcos 9.29 traz apenas “oração” — τοῦτο τὸ γένος ἐν οὐδενὶ δύναται ἐξελθεῖν εἰ μὴ ἐν προσευχῇ (touto to genos en oudeni dynatai exelthein ei mē en proseuchē, “esta espécie não pode sair por nada, senão por oração”); Atos 10.30 traz apenas a oração de Cornélio; e 1 Coríntios 7.5 fala apenas de dedicação temporária “à oração” — τῇ προσευχῇ (tē proseuchē) — sem mencionar jejum. Isso significa que, no texto crítico corrente, essas três passagens não podem ser usadas como prova direta e inequívoca de uma ordem ou regra sobre jejum.
O caso de Marcos 9.29 é o mais conhecido. A leitura longa, “oração e jejum”, circulou amplamente e foi preservada em traduções tradicionais; por isso, KJV/ACF a mantêm. No entanto, o texto curto do NA28 é sustentado por testemunhas antigas e de grande peso, entre elas o Codex Sinaiticus na mão original (ℵ), o Codex Vaticanus (B), o minúsculo 0274 e o códice latino k; por essa razão, a edição crítica omite “e jejum”, e a expansão costuma ser entendida como acréscimo eclesiástico posterior, coerente com a valorização crescente do jejum na vida da Igreja. Exegeticamente, isso obriga a distinguir entre a história posterior da recepção do versículo e sua forma textual mais antiga acessível.
Em Atos 10.30, a situação é semelhante. O NA28 traz Cornélio dizendo apenas que estava orando em sua casa à hora nona. A leitura expandida, “eu estava jejuando e orando”, é atestada por uma tradição secundária importante, na qual se incluem P50, A² e D, além de outros testemunhos posteriores; já a forma sem “jejum” é sustentada por P74, ℵ, A*, B, C, 81, 945 e 1739, entre outros. A expansão é compreensível do ponto de vista histórico, porque o perfil de Cornélio em Atos 10 já associa fortemente oração e esmolas, e copistas puderam completar espontaneamente a tríade judaica clássica de piedade com a menção ao jejum. Ainda assim, no nível do texto crítico, Atos 10.30-31 fala explicitamente de oração e esmolas, não de jejum.
Em 1 Coríntios 7.5, Paulo orienta o casal a abster-se temporariamente das relações conjugais, por mútuo consentimento, “para se dedicar à oração”. A leitura longa, “para vos dedicardes ao jejum e à oração”, entrou em parte da tradição manuscrita posterior. Testemunhos públicos usados em comentário textual registram essa expansão em ℵ², K, L e na tradição majoritária, ao passo que a forma curta é sustentada por manuscritos mais antigos e diversos, como P11vid, P46, ℵ*, A, B, C, D, F, G, Ψ, 33, 1739, 1881 e 2464. Por isso, a forma sem “jejum” é geralmente tomada como original, e a inserção é explicada por motivação ascética posterior. O ponto hermenêutico é decisivo: 1 Coríntios 7.5, em sua forma textual mais antiga, regulamenta abstinência conjugal temporária para oração, não para jejum.
A consequência metodológica dessas variantes é direta. Nem toda ocorrência de “jejum” em traduções tradicionais representa necessariamente a forma mais antiga do texto neotestamentário. Em passagens como Marcos 9.29, Atos 10.30 e 1 Coríntios 7.5, a tradição posterior ampliou a presença do tema, e a exegese precisa respeitar essa diferença entre recepção e texto crítico. O valor histórico e eclesial dessas leituras longas não deve ser negado; mas, quando a questão é estabelecer o que o texto do Novo Testamento provavelmente dizia em sua forma mais antiga, a prudência exige reconhecer que, nesses três lugares, o jejum não possui o mesmo grau de segurança textual que a oração.
Essa reaparição do jejum na vida da igreja possui um antecedente lucano importante na figura de Ana. Lucas 2.37 a descreve como viúva que “não se afastava do templo, servindo com jejuns e súplicas noite e dia” — ἣ οὐκ ἀφίστατο τοῦ ἱεροῦ νηστείαις καὶ δεήσεσιν λατρεύουσα νύκτα καὶ ἡμέραν (hē ouk aphistato tou hierou nēsteiais kai deēsesin latreuousa nykta kai hēmeran). A ordem dos termos é significativa: o jejum não está isolado, mas emparelhado com a súplica perseverante e com o serviço a Deus. Por isso, Ana pode ser lida como figura de uma piedade contínua, concentrada na presença divina e na expectativa da redenção. Nesse sentido, sua caracterização se aproxima do ideal posterior da viúva consagrada à oração, como se percebe no horizonte de Atos 6.1 e, de modo mais explícito, em 1 Timóteo 5.5, onde a verdadeira viúva persevera “em súplicas e orações, noite e dia”. O vínculo não é de identidade institucional estrita, mas de afinidade tipológica: em ambos os casos, a vida religiosa é marcada por oração contínua e desprendimento disciplinado.
O caso de Cornélio exige distinção mais cuidadosa entre texto-base e tradição manuscrita. No texto do NA28, Atos 10.30 põe Cornélio simplesmente em oração na sua casa à hora nona, e Atos 10.31 resume sua piedade por meio de duas obras centrais: “tua oração foi ouvida” e “tuas esmolas foram lembradas diante de Deus”. Assim, no texto crítico corrente, o retrato explícito de Cornélio é o de um homem de oração e de esmola. Contudo, a tradição textual cedo ampliou esse retrato com a terceira prática clássica da piedade judaica, acrescentando uma referência ao jejum em Atos 10.30. A notícia manuscrita preserva esse acréscimo em testemunhas como P50, A² e D, o que mostra uma tendência antiga de completar a tríade oração–esmola–jejum no perfil do centurião piedoso. Essa observação deve ser formulada com rigor: o acréscimo pertence à tradição manuscrita secundária, não ao texto do NA28; ainda assim, ele é historicamente relevante porque revela como leitores antigos compreenderam Cornélio dentro do repertório consagrado da devoção judaica.
A síntese exegética desses textos é coerente. Lucas 2.37 mostra o jejum como expressão de culto perseverante; Atos 13.2-3 o vincula ao discernimento do Espírito e ao envio missionário; Atos 14.23 o associa à oração que acompanha a constituição de lideranças locais; Atos 10.30-31, por sua vez, prova que a tradição cristã antiga reconhecia facilmente o jejum como elemento natural do repertório devocional, a ponto de alguns copistas o acrescentarem ao retrato de Cornélio. Em nenhuma dessas passagens o jejum é apresentado como mecanismo automático de mérito espiritual. Seu lugar é outro: ele acompanha a oração, intensifica a solenidade da decisão comunitária e corporifica a busca de Deus em momentos de particular densidade espiritual. Assim, no cristianismo primitivo, o jejum não desaparece com a presença do Messias; ele é reposicionado dentro da vida da igreja como disciplina de escuta, consagração e dependência.
Desenvolvimento inicial do jejum cristão pós-apostólico
No período imediatamente posterior ao corpus neotestamentário, o jejum cristão começa a adquirir contornos disciplinares mais definidos, embora ainda não se apresente como sistema litúrgico plenamente uniforme. A Didache mostra que, antes do batismo, o jejum já podia ser exigido não apenas do candidato, mas também do ministro e de outros membros da comunidade que pudessem participar dessa preparação; o texto manda que o batizando jejue um ou dois dias antes da celebração (Did. 7.4). Em Justino Mártir, a mesma associação entre preparação batismal, oração e jejum aparece de forma ainda mais clara: aqueles que se dispõem a receber o batismo são instruídos a orar e a suplicar a Deus “com jejum” pela remissão dos pecados passados, e a comunidade jejua com eles (Apologia 61.2). Esses testemunhos mostram que o jejum, já no século II, podia integrar a pedagogia de ingresso na vida cristã, não como rito isolado, mas em íntima relação com oração, arrependimento e regeneração.
A mesma documentação revela que o jejum passou também a marcar a identidade temporal da comunidade cristã. A Didache ordena que os cristãos não jejuem “com os hipócritas”, identificados como os que jejuam no segundo e no quinto dias da semana, mas que observem seus jejuns no quarto dia e na Preparação, isto é, na sexta-feira (Did. 8.1). O interesse da passagem não está apenas em fixar dias, mas em diferenciar o uso cristão do jejum em relação ao calendário judaico então percebido como concorrente. O jejum deixa, assim, de ser apenas resposta ocasional a crise ou compunção, e começa a funcionar como marcador regular de identidade comunitária.
Esse processo se torna ainda mais visível quando a memória pascal entra em discussão. Eusébio preserva, em História Eclesiástica 5.23–25, o testemunho da controvérsia quartodecimana: as igrejas da Ásia mantinham, por tradição antiga, que a festa pascal devia observar o décimo quarto dia da lua, dia em que os judeus sacrificavam o cordeiro, e por isso encerravam o jejum nesse dia, qualquer que fosse o dia da semana; já as demais igrejas entendiam que o término do jejum devia ocorrer apenas no dia da ressurreição do Senhor. O próprio relato de Eusébio mostra que sínodos e assembleias episcopais foram convocados por causa dessa divergência e que se formou, fora da Ásia, um consenso em favor do encerramento do jejum pascal no domingo. O dado mais importante, para a história do jejum, é que a disciplina do jejum já estava suficientemente consolidada para se tornar elemento central de controvérsia e de definição eclesial.
Desse quadro se deduz, com boa base histórica, que o jejum cristão pós-apostólico se desenvolveu por convergência de dois eixos: de um lado, o eixo catequético-batismal, visível na Didache e em Justino; de outro, o eixo pascal-comunitário, testemunhado por Eusébio na controvérsia sobre o término do jejum. A posterior ampliação desses costumes em formas mais estáveis de preparação batismal e pascal pertence a uma etapa seguinte da história eclesiástica; mas já nesses testemunhos mais antigos se vê com nitidez que o jejum cristão começou a passar da esfera da prática devocional flexível para a de uma disciplina comunitária reconhecível, ligada ao batismo, ao calendário semanal e à celebração da Páscoa.
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Cite este artigo:
GALVÃO, Eduardo. Jejum. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 31 ago. 2009. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].