quarta-feira, 5 de agosto de 2009

LIVRO DE GALATAS, ESTUDO BIBLICO, FUNDO HISTÓRICO, TEOLOGICO
Concluímos da carta que as igrejas da Galácia tinham sido invadidas por uma heresia que as colocara em perigo. Visto que Atos dos Apóstolos não relata nada sobre esse fato e tampouco temos outras fontes a respeito, dependemos da própria carta para descobrirmos as características dessa heresia. Certamente pessoas que representavam a lei mosaica se infiltraram nas igrejas da Galácia. Exigiam dos cristãos-gentios que estes obedecessem às ordenanças da lei. Evidentemente encontraram ouvidos abertos, pois os gálatas estão começando a observar e comemorar dias, meses, épocas e anos prescritos pela lei (Gl 4.10). O cúmulo disso para Paulo é que cristãos-gentios estão sendo circuncidados (Gl 5.3). Paulo lhes explica que com isso estão se obrigando a obedecer a toda a lei mosaica, mas que isso os levará ao naufrágio, quando, na verdade, Cristo os libertou da lei. É certo que na igreja-mãe de Jerusalém havia pessoas que pensavam dessa forma sobre a lei. Inúmeras vezes causaram dificuldades não só ao apóstolo Paulo (cf. At 11). Será que essas pessoas, que denominamos judaizantes, teriam procurado as igrejas fundadas por Paulo e as influenciado dessa forma? De qualquer maneira, isso explicaria a veemência com que Paulo toma posição diante do problema. Ele não consegue nem escrever palavras de agradecimento pelas igrejas da Galácia (cf. capítulo 1). Na história da interpretação de Gálatas esse tem sido considerado via de regra o motivo para a carta.

No nosso século, no entanto, essa posição tem sido questionada por muitos. Hirsch, Lietzmann, Beyer e outros são da opinião de que os opositores de Paulo na Galácia só podem ter sido cristãos-gentios que se infiltraram nas igrejas. O exagero sarcástico em Gálatas 5.1 só seria compreensível para o caso de cristãos-gentios que se submeteram à circuncisão. Também não poderíamos dizer de cristãos-judeus que não observavam a lei (6.13). Mas não é exatamente isso que Paulo coloca como argumento contra os judeus em Romanos 2.11-29? Certamente Paulo não conseguiu suportar o fato de que pessoas que tinham sido libertas por Jesus, agora estavam sendo novamente escravizadas por esses hereges. Portanto, é difícil aceitar os argumentos a favor dessa posição.

Uma posição ligeiramente diferente sobre o motivo da carta é defendida por Lütgert. Paulo estaria lutando contra duas frentes na Galácia. Por um lado ele tinha que defender o seu apostolado diante da propaganda judaizante (1.1,11); por outro estava combatendo posições libertinas (5.13,16; 6.1,8). Não percebemos, no entanto, uma mudança de frente de batalha no decorrer da carta. O apóstolo desenvolve o seu tema com coerência constrangedora do primeiro ao último capítulo dessa carta.

Consideremos, por último, a posição de Schmithals. Ele crê que os falsos mestres da Galácia tenham sido cristãos-judeus gnósticos, pois Paulo não teria explicado a um judeu nascido no judaísmo que um circuncidado tem de obedecer a toda a lei (5.3). Esse era exatamente o objetivo dos judaizantes. Segundo Schmithals, no judaísmo houve alas que associavam fidelidade à lei com especulações gnósticas. Sobretudo as expressões “princípios elementares do mundo” (4.3; NVI) e “aqueles … princípios elementares” (4.9; NVI) seriam mais facilmente compreensíveis nesse contexto. Entretanto, não encontramos na carta outras exposições relacionadas ao gnosticismo. Por isso a posição de Schmithals não conseguiu se impor.

As observações de A. Pohl vão além, quando diz que os cristãos judaizantes atuantes na Galácia não pertenciam ao grupo judeu dos fariseus radicais.2 A carta não nos dá ponto de apoio algum para afirmarmos que esses judaizantes estavam obrigando os gálatas a obedecerem às ordenanças dos fariseus. Eles só queriam introduzir um “pouquinho” da lei (Gl 5.9). Eles mesmos não observavam toda a lei (Gl 6.13), mas se restringiam a alguns aspectos fundamentais: a exigência da circuncisão (5.2s; 6.12s; cf. 2.3s), a observância das festas judaicas (4.10) e provavelmente leis cerimoniais de alimentação (2.12). A escolha desses aspectos não era aleatória. Com eles o judaísmo tinha mantido a sua identidade desde o exílio da Babilônia. Com eles também tinha tido um poder de atração todo especial sobre pessoas que sofriam sob a desorientação geral e a depravação dos costumes. Defensores desse tipo de atitude em relação à lei judaica tinham grandes possibilidades de serem ouvidos nas igrejas cristão-gentias da Galácia, pois se apresentavam com a afirmação de que esse “pouquinho” de observância da lei ajudaria os gálatas a serem povo de Deus no sentido pleno da palavra.

É verdade que Paulo não precisa ensinar-lhes as conseqüências da circuncisão, mas ele lembra as igrejas assim influenciadas disso (5.3). Entretanto, Paulo precisa cuidar para que, do evangelho da liberdade que ele lhes pregou, esses falsos mestres não tirem a conclusão de que o cristão pode fazer o que bem entende (5.13ss). As expressões mais difíceis de serem harmonizadas estão em 4.3ss e 4.8ss. Talvez sejam expressão de uma dependência peculiar da lei, da qual Paulo quer proteger os gálatas.

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