Comentário de J.W Scott: 1 Timóteo 6:1-21

Dever dos escravos cristãos (1Tm 6.1-2)



Estes versos fornecem a Timóteo mais instrução para que ele a transmita concernente à honra devida (1; cf. 1Tm 5.3-17) agora da parte dos escravos para com os seus senhores. Só desonra trará ao nome de Deus e Seu evangelho, visto ser aparentemente uma subversão da ordem social existente, os cristãos sob regime de escravidão deixarem de ser bons escravos. Se acontecer que seus senhores sejam crentes também, não devem por isso deixar de respeitá-los convenientemente como seus senhores humanos. Devem antes servi-los melhor por serem cristãos aqueles que recebem seus serviços agora melhorados. Toda honra (1) quer dizer honra sob todas as formas em que seja devida.

OUTRAS ADVERTÊNCIAS 1Tm 6.3-10

É fácil a pessoa deixar-se desencaminhar pelos atrativos mundanos do ensino de alguns homens, e todavia tal ensino permanece sob condenação, por ser "diferente" (3) ou heterodoxo, visto como os que o propagam abandonaram claramente a lealdade espiritual fundamental, sendo indignas sua condição e conduta pessoais. Outrossim, o ensino deles causa violento conflito social, porque só serve para perverter o critério moral do homem, afastá-lo da verdade e obsecá-lo com a idéia de que o propósito da prática da piedade é lucro material (4-5). Não que não haja grande lucro na verdadeira piedade, mas somente quando se é livre de cobiça (6). Visto como não podemos acumular riquezas e levá-las conosco quando deixarmos este mundo, cumpre-nos ficar satisfeitos se temos alimento e com que nos vestir (7-8). Porquanto os que vivem preocupados em adquirir riquezas, são vítimas de engodo, caem em armadilha, ficam obsessos e inteiramente vencidos (9). Esse amor ao dinheiro é raiz que, se for deixada a crescer, só produz males de toda sorte. Os que se permitem ficar preocupados com ele, comumente se desviam da fé e se atormentam com muitas dores (10).

Nos vers. 3 e 4 estabelece-se um contraste entre a doutrina "sadia" e os mestres "enfermos". Prova-se que um ensino é sadio (3), primeiro, se tem Cristo como autor e, segundo, pelo espírito de temor de Deus e pela conduta de quem o promove. Contrariamente, o falso mestre condena-se pelo ar de superioridade que assume, por sua falta de compreensão, e por sua mórbida obsessão pelo gênero de discussão que só produz contenda (4). No vers. 5 os particípios gregos (não adjetivos) descrevem perdas permanentes que tais pessoas sofrem; sua capacidade de julgamento moral é destituída, e ficam privadas da verdade. De sorte que têm por hábito supor que a piedade é meio de auferir lucro material. Lucro (5), no grego porismos, que significa virtualmente "bom negócio", isto é, fonte de lucro ou meio de adquirir vantagens materiais. A declaração feita no vers. 7 confirma a atitude implícita do apóstolo, nesta passagem, com relação a coisas materiais; a importância destas é apenas secundária e passageira; não são parte da personalidade, verdadeira e permanente, nem se transferem para a vida além-túmulo. No vers. 8 o verbo grego está no futuro do indicativo. Não é tanto uma exortação, como é afirmação dogmática de que este é o meio de se viver-contente contrariamente à atitude de meter na cabeça a idéia de adquirir riquezas. Concupiscências insensatas e perniciosas (9), isto é, desejos violentos, duplamente condenáveis, como negativamente estúpidos e positivamente prejudiciais. A preocupação mental de se ficar rico e o conseqüente esforço exagerado para atingir esse alvo resultam em perda negativa ("desvio da fé") e dano positivo. Comparando-se com o "bom negócio" da piedade, não compensa (10).

SOLENE EXORTAÇÃO PESSOAL 1Tm 6.11-16

Paulo exorta que Timóteo se mantenha fiel à sua vocação cristã, a que se desvencilhe de ardis como seja o amor do dinheiro, a que alente e procure as virtudes cristãs (11). Mantenha ele a luta dignamente até ao fim, para alcançar o prêmio. Entregou-se a esta carreira por força de sua profissão cristã (12). A lembrança de que Deus vê e não deixará de ajudar, de que Jesus Cristo confirmou a verdade que Timóteo tem confessado, e isto fez Ele pelo testemunho de Seus padecimentos, e que vai ser manifestado como Juiz pelo soberano Deus - que a lembrança de tudo isto dê força à exortação que Paulo lhe faz de não manchar ou expor a censura sua obediência cristã (13-16).

É possível aqui dar a algumas das frases uma interpretação particular. Homem de Deus (11) pode referir-se à condição de Timóteo como obreiro: era assim que no Velho Testamento se designava um profeta (ver 1Sm 9.6).

A última parte do vers. 12 pode referir-se à sua ordenação, e o vers. 13 ao testemunho fiel de nosso Senhor perante Pilatos. O vers. 14, então, será uma exortação específica a Timóteo para que se desincumba de seu ministério. Entretanto, parece preferível dar a essas frases um alcance mais geral. Homem de Deus pode ser designação de qualquer cristão experimentado (ver 2Tm 3.17). O vers. 12b pode aludir ao batismo de Timóteo. "O primeiro compromisso" (note-se o artigo definido) é "a fé" ou verdade então confessada; Alude-se à "fé confessada", não à confissão que dela Timóteo fizera. Esta mesma boa confissão - lembra ele a Timóteo - foi atestada como verdadeira por nosso Senhor através de Sua morte e ressurreição, ocorridas "sob Pôncio Pilatos" (igualmente uma possível interpretação da frase grega, como vem no Credo Apostólico). Algo da fraseologia aí empregada bem pode ser eco das confissões de fé que, então, eram usadas no batismo. Observe-se a referência a Deus como Preservador, etc. e à paixão e segunda vinda de Cristo. Quer dizer pois que Paulo não sabe de nada melhor para exortar a Timóteo do que dirigir-lhe palavras aplicáveis não somente a ele, como obreiro especial, mas a ele (e igualmente a todos) como crente em Cristo. No vers. 12, a diferença de tempo dos verbos gregos sugere combate como atividade ininterrupta, e tomar posse como ato decisivo. A manifestação de Cristo (14; no grego epiphaneia) ocorrerá no tempo próprio por vontade e ato de Deus, e como "amostra" ou sinal de Sua mão (cfr. Jo 2.18). Os vers. 15 e 16 descrevem, de maneira significativa, a majestade inigualável de Deus. Em Sua absoluta bem-aventurança e vida infinda, Ele é completamente auto-suficiente. E tais coisas Lhe pertencem de todo e a Ele só. É pois Senhor exclusivo de tudo e todos. Assim, deve-se-Lhe render toda a honra e atribuir todo o poder.



USO CORRETO DAS COISAS MATERIAIS 1Tm 6.17-19

Os crentes ricos precisam precaver-se do sentimento de confiança excessiva que a posse de bens materiais possa despertar neles. Sua firme esperança deve repousar, não nas riquezas e sua incerteza característica, mas em Deus, o Doador de todos os bens (17). Precisam, outrossim, lembrar-se de que tais riquezas não são dadas para serem acumuladas, porém usufruídas (cf. 1Tm 4.3-5), usadas na prática do bem (18). Destarte, repartir coisas boas, liberalmente, com os outros é a maneira de entesourar, para o futuro, algo mais duradouro do que riquezas terrenas, e assim possuir a verdadeira vida (gr. zoe), antes que simplesmente ter em abundância os meios materiais da presente vida (gr. bios). Ver #1Jo 3.17; #Lc 12.15.

Observe-se o contraste entre este presente século (17) e o tempo futuro (19); cfr. Mt 6.19-21. Nem depositem a sua esperança na... Temos aí, em evidência, a força do tempo perfeito no grego; aliás a advertência torna-se mais forte por ser a idéia dar proeminência, não às "riquezas" enganosas, mas à sua instabilidade. Os que possuem riquezas terrenas são exortados a usá-las na aquisição de bens melhores e mais duráveis. Para isto, paradoxalmente, eles precisam de fato e cordialmente, estar prontos a repartir seus haveres materiais com os outros.

EXORTAÇÃO FINAL 1Tm 6.20-21

Dirigindo-se a Timóteo, de modo enfático e pessoal, Paulo resume aqui seu propósito principal, duplo, em escrever-lhe, a saber assegurar que ele preserve e passe adiante, intacto, o depósito da verdade, evitando as falsas doutrinas, ímpias e arrogantes, as quais já haviam fatalmente desencaminhado alguns.

Timóteo é considerado aqui como um mordomo a quem se confiou um "depósito" (20); (cf. 2Tm 1.12-14; 2Tm 2.2), isto é, o que Judas (vers. 3) chama "a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos". "Ciência" (falsamente assim chamada) sugere aí uma pretensão injustificada que, em consequência, atrai aderentes para a própria ruína deles, como crentes. A graça seja convosco é a maneira distintiva de Paulo apresentar a saudação cristã, com a qual encerra suas epístolas; ver 2Ts 3.17-18