A Música nos Tempos Bíblicos

BÍBLICOS, ESTUDOS, TEMPOS, MÚSICA
A Música nos Tempos Bíblicos

O nível moral mais elevado dos israelitas e sua literatura superior, conforme exemplificados pela poesia e pela prosa das Escrituras Hebraicas, sugerem que a música do antigo Israel provavelmente transcendia à dos seus contemporâneos. Por certo, a inspiração para a música de Israel era bem mais sublime do que a das nações vizinhas. De interesse é um baixo-relevo assírio, em que o Rei Senaqueribe é representado exigindo que o Rei Ezequias lhe pagasse como tributo músicos de ambos os sexos. — Ancient Near Eastern Texts (Textos Antigos do Oriente Próximo), editado por J. Pritchard, 1974, p. 288.

Alguns sustentam já por muito tempo que a música hebraica era toda melodia, sem harmonia. No entanto, o mero destaque da harpa e de outros instrumentos de cordas em Israel já pesa fortemente contra tal suposição. É quase inconcebível que um músico tocasse um instrumento de muitas cordas e deixasse de notar que uma combinação de certos tons era bem agradável, ou que uma série específica de notas, como num arpejo, produz um som agradável. Certa fonte abalizada em história da música, Curt Sachs, declara: “O arraigado preconceito de que a harmonia e a polifonia [duas ou mais partes musicais ou vozes combinadas] têm sido uma prerrogativa do Ocidente medieval e moderno não tem fundamento.” Ele prossegue dizendo que, mesmo entre culturas primitivas, há muitos exemplos de música em quintas, quartas, terceiras, bem como em oitavas, e que, entre esses povos, incluindo certas tribos de pigmeus, desenvolveu-se a antifonia justaposta (canto alternativo de dois grupos de vocalistas) em regular canto canônico.

Baseado numa pesquisa mundial, Sachs apresenta a conclusão de que “os coros e as orquestras relacionados com o Templo em Jerusalém sugerem um elevado padrão de educação, de perícia e de conhecimento musicais”. Ele continua: “É importante compreender que o antigo Oriente ocidental possuía uma música bem diferente da que os historiadores do século dezenove lhe atribuem. . . . Embora não saibamos como soava essa música antiga, dispomos de suficiente evidência de sua força, de sua dignidade e de sua maestria.” — The Rise of Music in the Ancient World: East and West (A Ascensão da Música no Mundo Antigo: Oriente e Ocidente), 1943, pp. 48, 101, 102.

As Escrituras dão a entender uma conclusão similar. Por exemplo, nos cabeçalhos dos Salmos aparece mais de 30 vezes a expressão “Ao regente” (AT). (Sal 11; e outros) Outras traduções rezam “regente do coro” (BV), “Músico Principal” (AS; KJ; Le; Ro), e “mestre do canto” (ALA; BJ; CBC; PIB). O termo hebraico parece referir-se a alguém que de certo modo orientava a execução do canto, seu arranjo, seu ensaio e o treinamento dos cantores levíticos, ou na sua execução oficial. Talvez isso fosse dirigido ao principal músico de cada uma das 24 turmas de músicos do santuário, ou pode ter sido outro dos exímios músicos, visto que o registro diz que eles deviam “agir como regentes”. (1Cr 15:21; 25:1, 7-31) Em mais uns 20 Salmos, os cabeçalhos são ainda mais específicos na sua referência a “regentes”: “Ao regente, em instrumentos de cordas”, “Ao regente, na oitava inferior”, e assim por diante. (Sal 4, 12.) Além disso, há referências bíblicas aos “cabeças dos cantores”, aos “peritos” e aos ‘aprendizes’. Tudo isso atesta um elevado padrão de música. — Ne 12:46; 1Cr 25:7, 8.

Grande parte do canto em grupo, em Israel, parece ter sido antifônico, quer por dois meios-coros se alternarem em cantar linhas paralelas, quer por um solista e um coro de responso se alternarem. Nas Escrituras, isto parece ser chamado de ‘responder’. (Êx 15:21; 1Sa 18:6, 7) Este tipo de canto é indicado pelo próprio estilo em que alguns dos salmos foram escritos, tais como o Salmo 136. A descrição dos dois grandes coros de agradecimento, no tempo de Neemias, e da sua participação na inauguração da muralha de Jerusalém, indica que cantavam neste estilo. — Ne 12:31, 38, 40-42.

Pode-se dizer que entoar um canto em forma de salmodia situa-se entre o cantar propriamente dito e o falar. Seu diapasão é bastante monótono e repetitivo, com ênfase no ritmo. Embora o salmodiar continue bastante popular em algumas das principais religiões do mundo, seu uso na Bíblia parece limitar-se a endechas, como no caso em que Davi entoou uma endecha pela morte de seu amigo Jonatã e do Rei Saul. (2Sa 1:17; 2Cr 35:25; Ez 27:32; 32:16) Somente numa endecha ou num lamento seria preferível o estilo de salmodia ao da melodia de música, ou à modulação e ênfase oral de pura fala.