Escritor da Carta aos Hebreus
Atualização:
Tudo isso leva a concluir que tinha formação helenista, como era amplamente cultivada na diáspora judaica daquele tempo. As descrições sobre o interior do tabernáculo em Hb 9.1-5 revelam que o autor era conhecedor da tradição rabínica de interpretação da Escritura realizada pela sinagoga de Alexandria, mas que não havia estacionado nela, mas dando-lhe uma nova interpretação a partir de sua experiência pessoal de fé no Senhor Jesus Cristo. A maneira como o autor faz uso, na explanação do AT, das formas da leitura alegórica e da tipologia, faz recordar mais o filósofo judaico Filo, que ensinou na segunda metade do século I em Alexandria e interpretava o AT de forma análoga, do que o apóstolo Paulo, que havia recebido sua formação de rabino junto de Gamaliel em Jerusalém (At 22.3) e que seguia tradições diferentes na exegese. Contudo, sob um exame mais minucioso patenteia-se que Filo e o autor de Hebreus partiram de premissas inteiramente diferentes em sua interpretação do AT. O teólogo francês J. Cambier escreve sobre essa questão: “Não se deveria enfat izar excessivamente o alexandrinismo. Os recursos intelectuais podem ter sido os mesmos. Na presente carta, porém, um estudioso cristão da Escritura serviu-se deles de maneira soberana, a fim de desincumbir-se fielmente da mensagem de sua fé”.
A própria maneira como Hebreus fala do sacerdócio e do serviço sacrificial do tabernáculo (Hb 7.27; 9.4), deixando as condições reais do seu tempo totalmente de lado nessa caracterização, justifica que se indague se, afinal, o autor de fato conheceu pessoalmente o antigo templo de Jerusalém e suas ordens. As palavras no final da carta: “Os da Itália vos saúdam” (Hb 13.24) suscitaram a suposição de que o autor tenha pertencido a uma comunidade na Itália. Talvez esses cristãos também fossem um grupo de palestinos que, no ano de 70, após a destruição de Jerusalém pelo general romano Tito, foram levados como prisioneiros à Itália. Contudo, não podemos afirmá-lo com segurança.
A tradição eclesiástica não se contentou com o pouco que sabemos sobre o autor. O Pai da Igreja Clemente de Alexandria (falecido no ano 211) defendia que a carta seria um escrito de Paulo traduzido por Lucas. Orígines (falecido no ano 254) considerava como possíveis autores o médico Lucas ou o presidente da igreja de Roma, Clemente Romano. O mais antigo Pai da Igreja latina, Tertuliano (falecido por volta do ano 215), presumia que Barnabé (At 13.2ss; 14.4,14) tivesse escrito a carta. Martinho Lutero pensava que nele poderia ser reconhecido Apolo, exímio orador alexandrino e pregador do evangelho (At 18.24ss; 1Co 3.4). O reformador João Calvino considerou igualmente Clemente Romano como autor. As igrejas cristãs do Oriente e, após o ano 419 também as do Ocidente, atribuíram a autoria ao apóstolo Paulo. A Igreja Católico Romana persistiu nesta tese até a primeira metade do século XX, mas aos poucos vai deixando de lado essa convicção. No entanto, tudo isso são suposições, e nessa questão não poderemos avançar além da frase do Pai da Igreja Orígines: “Mas só Deus sabe quem realmente escreveu a epístola”. Embora o autor não mencione o seu nome, nem reclama para si a posição de apóstolo, temos de localizá-lo, não obstante, na proximidade imediata dos apóstolos, porque Deus o muniu de autoridade para a proclamação e de uma compreensão clara da palavra e do propósito de salvação de Deus. Otto Michel escreve a esse respeito (pág. 11): “A palavra do autor desconhecido não é levada menos a sério na igreja que a palavra de Paulo, porque sua autoridade não é de caráter histórico, e sim teológico”. Com base na exortação de Hb 5.11-14, que o autor apostólico dirige aos fiéis, podemos presumir que ele se considera um dos dirigentes espirituais da comunidade, sobre os quais escreve em Hb 13.7,17,24. Apoiando-nos num costume do tempo dos primeiros cristãos, vamos falar, no nosso comentário à carta, do autor como de um “apóstolo”. Ao usarmos o termo não estamos pensando nos doze discípulos que no sentido estrito formam as “testemunhas anteriormente designadas” (At 10.41[BJ]). Tampouco atribuímos a autoria de Hebreus ao apóstolo Paulo que ocupava, segundo suas próprias palavras, uma posição singular entre os apóstolos (cf. Rm 1.1,2; Gl 1.11ss). O NT nos mostra claramente que ao lado dessas pessoas Deus convocou para si ainda outras testemunhas, as quais ele utilizou da mesma maneira como instrumentos do Espírito Santo para alicerçar a igreja de Jesus Cristo (2Co 8.23; Ef 4.11). Entre eles conhecemos por nome a Barnabé (At 9.27; 14.4,14), Tiago, irmão do Senhor (Gl 1.19), Andrônico e Júnia (Rm 16.7), que são designados como apóstolos.
A história da formação do cânon informa que tanto no Oriente quanto no Ocidente a carta era contada entre os escritos apostólicos, sem que houvesse uma forma de se concordar em detalhe sobre a autoria. Nas comunidades cristãs do Oriente o autor aceito era Paulo. O cânon Muratori, Tertuliano, Cipriano, Eusébio e Agostinho denotam a influência dessas idéias orientais sobre a igreja ocidental. Contudo, é significativo que Hilário de Poitiers (falecido no ano de 367) precisamente não cita Hebreus como carta de Paulo, embora a considerasse como apostólica. Nesse exato aspecto torna-se evidente que nos primeiros séculos do cristianismo o conceito do apostolado, além do número dos Doze e de Paulo, era conhecido em sentido ampliado. É dessa maneira que gostaríamos que fosse entendida a designação de “apóstolo” para o autor de Hebreus.
Na Antiguidade era usual que publicações às quais se desejava assegurar reconhecimento fossem editadas sob o nome de personalidades ilustres, um costume que também ganhou terreno no ambiente da jovem cristandade. Assim foi divulgada no século II, sob o nome dos apóstolos, uma série de relatos de milagres fantasiosos sobre a vida de Jesus e dos apóstolos (evangelhos e atos de apóstolos apócrifos). O autor de Hebreus não faz uso desse recurso. Está ciente de que sua palavra possui autoridade divina e é aceita pela igreja.