quarta-feira, 9 de março de 2011

ABNEGAÇÃO, ESTUDOS BÍBLICO, TEOLOGIA, SIGNIFICADO, NOVO, ANTIGO, TESTAMENTO, ORIGINAL
Abnegação

I. “Abnegação” é um conceito exclusivo do NT; em sentido estrito, encontra-se apenas nos sinóticos (Mc 8,34 par.; em 2Tm 2,13 o sentido é diferente, a saber, de “ser infiel a si mesmo”). O NT conhece apenas o verbo “abnegar-se”, “renunciar a si mesmo” arneontai ou aparneomai). Armeomai é usado 33 vezes (Mt 110,33ab = Lc I2,9a — Mt 26,70.72 = Mc 14,68.70; Lc 22,57; Jo 13,38; 18,25.27 — Lc 8,45 — Lc 9,23 — Jo 1,20 — At 3,13.14; 4,16; 735— ITm 5,8; 2Tm 2,12ab.13; 3,5 — It 1,16; 2,12 — Rb 11,24 — 2P4 2,1 — 1.10 2,22ab.23 — Id 4 — Ap 2,13; 3,8); aparneomai, que tem o mesmo sentido, 11 vezes (Mt 16,24 = Mc 8,34— Mt 26,34.35.75 = Mc 14,30.31.72; Lc 22,34.61 — Lc I2,9b).

Delitzsch traduz aparnesastho heauton (Mc 8,34) para o hebraico com yekahes benafso: Ginsburg traduz wayyaslik et nafso minneged, de acordo com Jz 9,17. Mais exato seria yimas nafso; cf. mo'es nafso. Pr 15,32 (gr. misei heauton. cf. Lc 14,26; Jo 12,25): “não se preocupa com sua alma, consigo mesmo, com seus proveitos”, e sobretudo Jo 9,21: “não me preocupo com minha alma (= comigo mesmo”). Assim aparece a base veterotestamentiria de “abnegação/entrega de si mesmo”.

2. Como o grego clássico, também o NT usa arneomai no sentido original de “dizer não a”, “recusar” ou “rejeitar” uma ordem ou exigência, p.ex., “rejeitar a impiedade das concupiscencias mundanas” (Ti 2,12: cf. At 3,13.14; Rb 11,24) ou “negar, refutar, combater” uma pergunta (Mc 14,68.70 par.; Jo 18,25.27; cf. At 4,16; Jo 1.20; 1.10 2,22).

Já que o Evangelho não insiste principalmente na verdade salvífica, e sim naquele que trouxe a salvação, os autores foram obrigados a dar a este verbo o sentido novo de “renegar”. Uma verdade pode ser “negada”, mas quem a anunciou é “renegado”. Este sentido já transparece quando se fala em “negar” a pessoa de Cristo (cf. Mc 14,68.70 com v. 30; Mt 26,70.72; At 3,13.14; Jo 1.20).

Esse novo significado é evidente em todos os textos que se referem à pessoa de Cristo. E, como é óbvio, só de um discipulo pode ser dito que renegou Cristo, não de judeus ou pagãos; só pode renegar Cristo quem lhe foi fie.

O discípulo renega Cristo quando não professa franca e solenemente sua fidelidade à pessoa de Jesus Cristo. Neste sentido, Pedro renegou seu Senhor e Mestre (cf. Mc 14,30.31.72; Mt 26,34.35.75; Lc 22,34.61; Jo 13,38). Dos discipulos infiéis, Cristo diz: “Quem me renegar diante dos homens, eu o renegarei também diante de meu Pai no céu” (Mt 10,33; Le 12,9; cf. 2Tm 2.12; Jr1 4). Não faz diferença dizer “renegar Cristo” ou “renegar a fé em Cristo, a palavra ou o nome de Cristo” (Ap 2,13; 3,8; cf. It 1,16), “não reconhecer sua doutrina” (ho 2,22.23; 2Pd 2,1) ou recusar os pedidos de um irmão (1Tm 5,8; 2Tm 3,5). Nessa perspectiva cristológica deve ser vista a “abnegação”. Ela é a primeira condição para a imitação de Cristo; a segunda é a prontidão para o martírio (Mc 8,34: Mc faz o leitor pensar cm Simão dc Cirene: Mc 15,21). “Sua cruz” visa, além da prontidão para a morte, as tribulações pessoais de cada um. A expressão “abnegar-se” deve ter-se formado em antítese com “renegar o Cristo”. Dizer “sim” a Jesus significa dizer “não” aos desejos pessoais e interesses vitais. O motivo decisivo para a abnegação, como para a entrega da própria vida, é Jesus (“por causa de mim”, Mc 8,35). Não se trata de uma vontade doentia de softer, nem de uma autodisciplina ou ascetismo fanáticos (em tudo isso ainda há egoísmo humano), e sim de uma afirmação total e absoluta da vontade de Deus (lx 22,42): viver como o Mestre, pensar e agir como Ele, sofrer, se for o caso, morrer como Ele. A personalidade própria com os seus talentos não é com isso destruída: ela fica apenas livre das más inclinações do homem caído, livre para o amor de Deus e livre para o serviço amoroso ao próximo (Mc 12,28- 34 par.; Lc 10,25-28 par.). Assim a personalidade humana pode se desenvolver e aperfeiçoar (El 4,13-15). Isso dá à abnegação bíblica um caráter dinâmico, verdadeira grandeza ética e enorme força de irradiação.


FONTE:  Dicionário Bíblico-Teológico de Bauer.

0 Deixe seu comentário:

Postar um comentário

Compartilhe Este Artigo

Delicious Digg Facebook Favorites More Stumbleupon Twitter

Pesquise outros Estudos