domingo, 29 de setembro de 2013

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Estudo Sobre Mateus 6:12, 14-15

Estudo Sobre Mateus 6:12, 14-15
Antes de poder repetir esta petição, que forma parte do Pai Nosso, devemos nos dar conta da necessidade que temos de repeti-la. Quer dizer, antes de repetir estas palavras, devemos ser conscientes de nosso pecado. A palavra "pecado" não é muito popular em nossos dias. A maioria não quer ser tratada como pecadores merecedores do inferno. O problema é que a maioria tem um conceito equivocado do que significa ser pecador. Estariam perfeitamente de acordo em que o ladrão, o bêbado, o assassino, o adúltero, o blasfemo são pecadores; mas eles não são culpados de nenhum destes pecados; vivem decentemente, têm vidas respeitáveis, nunca foram levados ante os tribunais, nem foram encarcerados, nem apareceram na página de notícias policiais. Portanto, sentem que o pecado não tem muito a ver com eles.

No Novo Testamento há cinco palavras distintas que significam pecado.

(1) A palavra mais comum é hamartia. Este termo significava originalmente errar o alvo. Não acertar o alvo era hamartia. Portanto, pecado é não ser, o que deveríamos e tivéssemos podido ser.

Charles Lamb tem um retrato de um homem que se chamava Samuel Grice. Grice era um jovem extraordinário, que nunca pôde realizar em sua vida o que seus dons extraordinárias prometiam. Lamb diz que em sua carreira houve três etapas: Uma época em que se dizia: "Farei algo." Depois veio a época em que se dizia: "Farei algo, se eu quiser." E por fim se dizia: "Poderia ter feito algo, se tivesse querido."

Edwin Muir, em sua autobiografia, diz: "Depois de certa idade todos nós, tanto os bons como os maus, somos assaltados pelo sentimento de ter tido poderes que nunca pusemos em prática: quer dizer, sentimos que não chegamos a ser o que poderíamos ter sido." Isso, exatamente, é hamartia, pecado; e esta é uma situação na qual todos nós participamos. Somos um marido, uma esposa, tão bom como poderíamos ser? Somos tão boa filha ou filho, como poderíamos ser? Somos tão bons operários ou patrões, como poderíamos ser? Existe alguém que se atreva a pretender que é tudo o que pôde ser, ou que tem feito tudo o que estava ao alcance de suas possibilidades?

Quando nos damos conta de que "pecado" significa não ter atingido o alvo, não ter chegado a ser tudo o que poderíamos ter sido, fica evidente que todos somos pecadores.

(2) A segunda palavra que significa "pecado" é parabasis, que literalmente quer dizer "cruzar ao outro lado." Pecar é cruzar a linha que separa o bem do mal. Ficamos sempre do lado de cá da linha que separa a honestidade da desonestidade? É possível que não haja alguma vez em nós nem sequer o menor gesto, a menor atitude desonesta? Estamos sempre no lado correto da linha que separa a verdade da mentira? Alguma vez não temos, com palavra ou com nosso silêncio, distorcido embora seja um pouco, ou evitado em alguma medida a verdade? Estamos sempre bem localizados com respeito à linha divisória entre a amabilidade e a cortesia, por um lado, e o egoísmo e a brutalidade, pelo outro? Alguma vez pronunciamos alguma palavra descortês ou agido de maneira pouco bondosa?

Quando pensamos deste modo, não pode haver ninguém que pretenda ter-se mantido sempre no lado correto da linha divisória.

(3) A terceira palavra que significa "pecado" é paraptoma, que significa escorregão. Trata-se do tipo de escorregão que podemos sofrer em um caminho molhado, ou sobre o gelo. Diferente do termo anterior é neste caso que o movimento não é tão deliberado. Às vezes dizemos que "nos escapou" uma palavra, um gesto, uma ação ou reação. Muitas vezes nos sentimos arrastados por um impulso, ou uma paixão que se apossou momentaneamente de nós e nos fez perder nosso domínio próprio. Até os melhores dentre nós podem "escorregar" para o pecado quando não estamos em guarda.

(4) A quarta palavra que significa "pecado" é anomia, ou seja agir fora da lei. Trata-se do pecado de quem conhece o bem e entretanto faz o mal; o pecado de quem conhece a lei, mas deliberadamente a ignora em sua ação.

O primeiro de todos os instintos humanos é o de fazer o que queremos muito. Portanto, sempre há momentos na vida de qualquer homem em que decide desafiar a lei e agir por conta própria e responsabilidade. Decidimos conscientemente tomar o que nos está proibido ou fazer aquilo que a lei condena. No Mandalay Kipling põe na boca de um velho soldado as seguintes palavras:

Embarquem-me para o leste do Suez, onde o melhor
é igual ao pior,
Onde não existem os Dez Mandamentos,
e se pode aplacar a sede.

Embora haja pessoas que possam dizer que nunca transgrediram os Dez Mandamentos, não existe quem possa sustentar que jamais desejou fazê-lo.

(5) A quinta palavra que significa "pecado" no Novo Testamento é ofeilema, a palavra que aparece no Pai Nosso e que significa literalmente "dívida". Significa não pagar o que se deve, deixar de cumprir um dever. Não há quem possa dizer que em sua vida cumpriu de maneira perfeita todos os deveres para com o seu próximo e para com Deus. Tal perfeição não existe entre os seres humanos.

Em conclusão, quando examinamos de perto o significado da palavra "pecado", damo-nos conta de que é uma enfermidade universal, da qual participam todos os homens. É muito possível que na mesma pessoa se dêem a respeitabilidade exterior, aos olhos dos homens, e a pecaminosidade interior, perante Deus. Todos os seres humanos, sem exceção, precisam repetir esta petição do Pai Nosso.

Não somente precisamos dar-nos conta de que precisamos repetir esta petição do Pai Nosso, mas também devemos estar conscientes do que estamos dizendo ao fazê-lo. Entre todas as petições dos Pai Nosso esta é a mais temível. "Perdoa as nossas dívidas, como também perdoamos aos nossos devedores."

Mateus seguirá com este tema nos dois versículos seguintes, explicando da maneira mais clara possível que, segundo Jesus, se nós perdoarmos a outros Deus nos perdoará, mas se não perdoarmos, Deus não nos perdoará. É bem evidente, então, que se repetirmos esta petição quando há algo que nos separa de nosso próximo, quando ficam disputas sem resolver em nossas vidas, o que estamos dizendo a Deus é: "Não nos perdoes". Se dissermos: "Nunca perdoarei a Fulano de Tal pelo que me tem feito", se dissermos "Nunca esquecerei o que Beltrano me tem feito", e contudo fazemos uso desta petição ao repetir o Pai Nosso, estamos deliberadamente pedindo a Deus que não nos perdoe.

Alguém disse: "O perdão, como a paz, é uno e indivisível." O perdão humano, e o divino estão inextricavelmente relacionados entre si. Não é possível separar nosso perdão ao próximo e o perdão que esperamos receber de Deus; ambos estão ligados e são interdependentes. Se tivéssemos presente o significado desta petição, muitas vezes, ao repetir o Pai Nosso, nossos lábios silenciariam ao chegar a "perdoa-nos..."

Quando Robert Louis Stevenson vivia nas ilhas do Pacífico Sul costumava celebrar um breve culto matutino, diariamente, para os membros de sua família e seus servos. Uma manhã, no meio do Pai Nosso, levantou-se e abandonou a habitação. Sua saúde sempre tinha sido precária, e sua esposa o seguiu, pensando que se havia sentido repentinamente doente. "Sente alguma coisa?", perguntou-lhe ao encontrá-lo. "Nada, somente que hoje não posso repetir o Pai Nosso."

Ninguém está em condições de repetir o Pai Nosso quando não se sente disposto a perdoar. Se não se viver em boas relações com o próximo não se pode viver em boas relações com Deus.

Três coisas são necessárias para possuir o espírito cristão do perdão.

(1) Devemos aprender a compreender os outros. Sempre há alguma razão que leva as pessoas a agir da maneira como o fazem. Se alguém se comportar de maneira rústica, ou pouco amável, ou irascível, possivelmente esteja atravessando por algum sofrimento ou preocupação. Se alguém nos tratar com suspeita e desagrado, possivelmente não tenha compreendido bem nossas intenções, ou tenha sido mal informado em relação a nosso caráter. Possivelmente seja uma vitima de seu meio ambiente, ou tenha sido deformado por sua situação familiar. Possivelmente seu temperamento seja tal que as relações humanas lhe sejam difíceis, e a vida uma carga dura de levar. Seria-nos muito mais fácil perdoar se buscássemos compreender em vez de condenar.

(2) Devemos aprender a esquecer. Na medida em que recordemos, e voltemos a trazer à nossa mente alguma ofensa ou ferida que nos tenha infligido, não seremos capazes de perdoar. Muito freqüentemente dizemos: "Não posso esquecer o que Fulano me tem feito." "Nunca esquecerei como me tratou Zutano naquela ocasião." É muito perigoso dizer coisas como estas, porque no final pode ser-nos humanamente impossível perdoar.

Em certa oportunidade o famoso literato escocês Andrew Lang, escreveu e publicou um comentário muito benévolo de um livro que tinha aparecido, obra de um escritor jovem. O jovem lhe replicou com um ataque amargo, insolente e completamente infundado. Uns três anos depois Lang estava passando uns dias na casa do Robert Bridges, o grande poeta. Este o viu lendo um livro e ao notar quem era o autor observou: "Vá, é outro livro daquele ingrato que se comportou de maneira tão vergonhosa contigo!" Para sua grande surpresa, descobriu que Lang não recordava sequer o incidente. Não guardava memória alguma dos ataques insultantes e ácidos do jovem. Perdoar, observou Bridges, é característico de qualquer grande homem, mas esquecer totalmente é sublime. Somente o espírito purificador de Cristo pode limpar de nossas memórias toda a amargura e o ressentimento que devemos esquecer.

(3) Em terceiro lugar, devemos amar. Já vimos que o amor cristão, o ágape, é essa indescritível benevolência, essa invencível boa vontade, que nunca procura senão o maior bem para o próximo, sem ter em conta o que este nos tenha feito ou pense de nós. Esse amor somente é nosso quando Cristo, que é esse amor, deve habitar em nossos corações e não pode vir a menos que nós o convidemos. Para ser perdoados devemos perdoar, e esta é uma condição do perdão que somente Cristo pode nos ajudar a cumprir.

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