quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Posted by Eduardo G. Junior In | No comments
Estudo sobre Mateus 9:20-22
Estudo sobre Mateus 9:20-22

Do ponto de vista judeu, esta mulher não podia sofrer de enfermidade mais humilhante e terrível que uma hemorragia. Era um mal bastante comum na Palestina. O Talmude recomenda não menos de onze formas de curá-la. Algumas destas formas eram tônicos e adstringentes que provavelmente sortissem efeito. Outras eram simples superstições. Uma das curas que o Talmude recomenda, por exemplo, era levar as cinzas de um ovo de avestruz em uma bolsa de linho durante o verão, e em uma bolsa de algodão no inverno; outra consistia em conseguir e levar sempre com um grão de milho branco o que se encontrou nos excrementos de uma burra. Quando Marcos conta esta história, diz que esta mulher tinha provado todas as curas, que tinha consultado a todos os médicos que estavam a seu alcance, e que cada vez estava pior, em vez de melhorar (Marcos 5:26).

O horror desta enfermidade era que quem a sofria devia ser considerado ritualmente impuro. Conforme o estabelecia a Lei no Levítico 15:25-27, toda mulher que tivesse "fluxo de sangue" (incluindo o fluxo menstrual) era impura e não somente ela, mas também todas as coisas ou pessoas que tocasse enquanto durasse a hemorragia. Ficava totalmente marginalizada da sociedade humana normal, e também do culto divino. A mulher que se aproximou de Jesus não poderia sequer mesclar-se com a multidão, porque, ao assim fazer e eles soubessem, ela teria tornado impuros a todos os que tocasse. Não é de maravilhar-se, portanto, que esta mulher estivesse desesperadamente ansiosa por provar algo que pudesse libertá-la de sua humilhante enfermidade e com ela de sua vida de isolamento e humilhação.
De modo que se aproximou até Jesus, sem ser vista, e tocou o bordo de sua túnica. Este bordo, no caso da túnica de Jesus, deve ter sido o zizith, quatro borlas de linho azul que todo varão judeu devia levar em sua túnica, segundo a disposição da Lei em Números 15:37-41 e Deuteronômio 22:12.

Mateus volta a referir-se a esta parte do vestido em 14:36 e 23:5. Consistiam em quatro fios de linho azul que sucediam as pontas do manto, e ao encontrar-se entreteciam em uma borla. Um destes fios devia ser mais longo que os demais; fazia-se com que desse sete voltas ao redor dos outros fios e depois era atado com um nó duplo; o procedimento voltava a repetir-se depois de ter dado outras oito voltas, outras onze voltas e outras treze voltas. Os fios e os nós simbolizavam os cinco livros da lei. Esta franja tinha um duplo propósito. Por um lado, identificava os membros do povo judeu. Por outro lado, cada vez que um judeu tirava ou colocava a roupa, a borla e as franjas o lembravam que pertencia a Deus. Muito tempo depois, quando em todos os lugares do mundo os judeus eram perseguidos, este adorno se usava na roupa interior. Hoje aparecem no manto de oração que os judeus ortodoxos põem sobre os ombros e na cabeça toda vez que vão orar. O que esta mulher tocou, pois, foram as franjas do manto de Jesus.

Quando tocou essa parte da vestimenta de Jesus foi como se o tempo se detivesse. Devemos imaginar como se estivéssemos vendo um filme e repentinamente este se detém e ficamos olhando uma única fotografia, fixa. O mais extraordinário e referente desta cena, é que instantaneamente Jesus se deteve em meio da multidão, e foi como se nesse momento a única coisa que houvesse no mundo fosse essa mulher e sua necessidade. Não se tratava de uma pobre mulher perdida na multidão. Era alguém a quem Jesus se entrega por inteiro. Para Jesus nunca estamos perdidos entre a multidão, porque Jesus é como Deus.

W. B. Yeats escreveu em certa oportunidade, em um de seus momentos de beleza mística: "O amor de Deus é infinito para cada alma humana porque cada alma humana é única e nenhum outro pode satisfazer essa mesma necessidade divina."

Deus se entrega por inteiro a cada ser humano individual. O mundo não é assim. No mundo se divide as pessoas entre as que são importantes e as que não o são.

Em Night to Remember, Walter Lord conta com luxo de detalhes a história do afundamento do Titanic numa noite de abril de 1912. Quando aquele transatlântico recém saído dos estaleiros, que se tinha anunciado como "o navio insubmersível", chocou-se contra um iceberg no Atlântico Norte, morreram muitas pessoas.

Depois da tragédia e quando se conheceram as listas das vitimas, um periódico americano, The American, dedicou um de seus artigos de primeira página a destacar a morte, no afundamento, de John Jacob Astor, o milionário. Quase no final desse artigo, como por acaso, dizia-se que junto com ele tinham morrido outras mil e oitocentas pessoas. A única coisa que importava, a única coisa que tinha valor como notícia, era o milionário. Os outros 1.800 não importavam.

Os homens podem ser assim, mas não ocorre o mesmo com Deus. Bain, o psicólogo, descreve a pessoa sensível como alguém dotado de "uma ternura volumosa" No sentido mais alto e melhor possível, Deus tem essa "ternura volumosa".

James Agathe disse, referindo-se ao G. K. Chesterton: "Diferente de outros pensadores, Chesterton compreendia a seus semelhantes: conhecia de perto tanto as tristezas de um corredor de cavalos, como as preocupações de um juiz. Chesterton, muito mais que qualquer outro homem que eu tenha conhecido, tinha o dom da compreensão. Era capaz de oferecer toda sua atenção a um engraxate. Possuía essa generosidade que os homens denominam bondade, e que converte a todos os homens em próximos" Este é o reflexo desse amor de Deus graças ao qual ninguém está perdido na multidão.

É muito importante que recordemos tudo isto em uma época e um dia em que o indivíduo tende a perder-se na massa popular. Os seres humanos tendem a converter-se em números de um serviço de assistência médica social; tendem a converter-se em membros de grupos, associações, sindicatos e uniões onde até perdem o direito de agir como indivíduos.

W. B. Yeats disse com respeito ao Augustus John, o famoso retratista: "Interessava-se sobremaneira pela rebelião contra tudo o que faz com que um homem seja igual a outro."

Para Deus um homem nunca é igual a outro: cada um é um de seus filhos a quem conhece pessoalmente e todo o amor e o poder do pai estão ao seu dispor. Para Jesus esta mulher não era um rosto a mais na multidão, quando ela necessitou dEle. Ela foi a única coisa que lhe interessou. Jesus age da mesma maneira com cada um de nós.

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