2009/07/06

Carta aos Gálatas

Carta aos Gálatas

CARTA AOS GÁLATAS. Uma das principais cartas de Paulo. Gálatas desempenhou um papel central na teologia cristã porque fornece um dos ensinamentos mais explícitos do NT sobre a justificação pela fé. Este ensinamento, no entanto, é a resposta de Paulo a uma grave crise nas igrejas da Galácia, em vez de uma apresentação sistemática ou doutrinária da justificação.

I. Escritor
      Ø  Autor da Epístola aos Gálatas

A sentença inicial menciona Paulo como escritor deste livro. (Gál 1:1) Também, seu nome é novamente usado no texto, e ele fala de si mesmo na primeira pessoa. (5:2) Parte desta carta, em forma de autobiografia, trata da conversão de Paulo e de algumas das suas outras experiências. As referências ao seu padecimento na carne (4:13, 15) estão em harmonia com as expressões aparentemente relacionadas com este padecimento em outros livros bíblicos. (2Co 12:7; At 23:1-5) As outras cartas de Paulo usualmente eram escritas por um secretário, mas esta, diz ele, foi escrita pela sua “própria mão”. (Gál 6:11) Nos seus outros escritos, quase sem exceção, ele envia cumprimentos de si mesmo e daqueles que estão com ele, mas não faz isso nesta carta. Se o escritor da carta aos gálatas tivesse sido um impostor, ele provavelmente teria mencionado um secretário e teria enviado alguns cumprimentos, assim como Paulo usualmente fazia. Portanto, a maneira de escrever e seu estilo honesto garantem a autenticidade desta carta. Uma falsificação não poderia ser razoavelmente feita assim.

A carta usualmente não é contestada como sendo de Paulo, exceto por aqueles que tentam desacreditar ser Paulo o escritor de todas as cartas comumente atribuídas a ele. Entre as evidências fora da Bíblia que apoiam ser Paulo o escritor, há a citação que Irineu (c. 180 EC) faz de Gálatas e atribui a Paulo.

II. Destinatários.
      Ø  Destinatário da Carta aos Gálatas
      Ø  Primeiros Leitores da Carta aos Gálatas

A questão de quais as congregações que estavam incluídas na saudação inicial “às congregações da Galácia” (Gál 1:2), por muito tempo tem sido disputada. Em apoio da afirmação de que estas eram congregações anônimas na parte setentrional da província da Galácia, argumenta-se que os que moravam naquela região eram etnicamente gálatas, ao passo que os do S não o eram. Todavia, Paulo, nos seus escritos, usualmente usa nomes oficiais romanos para as províncias, e a província da Galácia, no seu tempo, incluía as cidades licaônicas meridionais de Icônio, Listra e Derbe, bem como a cidade de Antioquia da Pisídia. Paulo havia organizado congregações cristãs em todas estas cidades na sua primeira viagem evangelizadora, acompanhado por Barnabé. Que a carta se dirigia às congregações nas cidades de Icônio, Listra e Derbe, e na Antioquia da Pisídia, se harmoniza com o modo em que a carta menciona Barnabé, como evidentemente conhecido daqueles a quem Paulo escrevia. (2:1, 9, 13) Em parte alguma das Escrituras há alguma indicação de que Barnabé fosse conhecido aos cristãos na parte setentrional da Galácia ou que Paulo sequer fizera viagens através daquele território.

A exclamação de Paulo: “Ó insensatos gálatas”, de modo algum é evidência de que ele pensasse apenas em certo povo étnico, que se originara exclusivamente da raça gálica na parte setentrional da Galácia. (Gál 3:1) Antes, Paulo estava repreendendo alguns nas congregações ali por se deixarem influenciar por um elemento de judaizantes entre eles, judeus que tentavam confirmar a sua própria justiça por meio do arranjo mosaico, em vez de pela ‘justiça devido à fé’ fornecida pelo novo pacto. (2:15-3:14; 4:9, 10) Em sentido racial, as “congregações da Galácia” (1:2), às quais Paulo escreveu, eram uma mistura de judeus e não-judeus, estes últimos sendo tanto prosélitos circuncisos como gentios incircuncisos, e, sem dúvida, alguns deles eram de origem céltica. (At 13:14, 43; 16:1; Gál 5:2) Em conjunto, eram chamados de cristãos gálatas porque a região em que moravam era chamada de Galácia. Todo o teor da carta é que Paulo escrevia àqueles que conhecia bem na parte meridional desta província romana, não a totalmente desconhecidos, no setor setentrional, o qual ele evidentemente nunca visitou.

III. Data da Composição
O período abrangido por este livro é de duração indeterminada, mas o tempo da escrita tem sido fixado aproximadamente entre 50 e 52 EC. Gálatas 4:13 dá a entender que Paulo fez pelo menos duas visitas aos gálatas antes de escrever a carta. Os capítulos 13 e 14 de Atos dos Apóstolos descrevem uma visita de Paulo e Barnabé às cidades gálatas meridionais, ocorrida por volta de 47 a 48 EC. Daí, depois da conferência a respeito da circuncisão, em Jerusalém, por volta de 49 EC, Paulo, junto com Silas, voltou a Derbe e a Listra, na Galácia, e a outras cidades em que Paulo e Barnabé haviam ‘publicado a palavra de Yehowah’ (At 15:36-16:1) na primeira viagem. Evidentemente, foi depois disso, enquanto Paulo estava em outro lugar na sua segunda viagem missionária, ou então na sua sede, a Antioquia da Síria, que ele recebeu informações que o induziram a escrever “às congregações da Galácia”.

Se foi durante a sua estada de um ano e meio em Corinto (At 18:1, 11) que Paulo escreveu esta carta, então a escrita ocorreu provavelmente entre o outono (setentrional) de 50 e a primavera de 52 EC, o mesmo período geral em que escreveu as suas cartas canônicas aos tessalonicenses.

Se a escrita foi feita durante a sua breve parada em Éfeso, ou depois de voltar a Antioquia da Síria, e de ter “passado ali algum tempo” (At 18:22, 23), teria sido por volta de 52 EC. No entanto, é improvável que Éfeso fosse o lugar da escrita, tanto porque Paulo ficou pouco tempo ali como porque se ele tivesse estado tão perto quando soube do desvio na Galácia, era de esperar que tivesse pessoalmente visitado os irmãos, ou então explicado na sua carta por que não lhe era possível visitá-los naquela ocasião.

O que a sua carta diz a respeito de os gálatas serem “removidos tão depressa Daquele que [os] chamou” (Gál 1:6) talvez indique que a escrita da carta foi feita logo depois de Paulo ter visitado os gálatas. Mas, mesmo que a escrita só tivesse sido feita em 52 EC, em Antioquia da Síria, ainda teria sido relativamente cedo para tal desvio ocorrer.

IV. Canonicidade
Evidência primitiva da canonicidade do livro é encontrada no Fragmento Muratoriano e nos escritos de Irineu, de Clemente de Alexandria, de Tertuliano e de Orígenes. Estes homens mencionam-no por nome, junto com a maioria ou com todos os outros 26 livros das Escrituras Gregas Cristãs. É mencionado por nome no cânon abreviado de Marcião e até mesmo aludido por Celso, que era inimigo do cristianismo.

Todas as importantes listas de livros no cânon das Escrituras inspiradas, pelo menos até o tempo do Terceiro Concílio de Cartago, em 397 EC, incluíam o livro de Gálatas. Nós o temos hoje preservado, junto com mais oito das cartas inspiradas de Paulo, no Papiro Chester Beatty N.° 2 (P46), um manuscrito atribuído a cerca de 200 EC. Isto fornece prova de que os primitivos cristãos aceitavam o livro de Gálatas como uma das cartas de Paulo. Outros manuscritos antigos, tais como o Sinaítico, o Alexandrino, o Vaticano N.° 1209, o Códice Efraimi rescrito e o Códice Bezae, bem como a Pesito siríaca, igualmente incluem o livro de Gálatas. Também, ele se harmoniza inteiramente com os outros escritos de Paulo e com o restante das Escrituras, que freqüentemente cita.

V. Fundo Histórico
        Ø  Fundo Histórico da Carta ao Gálatas

Não há unanimidade entre os estudiosos quanto à identidade dos gálatas ou à datação desta carta. Alguns argumentam que Paulo estava escrevendo para as congregações de Antioquia na Pisídia, Listra, Icônio e Derbe (na província romana da Galácia), que ele estabeleceu em sua primeira viagem missionária de acordo com Atos 13–14. Outros sustentam que ele estava escrevendo para os gálatas étnicos de Ancyra, Tavium e Pessinus (no antigo território da Galácia), que Paulo supostamente evangelizou em sua segunda e terceira jornadas missionárias (cf. Atos 16:6; 18:23). A primeira teoria é chamada de hipótese do sul da Galácia e data a carta de ca. 49–50 C.E., tornando-se a mais antiga correspondência existente de Paulo. O segundo é chamado de hipótese da Galácia do Norte e data da carta em meados dos anos 50, período em que Paulo se viu em conflito com alguns elementos da igreja de Corinto.

Uma compreensão da situação que ocasionou Gálatas é mais importante para a sua interpretação do que as questões discutidas acima, e nesse sentido há algum acordo, embora as teorias acadêmicas difiram em detalhes. O fundo é o seguinte:

Paulo foi o primeiro a pregar o evangelho aos gálatas, e eles o receberam como se ele fosse um “anjo de Deus”, no momento em que ele estava fisicamente doente (Gálatas 4:13–14). Visto que os gálatas eram gentios, Paulo não exigia que eles passassem pela circuncisão ou observassem “obras da lei”, como prescrições dietéticas e observância do sábado. Mas algum tempo depois de sua partida, outros missionários chegaram à Galácia e pregaram um “evangelho diferente” (1:6), que exigia que os gálatas se circuncidassem e observassem essas “obras da lei”.

A identidade precisa desses missionários é contestada, mas eles eram provavelmente missionários cristãos judeus que tinham uma forte conexão com Jerusalém e talvez com Tiago. Embora Paulo castigue seus falsos e enganosos motivos (6:12-13), há uma lógica em sua posição. Se os gálatas desejam compartilhar as bênçãos do Messias judaico, então eles devem se tornar filhos de Abraão aceitando a circuncisão, o sinal da aliança eterna que Deus fez com Abraão e seus descendentes (Gn 17). A circuncisão, por sua vez, exige que os descendentes de Abraão façam as obras da lei.

A compreensão de Paulo do evangelho, especialmente à luz de seu chamado, levou-o a uma apreciação mais profunda da obra de Cristo no plano salvífico de Deus. Embora os crentes judeus não precisem renunciar à herança judaica, não é necessário que os crentes gentios adotem costumes e práticas judaicas para serem justificados diante de Deus. É a obra salvífica de Deus em Cristo, e não a lei, que realiza a justificação e a justiça (2:21; 3:21). Portanto, os gálatas já são descendentes de Abraão, uma vez que pertencem a Cristo (3:29), enquanto aqueles que buscam a justificação através da lei se separam de Cristo (5:4).


Além de suas observações introdutórias e conclusivas (1:1–10; 6:11–18), Gálatas compreende três seções principais:uma seção autobiográfica na qual Paulo defende a verdade do evangelho que ele pregou aos gálatas (1:11– 2:21); um intricado argumento extraído das Escrituras, no qual Paulo explica que as pessoas de fé são descendentes de Abraão (3:1–5:12); uma exortação moral na qual Paulo mostra aos gálatas que se eles amam o próximo como a si mesmos e andam pelo Espírito, eles cumprem a lei de Cristo (5:13–6:10). Cada uma dessas seções é parte integrante do argumento de Paulo e destina-se a persuadir os gálatas a não se submeterem à circuncisão.

A Verdade do Evangelho (1:11–2:21)
Desde que seu evangelho livre de circuncisão para os gentios foi severamente criticado, Paulo fornece aos gálatas uma breve declaração autobiográfica a fim de demonstrar a verdade do evangelho (2:5, 14) que ele prega aos gentios. Assim, ele analisa sua vida anterior como perseguidor da Igreja, seu chamado apostólico, suas relações com a igreja em Jerusalém e o incidente em Antioquia (1:11-2:14). Ele então conclui com uma declaração importante sobre a justificação pela fé separada das obras da lei (2:15-21).

Esta informação biográfica apoia a verdade do evangelho de várias maneiras. Primeiro, Paulo não recebeu o evangelho de outros seres humanos, nem outros o ensinaram a ele. O evangelho que ele prega veio por meio de uma “revelação de Jesus Cristo” (1:11–12), ou seja, Paulo recebeu o evangelho quando Deus revelou seu Filho a ele (v. 16). Antes de seu chamado apostólico, Paulo era zeloso pelas tradições de seus antepassados, chegando ao ponto de perseguir a igreja de Deus. Mas quando Deus o chamou e revelou seu Filho a ele, Paulo entendeu que aquele a quem ele perseguiu como amaldiçoado por Deus (3:13) não era outro senão o Filho de Deus.

Paulo soube imediatamente que havia sido chamado para pregar um evangelho sem circuncisão aos gentios, e o fez sem necessidade de consultar os que estavam em Jerusalém (1:17). Quando ele foi para Jerusalém, ca. três anos após seu chamado, ele se encontrou apenas com Cefas (Pedro) e Tiago. Seu evangelho veio diretamente de Deus no momento de seu chamado, não de Jerusalém.

Quatorze anos depois de sua primeira visita, Paulo foi a Jerusalém com Barnabé e Tito para certificar-se de que ele não estava pregando em vão (2:1-10). Apesar da oposição dos “falsos irmãos”, os apóstolos da coluna (Tiago, Cefas e João) claramente aprovaram o evangelho de Paulo aos gentios. No entanto, quando certos partidários de Tiago vieram à igreja de Antioquia, eles não estavam preparados para o que viram:crentes judeus e gentios compartilhando a comunhão de mesa, Pedro entre eles. Quando Pedro se retirou desta comunhão de mesa, Paulo o repreendeu por trair a verdade do evangelho (2:11-14).

O que Paulo entendeu por “a verdade do evangelho” é mencionado nos versículos finais desta seção (2:15–21). Uma pessoa não é justificada com base nas “obras da lei”, mas através da fé (ou talvez “através da fé de”) de Jesus Cristo. É por isso que Paulo e outros cristãos judeus agora creem em Cristo desde que eles perceberam que ninguém será justificado com base em “obras da lei”. Se a justiça pudesse ser obtida através da lei, então não havia necessidade de Cristo para morrer.

Filho da Promesa (3:1–5:12)
Tendo explicado a origem do evangelho livre de circuncisão que ele prega, Paulo embarca em um argumento bastante técnico para mostrar que as pessoas de fé, batizadas em Cristo, são descendentes de Abraão. O argumento supõe que as promessas que Deus fez a Abraão são mais importantes na história da salvação do que a concessão da lei. Deus já havia anunciado o evangelho a Abraão prometendo que todas as nações seriam abençoadas nele. Consequentemente, as pessoas de fé são abençoadas com o fiel Abraão (3:7-9). Em sua exegese de Gênesis 12:7, Paulo argumenta que essas promessas foram feitas a Abraão e sua semente. Concentrando-se na palavra “semente”, que está no singular, ele argumenta que a semente de Abraão é Cristo (3:15-16). Consequentemente, todos os que são batizados em Cristo são descendentes de Abraão e filhos da promessa, mesmo que não sejam circuncidados (3:26-29).

Como a lei foi concedida 430 anos após a promessa, ela não altera as condições originais da promessa, que depende da fé (3:17-20). A lei foi acrescentada mais tarde para conscientizar as pessoas sobre suas transgressões, e assim funcionou como um disciplinador até o pleno florescimento da fé. Mas por si só, a lei não poderia dar vida. Caso contrário, a justiça teria vindo através da lei (3:21).

Visto que os Gálatas não entenderam isso e estão à beira da circuncisão, Paulo os repreende por voltarem ao período de sua infância religiosa (4:1-11). Ele os chama para imitar seu exemplo (4:12-20). Ele mostra a eles que eles são os verdadeiros descendentes da mulher livre e seu filho Isaque (4:21-31), e os adverte para evitar a circuncisão para que eles não se separem de Cristo (5:1-12).

Vivendo pelo Espírito (5:13–6:10)
Embora Paulo tenha mostrado aos gálatas que eles são descendentes de Abraão, porque eles foram incorporados ao descendente singular de Abraão, Cristo, seu argumento não é completo. Paulo deve explicar como os gentios gálatas podem viver uma vida moral se não estiverem “debaixo da lei”, caso contrário, seu evangelho será oco e sem sucesso. A parênese ou exortação moral desta carta, então, desempenha um papel integral no argumento de Paulo de que os gálatas não deveriam se submeter à circuncisão.

Na visão de Paulo, a vida moral é uma questão de viver pelo Espírito (5:16), ser guiado pelo Espírito (v. 18) e seguir a orientação do Espírito (v. 25). As pessoas que são guiadas pelo Espírito não estão “debaixo da lei” (v. 18), nem fazem as obras da carne, que Paulo cataloga em grande detalhe (vv. 19–21). Antes, o Espírito produz seu fruto neles (vv. 22-23). Mas se os crentes não estão mais sob a lei, eles realmente terão uma vida moral seguindo o Espírito?

Paulo argumenta que toda a lei é cumprida na declaração: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (5:14, citando Levítico 19:18). Consequentemente, os gálatas devem servir uns aos outros através do amor (5:13). Se eles carregarem os fardos uns dos outros, eles cumprirão a “lei de Cristo” (6:2). Essa expressão, que ocorre apenas em Gálatas, provavelmente se refere à lei tal como foi vivida por Cristo, ou seja, de acordo com o princípio do amor abnegado (cf. 1:3-4; 2,20). Para resumir, os gálatas cumprirão a lei se viverem no reino do Espírito de acordo com a lei de Cristo.

VII. Discurso Contemporâneo
A discussão atual sobre Gálatas se concentra em três áreas:a dimensão social da justificação pela fé; a fé de Jesus Cristo; e a natureza da ética paulina.

O contexto histórico de Gálatas indica que o ensinamento de Paulo sobre a justificação foi uma resposta a um problema social: como os crentes judeus e gentios deveriam se relacionar uns com os outros. As pessoas mantêm a relação de aliança adequada com Deus com base nas “obras da lei” que as identificam como judeus (circuncisão, prescrições dietéticas, observância do sábado) ou com base na obra de Deus em Cristo? Mais do que uma polêmica contra uma tentativa de obter a justiça através de boas obras, o ensinamento de Paulo sobre a justificação em Gálatas procura integrar gentios e judeus sem obrigar o primeiro a adotar um estilo de vida judaico.

Quando perguntamos como as pessoas são justificadas, a resposta tradicional é pela fé em Jesus Cristo. Mas nos últimos anos uma minoria de estudiosos argumentou que a importante declaração de 2:16 se refere à “fé de Jesus Cristo”. Assim, os crentes são justificados com base na fé de Cristo, isto é, a fidelidade de Cristo e a obediência a Deus como demonstrado. morrendo na cruz. Assim, os gentios estão no relacionamento de aliança adequada com Deus, com base na fidelidade de Cristo, não porque adotaram um estilo de vida judaico. Essa obediência fiel de Cristo, por sua vez, é a base da fé em Cristo.

Finalmente, novos insights sobre o papel que a exortação moral desempenha no argumento de Paulo encorajaram os estudiosos a dar maior atenção às dimensões éticas dos Gálatas. O papel integral da parênese nesta carta indica que o ensinamento de Paulo sobre a justificação não prejudica a vida moral dos crentes. Justificados pelo que Deus fez em Cristo e não mais sob a lei, os crentes devem seguir o exemplo do Espírito e cumprir a lei de Cristo através do mandamento do amor.

VIII. Circunstâncias Relacionadas com a Carta 
A carta reflete muitas características do povo da Galácia, no tempo de Paulo. Os celtas gálicos, procedentes do N, haviam invadido aquela região no terceiro século AEC, e, portanto, era forte a influência céltica no país. Os celtas (ou gauleses) eram considerados um povo feroz, bárbaro, tendo-se dito que ofereciam seus prisioneiros de guerra como sacrifícios humanos. Têm sido também descritos na literatura romana como muito emotivos, supersticiosos, dados a muitos ritos, e esta tendência religiosa provavelmente influía para se manterem longe de uma forma de adoração tão desprovida de ritos como o cristianismo.

Mesmo assim, as congregações na Galácia talvez incluíssem muitos que anteriormente tinham sido assim como pagãos, bem como muitos conversos do judaísmo, que não se livraram totalmente da observância escrupulosa das cerimônias e outras obrigações da Lei mosaica. A natureza volúvel, inconstante, atribuída aos gálatas de origem céltica explica como, em certa época, alguns nas congregações gálatas eram zelosos pela verdade de Deus, e pouco depois se tornaram presa fácil de oponentes da verdade, os quais insistiam na observância meticulosa da Lei, bem como na circuncisão e em outros requisitos da Lei como necessários para a salvação.

Os judaizantes, como poderiam ser chamados tais inimigos da verdade, pelo visto mantinham a questão da circuncisão acesa, mesmo depois de os apóstolos e outros anciãos em Jerusalém terem tratado do assunto. Talvez, também, alguns dos cristãos gálatas sucumbissem às baixas normas de moral da população, conforme se pode inferir da mensagem da carta a partir do capítulo 5, versículo 13, até o fim dela. De qualquer modo, quando o apóstolo soube do desvio deles, sentiu-se induzido a escrever esta carta de conselho franco e de forte encorajamento. É evidente que seu objetivo imediato ao escrever era confirmar seu apostolado, refutar os ensinos falsos dos judaizantes e fortalecer os irmãos nas congregações gálatas.

Os judaizantes eram astutos e insinceros. (At 15:1; Gál 2:4) Afirmando representar a congregação de Jerusalém, estes falsos instrutores se opunham a Paulo e desacreditavam a posição dele como apóstolo. Queriam que os cristãos fossem circuncidados, não nos melhores interesses dos gálatas, mas para que os judaizantes pudessem criar uma aparência que granjearia a aprovação dos judeus e os impediria de se oporem tão violentamente. Os judaizantes não queriam sofrer perseguição por causa de Cristo. — Gál 6:12, 13.

Para atingirem seu objetivo, afirmavam que Paulo recebera sua comissão de segunda mão, que lhe fora dada apenas por alguns homens de destaque na congregação cristã — não do próprio Cristo Jesus. (Gál 1:11, 12, 15-20) Queriam que os gálatas os seguissem (4:17), e para anular a influência de Paulo, primeiro tinham de apresentá-lo como não sendo apóstolo. Aparentemente, eles afirmavam que Paulo, quando achava conveniente, pregava a circuncisão. (1:10; 5:11) Tentavam fazer uma espécie de fusão de religião entre o cristianismo e o judaísmo, não negando diretamente a Cristo, mas argumentando que a circuncisão seria de proveito para os gálatas, que os faria progredir no cristianismo, e que, além disso, com ela seriam filhos de Abraão, a quem originalmente foi dado o pacto da circuncisão. — 3:7.

Paulo refutou cabalmente as alegações desses falsos cristãos e edificou os irmãos gálatas, para que pudessem manter-se firmes em Cristo. É animador notar que as congregações gálatas permaneceram fiéis a Cristo e se mantiveram como colunas da verdade. O apóstolo Paulo visitou-as na sua terceira viagem missionária (At 18:23) e o apóstolo Pedro dirigiu sua primeira carta aos gálatas, entre outros. — 1Pe 1:1.

IX. Teologia da Carta aos Gálatas
         Ø  Teologia da Carta aos Gálatas

Mais estudos sobre a Carta aos Gálatas:




Bibliografia. J. M. G. Barclay, Obeying the Truth: Paul’s Ethics in Galatians (Minneapolis, 1991); J. D. G. Dunn, The Theology of Paul’s Letter to the Galatians (Cambridge, 1993); R. B. Hays, The Faith of Jesus Christ: An Investigation of the Narrative Substructure of Galatians 3:1–4:11. SBLDS 56 (Chico, 1983); R. N. Longenecker, Galatians. WBC 41 (Waco, 1990); F. J. Matera, Galatians. Sacra Pagina 9 (Collegeville, 1992). Freedman, D. N., Myers, A. C., & Beck, A. B. (2000). Eerdmans Dictionary of the Bible. Grand Rapids, Mich.:W.B. Eerdmans.

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