Materiais Têxteis — Enciclopédia Bíblica Online
Na Bíblia, materiais têxteis são tratados como parte da cultura material que estrutura vida doméstica, economia, culto e imaginação simbólica, de modo que o tecido pode ser simultaneamente recurso técnico, marcador social e linguagem religiosa: em cenários cortesãos, o repertório de tecidos finos (incluindo o termo por vezes traduzido por “algodão”) aparece associado a ornamentação e ostentação régia (Et 1:6); no âmbito da casa, o linho fino e tecidos de prestígio figuram como sinais de capacidade produtiva e provisão (Pv 31:22); em circuitos comerciais, têxteis surgem como mercadoria transregional e componente técnico de navegação (Ez 27:7), e em listas de luxo urbano a seda, o linho fino e tecidos tingidos são enquadrados como bens de alto valor ligados a sistemas econômicos que podem ser julgados (Ap 18:12, 16); no culto, o linho e fios tingidos integram a própria “arquitetura” do santuário e das vestes sacerdotais, e a oposição linho/lã pode ser normatizada como disciplina do serviço (Êx 26:1, 7, 14; 28:5–6; Ez 44:17–18); no direito, a mistura de fibras (lã e linho) é interditada como prática de separação de categorias no cotidiano (Lv 19:19; Dt 22:11); na narrativa, vestes de luxo funcionam como caracterização moral e social (Lc 16:19), enquanto o pano de saco e tecidos ásperos aparecem como gestos públicos de luto, contrição e crise (Gn 37:34; Jn 3:5–6; Jr 6:26; Is 50:3); e, no Apocalipse, o tecido é elevado a signo teológico, em que o “linho finíssimo” pode significar identidade e retidão comunitária, ao passo que o “saco” dramatiza ruptura cósmica (Ap 19:8; 6:12).
I. Delimitação semântica e filológica
No léxico bíblico, o domínio “têxtil” não se deixa reduzir a uma lista simples de “materiais”: ele é formado por (i) termos de fibra/tecido (matéria e manufatura), (ii) termos de cor/tingimento, que frequentemente funcionam como metonímias de tecidos socialmente valorizados, e (iii) termos de acabamento e qualidade (“linho fino”, “linho finíssimo”), que atravessam registros cultuais, cortesãos e econômicos. A delimitação filológica depende, portanto, de observar se o vocábulo designa a matéria (p. ex., seda), o produto (tecido/vestimenta), ou um atributo (cor, brilho, finura) que pode aderir a diferentes suportes materiais. Essa distinção é decisiva para não confundir “púrpura” e “escarlata” (categorias cromático-sociais) com “linho finíssimo” e “seda” (categorias materiais/manufatureiras), nem tomar como “tecido” um termo que, em certos contextos, designa pedra ornamental.
O caso-limite do corpus canônico é Ester 1.6, onde a descrição do átrio real combina elementos têxteis, cordoaria e materiais arquitetônicos; o hebraico traz, entre outros, a sequência חוּר כַּרְפַּס וּתְכֵלֶת (ḥûr “branco”; karpas “karpas/tecido fino”; təḵēlet “azul”). O substantivo כַּרְפַּס (karpas “karpas/tecido fino”) é raro (ocorre apenas aqui no Texto Massorético) e é tratado nos léxicos como termo de origem estrangeira, com campo semântico oscilando entre “algodão” e “linho fino”, o que explica o espectro tradutório. Em português, essa oscilação fica visível quando se comparam traduções que optam por cromatizar o termo (ACF: “verde”, em “pano branco, verde e azul”) com outras que o materializam como tecido fino (ARA: “linho fino, branco e azul”), e com outras que explicitam “algodão” (NVT: “cortinas brancas e azuis… presas… em colunas de mármore”). No inglês, a mesma fratura aparece entre versões que mantêm a leitura cromática (“green”) e as que preferem a leitura material (“cotton”/“linen”): por exemplo, ESV: “white cotton curtains”, ESV; NIV: “white and blue linen”, NIV; ASV: “white cloth, of green, and of blue” (o ponto aqui não é “quem está certo”, mas que o texto hebraico comporta leituras diferentes na passagem ao vernáculo). Nesse mesmo versículo, a Septuaginta é útil por preservar o termo como tecnicismo têxtil, com βυσσίνοις καὶ καρπασίνοις (byssinois kai karpasinois “de linho finíssimo e de karpas”), indicando que o tradutor grego entendeu a palavra como nome de tecido (não apenas como cor). Esse dado, por sua vez, ajuda a contextualizar por que algumas tradições vernáculas tendem a “descolorir” o termo e tratá-lo como material (“algodão”, “linho”), ainda que tradições como a da ACF/KJV conservem uma leitura cromática.
No grego do NT, a delimitação do vocabulário têxtil se torna mais transparente porque o texto frequentemente põe lado a lado material e tecido tingido. Em Lucas 16:19, o retrato do rico articula exatamente essa gramática social: πορφύραν καὶ βύσσον (porphyran kai bysson “púrpura e linho finíssimo”), em que πορφύρα (porphyra “púrpura”) funciona como marcador de vestimenta tingida de alto custo e βύσσος (byssos “linho finíssimo”) como tecido de luxo. Em Apocalipse 18:12, o catálogo mercantil torna explícita a coexistência de material e cor/tingimento: βυσσίνου καὶ πορφύρας καὶ (σ)ιρικοῦ καὶ κοκκίνου (byssinou kai porphyras kai (s)īrikou kai kokkinou “linho finíssimo, púrpura, seda e escarlata”), onde βύσσινος (byssinos “de linho finíssimo”) e o termo de “seda” (grafado σιρικοῦ no texto de Nestle 1904 ali citado) aparecem no mesmo nível que os tecidos tingidos (púrpura/escarlata), confirmando que “púrpura” e “escarlata” funcionam como categorias têxteis por cor e prestígio, não como fibras. Em Apocalipse 19:8, a palavra-chave é βύσσινον (byssinon “linho finíssimo”), e o próprio enunciado define sua função simbólica (“o linho finíssimo” como representação de “atos justos”), de modo que o dado filológico relevante aqui é a estabilidade do termo para “linho finíssimo” e sua capacidade de operar como imagem ética sem perder o referente material.
II. Fibras vegetais e ‘tecidos finos’: algodão e linho
No AT, “algodão” como rótulo vernáculo se concentra praticamente em Ester 1:6, e o interesse enciclopédico do versículo está menos no número de ocorrências e mais na variação tradutória que ele produz por causa de כַּרְפַּס (karpas, “tecido fino/algodão”). Em português, a divergência torna-se metodologicamente relevante porque altera a natureza do inventário descrito: a ACF verte “As tapeçarias eram de pano branco, verde, e azul celeste”, tratando o termo como cor e integrando-o à tríade cromática; já a ARA verte “Havia tecido branco, linho fino e estofas de púrpura”, deslocando o centro para materiais e qualidades têxteis. A NVT, ao contrário, explicita a opção material ao dizer “cortinas brancas de algodão”, e, no inglês, a ESV converge na mesma direção (“white cotton curtains”), enquanto a NIV prefere “linen” (“white and blue linen”), deixando claro que o ponto de oscilação é precisamente se כַּרְפַּס (karpas, “tecido fino/algodão”) deve ser traduzido como uma cor (“verde”) ou como um tecido (algodão/linho). Aqui a LXX é pertinente porque a construção κεκοσμημένῃ βυσσίνοις καὶ καρπασίνοις (kekosmēménē byssinois kai karpasinois — “ornamentada com linho finíssimo e com karpas”) reforça uma leitura em que o par é de natureza têxtil, não cromática, e isso ajuda a compreender por que várias tradições modernas evitam “verde” e preferem “linho/algodão”.
O vocábulo “linho”, por sua vez, não depende de um único locus e apresenta ampla distribuição no AT e no NT, alternando entre uso cotidiano, linguagem de distinção social e emprego no comércio internacional. Em Provérbios 31:22, o texto é direto ao associar status e vestuário: “veste-se de linho fino e de púrpura”, sem exigir discussão filológica para a leitura em português, porque a oposição implícita é social (tecido de alto valor + tecido tingido de prestígio). Em Ezequiel 27:7, o “linho fino bordado do Egito” figura como item de excelência no quadro do comércio e da navegação de Tiro, novamente com sentido transparente em português e com função de catálogo econômico. No NT, Lucas 16:19 retoma o mesmo par simbólico-social (“púrpura” e “linho finíssimo”), e a redação em ARA/ACF coincide no essencial (“linho finíssimo”), de modo que não se impõe cotejo amplo de versões para estabelecer o sentido: trata-se de vestimenta de luxo como marcador narrativo de riqueza. Em Apocalipse 18:12, a lista mercantil reúne “linho fino, púrpura, seda e escarlata”, e o valor do verso para o verbete está em exibir, num mesmo inventário, tecido de qualidade (“linho fino”), tecido de cor/prestígio (“púrpura”, “escarlata”) e material associado ao luxo (“seda”), compondo um quadro de consumo e circulação de bens. Finalmente, em Apocalipse 19:8, o “linho finíssimo” aparece com qualificação (“resplandecente e puro”) e interpretação explícita (“atos de justiça”), mostrando como um item de cultura material pode funcionar como signo sem perder a referência a um tecido concreto; a forma lexical permanece a mesma do registro de luxo, mas o enquadramento passa a ser simbólico.
III. Fibras animais: lã, pelo e tecidos “de pelo”
No AT, os têxteis de origem animal aparecem sobretudo como suporte material de normas de separação e de administração do sagrado, bem como como componente de arquitetura cultual. A lã, em particular, entra no vocabulário legal da mistura proibida: Deuteronômio emprega o termo técnico שַׁעַטְנֵז (šaʿaṭnēz “tecido misto”) em associação explícita com צֶמֶר (ṣemer “lã”) e פִּשְׁתִּים (pištîm “linho”), com a fórmula “juntos” (יַחְדָּו) para vedar o uso de “tecido combinando lã e linho” (Dt 22.11). Como esse tecnicismo não descreve apenas “usar lã” ou “usar linho”, mas o estado composto do tecido, algumas versões portuguesas explicitam o aspecto de entrelaçamento: a ARA mantém a linguagem tradicional (“estofos de lã e linho”), enquanto NVI/NVT enfatizam “lã misturada” e “fios … entrelaçados” (Dt 22.11: NVI/ARA/NVT). O mesmo vocabulário técnico é reiterado no corpus legal de Levítico em forma de proibição direta do “vestir” de שַׁעַטְנֵז (šaʿaṭnēz “tecido misto”), preservando a ideia de combinação material como categoria normativa, não apenas como coleção de peças distintas (Lv 19.19).
Ainda no AT, a lã surge como matéria-prima que pode ser submetida a procedimentos de verificação de impureza em itens domésticos. Levítico descreve o exame de “tecido/vestimenta” “de lã ou de linho”, incluindo trama e urdidura, bem como artigos de pele, para fins de declaração de pureza ou impureza (Lv 13.47–59). Nesse domínio, a relevância do dado têxtil não é ornamental, mas administrativa: o texto trata o vestuário como superfície suscetível de afecção e, portanto, como objeto de triagem e de decisão comunitária, o que pressupõe circulação social ampla desses materiais e um vocabulário técnico capaz de distinguir tipos de tecido, estrutura (trama/urdidura) e extensão do dano (Lv 13.47–50).
No conjunto cultual do tabernáculo, o pelo de cabra é empregado como cobertura funcional da tenda, em contraste com camadas internas mais elaboradas. Êxodo prescreve “cortinas de pelo de cabra” para “tenda sobre o tabernáculo”, formulado no hebraico como יְרִיעֹת עִזִּים (yəriʿōt ʿizzîm “cortinas de cabras [pelo]”), com quantidade e medidas especificadas no mesmo bloco (Êx 26.7). Aqui, o dado determinante é a função arquitetônica: trata-se de uma camada têxtil de cobertura, associada ao “sobre” (estrutura superior), não ao paramento diretamente visível do interior. A conexão entre “pelo de cabra” e desempenho de proteção (resistência/isolamento) é uma inferência a partir do uso de tecidos de pelo em coberturas de tenda no ambiente pastoril antigo; o texto, em si, limita-se a prescrever o material e sua posição na montagem (Êx 26.7).
No NT, o pelo entra como marcador de austeridade no vestuário de João Batista. Mateus descreve sua roupa como “de pelos de camelo”, expressão que, no grego, aparece como ἀπὸ τριχῶν καμήλου (apo trichōn kamēlou “de pelos de camelo”), integrando-se a um quadro de simplicidade material (Mt 3.4). O elemento têxtil, portanto, não funciona aqui como indicador de prestígio, mas como sinal externo coerente com um perfil de vida despojado e com a retórica de urgência moral do anúncio no deserto (Mt 3:4).
Em linguagem visionária, o “tecido de pelo” é transposto para a descrição cósmica do escurecimento: Apocalipse formula a imagem com σάκκος τρίχινος (sakkos trichinos “saco de crina/tecido de pelo”), comparando o sol escurecido a esse tecido áspero (Ap 6.12). (Nesse ponto, a escolha tradutória afeta diretamente a visibilidade do componente “pelo”: a ARA verte “saco de crina” (Ap 6.12), enquanto a ACF prefere “saco de cilício” (Ap 6.12), solução que pode preservar o valor de luto/aspereza, mas tende a ocultar, ao leitor comum, a referência explícita ao material “de pelo” presente no grego.
IV. Tecidos rudes e performativos: luto, penitência e crise pública
No vocabulário bíblico, “pano de saco” designa um tecido grosseiro associado tanto ao uso utilitário (sacos e empacotamento) quanto, de modo marcante, a práticas públicas e corporais de luto e humilhação. No AT, a palavra padrão é שַׂק (śaq “pano de saco”), cujo valor semântico abrange “tecido grosseiro/estopa” e, por extensão, “saco” como objeto; no NT, aparece o correlato grego σάκκος (sakkos “pano de saco”), empregado para o mesmo campo de gestos sociais de aflição e suplicação.
Em narrativas do AT, o pano de saco funciona como um marcador convencional de pranto: em Gênesis 37:34, Jacó “cingiu-se de pano de saco” ao crer na morte de José, gesto que integra a sequência ritualizada “rasgar vestes → vestir pano de saco → lamentar” (Gn 37.34). No livro de Jonas, a mesma materialidade é mobilizada como resposta coletiva a uma crise anunciada: os ninivitas “vestiram-se de panos de saco” em escala social (“desde o maior até o menor”) e o rei, ao receber a notícia, “cobriu-se de pano de saco” e se assentou sobre cinza, compondo um protocolo público de contrição e urgência política (Jn 3.5–6).
Em registros proféticos, o pano de saco aparece como peça performativa convocada para dramatizar iminência de juízo e desamparo coletivo. Jeremias 6:26 ordena “cinge-te de saco” como gesto adequado a um lamento “como por um filho único”, e, aqui, a variação vernácula é relevante porque pode ocultar o referente têxtil: enquanto a ACF mantém “saco” (Jr 6.26), a NVT explicita “pano de saco” (Jr 6.26), solução que preserva com mais transparência o sentido de vestimenta/tecido áspero, não de recipiente. Em Isaías 50:3, a imagem é cosmológica (“ponho pano de saco por sua coberta”), e o contraste entre ARA (“pano de saco”) e ACF (“um saco”) torna-se igualmente significativo para evitar leitura concreta inadequada: a metáfora supõe um “revestimento” têxtil, não um objeto contêiner.
No NT, a função do pano de saco é reempregada em chave visionária: Apocalipse 6:12 descreve o sol tornando-se “negro como saco de crina”, isto é, comparado ao aspecto escuro e áspero do pano de luto, convertendo um item de cultura material em linguagem de colapso cósmico.
V. Tecidos tingidos e materiais “de prestígio”
No AT, “púrpura”, “escarlata” e “azul” designam, com frequência, não um cromatismo genérico, mas matérias têxteis qualificadas por tingimento caro e controlado, sobretudo em contextos cultuais (tabernáculo e vestes sacerdotais). A tríade aparece como especificação de insumos para fios/tecidos de confecção litúrgica, em fórmulas do tipo “תְּכֵלֶת (təkēlet “azul”), אַרְגָּמָן (ʾargāmān “púrpura”), תּוֹלַעַת שָׁנִי (tōlaʿat šānî “escarlata”)” (Êx 26.1; cf. Êx 25.4; 28.5). Um ganho filológico relevante é que, na tradição grega do AT, esses itens são estabilizados como termos têxteis e não meramente “cores”: em Êxodo 26:1, a LXX verte a fórmula com ὑάκινθος (hyakinthos “azul-jacinto”), πορφύρα (porphyra “púrpura”) e κόκκινον (kokkinon “escarlata”), preservando a noção de matéria tingida/fiada para o santuário (Êx 26:1).
Esse estatuto “material” se torna mais claro quando se considera a base econômico-técnica do tingimento antigo. A púrpura, em particular, é associada, em fontes históricas e de história material, ao uso de corantes extraídos de moluscos do gênero murex, com grande custo de produção e forte marca social, o que explica sua recorrência como marcador de distinção. No mesmo eixo, o escarlata do AT é semanticamente sugestivo já na expressão תּוֹלַעַת שָׁנִי (tōlaʿat šānî “escarlata”), em que o componente “verme/inseto” remete ao universo de corantes oriundos de insetos (família dos “kermes/cochonilhas” do Mediterrâneo), com longa história de uso em têxteis de luxo. Quanto ao “azul” cultual (תְּכֵלֶת, təkēlet “azul”), a literatura especializada sobre corantes antigos e têxteis do Levante discute, com base material e analítica, a associação entre təkēlet/ʾargāmān e tecnologias de tingimento marinho do Mediterrâneo oriental, o que ajuda a compreender por que, em textos normativos, essas matérias aparecem lado a lado como insumos de alto valor e controle sacerdotal (Êx 25.4; 26.1).
No NT, a púrpura conserva essa densidade socioeconômica e passa a nomear tanto o bem de luxo quanto o circuito mercantil. Em Atos dos Apóstolos, Lídia é descrita com o termo πορφυρόπωλις (porphyrōpōlis “comerciante de púrpura”), o que admite, no plano semântico, a venda do tecido tingido (ou de bens em púrpura), não apenas do “corante” abstrato; por isso, algumas versões explicitam “tecido de púrpura”, enquanto outras mantêm a forma mais curta “púrpura”. Compare-se, por exemplo, ARA: “vendedora de púrpura” (At 16.14) com NVI: “vendedora de tecido de púrpura” e NVT: “comerciante de tecido de púrpura”. Essa variação tradutória é relevante porque preserva, com maior ou menor explicitação, o dado principal do texto: “púrpura” funciona como categoria econômica de têxteis de prestígio, e não como simples atributo cromático.
A mesma lógica reaparece como teatralização política na narrativa da paixão, quando a vestimenta de escárnio é descrita como “púrpura” em Marcos e como “escarlata” em Mateus, com efeitos distintos na recepção moderna, embora ambos remetam ao repertório de cores de poder e ostentação no imaginário romano. Em ARA, Marcos registra: “Vestiram-no de púrpura” (Mc 15.17), enquanto Mateus registra: “cobriram-no com um manto escarlate” (Mt 27.28). Por fim, no Apocalipse, “púrpura” e “escarlata” condensam, em chave simbólico-social, o luxo, a circulação mercantil e a corrupção sistêmica: a figura é “vestida de púrpura e escarlata” (Ap 17.4) e a lista de mercadorias inclui “púrpura… e escarlata” (Ap 18.12), culminando no lamento pela “cidade… vestida… de púrpura e de escarlata” (Ap 18.16).
VI. Culto e espaços sagrados
No complexo cultual do tabernáculo, o tecido não funciona apenas como “decoração”, mas como componente arquitetônico: o espaço é construído por camadas de cortinas e coberturas que delimitam volumes, estabelecem fronteiras e controlam acesso. Em Êxodo 26:1, a unidade interna é descrita como cortinas de “linho retorcido” e fios tingidos, com querubins em “obra de artista”; no hebraico, o núcleo técnico está em שֵׁשׁ (šēš "linho fino") qualificado por מָשְׁזָר (māšzār "retorcido"), sinalizando fibra escolhida e acabamento de torção como requisito do próprio espaço sagrado.
A sequência de Êxodo 26 organiza uma “estratigrafia” material: por cima das cortinas internas vêm as cortinas “de pelos de cabra” como tenda (Êx 26.7), e sobre elas aparecem coberturas de peles, incluindo peles de carneiro tingidas de vermelho e uma camada externa de “peles finas”, cujo vocabulário de tradução oscila em tradições antigas por identificar precisamente o animal, mas cujo sentido funcional é o de cobertura protetiva superior (Êx 26.14). Nesse conjunto, o texto coloca em contraste direto uma camada interna altamente trabalhada e camadas externas de proteção, de modo que a materialidade do tabernáculo articula, ao mesmo tempo, separação interna e resguardo externo (Êx 26.1, 7, 14).
A mesma gramática têxtil é transposta do espaço para o corpo no regime das vestes sacerdotais: Êxodo 28:5–6 enumera os materiais do éfode como “ouro, estofo azul, púrpura, carmesim e linho fino”, e insiste na execução “de obra esmerada”, indicando que, no ofício, o tecido é parte constitutiva da forma institucional do culto e não um adereço contingente (Êx 28.5–6). Quando a tradição grega verte esse conjunto, ela usa βύσσος (byssos "linho fino") para o item “linho”, mostrando que, já na antiguidade, o termo foi entendido como tecido fino e qualificado, não como qualquer fibra indistinta (Êx 28.5).
Em Ezequiel 44:17–18, a norma sobre materiais explicita uma disciplina do corpo em serviço: ao entrar no átrio interior, os sacerdotes devem vestir “vestes de linho” e “não se porá lã” sobre eles; e, no detalhamento, a regra culmina na proibição de se cingirem de modo a produzir suor (Ez 44.17–18). O hebraico concentra a oposição em צֶמֶר (ṣemer "lã") versus פִשְׁתִּים (pištîm "linho") e fecha com לֹא יַחְגְּרוּ בַּיָּזַע (lō yaḥgerû bayyāzaʿ "não se cingirão com suor"), o que vincula diretamente escolha de fibra e efeito corporal (Ez 44.17–18). Nesse ponto, a comparação de versões é útil porque algumas tornam explícito o alcance da cláusula final: a ARA mantém “não se cingirão a ponto de lhes vir suor” (Ez 44.18), enquanto a NVI explicita “Não vestirão nada que os faça transpirar” (Ez 44.18), reforçando que a norma não descreve apenas um detalhe de vestimenta, mas impõe uma disciplina material do serviço.
VII. Economia, comércio e “cadeia produtiva”
O emprego de têxteis como mercadoria é particularmente visível em textos que representam circuitos de troca de longa distância e infraestrutura marítima. Em Ezequiel 27, Tiro é apresentada como polo de redistribuição (“mercadora dos povos” em “muitas ilhas”), fórmula em que o hebraico utiliza רֹכֶלֶת הָעַמִּים (rōḵelet hāʿammîm “mercadora dos povos”) para caracterizar uma cidade cujo perfil econômico é essencialmente interregional (Ez 27.3). Nesse quadro, itens têxteis aparecem não como adereço, mas como componentes de “cadeia produtiva” do navio: o texto menciona “linho fino bordado do Egito” como “vela” e “azul e púrpura” como “toldo” (Ez 27.7), o que integra tecido, tingimento, procedência geográfica e função técnica em uma mesma linha descritiva. A comparação entre versões é útil apenas no ponto em que a função do tecido se deixa ler de formas ligeiramente distintas: a ARA descreve “vela” e “toldo” (Ez 27.7), enquanto a ACF prefere “cortina” para o primeiro item e conserva “vela” como função (“cortina, para te servir de vela”), evidenciando que o mesmo elemento pode ser traduzido ora pela peça (cortina/pano), ora pelo uso náutico (vela) (Ez 27.7).
Em Apocalipse 18, o léxico mercantil é organizado como inventário de “cargas” e, dentro dele, os têxteis aparecem como mercadorias de alto valor agregadas a metais preciosos, especiarias e outros bens. O elenco inclui “linho fino, púrpura, seda e tecido escarlate” (Ap 18.12: NVI/NVT/ACF), e a própria lamentação reforça o vínculo entre indumentária luxuosa e riqueza concentrada ao descrever a “grande cidade” como “vestida de linho finíssimo, de púrpura, e de escarlata” (Ap 18.16: ARA/ACF). O texto não se limita ao catálogo; ele explicita a dimensão logística e marítima do colapso econômico, ao alinhar “piloto”, “navegante”, “marinheiros” e “quantos labutam no mar” como observadores do desastre, articulando têxteis, enriquecimento mercantil e transporte como um mesmo sistema (Ap 18.17).
VIII. Culto e espaços sagrados
Êxodo descreve o tabernáculo com linguagem marcadamente têxtil: sua “arquitetura” é apresentada, antes de tudo, como um sistema de cortinas e coberturas, em camadas, nas quais a matéria e a técnica aparecem como parte da gramática da santidade. O núcleo interno é confeccionado com “linho retorcido” e fios coloridos, com querubins “de obra de artista” (Êx 26.1). Na matriz hebraica, aparecem termos que delimitam com precisão esse repertório: שֵׁשׁ (šēš “linho fino”), מָשְׁזָר (māšzār “retorcido”), תְּכֵלֶת (təkēlet “azul”), אַרְגָּמָן (ʾargāmān “púrpura”) e תּוֹלַעַת שָׁנִי (tôlaʿat šānî “escarlata”), compondo uma textura litúrgica em que o espaço sagrado é “vestido” por tecido (Êx 26.1 ARA). O efeito literário é que o recinto não é descrito como pedra/monumento, mas como uma estrutura feita de matéria trabalhada: beleza interna e separação ritual expressas por fibras, cores e bordado.
A camada externa desloca o foco do “ornamento” para a função protetiva. A tenda que recobre o tabernáculo é feita “de pelos de cabra”, explicitando um material distinto do linho fino (Êx 26.7 ARA; hebraico: עִזִּים (ʿizzîm “cabras”). Em Êxodo 26:14, o texto acrescenta ainda coberturas de peles: “peles de carneiros tintas de vermelho” e uma segunda cobertura superior. Nesse ponto, a variação tradutória é relevante porque sinaliza incerteza lexical no último material: a ACF verte “peles de texugo” (“…e outra coberta de peles de texugo em cima”, Êx 26.14), enquanto NVI e NVT optam por uma formulação genérica (“…e por cima, uma coberta de couro fino”, Êx 26.14) e a ARA também generaliza (“…e coberta de peles finas por cima”, Êx 26.14). O hebraico apresenta עֹרֹת תְּחָשִׁים (ʿōrōt təḥāšîm “peles de təḥāšîm”), expressão cujo referente zoológico é discutido, o que explica a oscilação entre especificação (“texugo”) e generalização (“couro/peles finas”) nas versões (Êx 26.14).
A mesma lógica de materiais reaparece nas vestes sacerdotais, conectando o “tecido do espaço” ao “tecido do ministro”. Êxodo 28:5–6 determina que se use “ouro, estofo azul, púrpura, carmesim e linho fino”, e que se faça a estola sacerdotal com esses materiais, incluindo “linho fino retorcido” (Êx 28:5–6). No hebraico, a lista retoma o vocabulário cromático e têxtil: זָהָב (zāhāb “ouro”), תְּכֵלֶת (təkēlet “azul”), אַרְגָּמָן (ʾargāmān “púrpura”), תּוֹלַעַת שָׁנִי (tôlaʿat šānî “escarlata”) e שֵׁשׁ (šēš “linho fino”), além do termo do paramento אֵפוֹד (ʾēfōd “estola/efod”), compondo uma continuidade proposital entre tabernáculo e vestimenta: os mesmos materiais que “delimitam” o sagrado em cortinas passam a “delimitar” o corpo em serviço (Êx 28:5–6).
Em Ezequiel 44:17–18, a distinção entre fibras é explicitada como norma ritual: ao entrarem no átrio interior, os sacerdotes “usarão vestes de linho; não se porá lã sobre eles” e, com detalhes, “não se cingirão a ponto de lhes vir suor” (Ez 44.17–18). A formulação hebraica é direta: בִּגְדֵי פִשְׁתִּים (bigdê pištîm “vestes de linho”) e a proibição “não subirá sobre eles” lã, צֶמֶר (ṣemer “lã”), no exercício do culto (Ez 44.17). Aqui, o texto associa o material a uma disciplina corporal no serviço: a seleção do linho (fibra mais “fria” e menos propensa a reter calor) é apresentada, no próprio versículo, em conexão com a prevenção do suor, isto é, com uma materialidade controlada que evita efeitos corporais incompatíveis com o regime de santidade descrito no contexto imediato (Ez 44.18 ARA).
IX. Vestimenta, corpo e narrativa
Neste eixo, os têxteis entram como marcadores narrativos do corpo: primeiro, no âmbito doméstico, como índice de provisão e distinção social; depois, em cenas de contraste ético, como sinal condensado de posição e distância; por fim, nos relatos de sepultamento, como elemento material que enquadra o tratamento do corpo e explicita costumes funerários. O interesse recai menos na “lista” de materiais e mais no modo como a referência ao tecido organiza a cena, seja por metonímia econômica, seja por densidade simbólica, seja por descrição ritualizada do cuidado com o cadáver.
Em Provérbios 31:22, a menção têxtil é apresentada como competência e prosperidade domésticas: “Faz para si cobertas, veste-se de linho fino e de púrpura.” Nesse versículo, o tecido aparece como produto de gestão da casa e como forma visível de distinção, sem exigir digressões técnicas para ser compreendido no português. Ainda assim, a variação de tradução é relevante porque altera o referente material: enquanto ARA e NVI mantêm “linho fino”, a ACF verte por “seda” (“Faz para si cobertas, e veste-se de seda e de púrpura.”), deslocando a imagem para outra categoria de fibra e, com isso, reforçando um imaginário de luxo que não é necessariamente o primeiro plano do texto sapiencial.
Em Lucas 16:19, o tecido funciona como atalho narrativo para situar o personagem num regime de consumo e ostentação: “Ora, havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que todos os dias se regalava esplendidamente.” A economia do enunciado está justamente em dispensar inventários: a indumentária basta para construir a moldura social do enredo e preparar o contraste ético subsequente, de modo que o detalhe têxtil não opera como informação “decorativa”, mas como peça estrutural da caracterização.
Nos relatos funerários, o tecido adquire função descritiva e normativa: ele é parte do procedimento pelo qual o corpo é tratado, envolvido e depositado. Marcos 15:46 registra a compra e o uso de um “lençol” (ARA: “Tendo comprado um lençol, descendo-o da cruz, envolveu-o no lençol…”). A NVI explicita “lençol de linho” na mesma passagem, e a ACF fala em “lençol fino”. O dado decisivo, aqui, é que o próprio texto grego emprega σινδόνα (sindona, “lençol”) e τῇ σινδόνι (tē sindoni, “no lençol”), o que autoriza com segurança a ideia de um pano de envolver, enquanto a especificação do tipo de fibra (p. ex., “linho”) depende de opção tradutória e de plausibilidade cultural, não de um qualificativo explícito na frase. Lucas 23:53 mantém o mesmo núcleo descritivo: “καὶ καθελὼν ἐνετύλιξεν αὐτὸ σινδόνι” (kai kathelōn enetylixen auto sindoni, “e, tendo-o descido, envolveu-o em lençol”), novamente com σινδόνι (sindoni, “em lençol”), reforçando o quadro narrativo do corpo envolto e depositado. A NVI traduz de modo plenamente alinhado a esse gesto: “Depois de baixá-lo, envolveu-o em um lençol de linho…”.
João 19:40, por sua vez, desloca o foco do “lençol” unitário para múltiplos panos de envolvimento e, além disso, explicita o enquadramento costumeiro do ato. O NA28 traz: “ἔδησαν αὐτὸ ὀθονίοις… καθὼς ἔθος ἐστὶν τοῖς Ἰουδαίοις ἐνταφιάζειν” (edēsan auto othoniois… kathōs ethos estin tois Ioudaiois entaphiazein, “ataram-no com panos… como é costume entre os judeus sepultar”). A forma ὀθονίοις (othoniois, “panos/faixas”) favorece traduções que evidenciam a pluralidade de tecidos: NVI: “faixas de linho”; NVT: “lençóis compridos de linho”; enquanto a ARA opta por “lençóis” (“envolveram o corpo de Jesus em lençóis com os aromas”). A diferença entre um pano de envolver (σινδών, sindōn, “lençol”) e panos/faixas (ὀθόνια, othonia, “panos”) não precisa ser tratada como contradição: ela pode ser lida como variação descritiva legítima, em que cada narrativa seleciona o detalhe têxtil que melhor serve ao seu recorte do rito e ao seu modo de expor o cuidado com o corpo.
X. Leis e fronteiras: a leitura cultural do “tecido proibido”
A proibição de vestir tecido “misto” aparece como um subcaso de uma família mais ampla de interdições de “mescla” no núcleo legal do Pentateuco, articulada por paralelismo formal com a mistura de espécies animais e de sementes. Em Levítico, a formulação é triádica e encadeada: “não permitirás que os teus animais se ajuntem com os de espécie diversa;... não semearás semente de duas espécies; nem usarás roupa de dois estofos misturados” (Lv 19.19). Nesse ponto, o destaque não recai em uma justificativa explícita, mas na função normativa: impor ao cotidiano uma disciplina de separação de “tipos” (espécies, sementes, materiais), coerente com o vocabulário de santidade como distinção no conjunto maior do livro (cf. Lv 20.26). A força do texto está menos em oferecer uma razão etiológica e mais em produzir um padrão cultural repetível, no qual a integridade das categorias é tratada como bem jurídico-religioso.
Em Deuteronômio, o mesmo princípio aparece concentrado num pequeno bloco de proibições correlatas: “Não semearás a tua vinha com duas espécies de semente... Não lavrarás com junta de boi e jumento. Não te vestirás de estofos de lã e linho juntamente” (Dt 22.9–11). A sequência literária é relevante porque a interdição têxtil não ocorre isolada: ela é posicionada como um terceiro exemplo, após agricultura (sementes) e trabalho rural (animais sob jugo), compondo um campo semântico de “não hibridar” práticas que, no ambiente agrário, significavam cruzar limites estabelecidos. O versículo seguinte introduz imediatamente uma regra sobre o próprio vestuário (“Farás borlas…”), intensificando a percepção de que a roupa é tratada ali como suporte material de uma identidade regulada por mandamentos (Dt 22.12). A leitura de “fronteira identitária” decorre como inferência diretamente apoiada nessa vizinhança textual: a legislação desloca a distinção do domínio ritual abstrato para a superfície visível do corpo, fazendo do vestir-se um ato cotidiano normativamente qualificado.
O dado lexical decisivo é que Deuteronômio explicita o composto proibido com a aposição “lã e linho”: לֹא תִלְבַּשׁ שַׁעַטְנֵז צֶמֶר וּפִשְׁתִּים יַחְדָּו (שַׁעַטְנֵז šaʿaṭnēz “tecido misto”; צֶמֶר ṣemer “lã”; פִּשְׁתִּים pištîm “linho”). Esse recorte torna o caso têxtil mais específico do que o enunciado de Levítico, que fala genericamente de “roupa de dois estofos misturados” (Lv 19.19). Justamente por isso, algumas versões vertem Levítico com generalidade (“dois tipos de tecido”) e mantêm em Deuteronômio a especificação “lã” e “linho”, refletindo níveis diferentes de explicitação no próprio texto hebraico: em Levítico 19.19, por exemplo, NVI/NVT optam por “dois tipos de tecido”, enquanto ARA preserva “dois estofos misturados”; em Deuteronômio 22.11, NVI registra “lã misturada com linho”, ARA mantém “estofos de lã e linho”, e NVT explicita “fios de lã e linho entrelaçados”. Nesse ponto, a comparação não serve para “harmonizar” textos distintos, mas para evidenciar que Levítico formula a regra em termos de categoria (“dois tipos”), enquanto Deuteronômio a ancora em um par concreto de fibras; esse desnível é um dado exegético do próprio corpus legal.
O hebraico de Levítico inclui, além da proibição, o vocábulo técnico que a tradição posterior tratou como marcador do interdito: וּבֶגֶד כִּלְאַיִם שַׁעַטְנֵז לֹא יַעֲלֶה עָלֶיךָ (כִּלְאַיִם kilʾayim “mescla/hibridação”; שַׁעַטְנֵז šaʿaṭnēz “tecido misto”). A presença conjunta de kilʾayim (“mesclas”) e šaʿaṭnēz (“misto” têxtil) faz o texto operar com uma gramática de separações que não precisa ser traduzida como “higiene” ou “utilidade”: ela é, antes, um modo de organizar fronteiras simbólicas por meio de práticas materiais. Onde o leitor contemporâneo tende a ler “mistura” como mero dado técnico, o texto legal a trata como categoria moralmente qualificada, integrada a um conjunto de distinções que atravessa agricultura, trabalho e vestimenta (Lv 19.19; Dt 22.9–12).
XI. Símbolos escatológicos e teologia do tecido
No Apocalipse, certos tecidos deixam de funcionar apenas como descrição de vestuário e passam a operar como signos narrativos que codificam pertença, juízo e reversão escatológica. O caso mais explícito é Apocalipse 19:8, onde “linho finíssimo” recebe uma interpretação intratextual: “Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos” (Ap 19:8). A formulação não apenas associa tecido e conduta, mas transforma o vestuário em índice visível de identidade comunitária e de qualificação moral no cenário do triunfo final. Nessa passagem, a divergência entre versões pode afetar a leitura do valor semântico: a ARA traz “atos de justiça”, enquanto a ACF verte “justiças dos santos”, deslocando levemente o foco de ações concretas para uma noção mais substantivada de “justiças” como qualidade/estado (Ap 19:8).
A imagem do vestuário nupcial condensa um duplo movimento: dom e evidência. A frase “foi-lhe dado” vincula a preparação da noiva a uma concessão, mas o próprio versículo interpreta o tecido em chave ética ao definir que o linho corresponde aos “atos de justiça/atos justos” dos santos. Essa leitura é sustentada pela explicação intratextual do grego, em que βύσσινον (byssinon [“linho finíssimo”]) é explicitamente correlacionado a δικαιώματα (dikaiōmata [“atos de justiça”]), isto é, não a um símbolo neutro de status, mas a uma marca visível de retidão praticada; a ênfase no plural favorece a noção de atos concretos, recorrentes, em vez de um atributo abstrato isolado (SMALLEY, The Revelation to John, 2005, p. 483). No mesmo sentido, a tradição expositiva pentecostal explicita que o “linho finíssimo” deve ser lido como figura das “ações justas” que caracterizam o povo redimido, preservando a conexão entre a dádiva escatológica e a vida moral que a acompanha (HORTON, Apocalipse, 2001, p. 203). Quando se observa o modo como traduções em português registram essa cláusula interpretativa, percebe-se que a variação não altera o núcleo semântico, mas muda o grau de concretude do referente: a ARA verte “atos de justiça” (Ap 19.8) , a NVI traz “atos de justiça” (Ap 19.8) , enquanto a ACF opta por “justiças dos santos” (Ap 19.8) ; essa diferença de escolha lexical pode afetar o leitor ao oscilar entre “atos” (ênfase em práticas) e “justiças” (ênfase mais substantivada), embora todas mantenham a interpretação interna do versículo de que o tecido aponta para a retidão dos santos.
A mesma semântica reaparece, de modo coerente, na descrição dos exércitos celestes em Apocalipse 19:14: “com vestiduras de linho finíssimo, branco e puro” (Ap 19:14). Aqui o tecido participa da iconografia de vitória e pureza, funcionando como marcador visual de alinhamento com o cavaleiro vencedor, sem exigir que o leitor procure fora do livro um “código” para decifrar o símbolo, pois o próprio capítulo já ofereceu o eixo interpretativo em 19:8. A recorrência do “linho finíssimo” em 19:8 e 19:14, portanto, não é repetição ornamental, mas uma amarra semiótica: o vestuário comunica pertencimento e legitimação no clímax narrativo (Ap 19:8; Ap 19:14).
O contraste interno mais significativo para uma “teologia do tecido” surge quando o Apocalipse associa materiais têxteis ao luxo e à economia de Babilônia. Em Apocalipse 18:12, o “linho finíssimo” integra uma lista de mercadorias de alto valor ao lado de “púrpura”, “seda” e “escarlata” (Ap 18:12), e em Apocalipse 18:16 a cidade é representada como “vestida de linho finíssimo, púrpura e escarlata” (Ap 18:16). Nessa moldura, o tecido não significa santidade, mas ostentação e acumulação; o mesmo item que em 19:8 é reconfigurado como emblema de retidão aparece em 18:12 e 18:16 como índice de uma ordem econômica que o texto denuncia e julga. A pertinência do paralelo está no uso do mesmo campo material (tecidos preciosos) para construir, por oposição, dois regimes simbólicos: o “linho finíssimo” como sinal de comunidade legitimada e o “linho finíssimo” como sinal de luxo condenado (Ap 18:12, 16; Ap 19:8).
A recorrência do tecido conecta a pureza do cortejo nupcial à pureza do cortejo vitorioso e evita que o “branco” seja lido apenas como cor litúrgica ou estética; trata-se de uma continuidade de identidade. O comentário de Kistemaker explicita a questão interpretativa central do versículo — se os “exércitos do céu” devem ser entendidos como anjos ou como santos glorificados — e observa que o próprio uso do linho, em associação com a simbologia de vestes brancas, funciona como marcador de pertencimento ao povo de Deus e de participação na vitória do Cordeiro, mantendo aberta a alternativa anjos/santos, mas amarrando o sentido do vestuário à santidade e à fidelidade dos seguidores (KISTEMAKER, Apocalipse, 2004, p. 658). Smalley, ao articular a lógica simbólica do “branco” em Apocalipse, também aproxima o “linho finíssimo” do imaginário de pureza e vitória que circunda o Messias e seus seguidores no clímax narrativo (SMALLEY, op. cit., p. 149). As traduções em português, aqui, convergem com alta estabilidade lexical, reforçando a leitura de que o texto pretende um signo reconhecível e reiterado: “linho fino, branco e puro” (Ap 19.14) e “vestiduras de linho finíssimo, branco e puro” (Ap 19.14) ; a consistência reduz o risco de leitura equívoca e favorece a conexão temática com Apocalipse 19.8, em que o mesmo tecido é interpretado como correlato da vida justa dos santos.
Em Apocalipse 6:12, o “saco” aparece como componente de uma imagética cósmica de colapso: “O sol se tornou negro como saco de crina” (Ap 6:12). A função do tecido aqui é cromática e dramática: a negrura de um pano áspero serve como medida comparativa para a alteração do cosmos, e o vestuário (ou material de luto) converte-se em metáfora de ruptura. O ponto decisivo, para fins lexicais e simbólicos, é que algumas tradições traduzem o comparativo com outra designação de pano rude (“saco de cilício”, na ACF), sem alterar o efeito retórico do texto, que depende da ideia de tecido escuro e grosseiro como imagem de obscurecimento e consternação (Ap 6:12). Assim, o Apocalipse articula um eixo de contraste: “linho finíssimo” (branco/puro; identidade e legitimação em 19:8, 14) e “saco” (escuro/áspero; como medida imagética do juízo em 6:12), enquanto o catálogo de 18:12 e a indumentária de 18:16 inserem os mesmos materiais no vocabulário do luxo que precede a queda.
XII. Materiais têxteis no AOP e no mundo romano
A evidência documental e arqueológica disponível indica que os materiais têxteis não constituíam um “segmento doméstico marginal”, mas um eixo estrutural de produção, administração e redistribuição de riqueza, com impacto direto na organização do trabalho, na padronização de medidas e na linguagem pública de distinção social. No Antigo Oriente Próximo, a documentação cuneiforme (palaciana e, sobretudo, templária) permite observar cadeias produtivas formalizadas, com entradas e saídas registradas, categorias de trabalhadores, controle de qualidade e circulação de panos como bens administráveis, em lógicas que vão além do consumo privado (QUILLIEN, Royal Dress and the Expression of Power in Babylonia, 2024, pp. 325-344).
Ainda no Oriente Próximo, os têxteis aparecem como interface entre economia e culto: vestir, cobrir, adornar e manter tecidos associados ao espaço sagrado e aos seus agentes envolve padrões de oferta, inventários e regimes de provisão, de modo que certos “tecidos” funcionam como unidades de valor e como sinais institucionais. Esse recorte é desenvolvido com foco no Mediterrâneo antigo e seus ambientes religiosos, assunto que reúne estudos sobre guarda-roupa cultual, práticas templárias e os seus correlatos sociais, incluindo casos do Oriente (como o dossiê relativo a Palmyra) em chave de status e representação (CLELAND, Not Nothing, 2017, pp. 26–35).
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| Impressão de tecido na parte interna de um selo de argila, Kültepe, século 19 aC, Anadolu Medeniyetleri Müzesi. Foto: C. Michel, missão arqueológica © Kültepe. |
A tecnologia de tratamento do pano (lavagem, branqueamento, “acabamento”, correções de superfície e recuperação de peças) é um ponto particularmente instrutivo para conectar o Oriente Próximo e Roma, porque desloca o olhar do “tecido como objeto” para o “tecido como processo”. Para a Mesopotâmia paleobabilônica, um estudo de referência examina um texto acádio conhecido pela tradição moderna como “At the Cleaners”, propondo uma reconstrução das etapas de lavagem e tratamento de vestes de luxo e discutindo inclusive remuneração de trabalhadores do setor (WASSERMAN, Treating Garments in the Old Babylonian Period, 2013, pp. 255-277) Já para o mundo romano, a especialização urbana aparece de maneira paradigmática nas fullonicae (instalações de lavagem e acabamento), cuja leitura arqueológica enfatiza infraestrutura, escalas de serviço e integração com circuitos econômicos citadinos (WILSON, The archaeology of the Roman fullonica, 2003, pp. 442-446).
No que concerne especificamente ao algodão em contexto romano do século I, um ponto de ancoragem empírico importante vem do porto de Berenice (Mar Vermelho), onde fragmentos têxteis de algodão foram interpretados como remanescentes de velas, com reforços em grade e associação com outras peças de algodão e linho, situados em depósito datado do século I d.C.; trata-se de evidência direta de uso técnico (marítimo) e de inserção do algodão em rotas de longa distância conectando o Império Romano e o Oceano Índico (SCHIFFMAN, The Bible and the Dead Sea scrolls, 2001, pp. 555-568).
A dimensão “simbólica” dos têxteis, quando examinada em chave histórico-social, é inseparável dos regimes materiais de cor e raridade, especialmente tinturas de alto prestígio. A chamada púrpura de molusco (frequentemente rotulada, na tradição moderna, como “tíria/real”) é objeto de consolidação recente em arqueometria e química aplicada, com ênfase na identificação do corante em vestígios têxteis e nas condições físico-químicas do tingimento (KARAPANAGIOTIS, A Review on the Archaeological Chemistry of Shellfish Purple, 2019). Em paralelo, a discussão sobre produção em escala e instrumental associado recebeu um impulso com o estudo de Tel Shiqmona, que apresenta evidência analítica e contextual para um centro especializado de produção de púrpura no Levante durante a Idade do Ferro (SHALVI, Tel Shiqmona during the Iron Age, 2025). Para a Mesopotâmia do I milênio a.C., a articulação entre vestuário/insígnias e comunicação política do poder pode ser vista, em outro registro, que trata o traje como linguagem corpórea de autoridade (cf. QUILLIEN, 2024).
A bibliografia vinculada acima cobre com boa densidade (i) economia institucional e circulação (com ênfase em documentação do Oriente Próximo), (ii) têxteis em ambientes cultuais mediterrâneos, (iii) tecnologias de tratamento e acabamento (Mesopotâmia e Roma), (iv) algodão em aplicação marítima no século I e (v) química arqueológica da púrpura e seus contextos produtivos. Ela não esgota, porém, todos os materiais (como seda) na janela “Roma do século I”, porque o conjunto aqui lastreado foi montado deliberadamente com base em itens de acesso estável e verificável; quando houver interesse, a ampliação mais eficiente é por uma trilha bibliográfica específica para seda (rotas, terminologia técnica e evidência têxtil) em periódicos de história econômica e arqueologia romana, mantendo o mesmo critério de link resolúvel e metadados completos.
Bibliografia
SMALLEY, Stephen S. The Revelation to John: a commentary on the Greek text of the Apocalypse. London: Society for Promoting Christian Knowledge, 2005.
HORTON, Stanley M. Apocalipse: as coisas que brevemente devem acontecer. Tradução de Cláudio Rogério. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2001.
KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
QUILLIEN, Louise. Royal dress and the expression of power in Babylonia, first millennium BCE. Journal of Ancient Near Eastern History, v. 11, n. 2, pp. 325–344, 2024. DOI: doi.org/10.1515/janeh-2024-0007.
CLELAND, Liza. Not Nothing: Conceptualising Textile Whiteness for Cult Practice. In: BRØNS, Cecilie; NOSCH, Marie-Louise (Org.). Textiles and Cult in the Ancient Mediterranean. Oxford; Philadelphia: Oxbow Books, 2017. pp. 26–35. DOI: hdoi.org/10.2307/j.ctvh1dszk.7.
WASSERMAN, Nathan. Treating Garments in the Old Babylonian Period: “At the Cleaners” in a Comparative View. Iraq, v. 75, pp. 255–277, 2013. DOI: doi.org/10.1017/S0021088900000486.
WILSON, Andrew I. The archaeology of the Roman fullonica. Journal of Roman Archaeology, v. 16, pp. 442–446, 2003. DOI: doi.org/10.1017/S1047759400013258. Acesso em: 12 jan. 2026.
SCHIFFMAN, Lawrence H. The Bible and the Dead Sea scrolls. The Social Science Journal, v. 38, n. 4, p. 555–568, 2001.
KARAPANAGIOTIS, Ioannis. A Review on the Archaeological Chemistry of Shellfish Purple. Sustainability, v. 11, n. 13, art. 3595, 2019. DOI: doi.org/10.3390/su11133595.
SHALVI, G.; SUKENIK, N.; WAIMAN-BARAK, P.; DUNSETH, Z. C.; BAR, S.; PINSKY, S.; ILUZ, D.; AMAR, Z.; GILBOA, A. Tel Shiqmona during the Iron Age: A first glimpse into an ancient Mediterranean purple dye “factory”. PLOS ONE, v. 20, n. 4, e0321082, 2025. DOI: doi.org/10.1371/journal.pone.0321082.
Cite este artigo:
GALVÃO, Eduardo. Materiais Têxteis. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 16 jul. 2009. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].
