2011/03/12

Evangelho de João — Unidade Literária

Unidade Literária do Evangelho de João

Unidade Literária do Evangelho de João


O quarto Evangelho dá a impressão geral de uma única unidade, um todo. Contudo, a própria possibilidade de fontes levou alguns críticos a fazerem teorias acerca das seções de narrativa que se encontram deslocadas. É sugerido que ou o redator errou ao conferir seu material ou talvez algumas das folhas do manuscrito foram “deslocadas” entre o tempo da escrita e a publicação de nossa cópia mais antiga deste Evangelho. A isto são acrescentadas teorias acerca de material disparatado no corpo do Evangelho. Os estudiosos modernos não mais consideram seriamente a ideia acerca de folhas erroneamente localizadas, por causa da própria natureza dos materiais de escrita do primeiro século. Com esta teoria, não mais em voga, as outras ficam de pé quanto à validade da teoria. Será mostrado que o método e a estrutura do quarto Evangelho foram propositais e que o Evangelho inteiro deve ser tratado como um todo literário.

Há vários lugares onde pareceria que a sequência de eventos e pensamentos seria melhorada se houvesse uma reorganização do texto. Os mais sérios destes são os seguintes: Diz-se que 3:22-30 se encaixaria melhor depois de 2:12, porque, em sua atual posição, esse trecho interrompe a conversa entre Jesus e Nicodemos; os capítulos 5 e 6 precisam ser transpostos, porque Jesus está na Galiléia no final do capítulo 4 e início do capítulo 6, enquanto os capítulos 5 e 7 apresentam-no como estando na Judeia; João 7:15-24 parece ser uma continuação da controvérsia do capítulo 5, e 7:25 segue mais logicamente 7:13 do que o faz o versículo 14; João 10:19-29 continua o argumento do capítulo 9, e 10:30 normalmente segue 10:18, e 10:1-18 naturalmente segue 10:19-29; carece de um reposicionamento os capítulos 13-16, porque 14:31 parece estar no fim do cenário do cenáculo e, contudo, três capítulos se seguem antes de Jesus e os discípulos deixarem o local.

Os argumentos para uma reorganização do texto são baseados em vários fatores. Notadamente, entre estes está a hipótese de que o autor foi particularmente meticuloso acerca de detalhes geográficos e cronológicos. Também muita parte deste material não se encaixa dentro da estrutura dos Evangelhos Sinópticos. Vimos, contudo, que João não dependeu dos Sinópticos, para sua informação, e que é mais fácil colocar a narrativa sinóptica na estrutura cronológica de João do que “deslocar” o material joanino, para tentar conformá-lo à estrutura de Marcos. As teorias dos “deslocamentos” afetam o material de narrativa mais que o material discursivo, e são, portanto, de auxílio duvidoso. O Evangelho, como o temos, contém uma razoável impressão de continuidade, que bem representa o argumento teológico de seu autor. Nem as teorias acerca dos deslocamentos, nem de redação, são necessárias para explicar o atual Evangelho.

Quanto aos argumentos em favor do deslocamento, não há nenhum consenso de que o Batista não poderia ter dito as palavras encontradas em 3:31-36. A transição de 3:30 para o versículo seguinte é leve demais para se pensar que o Batista não esteja ainda falando. O conteúdo de 3:31-36 continua o pensamento iniciado em 3:22 acerca da relação do Batista para com Jesus: o Batista está subordinado a Jesus em 3:22-30 e Jesus é apresentado como superior ao Batista em 3:31-36. A mesma idéia estende-se por toda parte, expressa em dois aspectos diferentes: primeiro do Batista para com Jesus e depois de Jesus para com o Batista.

A inversão dos capítulos 5 e 6 apresenta problemas especiais. Embora a ação no capítulo 6 não ocorra na Galiléia (como acontece no capítulo 4), enquanto a dos capítulos 5 e 7 ocorre em Jerusalém, não há razão suficiente para se pressupor um deslocamento. Na realidade, o estabelecimento da natureza de Jesus como divina no capítulo 5 é necessário ao argumento básico do capítulo 6. A saída apressada de Jerusalém seguir-se-ia naturalmente aos eventos do capítulo 5, e a crise no final do capítulo 6 teria acontecido cedo demais, se precedesse o capítulo 5. A importância para o argumento do autor no capítulo 5 é vista como sendo necessária para o discurso e a crise encontrados no capítulo 6. O argumento acerca do deslocamento de 7:15-24 só pode ser sustentado se o capítulo 7 devesse seguir o capítulo 5.

A passagem acerca da porta (10:1-18) é mais provável de precipitar as palavras dos judeus em 10:19 (e a resposta de Jesus) do que a declaração de Jesus em 9:41. Outra vez a presença de conflito em 10:31 é vista como resultante da declaração de Jesus na passagem anterior (10:19-29, juntamente com o versículo 30). Esta passagem inteira de discurso e conflito só pode ser vista e entendida se considerada em sua ordem e contexto presentes. Qualquer tentativa de reposicionamento só poderia ser feita em bases altamente objetivas.

A transposição dos capítulos 13-16 é, no mínimo, arbitrária, e leva a enorme confusão. Deve ser admitido que João 14:31 realmente parece terminar o discurso e três capítulos ainda se seguem antes de Jesus e os discípulos deixarem a sala. Contudo, as tentativas de transposição destroem a unidade de pensamento encontrada nesta passagem. Se os capítulos 15 e 16 precedem o 14, então a pergunta de Tomé (14:5) seria necessária após a afirmação de Jesus em 16:5-11. As palavras acerca do Consolador em 15:26 também parecem pressupor as palavras encontradas em 14:16-18. O capítulo 14 contém muito material que é pressuposto em ambos os capítulos 15 e 16. A transposição de qualquer destes versículos iria causar mais confusão do que a causada pelo versículo 14:31. Seria melhor tentar encontrar o que o autor quer dizer nesse versículo do que procurar razões para o deslocamento.

Todas as hipóteses acerca da reorganização são de valor ambíguo. As reconstruções são de valor duvidoso, porque não produzem nem a seqüência original das palavras autoritárias de Jesus nem o propósito pretendido do autor. A estrutura do Evangelho, como o temos, foi talhada pelas idéias que dominavam o pensamento do autor. O processo de reorganização é altamente subjetivo e produz uma obra mutilada, que se conforma aos padrões de uma pessoa. Anos atrás, James Moffatt escreveu que o quarto Evangelho foi composto de tal maneira, que os documentos anteriores não mais podem ser identificados sem recorrer a idéias altamente arbitrárias de procedimento literário e reconstruções especulativas. O Evangelho inteiro, como ele está agora, tem um sentido de continuidade que pode bem apresentar a intenção original do autor. As transposições de versos selecionados terminam em exercícios de futilidade.

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