Jó 1 — Comentário de Albert Barnes

Jó 1 — Comentário de Albert Barnes

Albert Barnes (1798–1870) foi um teólogo, exegeta e pregador presbiteriano norte-americano, amplamente reconhecido por sua monumental obra de comentários bíblicos intitulada Notes on the Old and New Testaments, publicada entre 1832 e 1870. Formado pelo Princeton Theological Seminary, Barnes destacou-se por combinar erudição filológica e sensibilidade pastoral, buscando tornar a exegese acessível ao público leigo. Suas anotações cobrem quase toda a Bíblia, tornaram-se uma das coleções devocionais mais lidas do século XIX no mundo anglófono, consolidando-o como uma das vozes mais respeitadas do comentário bíblico no contexto estadunidense do século XIX.


Jó 1:1
“Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e esse homem era íntegro e reto, e temia a Deus e se desviava do mal.”

Havia um homem – Isto traz em si o aspecto de uma narrativa veraz. Muitos consideraram o livro inteiro uma ficção e supuseram que jamais existiu alguém como Jó. Mas o livro começa com aparência de realidade; e a declaração expressa de que tal homem existiu, a menção de seu nome e do lugar onde viveu, mostram o desígnio do autor de asseverar que, de fato, houve tal homem. Sobre esta questão, veja a Introdução, §1.

Na terra de Uz – Sobre a questão de onde Jó viveu, cf. Introdução, §2.

Cujo nome era Jó – O nome Jó (hebraico איּוֹב ʾiyyōb, grego Ἰώβ Iōb) significa propriamente, de acordo com Gesenius, “alguém perseguido”, a partir de uma raiz (איב ʾāyab) que significa “ser inimigo de alguém, perseguir, odiar”. A acepção primária, segundo Gesenius, deve ser buscada em “respirar” ou “soprar contra alguém”, como expressão de raiva ou ódio (alemão Anschnauben). Eichhorn (Einleitung, §638.1) N.T(1) supõe que o nome denote “um homem que se volta penitentemente para Deus”, de um sentido do verbo ainda encontrado em árabe, “arrepender-se”. Nessa suposição, o nome foi dado a ele porque, no final do livro, é representado como exercendo arrependimento pelas expressões impróprias a que se entregou durante seus sofrimentos.

AUXÍLIO AO LEITOR


Johann Gottfried Eichhorn (1752–1827) foi um teólogo protestante e orientalista alemão, pioneiro do método histórico-crítico aplicado à Bíblia, formado em Göttingen sob J. D. Michaelis e professor de Línguas Orientais em Jena e, depois, em Göttingen (onde sucedeu Michaelis e passou a lecionar literatura do Antigo Testamento). O trecho que Barnes cita desse erudito é este:

“Hiob bedeutet einen Mann, der sich bußfertig zu Gott wendet.”
(“Jó significa um homem que se volta para Deus em arrependimento.”)

Referência:

O verbo ocorre apenas uma vez nas Escrituras Hebraicas, em Êxodo 23:22: “Mas se, de fato, ouvires a sua voz e fizeres tudo o que eu disser, então serei inimigo (ʾōyēb) dos teus inimigos.” O particípio ʾōyēb é a palavra comum para denotar “inimigo” no Antigo Testamento (Êxodo 15:6, 9; Levítico 26:25; Números 35:23; Deuteronômio 32:27, 42; Salmo 7:5; 8:2; 31:8; Lamentações 2:4-5; Jó 13:24; 27:7; 33:10 et saepe al).

Se este for o significado correto da palavra “Jó”, então o nome parece ter sido dado a ele por antecipação, ou por consentimento comum, como “um homem muito perseguido”. Nomes significativos eram muito comuns entre os hebreus, dados por antecipação (veja as notas em Isaías 8:18) ou posteriormente, para denotar algum evento importante na vida; compare Gênesis 4:1-2, 25; 5:29; 1 Samuel 1:20. Tal também era o caso entre os romanos, onde o agnomen assim concedido tornava-se a denominação pela qual o indivíduo era mais conhecido. Cícero recebeu seu nome de uma verruga que tinha no rosto, semelhante a uma ervilhaca (cicer em latim).N.T(2) Assim, Marco também recebeu o nome Ancus, da palavra grega ἀγκών (ankōn, “cotovelo”), porque tinha o braço torto; e assim os nomes Africanus, Germanicus etc. foram dados a generais que se destacaram em países específicos (veja Universal History, Ancient Part IX, p. 619, ed. 8vo, Londres, 1779). 
N.T(3) Da mesma forma, é possível que o nome “Jó” tenha sido dado ao emir de Uz por consentimento comum, por ser o homem muito perseguido e provado, e que este tenha se tornado posteriormente o nome pelo qual ficou mais conhecido. O nome ocorre uma vez aplicado a um filho de Issacar (Gênesis 46:13) e em apenas dois outros lugares na Bíblia, fora deste livro: Ezequiel 14:14 e Tiago 5:11.

NOTA DO TRADUTOR


Barnes está se referindo à anedota em Plutarco, Vida de Cícero 1.3–4. Isso estava amplamente disponível no século XIX e é a fonte clássica mais provável de Barnes quando ele menciona o “defeito/‘verruga’ em forma de grão-de-bico”. 

Texto grego (recorte do § 1.3–4):

“κίκερ γὰρ οἱ Λατῖνοι τὸν ἐρέβινθον καλοῦσι... ἀφ’ ἧς ἐκτήσατο τὴν ἐπωνυμίαν.”
(Wikisource)

Tradução inglesa (Loeb, Perrin, recorte):

“For ‘cicer’ is the Latin name for chick-pea... from which he acquired his surname.”
(Penelope)

Minha tradução livre:

“Pois cicer é o nome latino do grão-de-bico,... da qual lhe veio o cognome.”

Referência:

  • PLUTARCH. The Parallel Lives. Vol. VII: Cicero. Transl. Bernadotte Perrin. Cambridge, MA: Harvard University Press; London: William Heinemann, 1919. (Loeb Classical Library). Life of Cicero, 1.3–4.

EXPLICAÇÃO

Barnes nesta referência bibliográfica indicou “Part IX, p. 619”. Nesta tiragem oitavo de 1779 disponível aqui, a mesma nota está nas pp. 418–419 (variações de paginação entre estados/edições explicam a divergência). No vol. IX (1779) de An universal history… a nota “(R)” no início do reinado de Ancus Marcius explica exatamente isso:

“Todo romano tinha, em geral, três e, às vezes, quatro nomes:... o agnomen era um título de honra, como Africanus, Germanicus, etc.... Valério nos conta que Márcio tinha o nome de Ancus, da palavra grega ἀγκών, porque ele tinha um braço torto, que não conseguia esticar em todo o seu comprimento.”

Referência:

AN UNIVERSAL HISTORY, from the earliest accounts to the present time. The Ancient Part. Vol. IX. London: C. Bathurst et al., 1779, p. 418–419 (nota R, ao início do reinado de Ancus Marcius).

E aquele homem era perfeito – (תָּם ṭām). A Septuaginta expandiu bastante esta afirmação, dando uma paráfrase em vez de uma tradução: “Ele era um homem veraz (alēthinos), irrepreensível (amemptos), justo (dikaios), piedoso (theosebēs), abstendo-se de toda má ação.” Jerônimo traduz como simplex – “simples” ou “sincero”. O caldeu traduz שְׁלֵם (šālēm), “completo, acabado, perfeito”.

A ideia parece ser que sua piedade, ou caráter moral, era proporcional e completo em todas as suas partes. Ele era um homem íntegro em todas as relações da vida – como emir, pai, marido e adorador de Deus. Este é o significado apropriado da palavra ṭām, derivada de תָּמַם (tāmam), “completar, tornar pleno, perfeito ou inteiro”. Denota aquilo em que não falta nenhuma parte para completar o todo – como um relógio em que não falta nenhuma roda.N.T(4)

NOTA DO TRADUTOR


Barnes escreveu: “...as in a watch in which no wheel is missing.” No jargão relojoeiro em português, “wheel” verte também “roda” (ex.: roda de escape, roda central, etc.). O termo “engrenagem” também pode ser usado porque pode sugerir o conjunto. Glossários técnicos e museológicos em PT-PT/BR confirmam o uso (“roda de escape”, “rodagem”) — [museudorelogio.com]

Assim, não era meramente honesto como governante, mas também piedoso para com Deus; não apenas gentil com a família, mas justo com os vizinhos e benevolente com os pobres.

A palavra é usada para denotar integridade aplicada ao coração: “Na sinceridade (bĕtōm lĕbābî) do meu coração fiz isto” (Gênesis 20:5). Assim também em 1 Reis 22:34: “Um deles retesou o arco em sua simplicidade (lĕtummō) de coração”, isto é, sem intenção maligna; compare 2 Samuel 15:11; Provérbios 10:9. A noção adequada, portanto, é a de simplicidade, sinceridade, ausência de dolo ou má intenção, e integridade de caráter em sua religião.

Que ele fosse um homem absolutamente sem pecado, ou sem qualquer propensão ao mal, é refutado tanto pelo espírito de queixa que frequentemente demonstra quanto por sua própria confissão (Jó 9:20):

“Se eu me justificar, a minha própria boca me condenará;
Se eu disser que sou perfeito, isso provará que sou perverso.”

E novamente em Jó 42:5-6:

“Com os ouvidos eu ouvira falar de ti,
Mas agora os meus olhos te veem;
Por isso me abomino
E me arrependo no pó e na cinza.”

Compare Eclesiastes 7:20.

E reto – A palavra יָשָׁר (yāšār), de יָשַׁר (yāšar), “ser reto”, é amiúde aplicada a uma estrada que é direita, ou a um caminho plano. Como usada aqui, significa “justo” ou “correto”; compare Salmo 11:7; 37:14; Deuteronômio 32:4; Salmo 33:4.

E aquele que temia a Deus – A religião nas Escrituras é frequentemente representada como “temor de Deus” (Provérbios 1:7, 29; 2:5; 8:13; 14:26-27; Isaías 11:2; Atos 9:31 et saepe al).

E se desviava do mal – “E se afastava (sûr) do mal.” A Septuaginta traduz: “abstendo-se de todo mal”. Estas são, então, as quatro características da piedade de Jó: ele era sincero, íntegro, adorador de Deus e alguém que se abstinha de todo mal. Estes são os elementos essenciais da verdadeira religião em todos os tempos; e toda a declaração do livro mostra que Jó, embora não totalmente livre dos pecados que se apegam à natureza humana, era eminente em cada uma dessas virtudes.

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