Anzol — Enciclopédia Bíblica Online
Na Bíblia, “anzol” designa, em primeiro lugar, um instrumento real de pesca, ligado ao trabalho ordinário, à subsistência e ao manejo concreto das águas. O vocábulo hebraico חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”) aparece nesse sentido em Isaías, quando o colapso do Egito atinge precisamente “todos os que lançam anzol no Nilo” (Is 19.8), e reaparece em Jó, onde o mesmo objeto é colocado em contraste com a grandeza incomensurável do Leviatã: תִּמְשֹׁךְ לִוְיָתָן בְּחַכָּה (timšōk liwyātān bəḥakkāh, “puxarás o Leviatã com anzol?”), de modo que o instrumento comum se torna medida da impotência humana diante do caos (Jó 41.1-2). Em Habacuque, o termo ainda conserva sua materialidade, mas já ingressa na metáfora política: o opressor “faz subir a todos com anzol”, arrasta com rede e recolhe com arrastão, convertendo povos em presa disponível para a violência imperial (Hc 1.15-17). O núcleo semântico, portanto, parte da pesca literal, mas rapidamente se expande para a ideia de captura, sujeição e exposição do ser vivo ao poder de outro.
No Novo Testamento, o grego ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”) ocorre em Mateus 17.27 e preserva o sentido literal do instrumento, mas o reinscreve numa moldura teológica distinta: Jesus ordena a Pedro que lance o anzol e retire o primeiro peixe, do qual virá o estáter para o pagamento devido (Mt 17.27). Nesse contexto, o anzol já não figura humilhação nem violência, mas provisão precisa, suficiente e subordinada à lógica da filiação e da não escandalização. Assim, o significado bíblico do anzol pode ser descrito em dois eixos complementares: de um lado, ele pertence ao universo concreto do trabalho humano e da pesca; de outro, torna-se imagem de captura, juízo e reversão do poder, especialmente quando aplicado a povos, impérios e criaturas indomáveis (Hc 1.15-17; Jó 41.1-2). Em Mateus, porém, esse mesmo instrumento é deslocado para uma economia de provisão governada pela autoridade de Jesus, de modo que o símbolo deixa de apontar para coerção e passa a servir à suficiência providencial (Mt 17.27).
I. Tabela lexical dos termos
| Lexema/forma | Delimitação semântica | Âncoras textuais |
|---|---|---|
| Hb. חַכָּה (ḥakkāh) | “Anzol”, em sentido estrito de instrumento de pesca individual. Campo semântico restrito no TM, com 3 ocorrências. | (Jó 41.1), (Is 19.8), (Hc 1.15) |
| Gr. ἄγκιστρον (agkistron) — NT | “Anzol”, em sentido literal de instrumento de pesca. Única ocorrência neotestamentária. | (Mt 17.27) |
| Gr. ἄγκιστρον (agkistron) — LXX | “Anzol”, com ampliação semântica na tradição grega: além da pesca literal, pode integrar o imaginário de captura política e subjugação. Total de 5 ocorrências na LXX. | (2Rs 19.28), (Jó 40.25 LXX), (Is 19.8), (Ez 32.3), (Hc 1.15) |
| Hb. חָח (ḥāḥ) | “Gancho”, “argola”, “anel de captura”. Campo dominante de captura e subjugação de reis, animais e impérios; uso cultual secundário em contexto de ornamento. Total de 7 ocorrências. | (Ex 35.22), (2Rs 19.28), (Is 37.29), (Ez 19.4), (Ez 19.9), (Ez 29.4), (Ez 38.4) |
| Hb. חוֹחַ (ḥôaḥ) | Predominantemente “espinho”; em contextos específicos, pode estender-se para “gancho” ou instrumento perfurante de captura. Total de 12 ocorrências no levantamento adotado; sentido próximo de “gancho” concentrado em 2 textos principais. | Ocorrências com valor próximo de captura: (2Cr 33.11), (Jó 41.2) |
| Hb. צִנּוֹת (ṣinnôt) | Termo debatido, geralmente entendido como “ganchos”, “farpas” ou “agulhões”. Hapax no contexto de juízo e arrasto violento. | (Am 4.2) |
| סִירוֹת דּוּגָה (sîrôt dûgāh) | Expressão debatida, geralmente entendida como “utensílios de pesca”, “anzóis de pesca” ou instrumento correlato. Hapax com forte carga metafórica e antiga divergência tradutória. | (Am 4.2) |
| Hb. מַזְלֵג (mazleg) | “Garfo sacrificial”, “flesh-hook”. Termo correlato não pesqueiro, útil para o campo ampliado dos instrumentos curvos de tração e manipulação. Total de 7 ocorrências. | (Ex 27.3), (Ex 38.3), (Nm 4.14), (1Sm 2.13), (1Sm 2.14), (2Cr 4.16), (2Cr 35.13) |
| Hb. מַזְמֵרָה (mazmērāh) | “Podadeira”, “pruning-hook”. Termo correlato não pesqueiro, pertencente ao campo de instrumentos curvos de corte e manejo agrícola. Total de 4 ocorrências. | (Is 2.4), (Is 18.5), (Mq 4.3), (Jl 3.10) |
II. Delimitação lexical do anzol nas Escrituras
A delimitação mais segura do motivo do anzol começa pelo núcleo lexical estrito, isto é, pelos lugares em que o texto bíblico emprega o termo propriamente ligado ao instrumento individual de pesca. No hebraico bíblico, esse núcleo é representado por חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”), atestado em (Jó 40.25), (Is 19.8) e (Hc 1.15); no grego do Novo Testamento, o correspondente é ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”), registrado em (Mt 17.27). Em todos esses casos, a referência básica é a de um implemento pontual de captura, não a de um aparelho amplo de recolhimento. Em Isaías, “todos os que lançam חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”) no Nilo” aparecem em paralelo com os que estendem a מִכְמֹרֶת (miḵmōret, “rede”); em Habacuque, o opressor faz subir “a todos com חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”)”, mas também os arrasta com חֵרֶם (ḥērem, “rede”) e os recolhe com מִכְמֶרֶת (miḵmeret, “rede de arrasto”); em Mateus, Jesus ordena a Pedro: βάλε ἄγκιστρον (bale agkistron, “lança o anzol”). A própria disposição lexical dos textos, portanto, já distingue o anzol de instrumentos coletivos de captura.
Essa delimitação se torna ainda mais precisa quando se observa que o mesmo bloco temático pode incluir outros objetos perfurantes sem que eles sejam idênticos ao anzol. Em (Jó 40.25-26), o discurso divino primeiro pergunta se o Leviatã pode ser puxado com חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”) e, em seguida, se sua mandíbula pode ser perfurada com חוֹחַ (ḥôaḥ, “espinho”, “gancho perfurante”, conforme o contexto). A justaposição mostra que o texto não trata qualquer objeto pontiagudo como sinônimo automático de “anzol”; há, antes, uma gradação entre o instrumento de pesca em sentido estrito e outros instrumentos de perfuração ou contenção. Por isso, metodologicamente, “anzol” não deve ser usado como rótulo indiferenciado para todo objeto curvo, cortante ou penetrante presente no campo imagético da captura.
Ao redor desse núcleo estrito, contudo, há um círculo periférico indispensável, formado por lexemas correlatos que participam do mesmo imaginário de sujeição, embora não designem, em seu sentido primário, o anzol de pesca. O principal deles é חָח (ḥāḥ, “gancho”, “argola”, “anel de captura”), cujo emprego oscila entre o ornamento e o instrumento de subjugação. Em (2Rs 19.28) e no paralelo de Isaías 37, a fórmula “porei o meu חָח (ḥāḥ, “gancho/argola”) no teu nariz” retrata o rei assírio como animal dominado; a Septuaginta, nesse mesmo ponto, traduz com ἄγκιστρα (agkistra, “ganchos/anzóis”), aproximando o campo da humilhação política do vocabulário do anzol. É justamente aqui que se percebe por que algumas traduções bíblicas acabam vertendo por “anzol” um termo que, lexicalmente, não pertence ao núcleo pesqueiro estrito: não porque os objetos sejam idênticos, mas porque compartilham a lógica concreta da captura e da condução forçada.
Um segundo nível periférico inclui lexemas ainda mais instáveis, cujo pertencimento ao campo do “anzol” depende fortemente do contexto. O caso mais claro é חוֹחַ (ḥôaḥ, “espinho”; em certos contextos, “gancho perfurante”), cuja distribuição na WLC é majoritariamente botânica, mas que em alguns textos de captura coercitiva adquire valor instrumental. Mais debatido ainda é o par de (Am 4.2), צִנּוֹת (ṣinnôt, “ganchos”, “farpas”, “agulhões”, conforme a leitura) e סִירוֹת דּוּגָה (sîrôt dûgāh, “anzóis de pesca”, “utensílios de pesca”, conforme a proposta). O próprio texto hebraico distingue as duas expressões, e a tradição grega antiga não as resolve por simples equivalência literal, o que recomenda cautela exegética: esses vocábulos pertencem ao horizonte ampliado da captura e do arrasto, mas não devem ser fundidos sem exame prévio com חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”) ou ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”). A delimitação mais rigorosa, portanto, exige dois círculos semânticos: no centro, o anzol de pesca propriamente dito; na periferia, os ganchos, argolas, espinhos perfurantes e instrumentos obscuros de arrasto que compartilham a semântica da apreensão, mas não a identidade lexical estrita do anzol.
A Septuaginta confirma a utilidade dessa distinção, porque ela tanto preserva o núcleo quanto alarga a periferia. Em Isaías 19, traduz חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”) por ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”), mantendo o valor estrito do instrumento de pesca; em 2 Reis 19.28, porém, usa ἄγκιστρα (agkistra, “ganchos/anzóis”) para um contexto de sujeição imperial, não de pesca literal. O resultado hermenêutico é significativo: o grego antigo já percebeu afinidade imagética entre o anzol do pescador e o gancho do dominador, mas essa afinidade não anula a diferença lexical que o hebraico preserva. Por isso, qualquer tratamento tecnicamente rigoroso do tema deve partir da distinção e só depois descrever as aproximações.
III. O anzol como instrumento concreto de pesca
O emprego mais estrito do motivo aparece quando o texto designa o anzol como utensílio real de captura, não como metáfora de humilhação ou de arrasto político. Isaías 19.8 é particularmente importante nesse ponto, porque insere o objeto no quadro do colapso econômico do Egito: וְאָנוּ הַדַּיָּגִים וְאָבְלוּ כָּל־מַשְׁלִיכֵי בַיְאֹר חַכָּה (wəʾānû haddayyāgîm wəʾāḇəlû kol-mašlîḵê bayəʾōr ḥakkāh, “gemerão os pescadores, e se lamentarão todos os que lançam anzol no Nilo”). O versículo prossegue com וּפֹרְשֵׂי מִכְמֹרֶת (ûpōrśê miḵmōret, “os que estendem rede”), de modo que o próprio paralelismo interno distingue entre a pesca por anzol e a pesca por rede. A Septuaginta conserva esse traço com ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”), ao dizer πάντες οἱ βάλλοντες ἄγκιστρον εἰς τὸν ποταμόν (pantes hoi ballontes agkistron eis ton potamon, “todos os que lançam anzol no rio”). Exegeticamente, isso mostra que o juízo não recai apenas sobre um símbolo abstrato de sobrevivência, mas sobre técnicas concretas de trabalho ligadas ao Nilo.
A comparação de versões só se torna realmente necessária nesse versículo porque ela afeta a materialidade do instrumento. Entre as versões inglesas, ESV/NIV preservam “hook/hooks” (“anzol/anzóis”), KJV/ASV mantêm o arcaico “angle”, enquanto a NASB generaliza para “line” (“linha”). Já nas versões portuguesas consultadas, NVI/NVT/NAA usam “anzóis”, e ARA/ARC trazem “anzol”. Nesse ponto, as leituras que preservam “anzol” ou “hook” refletem com mais precisão o hebraico חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”) e a LXX ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”) do que a opção mais genérica “line”, porque o texto não nomeia o conjunto do equipamento, mas o implemento perfurante de captura. A diferença não é meramente estilística: ela decide se o versículo descreve um método técnico específico ou apenas a atividade pesqueira em termos amplos.
Mateus 17.27 desloca o tema para o contexto galileu e o faz com igual concretude. O NA28 traz a ordem de Jesus a Pedro: βάλε ἄγκιστρον (bale agkistron, “lança o anzol”), seguida de τὸν ἀναβάντα πρῶτον ἰχθὺν ἆρον (ton anabanta prōton ichthyn aron, “retira o primeiro peixe que subir”). O instrumento é singular, individual e funcionalmente preciso. Não se trata de cena de captura coletiva, mas de uma ação pontual orientada para a obtenção do στατήρ (statēr, “estáter”) necessário ao pagamento do imposto. As versões convergem amplamente quanto ao núcleo do versículo: KJV/ESV/NASB/NIV mantêm “hook”, e ARA/ARC/NVI/NVT conservam “anzol”. A principal variação aparece não no instrumento, mas na moeda: ARA/ARC preservam “estáter”, a NVI explicita “uma moeda de um estáter”, e a NVT simplifica para “uma moeda de prata”. Essa oscilação monetária não altera o dado central para o tema em questão: o texto grego representa o anzol como utensílio literal de pesca e não como imagem figurada.
O contraste com a pesca por rede, mais visível em outras cenas evangélicas, reforça ainda mais a especificidade de Mateus 17.27. Em Lucas 5.4-6, a terminologia dominante é δίκτυα (diktya, “redes”): χαλάσατε τὰ δίκτυα ὑμῶν εἰς ἄγραν (chalasate ta diktya hymōn eis agran, “lançai as vossas redes para pesca”), e o milagre subsequente se desenrola precisamente nesse horizonte coletivo de captura. A oposição não é entre dois mundos incompatíveis, mas entre dois métodos coexistentes: Isaías 19.8 já havia colocado lado a lado חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”) e מִכְמֹרֶת (miḵmōret, “rede”); Lucas 5 desenvolve a lógica da rede; Mateus 17 preserva a singularidade do anzol. A distinção é exegética, não apenas terminológica: o anzol individualiza a captura, ao passo que a rede supõe volume, colaboração e recolhimento amplo.
O pano de fundo histórico confirma que essa diferenciação não é literariamente artificial. Na região de Betsaida, escavações identificaram “fishing hooks, anchors, line sinkers, and lead net weights”, além de outros implementos ligados à indústria pesqueira do mar da Galileia; em et-Tell, os achados incluem “lead net weights, stone weights, fish hooks, and basalt anchors”, o que mostra a convivência de equipamentos associados tanto à pesca com rede quanto à pesca com linha e anzol. No Egito antigo, por sua vez, museus preservam exemplares materiais de anzóis: o Metropolitan Museum registra peças do Novo Império, datadas de cerca de 1295–1070 a.C., e o British Museum observa que fish hooks são encontrados em numerosos sítios egípcios ao longo da história antiga. Esses dados não “provam” a exegese, mas dão forte plausibilidade histórica ao quadro pressuposto por Isaías 19.8 e por Mateus 17.27: a pesca com anzol era uma técnica efetiva e conhecida, coexistindo com métodos baseados em redes.
A consequência hermenêutica dessa seção é precisa. Isaías 19.8 insere o anzol no universo da subsistência ameaçada: o juízo de Yahweh atinge o rio, a vegetação, os pescadores e os próprios instrumentos de trabalho, de modo que o colapso ecológico se converte em colapso social. Mateus 17.27, em contrapartida, reinscreve o mesmo objeto no horizonte da provisão: o anzol não é ali emblema de penúria, mas meio concreto pelo qual a palavra de Jesus supre o necessário. Nos dois textos, o motivo não perde sua materialidade. O anzol continua sendo anzol. O que muda é a economia teológica em que ele é inserido: em Isaías, ele testemunha a fragilidade do sustento humano quando o Nilo é ferido; em Mateus, ele se torna veículo de uma provisão governada pela autoridade de Jesus.
IV. O anzol diante do caos do Leviatã
No texto hebraico de Jó, a cena decisiva aparece em (Jó 40.25-26), correspondendo a (Jó 41.1-2) na numeração adotada pela maior parte das versões modernas. A primeira pergunta concentra o núcleo do motivo: תִּמְשֹׁךְ לִוְיָתָן בְּחַכָּה (timšōk liwyātān bəḥakkāh, “puxarás o Leviatã com anzol?”). O verso seguinte intensifica a cena com outra forma de contenção: הֲתָשִׂים אַגְמוֹן בְּאַפּוֹ וּבְחֹוחַ תִּקּוֹב לֶחֱיוֹ (haṯāśîm ʾagmôn bəʾappô ûḇəḥôaḥ tiqqōḇ leḥĕyô, “porás uma corda de junco em seu nariz, e com um gancho/espinho perfurarás sua mandíbula?”). O texto não descreve uma pescaria ordinária, mas submete um instrumento comum de captura a um teste de desproporção absoluta: o anzol, normalmente eficaz para o peixe, torna-se verbalmente impotente diante do Leviatã. A própria sintaxe interrogativa produz esse efeito, porque cada pergunta pressupõe uma resposta negativa e, assim, converte o utensílio cotidiano em índice do limite humano.
A progressão retórica do trecho é particularmente densa. Primeiro aparece חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”), termo de pesca em sentido estrito; depois, o discurso passa para אַגְמוֹן (ʾagmôn, “corda de junco”, “junco”), ligado à ideia de contenção; por fim, chega-se a חוֹחַ (ḥôaḥ, “espinho”, “gancho perfurante”, conforme o contexto), agora associado ao verbo תִּקּוֹב (tiqqōḇ, “perfurarás”). O efeito não é redundante. O texto sobe de um simples ato de “puxar” para a hipótese de perfurar e domesticar corporalmente o monstro. A pergunta deixa de ser apenas “é possível capturá-lo?” e passa a ser “é possível reduzi-lo ao regime de um animal submetido?”. É por isso que a sequência desemboca, logo adiante, em fórmulas de submissão irônica — súplicas, pacto, servidão, brincadeira com pássaro — que expõem o absurdo da pretensão humana de tratar o Leviatã como presa domesticável. O anzol, assim, não é aqui o centro temático em si mesmo, mas o primeiro degrau de uma escalada verbal que evidencia a incomensurabilidade da criatura.
A Septuaginta preserva a lógica do contraste, mas a reconfigura de modo significativo. Em (Jó 40.25 LXX), lê-se ἄξεις δὲ δράκοντα ἐν ἀγκίστρῳ (axeis de drakonta en agkistrōi, “farás subir um dragão com anzol?”), onde לִוְיָתָן (liwyātān, “Leviatã”) é traduzido por δράκοντα (drakonta, “dragão”), ao passo que חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”) é vertido por ἀγκίστρῳ (agkistrōi, “anzol”). No verso seguinte, porém, a tradução grega não repete o mesmo vocábulo: εἰ δήσεις κρίκον ἐν τῷ μυκτῆρι αὐτοῦ, ψελίῳ δὲ τρυπήσεις τὸ χεῖλος αὐτοῦ (ei dēseis krikon en tōi myktēri autou, pseliōi de trypēseis to cheilos autou, “porás um anel em sua narina, e com argola perfurarás seu lábio?”). A distinção é exegética e importante: a LXX conserva o “anzol” no primeiro movimento, mas desloca o segundo para o campo do anel, da argola e da perfuração labial. Com isso, ela deixa ainda mais nítido que o texto não gira em torno de um só instrumento repetido mecanicamente; ele avança do imaginário da pesca para o da domesticação humilhante de uma força indomável.
É justamente nos pontos de ambiguidade que a comparação de versões se torna necessária. Em (Jó 41.1), ACF/NVI mantêm “Leviatã”, enquanto a ARA prefere “crocodilo”; entre as inglesas, KJV/ESV/NASB também conservam “Leviathan”. Dado que o hebraico traz לִוְיָתָן (liwyātān, “Leviatã”) e a LXX opta por δράκοντα (drakonta, “dragão”), a leitura “crocodilo” é mais interpretativa e zoológica, ao passo que “Leviatã/Leviathan” preserva melhor a forma lexical e a abertura simbólica do texto. Em (Jó 41.2), a divergência é ainda mais reveladora: KJV e YLT mantêm “thorn” (“espinho”) no segundo hemistíquio, enquanto ESV/ASV/NASB preferem “hook” (“gancho”); em português, ARA/ACF/NVI convergem em “gancho” na segunda metade, mas a ACF fala em “anzol” já no nariz, ao passo que a ARA preserva “vara de junco” na primeira cláusula, solução mais próxima de אַגְמוֹן (ʾagmôn). Essas diferenças mostram que חוֹחַ (ḥôaḥ) ocupa uma zona semântica limítrofe entre “espinho” e “gancho perfurante”. Por isso, a melhor leitura do conjunto não é a de uma descrição zoológica estreita, mas a de uma cena teológica em que o ser humano fracassa diante de uma potência que só Deus pode nomear, interpelar e circunscrever. O anzol, nessa moldura, funciona como símbolo do limite humano perante o caos que não lhe é submetido.
V. A captura dos povos em Habacuque 1.14-17
Habacuque 1.14-17 constrói uma das metáforas políticas mais violentas do profetismo bíblico ao descrever a expansão caldaica sob a figura de uma pesca total. O ponto de partida está em Habacuque 1.14: וַתַּעֲשֶׂה אָדָם כִּדְגֵי הַיָּם כְּרֶמֶשׂ לֹא־מֹשֵׁל בּוֹ (wattaʿăśeh ʾādām kidgê hayyām kərémeś lōʾ-mōšēl bô, “tu fazes o ser humano como os peixes do mar, como o réptil que não tem governante sobre si”). A imagem não descreve pesca comum, mas rebaixamento antropológico. O ser humano, no singular coletivo ʾādām, é colocado no nível de criaturas aquáticas e rastejantes privadas de direção e proteção. A LXX reforça essa linha ao verter: καὶ ποιήσεις τοὺς ἀνθρώπους ὡς τοὺς ἰχθύας τῆς θαλάσσης καὶ ὡς τὰ ἑρπετὰ τὰ οὐκ ἔχοντα ἡγούμενον (kai poiēseis tous anthrōpous hōs tous ichthyas tēs thalassēs kai hōs ta herpeta ta ouk echonta hēgoumenon, “e farás os homens como os peixes do mar e como os répteis que não têm guia”). O centro teológico do versículo está justamente aí: a dominação babilônica é apresentada como processo de despersonalização, no qual povos inteiros deixam de aparecer como comunidades políticas e passam a figurar como fauna capturável.
A sequência de Habacuque 1.15 desenvolve essa desumanização mediante uma tríade técnica de captura: כֻּלֹּה בְּחַכָּה הֵעֲלָה יְגֹרֵהוּ בְחֶרְמוֹ וְיַאַסְפֵהוּ בְּמִכְמַרְתּוֹ (kullōh bəḥakkāh heʿĕlāh, yəgōrēhû bəḥermô, wəyaʾaspēhû bəmikmartô, “a todos faz subir com anzol, arrasta-o com sua rede e o recolhe com seu arrastão/rede de pesca”). O primeiro instrumento, חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”), é o mais individual; os seguintes, חֵרֶם (ḥērem, “rede”) e מִכְמֶרֶת (mikmeret, “rede de arrasto”, “rede de pesca”), ampliam a cena para o recolhimento massivo. A construção é deliberada: do fisgar singular passa-se ao arrastar e, enfim, ao ajuntamento sistemático. A LXX preserva esse gradiente com ἀγκίστρῳ (agkistrōi, “anzol”), ἀμφιβλήστρῳ (amphiblēstrōi, “rede lançada”) e σαγήναις (sagēnais, “redes”), o que confirma que o texto grego antigo também percebeu uma escalada de instrumentos de captura. Nessa passagem, a comparação de versões modernas é realmente útil. KJV/ASV conservam “angle ... net ... drag”, forma mais arcaica, mas próxima da distinção tripla; ESV mantém “hook ... net ... dragnet”; NASB explicita “hook ... net ... fishing net”; e a NVI inglesa lê “hooks ... net ... dragnet”, pluralizando o primeiro instrumento. O bloco ESV/NASB se aproxima melhor da tripla diferenciação do hebraico; a KJV preserva a estrutura, mas com vocabulário hoje menos transparente; já versões mais dinâmicas, como GNT, resumem a imagem em termos mais gerais e perdem parte da progressão técnica do verso.
A cláusula final de Habacuque 1.15 — עַל־כֵּן יִשְׂמַח וְיָגִיל (ʿal-kēn yiśmaḥ wəyāgîl, “por isso ele se alegra e exulta”) — conduz diretamente ao versículo 16, onde a metáfora deixa de ser apenas militar e se torna cultualmente acusatória: עַל־כֵּן יְזַבֵּחַ לְחֶרְמוֹ וִיקַטֵּר לְמִכְמַרְתּוֹ (ʿal-kēn yəzabbēaḥ ləḥermô wîqaṭṭēr ləmikmartô, “por isso sacrifica à sua rede e queima incenso ao seu arrastão/rede de pesca”). O império não apenas captura; ele cultua os próprios meios de captura. A continuação — כִּי בָהֵמָּה שָׁמֵן חֶלְקוֹ וּמַאֲכָלוֹ בְּרִאָה (kî bāhēmmāh šāmēn ḥelqô ûmaʾăkālô bərîʾāh, “pois por elas a sua porção é gorda e a sua comida é farta”) — mostra que a idolatria aqui não é teórica, mas econômica: ele atribui sua abundância aos instrumentos de conquista. A LXX acompanha esse movimento com θύσει τῇ σαγήνῃ αὐτοῦ καὶ θυμιάσει τῷ ἀμφιβλήστρῳ αὐτοῦ (thysei tēi sagēnēi autou kai thymiasei tōi amphiblēstrōi autou, “sacrificará à sua rede e oferecerá incenso ao seu arrastão”). Onde a ambiguidade idiomática pesa, as versões ajudam. ESV/NRSV conservam de modo mais literal “his portion is lavish/rich”; KJV/ASV mantêm “his portion is fat”; NIV traduz de forma mais interpretativa “he lives in luxury”; e NLT transforma a metáfora em comentário explícito: “These nets are the gods who have made us rich!”. Para a leitura filológica do versículo, ACF/ARA e KJV/ASV são mais úteis porque preservam a lógica metafórica do texto; NLT ilumina a idolatria implícita, mas já a explicita além da forma hebraica.
A pergunta final de Habacuque 1.17 fecha a unidade com intensidade ética: הַעַל כֵּן יָרִיק חֶרְמוֹ וְתָמִיד לַהֲרֹג גּוֹיִם לֹא יַחְמוֹל (haʿal kēn yārîq ḥermô wətāmîd lahărōg gôyim lōʾ yaḥmōl, “porventura, por isso, continuará a esvaziar a sua rede e a matar nações sem compaixão?”). O verbo יָרִיק (yārîq, “esvaziar”) é importante, porque mantém a imagem do pescador que despeja sua rede para relançá-la novamente. O problema moral do profeta não é apenas que as nações foram capturadas, mas que o ciclo parece interminável: captura, esvaziamento, nova captura, nova matança. A LXX lê de forma mais ativa e ligeiramente diferente: διὰ τοῦτο ἀμφιβαλεῖ τὸ ἀμφίβληστρον αὐτοῦ καὶ διὰ παντὸς ἀποκτέννειν ἔθνη οὐ φείσεται (dia touto amphibalei to amphiblēstron autou kai dia pantos apoktennein ethnē ou pheisetai, “por isso lançará sua rede e continuamente não poupará em matar nações”), deslocando o foco de “esvaziar” para “lançar novamente”. Essa diferença é exegeticamente relevante: o texto hebraico enfatiza a repetição do processo após o despejo da presa; a LXX enfatiza a reiteração ofensiva do lançamento. Entre as versões modernas, ESV/NIV preservam bem a pergunta contínua — “keep on emptying his net”; KJV/ASV mantêm “empty their/his net ... continually”; já GNT troca a rede por “swords”, o que esclarece a violência, mas abandona o campo imagético dominante do poema. Para a leitura do versículo no seu contexto literário, as versões que conservam a rede são claramente superiores, porque mantêm a unidade metafórica iniciada no versículo 14 e intensificada nos versículos 15-16.
O conjunto de Habacuque 1.14-17, portanto, não usa a pesca como adorno ilustrativo, mas como gramática de conquista total. O ser humano é rebaixado a peixe; o império atua como pescador absoluto; os instrumentos de captura convertem-se em objetos de culto; e a pergunta final expõe a intolerabilidade moral de um sistema que mata povos sem cessar. Nesse quadro, o anzol não é um simples utensílio antigo, mas o primeiro estágio de uma cadeia de violência que progride da apreensão individual ao recolhimento coletivo e à eliminação continuada. A força do texto está em mostrar que a desumanização política não começa apenas quando o sangue é derramado; ela começa quando nações inteiras passam a ser percebidas como presa disponível para a técnica, para o lucro e para o culto do poder.
VI. Samaria arrastada como presa
A unidade de Amos 4.1-3 abre com uma invectiva cuja violência retórica já prepara a cena de captura do versículo seguinte. O hebraico chama as destinatárias de פָּרוֹת הַבָּשָׁן (pārôt habbāšān, “vacas de Basã”), localizando-as “no monte de Samaria” e descrevendo-as como aquelas que “oprimem os pobres” e “esmagam os necessitados”. O efeito da metáfora não é meramente insultuoso. Basã evocava gado bem nutrido; por isso, a imagem combina opulência, saciedade e brutalidade social. O último membro do versículo acrescenta uma ambiguidade importante: הָאֹמְרֹת לַאֲדֹנֵיהֶם (hāʾomərōt laʾădōnêhem, “que dizem a seus senhores/maridos”). Aqui as versões se dividem de modo significativo. KJV/ACF e a NVI-PT mantêm “masters/senhores”, ao passo que ESV/NASB/ARA preferem “husbands/marido(s)”. A própria nota da NASB reconhece que o literal é “lords”, embora traduza “husbands”. Exegeticamente, as duas leituras permanecem possíveis: “maridos” acentua a cumplicidade doméstica da elite; “senhores” preserva a dureza social mais ampla do termo e evita restringir o quadro à esfera conjugal. O versículo, de todo modo, delineia mulheres da aristocracia samaritana cuja vida de consumo repousa sobre a compressão dos vulneráveis.
O ponto mais difícil do texto está em Amos 4.2. O juramento divino “por sua santidade” introduz dois sintagmas raros: וְנִשָּׂא אֶתְכֶם בְּצִנּוֹת (wəniśśāʾ ʾetkem bəṣinnôt, “vos levarão com ṣinnôt”) e וְאַחֲרִיתְכֶן בְּסִירוֹת דּוּגָה (wəʾaḥărîtken bəsîrôt dûgāh, “e o vosso restante/fim com sîrôt dûgāh”). O primeiro termo, ṣinnôt, costuma ser entendido como “ganchos”, “farpas” ou instrumento de arraste; o segundo é ainda mais obscuro e costuma ser associado a “anzóis de pesca”, “fishhooks” ou utensílios correlatos de pesca. É precisamente aqui que não convém dogmatizar a tradução “anzóis” nos dois membros do paralelismo. As versões modernas mostram isso com clareza: KJV/ASV usam “hooks ... fishhooks”; ESV/NIV/NASB seguem a mesma diferenciação básica; ACF traz “ganchos ... anzóis de pesca”; NVI traduz “ganchos ... anzóis”. A distinção entre um primeiro instrumento mais amplo de captura e um segundo explicitamente ligado à pesca se ajusta melhor ao hebraico do que a homogeneização dos dois membros. Também ʾaḥărîtken pode significar “os últimos de vocês” ou “vossa posteridade”, o que explica a oscilação entre “the last of you” e “your posterity/descendentes”. No contexto imediato do juízo iminente, “os últimos de vocês” parece integrar-se melhor à progressão da ameaça do que uma referência genealógica à posteridade.
A Septuaginta não resolve essa dificuldade por equivalência lexical; ao contrário, ela testemunha uma tradição bastante divergente. Em vez de algo como “ganchos” e “anzóis de pesca”, o grego lê ἐν ὅπλοις (en hoplois, “com armas”) e depois descreve os que estão com elas sendo lançados “em caldeirões acesos”, num quadro muito distinto do hebraico massorético. Essa diferença é tão ampla que a LXX, aqui, não pode funcionar como confirmação simples da imagem de peixe fisgado. O seu valor é outro: mostrar que já na Antiguidade o verso era percebido como extremamente difícil e suscetível de releitura. Por isso, a interpretação mais segura deve partir do hebraico preservando a indeterminação material dos instrumentos, mas sem perder o núcleo retórico do texto: as opressoras de Samaria serão tratadas como corpos arrastados, puxados e removidos, isto é, como presa. A imagem não descreve uma cena doméstica, mas uma reversão pública da sua posição social.
O versículo 3 prolonga essa reversão com nova carga de dificuldade textual: וּפְרָצִים תֵּצֶאנָה אִשָּׁה נֶגְדָּהּ (ûpərāṣîm tēṣēʾnāh ʾiššāh negdāh, “pelas brechas saireis, cada mulher em frente de si”) e וְהִשְׁלַכְתֶּנָה הַהַרְמֹנָה (wəhišlaḵtenāh haharmônāh, “e sereis lançadas para Harmona/Harmon”, conforme a leitura). A primeira metade é relativamente clara: a cidade já se encontra rompida, e a saída se dá pelas brechas do muro, não por uma retirada ordenada. A última palavra, porém, permanece obscura. KJV fala em “the palace”, ESV/NASB/NIV mantêm “Harmon/Harmón” como topônimo, e a própria BibleGateway registra nota indicando outra divisão do hebraico, relacionada à Septuaginta. O grego de Amos 4.3 segue caminho diverso e lê “monte Remman”, o que mostra novamente que a tradição textual antiga não conservou uma interpretação única para o verso final. Ainda assim, o eixo semântico do conjunto permanece estável: as mulheres figuradas em Amos 4.1 como “vacas de Basã” e em Amos 4.2 como presas arrastadas terminam, em Amos 4.3, expulsas em desordem, desprovidas de segurança urbana e lançadas para fora do espaço do privilégio.
O quadro completo de Amos 4.1-3 é, portanto, coerente mesmo onde a materialidade dos instrumentos permanece debatida. Primeiro, a elite samaritana é animalizada sob a imagem de gado cevado; depois, essa elite é reconfigurada como presa capturada; por fim, ela é expulsa pelas rupturas de uma cidade vencida. O movimento retórico é descendente e deliberado: abundância → opressão → captura → desterro. Nesse sentido, a linguagem de “ganchos” e “anzóis” não é mero ornamento imagético, mas forma concreta de anunciar uma justiça reversiva. Quem esmagava os necessitados passa a ser arrastado como coisa. Quem vivia no monte de Samaria termina fora dele. E quem tratava os pobres como material explorável acaba sendo apresentado, por sua vez, como corpo transportável e descartável.
VII. Ganchos e Humilhação Imperial na Profecia
A fórmula mais concentrada desse imaginário aparece no oráculo contra o rei assírio em 2 Reis e no seu paralelo em Isaías. Em (2Rs 19.28) e (Is 37.29), o hebraico traz חַחִי בְּאַפֶּךָ (ḥaḥî bəʾappekā, “meu gancho/argola em teu nariz”) em paralelo com וּמִתְגִּי בִּשְׂפָתֶיךָ (ûmiṯgî biśpāṯeḵā, “meu freio em teus lábios”). A justaposição entre “gancho/argola” e “freio” mostra que o quadro não é o de uma pesca literal, mas o de condução forçada e rebaixamento do soberbo à condição de animal controlado. É precisamente aqui que a comparação de versões se torna relevante: a ACF verte “meu anzol no teu nariz”, enquanto a NVT prefere “minha argola em seu nariz”; KJV/ESV/NASB conservam “my hook in your nose”. Filologicamente, “argola” ou “hook” refletem melhor o campo de חָח (ḥāḥ, “gancho”, “argola”, “anel de captura”) do que uma leitura demasiado estreita de “anzol” como instrumento pesqueiro em sentido técnico. O efeito teológico do verso, porém, permanece estável em todas essas leituras: Yahweh responde à arrogância imperial com a imagem da domesticação coercitiva.
Essa mesma lógica reaparece em Ezequiel 19, agora aplicada aos reis de Judá sob a metáfora dos leõezinhos capturados. O texto hebraico diz, em (Ez 19.4), וַיְבִאֻהוּ בַחַחִים אֶל־אֶרֶץ מִצְרָיִם (wayəḇiʾuhû baḥaḥîm ʾel-ʾereṣ miṣrayim, “levaram-no com ganchos para a terra do Egito”); e, em (Ez 19.9), וַיִּתְּנֻהוּ בַסּוּגַר בַּחַחִים (wayyittənuhû bassûgar baḥaḥîm, “puseram-no em jaula, com ganchos”). Aqui a divergência tradutória é importante, porque atinge o núcleo da imagem: ARA/NVI/NVT e ESV/NASB preservam “ganchos/hooks”, ao passo que ACF/KJV falam em “cadeias/chains”. O texto massorético, contudo, repete בַחַחִים (baḥaḥîm, “com ganchos”), não um substantivo para “correntes”. A escolha por “cadeias” comunica bem a ideia de aprisionamento, mas enfraquece a animalização explícita do rei, que no poema é tratado como fera apanhada, enjaulada e transportada. A função do detalhe é decisiva: não basta dizer que o governante foi derrotado; o texto faz dele uma criatura dominada por instrumentos de captura.
Em Ezequiel 29, o mesmo campo imagético se desloca para o Egito e atinge diretamente Faraó, figurado como grande monstro do Nilo. O hebraico de (Ez 29.4) lê וְנָתַתִּי חַחִים בִּלְחָיֶיךָ (wənāṯattî ḥaḥîm bilḥāyeḵā, “porei ganchos em teus queixos/mandíbulas”), seguido da descrição dos peixes do rio aderindo às suas escamas. O versículo intensifica o rebaixamento: o rei que se imagina senhor do Nilo é arrancado do seu próprio elemento como animal aquático fisgado e puxado para fora. Aqui a tradição grega antiga é particularmente instrutiva, porque a Septuaginta usa παγίδας (pagidas, “laços”, “armadilhas”) em vez de ἄγκιστρα (agkistra, “anzóis/ganchos”), ampliando a imagem de captura sem apagar seu caráter coercitivo. Nas versões modernas, a convergência é maior: KJV/ESV/NASB falam em “hooks in your jaws”, e NVI/NVT mantêm “anzóis” ou equivalente funcional no queixo. Nesse ponto, a ambiguidade é menor do que em Ezequiel 19: o texto trabalha claramente com um gesto de tração violenta aplicado a uma criatura monstruosa, e não com simples ornamentação verbal.
A mesma fórmula retorna em (Ez 38.4) contra Gog: וְנָתַתִּי חַחִים בִּלְחָיֶיךָ (wənāṯattî ḥaḥîm bilḥāyeḵā, “porei ganchos em teus queixos/mandíbulas”). O verbo precedente, וְשֹׁובַבְתִּיךָ (wəšōḇaḇtîḵā, “far-te-ei voltar”, “far-te-ei girar”), já sugere condução imposta; os “ganchos” tornam essa condução corporalmente concreta. Também aqui a comparação de versões ajuda. NVI/ACF preservam “anzóis no seu queixo/nos teus queixos”, enquanto NVT/NTLH preferem “argolas” ou “uma argola no seu nariz”, deslocando a cena do campo da captura perfurante para o da condução por argola. O hebraico, porém, conserva a mesma combinação de חַחִים (ḥaḥîm, “ganchos”) com לְחָיַיִם (ləḥāyayim, “queixos/mandíbulas”), o que favorece a manutenção de um instrumento de apreensão aplicado à boca ou mandíbula, não meramente ao nariz. O texto não descreve um convocado honroso, mas um inimigo arrastado para dentro do próprio juízo.
Como inferência exegética a partir desse conjunto, o motivo do “gancho/argola” integra uma teologia política de reversão. Em 2 Reis e Isaías, o império assírio é reduzido à condição de animal conduzido; em Ezequiel 19, os reis de Judá aparecem como leões capturados e enjaulados; em Ezequiel 29, Faraó é arrastado como monstro aquático; e, em Ezequiel 38, Gog é trazido à cena do juízo por meio da mesma linguagem de apreensão mandibular. O ponto comum não é a pesca em sentido literal, mas a representação corporal da soberania divina sobre poderes que se imaginam autônomos. O opressor deixa de ser sujeito da violência e passa a ser objeto dela no plano imagético do oráculo. A força dessa tradição está justamente em não refutar a arrogância imperial apenas com abstrações: ela a degrada visualmente, tratando reis e potências como criaturas capturáveis, conduzidas e expostas pela palavra de Yahweh.
VIII. A Septuaginta e a reorganização do imaginário de captura
A tradição grega da Septuaginta não apenas traduz o motivo do anzol; ela o reorganiza. A concordância da LXX registra o substantivo ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”, “gancho de pesca”) em cinco versículos: 2 Reis 19.28, Jó 40.25 LXX, Isaías 19.8 LXX, Ezequiel 32.3 LXX e Habacuque 1.15 LXX. Três dessas ocorrências pertencem sem dificuldade ao campo do anzol propriamente dito: em Jó 40.25 LXX, a pergunta é se alguém fará subir o “dragão” com ἀγκίστρῳ (agkistrōi, “anzol”); em Isaías 19.8 LXX, os pescadores que lançam ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”) no rio lamentam o colapso do Nilo; e, em Habacuque 1.15 LXX, o conquistador faz subir a presa ἐν ἀγκίστρῳ (en agkistrōi, “com anzol”). Nessas passagens, a LXX preserva o campo da pesca e da captura aquática de maneira relativamente direta.
O movimento realmente interpretativo aparece quando a LXX emprega o mesmo vocábulo em contextos hebraicos que não pertencem, em sentido estrito, ao léxico do anzol de pesca. Em 2 Reis 19.28, o hebraico diz חַחִי בְּאַפֶּךָ (ḥaḥî bəʾappekā, “meu gancho/argola em teu nariz”), com חָח (ḥāḥ, “gancho”, “argola”, “anel de captura”), ao passo que a LXX traduz com τὰ ἄγκιστρά μου (ta agkistra mou, “meus ganchos/anzóis”). O efeito dessa escolha é significativo: o texto grego aproxima a humilhação imperial do imaginário da fisgada e da apreensão. O rei assírio continua sendo rebaixado à condição de criatura controlada, mas o instrumento grego o coloca mais perto do campo imagético da captura agressiva do que o hebraico, que ainda permite pensar mais amplamente em “argola” ou “gancho” nasal. Aqui a Septuaginta não altera a teologia do oráculo, mas intensifica sua concretude coercitiva.
A passagem de Ezequiel 32.3 é ainda mais reveladora, porque aí a LXX não apenas escolhe um equivalente mais forte: ela introduz explicitamente o anzol onde o hebraico massorético fala de rede e arrastão. O texto hebraico traz וּפָרַשְׂתִּי עָלֶיךָ אֶת־רִשְׁתִּי (ûpāraśtî ʿāleḵā ʾet-rištî, “estenderei sobre ti a minha rede”) e וְהֶעֱלוּךָ בְּחֶרְמִי (wəheʿĕlûḵā bəḥermî, “far-te-ão subir com meu arrastão/minha rede”). A LXX, porém, formula: καὶ περιβαλῶ ἐπὶ σὲ δίκτυα (kai peribalō epi se diktya, “lançarei sobre ti redes”) e καὶ ἀνάξω σε ἐν τῷ ἀγκίστρῳ μου (kai anaxō se en tōi agkistrōi mou, “e te farei subir com o meu anzol”). O resultado é uma condensação imagética: Faraó, já figurado como criatura marinha, não é apenas enredado; ele é também “fisgado”. A metáfora de captura política se torna mais aguda, mais visual e mais próxima do universo da pesca individual. Nesse caso, a LXX não só aproxima dois campos semânticos parcialmente distintos; ela efetivamente os funde em uma mesma cena de subjugação.
Essa reorganização, contudo, não é mecânica nem indiscriminada. Um estudo recente sobre a tradução poética de Ezequiel observa que, em Ezequiel 19.4 e 19.9, a LXX não usa ἄγκιστρον (agkistron), mas κημός (kēmos, “mordaça”, “focinheira”), ao passo que em 2 Reis 19.28 e Ezequiel 32.3 ela de fato recorre a ἄγκιστρον. Isso mostra que a tradição grega não achatou todo o vocabulário hebraico de captura em um único termo; ela operou seletivamente, preservando diferenças em alguns lugares e intensificando aproximações em outros. Como inferência exegética, a LXX pode ser descrita, nesse conjunto, como uma etapa interpretativa que torna mais coerente e concentrado o imaginário da captura: o anzol deixa de pertencer apenas ao pescador e passa a servir também à representação do juízo sobre reis, impérios e monstros políticos.
IX. O anzol, a filiação e a provisão
A cena de Mateus 17.24-27 só alcança seu sentido pleno quando lida como unidade. Após a chegada a Cafarnaum, os cobradores do δίδραχμα (didrachma, “didracma”) perguntam a Pedro sobre o pagamento devido por Jesus; em seguida, Jesus formula a comparação régia: os reis da terra cobram tributo “dos filhos” ou “dos estranhos”? Quando Pedro responde “dos estranhos”, vem a conclusão: ἄρα γε ἐλεύθεροί εἰσιν οἱ υἱοί (ara ge eleutheroi eisin hoi huioi, “logo, os filhos são livres”). O argumento é cristologicamente decisivo, porque a liberdade aqui não é mera isenção prática, mas consequência da condição filial em relação à casa de Deus. O ponto não é hostilidade ao tributo em si, mas a afirmação de que Jesus não se situa, diante do templo, na posição de um outsider tributável; ele o transcende pela lógica da filiação. Entre as versões inglesas, ESV/KJV mantêm “the sons are free”, ao passo que a NASB explicita “the sons are exempt”, leitura interpretativamente correta, mas um grau mais distante da formulação grega.
É exatamente nesse horizonte que o versículo 27 introduz o motivo do anzol: ἵνα δὲ μὴ σκανδαλίσωμεν αὐτούς (hina de mē skandalisōmen autous, “mas para que não os levemos a tropeço / não lhes demos ocasião de escândalo”), seguido da ordem βάλε ἄγκιστρον (bale agkistron, “lança o anzol”). O dado lexical é notável: ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”) ocorre aqui como a única ocorrência neotestamentária do termo, segundo a tradição concordancial grega disponível. O instrumento, portanto, não aparece num contexto de juízo, captura hostil ou violência imperial, mas numa cena em que liberdade filial e renúncia voluntária se encontram. A cláusula com σκανδαλίσωμεν (skandalisōmen, “façamos tropeçar”, “causemos ofensa/escândalo”) explica o sentido do gesto: Jesus não paga por obrigação intrínseca, mas para não criar obstáculo desnecessário. Nessa altura, a pesca já não é linguagem de domínio sobre uma presa, mas meio obediente de provisão pacífica.
A comparação de versões só se torna relevante em dois pontos. O primeiro é o valor de σκανδαλίζω (skandalizō, “fazer tropeçar”, “causar escândalo”, “ofender”). NRSV/NASB/KJV tendem a verter no campo de “offend/give offense”, enquanto algumas traduções preservadas em paralelos ingleses explicitam “cause them to stumble”, mantendo mais de perto a metáfora subjacente do verbo. O segundo ponto é o tratamento da moeda: o grego lê στατῆρα (statēra, “estáter”), e várias versões a conservam tecnicamente como “stater”; outras preferem “shekel” ou “coin”, tornando o texto mais imediatamente compreensível. Em ambos os casos, porém, a diferença tradutória não altera a estrutura teológica do episódio: Jesus afirma primeiro a liberdade dos filhos e, em seguida, decide agir de modo a não converter essa liberdade em ocasião de tropeço para outros.
A materialidade da ordem merece atenção exegética própria. Jesus não manda Pedro lançar rede, mas anzol; não manda recolher uma quantidade de peixes, mas “o primeiro peixe que subir”; não fala de lucro comercial, mas de uma provisão exata para uma necessidade concreta. Esse encadeamento restringe o milagre à suficiência necessária. O texto não encena abundância espetacular, e sim adequação soberana: um único peixe, uma única moeda, uma única obrigação resolvida “por mim e por ti” — ἀντὶ ἐμοῦ καὶ σοῦ (anti emou kai sou, “por mim e por ti”). O anzol, nesse enquadramento, torna-se signo de precisão providencial. Sua singularidade corresponde ao caráter pontual da ação e reforça o contraste com outras cenas de pesca nos Evangelhos, nas quais predominam redes e captura coletiva. Aqui tudo é individualizado, comedido e finalisticamente ordenado.
Por isso, Mateus 17.27 ocupa lugar singular na teologia bíblica do motivo. Nos textos proféticos e sapienciais, o universo lexical do anzol e dos ganchos costuma servir à imagem de captura, humilhação ou juízo; em Mateus, ao contrário, ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”) é reinserido numa economia de provisão sem agressividade. O Filho é livre, mas não exerce essa liberdade como ruptura provocadora; antes, a subordina ao bem relacional e à paz pública. O milagre não diminui a filiação; ao contrário, manifesta-a. Justamente porque o Filho é livre, ele pode escolher não transformar sua liberdade em escândalo. E justamente porque sua autoridade é real, até o mar e o peixe se tornam meios de suprimento para uma obediência que não nasce de servidão, mas de soberania filial.
X. A Pesca Como Imagem Canônica Ampliada
No plano canônico ampliado, a linguagem da pesca ultrapassa o vocabulário estrito do “anzol” e passa a funcionar como matriz simbólica para busca, juízo, reunião e missão. O texto programático mais importante no Antigo Testamento é Jeremias 16.16: הִנְנִי שֹׁלֵחַ לְדַוָּגִים רַבִּים (hinnenî šōlēaḥ lədawwāgîm rabbîm, “eis que envio muitos pescadores”), seguido de וְדִיגוּם (wədîgûm, “e eles os pescarão”), e logo depois da menção a “muitos caçadores”. A sequência mostra que a imagem não é de subsistência pacífica, mas de localização total e remoção inevitável. O versículo seguinte confirma isso ao declarar que nenhum caminho está oculto aos olhos de Yahweh e que a iniquidade do povo não está escondida diante dele. A pesca, aqui, é metáfora de rastreamento judicial: o culpado será alcançado mesmo que se disperse pelos montes, colinas e fendas das rochas. Trata-se, portanto, de um campo imagético aparentado ao da captura, mas sem a ocorrência do lexema específico do anzol.
Nos Evangelhos Sinópticos, a mesma matriz é retomada, mas sofre deslocamento decisivo. Em Mateus 4.18-19, Jesus encontra Simão e André “lançando rede ao mar”, βάλλοντας ἀμφίβληστρον εἰς τὴν θάλασσαν (ballontas amphiblēstron eis tēn thalassan, “lançando rede ao mar”), e os chama com a fórmula ποιήσω ὑμᾶς ἁλιεῖς ἀνθρώπων (poiēsō hymas halieis anthrōpōn, “farei de vós pescadores de homens”). Aqui a pesca deixa de ser imagem de juízo persecutório e passa a nomear vocação discipular. A comparação de versões só é necessária em um ponto: KJV/ESV/NASB preservam “fishers of men”, enquanto NRSV/NIV preferem “fish for people” ou “fishers of people”. A segunda solução atualiza a linguagem inclusiva, mas a primeira conserva mais de perto a forma metafórica compacta do grego. Em ambos os casos, porém, a ideia central permanece: Jesus reaproveita uma atividade profissional concreta como figura da futura reunião de pessoas para o seu seguimento.
Lucas 5.1-11 aprofunda essa transformação e o faz com um detalhe lexical que merece destaque. A narrativa começa com redes e captura abundante — χαλάσατε τὰ δίκτυα ὑμῶν εἰς ἄγραν (chalasate ta diktya hymōn eis agran, “baixai as vossas redes para pesca”), seguida de uma apreensão tão grande que as redes começam a romper-se. Depois do assombro de Pedro, Jesus formula a comissão em termos diferentes de Mateus: ἀπὸ τοῦ νῦν ἀνθρώπους ἔσῃ ζωγρῶν (apo tou nyn anthrōpous esē zōgrōn, “doravante estarás capturando vivos seres humanos”). O verbo ζωγρέω (zōgreō) não é simples equivalente de “pescar”; seu valor básico é “capturar vivo”. É exatamente por isso que a comparação de versões se torna relevante aqui: KJV/ASV traduzem “catch men”, enquanto versões mais recentes tendem a “catch people”; ambas comunicam o núcleo da ação, mas frequentemente deixam menos visível o traço de preservação vital contido no grego. O resultado exegético é importante: a metáfora missionária lucana não aponta para destruição da presa, mas para retirada do domínio anterior e preservação para uma nova esfera de vida.
O capítulo final do Quarto Evangelho retoma o imaginário da pesca sob outro ângulo. Em João 21.1-14, não reaparece a fórmula “pescadores de homens”, mas a cena de rede vazia, palavra de Jesus e captura superabundante funciona como sinal pós-pascal de reconhecimento e obediência. O núcleo verbal da cena está em βάλετε ... τὸ δίκτυον (balete ... to diktyon, “lançai a rede”) e em οὐκέτι αὐτὸ ἑλκύσαι ἴσχυον (ouketi auto helkysai ischyon, “já não podiam puxá-la”), por causa da multidão de peixes. Quando Pedro arrasta a rede à terra, o texto insiste que, apesar dos 153 grandes peixes, “a rede não se rasgou”. A ênfase não recai na técnica pesqueira, mas na integridade do recolhimento sob a direção do Ressuscitado. As versões inglesas convergem amplamente em “dragged/pulled the net ashore” e “the net was not torn”, o que mostra que aqui não há grande ambiguidade tradutória; o ponto exegético principal é antes simbólico: a ação do Ressuscitado produz abundância sem ruptura do instrumento de reunião.
Essa linha canônica mostra, portanto, um deslocamento progressivo. Jeremias 16 utiliza “pescadores” e “caçadores” para exprimir busca judicial inexorável; Mateus 4 converte a pesca em vocação discipular; Lucas 5 radicaliza essa releitura ao empregar ζωγρέω (zōgreō, “capturar vivo”), e João 21 vincula a pesca abundante à revelação do Ressuscitado e à integridade da comunidade reunida. O campo imagético é o mesmo — água, peixes, rede, captura —, mas sua função teológica varia: juízo, chamado, missão e reconhecimento pascal. Isso permite ampliar o horizonte semântico do motivo sem atribuir indevidamente a esses textos a ocorrência do lexema “anzol”, que de fato não aparece neles.
Como nota de fronteira, Lucas 11.11 pode ser mencionado apenas de forma negativa e delimitadora. O versículo opõe ἰχθύν (ichthyn, “peixe”) e ὄφιν (ophin, “serpente”) na analogia paterna: um pai não substitui o alimento pedido por algo nocivo. A proximidade com o universo da pesca existe apenas no nível do referente “peixe”; o texto não menciona rede, pescador nem anzol. Por isso, sua utilidade está em marcar o limite do campo imagético: nem toda ocorrência de peixe pertence automaticamente ao motivo da captura. Em termos metodológicos, essa reserva é necessária para evitar o alargamento indevido do tema além do que o próprio texto autoriza.
XI. Pano de Fundo Arqueológico do Anzol
As imagens de coerção presentes em 2 Reis 19.28, Isaías 37.29, Ezequiel 29.4 e Ezequiel 38.4 não surgem em vazio cultural. Nos dois primeiros textos, Yahweh anuncia: חַחִי בְּאַפֶּךָ (ḥaḥî bəʾappekā, “meu gancho/argola em teu nariz”); nos dois oráculos de Ezequiel, a fórmula é וְנָתַתִּי חַחִים בִּלְחָיֶיךָ (wənāṯattî ḥaḥîm bilḥāyeḵā, “porei ganchos em teus queixos/mandíbulas”). O lexema חָח (ḥāḥ, “gancho”, “argola”, “anel de captura”) pertence, portanto, a um campo de controle corporal forçado. Esse pano de fundo encontra paralelos iconográficos e filológicos no Antigo Oriente Próximo: um estudo clássico do Institute for the Study of Ancient Cultures, ao discutir a expressão “nose cord”, lembra a estela de Zincirli em que o rei segura cordas presas aos lábios ou narizes de prisioneiros, bem como o relevo de Anubanini, no qual uma corda parece estar ligada ao nariz de um cativo. A imagem profética, assim, não é fantasia isolada, mas releitura teológica de um repertório visual conhecido de sujeição e condução humilhante.
Esse dado histórico ajuda a precisar a força do texto bíblico. Em 2 Reis 19.28 e Isaías 37.29, o rei assírio é figurado como criatura conduzida pelo nariz; em Ezequiel 29.4 e 38.4, o mesmo princípio é deslocado para a mandíbula do monstro ou do agressor escatológico. O ponto comum não é a descrição técnica de um instrumento, mas a redução do poder imperial ao estado de corpo arrastável. O detalhe anatômico — nariz, lábios, queixos — é crucial, porque pertence ao universo da domesticação e da captura pública. A linguagem profética, portanto, subverte um código imperial conhecido: aquilo que impérios faziam a vencidos e animais é agora imaginado como ação de Yahweh contra o próprio soberbo. Nessa chave, a arqueologia não substitui a exegese; ela torna mais concreta a violência visual que o texto mobiliza (CHAN MJ. The Book of Isaiah in the Neo-Assyrian Period. In: Hays CB, ed. The Cambridge Companion to the Book of Isaiah. Cambridge Companions to Religion. Cambridge University Press; 2024, pp. 13-32.).
No outro polo do campo semântico, Isaías 19.8 e Mateus 17.27 pressupõem o anzol como utensílio real de pesca. Isaías descreve o colapso do Egito com a frase כָּל־מַשְׁלִיכֵי בַיְאֹר חַכָּה (kol-mašlîḵê bayəʾōr ḥakkāh, “todos os que lançam anzol no Nilo”), enquanto Mateus 17.27 traz a ordem de Jesus a Pedro: βάλε ἄγκιστρον (bale agkistron, “lança o anzol”). Também aqui o pano de fundo material é bem atestado. O Metropolitan Museum conserva exemplares egípcios de fish hook datados do Novo Império, por exemplo peças raméssidas de ca. 1295–1070 a.C.; o British Museum observa, em comentário curatorial, que fish hooks são encontrados em muitos sítios de assentamento ao longo da história egípcia; e um boletim do próprio Met registra que tumbas do Antigo, Médio e Novo Império mostram peixes sendo capturados por rede, gancho/anzol e lança. Em consequência, Isaías 19.8 não precisa ser lido como metáfora solta: ele pressupõe um repertório pesqueiro concreto e historicamente verificável no Egito antigo. (The Metropolitan Museum of Art)
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| Anzol de pesca, datado do Egito Antigo, período de Ramessida (1295-1070 a.C) |
Quando o motivo chega a Mateus 17.27, o cenário galileu continua historicamente plausível. Em discussões arqueológicas sobre Betsaida/et-Tell, foram identificados pesos de rede, pesos de linha, anzóis, âncoras e instrumentos de reparo de redes; um verbete enciclopédico de escavações do sítio registra, em uma casa do período helenístico, grande quantidade de implementos de pesca, incluindo fish hooks, pesos e âncoras típicas da região do mar da Galileia. Esses achados não demonstram diretamente o episódio mateano, mas confirmam que a pesca com anzol coexistia com outros métodos na economia pesqueira da região. Isso torna especialmente expressiva a escolha lexical de Mateus: o evangelista não fala em δίκτυον (diktyon, “rede”), mas em ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”), isto é, em um instrumento individual e preciso, ajustado à singularidade da cena e à provisão exata do estáter. A concretude histórica do anzol, nesse caso, reforça a própria concretude narrativa do milagre. (Biblical Archaeology Society)
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| Em et-Tell, arqueólogos encontraram diversos utensílios de pesca, incluindo agulhas para consertar redes de pesca, anzóis, âncoras, chumbadas e pesos de chumbo para redes. Foto: Christina Delante. |
XII. O Valor Teológico Central do Anzol
No seu nível mais concreto, o motivo do anzol está ligado ao sustento, ao trabalho e à provisão. Isaías 19.8 menciona explicitamente os pescadores do Nilo e “todos os que lançam חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”) no rio”, em paralelo com os que estendem rede sobre as águas; o versículo situa o instrumento no mundo ordinário da subsistência egípcia e mostra que o juízo divino atinge também os meios cotidianos de manutenção da vida. No outro extremo do cânon, Mateus 17.24-27 reinscreve esse mesmo objeto num horizonte diverso: após afirmar que “os filhos são livres”, Jesus ordena a Pedro, em Mateus 17.27, βάλε ἄγκιστρον (bale agkistron, “lança o anzol”), para que o peixe traga o estáter necessário ao pagamento. Como inferência exegética fundada nesses textos, o anzol literal aparece, primeiro, como índice da economia ordinária ameaçada e, depois, como meio concreto de uma provisão soberana que não nega a liberdade filial, mas a exerce de modo não escandaloso.
Quando o motivo passa ao plano figurado, sua carga teológica se intensifica e se torna judicial. Habacuque 1.14-17 transforma os povos em “peixes do mar” e o conquistador em pescador total: ele faz subir a presa com חַכָּה (ḥakkāh, “anzol”), arrasta-a com rede e a recolhe com arrastão, chegando ao ponto de sacrificar aos próprios instrumentos de captura. Nesse contexto, o anzol não simboliza mais sustento, mas desumanização política, apreensão e idolatria do poder técnico-militar. A mesma lógica de humilhação aparece em 2 Reis 19.28, onde Yahweh declara ao rei assírio: וְשַׂמְתִּי חַחִי בְּאַפֶּךָ (wəśamtî ḥaḥî bəʾappekā, “porei meu gancho/argola em teu nariz”); em vez de pescador, a imagem agora é a de um dominador reduzido a animal conduzido. Como inferência exegética, o motivo figurado do anzol e do gancho concentra quatro ideias correlatas: juízo, captura, humilhação corporal e reversão do poder.
Essa reversão alcança sua formulação mais densa quando o gancho é aplicado a reis e monstros. Em Ezequiel 29.4, Faraó, figurado como grande monstro do Nilo, recebe חַחִיים (ḥaḥîm, “ganchos”) nos queixos; em Ezequiel 38.4, Gog é igualmente trazido ao juízo por meio de חַחִים (ḥaḥîm, “ganchos”) postos em suas mandíbulas. Já em Jó 40.25-26, correspondente a Jó 41.1-2 na numeração corrente de muitas versões, a pergunta divina expõe a impotência humana diante do Leviatã: תִּמְשֹׁךְ לִוְיָתָן בְּחַכָּה (timšōk liwyātān bəḥakkāh, “puxarás o Leviatã com anzol?”); e a LXX intensifica a cena com ἄξεις δὲ δράκοντα ἐν ἀγκίστρῳ (axeis de drakonta en agkistrōi, “farás subir um dragão com anzol?”). O nexo teológico entre esses textos é forte: o mesmo universo lexical que humilha impérios históricos também é aplicado ao caos monstruoso. Por isso, como inferência exegética, o gancho/argola afirma que Yahweh domina tanto os poderes imperiais da história quanto aquilo que, no imaginário bíblico, encarna a desmedida do caos cósmico.
À luz desse percurso, o único anzol do Novo Testamento adquire peso teológico singular. Mateus 17.27 não elimina os sentidos anteriores, mas os reinterpreta. Depois de a tradição profética ter associado ganchos e anzóis à captura de nações, à humilhação de reis e à impotência humana diante do Leviatã, o dito de Jesus reinsere ἄγκιστρον (agkistron, “anzol”) numa economia de provisão pacífica: não para destruir, arrastar ou subjugar, mas para suprir exatamente o necessário “por mim e por ti”. O motivo, assim, não perde sua materialidade; ele muda de regime teológico. No profetismo, a linguagem da fisgada serve ao juízo; em Mateus, ela serve à provisão messiânica exercida sob a forma de liberdade que se autolimita por consideração ao outro. Essa transposição é central para o conjunto: o instrumento que antes figurava captura e reversão do poder reaparece, no Evangelho, sob o signo da autoridade filial de Jesus e de sua capacidade de prover sem violência.
XIII. Instrumentos Curvos Correlatos no Antigo Testamento
Ao lado do campo lexical estrito do anzol, o texto hebraico conhece outros instrumentos curvos que não pertencem propriamente à pesca, mas que podem ser incluídos num horizonte material mais amplo de tração, apreensão, corte e manipulação. Dois lexemas merecem destaque. O primeiro é מִזְלָג (mizlāg ou mazleg, “garfo”, “garfo sacrificial”, “garfo de três pontas”), atestado nas descrições do altar e do culto em (Ex 27.3), (Ex 38.3), (Nm 4.14), depois na narrativa de Siló em (1Sm 2.13-14), e ainda em textos cronísticos ligados ao templo. O segundo é מַזְמֵרָה (mazmērāh, “podadeira”, “gancho de poda”, “instrumento de poda”), atestado em (Is 2.4), (Is 18.5), (Mq 4.3) e (Jl 4.10; numeração inglesa, Jl 3.10). Nenhum dos dois termos designa “anzol” em sentido estrito; ainda assim, ambos pertencem ao universo de utensílios curvos cuja forma material sustenta imagens de manejo, corte e transformação.
Nos textos sacerdotais, מִזְלָג (mizlāg, “garfo sacrificial”) aparece entre os utensílios do altar: “seus recipientes… seus garfos…” em (Ex 27.3), repetido em (Ex 38.3) e retomado no inventário levítico de (Nm 4.14). O termo, portanto, não pertence ao campo da captura de peixes, mas ao da manipulação de carne sacrificial sobre o altar. Essa base cultual explica a força de (1Sm 2.13-14), onde o “servo do sacerdote” vem com וְהַמַּזְלֵג שְׁלֹשׁ־הַשִּׁנַּיִם בְּיָדוֹ (wəhammazlēg šəlōš-hašinnayim bəyādô, “e o garfo de três dentes na sua mão”) e o introduz na panela para retirar para si a porção desejada. Nesse ponto, a comparação de versões é de fato útil: KJV/NKJV preservam “fleshhook”, enquanto ESV/NIV/NASB preferem “three-pronged fork”. A segunda solução reproduz melhor a forma explícita do hebraico, que menciona “três dentes/prongs”; a primeira, embora mais arcaica, conserva melhor o ambiente cultual da cena. Exegeticamente, o instrumento deixa de ser simples peça do mobiliário sacrificial e se torna sinal concreto da corrupção sacerdotal: aquilo que no culto devia servir à ordem do sacrifício é transformado em meio de apropriação abusiva.
Já מַזְמֵרָה (mazmērāh, “podadeira”, “instrumento de poda”) pertence ao universo agrícola e vitícola. Em (Is 2.4) e (Mq 4.3), o termo ocorre na célebre imagem de pacificação escatológica: as lanças são convertidas em לְמַזְמֵרוֹת (ləmazmērôt, “em podadeiras”). O ponto não é meramente utilitário, mas civilizacional: instrumentos de guerra são reconfigurados em ferramentas de cultivo. Em (Is 18.5), porém, o mesmo lexema volta ao seu terreno literal, quando Yahweh “corta os ramos” e “remove os sarmentos” antes da colheita; ali a podadeira não simboliza paz universal, mas corte seletivo e intervenção antecipada sobre a vide. O quadro se inverte novamente em (Jl 4.10), onde a convocação bélica ordena exatamente o contrário de Isaías e Miqueias: transformar instrumentos agrícolas em armas. A relevância teológica dessa rede intertextual é alta, porque mostra que a mesma ferramenta pode figurar tanto a paz messiânica quanto a mobilização para o juízo. Também aqui a comparação de versões modernas ajuda apenas no ponto da materialidade: KJV/ESV/NIV/NRSV tendem a traduzir “pruning hooks”, enquanto a NASB prefere “pruning knives”. Ambas as opções permanecem dentro do campo da poda; a primeira ressalta mais a forma curva do instrumento, e a segunda, sua função cortante.
A utilidade desses dois lexemas para o estudo do anzol é, portanto, analógica e não identitária. מִזְלָג (mizlāg, “garfo sacrificial”) não fisga nem arrasta presa; ele recolhe e manipula carne no espaço do altar. מַזְמֵרָה (mazmērāh, “podadeira”) não captura peixe nem conduz prisioneiro; ela corta, limpa e redefine o uso da vegetação ou, metaforicamente, das armas. Ainda assim, ambos ampliam o panorama material do texto bíblico, porque revelam que o mundo hebraico nomeia com precisão diferentes objetos curvos e pontiagudos segundo sua função concreta. Essa distinção lexical impede que todo instrumento de ponta ou gancho seja nivelado como “anzol” e, ao mesmo tempo, permite perceber como a Escritura aproveita formas materiais aparentadas para desenvolver campos simbólicos distintos: culto corrompido, cultivo pacífico, poda judicial e reconfiguração histórica da violência.
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Cite este artigo:
GALVÃO, Eduardo. Anzol. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 28 mai. 2025. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

