Verme — Enciclopédia Bíblica Online

Na Bíblia, “verme” designa, em primeiro lugar, uma realidade concreta associada à corrupção e ao consumo: pode indicar a deterioração de alimento guardado indevidamente (Êx 16.20) e pode descrever, de forma vívida, a decomposição e a vulnerabilidade do corpo humano em contextos de sofrimento e mortalidade (Jó 7.5), reforçando a ideia de que a condição humana é perecível e não autossuficiente (Jó 25.6). Em segundo lugar, “verme” funciona como metáfora de rebaixamento social e fragilidade, sem intenção zoológica: o salmista usa a imagem para expressar desonra pública e desprezo comunitário (Sl 22.6), e o profeta a emprega para nomear a pequenez do povo diante de ameaças e para destacar a assimetria entre fraqueza humana e socorro divino (Is 41.14).

Em terceiro lugar, “verme” e correlatos próximos podem integrar imagens de transitoriedade e desgaste, especialmente quando o texto evoca o consumo de vestes e fibras como figura da caducidade de poderes e insultos humanos (Is 51.8). No plano escatológico, a imagem é elevada a signo de juízo e repulsa pública, em paralelo com o fogo inextinguível, compondo uma cena de ruína contínua como advertência final (Is 66.24), retomada no ensino de Jesus com a mesma estrutura imagética “verme/fogo” (Mc 9.48). No registro narrativo, a referência a “vermes” pode operar como marca de reversão de honra e de punição exemplar de soberba política-religiosa, descrevendo a morte do governante como queda degradante sob juízo divino (At 12.23).

Imagem de um escriba escrevendo a palavra "verme" em hebraico e grego

I. Delimitação Semântica

Lexema (idioma/corpus) Campo semântico + gloss base Ocorrências (total) + distribuição Âncoras textuais (abreviadas)
Hb. רִמָּה rimmâ (H7415) Putrefação/decadência (literal e figurado) → “verme / larva” 7x; distribuição: verme (7x) Ex 16:24; Jó 7:5; Jó 17:14; Jó 21:26; Jó 24:20; Jó 25:6; Is 14:11
Hb. תּוֹלָע tôlāʿ (H8438) (i) Verme/larva → “worm”; (ii) Registro têxtil/corante → “escarlate/carmesim” 43x; distribuição: verme (8x); escarlate (34x); carmesim (1x) (subcampo “verme”): Ex 16:20; Dt 28:39; Jó 25:6; Sl 22:6; Is 14:11; Is 41:14; Is 66:24; Jn 4:7
Hb. זָחַל zāḥal (H2119) Rastejar/submissão/terror (polissemia tradutória) → “rastejar; (implic.) temer”; inclui leitura “vermes” 3x; distribuição: vermes (1x); serpentes (1x); medo (1x) (sentido “vermes” em tradução): Mq 7:17
Hb. סָס sās (H5580) Praga/consumo têxtil (correlato de “verme” em versões) → gloss lexical “mariposa”; contagem por tradução “verme” 1x; distribuição: verme (1x) Is 51:8
Gr. σκώληξ skōlēx (G4663) Verme/larva como imagem escatológica → “verme / larva” (Is 66:24 → Mc 9:48) NT (texto crítico/MGNT): 1x (Mc 9:48); NT (TR/KJV): 3x (Mc 9:44,46,48); LXX: 11x Mc 9:48 (base: Is 66:24); repetição em Mc 9:44,46 (TR/KJV); LXX: múltiplas ocorrências
Gr. σκωληκόβρωτος skōlēkobrōtos (G4662) Estado resultativo: “comido por vermes”  1x; distribuição: comigo por verme (1x) At 12:23

II. Definição do problema lexical

A tradução portuguesa “verme” funciona, com frequência, como um rótulo genérico que recobre unidades lexicais distintas e, por isso, pode nivelar fenômenos semânticos heterogêneos. No hebraico bíblico, por exemplo, termos como רִמָּה (rimmâ “verme”) concentram-se no campo da decomposição e da fragilidade mortal, enquanto תּוֹלָע (tôlāʿ “verme”; também “escarlate/carmesim”) atravessa dois domínios: pode designar o animal em contextos de corrupção e, em registro técnico-material, pode remeter ao corante e à terminologia têxtil. Já formas como סָס (sās “traça”; em certas tradições vertido de modo a confluir com “verme”) deslocam a imagem para a deterioração de vestes e fibras, isto é, para um correlato têxtil que não é simplesmente equivalente ao “verme” cadavérico. A consequência metodológica é que “verme”, nas versões, nem sempre nomeia a mesma realidade zoológica, mas muitas vezes sinaliza uma família de imagens: putrefação, consumo, transitoriedade, humilhação e, em certos contextos, juízo.

A própria seleção de passagens exemplares mostra como o termo português oscila conforme o gênero e a função retórica. Em Êxodo, o “verme” figura como marcador de corrupção do alimento e, portanto, como índice narrativo de desordem e perecimento (Êx 16.20). No discurso poético, “verme” pode operar como autodescrição hiperbólica de humilhação e vulnerabilidade, sem intenção zoológica, mas como recurso de rebaixamento (Sl 22.6). No profetismo tardio, a imagem torna-se um signo de julgamento e permanência do estado de ruína, articulado à contemplação pública do castigo (Is 66.24). Quando o NT retoma essa tradição, a estabilidade intertextual pesa mais do que qualquer literalismo biológico: o grego σκώληξ (skōlēx “verme”) em Marcos 9.48 funciona como veículo da cena de Isaías, preservando o núcleo imagético (“verme” + fogo) como linguagem de advertência escatológica (Mc 9.48; Is 66.24). Em Atos, o derivado σκωληκόβρωτος (skōlēkobrōtos “comido por vermes”) descreve um estado resultativo, deslocando o foco do animal para o efeito corporal e para a sentença narrativa (At 12.23). Esses textos, tomados em conjunto, justificam tratar “verme” não como um único referente, mas como um ponto de convergência lexical e imagético cuja determinação exige atenção ao contexto, ao domínio semântico e à rede intertextual (Ex 16.20; Sl 22.6; Is 66.24; Mc 9.48; At 12.23).

II. Vermes/larvas como índice de corrupção, morte e decadência

No conjunto de ocorrências aqui examinadas, o hebraico רִמָּה (rimmâ, “verme/larva”) aparece exatamente sete vezes e concentra-se precisamente nas passagens de Êxodo, Jó e Isaías discutidas abaixo, o que confirma seu perfil de termo preferencial para a imagem de decomposição (Êx 16.24; Jó 7.5; Jó 17.14; Jó 21.26; Jó 24.20; Jó 25.6; Is 14.11). O outro polo lexical é a família de תּוֹלֵעָה/תּוֹלָע/תּוֹלָעִים (tôlēʿâ, “verme”; tôlāʿ, “verme”; tôlāʿîm, “vermes”), cujo total de ocorrências no hebraico bíblico é bem mais amplo, mas que, neste recorte, opera como paralelo poético e intensificador imagético em Jó e Isaías, além de designar literalmente a infestação do maná em Êxodo.

A narrativa do maná constrói, por contraste, uma pedagogia da obediência por meio de um sinal físico de corrupção. O texto hebraico descreve que parte do povo “deixou” o alimento para o dia seguinte e então “produziu vermes” — תּוֹלָעִים (tôlāʿîm, “vermes”) — e “cheirou mal” (Êx 16.20), de modo que a decomposição do alimento funciona como sanção narrativa ao gesto de desconfiança. A mesma unidade textual imediatamente sublinha a exceção: aquilo que é guardado conforme a instrução não apodrece; “verme” não aparece nele — רִמָּה (rimmâ, “verme/larva”) — e a ausência de corrupção torna-se tão teologicamente significativa quanto a presença anterior (Êx 16.24). A LXX, ao verter ambos os quadros com σκώληξ (skōlēx, “verme”) e suas flexões (σκώληκας, skōlēkas, “vermes”; σκώληξ, skōlēx, “verme”), reforça a leitura unificada da “putrefação” como marcador do que se afasta da palavra recebida, mantendo o paralelismo entre o “brotar de vermes” e a “inexistência de verme” no alimento preservado (Êx 16.20; Êx 16.24).

No livro de Jó, o léxico de “verme/larva” deixa de ser um fenômeno do alimento e passa a ser um signo de corporeidade degradada e de destino humano comum, deslocando o foco do exterior (comida) para o interior (carne). A descrição “minha carne” associada a רִמָּה (rimmâ, “verme/larva”) em Jó 7.5 liga diretamente a experiência do sofrimento a um quadro de decomposição, no qual o corpo se torna o lugar visível da fragilidade. A LXX, ao falar de σαπρία σκωλήκων — σκωλήκων (skōlēkōn, “de vermes”) — preserva a associação entre deterioração e “vermes”, mantendo a força somática do versículo e explicitando, no registro grego, a ideia de “putrefação” como ambiente do corpo (Jó 7.5).

A mesma imagem é reconfigurada em Jó 17.14, onde רִמָּה (rimmâ, “verme/larva”) aparece como termo de parentesco figurado (“chamei… de pai”), ampliando a metáfora: a decomposição não é só um evento físico, mas um horizonte relacional que absorve identidades humanas quando a esperança se retrai e a morte se aproxima. Em Jó 21.26, a função do termo é niveladora: ricos e pobres “jazem juntos no pó” e “o verme” — רִמָּה (rimmâ, “verme/larva”) — “os cobre”, de forma que a imagem opera como crítica implícita a qualquer teologia de segurança baseada em status, pois a mortalidade reduz as diferenças ao mesmo destino (Jó 21.26). Jó 24.20 intensifica o caráter retributivo e memorial: a linguagem associa o “verme/larva” — רִמָּה (rimmâ, “verme/larva”) — ao consumo do ímpio e ao apagamento de sua lembrança, articulando decomposição do corpo e dissolução da memória social como dupla desintegração (Jó 24.20).

O ápice do uso antropológico surge em Jó 25.6, onde o paralelismo poético acumula dois termos: רִמָּה (rimmâ, “verme/larva”) e תּוֹלֵעָה (tôlēʿâ, “verme”), aplicando-os ao ser humano (“homem” e “filho do homem”) para produzir um efeito de rebaixamento retórico. Aqui o “verme” não descreve primariamente um animal, mas funciona como metáfora de finitude diante da transcendência divina; a duplicação lexical não acrescenta um “segundo ser” ao quadro, mas reforça, por variação sinonímica, a mesma tese: a criatura é vulnerável, contingente e incapaz de autoglorificação sustentada.

O poema fúnebre de Isaías radicaliza a reversão do orgulho ao inserir os “vermes” na cenografia do rei abatido. A cama e a cobertura do derrotado são descritas com os dois vocábulos, de modo que “por baixo” se estende רִמָּה (rimmâ, “verme/larva”) e “por cima” cobre תּוֹלֵעָה (tôlēʿâ, “verme”) (Is 14.11). A força exegética do versículo está na substituição de signos régios por signos de decomposição: a iconografia do poder (leito, vestes, cobertura) é ironicamente reescrita como iconografia da morte. A LXX, ao empregar σκώληξ (skōlēx, “verme”) e, no mesmo fôlego, inserir σῆψιν (sēpsin, “putrefação/decomposição”), concentra a imagem em um único termo zoológico e explicita o processo (não apenas o agente) da decadência, reforçando a leitura do texto como denúncia da transitoriedade do esplendor humano.

IV. O “verme” como metáfora de rebaixamento e insignificância

A designação “verme” funciona, em certos contextos poéticos e proféticos, menos como referência zoológica e mais como figura retórica de desvalorização social e vulnerabilidade extrema. Em dois textos centrais, a imagem se articula por meio do substantivo hebraico תּוֹלַעַת (tôlaʿaṯ, “verme”), empregado para construir uma autodepreciação (lamento) e uma interpelação divina (consolo) em registro de rebaixamento. A recorrência do mesmo lexema em gêneros distintos sugere um núcleo semântico estável: “ser reduzido ao mínimo”, isto é, ser percebido como quase não-humano, frágil, socialmente desprezável ou politicamente impotente, sem que isso implique, por si, um quadro mortuário de decomposição.

No lamento de Salmos 22.6, a metáfora é explicitamente ancorada numa antítese de estatuto humano: וְאָנֹכִי תוֹלַעַת וְלֹא־אִישׁ (wəʾānōkî tôlaʿaṯ wəlōʾ-ʾîš, “eu, porém, sou verme e não homem”), seguida de duas aposições que explicam o “efeito social” do rebaixamento: “opróbrio dos homens” e “desprezado do povo”. A progressão é retoricamente cumulativa: (i) nega-se a condição humana (“não homem”), (ii) nomeia-se a vergonha pública (“opróbrio”), (iii) fixa-se o resultado comunitário (“desprezado”). A LXX conserva a imagem sem atenuação, traduzindo o núcleo por σκώληξ (skōlēx, “verme”) em ἐγὼ δέ εἰμι σκώληξ καὶ οὐκ ἄνθρωπος (egō de eimi skōlēx kai ouk anthrōpos, “eu, porém, sou verme e não homem”), o que evidencia que o tradutor leu o hebraico como figura de desonra e desumanização, e não como descrição biológica circunstancial (Sl 21.7 LXX).

As traduções portuguesas modernas tendem a reproduzir essa literalidade retórica sem reconfigurar o tropo: ARA/ACF vertem “verme e não homem”, mantendo o paralelismo degradante (Sl 22.6). A NVI preserva o mesmo eixo semântico, mas explicita em português corrente o desdobramento pragmático do desprezo (“motivo de zombaria… objeto de desprezo”) (Sl 22.6). A NVT também conserva o contraste (“um verme… e não um homem”), com leve reordenação estilística (“todos me insultam… me desprezam”) (Sl 22.6). O ganho exegético relevante, aqui, não é a identificação do animal, mas a forma como o termo “verme” opera como marcador de quase-inexistência social: o enunciador se descreve como alguém “abaixo” do patamar de reconhecimento humano, o que prepara, no fluxo do salmo, a tensão entre abandono percebido e reivindicação de intervenção divina.

Em Isaías 41.14, o mesmo lexema hebraico é reinscrito num discurso de consolo pactual, em que a humilhação é assumida como ponto de partida para a promessa: אַל־תִּירְאִי תּוֹלַעַת יַעֲקֹב מְתֵי יִשְׂרָאֵל (ʾal-tîrəʾî tôlaʿaṯ yaʿăqōb məṯê yiśrāʾēl, “não temas, verme Jacó, homens de Israel”). O tropo é vocativo e coletivo: “Jacó/Israel” é interpelado como “verme”, não para negar a eleição, mas para maximizar o contraste entre pequenez e auxílio (“eu te ajudo… teu Redentor… o Santo de Israel”, Is 41.14). A expressão מְתֵי יִשְׂרָאֵל (məṯê yiśrāʾēl, “homens de Israel”) pode gerar ambiguidade por associação popular com a raiz “morte”; no hebraico bíblico, porém, a construção é idiomática para “pessoas/homens de”, reforçando o caráter comunitário da fala.

A contribuição decisiva da LXX, neste versículo, está precisamente na escolha de não manter “verme”: μὴ φοβοῦ, Ιακωβ, ὀλιγοστὸς Ισραηλ (mē phobou, Iakōb, oligostos Israēl, “não temas, Jacó, pequeno Israel”) (Is 41.14 LXX). O adjetivo ὀλιγοστός (oligostos, “pequeno/pouco”) funciona como paráfrase interpretativa do valor retórico de תּוֹלַעַת: a metáfora é decodificada como “pequenez” (quantitativa e/ou sociopolítica), e não reproduzida como imagem. Esse deslocamento é exegeticamente relevante porque explicita, dentro da própria tradição textual antiga, a leitura semântica do tropo: “verme” = “pequeno, fraco, vulnerável”, especialmente diante de potências e ameaças no horizonte do discurso de consolo.

As versões portuguesas mostram, nesse ponto, exatamente a tensão entre literalidade e explicitação. ARA emprega diminutivo (“vermezinho… povozinho”), intensificando o efeito de pequenez por recurso morfológico do português (Is 41.14). NVI mantém a metáfora sem diminutivo (“verme Jacó”) e, em paralelo, traduz a decodificação semântica em português (“pequeno Israel”), aproximando-se do gesto interpretativo da LXX (Is 41.14). ACF permanece mais próxima do hebraico (“verme… povozinho”), enquanto a NVT reconfigura a frase em construção concessiva (“Embora você não passe de um verme…”), tornando explícito que o foco é o estatuto rebaixado, não a referência biológica (Is 41.14). Essas diferenças de tradução não alteram o núcleo semântico: “verme” é um instrumento retórico de rebaixamento que, no lamento, dramatiza a desonra, e, no consolo, prepara o contraste entre fragilidade humana e ação redentora divina (Sl 22.6; Is 41.14).

A. Pragas têxteis e transitoriedade em Isaías 51.7–8

A unidade imediata articula uma exortação a um “povo que tem a minha lei no coração” e, em seguida, fundamenta a chamada à firmeza mediante uma comparação de rápida decomposição: “Ouçam-me, vocês que sabem o que é direito, vocês, povo que tem a minha lei no coração: não temam a censura dos homens nem fiquem aterrorizados com os seus insultos. Porque a traça os comerá como roupa; o verme os devorará como lã. Contudo, a minha retidão durará para sempre, e a minha salvação, de geração a geração.” (Is 51.7–8).

A imagem de Isaías 51.8 repousa sobre dois agentes de consumo associados explicitamente a materiais têxteis: כִּּ֤י כַבֶּ֨גֶד֙ יֹאכְלֵ֣ם עָ֔שׁ וְכַצֶּ֖מֶר יֹאכְלֵ֣ם סָ֑ס (kî kabbeged yōʾkəlēm ʿāš wəkaṣṣemer yōʾkəlēm sās, “pois, como roupa, a traça os comerá; e, como lã, o sās os comerá”). O paralelismo “roupa” (כַבֶּגֶד) e “lã” (כַצֶּמֶר) delimita semanticamente o campo: trata-se de pragas que corroem vestes, não de “vermes” cadavéricos ou imagética sepulcral; o verbo יֹאכְלֵם (yōʾkəlēm, “os comerá/devorará”) retoma como objeto os agentes humanos do opróbrio, deslocando o foco para a caducidade do poder que insulta e oprime (Is 51.7–8).

A variação tradutória em português é instrutiva justamente por revelar a ambiguidade de classificação zoológica em torno do segundo termo. ARA/ACF preferem manter um correlato genérico (“bicho”) para o segundo agente: “Porque a traça os roerá como a um vestido, e o bicho os comerá como à lã; mas a minha justiça durará para sempre, e a minha salvação, para todas as gerações.” (Is 51.8, ARA) e “Porque a traça os roerá como a roupa, e o bicho os comerá como a lã; mas a minha justiça durará para sempre, e a minha salvação de geração em geração.” (Is 51.8, ACF). NVI/NVT, por sua vez, optam por lexicalizar o segundo termo como “verme”, preservando a distinção “traça/verme” no português: “Porque a traça os comerá como roupa; o verme os devorará como lã…” (Is 51.8, NVI) e “Pois a traça os comerá como se fossem uma roupa; o verme os devorará como se fossem lã…” (Is 51.8, NVT).

A LXX explicita uma leitura ainda mais interpretativa, pois reconfigura o primeiro agente como força abstrata de desgaste e reduz a duplicidade entomológica: ὥσπερ γὰρ ἱμάτιον βρωθήσεται ὑπὸ χρόνου καὶ ὡς ἔρια βρωθήσεται ὑπὸ σητός (hōsper gar himation brōthēsetai hypo chronou kai hōs eria brōthēsetai hypo sētou, “pois, como roupa, será consumido pelo tempo; e, como lã, será consumido pela traça”). Nesse ponto, χρόνος (chronos, “tempo”) substitui o primeiro agente do hebraico, enquanto σητός (sētos, “traça”) funciona como equivalente têxtil único para o consumo, reforçando que o eixo retórico não é zoológico, mas a demonstração de que a agressão humana é temporária diante da permanência da justiça e da salvação divinas (Is 51.8).

V. O campo cromático de תּוֹלָעַת שָׁנִי e seus desdobramentos canônicos

A polissemia do lexema hebraico תּוֹלָע (tôlāʿ, “verme”) / תּוֹלַעַת (tôlaʿaṯ, “verme”) torna-se filologicamente relevante quando o mesmo vocábulo, sobretudo em construções como תּוֹלַעַת שָׁנִי (tôlaʿaṯ šānî, “escarlate”), passa a operar como termo técnico de corante, fio tingido e material têxtil. Uma indicação empírica (ainda que dependente do recorte de uma tradição de concordância) é o fato de que a distribuição de traduções associada ao número H8438 registra usos como “escarlate” (34x), “verme” (8x) e “carmesim” (1x), evidenciando que o campo semântico “animal” e o campo “têxtil/cromático” coexistem e se alternam conforme o contexto imediato. A mesma rede semântica se articula com שָׁנִי (šānî, “escarlate/carmesim”), cuja recorrência (42 ocorrências no levantamento concordancial) sugere um vocabulário cromático relativamente estável, frequentemente associado a materiais de luxo e a instruções cultuais.

No bloco cultual de Êxodo, o dado decisivo é contextual: o “escarlate” aparece reiteradamente em listas de matérias-primas e em descrições de manufatura têxtil, ao lado de outros corantes e tecidos. Em Êxodo 25.4, a enumeração de ofertas inclui “estofo azul, e púrpura, e carmesim” (ARA), e o hebraico delimita o trio cromático por תְּכֵלֶת (təḵēleṯ, “azul”), אַרְגָּמָן (ʾargāmān, “púrpura”) e תּוֹלַעַת שָׁנִי (tôlaʿaṯ šānî, “escarlate”), em registro inequivocamente material e artesanal. O mesmo padrão se repete quando o texto descreve a feitura das cortinas: Êxodo 26.1 associa o linho fino aos três corantes (“azul… púrpura… escarlate”) e integra o conjunto ao trabalho de tecelagem e ornamentação do santuário. A passagem de Êxodo 26.31 (o véu) reafirma o uso têxtil do termo ao prescrever o mesmo complexo cromático no artefato que estrutura o espaço sagrado; nesse ambiente, a hipótese “zoológica” (verme como organismo) não é interpretativamente econômica, porque o contexto não descreve fauna, mas matéria tingida e trabalho técnico. 

O mesmo vale para as vestes sacerdotais: Êxodo 28.6 ordena que o éfode seja produzido “de ouro, e de estofo azul, e de púrpura, e de carmesim” (ARA), e o hebraico recorre novamente a תּוֹלַעַת שָׁנִי (tôlaʿaṯ šānî, “escarlate”) como item de manufatura. A prescrição do peitoral em Êxodo 28.15 mantém a mesma associação, reforçando que a expressão funciona como tecnicismo cromático dentro de uma cadeia de instruções de confecção. Essa leitura é corroborada pela narrativa de execução: Êxodo 35.6 reinsere “azul… púrpura… escarlate” no rol de materiais trazidos para a obra, em paralelismo com o comando anterior, e Êxodo 36.8 e 36.35 mostram a aplicação efetiva dos mesmos materiais na fabricação (cortinas e véu), consolidando a referência como fio/tecido tingido, e não como ser vivo.

Quando o vocabulário migra do registro cultual para o poético, ele preserva o núcleo cromático, mas muda de função retórica. Em Lamentações 4.5, a reversão social é formulada por contraste: “os que se criaram entre escarlata” (ARA) agora “se apegam aos monturos”; o hebraico emprega עֲלֵי תוֹלָע (ʿălē tôlāʿ, “sobre escarlate”), uma construção que funciona como metonímia do luxo (criação “sobre/entre” tecidos finos tingidos) e intensifica o colapso do status na cena do cerco e da fome. Já em Isaías 1.18, a imagem deixa de ser sociológica e torna-se moral: “ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata… ainda que sejam vermelhos como o carmesim” (ARA/ARC/ACF), com paralelismo que explora gradações de vermelho como figura de mancha impregnada e promessa de reversão (“brancos como a neve… como a lã”). 

O hebraico explicita dois termos em sequência: כַּשָּׁנִים (kaššānîm, “como escarlates”) e כַּתּוֹלָע (kattôlāʿ, “como carmesim/escarlate”), de modo que a retórica do versículo depende mais do contraste cromático do que de qualquer identificação zoológica do “verme”. A manutenção do par “escarlata/carmesim” em versões portuguesas muito distintas (ARA/ARC/ACF) é interpretativamente relevante porque preserva a duplicidade de termos e, portanto, o efeito poético do paralelismo, evitando reduzir o verso a um único rótulo cromático.

A leitura da LXX pode acrescentar precisão justamente por tornar visível como um tradutor antigo percebeu e verteu essa rede cromática. No registro cultual, Êxodo 25.4 em grego traduz o trio como ὑάκινθον (hyakinthon, “azul”), πορφύραν (porphyran, “púrpura”) e κόκκινον διπλοῦν (kokkinon diploun, “escarlate duplo”), o que sugere a compreensão de um tecnicismo têxtil e, em particular, uma qualificação (“duplo”) que reforça a ideia de material tingido segundo um padrão reconhecível, não de referência biológica direta. 

No registro profético, a LXX de Isaías 1.18 distingue os dois vermelhos do hebraico por termos diferentes: φοινικοῦν (phoinikoun, “vermelho fenício”) e κόκκινον (kokkinon, “escarlate”), espelhando a duplicidade hebraica e preservando o efeito de contraste cromático na argumentação moral do oráculo. Essa convergência entre (i) a fixação cultual do vocabulário de materiais em Êxodo e (ii) sua reutilização poética em Lamentações e Isaías permite ler o “escarlate” como signo textual de luxo, marca de distinção e, por transposição retórica, imagem de mancha moral que demanda purificação — sem impor ao texto, nesses contextos específicos, uma leitura zoológica onde o próprio encadeamento sintático e o domínio discursivo indicam uma referência cromático-têxtil.

VI. Miqueias 7.17 e זחל: “rastejar” como imagem de humilhação e temor

A formulação de Miqueias 7.17 é deliberadamente imagética e funciona como culminação retórica do quadro em que as nações “verão e ficarão envergonhadas” (Mq 7.16), sendo levadas à postura de extrema submissão. Em traduções portuguesas, a oscilação mais perceptível ocorre justamente na segunda comparação: a ARA verte “como répteis da terra”, enquanto a NVI prefere “como animais que se arrastam”, tentando preservar a generalidade da imagem sem fixá-la numa classe zoológica específica (Mq 7.17).

O hebraico sustenta essa amplitude semântica pela construção paralelística: “como serpente” e “como rastejantes da terra”. O segmento-chave é כְּזֹחֲלֵי אֶרֶץ (kəzōḥălê ʾereṣ, “como rastejantes da terra”), onde זֹחֲלֵי deriva da raiz זחל (zāḥal, “rastejar/arrastar-se”). A imagem é intensificada por todo o encadeamento verbal do versículo, que faz os povos “tremerem” e saírem “de seus encerramentos/esconderijos”, convergindo, por fim, para o campo do temor diante de YHWH: יִפְחָדוּ (yipḥādû, “terão pavor/temerão”) e יִירְאוּ (yîrʾû, “temerão”). O eixo, portanto, não é “identificar o animal”, mas produzir um retrato de rebaixamento e vulnerabilidade pública, em que o “rastejar” funciona como metáfora de derrota e desmoralização (Mq 7.17).

A polissemia de זחל aparece com nitidez quando se observa a distribuição da raiz no corpus: a forma é registrada em três ocorrências, mas não permanece confinada ao gesto físico de “rastejar”; em Jó 32.6, por exemplo, Eliú descreve sua autocontenção reverente diante dos mais velhos com זָחַ֥לְתִּי (zāḥaltî, “recuo/estremeci”), em paralelo imediato com “temi” (Jó 32.6), evidenciando que o mesmo núcleo pode deslizar para um valor afetivo de retraimento/apreensão. Essa elasticidade lexical torna metodologicamente mais responsável tratar “répteis/vermes/rastejantes” como decisões de equivalência (com diferentes ganhos e perdas imagéticos), e não como dado zoológico fechado (Mq 7.17; Jó 32.6).

A tradição grega antiga reforça a leitura “não-zoológica” pela via interpretativa: a LXX reexprime a segunda comparação com linguagem de movimento (“arrastar”) e a aproxima ainda mais do primeiro membro (“serpente”), empregando σύροντες (syrontes, “arrastando”) em torno do motivo do contato com a terra/pó, em vez de buscar um equivalente que force a especificação “verme”. Esse dado é relevante porque mostra como o tradutor antigo leu זֹחֲלֵי como imagem de seres que se arrastam junto ao chão em condição de humilhação — precisamente o efeito retórico que organiza a cena de submissão escatológica no fechamento do livro (Mq 7.17).

VII. Escatologia e juízo: “o verme não morre”

No fecho de Isaías 66:24, a imagem do “verme” está integrada a uma cena de contraste litúrgico e judicial: “toda carne” comparece para adorar e, em seguida, “sai” para contemplar os “cadáveres” dos transgressores. O eixo semântico do quadro não é zoológico, mas forense e memorial: a corrupção (verme) e a combustão (fogo) funcionam como sinais públicos de ruína irreversível e de repulsa coletiva, culminando no vocábulo de forte carga avaliativa דֵרָאוֹן (dērāʾôn, “repulsa/abominação”). Nesse arranjo, o “verme” aparece como posse do condenado — “o seu verme” — e, junto ao “seu fogo”, é negado como cessação: (כִּ֣י תוֹלַעְתָּ֞ם לֹ֣א תָמ֗וּת וְאִשָּׁם֙ לֹ֣א תִכְבֶּ֔ה, kî tôlaʿtām lōʾ tāmût wəʾiššām lōʾ tiḵbeh, “pois o seu verme não morrerá e o seu fogo não se apagará”). O paralelismo “não morrerá / não se apagará” marca permanência do estado de desonra, e não o prolongamento biológico do agente (o “verme”); a ênfase recai na continuidade do efeito punitivo, enquanto a visão é apresentada como advertência escatológica incorporada ao encerramento do livro. (Is 66.24).

A recepção grega antiga explicita a ponte lexical que se tornará decisiva para o NT: a LXX verte o hebraico com σκώληξ (skōlēx, “verme”), e preserva a simetria com o fogo: (ὁ γὰρ σκώληξ αὐτῶν οὐ τελευτήσει καὶ τὸ πῦρ αὐτῶν οὐ σβεσθήσεται, ho gar skōlēx autōn ou teleutēsei kai to pyr autōn ou sbesthēsetai, “pois o seu verme não terminará e o seu fogo não será apagado”). Essa equivalência não apenas confirma o valor imagético do par “verme/fogo” como signos de juízo, mas também estabelece o vocabulário que aparece na releitura de Marcos. (Is 66.24).

Em Marcos 9, a advertência sobre escândalo e autocastração metafórica culmina no envio à “Geena” e, imediatamente, no refrão profético. O texto crítico grego (NA28) apresenta a citação em forma única no v. 48: (ὅπου ὁ σκώληξ αὐτῶν οὐ τελευτᾷ καὶ τὸ πῦρ οὐ σβέννυται, hopou ho skōlēx autōn ou teleuta kai to pyr ou sbennytai, “onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga”). Duas observações ganham relevo exegético. Primeiro, a correspondência lexical σκώληξ com a LXX de Isaías 66.24 mostra que a intertextualidade não é apenas temática, mas verbal. Segundo, Marcos retém “o seu verme” (αὐτῶν) e formula o fogo sem pronome (“o fogo não se apaga”), universalizando o predicado da inextinguibilidade: o foco recai na qualidade do castigo como condição contínua, coerente com a função parenética do trecho, sem exigir literalismo entomológico. (Mc 9.48).

A crítica textual é relevante porque molda a forma como leitores percebem o refrão. No texto crítico citado acima, a numeração salta do v. 43 para o v. 45 e do v. 45 para o v. 47, e o refrão aparece apenas no v. 48, o que indica ausência das repetições como vv. 44 e 46 nessa tradição. (Mc 9.48). Para efeito de comparação de recepção em português, a Almeida Revista e Atualizada (ARA) frequentemente registra o refrão nos vv. 44 e 46 entre colchetes, mantendo-o no v. 48 sem colchetes, sinalizando precisamente a instabilidade transmissional do material repetido. (Mc 9.44; Mc 9.46; Mc 9.48). Já tradições que vertem “bicho” em lugar de “verme” evidenciam uma decisão lexical distinta na recepção portuguesa, mas sem alterar a estrutura imagética do par “verme/fogo” como marcador de juízo. (Mc 9.44; Mc 9.46; Mc 9.48).

VIII. Atos 12.23: “comido por vermes” como juízo narrativo e reversão de honra

A formulação de Atos 12.23 combina causalidade teológica explícita e caracterização corpórea degradante numa única cadeia sintática. O texto grego afirma: παραχρῆμα δὲ ἐπάταξεν αὐτὸν ἄγγελος κυρίου ἀνθ’ ὧν οὐκ ἔδωκεν τὴν δόξαν τῷ θεῷ, καὶ γενόμενος σκωληκόβρωτος ἐξέψυξεν (parachrēma de epataxen auton angelos kyriou anth’ hōn ouk edōken tēn doxan tō theō, kai genomenos skōlēkobrōtos exepsyxen, “Mas imediatamente um anjo do Senhor o feriu, porque não deu glória a Deus; e, tendo-se tornado comido por vermes, expirou”). (At 12.23) O advérbio παραχρῆμα (parachrēma, “imediatamente”) e o verbo ἐπάταξεν (epataxen, “feriu”) conferem brusquidão judicial ao evento, enquanto ἀνθ’ ὧν (anth’ hōn, “porque”) fixa a razão do golpe: “não deu glória a Deus”. A expressão final, γενόμενος σκωληκόβρωτος (genomenos skōlēkobrōtos, “tendo-se tornado comido por vermes”), não funciona como detalhe ornamental, mas como predicação de estado que traduz, em registro somático, a reversão pública de um governante que se deixa aclamar como divino no contexto imediato. (At 12.22–23)

O encadeamento lexical do “ferir” (πατάσσω) integra deliberadamente o capítulo, produzindo simetria entre livramento e juízo. O mesmo anjo que “fere” Pedro para despertá-lo e libertá-lo (At 12.7) “fere” Herodes para executar sentença (At 12.23). A observação de Keener registra essa amarração interna com formulação direta: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, vol. 2, 2013, p. 1965). O comentário acrescenta a dimensão intertextual, apontando que a LXX emprega o mesmo verbo para o “golpe” angelical contra o exército assírio: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1965). Isso reforça que a escolha verbal em Atos 12 não é neutra: ela reinsere o episódio numa gramática bíblica de intervenção que rebaixa poder imperial ou tirânico por ação divina. (2 Reis 19.35)

A causalidade “não deu glória a Deus” precisa ser lida como chave hermenêutica do narrador e não como apêndice moral. Keener explicita a função do enunciado causal: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1965). A noção de “glória” aqui não é apenas atributo teológico abstrato, mas honra social indevidamente apropriada; o comentário delimita o valor semântico: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1965). A comparação com Josefo, no próprio comentário, esclarece a convergência do motivo (falha em rejeitar honra divina) e, simultaneamente, a diferença do modo de narrar: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1965-1966). A síntese tabular do paralelo concentra a divergência crucial em termos teológicos: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1967) e, em contraste, a forma lucana de descrever o desfecho: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1967).

A expressão σκωληκόβρωτος (skōlēkobrōtos, “comido por vermes”) não deve ser tratada como tecnicismo médico fixo, embora possa ser compatível com um quadro clínico real. Keener observa a distância em relação ao jargão médico típico: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1968). O mesmo bloco do comentário localiza o termo em usos ligados a matéria orgânica consumida, sobretudo plantas, o que favorece a leitura do adjetivo como intensificador imagético de deterioração: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1968). Sem negar a materialidade do evento, o comentário registra uma hipótese explicativa moderna para a combinação de dor interna e vermes: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1967). A relevância exegética desse registro está em evitar dois extremos: reduzir o versículo a “curiosidade médica” ou dissolvê-lo em pura metáfora; a narrativa opera teologicamente com uma morte descrita como degradante e judicial, ainda que possa ter base fisiológica.

A morte “por vermes” também pertence a um repertório cultural antigo de fins considerados apropriados para tiranos, sobretudo quando associados a pretensões de divinização. Keener formula o topos de modo explícito: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1968) e, em formulação paralela, amplia o princípio: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1968). O comentário ainda observa como Josefo descreve sofrimento por gangrena com vermes em Herodes, o Grande, no âmbito de punição: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1969). E, para o paralelo judaico mais próximo, destaca a morte de Antíoco Epifânio, associada a autodeificação: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1969). A conexão com 1 Macabeus é exposta na forma de máxima: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1969). Esse pano de fundo ajuda a ler Atos 12.23 como desmontagem pública de honra usurpada: a aclamação como “deus” (At 12.22) é respondida pela narrativa com a degradação corporal máxima, subordinada à tese causal “não deu glória a Deus”. (At 12.22–23)

O fechamento imediato com Atos 12.24 explicita a função macro-narrativa do episódio: a morte do governante não interrompe, mas contrasta com o avanço da “palavra”. O comentário resume essa lógica de forma programática: (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1972). Assim, o motivo “comido por vermes” não é um detalhe periférico, mas instrumento de reversão: um poder que se exibe como absoluto é narrativamente reduzido à condição de corpo consumido, enquanto a palavra que ele tenta controlar se expande. (At 12.24)

IX. A LXX como ponte lexical

A tradição grega da LXX tende a estabilizar, num único item lexical, um campo semântico hebraico que aparece com variação interna. Um levantamento concordancial identifica σκώληξ (skōlēx, “verme”) como recorrente na LXX, o que sugere uma preferência tradutória por um termo grego relativamente estável para verter diferentes hebraísmos do domínio “verme/larva”. Essa estabilização é observável em três blocos textuais distintos — narrativa, poesia e profecia — que, por sua vez, fornecem o pano de fundo verbal para a forma do refrão escatológico preservado no texto grego de Marcos.

A perícope do maná fornece um caso de laboratório porque, no hebraico, duas palavras diferentes aparecem lado a lado. A ARA verte: “Eles, porém, não deram ouvidos a Moisés, e alguns deixaram do maná para a manhã seguinte; porém deu bichos e cheirava mal. E Moisés se indignou contra eles.” (Êx 16.20). No texto hebraico, o agente imediato do apodrecimento é formulado como תּוֹלָעִים (tôlāʿîm, “vermes”) em “וַיָּרֻם תּוֹלָעִים” (wayyārūm tôlāʿîm, “produziu vermes”). A LXX, ao traduzir o mesmo ponto, emprega o plural σκώληκας (skōlēkas, “vermes”) em “ἐξέζεσεν σκώληκας” (exezesen skōlēkas, “fez surgir vermes”). O contraste narrativo imediato, no versículo 24, explicita uma segunda palavra hebraica para “verme/larva”: a ARA registra: “E guardaram-no até pela manhã seguinte, como Moisés ordenara; e não cheirou mal, nem deu bichos.” (Êx 16.24). 

No hebraico, a negação se dá por רִמָּה (rimmâ, “verme/larva”) em “וְרִמָּה לֹא־הָיְתָה בּוֹ” (wərimmâ lōʾ-hāyətâ bô, “e verme não houve nele”). A LXX, porém, não alterna o substantivo: preserva o mesmo eixo lexical com σκώληξ (skōlēx, “verme”) em “οὐδὲ σκώληξ ἐγένετο ἐν αὐτῷ” (oude skōlēx egeneto en autō, “nem verme houve nele”). O resultado é teologicamente relevante porque o tradutor grego não apenas verte “o evento”, mas uniformiza, em grego, um microcampo hebraico que distingue pelo menos dois itens (תּוֹלָעִים e רִמָּה), consolidando “σκώληξ” como marcador lexical da corrupção do alimento (Êx 16.20–24).

O mesmo padrão de estabilização reaparece no registro poético e, então, no registro escatológico. Na poesia, Salmos 22.6 formula a autodepreciação: “Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo.”. O hebraico usa תוֹלַעַת (tôlaʿaṯ, “verme”) em “וְאָנֹכִי תוֹלַעַת וְלֹא־אִישׁ” (wəʾānōkî tôlaʿaṯ wəlōʾ-ʾîš, “eu, porém, sou verme e não homem”). A LXX verte esse mesmo núcleo com σκώληξ (skōlēx, “verme”) em “ἐγὼ δέ εἰμι σκώληξ καὶ οὐκ ἄνθρωπος” (egō de eimi skōlēx kai ouk anthrōpos, “eu, porém, sou verme e não homem”), mantendo a imagem e fixando o mesmo termo grego que já aparecera em Êxodo. 

Já no fechamento profético, Isaías 66.24 liga “verme” a uma cena de julgamento: “Eles sairão e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne.” (Is 66.24). O hebraico expressa a permanência por “כִּי תוֹלַעְתָּם לֹא תָמוּת” (kî tôlaʿtām lōʾ tāmût, “porque o seu verme não morrerá”). A LXX preserva o mesmo substantivo grego e a mesma relação possessiva: “ὁ γὰρ σκώληξ αὐτῶν οὐ τελευτήσει, καὶ τὸ πῦρ αὐτῶν οὐ σβεσθήσεται” (ho gar skōlēx autōn ou teleutēsei, kai to pyr autōn ou sbesthēsetai, “porque o seu verme não terminará, e o seu fogo não será apagado”).

Esse encadeamento ajuda a explicar por que Marcos 9.48 apresenta, no texto grego, uma forma verbal e lexical tão próxima do Isaías grego. A ARA verte: “onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga.” (Mc 9.48). O NA28 registra: “ὅπου ὁ σκώληξ αὐτῶν οὐ τελευτᾷ καὶ τὸ πῦρ οὐ σβέννυται” (hopou ho skōlēx autōn ou teleuta kai to pyr ou sbennytai, “onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga”). A principal diferença em relação à LXX de Isaías 66.24 é de forma verbal (τελευτᾷ em Marcos; τελευτήσει em Isaías LXX), sem ruptura do núcleo imagético; por isso, o ganho exegético maior não está em discutir um verme “específico”, mas em reconhecer o refrão como recepção profética mediada por uma tradição grega que já havia uniformizado “verme” sob σκώληξ, conectando narrativa de corrupção (Êxodo 16), linguagem de humilhação (Salmos 22) e cena de juízo (Isaías 66) num mesmo vocabulário (Êx 16.20–24; Sl 22.6; Is 66.24; Mc 9.48).

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Cite este artigo:

GALVÃO, Eduardo. Verme. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 31 mai. 2016. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

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