Terremoto — Enciclopédia Bíblica Online
Na Bíblia, “terremoto” designa tanto o fenômeno físico de abalo do solo quanto, com frequência, uma linguagem de sinal e de ruptura que marca intervenção divina, juízo e transição de cenários: pode funcionar como marco histórico lembrado e datador (Am 1:1; Zc 14:5), como dispositivo narrativo de punição pública em que o chão “se abre” e remove pessoas do convívio (Nm 16:31–33), como imagem poética de desestabilização da ordem criada quando “fundamentos” tremem (Sl 18:7; Jr 4:24), como elemento de teofania que relativiza o espetáculo natural diante de uma comunicação divina não mediada pela força (1Rs 19:11–12), como sinal associado aos eventos centrais da paixão e ressurreição de Cristo (Mt 27:51–54; 28:2), como meio pelo qual uma situação de confinamento é revertida e o enredo missionário avança (At 16:26) e, de modo recorrente, como marcador de escalada e culminação do juízo apocalíptico (Ap 6:12; 8:5; 11:13; 11:19; 16:18).
I. Léxico e semântica bíblica do “terremoto”
O vocábulo “terremoto”, nas traduções bíblicas em português, não corresponde a um único termo técnico do hebraico ou do grego, mas a um campo semântico composto por substantivos que nomeiam o evento (“um terremoto”) e verbos que descrevem o efeito (“a terra tremeu”, “os fundamentos foram sacudidos”). Essa distinção é relevante porque, em muitos contextos, o texto não pretende classificar geofisicamente o fenômeno, e sim registrar a percepção do abalo: a experiência de instabilidade do solo, o deslocamento de rochas, o tremor de montes e alicerces, ou, em linguagem profética, a convulsão do mundo criado sob visitação divina. Por isso, traduções diferentes oscilam entre “terremoto”, “tremor”, “abalo” e verbos como “tremer/estremecer/abalar”, especialmente quando o original alterna substantivo e verbo para intensificar a cena (Sl 18:7) ou quando descreve uma sequência de sinais (1Rs 19:11–12).
No hebraico bíblico, o núcleo lexical mais diretamente associado ao “terremoto” é o substantivo רַעַשׁ (raʿaš, “abalo; terremoto”), com o verbo correlato רָעַשׁ (rāʿaš, “tremer; estremecer”). Léxicos clássicos registram, para a raiz, o sentido básico de “agitação/quebra de estabilidade”, aplicável tanto ao solo quanto, por extensão, a comoções violentas. Em 1 Reis 19:11, o texto emprega explicitamente רַעַשׁ após o vento (“…וְאַחַר הָרוּחַ רַעַשׁ…”, isto é, “e depois do vento, [houve] um terremoto”), e as versões portuguesas convergem no substantivo “terremoto” (ARA; NVI), preservando a natureza “nomeada” do fenômeno, em vez de apenas descrevê-lo como movimento. O mesmo substantivo reaparece, com forte coloração teofânica e judicial, em Isaías 29:6, onde “terremoto” é alinhado a “trovões” e “grande estrondo” (NVI/ARA; NVT), sugerindo que o “raʿaš” participa de um conjunto de sinais de visitação, não de um relatório naturalista do evento. Já em Amós 1:1 e Zacarias 14:5, רַעַשׁ funciona como marco histórico-mnemônico (“dois anos antes do terremoto”; “como fugistes do terremoto nos dias de Uzias”), e as traduções tendem novamente ao substantivo “terremoto”, indicando que o termo pode designar um evento reconhecível pela memória coletiva.
Ao lado desse núcleo nominal, o hebraico emprega verbos de “abalar” e “tremer” para narrar o terremoto como efeito sentido no mundo: גָּעַשׁ (gāʿaš, “sacudir; estremecer”) e o próprio רָעַשׁ (rāʿaš, “tremer”) aparecem em paralelismo poético no Salmo 18:7, reforçando a intensidade por duplicação verbal. Esse é um ponto em que a comparação de versões ilumina a ambiguidade tradutória: o inglês mantém frequentemente dois verbos distintos, mas escolhe pares diferentes para dar conta do paralelismo (“the earth reeled and rocked”, ESV; “the earth trembled and quaked”, NIV; “the earth shook and quaked”, NASB). Em português, a tendência é verter como “abalou/tremeu” ou “tremeu/estremeceu” para preservar o paralelismo sem “nomear” o fenômeno como substantivo; em termos enciclopédicos, isso mostra que o “terremoto” bíblico pode ser lexicalmente apresentado tanto por um nome (raʿaš) quanto por uma descrição de efeitos (gāʿaš/rāʿaš), e que a escolha do tradutor (substantivo vs. verbos) influencia a leitura: “evento geofísico” ou “comoção do cosmos percebida”.
No grego do NT, o paralelo funcional é o substantivo σεισμός (seismos, “abalo; terremoto”), associado etimologicamente ao verbo σείω (seiō, “sacudir”), e os léxicos registram, além do sentido físico (“terremoto”), a possibilidade semântica mais ampla de “agitação/comoção”. Mateus 28:2 apresenta o terremoto como evento nomeado (“καὶ ἰδοὺ σεισμὸς ἐγένετο μέγας” — kai idou seismos egeneto megas — “e eis que ocorreu um grande terremoto”), e versões inglesas convergem em “earthquake” (ESV; NIV; NASB), e as traduções portuguesas costumam manter “terremoto”. Em Mateus 27:51, porém, o texto prefere o verbo para descrever o efeito (“καὶ ἡ γῆ ἐσείσθη” — kai hē gē eseisthē — “e a terra foi sacudida”), e a nuance aparece com nitidez nas traduções: “a terra tremeu” (NIV), e não “houve um terremoto”, o que permite ao tradutor preservar a diferença entre “abalo” como coisa nomeada (σεισμός, seismos, “terremoto”) e “abalo” como ação sofrida (σείω, seiō, “sacudir”). A mesma alternância substantivo → efeito estrutura Atos 16:26 (“ἄφνω δὲ σεισμὸς ἐγένετο μέγας… ὥστε σαλευθῆναι τὰ θεμέλια…” — aphnō de seismos egeneto megas… hōste saleuthēnai ta themelia… — “houve um grande terremoto… de modo que os fundamentos foram sacudidos”), o que explica por que algumas versões enfatizam “foundations… were shaken” além de “earthquake” (ESV; NIV). Em Apocalipse 16:18, a recorrência de σεισμός com intensificadores (“σεισμὸς… μέγας… οἷος οὐκ ἐγένετο…” — seismos… megas… hoios ouk egeneto… — “um terremoto… grande… como nunca houve…”) estabelece um uso técnico-narrativo (“grande terremoto”) ao lado da linguagem cósmica; aqui, comparar versões é útil porque algumas optam por “violent earthquake” enquanto outras retêm “great earthquake” (grande terremoto), mudando o perfil semântico do adjetivo (“grande” como magnitude vs. “violento” como intensidade dinâmica) (NIV; ESV).
II. Geografia do tremor: a terra bíblica como corredor sírio-palestino de fraturas e medo
A recorrência do “terremoto” na Bíblia não pode ser dissociada do enquadramento físico do Levante, onde uma grande zona de falhas marca, por longa extensão, a fronteira transformante entre placas e concentra parte relevante da sismicidade regional. A literatura geocientífica descreve esse corredor como um sistema de falhas transcorrentes de grande comprimento, conectando o setor do Mar Vermelho e do golfo de Acaba ao norte do Levante e às estruturas tectônicas do sul da Turquia, com cinemática predominantemente sinistral. Essa moldura é suficiente para explicar por que, no imaginário e na memória histórica do mundo bíblico, o tremor do solo aparece como possibilidade real, episódica e, em alguns casos, memorável o bastante para funcionar como marco cronológico. (GOMEZ; et al, Holocene faulting and earthquake..., pp. 658-674, 2003)
A expressão geomorfológica desse sistema também ajuda a ler com sobriedade certos detalhes topográficos presentes nas descrições bíblicas. O corredor tectônico associa-se a depressões alongadas e bacias, vales lineares e segmentos que, em diferentes trechos, geram desníveis, escarpas e “degraus” estruturais; em termos de paisagem, isso reforça a centralidade, nos textos, de vales, montes, colinas e “fundamentos” como vocabulário padrão para descrever a instabilidade do terreno. O vale do Orontes, por exemplo, aparece em estudos geomorfológicos como vale linear associado a um segmento do mesmo grande sistema de falhas, o que torna inteligível, em linguagem enciclopédica, a antiga intuição de “linhas” sísmicas contínuas atravessando vales e corredores naturais no arco siro-palestino. (SHAW; WHITE; WHITTAKER, The River Orontes in Syria and Turkey, 2012, pp. 25-49)
Zacarias oferece o exemplo bíblico mais explicitamente “geográfico” na forma de narrativa: a cena situa-se no monte das Oliveiras, “defronte de Jerusalém para o oriente”, e descreve a montanha “fendida pelo meio” e a formação de “um vale muito grande” (Zc 14:4–5). A formulação em português é relativamente estável, mas há pontos de variação que influenciam a leitura espacial: a Almeida Revista e Atualizada mantém “um vale muito grande” e “metade do monte se apartará” (ARA), enquanto a Nova Almeida Atualizada explicita “formando um grande vale” e usa “se afastará” (NAA). Em inglês, a ESV qualifica o vale como “very wide valley” e a NASB como “very large valley”, mostrando que o adjetivo pode ser entendido como largura (configuração do vale) ou magnitude geral (escala do evento) (ESV/NIV/NASB). O mesmo trecho menciona fuga “como fugistes do terremoto nos dias de Uzias” (Zc 14:5), elemento que vincula topografia e memória sísmica numa mesma moldura narrativa.
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| Restos de vários vasos destruídos pelo terremoto do século VIII a.C. que atingiu Jerusalém e outras cidades de Israel e Judá. (© Eliyahu Yanai, Cidade de Davi) |
Quando o texto não “nomeia” o evento, a linguagem tende a registrar os efeitos perceptíveis do tremor na paisagem, e aí a ambiguidade costuma ser mais tradutória do que conceitual. Jeremias descreve: “Olhei para os montes, e eis que tremiam, e todos os outeiros estremeciam” (Jr 4:24), e a diferença principal entre versões em português está na escolha de “outeiros” versus “colinas”, sem alterar o conteúdo básico (ARA/NAA). O Salmo 18:7, por sua vez, une “a terra” e os “fundamentos dos montes” no mesmo quadro de instabilidade; a ARA registra “vacilaram também os fundamentos dos montes”, enquanto a ACF prefere “os fundamentos dos montes também se moveram”, diferença que reforça a alternativa entre “oscilação” e “deslocamento” como modos de descrever o mesmo efeito (Sl 18:7; ARA; ACF).
Isaías 29:6 ilustra um uso em que o terremoto é integrado a um conjunto de sinais (trovão, estrondo, tempestade, fogo), e justamente por isso as versões variam mais no enquadramento verbal do que na lista de fenômenos. A NVI mantém uma construção ativa (“o SENHOR dos Exércitos virá com trovões, terremoto e estrondoso ruído”), ao passo que a NVT explicita o sujeito na primeira pessoa (“eu, o SENHOR dos Exércitos, entrarei em ação com trovão, terremoto e grande estrondo”), o que desloca o foco para a intervenção divina como ação direta, sem alterar o fato de que “terremoto” integra a cadeia de manifestações (Is 29:6; NVI; NVT). Já versões portuguesas mais tradicionais podem usar formulação passiva (“serás visitada… com terremotos”), o que torna a cena mais “oracular” e menos “narrativa” (ARC/NVI/NVT).
III. Terremoto como memória histórica datadora
Em Amós, o terremoto aparece como marcador cronológico público, isto é, como um “marco de calendário” reconhecido por uma comunidade inteira, capaz de situar uma mensagem profética no tempo social. A abertura do livro de Amós localiza a visão “dois anos antes do terremoto” e, ao fazê-lo, converte um desastre natural em referência histórica estável, ao lado dos reinados de Uzias (Judá) e Jeroboão (Israel) (Am 1:1). A formulação hebraica concentra essa função datadora na expressão שְׁנָתַיִם לִפְנֵי הָרַעַשׁ (šĕnātayim lipnê hāraʿaš, “dois anos antes do terremoto”), em que הָרַעַשׁ (hāraʿaš, “o terremoto”) traz artigo definido e sugere um evento já conhecido e identificável na memória coletiva. Essa nuance é reproduzida de modo convergente em traduções portuguesas e inglesas: a ARA registra “dois anos antes do terremoto”; a ARC mantém a mesma datação; e a NVT explicita o mesmo enquadramento (“dois anos antes do terremoto”) em linguagem mais expansiva. No inglês, NIV, NASB e ASV preservam igualmente “two years before the earthquake”, variando apenas a ordem e o estilo da rubrica. Um ponto relevante de ambiguidade aparece quando certas edições sinalizam, por nota, uma leitura alternativa do sintagma temporal; por exemplo, a ESV mantém “two years before the earthquake”, mas acrescenta nota “Or during two years”, indicando que a expressão hebraica admite discussão de segmentação temporal sem alterar o fato de que o terremoto funciona como referência pública.
Em Zacarias, o terremoto deixa de ser apenas um “relógio social” e passa a ser também um operador retórico de memória: a fuga esperada no cenário escatológico é comparada à fuga “como” no terremoto “nos dias de Uzias”. O verso faz da lembrança do abalo um parâmetro de inteligibilidade do futuro: o ouvinte deve imaginar a evasão vindoura pela analogia com um evento traumático antigo (Zc 14:5). Em português, NAA e NVI registram “fugirão como fugiram do terremoto nos dias de Uzias”, enquanto a NTLH reexpõe o sentido com paráfrase (“quando houve um terremoto no tempo do reinado de Uzias”), preservando o valor memorial (“os antepassados de vocês…”). No inglês, ESV e NIV mantêm a comparação direta: “as you fled from the earthquake in the days of Uzziah king of Judah”. A base hebraica da comparação envolve a locução de afastamento מִפְּנֵי הָרַעַשׁ (mippənê hāraʿaš, “diante do terremoto”), novamente com artigo definido em הָרַעַשׁ (hāraʿaš, “o terremoto”), o que reforça o caráter de evento singular “lembrado” mais do que de ocorrência genérica. Aqui surge uma ambiguidade tradutória importante: a NIV assinala em nota uma alternativa que desloca o foco de “fuga do povo” para “bloqueio do vale” (“will be blocked… because of the earthquake”), o que altera o encadeamento lógico da frase e mostra que a passagem admite reconstruções distintas sem abandonar a referência ao terremoto histórico (NIV com nota em Zc 14:5).
O papel datador e memorial do terremoto torna-se mais complexo quando se compara a narrativa bíblica de Uzias com a tradição historiográfica posterior. O relato de 2 Crônicas descreve o episódio do rei no templo e a lepra que o atinge, mas não inclui qualquer menção explícita de terremoto (2Cr 26:16–21; cf. ARA (2Cr 26)). Já Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas, associa ao mesmo período um terremoto que teria rachado o templo e provocado alterações no relevo, compondo um quadro dramático em torno do rei e do culto (Ant. 9.225). A comparação é metodologicamente útil porque delimita três níveis: (1) um dado textual profético que usa “o terremoto” como referência de calendário (Am 1:1); (2) uma reativação dessa lembrança em chave comparativa e escatológica (Zc 14:5); (3) uma memória historiográfica que expande a cena do reinado de Uzias com elementos ausentes em 2 Crônicas, mostrando como tradições posteriores podem amplificar o evento natural e conectá-lo a símbolos de templo e realeza.
A discussão moderna tenta, em alguns casos, correlacionar a referência profética a um grande terremoto regional no século VIII a.C., com base em evidências arqueológicas e estudos de sismicidade histórica no Levante; essa linha de investigação é relevante para um verbete enciclopédico porque explica por que Amós e Zacarias puderam tratar “o terremoto” como evento memorável e “nomeável”. Entre abordagens frequentemente citadas estão análises arqueosismológicas que defendem a identificação de um grande evento em torno da época tradicionalmente associada a Uzias, bem como sínteses de sismicidade histórica para a região, embora as propostas variem quanto ao grau de certeza e à extensão do impacto (ver, por exemplo, Austin et al., 2000; Ambraseys, 2005; Zwickel, 2024).
III. Terremoto como ruptura do espaço habitável e recurso narrativo de juízo na tradição bíblica
Em certos textos bíblicos, o “terremoto” não é descrito primariamente como vibração do solo (abalo ondulatório), mas como ruptura do espaço habitável: o chão racha, abre-se como uma “boca” e engole pessoas e bens. Nessa moldura, o fenômeno deixa de ser apenas um evento físico e passa a funcionar como linguagem narrativa de juízo público, porque o colapso do chão marca a dissolução visível de uma pertença comunitária: quem é “tragado” é retirado “do meio” da congregação (Nm 16:31–33).
Em Números 16:31–33, a sequência verbal organiza a cena como ruptura → abertura → deglutição → fechamento: “a terra… se fendeu” e “a terra abriu a sua boca e os tragou” (Nm 16:31–33, ARA; Nm 16:31–33, ACF). O hebraico explicita a imagem com verbos que pertencem ao campo semântico de “fender/abrir”: וַתִּבָּקַע הָאֲדָמָה (wa-tibbāqaʿ hā-ʾădāmāh, “e o solo se fendeu”) e וַתִּפְתַּח הָאָרֶץ אֶת־פִּיהָ (wa-tiftaḥ hā-ʾāreṣ ʾet-pîhā, “e a terra abriu a sua boca”), em que בקע (bāqaʿ, “fender”) e פתח (pātaḥ, “abrir”) dão ao evento a forma de uma fratura ativa, não apenas de um tremor. A comparação de versões mostra onde se concentra a ambiguidade tradutória: a NVI mantém “fendeu-se” e “abriu a sua boca”, mas traduz a descida “à sepultura” e explicita “a terra fechou-se sobre eles” (Nm 16:31–33); a NVT intensifica o registro físico com “rachou” e conserva o fechamento do solo (“A terra se fechou sobre eles”), com a mesma opção por “sepultura” (Nm 16:31–33). Em inglês, a diferença não é de “terremoto” versus “fenda”, mas de como se verte o destino dos engolidos: NIV prefere “realm of the dead” (em vez de transliterar) (Numbers 16:31–33), enquanto ESV e NASB preservam “Sheol”; já a KJV opta por “pit”, termo que pode sugerir “cova” mais do que “mundo dos mortos”.
A função teológica e social do episódio não depende de explicar mecanismos geológicos; ela depende do modo como o texto transforma a geografia em veredicto. A “terra” é figurada como agente que “abre a boca” e “cobre” os engolidos (Nm 16:32–33), e o fechamento final (“a terra… os cobriu”) sela o gesto como remoção pública “do meio da congregação” (ARA/ACF) ou “do meio da comunidade” (NVT). Por isso, o terremoto aqui não é apenas “sinal” de perigo natural, mas uma narrativa de colapso do chão comum: o espaço compartilhado deixa de sustentar quem, no enredo, rompeu a ordem cultual e comunitária (Nm 16, contexto imediato).
Zacarias 14:4–5 retoma o mesmo vocabulário de fenda e vale, mas em chave escatológica: o monte “será fendido pelo meio… e haverá um vale muito grande”. Aqui, a memória de um “terremoto” histórico aparece explicitamente no v. 5 (“como fugistes do terremoto nos dias de Uzias”), funcionando como analogia histórica para um futuro pânico coletivo. O hebraico volta a empregar o verbo de ruptura: וְנִבְקַע הַר הַזֵּיתִים (wə-nibqaʿ har ha-zētîm, “e o monte das Oliveiras será fendido”), com בקע (bāqaʿ, “fender”), e descreve a formação do vale como efeito direto da fenda (Zc 14:4–5). A comparação com versões inglesas é útil sobretudo por causa de escolhas que intensificam ou neutralizam a cena: ESV e NASB preservam “shall be split in two” e a ideia de “very wide/large valley”, enquanto a KJV usa “shall cleave”, termo mais arcaico, mas igualmente “fender”.
A LXX confirma que o núcleo da imagem em Números 16 não é “sacudir”, mas “rasgar/abrir”: “διεσχίσθη ἡ γῆ” (dieschisthē hē gē, “a terra foi fendida”) e “ἤνοιξεν ἡ γῆ τὸ στόμα αὐτῆς” (ēnoixen hē gē to stoma autēs, “a terra abriu a sua boca”), de modo que a metáfora da “boca” não é um detalhe de tradução portuguesa, mas elemento estrutural do texto antigo.
IV. Metáfora sísmica na linguagem bíblica
Em textos poéticos e oraculares, o “terremoto” nem sempre designa um evento geofísico observável, mas um repertório imagético de instabilidade cósmica usado para comunicar intervenção divina, juízo e colapso de garantias humanas. Nessa camada retórica, montes e outeiros funcionam como emblemas do que parece fixo e inamovível; quando “fundamentos” tremem, a ênfase não é sismológica, mas semântica: a ordem do mundo (política, cultual, moral) é apresentada como atingida em suas bases. Por isso, a leitura enciclopédica precisa separar, sem isolar artificialmente, (i) o nível literal (quando o texto narra um abalo físico) e (ii) o nível metafórico (quando o tremor é figura de linguagem), observando que ambos podem coexistir em um mesmo contexto literário.
No Salmo 18, a descrição do livramento é encenada com linguagem de teofania e comoção cósmica. O hebraico formula o quadro com uma cadeia verbal intensiva: וַתִּגְעַשׁ וַתִּרְעַשׁ הָאָרֶץ וּמוֹסְדֵי הָרִים יִרְגָּזוּ וַיִּתְגָּעֲשׁוּ (wa-tigʿaš wa-tirʿaš hāʾāreṣ ûmôsədê hārîm yirgāzû wayyitgaʿăšû — “a terra tremeu e estremeceu, e os fundamentos dos montes tremeram e se abalaram”). A expressão “fundamentos dos montes” traduz o sintagma וּמוֹסְדֵי הָרִים (ûmôsədê hārîm — “fundamentos dos montes”), em que “fundamentos” remete ao que sustenta estruturalmente; por isso, versões portuguesas oscilam entre verbos de “vacilar”, “tremer” e “agitar” (“vacilaram… os fundamentos”, ARA; “se moveram… e se abalaram”, ACF; “tremeram… agitaram-se”, NVT), marcando nuances diferentes para a mesma imagem. Em inglês, ESV/NIV/NASB convergem em “foundations of the mountains”, preservando a metáfora estrutural e tratando o tremor como reação ao “estar irado”, que fecha o verso como motivo teológico (“because he was angry”).
Em Jeremias 4:24, o cenário é de reversão criacional: a visão descreve a paisagem em convulsão como sinal de devastação total. O hebraico é conciso e visual: רָאִיתִי הֶהָרִים וְהִנֵּה רֹעֲשִׁים וְכָל־הַגְּבָעוֹת הִתְקַלְקָלוּ (rāʾîtî hehārîm wĕhinnēh rōʿăšîm wĕkāl-haggĕbāʿôt hitqalkəlû — “olhei os montes, e eis que tremiam; e todos os outeiros oscilavam”). Aqui a ambiguidade tradutória se concentra em הִתְקַלְקָלוּ (hitqalkəlû — “oscilaram; foram sacudidos; moveram-se de um lado para outro”), que pode soar como mero tremor ou como deslocamento errático; por isso, a ARA opta por “todos os outeiros estremeciam”, enquanto a ESV explicita o movimento direcional (“moved to and fro”). A imagem é deliberadamente hiperbólica: montanhas e colinas, símbolos do estável, tornam-se instáveis; o efeito retórico é reforçar a ideia de que o juízo atinge não só cidades e pessoas, mas o próprio “chão” do mundo narrativo.
Em Isaías 29:6, o “terremoto” aparece inserido numa lista de fenômenos teofânicos (trovões, grande estrondo, vendaval, tempestade, fogo), funcionando como item de um catálogo de visitação punitiva. O hebraico dispõe o termo em paralelo com trovão e ruído: מֵעִם יְהוָה צְבָאוֹת תִּפָּקֵד בְּרַעַם וּבְרַעַשׁ וְקֹול גָּדֹול סוּפָה וּסְעָרָה וְלַהַב אֵשׁ אֹכֵלָה (mēʿim YHWH ṣĕbāʾôt tippāqēd bĕraʿam ûbĕraʿaš wĕqōl gādōl sûpāh ûsĕʿārāh wĕlahab ʾēš ʾōkēlāh — “da parte do SENHOR dos Exércitos virá visitação com trovão, com terremoto, e com grande estrondo, com vendaval e tempestade, e chama de fogo devorador”). Um ponto sensível é a pluralização em português: a ARA verte “com terremotos”, ao passo que versões inglesas como a NIV mantêm “earthquake” no singular, aproximando o termo de um elemento do conjunto, não de uma multiplicidade de abalos. Essa diferença não exige, por si só, uma leitura divergente do hebraico, mas afeta o “peso” perceptivo do item na lista: plural pode sugerir repetição/intensidade, enquanto singular tende a preservar o caráter enumerativo do catálogo.
V. Terremoto na teofania silenciosa: o Deus que passa “depois” do abalo
1 Reis 19:11-12 organiza uma teofania por gradação de fenômenos naturais — vento, terremoto e fogo — e, ao mesmo tempo, por negação sucessiva: “o SENHOR não estava” em cada um desses meios (cf. (em ARA: “porém o SENHOR não estava no vento… mas o SENHOR não estava no terremoto… mas o SENHOR não estava no fogo”; ACF: “porém o Senhor não estava no vento… também o Senhor não estava no terremoto… porém também o Senhor não estava no fogo”). Nesse enquadramento, “terremoto” não atua como simples descrição física, mas como elemento de um inventário literário de forças máximas que, apesar de impressionantes, não definem automaticamente a modalidade da presença divina no episódio.
O termo hebraico traduzido רַעַשׁ (raʿaš, “abalo; terremoto”), colocado após o vento como segunda etapa do encadeamento: וְאַחַר הָרוּחַ רַעַשׁ (wəʾaḥar hārûaḥ raʿaš, “e depois do vento, um terremoto”), seguido imediatamente da cláusula negativa: לֹא בָרַעַשׁ יְהוָה (lōʾ bārāʿaš YHWH, “não estava no terremoto o SENHOR”) em 1 Reis 19:11. A escolha do substantivo, e não de um verbo de “tremer”, favorece a leitura do evento como “entidade” narrativa (um abalo nomeado) integrada a uma tríade (vento → terremoto → fogo) cujo ponto central é a disjunção entre espetáculo e comunicação.
A maior variação tradutória em português não recai sobre “terremoto”, mas sobre o fecho do v. 12, onde ocorre a expressão קֹול דְּמָמָה דַקָּה (qōl dəmāmāh daqqāh, “som de silêncio tênue” ou “som de quietude delicada”). A ARA verte “um cicio tranquilo e suave”, enquanto a ACF opta por “uma voz mansa e delicada”. Em versões de circulação ampla no Brasil, a NVT traz “um suave sussurro” e a NAA “o som de um suave sussurro” no mesmo segmento. A diferença “voz” versus “som” é relevante porque, no próprio contexto, vento, terremoto e fogo emitem ruído, não “fala”; por isso, “som” preserva melhor a coesão do encadeamento físico, ao passo que “voz” enfatiza o caráter comunicativo do desfecho.
O contraste fica ainda mais visível quando se observam versões inglesas consagradas: a NIV traz “a gentle whisper”, a ESV “the sound of a low whisper”, a ASV e a NKJV “a still small voice”, e a NASB “a sound of a gentle blowing”. Nessa família de escolhas, “gentle blowing” aproxima o desfecho de uma categoria meteorológica mínima, enquanto “low whisper” e “still small voice” aproximam o desfecho do campo auditivo humano; ambas as opções são tentativas de acomodar o caráter liminar de דְּמָמָה (dəmāmāh, “silêncio; quietude”) e דַקָּה (daqqāh, “tênue; delicada”) em linguagem receptora.
A consulta à tradição grega antiga só agrega algo aqui porque explicita uma leitura interpretativa precoce desse fecho: em 1 Reis 19:12, a LXX traz “φωνὴ αὔρας λεπτῆς” (phōnē auras leptēs, “som de uma brisa sutil”), o que se alinha mais diretamente com traduções do tipo “sopro/brisa” do que com “voz” em sentido estrito, e usa para “terremoto” o termo “συσσεισμός” (syssismos, “abalo violento”) no mesmo verso. Esse dado não muda a estrutura do texto hebraico, mas ajuda a explicar por que certas traduções modernas preferem soluções que mantêm o registro de fenômeno físico mínimo (“brisa”, “sopro”) em vez de uma “voz” plenamente verbalizada.
VI. O terremoto na morte de Cristo: sinal cósmico, rutura do sagrado e medo do centurião
No relato da Paixão em Mateus, o terremoto integra uma sequência de sinais que se adensam no momento da morte de Jesus e funcionam como marca narrativa de viragem: trevas sobre “toda a terra”, o clímax do último brado, e, em seguida, a ruptura do véu e o abalo da terra com fenda de rochas e abertura de sepulcros (Mt 27:45; 27:50–54). A particularidade do primeiro evangelho é a concentração desses fenômenos como reação da criação ao Crucificado: Marcos e Lucas registram as trevas e o rasgar do véu, mas não descrevem o terremoto e as rochas fendidas com a mesma elaboração mateana, de modo que, para o verbete “terremoto”, Mateus 27:51–54 se torna um locus central para observar como o vocabulário de abalo se articula com teofania, juízo e reconhecimento cristológico.
O quadro começa com a menção temporal das trevas, cuja formulação revela escolhas tradutórias relevantes para a leitura: a ARA conserva a expressão semítica “Desde a hora sexta até à hora nona” (Mt 27:45), enquanto a NVT verte o mesmo dado como “Ao meio-dia… três horas… Por volta das três da tarde” (Mt 27:45–46), esclarecendo a equivalência aproximada (Mt 27:45–46). Em inglês, a NIV também explicita “From noon until three in the afternoon” (Mt 27:45), ao passo que versões como a ESV mantêm “from the sixth hour… until the ninth hour” (Mt 27:45), preservando o sabor cronológico do original e deixando ao leitor a conversão cultural. Ainda nesse versículo, a oscilação entre “terra” e “território” em traduções (“sobre toda a terra” na ARA; “over all the land” na ESV) corresponde à amplitude semântica de γῆ (gē, “terra; região”), termo que, no mesmo bloco narrativo, reaparece como sujeito do abalo, reforçando a unidade imagética “trevas sobre a γῆ” → “a γῆ tremeu” (Mt 27:45; 27:51).
O terremoto surge explicitamente associado ao rasgar do véu e ao estremecimento do mundo físico: em Mateus 27:51, a cadeia de orações coordenadas faz o leitor “ver” uma cascata de eventos (“Eis que o véu do santuário se rasgou… tremeu a terra, fenderam-se as rochas”, ARA), enquanto a ACF aproxima o primeiro termo do espaço cultual com “véu do templo” e mantém o paralelismo (“tremeu a terra, e fenderam-se as pedras”) (Mt 27:51). A variação “véu”/“cortina” se deixa observar com nitidez quando a NVT opta por “a cortina do santuário do templo” (Mt 27:51), ampliando o valor descritivo, ao passo que versões inglesas oscilam entre “curtain” (NIV/ESV) e “veil” (ASV), distinção que, em português, tende a concentrar-se em “véu”. No grego, a mesma progressão é concentrada em formas verbais que descrevem efeitos sobre o espaço sagrado e sobre a terra: “τὸ καταπέτασμα… ἐσχίσθη” (to katapetasma… eschίσthē, “o véu/cortina… foi rasgado”) e “καὶ ἡ γῆ ἐσείσθη” (kai hē gē eseisthē, “e a terra tremeu/foi sacudida”), seguidas por “καὶ αἱ πέτραι ἐσχίσθησαν” (kai hai petrai eschίσthēsan, “e as rochas se fenderam”) (Mt 27:51). Esse encadeamento ajuda a perceber por que traduções tendem a preservar o par “earth shook / rocks split” (NIV) ou “earth shook / rocks were split” (ESV), mantendo o ritmo de impactos sucessivos, e por que versões mais antigas podem preferir “did quake… were rent” (ASV), retendo vocabulário tradicional para abalos e fendas.
Em Mateus 27:54, o terremoto deixa de ser apenas efeito geofísico e passa a operar como dado interpretativo na cena humana: a ARA escreve que o centurião e os que guardavam Jesus, “vendo o terremoto e tudo o que se passava, ficaram possuídos de grande temor” (Mt 27:54), a ACF registra “tiveram grande temor” (Mt 27:54) e a NVT acentua “ficaram aterrorizados” (Mt 27:54), de modo que, em todas, o abalo é um dos gatilhos do medo coletivo. Em inglês, a NIV formula a relação causal de modo direto: “saw the earthquake and all that had happened, they were terrified” (Mt 27:54), enquanto a ESV prefere “were filled with awe” e a NASB “became extremely frightened”, escolhas que modulam o campo afetivo entre terror, pavor e assombro reverente, sem eliminar a presença do terremoto como objeto visto (Mt 27:54). No grego, o versículo explicita o terremoto como elemento observado e coloca o medo em grau máximo: “ἰδόντες τὸν σεισμὸν… ἐφοβήθησαν σφόδρα” (idontes ton seismon… ephobēthēsan sphodra, “vendo o terremoto… temeram intensamente”), culminando na declaração “Ἀληθῶς θεοῦ υἱὸς ἦν οὗτος” (alēthōs theou huios ēn houtos, “verdadeiramente este era Filho de Deus”) (Mt 27:54). Em Mateus, “terremoto” (σεισμός, seismos, “terremoto; abalo”) não é apenas um fenômeno natural relatado, mas um sinal narrativo que participa da passagem do acontecimento físico ao reconhecimento público do estatuto de Jesus na própria boca do poder militar romano (Mt 27:54).
VII. O terremoto na ressurreição: o “grande abalo” como abertura do novo mundo
Mateus vincula o acontecimento da ressurreição a um terremoto qualificado como “grande”, inserindo-o na lógica narrativa de deslocamento de barreiras e reconfiguração de acesso: “καὶ ἰδοὺ σεισμὸς ἐγένετο μέγας” (kai idou seismos egeneto megas — “e eis que ocorreu um grande terremoto”) (Mt 28:2). O texto não descreve danos estruturais, fendas ou colapsos, como em outras passagens, mas associa o abalo ao movimento do anjo e ao rolamento da pedra, de modo que o terremoto funciona como sinal de transição de estado (morte → vida) e de abertura de um espaço antes selado. Em português, a ARA conserva “houve um grande terremoto” (Mt 28:2) e a ACF mantém a mesma formulação, enquanto a NVT prefere “de repente, houve um grande terremoto”, explicitando o advérbio de súbito que, no grego, aparece logo adiante na progressão da cena (Mt 28:2). Em inglês, ESV, NIV e NASB convergem em “a great earthquake”, preservando a qualificação por μέγας (megas — “grande”) e mantendo “earthquake” como equivalente estável de σεισμός (seismos — “terremoto; abalo”).
O encadeamento imediato do versículo amarra o terremoto ao agente celeste e ao ato de remover a pedra: “ἄγγελος… καταβὰς… προσελθὼν ἀπεκύλισεν τὸν λίθον” (angelos… katabas… proselthōn apekylisen ton lithon — “um anjo… descendo… aproximando-se, removeu/rolou a pedra”) (Mt 28:2). Esse vínculo textual explica por que algumas traduções procuram tornar mais transparente a relação causal: a NIV formula “for an angel… came down… and, going to the tomb, rolled back the stone”, mantendo a sequência, e a NVT, em português, explicita “um anjo… desceu do céu e rolou a pedra”, preservando a mesma coesão narrativa (Mt 28:2). A menção subsequente dos guardas, “ἀπὸ δὲ τοῦ φόβου αὐτοῦ ἐσείσθησαν” (apo de tou phobou autou eseisthēsan — “por medo dele, tremeram/foram sacudidos”) (Mt 28:4), retoma o mesmo campo lexical do “abalo” para descrever reação humana, reforçando que Mateus articula terremoto e temor no mesmo bloco, sem exigir que o leitor deduza um mecanismo físico específico (Mt 28:4).
VIII. Terremoto e missão: a prisão que treme e as cadeias que cedem
Em Atos, o terremoto é apresentado com função narrativa operacional: ele altera imediatamente a configuração material do cárcere e cria as condições externas para um desfecho que, no conjunto do episódio, envolve decisão, testemunho e mudança de status do carcereiro (At 16:26–34). O versículo descreve o evento em termos de intensidade e efeitos estruturais: “ἄφνω δὲ σεισμὸς ἐγένετο μέγας, ὥστε σαλευθῆναι τὰ θεμέλια τοῦ δεσμωτηρίου” (aphnō de seismos egeneto megas, hōste saleuthēnai ta themelia tou desmōtēriou — “de repente ocorreu um grande terremoto, de modo que os fundamentos da prisão foram sacudidos”) (At 16:26). A ARA verte “sobreveio de repente um tão grande terremoto, que sacudiu os alicerces do cárcere”, e a ACF mantém praticamente a mesma redação; a NVT conserva “um grande terremoto” e explicita o resultado em cadeia (“as portas se abriram… as correntes se soltaram”) (At 16:26). Em inglês, NIV/ESV/NASB preservam a tríade de efeitos — “foundations… shaken”, “doors… opened”, “chains… unfastened/loosed” — com variações mínimas de estilo, mas mantendo o mesmo perfil causal (At 16:26).
Do ponto de vista lexical, Atos combina o substantivo σεισμός (seismos, “terremoto”) com o infinitivo passivo σαλευθῆναι (saleuthēnai, “ser sacudido; ser abalado”) e o substantivo θεμέλια (themelia, “fundamentos; alicerces”), o que favorece traduções que preservem, ao mesmo tempo, a ocorrência do terremoto e o seu efeito estrutural (At 16:26). Isso se evidencia no contraste entre traduções que enfatizam “alicerces/fundamentos” (ARA; ESV; NASB) e versões que preferem “a prisão tremeu” como formulação mais direta, sem perder a referência aos fundamentos como núcleo do efeito físico (At 16:26). A sequência “ἠνεῴχθησαν… πάντες οἱ δεσμοί ἀνέθη” (ēneōichthēsan… pantes hoi desmoi anethē, “as portas foram abertas… todos os grilhões foram soltos”) mostra que o interesse do narrador não é apenas registrar um fenômeno natural, mas descrever um conjunto de efeitos imediatos com impacto direto na cena missionária, sem necessidade de detalhamento adicional quando o português já transmite adequadamente a cadeia causal (At 16:26–27).
IX. Terremotos no Apocalipse: abalo como liturgia do juízo e ritmo do fim
No livro de Apocalipse, “terremoto” integra um repertório apocalíptico de sinais cósmicos e de respostas da criação aos atos judiciais que estruturam a narrativa. O termo dominante é o substantivo σεισμός (seismos, “terremoto”), que aparece em pontos de transição (selos, trombetas e cenas celestes) como marcador de passagem e intensificação, frequentemente em associação estável com relâmpagos, vozes/estrondos e trovões. Esse uso recorrente faz com que o terremoto, mais do que um dado descritivo isolado, funcione como elemento de cadência do enredo: ele pontua a progressão do juízo e ajuda a delimitar unidades visionárias.
Em Apocalipse 6:12, o sexto selo se abre com “um grande terremoto”, que introduz uma sequência de alterações cósmicas (sol, lua, estrelas e deslocamento de montes e ilhas). A expressão grega é σεισμὸς μέγας (seismos megas, “grande terremoto”), e a oscilação tradutória em português é instrutiva: a ARA registra “grande terremoto” (Ap 6:12; ARA), enquanto a ACF prefere “grande tremor de terra” (Ap 6:12; ACF), opção que aproxima a formulação de um fenômeno descrito pelo efeito (“tremor”) em vez do rótulo lexical “terremoto”. Em inglês, ESV e NIV convergem em “a great earthquake” (Ap 6:12; ESV; NIV), reforçando o caráter de evento-sinal que inaugura o quadro cósmico.
Em Apocalipse 8:5 e Apocalipse 11:19, o terremoto aparece numa fórmula quase litúrgica de teofania: relâmpagos, vozes, trovões e terremoto, compondo uma moldura sensorial que acompanha ações celestes decisivas. Em Apocalipse 8:5, a sequência final inclui “um terremoto” em versões como ESV e NASB (Ap 8:5), enquanto a ACF verte o fechamento no plural (“e terremotos”) (Ap 8:5), leitura que altera a escala do fenômeno ao sugerir multiplicidade onde o grego apresenta σεισμός (seismos, “terremoto”) no singular. A relevância dessa diferença é textual e interpretativa: pluralizar amplia o quadro, mas o singular preserva o valor de sinal pontual que marca a transição de cena.
Em Apocalipse 11:13, o terremoto sai do plano cósmico geral e toca a cidade com impacto mensurável: “caiu a décima parte da cidade” e há referência explícita a mortos e sobreviventes. O texto em inglês mantém a articulação causal (“there was a great earthquake… a tenth of the city fell…”) (Ap 11:13; ESV), e as versões em português, embora variem em escolhas menores, sustentam o mesmo encadeamento narrativo (Ap 11:13; ARA; NVT). Aqui, o terremoto não opera apenas como moldura de assombro, mas como mecanismo de colapso localizado que produz “queda” e “morte” dentro da própria cena, antecipando a linguagem de ruína urbana que se tornará dominante mais adiante.
X. O grande terremoto final: intensificação e universalidade do colapso
Em Apocalipse 16:18, o terremoto atinge o ponto máximo do livro: não é apenas “grande”, mas é descrito como sem paralelo histórico. A frase grega retoma o padrão intensificador: σεισμὸς μέγας (seismos megas, “grande terremoto”) e a qualificação de incomparabilidade (Ap 16:18; ESV). A ARA explicita o acúmulo: “ocorreu grande terremoto, como nunca houve igual… tal foi o terremoto, forte e grande”, enquanto a NVI escolhe “um forte terremoto” e reforça a ideia de singularidade histórica (“Nunca havia ocorrido um terremoto tão forte…”). Em inglês, a NIV usa “a severe earthquake” e realça a escala (“so tremendous was the quake”), e a NASB mantém “a great earthquake… so mighty”. Essas escolhas (“grande”, “forte”, “severe”, “mighty”) não contradizem o núcleo semântico, mas modulam o foco: “grande” tende à magnitude, “forte/severe” tende à intensidade física do abalo, e “mighty” acrescenta impressão de potência.
A função do terremoto em Apocalipse 16:18 é amplificada pelo contexto imediato: ele está acoplado ao mesmo conjunto de sinais (relâmpagos, vozes e trovões) que já aparecera em Apocalipse 8:5 e Apocalipse 11:19, mas agora o efeito narrativo é de colapso sistêmico, pois o texto prossegue com fragmentação da “grande cidade” e queda das “cidades das nações” (Ap 16:19). Desse modo, o terremoto final não apenas marca uma transição; ele opera como motor de desagregação do mundo humano organizado, coerente com o papel do livro em narrar uma escalada: do sinal cósmico (Ap 6:12), passando por molduras teofânicas recorrentes (Ap 8:5; 11:19) e por destruição localizada (Ap 11:13), até o abalo sem precedente que redefine o cenário inteiro (Ap 16:18–19).
XI. Terremoto e tradição histórica: Josefo e a moldura narrativa dos abalos na Judeia
A memória bíblica de um grande abalo na época do rei Uzias aparece como referência cronológica e cultural em Amós 1:1 (“dois anos antes do terremoto”) e como comparação de pânico coletivo em Zacarias 14:5 (“como fugistes do terremoto nos dias de Uzias”). Nesses dois lugares, o “terremoto” funciona como marco compartilhado de experiência histórica, indicado no hebraico por הָרָעַשׁ (hā-rāʿaš, “o terremoto”).
Em Antiguidades Judaicas (Ant. 9.10.4), Josefo insere o terremoto no mesmo episódio em que Uzias tenta oferecer incenso no templo e é atingido por lepra, acrescentando pormenores topográficos e arquitetônicos que não estão explicitados no relato paralelo de 2 Crônicas. A narrativa inclui uma “fenda” no templo, a incidência de luz sobre o rosto do rei e uma ruptura de encosta “antes da cidade”, com deslocamento de “meia montanha” e obstrução de vias e jardins reais, compondo um quadro de dano urbano e deformação do relevo associado ao juízo imediato sobre o rei. (Ant. 9.10.4; 2Cr 26:16–21).
A relação entre o terremoto de Josefo e a lembrança profética em Zacarias 14:5 pode ser descrita, com cautela, como convergência temática: em ambos, o abalo é lembrado como evento traumático capaz de pautar comparação e expectativa. É plausível inferir que a tradição posterior, ao detalhar ruptura do terreno e impacto em Jerusalém, fornece uma “moldura narrativa” que ajuda a entender por que um terremoto poderia permanecer como referência coletiva por gerações, sem que isso implique que Zacarias dependa literariamente de Josefo, ou que Josefo esteja apenas “explicando” Zacarias; trata-se de tradições que orbitam o mesmo núcleo memorial e o expandem de maneiras diferentes. (Zc 14:5; Ant. 9.10.4).
A. O terremoto no sétimo ano de Herodes: catástrofe, vulnerabilidade urbana e cronologia
Josefo registra outro grande terremoto “na Judeia” no sétimo ano do reinado de Herodes, enquadrando-o cronologicamente no mesmo período da batalha de Ácio (Ant. 15.5.2). O relato caracteriza o evento como sem precedente, menciona destruição significativa de rebanhos e atribui mortes humanas principalmente ao colapso de casas (“cerca de dez mil” mortos), ao passo que tropas acampadas ao ar livre não teriam sofrido dano, o que delimita o mecanismo principal de letalidade como falha estrutural em ambiente construído.
XII. Vocabulário de tradução e escolhas interpretativas: quando “terremoto” vira “abalo”, “tremor”, “comoção”
No léxico bíblico, a ideia de “terremoto” oscila entre (i) a nomeação do fenômeno enquanto evento e (ii) a descrição dos seus efeitos enquanto movimento, ruído e desestabilização. No hebraico, o substantivo רַעַשׁ (raʿaš, “terremoto; abalo”) pode designar tanto o tremor físico quanto, por extensão, “comoção” e “agitação” no sentido de perturbação ampla; essa elasticidade semântica é relevante quando traduções escolhem “abalo”, “tremor” ou “comoção” sem que isso implique negar o fenômeno físico.
Em Primeiro Reis 19:11–12, a narrativa organiza vento → terremoto → fogo como uma sequência de forças naturais que funcionam como moldura para a manifestação divina, e a opção por “terremoto” preserva a nitidez do catálogo. Aqui o hebraico emprega רַעַשׁ (raʿaš, “terremoto; abalo”), e traduções portuguesas majoritárias mantêm “terremoto” exatamente para marcar o evento como um item distinto entre outros fenômenos, sem exigir do leitor um “tom técnico” que o texto não pretende, mas também sem diluir o contraste retórico do elenco (1Rs 19:11–12).
Isaías 29:6 é um bom laboratório para observar como escolhas de número e de estilo mudam a “temperatura” do texto sem alterar seu núcleo semântico. O hebraico traz a expressão בְּרַעַשׁ (bəraʿaš, “com terremoto”), no singular, dentro de uma enumeração de sinais teofânicos (“trovões… terremoto… grande ruído…”); ainda assim, a ARA verte “com terremotos”, enquanto a NVI prefere “com trovões e terremoto” (Is 29:6). O dado fica mais claro quando se nota que a Septuaginta também usa o singular σεισμοῦ (seismou, “de terremoto”), o que mostra que o plural em português pode ser um plural de efeito (intensificação retórica) e não necessariamente uma afirmação de multiplicidade de eventos.
Em Salmo 18:7, por outro lado, a linguagem poética favorece a tradução por efeitos (“abalou-se… tremeu…”) em vez da nomeação do fenômeno. O objetivo do verso não é classificar o evento, mas retratar o mundo reagindo à intervenção divina: por isso, versões em português frequentemente preservam o paralelismo verbal (“abalou-se a terra e tremeu”), enquanto em inglês aparecem soluções igualmente “efeituais” (“the earth reeled and rocked”/“trembled and quaked”), que evitam transformar uma cena de imagética teofânica em um relatório geológico (Sl 18:7). Nesses contextos, “abalo” e “tremor” funcionam melhor do que “terremoto” para manter o foco na reação cósmica descrita pelo poema.
Mateus 27:51–54 mostra por que, no Novo Testamento, a alternância entre substantivo e verbo merece ser preservada quando possível. Em Mateus 27:51, o grego descreve o efeito: “καὶ ἡ γῆ ἐσείσθη” (kai hē gē eseisthē, “e a terra foi sacudida”), o que favorece “tremeu a terra”; já em Mateus 27:54, o evento é nomeado: “σεισμός” (seismos, “terremoto”), o que favorece “vendo o terremoto” (Mt 27:51; 27:54). A ARA, ao traduzir “tremeu a terra” em 27:51 e “vendo o terremoto” em 27:54, preserva precisamente essa alternância discursiva: primeiro o impacto no mundo físico, depois a identificação do fenômeno como um sinal que os observadores reconhecem.
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Abreviaturas e siglas
1Rs = Primeiro Reis
2Cr = Segundo Crônicas
a.C. = antes de Cristo
ACF = Almeida Corrigida Fiel
Ant. = Antiguidades Judaicas (Flávio Josefo, Antiquitates Judaicae)
Am = Amós
Ap = Apocalipse
ARA = Almeida Revista e Atualizada
ARC = Almeida Revista e Corrigida
ASV = American Standard Version
AT = Antigo Testamento
cf. = conferir; comparar
ESV = English Standard Version
et al. = e outros (latim: et alii/aliae)
Is = Isaías
Jr = Jeremias
KJV = King James Version
LXX = Septuaginta
Mt = Mateus
NAA = Nova Almeida Atualizada
NASB = New American Standard Bible
NIV = New International Version
NKJV = New King James Version
Nm = Números
NT = Novo Testamento
NTLH = Nova Tradução na Linguagem de Hoje
NVI = Nova Versão Internacional
NVT = Nova Versão Transformadora
p. = página
pp. = páginas
S.l. = sem local (latim: sine loco)
Sl = Salmos
s.n. = sem nome, sem editora (latim: sine nomine)
v. = volume
vs. = versus (em contraste com)
Zc = Zacarias
Cite este artigo:
GALVÃO, Eduardo. Terremoto. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 7 jun. 2016. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].
