Tristeza, Lamento — Enciclopédia Bíblica Online
Na Bíblia Hebraica, o campo de “tristeza” não é unívoco: ele inclui dor existencial e física, desgaste da vida e abatimento interior. Termos como עֶצֶב (ʿeṣeb, “dor/penosidade”), יָגוֹן (yāgôn, “aflição/pesar”) e תּוּגָה (tûgâ, “tristeza/abatimento”), junto dos verbos עָצַב (ʿāṣab, “entristecer/causar dor”) e יָגָה (yāgâ, “afligir-se”), mostram que a tristeza pode aparecer como sofrimento do corpo, peso do trabalho e estado do coração (Gn 3.16; Sl 127.2; Pv 14.13; 15.13). Já “lamentar” em sentido mais forte frequentemente assume tom de pranto público e fúnebre, com a ideia de luto e choro coletivo, não apenas emoção privada, de modo que o lamento bíblico também cumpre função moral e comunitária diante da perda e da ruína.
No Novo Testamento, λυπέω (lypeō, “entristecer”) e λύπη (lypē, “tristeza”) formam o vocabulário amplo da aflição, enquanto πενθέω (pentheō, “lamentar/prantear”) e πένθος (penthos, “lamento/luto”) designam tristeza intensificada, com densidade ética e escatológica. Por isso, a tradição distingue entre tristeza “segundo Deus”, que conduz a arrependimento e restauração, e tristeza “do mundo”, que permanece estéril e mortífera (2Co 7.8-11); além disso, a tristeza também aparece como disciplina pedagógica (Hb 12.11), como reação à ausência e à perda (1Ts 4.13) e, de modo singular, como componente cristológico da Paixão, sem qualquer relação com culpa pessoal de Jesus (Mt 26.37-38; Mc 14.34).
I. Delimitação semântica
| Lexema/forma | Delimitação semântica | Âncoras textuais |
|---|---|---|
| H6089 — עֵצֶב (ʿēṣeḇ, “dor/penosidade; trabalho penoso; ofensa; ídolo”). | Ocorrências: 7×. KJV (renderizações → contagens, já em português): “tristeza” 3×; “trabalho” 2×; “penosidade/aflição” 1×; “ídolo” 1×. Núcleo semântico: penosidade/dor vinculada à condição humana e ao labor (incluindo desgaste econômico e existencial), com extensão para “dor” relacional (ofensa causada por palavra) e, em um uso marcado, para “objeto-idolátrico” (por associação com algo “feito”/“moldado”). | Gn 3.16; Sl 127.2; Pv 5.10; Pv 10.22; Pv 14.23; Pv 15.1; Jr 22.28. |
| H3015 — יָגוֹן (yāḡôn, “pesar/tristeza; aflição”). | Ocorrências: 14×. KJV (renderizações → contagens, já em português): “tristeza” 12×; “pesar” 2×. Núcleo semântico: tristeza como afeto interno e durativo (pesar/abatimento), frequentemente associado a aflição, privação e desânimo, sem a elasticidade de “labor/penosidade” típica de עֵצֶב. | Gn 42.38; Gn 44.31; Et 9.22; Sl 13.2; Sl 31.10; Sl 107.39; Sl 116.3; Is 35.10; Is 51.11; Jr 8.18; Jr 20.18; Jr 31.13; Jr 45.3; Ez 23.33. |
| G3076 — λυπέω (lypeō, “entristecer; afligir; ofender”). | Ocorrências: 26× em 21 versos. KJV (renderizações → contagens, já em português): “ficar triste” 6×; “afligir/causar tristeza” 6×; “entristecer” 6×; “sentir pesar” 3×; “tristeza” 3×; “causar pesar” 1×; “ficar abatido” 1×. Núcleo semântico: dinâmica verbal da tristeza (ser entristecido/entristecer), cobrindo tanto reação afetiva imediata quanto tristeza moral/pastoral (correção e disciplina) e também “ofensa”/escrúpulo causado a outrem. | Mt 14.9; Mt 17.23; Mt 18.31; Mt 19.22; Mt 26.22; Mt 26.37; Mc 10.22; Mc 14.19; Jo 16.20; Jo 21.17; Rm 14.15; 2Co 2.2; 2Co 2.4; 2Co 2.5; 2Co 6.10; 2Co 7.3; 2Co 7.9; 2Co 7.11; Ef 4.30; 1Ts 4.13; 1Pe 1.6. |
| G3077 — λύπη (lypē, “tristeza; pesar; aflição”). | Ocorrências: 16× em 14 versos. KJV (renderizações → contagens, já em português): “tristeza” 11×; “abatimento/peso” 2×; “penoso” 1×; “de má vontade/por pesar” 1×; “pesar” 1×. Núcleo semântico: substantivo nuclear para “tristeza/pesar”, com emprego técnico para distinguir tristeza “segundo Deus” vs. tristeza “do mundo”, e com uma borda semântica que alcança a ideia de “relutância” em contexto volitivo (dar “não por pesar”). | Lc 22.45; Jo 16.6; Jo 16.20; Jo 16.21; Jo 16.22; Rm 9.2; 2Co 2.1; 2Co 2.3; 2Co 2.7; 2Co 7.10; 2Co 9.7; Fp 2.27; Hb 12.11; 1Pe 2.19. |
| G3996 — πενθέω (pentheō, “lamentar; prantear”). | Ocorrências: 10× em 10 versos. KJV (renderizações → contagens, já em português): “prantear/lamentar (luto)” 7×; “chorar alto” 2×; “prantear intensamente” 1×. Núcleo semântico: luto/lamentação como resposta pública e ritualizada (pranto), com aplicação ética em contextos de arrependimento e de reação à perversão comunitária. | Mt 5.4; Mt 9.15; Mc 16.10; Lc 6.25; 1Co 5.2; 2Co 12.21; Tg 4.9; Ap 18.11; Ap 18.15; Ap 18.19. |
| G3997 — πένθος (penthos, “lamento; pranto; luto”). | Ocorrências: 5× em 4 versos. KJV (renderizações → contagens, já em português): “tristeza” 3×; “luto/pranto” 2×. Núcleo semântico: “lamento” como estado ou evento (pranto/luto), servindo tanto para o lamento das potências corruptas quanto para o eixo escatológico de sua supressão final. | Tg 4.9; Ap 18.7; Ap 18.8; Ap 21.4. |
| G4036 — περίλυπος (perilypos, “profundamente triste”). | Ocorrências: 5× em 5 versos. KJV (renderizações → contagens, já em português): “profundamente triste” 2×; “muito triste” 2×; “triste” 1×. Núcleo semântico: intensificador afetivo (tristeza aguda), frequentemente em cenários de crise moral/decisiva e de sofrimento iminente. | Mt 26.38; Mc 6.26; Mc 14.34; Lc 18.23; Lc 18.24. |
| G85 — ἀδημονέω (adēmoneō, “angustiar-se; ficar abatido”). | Ocorrências: 3× em 3 versos. KJV (renderizações → contagens, já em português): “ficar abatido/angustiado” 2×; “ficar muito abatido” 1×. Núcleo semântico: aflição/angústia intensa (abatimento profundo), correlacionada a pressão extrema e iminência de sofrimento, distinguindo-se de tristeza ordinária por sua carga de opressão e inquietação. | Mt 26.37; Mc 14.33; Fp 2.26. |
II. Dor, penosidade e labuta no campo semântico de עצב
A série de ocorrências aqui em foco articula, em hebraico, um mesmo campo lexical que oscila entre dor física, penosidade existencial e desgaste do labor, em torno de formas derivadas da raiz עצב. Em Gênesis 3.16 a sentença dirigida à mulher concentra dois empregos contíguos que já mostram a bifurcação semântica: עִצְּבוֹנֵךְ (ʿiṣṣəḇōnēḵ, “tua dor/penosidade”) e בְּעֶצֶב (bəʿeṣeḇ, “com dor/penosamente”), primeiro como substantivo com sufixo de 2ª f. sg., depois como sintagma preposicional adverbial que qualifica o ato de dar à luz; o paralelismo interno (“multiplicarei… tua penosidade…; com penosidade darás à luz”) sugere que o termo não designa apenas “dor” em sentido sensorial, mas um regime de experiência marcado por custo e desgaste, no qual sofrimento corporal e condição de vida se interpenetram (Gn 3.16). A forma da KJV (“multiply thy sorrow… in sorrow thou shalt bring forth children”) preserva a amplitude afetiva de “sorrow”, enquanto a ESV (“pain in childbearing… in pain”) estreita para “pain”; a oscilação confirma que a palavra hebraica permite leitura que vai do sofrimento físico à penosidade global do estado pós-queda, sem exigir que se escolha um único eixo semântico. A própria LXX, ao verter o verso com λύπας (lypas, “dores/aflições”) e ἐν λύπαις (en lypais, “em dores/aflições”), mantém essa elasticidade, pois λύπη em grego bíblico pode abarcar aflição, tristeza e sofrimento, servindo como ponte natural entre dor e pesar.
A mesma raiz, deslocada para o horizonte do trabalho e do ritmo cotidiano, aparece em Salmos 127.2 na expressão לֶחֶם הָעֲצָבִים (leḥem hāʿaṣāḇîm, “pão das penosidades”), onde a metáfora do “pão” indica o resultado consumido de um modo de vida: comer o que se produz à custa de exaustão e ansiedade. A cláusula contrapõe o ativismo estéril (“levantar cedo”, “deitar tarde”) ao dom do repouso, de modo que “penosidade” não é mero “esforço” neutro, mas esforço que corroi, porque se tornou critério de segurança e não simples meio de subsistência (Sl 127.2). Aqui, novamente, as versões inglesas ajudam a localizar o ponto semântico: KJV (“bread of sorrows”) mantém “sorrows”, enquanto ESV (“bread of anxious toil”) explicita a componente ansiosa que já está implicada na estrutura do verso (Sl 127.2). A LXX reforça a leitura de dor-penosidade ao traduzir “pão” por ἄρτον (arton, “pão”) e qualificar por ὀδύνης (odynēs, “dor/sofrimento”), termo que pode marcar sofrimento fatigante e não apenas tristeza episódica (Sl 126.2 LXX ≈ Sl 127.2 MT).
No provérbio sapiencial e no aviso moral, o mesmo campo lexical se “economiciza”: em Provérbios 5.10, a advertência sobre o custo social do desvio é formulada com וַעֲצָבֶיךָ (waʿaṣāḇeḵā, “teus labores/penosidades”), ligando a perda não ao afeto interior, mas ao escoamento do fruto do trabalho para a “casa do estrangeiro”. O termo, nessa moldura, designa a energia vital investida e acumulada — trabalho como patrimônio — e por isso funciona como índice de dano material e de humilhação social, não como simples “tristeza” psicológica (Pv 5.10). A equivalência com “labours” na KJV e na ESV confirma que, nesse contexto, o tradutor capta a acepção laboral como a mais pertinente, sem apagar o componente de desgaste implícito na raiz (Pv 5.10).
Provérbios 14.23 fixa essa acepção em forma gnômica: בְּכָל־עֶצֶב (bəḵol ʿeṣeḇ, “em todo labor/penosidade”) associa produtividade a “penosidade” e contrasta com o vazio performativo do “falar”. O ponto semântico não é “tristeza” emocional, mas trabalho real, custoso, cujo resultado se mede por “vantagem”/“lucro”. O emprego do substantivo como categoria geral de labor confirma que a raiz comporta um polo semântico estável ligado ao esforço produtivo (Pv 14.23). KJV (“labor”) e ESV (“labuta”) convergem precisamente nesse eixo, reforçando que, na tradição de tradução, este verso é lido como máxima sobre economia moral do trabalho, não como descrição de estados afetivos (Pv 14.23). O dado mais instrutivo, porém, é a LXX: ἐν παντὶ μεριμνῶντι (en panti merimnōnti, “em todo o que se ocupa ansiosamente/solicitamente”) desloca a máxima de “labor” para “solicitude” e “diligência”, aproximando o hebraico de um campo de “preocupação aplicada” que, por sua vez, dialoga com a tensão de Salmos 127.2 (“trabalho ansioso”); a tradução grega torna explícito que o eixo “labor” pode ser percebido como “cuidado ansioso” quando o trabalho é concebido como pressão constante e não apenas como atividade física (Pv 14.23 LXX).
A distinção interna do hebraico em Provérbios ajuda a evitar uma redução indevida: o mesmo capítulo que usa עֶצֶב (ʿeṣeḇ, “labor/penosidade”) para trabalho (Pv 14.23) emprega outro lexema para a experiência afetiva de pesar. Em Provérbios 14.13, o contraste entre riso e interioridade termina com תּוּגָה (tûgâ, “tristeza”), configurando “tristeza” como resultado que pode suceder até mesmo à alegria; as versões refletem isso ao preferirem “grief/heaviness” (KJV) ou “grief” (ESV), sinalizando que aqui o domínio é eminentemente emocional (Pv 14.13). Já em Provérbios 15.13, a formulação é mais fina: בְעַצְּבַת־לֵב (bəʿaṣṣəḇaṯ-lēḇ, “na tristeza do coração”) reinsere a mesma raiz עצב no campo interior, agora explicitamente qualificada por “coração”, e por isso pode ser traduzida como “sorrow of the heart” (KJV/ESV). Essa construção mostra que o hebraico não só dispõe de um lexema alternativo para “tristeza” (תּוּגָה), como também pode interiorizar o próprio vocabulário do “labor/penosidade” para descrever um estado de abatimento que “quebra/esmaga o espírito” (Pv 15.13).
III. Tristeza como resposta moral no Novo Testamento
A delimitação do campo semântico aqui tratado exige distinguir dois eixos lexicais que podem convergir na mesma experiência afetiva, mas operam com perfis diferentes. O verbo πενθέω (pentheō, “lamentar”) e o substantivo πένθος (penthos, “lamento”) pertencem ao vocabulário do “pranto” em sentido forte, isto é, a tristeza expressa como lamento público ou interiorizado, com gravidade comparável à linguagem de luto; quando inseridos em contextos de pecado e conversão, funcionam como marca verbal de uma resposta moral apropriada. Já λύπη (lypē, “tristeza/dor”) e λυπέω (lypeō, “entristecer/causar tristeza”) têm amplitude semântica maior, cobrindo a aflição como sofrimento psíquico em geral; por isso, são particularmente aptos para codificar a tristeza produzida por repreensão, disciplina comunitária e arrependimento, sem pressupor, por si mesmos, a moldura ritual do lamento.
No ensinamento programático das bem-aventuranças, a forma participial πενθοῦντες (penthountes, “os que lamentam”) aparece como predicado do grupo declarado “feliz”, com promessa de reversão futura: μακάριοι οἱ πενθοῦντες, ὅτι αὐτοὶ παρακληθήσονται (makarioi hoi penthountes, hoti autoi paraklēthēsontai, “bem-aventurados os que lamentam, porque eles serão consolados”) (Mt 5.4). A construção é deliberadamente aberta quanto ao objeto do lamento: o texto não especifica “pelo quê” se chora, o que permite que o lamento seja entendido tanto como dor diante do mal e da ruína (inclusive moral) quanto como pranto em situações de perda. O ponto semanticamente controlável, porém, é que πενθέω (pentheō, “lamentar”) é escolhido para qualificar uma tristeza compatível com a economia do consolo divino, e não para nomear uma emoção neutra: o consolo prometido (παρακληθήσονται, paraklēthēsontai, “serão consolados”) integra o afeto ao horizonte ético-escatológico do Reino.
A moldura lucana intensifica essa dimensão normativa pelo contraste temporal e pelo anúncio de reversão: οὐαὶ ὑμῖν, οἱ γελῶντες νῦν, ὅτι πενθήσετε καὶ κλαύσετε (ouai hymin, hoi gelōntes nyn, hoti penthēsete kai klausete, “ai de vós que rides agora, porque lamentareis e chorareis”) (Lc 6.25). Aqui, πενθήσετε (penthēsete, “lamentareis”) não descreve apenas um estado emocional futuro, mas uma inversão avaliativa: o “riso agora” é desautorizado pela perspectiva do juízo e da perda, de modo que o lamento futuro funciona como correção moral da autossatisfação presente. O par verbal “lamentar e chorar” (πενθήσετε…κλαύσετε) produz um retrato semântico de tristeza total, verbalizada e visível, adequado ao registro profético de “ai”.
O uso paulino em 1 Coríntios 5:2 desloca πενθέω (pentheō, “lamentar”) para dentro de uma ética eclesial da disciplina, em oposição direta ao autoengrandecimento comunitário: καὶ ὑμεῖς πεφυσιωμένοι ἐστε καὶ οὐχὶ μᾶλλον ἐπενθήσατε… (kai hymeis pephysiōmenoi este kai ouchi mallon epenthēsate…, “e vós estais ensoberbecidos e não lamentastes antes…”) (1Co 5.2). A alternativa lógica é propositalmente aguda: a comunidade deveria “lamentar” (ἐπενθήσατε, epenthēsate, “lamentastes”) porque o pecado não é um dado indiferente, mas um evento que demanda afeto ético congruente. Nesse contexto, o lamento não é sentimentalismo, mas postura moral que sustenta a ação corretiva (“para que seja removido do meio”): o verbo de luto funciona como indicador semântico de que a comunidade reconheceu a gravidade do ato e se posicionou contra ele.
A mesma gravidade aparece em 2 Coríntios 12:21, onde o lamento é antecipado como reação pastoral diante de pecado persistente sem arrependimento: …καὶ πενθήσω πολλοὺς τῶν προημαρτηκότων καὶ μὴ μετανοησάντων… (…kai penthēsō pollous tōn proēmartēkotōn kai mē metanoēsantōn…, “…e lamentarei muitos dos que pecaram anteriormente e não se arrependeram…”) (2Co 12.21). A combinação de πενθήσω (penthēsō, “lamentarei”) com a negação explícita do arrependimento (μὴ μετανοησάντων, mē metanoēsantōn, “não tendo-se arrependido”) delimita com precisão o tipo de tristeza: não se trata de tristeza por contrariedade pessoal, mas de lamento moral por um estado objetivo de impureza e desordem ética que permanece, isto é, uma tristeza motivada pelo fato de o pecado não ter sido desfeito pela conversão.
O imperativo moral em Tiago 4:9 condensa o eixo πενθέω/πένθος como vocabulário de resposta penitencial: ταλαιπωρήσατε καὶ πενθήσατε καὶ κλαύσατε· ὁ γέλως ὑμῶν εἰς πένθος μετατραπήτω καὶ ἡ χαρὰ εἰς κατήφειαν (talaipōrēsate kai penthēsate kai klausate; ho gelōs hymōn eis penthos metatrapētō kai hē chara eis katēpheian, “afligi-vos, lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em lamento e a alegria em abatimento”) (Tg 4.9). A força semântica do trecho está na transformação exigida: “riso” (γέλως, gelōs, “riso”) e “alegria” (χαρά, chara, “alegria”) devem ceder lugar a “lamento” (πένθος, penthos, “lamento”) e “abatimento” (κατήφεια, katēpheia, “abatimento/dejeção”). Assim, o lamento não é apenas permitido; é ordenado como afeto adequado à condição moral diagnosticada no contexto imediato (humilhação diante de Deus e abandono da duplicidade).
O “adensamento” paulino com λύπη/λυπέω torna-se explícito em 2 Coríntios 7.8–11, onde a tristeza é analisada quanto à sua causalidade, finalidade e frutos. O texto afirma que houve tristeza produzida por uma carta, mas com efeito teleológico: οὐχ ὅτι ἐλυπήθητε ἀλλ’ ὅτι ἐλυπήθητε εἰς μετάνοιαν… ἐλυπήθητε γὰρ κατὰ θεόν (ouch hoti elypēthēte all’ hoti elypēthēte eis metanoian… elypēthēte gar kata theon, “não [me alegro] porque fostes entristecidos, mas porque fostes entristecidos para arrependimento… pois fostes entristecidos segundo Deus”) (2Co 7.9). Em seguida, a passagem “programática” fixa o contraste conceitual no próprio nível lexical: ἡ γὰρ κατὰ θεὸν λύπη… ἡ δὲ τοῦ κόσμου λύπη… (hē gar kata theon lypē… hē de tou kosmou lypē…, “pois a tristeza segundo Deus… mas a tristeza do mundo…”) (2Co 7.10).
A expressão κατὰ θεόν (kata theon, “segundo Deus”) delimita a tristeza por critério normativo (conforme Deus, isto é, conforme sua vontade e avaliação), enquanto τοῦ κόσμου (tou kosmou, “do mundo”) qualifica a tristeza por pertencimento/ordem de valores; o contraste não é entre intensidade psicológica, mas entre orientação moral e efeito resultante: uma “produz” (ἐργάζεται, ergazetai, “produz/efetua”) arrependimento, a outra “opera” (κατεργάζεται, katergazetai, “produz/realiza”) morte. A ambiguidade relevante de tradução concentra-se em ἀμεταμέλητον (ametamelēton, “sem arrependimento/sem regret”), forma que concorda em gênero e caso tanto com μετάνοιαν (metanoian, “arrependimento”) quanto com σωτηρίαν (sōtērian, “salvação”) na sequência μετάνοιαν εἰς σωτηρίαν ἀμεταμέλητον (metanoian eis sōtērian ametamelēton).
A redação da KJV (“repentance to salvation not to be repented of”) evidencia uma leitura tradicional que faz o qualificativo recair sobre o “arrependimento” como processo que não deve ser “arrependido” depois, enquanto o posicionamento pós-nominal imediatamente após σωτηρίαν favorece a leitura de “salvação sem arrependimento/regret” como resultado estável; em ambos os casos, o ponto semântico controlado é que a tristeza “segundo Deus” é definida pelo seu telos ético (arrependimento) e pelo seu desfecho não regressivo, em contraste com uma tristeza mundana cujo produto final é destrutivo (2Co 7.10).
IV. Tristeza como instrumento pastoral
No eixo paulino da “tristeza” como ferramenta de restauração, o verbo λυπέω (lypeō, “entristecer/causar tristeza”) não opera como mera descrição afetiva, mas como categoria relacional que mede o dano e, simultaneamente, a possibilidade de recomposição do vínculo comunitário. A formulação “εἰ γὰρ ἐγὼ λυπῶ ὑμᾶς, καὶ τίς ὁ εὐφραίνων με εἰ μὴ ὁ λυπούμενος ἐξ ἐμοῦ;” (ei gar egō lypō hymas, kai tis ho euphrainōn me ei mē ho lypoumenos ex emou, “pois, se eu vos entristeço, quem me alegrará, senão aquele que por mim foi entristecido?”) fixa um princípio de reciprocidade pastoral: a tristeza infligida por correção verdadeira não rompe a comunhão como fim em si, mas cria um “campo moral” em que a alegria futura depende do mesmo sujeito que foi ferido pela admoestação, porque o telos buscado não é punição, mas retorno ao vínculo (2Co 2.2).
A mesma lógica reaparece quando a motivação do ato corretivo é explicitada: “ἐκ γὰρ πολλῆς θλίψεως καὶ συνοχῆς καρδίας ἔγραψα ὑμῖν διὰ πολλῶν δακρύων, οὐχ ἵνα λυπηθῆτε ἀλλὰ τὴν ἀγάπην ἵνα γνῶτε…” (ek gar pollēs thlipseōs kai synochēs kardias egrapsa hymin dia pollōn dakryōn, ouch hina lypēthēte alla tēn agapēn hina gnōte…, “de muita aflição e angústia de coração… não para que fôsseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o amor…”) subordina a tristeza ao propósito cognitivo e ético de tornar patente a “forma” do amor pastoral, isto é, um amor capaz de ferir para curar sem converter a ferida em método autônomo (2Co 2.4). Em seguida, ao delimitar o alcance do dano, a perícope emprega o perfeito “λελύπηκεν” (lelypēken, “tem entristecido/causou tristeza com efeito presente”) em “Εἰ δέ τις λελύπηκεν, οὐκ ἐμὲ λελύπηκεν ἀλλ’ ἀπὸ μέρους…” (ei de tis lelypēken, ouk eme lelypēken all’ apo merous…, “se alguém causou tristeza, não a causou a mim… mas em parte…”) para enquadrar a tristeza como realidade comunitária e graduável, evitando tanto a personalização do conflito quanto a dissolução do dano num sentimentalismo indistinto (2Co 2.5).
Quando o argumento avança para a “tristeza” produzida pela carta severa, o texto insiste no seu caráter instrumental e temporal: “εἰ καὶ ἐλύπησα ὑμᾶς ἐν τῇ ἐπιστολῇ, οὐ μεταμέλομαι… ὅτι… πρὸς ὥραν ἐλύπησεν ὑμᾶς” (ei kai elypēsa hymas en tē epistolē, ou metamelomai… hoti… pros hōran elypēsen hymas, “ainda que eu vos tenha entristecido… não me arrependo… pois… por uma hora vos entristeceu”) (2Co 7.8). O jogo verbal de 2 Coríntios 7:9 é decisivo: “οὐχ ὅτι ἐλυπήθητε ἀλλ’ ὅτι ἐλυπήθητε εἰς μετάνοιαν… ἐλυπήθητε γὰρ κατὰ θεόν” (ouch hoti elypēthēte all’ hoti elypēthēte eis metanoian… elypēthēte gar kata theon, “não [me alegro] porque fostes entristecidos, mas porque fostes entristecidos para arrependimento… pois fostes entristecidos segundo Deus”), onde a passivização (ἐλυπήθητε) recorta a tristeza como experiência recebida/sofrida no interior de um processo de conversão, e a expressão κατὰ θεόν delimita um padrão normativo (“segundo Deus”) que qualifica a tristeza pelo seu alinhamento teleológico, não por sua intensidade emocional (2Co 7.9).
A cláusula programática “ἡ γὰρ κατὰ θεὸν λύπη μετάνοιαν εἰς σωτηρίαν ἀμεταμέλητον ἐργάζεται· ἡ δὲ τοῦ κόσμου λύπη θάνατον κατεργάζεται” (hē gar kata theon lypē metanoian eis sōtērian ametamelēton ergazetai; hē de tou kosmou lypē thanaton katergazetai, “a tristeza segundo Deus produz arrependimento para salvação…; a tristeza do mundo produz morte”) fixa, com o substantivo λύπη (lypē, “tristeza”), a distinção conceitual que impede reduzir correção e disciplina a “culpa difusa” ou a “pena psicológica” (2Co 7.10). A tensão tradutória mais relevante concentra-se em ἀμεταμέλητον (ametamelēton, “sem arrependimento/remorso/sem pesar”): a ARA verte “que a ninguém traz pesar”, enquanto a NVI opta por “não remorso”, preservando o contraste entre um arrependimento salvífico que não se volta contra si em remorso estéril e uma tristeza “do mundo” que culmina em morte.
2 Coríntios 7:11 reconduz a discussão ao terreno comunitário e evidencial: “τὸ κατὰ θεὸν λυπηθῆναι” (to kata theon lypēthēnai, “o ter sido entristecido segundo Deus”) é nominalizado como evento interpretável pelos seus efeitos (zelo, temor, vindicação etc.), isto é, a tristeza “segundo Deus” se reconhece pragmaticamente pela geração de disposições restaurativas, e não pela mera comoção (2Co 7.11). Essa inteligibilidade teleológica da tristeza encontra paralelo na Carta aos Hebreus quando a disciplina é descrita como pedagogia paterna: “πᾶσα δὲ παιδεία… οὐ δοκεῖ χαρᾶς εἶναι ἀλλὰ λύπης, ὕστερον δὲ καρπὸν εἰρηνικὸν… δικαιοσύνης” (pasa de paideia… ou dokei charas einai alla lypēs, hysteron de karpon eirēnikon… dikaiosynēs, “toda disciplina… não parece ser de alegria, mas de tristeza; depois, porém, produz fruto pacífico… de justiça”) (Hb 12.11). Aqui, παιδεία (paideia, “disciplina/formação”) incorpora a λύπης (lypēs, “tristeza”) como componente provisório de um processo formativo cujo critério de validade é o “fruto” posterior, o que converge com o eixo coríntio: tristeza, correção e disciplina só são teologicamente inteligíveis quando subordinadas a restauração e justiça, e não quando absolutizadas como fim emocional ou mecanismo de controle.
V. Tristeza cristológica no Getsêmani e o léxico afetivo da Paixão
A cena do Getsêmani delimita um vocabulário afetivo específico que descreve a experiência de Jesus às vésperas da prisão, sem enquadrá-la como tristeza moral por culpa, mas como aflição ligada à iminência da Paixão. Em Mateus 26.37–38, a progressão narrativa é marcada por uma construção ingressiva (“começar a…”), na qual “começou a entristecer-se e a angustiar-se” (Mt 26.37) corresponde diretamente a ἤρξατο λυπεῖσθαι καὶ ἀδημονεῖν (ērxato lypeisthai kai adēmonein, “começou a entristecer-se e a angustiar-se”), articulando λυπέω (λυπεῖσθαι, lypeisthai, “entristecer-se”) com ἀδημονέω (ἀδημονεῖν, adēmonein, “angustiar-se/estar em aflição”) como um díptico semântico: tristeza + opressão/angústia, não apenas tristeza genérica. A fala subsequente intensifica o quadro: “A minha alma está profundamente triste até à morte” (Mt 26.38) traduz a predicação enfática περίλυπός ἐστιν ἡ ψυχή μου ἕως θανάτου (perilypos estin hē psychē mou heōs thanatou, “profundamente triste está a minha alma até a morte”), em que περίλυπος (perilypos, “profundamente triste”) funciona como intensificador lexical e ἕως θανάτου (heōs thanatou, “até a morte”) estabelece o limite extremo da aflição, sem exigir, por si só, leitura de culpa; no co-texto imediato, a referência é à hora e ao cálice da Paixão (Mt 26.39ss).
Marcos 14.33–34 conserva o mesmo núcleo, mas reconfigura a ênfase: onde Mateus combina tristeza e angústia, Marcos acrescenta uma tonalidade de assombro/pavor. “Começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia” (Mc 14.33) corresponde a ἤρξατο ἐκθαμβεῖσθαι καὶ ἀδημονεῖν (ērxato ekthambeisthai kai adēmonein, “começou a ser tomado de pavor e a angustiar-se”), inserindo ἐκθαμβεῖσθαι (ekthambeisthai, “ser tomado de pavor/assombro”) ao lado de ἀδημονεῖν (adēmonein, “angustiar-se”). Em seguida, Marcos repete praticamente a mesma fórmula intensiva de Mateus: “A minha alma está profundamente triste até à morte” (Mc 14.34) ↔ περίλυπός ἐστιν ἡ ψυχή μου ἕως θανάτου (perilypos estin hē psychē mou heōs thanatou, “profundamente triste está a minha alma até a morte”). A convergência dos dois evangelhos, portanto, estabiliza o bloco lexical como tristeza extrema (περίλυπος) + angústia (ἀδημονέω), com Marcos adensando o espectro afetivo por meio do pavor/assombro (ἐκθαμβεῖσθαι).
A variação entre versões modernas evidencia precisamente essa diferença de carga semântica, que não é redundante. Na KJV, Mateus 26.37 verte “began to be sorrowful and very heavy” e Marcos 14:33 “began to be sore amazed, and to be very heavy”, preservando a distinção entre o elemento de “espanto/pavor” (na cláusula “sore amazed”) e a opressão interna (“very heavy”). Já a ARA explicita em português o paralelismo com escolhas diferentes: em Mateus 26:37, “entristecer-se” + “angustiar-se”; em Marcos 14:33, “tomado de pavor” + “angústia”, distinguindo tristeza/angústia (λῡπέω/ἀδημονέω) de pavor/assombro (ἐκθαμβεῖσθαι). Em traduções inglesas contemporâneas, a mesma clivagem aparece com léxico menos idiomático que “very heavy”: ESV (“sorrowful and troubled”) e NASB (“grieved and distressed”) para Mateus 26:37; e, para Marcos 14:33–34, a presença de um termo de “assombro/alarmamento” tende a ser mantida por equivalentes do tipo “greatly distressed/alarmed” (variação entre versões), o que confirma que o acréscimo marcano não é estilístico neutro, mas semântico.
A contribuição da LXX é metodologicamente útil aqui porque mostra que a coligação “perílypos + psychē” não depende de um “grego psicológico” tardio, mas pertence ao repertório bíblico de linguagem lamentatória. Em Salmos 41:6 (LXX), lê-se: ἵνα τί περίλυπος εἶ, ψυχή (hina ti perilypos ei, psychē, “por que estás profundamente triste, ó alma?”), onde περίλυπος (perilypos, “profundamente triste”) qualifica ψυχή (psychē, “alma/vida interior”) em fórmula quase fixa.A repetição do mesmo par léxico em Mateus 26.38 e Marcos 14.34 permite afirmar, com lastro textual, que a expressão da Paixão mobiliza um idiomatismo bíblico de lamento; a hipótese de eco intencional específico de um salmo particular é uma inferência interpretativa (não uma necessidade gramatical), mas o dado verificável é que o evangelho formula a dor de Jesus com a mesma dicção da lamentação da LXX.
Tristeza, ausência e reversão pascal no vocabulário joanino
No Evangelho segundo João, a construção semântica da tristeza é programática e teleológica: ela é real no presente, mas já orientada para reversão. A formulação “ἡ λύπη πεπλήρωκεν ὑμῶν τὴν καρδίαν” (hē lypē peplērōken hymōn tēn kardian, “a tristeza encheu o vosso coração”) descreve um estado atual e abrangente da interioridade dos discípulos, enquanto a sentença “ἡ λύπη ὑμῶν εἰς χαρὰν γενήσεται” (hē lypē hymōn eis charan genēsetai, “a vossa tristeza se tornará em alegria”) redefine esse afeto como etapa de uma transição escatológica, não como termo final. Nesse ponto, o eixo lexical é λύπη/λυπέω, e não περίλυπος, no recorte de João 16.6 e 16.20–22.
A metáfora do parto em João 16.21 desloca a tristeza do campo de mera reação psíquica para uma categoria literária de transformação: dor que não é negada, mas atravessada até gerar alegria irreversível. O movimento textual é linear: anúncio de pranto e lamentação, contraposição com a alegria “do mundo”, promessa de reversão e, por fim, estabilização da alegria (“ninguém tirará de vós”). Traduções de referência convergem amplamente nesse vetor (KJV/NIV/ESV/NASB), preservando o contraste tristeza → alegria sem redução moralista do sofrimento. (Jo 16.20-22).
Tristeza reativa e dilemas de decisão nos Sinópticos e em Mateus e Marcos
No bloco narrativo de decisão e crise, λυπέω distribui-se em sete passagens com perfis pragmáticos distintos. Em Mateus 14.9, Herodes aparece “λυπηθείς” (lypētheis, “entristecido”), mas sua tristeza é politicamente subordinada ao juramento e ao olhar público; trata-se de afeto sem conversão ética efetiva. Em Mateus 19.22, o jovem se retira “λυπούμενος” (lypoumenos, “entristecido”), e Marcos 10.22 intensifica o quadro ao acrescentar “στυγνάσας” (stygnasas, “abatido/sombrio”), indicando não só tristeza, mas colapso decisório diante do custo do discipulado. (Mt 14.9; Mt 19.22; Mc 10.22).
Em Mateus 17.23, “λυπηθήσονται” (lypēthēsontai, “ficarão entristecidos”) marca a recepção incompleta do anúncio da paixão; a tristeza nasce da dissonância entre expectativa messiânica e destino de sofrimento. Já em Mateus 18.31, “ἐλυπήθησαν σφόδρα” (elypēthēsan sphodra, “entristeceram-se muito”) exprime tristeza comunitária diante de injustiça intracomunitária, aproximando afeto e discernimento moral. No relato da ceia, Mateus 26.22 e Marcos 14.19 apresentam tristeza coletiva (“λυπούμενοι…”, “ἤρξαντο λυπεῖσθαι…”) como reação à iminência da traição: não é ainda arrependimento, mas perplexidade ética compartilhada em situação-limite. (Mt 17.23; Mt 18.31; Mt 26.22; Mc 14.19).
Quando há ambiguidade tradutória, Marcos 10.22 é exemplar: KJV/ESV/NASB distinguem nuances entre “sad/sorrowful”, “disheartened/sorrowful” e “deeply dismayed/grieving”, preservando o duplo movimento do grego (στυγνάσας + λυπούμενος): impacto imediato no semblante e estado afetivo subsequente. Essa diferenciação confirma que, no recorte F, “tristeza” funciona como índice de conflito entre verdade reconhecida e decisão recusada, não apenas como emoção passageira. (Mc 10.22).
Tristeza, esperança e juízo no léxico do Novo Testamento
No recorte solicitado, o campo semântico organiza-se em três núcleos gregos complementares: λυπέω (lypeō, “entristecer/afligir”), πενθέω (pentheō, “lamentar/prantear”) e πένθος (penthos, “luto/lamentação”). No bloco G, λυπέω aparece duas vezes, em Primeira Tessalonicenses 4.13 e Primeira Pedro 1.6; no bloco H, πενθέω aparece três vezes em Apocalipse 18.11, 18.15 e 18.19, enquanto πένθος aparece em Apocalipse 18.7, 18.8 e 21.4. Essa distribuição já delimita duas funções semânticas distintas: tristeza temporal sob tensão escatológica e lamento judicial ligado ao colapso de Babilônia.
Em 1 Tessalonicenses 4.13, Paulo não elimina o luto, mas regula sua forma teológica: “para que não vos entristeçais como os demais que não têm esperança”, com a cláusula ἵνα μὴ λυπῆσθε καθὼς καὶ οἱ λοιποὶ οἱ μὴ ἔχοντες ἐλπίδα (hina mē lypēsthe kathōs kai hoi loipoi hoi mē echontes elpida, “para que não vos entristeçais como os demais que não têm esperança”). O eixo normativo está no comparativo “como os demais”, não numa proibição absoluta de tristeza. A convergência de KJV e ESV confirma exatamente esse ponto (“sorrow not… as others… which have no hope” / “not grieve as others do who have no hope”).
1 Pedro 1.6 desloca o foco para a temporalidade da aflição: “agora, por um pouco, se necessário, entristecidos em várias provações”, com ὀλίγον ἄρτι, εἰ δέον ἐστίν, λυπηθέντας ἐν ποικίλοις πειρασμοῖς (oligon arti, ei deon estin, lypēthentas en poikilois peirasmois, “por breve tempo, se necessário, entristecidos em múltiplas provações”). A forma participial λυπηθέντας marca estado circunstancial e transitório, subordinado ao telos de prova da fé no versículo seguinte. A diferença tradutória é semanticamente útil: KJV (“in heaviness”) enfatiza peso afetivo; ESV (“grieved by various trials”) explicita a relação causal com as provações.
No Apocalipse 18, a linguagem muda de registro: não se trata de dor penitencial, mas de pranto econômico-civilizacional diante do juízo divino sobre a cidade-império. Os “mercadores da terra… choram e pranteiam sobre ela” (κλαίουσιν καὶ πενθοῦσιν ἐπ’ αὐτήν, klaiousin kai penthousin ep’ autēn, “choram e lamentam por ela”), repetido em Apocalipse 18.11, 18.15 e 18.19; e o substantivo πένθος surge no autoenunciado soberbo da cidade (“não verei luto”: πένθος οὐ μὴ ἴδω, penthos ou mē idō) e no reverso judicial (“morte e luto”: θάνατος καὶ πένθος, thanatos kai penthos). O campo de tristeza aqui descreve reação à perda idolátrica de status e comércio, não conversão moral.
A contraposição final ocorre em Apocalipse 21.4: “não haverá mais… luto”, com οὔτε πένθος (oute penthos, “nem luto”). O mesmo termo que nomeia o colapso de Babilônia é abolido na nova criação, estabelecendo uma antítese estrutural: em Apocalipse 18, o lamento acompanha o julgamento das potências; em Apocalipse 21, o lamento é removido do horizonte escatológico dos redimidos. KJV e ESV convergem nesse ponto (“neither sorrow” / “neither… mourning”).
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Cite este artigo:
GALVÃO, Eduardo. Tristeza, Lamento. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 12 jul 2016. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].
