Ventre — Enciclopédia Bíblica Online

Lexema Delimitação semântica Âncoras textuais
Hb. בֶּטֶן beṭen (“ventre/útero”)
Strong H990
72 ocorrências (WLC). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “útero” 31; “ventre/barriga” 30; “corpo” 8; “dentro” 2; “nascido” 1.
Torá: Gn 25.23; Gn 25.24; Gn 30.2; Gn 38.27; Nm 5.21; Nm 5.22; Nm 5.27; Dt 7.13; Dt 28.4; Dt 28.11; Dt 28.18; Dt 28.53; Dt 30.9
Históricos: Jz 3.21; Jz 3.22; Jz 13.5; Jz 13.7; Jz 16.17; 1Rs 7.20
Poéticos/Sapienciais: Jó 1.21; Jó 3.10; Jó 3.11; Jó 10.19; Jó 15.2; Jó 15.35; Jó 19.17; Jó 20.15; Jó 20.20; Jó 20.23; Jó 31.15; Jó 31.18; Jó 32.18; Jó 32.19; Jó 38.29; Jó 40.16; Sl 17.14; Sl 22.9; Sl 22.10; Sl 31.9; Sl 44.25; Sl 58.3; Sl 71.6; Sl 127.3; Sl 132.11; Sl 139.13; Pv 13.25; Pv 18.8; Pv 18.20; Pv 20.27; Pv 20.30; Pv 22.18; Pv 26.22; Pv 31.2; Ec 5.15; Ec 11.5; Ct 7.2
Profetas: Is 13.18; Is 44.2; Is 44.24; Is 46.3; Is 48.8; Is 49.1; Is 49.5; Is 49.15; Jr 1.5; Ez 3.3; Os 9.11; Os 9.16; Os 12.3; Jn 2.2; Mq 6.7; Hc 3.16
Hb. מֵעֶה / מֵעִים mēʿeh / mēʿîm (“entranhas/intestinos”)
Strong H4578
32 ocorrências (WLC). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “entranhas/intestinos” 27; “ventre/barriga” 3; “coração” 1; “útero” 1.
Ct 5.14; Dn 2.32; Jn 1.17; Jn 2.1; Is 16.11; Jr 4.19
Hb. גָּחוֹן gāḥôn (“ventre do réptil; parte com que rasteja”)
Strong H1512
2 ocorrências (WLC). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “ventre” 2.
Gn 3.14; Lv 11.42
Hb. כְּרֵשׂ kərēš (“papo; ventre/estômago”)
Strong H3770
1 ocorrência (WLC). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “ventre” 1.
Jr 51.34
Hb. קֹבָה qōḇâ (“abdômen; cavidade corporal”)
Strong H6897
1 ocorrência (WLC). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “abdômen/ventre” 1.
Nm 25.8
Hb. רֶחֶם reḥem (“útero/matriz”; correlato específico)
Strong H7358
26 ocorrências (25 versos) em concordância; vocábulo específico para “útero/matriz”.
Gn 20.18; Gn 29.31 (exemplos iniciais da concordância)
Gr. γαστήρ gastēr (“ventre”; também “grávida/gestante”)
Strong G1064
9 ocorrências (mGNT). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “com filho/gravidez” 7; “útero” 1; “ventre/barriga” 1.
Mt 1.18; Mt 1.23; Mt 24.19; Mc 13.17; Lc 1.31; Lc 21.23; 1Ts 5.3; Tt 1.12; Ap 12.2
Gr. κοιλία koilia (“cavidade/ventre”; também “útero”; por extensão, “interior”)
Strong G2836
mGNT: 22 ocorrências (21 versos). Distribuição por campo semântico (tradição KJV, total 23): “útero” 12; “ventre/barriga” 11.
Mt 12.40; Mt 15.17; Mt 19.12; Mc 7.19; Lc 1.15; Lc 1.41; Lc 1.42; Lc 1.44; Lc 2.21; Lc 11.27; Lc 15.16; Lc 23.29; Jo 3.4; Jo 7.38; At 3.2; At 14.8; Rm 16.18; 1Co 6.13; Gl 1.15; Fp 3.19; Ap 10.9; Ap 10.10
Gr. μήτρα mētra (“útero”)
Strong G3388
2 ocorrências. Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “útero” 2.
Lc 2.23; Rm 4.19

Gestação, útero e a fórmula “desde o ventre” no léxico bíblico

O recorte semântico aqui é estritamente obstétrico-genésico: “ventre” enquanto espaço de gestação/órgão reprodutivo (útero) e enquanto marcador idiomático de origem (“desde o ventre” = desde a concepção/nascimento). No hebraico bíblico, os dois polos lexicais são בֶּטֶן (beṭen, “ventre/útero”) e רֶחֶם (reḥem, “útero/matriz”): o primeiro é termo amplo (também “barriga/corpo”), mas em usos genésicos concentra-se na ideia de “local/contêiner” da gestação; o segundo é mais técnico para o órgão/“matriz” e para a linguagem de “abrir o útero” (primogênito). Em concordâncias de uso, בֶּטֶן (beṭen, “ventre/útero”) aparece 72×, com 31× classificados como “womb” (útero) na segmentação de tradução; רֶחֶם (reḥem, “útero/matriz”) aparece 26× (21× “womb” + 5× “matrix”). No grego do NT, a distribuição semântica se organiza em torno de κοιλία (koilia, “ventre/útero”) e γαστήρ (gastēr, “ventre/útero”), com um termo mais específico, μήτρα (mētra, “útero”): κοιλία (koilia) é lexema de “cavidade/abdômen” que, por extensão, cobre “útero” (23× na KJV; 12× como “womb” e 11× como “belly”), enquanto γαστήρ (gastēr) é o termo preferencial para construções de gravidez (“estar grávida/ter no ventre”: 9×, com 7× distribuídos sob “with child” e 1× sob “womb”). Já μήτρα (mētra, “útero”) é raro no NT (2×) e aparece em contextos de “abrir o útero” (citação legal/cultual) e de esterilidade/geração. À margem desse campo, מֵעֶה (mēʿeh, “entranhas; por extensão útero”) pode tocar o domínio genésico (32× no total; 1× classificado como “womb”), mas seu núcleo semântico é “entranhas/intestinos” e só secundariamente “útero”.

A fronteira interna mais útil no hebraico não é “ventre vs útero” como dois órgãos distintos, mas “termo geral vs termo técnico”. Jeremias 1.5 mostra isso de forma concentrada no próprio tecido sintagmático: בַּבֶּטֶן (babbéṭen, “no ventre/útero”) e מֵרֶחֶם (mēreḥem, “desde o útero/matriz”) coexistem, com o primeiro perfilando o “interior” como locus (“em”) e o segundo perfilando a origem como ponto de partida (“desde”). Esse padrão reaparece em fórmulas de eleição/consagração e de origem (“desde o ventre/desde a madre”) e em enunciados de gestação como condição (“grávida”), de modo que, para fins de delimitação, entram neste campo: (i) ocorrências de בֶּטֶן (beṭen) quando o co-texto ativa concepção/gestação/nascimento (p. ex., “conceber”, “sair do ventre”, “formar no ventre”), e (ii) ocorrências de רֶחֶם (reḥem) quando o co-texto ativa o órgão como “matriz” (p. ex., “abrir o útero”, “sair do útero”, “desde o útero”).

A Septuaginta ajuda a fixar a equivalência funcional desses dois eixos ao mostrar como o grego distribui os correspondentes. Na LXX de Jeremias 1.5, o hebraico בֶּטֶן (beṭen) é vertido por κοιλία (koilia) (ἐν κοιλίᾳ, en koilia, “no ventre/útero”), enquanto רֶחֶם (reḥem) é vertido por μήτρα (mētra) (ἐκ μήτρας, ek mētras, “desde o útero/matriz”). Isso é coerente com a própria descrição lexicográfica de κοιλία (koilia), cuja tradição de equivalências na LXX abrange tanto “ventre” quanto “útero” e explicitamente a aproxima de בֶּטֶן (beṭen) e רֶחֶם (reḥem), isto é, um termo grego capaz de cobrir o “geral” e o “técnico” conforme a necessidade do contexto. Assim, no recorte “gestação/útero”, a LXX funciona como indício de que a especificação de μήτρα (mētra) tende a ocorrer quando o foco é o útero como matriz geradora (e não apenas “interior”), enquanto κοιλία (koilia) permanece como opção não marcada para “ventre/útero” em construções locativas (“em”).

No grego do NT, o subcampo “gravidez/gestação” é particularmente transparente na escolha de γαστήρ (gastēr, “ventre/útero”) em construções estereotipadas com ἐν + dativo: em Mateus 1.18 aparece ἐν γαστρὶ (en gastri, “no ventre”) com a noção de gravidez (“ἔχουσα ἐκ πνεύματος ἁγίου” no co-texto), e em Mateus 1.23 a mesma forma se repete na fórmula profética ἐν γαστρὶ ἕξει (en gastri hexei, “terá no ventre”). Em Lucas 1.31, o verbo de concepção é explicitado com γαστρί: συλλήμψῃ ἐν γαστρὶ (syllēmpsē en gastri, “conceberás no ventre”). Já o subcampo “origem desde o ventre” tende a preferir κοιλία (koilia, “ventre/útero”) em construções de procedência (ἐκ + genitivo): Gálatas 1.15 traz ἐκ κοιλίας μητρός μου (ek koilias mētros mou, “desde o ventre de minha mãe”), consolidando o valor de “origem desde a gestação/nascimento” sem exigir um termo técnico. Por sua vez, o termo técnico μήτρα (mētra, “útero”) aparece em Lucas 2.23 na expressão διανοῖγον μήτραν (dianoigon mētran, “que abre o útero”), ecoando linguagem legal/cultual de primogênito, e em Romanos 4.19 ao referir a μήτρα (mētra, “útero/matriz”) no contexto de capacidade gerativa/esterilidade.

Como âncoras textuais representativas (sem extrapolação interpretativa), este campo “gestação/útero e desde o ventre” é construído, no AT hebraico, por passagens em que בֶּטֶן (beṭen, “ventre/útero”) e/ou רֶחֶם (reḥem, “útero/matriz”) aparecem em co-textos de concepção, formação pré-natal e nascimento (p. ex., (Gn 25.23–24; Gn 30.2; Gn 38.27; Nm 5.21–22,27; Dt 7.13; Dt 28.4,11,18; Dt 30.9; Jz 13.5,7; Sl 22.10; Sl 71.6; Sl 127.3; Sl 139.13; Is 44.2,24; Is 46.3; Is 49.1,5,15; Jr 1.5)). No NT grego (NA28), as ocorrências prototípicas concentram-se nas fórmulas com γαστήρ (gastēr, “ventre/útero”) para gravidez e com κοιλία (koilia, “ventre/útero”) para origem (“desde o ventre”), com o uso técnico de μήτρα (mētra, “útero”) em registro legal/cultual e gerativo (p. ex., Mt 1.18,23; Lc 1.31; Gl 1.15; Lc 2.23; Rm 4.19; 1Ts 5.3; Ap 12.2).

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