Ventre — Enciclopédia Bíblica Online
Na Bíblia, “ventre” funciona como um marcador semântico de interioridade corporal com quatro usos literais predominantes: designa o abdômen como cavidade física ligada à saciedade e à carência (Pv 13.25); designa o ventre materno como locus de concepção, gestação e procedência (“fruto do ventre” como metonímia de descendência e continuidade familiar/dinástica) (Dt 7.13; Sl 127.3; Sl 132.11); pode figurar como superfície somática de juízo e reversão da fecundidade, quando a linguagem de bênção é invertida em maldição ou quando a sanção ritual é descrita por efeitos corporais observáveis (Nm 5.21–27; Dt 28.4; Dt 28.53; Os 9.11; Os 9.16; Is 13.18); e se articula com “entranhas” para expressar dor, comoção e pressão interna, isto é, estados afetivos descritos por sensação visceral e não por introspecção abstrata (Jr 4.19; Is 16.11; Hc 3.16; Jó 32.18–19). Nesse conjunto, o “ventre” não é apenas anatomia: ele indexa processos vitais (gerar, nutrir, padecer) e, por isso, serve como ponto de ancoragem para discursos de aliança, crise e vulnerabilidade humana.
Em usos figurados e imagéticos, “ventre” desloca-se para três funções: como metonímia ética do apetite que governa a conduta (servir “ao ventre” como princípio regulador do agir, em contraste com o serviço ao Senhor), preservando o lastro fisiológico mas operando como rótulo moral (Rm 16.18; Fp 3.19; Tt 1.12; 1Co 6.13); como termo de percurso digestivo em discussões sobre pureza alimentar, em que o “ventre” é estação intermediária entre ingestão e eliminação, delimitando o alcance do “comer” para efeitos de impureza (Mt 15.17; Mc 7.19); e como linguagem espacial para “o dentro” (confinamento, ocultamento, passagem), aplicada ao peixe, ao submundo e a cenas visionárias de crise, onde gravidez e dores de parto fornecem o modelo de inevitabilidade do sofrimento (Jn 2.1–3; Mt 12.40; Ap 12.2; 1Ts 5.3). Em síntese funcional, “ventre” opera como vocábulo-pivô que conecta corpo, origem, interioridade e destino, permitindo ao texto bíblico transitar do literal ao simbólico sem abandonar a concretude somática que sustenta a imagem (Jo 7.38).
I. Delimitação semântica
| Lexema | Delimitação semântica | Âncoras textuais |
|---|---|---|
|
Hb. בֶּטֶן beṭen (“ventre/útero”) Strong H990 |
72 ocorrências (WLC). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “útero” 31; “ventre/barriga” 30; “corpo” 8; “dentro” 2; “nascido” 1. |
Torá: Gn 25.23; Gn 25.24; Gn 30.2; Gn 38.27; Nm 5.21; Nm 5.22; Nm 5.27; Dt 7.13; Dt 28.4; Dt 28.11; Dt 28.18; Dt 28.53; Dt 30.9 Históricos: Jz 3.21; Jz 3.22; Jz 13.5; Jz 13.7; Jz 16.17; 1Rs 7.20 Poéticos/Sapienciais: Jó 1.21; Jó 3.10; Jó 3.11; Jó 10.19; Jó 15.2; Jó 15.35; Jó 19.17; Jó 20.15; Jó 20.20; Jó 20.23; Jó 31.15; Jó 31.18; Jó 32.18; Jó 32.19; Jó 38.29; Jó 40.16; Sl 17.14; Sl 22.9; Sl 22.10; Sl 31.9; Sl 44.25; Sl 58.3; Sl 71.6; Sl 127.3; Sl 132.11; Sl 139.13; Pv 13.25; Pv 18.8; Pv 18.20; Pv 20.27; Pv 20.30; Pv 22.18; Pv 26.22; Pv 31.2; Ec 5.15; Ec 11.5; Ct 7.2 Profetas: Is 13.18; Is 44.2; Is 44.24; Is 46.3; Is 48.8; Is 49.1; Is 49.5; Is 49.15; Jr 1.5; Ez 3.3; Os 9.11; Os 9.16; Os 12.3; Jn 2.2; Mq 6.7; Hc 3.16 |
|
Hb. מֵעֶה / מֵעִים mēʿeh / mēʿîm (“entranhas/intestinos”) Strong H4578 |
32 ocorrências (WLC). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “entranhas/intestinos” 27; “ventre/barriga” 3; “coração” 1; “útero” 1. |
Ct 5.14; Dn 2.32; Jn 1.17; Jn 2.1; Is 16.11; Jr 4.19 |
|
Hb. גָּחוֹן gāḥôn (“ventre do réptil; parte com que rasteja”) Strong H1512 |
2 ocorrências (WLC). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “ventre” 2. |
Gn 3.14; Lv 11.42 |
|
Hb. כְּרֵשׂ kərēš (“papo; ventre/estômago”) Strong H3770 |
1 ocorrência (WLC). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “ventre” 1. |
Jr 51.34 |
|
Hb. קֹבָה qōḇâ (“abdômen; cavidade corporal”) Strong H6897 |
1 ocorrência (WLC). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “abdômen/ventre” 1. |
Nm 25.8 |
|
Hb. רֶחֶם reḥem (“útero/matriz”; correlato específico) Strong H7358 |
26 ocorrências (25 versos) em concordância; vocábulo específico para “útero/matriz”. |
Gn 20.18; Gn 29.31 (exemplos iniciais da concordância) |
|
Gr. γαστήρ gastēr (“ventre”; também “grávida/gestante”) Strong G1064 |
9 ocorrências (mGNT). Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “com filho/gravidez” 7; “útero” 1; “ventre/barriga” 1. |
Mt 1.18; Mt 1.23; Mt 24.19; Mc 13.17; Lc 1.31; Lc 21.23; 1Ts 5.3; Tt 1.12; Ap 12.2 |
|
Gr. κοιλία koilia (“cavidade/ventre”; também “útero”; por extensão, “interior”) Strong G2836 |
mGNT: 22 ocorrências (21 versos). Distribuição por campo semântico (tradição KJV, total 23): “útero” 12; “ventre/barriga” 11. |
Mt 12.40; Mt 15.17; Mt 19.12; Mc 7.19; Lc 1.15; Lc 1.41; Lc 1.42; Lc 1.44; Lc 2.21; Lc 11.27; Lc 15.16; Lc 23.29; Jo 3.4; Jo 7.38; At 3.2; At 14.8; Rm 16.18; 1Co 6.13; Gl 1.15; Fp 3.19; Ap 10.9; Ap 10.10 |
|
Gr. μήτρα mētra (“útero”) Strong G3388 |
2 ocorrências. Distribuição por campo semântico (tradição KJV): “útero” 2. |
Lc 2.23; Rm 4.19 |
O núcleo semântico do grupo hebraico concentra-se em termos de “cavidade abdominal” e seus desdobramentos metonímicos (“interior”, “entranhas”) e funcionais (“gestação/órgãos de procriação”), com um subcampo mais raro para a anatomia do rastejar (répteis) e, à margem, formas pontuais para “estômago/abdômen” em contextos específicos. בֶּטֶן (beṭen, “ventre/útero”) é o termo mais abrangente: pode nomear o “ventre/barriga” (30×) e o “útero” (31×), mas também se estende para “corpo” (8×) e para a noção espacial de “dentro” (2×), além de um uso derivacional (“nascido”, 1×); esse espectro lexical permite que a palavra cubra tanto a região abdominal quanto o interior do corpo como domínio semântico geral.
מֵעֶה (mēʿeh, “entranhas/intestinos; interior”) é semanticamente mais “visceral”: descreve órgãos internos e “partes internas” (intestinos/abdômen) e admite extensões figurativas para interioridade afetiva, o que se reflete na distribuição de tradução (“bowels/entranhas”, 27×; “belly/ventre”, 3×; “heart/coração”, 1×; “womb/útero”, 1×). Assim, enquanto בֶּטֶן tende a funcionar como rótulo amplo para “ventre/útero”, מֵעֶה concentra a ideia de “entranhas” como interior orgânico e, por extensão, interioridade humana. Os termos raros delimitam subcampos: גָּחוֹן (gāḥôn, “ventre do réptil/abdômen externo”) restringe-se ao domínio zoológico do rastejar (2×, sempre “belly/ventre”), marcando a parte inferior externa do corpo do réptil; כְּרֵשׂ (kərēš, “pança/ventre”) ocorre uma única vez e nomeia o “ventre” como protuberância (“paunch”); קֹבָה (qōḇâ, “abdômen como cavidade”) também é hapax e define o abdômen como “cavidade corporal”, com emprego lexical suficientemente específico para não competir com os termos gerais. Em paralelo, רֶחֶם (reḥem, “útero/matriz”) funciona como vocábulo especializado para “útero”, com distribuição concentrada (“womb”, 21×; “matrix”, 5×), servindo como termo técnico quando o foco recai sobre a matriz, em contraste com o uso mais amplo de בֶּטֶן para “ventre/útero”.
No grupo grego, γαστήρ (gastēr, “ventre; matriz; gravidez”) combina três valores: “ventre/estômago”, “útero/matriz” e o estado de gestação, o que aparece na distribuição de tradução da tradição KJV (total 9×), majoritariamente por perífrases de gravidez (“be with child…”, 5×; “with child…”, 2×), com ocorrências residuais para “womb/útero” (1×) e “belly/ventre” (1×). O termo κοιλία (koilia, “cavidade; ventre; útero; interior”) designa a “cavidade” corporal como um todo (com possibilidade de distinção entre regiões) e, por isso, alterna entre referência uterina e abdominal; na distribuição KJV, a polaridade semântica se expressa em “womb/útero” (12×) e “belly/ventre” (11×), o que retrata precisamente o comportamento lexical do termo como “oco”/“cavidade” que pode ser preenchida por leituras anatômicas diferentes conforme o contexto. Já μήτρα (mētra, “útero/matriz”) é o termo estritamente técnico para “útero”, com total 2× e tradução uniforme (“womb”, 2×), delimitando um campo semântico estreito e especializado, sem a elasticidade de γαστήρ e, sobretudo, de κοιλία.
II. Gestação, útero e a fórmula “desde o ventre” no léxico bíblico
O recorte semântico aqui é estritamente obstétrico-genésico: “ventre” enquanto espaço de gestação/órgão reprodutivo (útero) e enquanto marcador idiomático de origem (“desde o ventre” = desde a concepção/nascimento). No hebraico bíblico, os dois polos lexicais são בֶּטֶן (beṭen, “ventre/útero”) e רֶחֶם (reḥem, “útero/matriz”): o primeiro é termo amplo (também “barriga/corpo”), mas em usos genésicos concentra-se na ideia de “local/contêiner” da gestação; o segundo é mais técnico para o órgão/“matriz” e para a linguagem de “abrir o útero” (primogênito). Em concordâncias de uso, בֶּטֶן (beṭen, “ventre/útero”) aparece 72×, com 31× classificados como “womb” (útero) na segmentação de tradução; רֶחֶם (reḥem, “útero/matriz”) aparece 26× (21× “womb” + 5× “matrix”). No grego do NT, a distribuição semântica se organiza em torno de κοιλία (koilia, “ventre/útero”) e γαστήρ (gastēr, “ventre/útero”), com um termo mais específico, μήτρα (mētra, “útero”): κοιλία (koilia) é lexema de “cavidade/abdômen” que, por extensão, cobre “útero” (23× na KJV; 12× como “womb” e 11× como “belly”), enquanto γαστήρ (gastēr) é o termo preferencial para construções de gravidez (“estar grávida/ter no ventre”: 9×, com 7× distribuídos sob “with child” e 1× sob “womb”). Já μήτρα (mētra, “útero”) é raro no NT (2×) e aparece em contextos de “abrir o útero” (citação legal/cultual) e de esterilidade/geração. À margem desse campo, מֵעֶה (mēʿeh, “entranhas; por extensão útero”) pode tocar o domínio genésico (32× no total; 1× classificado como “womb”), mas seu núcleo semântico é “entranhas/intestinos” e só secundariamente “útero”.
A fronteira interna mais útil no hebraico não é “ventre vs útero” como dois órgãos distintos, mas “termo geral vs termo técnico”. Jeremias 1.5 mostra isso de forma concentrada no próprio tecido sintagmático: בַּבֶּטֶן (babbéṭen, “no ventre/útero”) e מֵרֶחֶם (mēreḥem, “desde o útero/matriz”) coexistem, com o primeiro perfilando o “interior” como locus (“em”) e o segundo perfilando a origem como ponto de partida (“desde”). Esse padrão reaparece em fórmulas de eleição/consagração e de origem (“desde o ventre/desde a madre”) e em enunciados de gestação como condição (“grávida”), de modo que, para fins de delimitação, entram neste campo: (i) ocorrências de בֶּטֶן (beṭen) quando o co-texto ativa concepção/gestação/nascimento (p. ex., “conceber”, “sair do ventre”, “formar no ventre”), e (ii) ocorrências de רֶחֶם (reḥem) quando o co-texto ativa o órgão como “matriz” (p. ex., “abrir o útero”, “sair do útero”, “desde o útero”).
A LXX ajuda a fixar a equivalência funcional desses dois eixos ao mostrar como o grego distribui os correspondentes. Na LXX de Jeremias 1.5, o hebraico בֶּטֶן (beṭen) é vertido por κοιλία (koilia) (ἐν κοιλίᾳ, en koilia, “no ventre/útero”), enquanto רֶחֶם (reḥem) é vertido por μήτρα (mētra) (ἐκ μήτρας, ek mētras, “desde o útero/matriz”). Isso é coerente com a própria descrição lexicográfica de κοιλία (koilia), cuja tradição de equivalências na LXX abrange tanto “ventre” quanto “útero” e explicitamente a aproxima de בֶּטֶן (beṭen) e רֶחֶם (reḥem), isto é, um termo grego capaz de cobrir o “geral” e o “técnico” conforme a necessidade do contexto. Assim, no recorte “gestação/útero”, a LXX funciona como indício de que a especificação de μήτρα (mētra) tende a ocorrer quando o foco é o útero como matriz geradora (e não apenas “interior”), enquanto κοιλία (koilia) permanece como opção não marcada para “ventre/útero” em construções locativas (“em”).
No grego do NT, o subcampo “gravidez/gestação” é particularmente transparente na escolha de γαστήρ (gastēr, “ventre/útero”) em construções estereotipadas com ἐν + dativo: em Mateus 1.18 aparece ἐν γαστρὶ (en gastri, “no ventre”) com a noção de gravidez (“ἔχουσα ἐκ πνεύματος ἁγίου” no co-texto), e em Mateus 1.23 a mesma forma se repete na fórmula profética ἐν γαστρὶ ἕξει (en gastri hexei, “terá no ventre”). Em Lucas 1.31, o verbo de concepção é explicitado com γαστρί: συλλήμψῃ ἐν γαστρὶ (syllēmpsē en gastri, “conceberás no ventre”). Já o subcampo “origem desde o ventre” tende a preferir κοιλία (koilia, “ventre/útero”) em construções de procedência (ἐκ + genitivo): Gálatas 1.15 traz ἐκ κοιλίας μητρός μου (ek koilias mētros mou, “desde o ventre de minha mãe”), consolidando o valor de “origem desde a gestação/nascimento” sem exigir um termo técnico. Por sua vez, o termo técnico μήτρα (mētra, “útero”) aparece em Lucas 2.23 na expressão διανοῖγον μήτραν (dianoigon mētran, “que abre o útero”), ecoando linguagem legal/cultual de primogênito, e em Romanos 4.19 ao referir a μήτρα (mētra, “útero/matriz”) no contexto de capacidade gerativa/esterilidade.
Como âncoras textuais representativas (sem extrapolação interpretativa), este campo “gestação/útero e desde o ventre” é construído, no AT hebraico, por passagens em que בֶּטֶן (beṭen, “ventre/útero”) e/ou רֶחֶם (reḥem, “útero/matriz”) aparecem em co-textos de concepção, formação pré-natal e nascimento (p. ex., Gn 25.23–24; Gn 30.2; Gn 38.27; Nm 5.21–22,27; Dt 7.13; Dt 28.4,11,18; Dt 30.9; Jz 13.5,7; Sl 22.10; Sl 71.6; Sl 127.3; Sl 139.13; Is 44.2,24; Is 46.3; Is 49.1,5,15; Jr 1.5). No NT grego, as ocorrências prototípicas concentram-se nas fórmulas com γαστήρ (gastēr, “ventre/útero”) para gravidez e com κοιλία (koilia, “ventre/útero”) para origem (“desde o ventre”), com o uso técnico de μήτρα (mētra, “útero”) em registro legal/cultual e gerativo (p. ex., Mt 1.18,23; Lc 1.31; Gl 1.15; Lc 2.23; Rm 4.19; 1Ts 5.3; Ap 12.2).
III. Ventre como lugar de origem, eleição e vocação
O campo semântico aqui delimitado reúne ocorrências em que “ventre” é mobilizado (i) como marcador anatômico da gestação (“no ventre”) e (ii) como marcador temporal de anterioridade (“desde o ventre”), frequentemente associado a fórmulas de formação, pertença e comissionamento antes do nascimento. No hebraico bíblico, os núcleos lexicais mais relevantes são בֶּטֶן (beṭen, “ventre”), רֶחֶם (reḥem, “útero/matriz”) e מֵעֶה (mēʿeh, “entranhas/interior visceral”), com a delimitação semântica dependente sobretudo de construções preposicionais como מִבֶּטֶן (mibbéṭen, “desde o ventre”) e מֵרֶחֶם (mērēḥem, “do útero”). No grego do NT, o mesmo domínio se organiza por γαστήρ (gastēr, “ventre”) e κοιλία (koilia, “ventre/útero”), em construções como ἐν γαστρὶ (en gastri, “no ventre”) e ἐκ κοιλίας (ek koilias, “desde o ventre”).
No AT, o uso “desde o ventre” é formalmente identificável quando בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) aparece em sintagmas de origem/anterioridade, como מִבֶּטֶן (mibbéṭen, “desde o ventre”) em Isaías 44.2 e Isaías 49.1, e em construções de formação/produção em Isaías 44.24 (מִבָּטֶן, mibbāṭen, “desde o ventre”). Em Jeremias 1.5, a delimitação do domínio de anterioridade é reforçada pela coocorrência explícita de “ventre” e “útero”: בַּבֶּטֶן (babbeṭen, “no ventre”) e מֵרֶחֶם (mērēḥem, “do útero”), de modo que “ventre” não funciona apenas como localização anatômica, mas como índice de uma anterioridade ontogenética (“antes de nascer”) no enunciado. O mesmo padrão de anterioridade aparece em Salmos 71.6 com a sequência “desde o ventre” + “das entranhas”: מִבֶּטֶן (mibbéṭen, “desde o ventre”) e מִמְּעֵי (mimməʿê, “das entranhas”), o que torna semanticamente visível a oscilação entre “ventre” (locus gestacional) e “interior visceral” (interioridade corporal).
A distinção interna do domínio se evidencia quando “ventre” concorre com “entranhas” ou “útero” para perfilar, com maior precisão, a origem corporal. Em Gênesis 25.23–24, o discurso articula simultaneamente “ventre” e “entranhas”: בְּבִטְנֵךְ (bəbiṭnēk, “no teu ventre”) e מִמֵּעַיִךְ (mimmēʿayik, “das tuas entranhas”), além de reiterar o locus gestacional em בְּבִטְנָהּ (bəbiṭnāh, “no ventre dela”). Em Isaías 46.3, o paralelismo entre os dois órgãos é explicitado: מִנִּי־בֶטֶן (minnî-beṭen, “desde o ventre”) e מִנִּי־רָחַם (minnî-rāḥam, “desde o útero”), de modo que רֶחֶם (reḥem, “útero/matriz”) delimita semanticamente o referente feminino (“útero”), enquanto בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) permanece como designação mais ampla, aplicável como “origem corporal” em sentido geral. Em Jó 31.15, a mesma dupla “ventre/útero” reaparece: בַּבֶּטֶן (babbeṭen, “no ventre”) e בָּרֶחֶם (bārēḥem, “no útero”), e em Jó 31.18 retorna o marcador temporal “desde o ventre” (מִבֶּטֶן, mibbéṭen, “desde o ventre”), consolidando a subclasse semântica “origem humana pré-natal”. Um subdomínio narrativo do mesmo recorte é o “desde o ventre” associado a consagração/estatuto ainda não nascido, como em Juízes 13.5 e Juízes 13.7, onde o hebraico usa explicitamente a fórmula מִן־הַבָּטֶן (min-habbāṭen, “desde o ventre”) / מִן־הַבֶּטֶן (min-habbeṭen, “desde o ventre”).
No NT, a delimitação do domínio “gestação/origem” se organiza por duas construções principais. Para a localização gestacional (“no ventre”), o padrão é ἐν γαστρὶ (en gastri, “no ventre”), atestado em Mateus 1.18 e Mateus 1.23, e também em Lucas 1.31. Para a anterioridade (“desde o ventre”), o padrão é ἐκ κοιλίας (ek koilias, “desde o ventre”), como em Lucas 1.15 e Gálatas 1.15, onde κοιλία (koilia, “ventre/útero”) aparece em construção genitiva (“desde o ventre de [sua] mãe”). O mesmo lexema κοιλία (koilia, “ventre/útero”) funciona também como locus gestacional em Lucas 1.41–44 (ἐν τῇ κοιλίᾳ, en tē koilia, “no ventre”), e em João 3.4 integra uma formulação explícita de retorno ao interior materno (κοιλίαν, koilian, “ventre/útero”), demarcando semanticamente o órgão como espaço corporal de gestação.
Quando se considera o grego da LXX como ponte lexical, observa-se que fórmulas hebraicas “desde o ventre” tendem a ser vertidas com ἐκ κοιλίας (ek koilias, “desde o ventre”), como em Isaías 49.1 (LXX), enquanto a dupla hebraica “ventre/útero” pode ser representada por “ventre/útero” em grego com ἐν κοιλίᾳ (en koilia, “no ventre”) e ἐκ μήτρας (ek mētras, “do útero”), como no paralelo de Jeremias 1.5 (LXX).
No recorte de âncoras textuais nucleares deste tópico (Gn 25.23–24; Jz 13.5,7; Is 44.2,24; Is 46.3; Is 49.1; Jr 1.5; Sl 71.6; Sl 139.13; Jó 31.15,18; Mt 1.18,23; Lc 1.15,31,41–44; Gl 1.15; Jo 3.4), a distribuição formal observável é a seguinte: בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) ocorre 13 vezes no conjunto hebraico citado, enquanto רֶחֶם (reḥem, “útero/matriz”) e מֵעֶה (mēʿeh, “entranhas”) ocorrem 3 vezes cada; no conjunto grego citado, κοιλία (koilia, “ventre/útero”) ocorre 6 vezes e γαστήρ (gastēr, “ventre”) 3 vezes, ao passo que μήτρα (mētra, “útero”) não aparece nas âncoras neotestamentárias deste recorte específico.
IV. “Fruto do ventre” como bênção de aliança e linguagem de herança
O núcleo lexical deste eixo semântico é a locução hebraica “fruto do ventre”, formada pela cadeia em estado construto פְּרִי (perî, “fruto”) + בֶּטֶן (beṭen, “ventre”), com flexão pronominal (“teu ventre”) em formas como פְּרִי־בִטְנְךָ (perî-ḇiṭneḵā, “fruto do teu ventre”). No nível do uso, trata-se de uma designação metonímica da capacidade gerativa e, por extensão, da descendência concreta como bem recebido, preservado e multiplicado na moldura da bênção pactuai: a expressão aparece em fórmulas de prosperidade que listam, em paralelo, fecundidade humana e produtividade agropecuária (Dt 7.13) e reaparece na retórica de incremento (“multiplicar”/“fazer prosperar”) associada à mesma cadeia “fruto + ventre” (Dt 30.9). No mesmo horizonte, o texto poético pode reempregar a mesma combinação por via nominal (“fruto do ventre”) como linguagem de herança, com בָּטֶן (bāṭen, “ventre”) recebendo o artigo e funcionando como genitivo de origem (Sl 127.3) .
A delimitação interna do campo mostra dois subusos estáveis, distinguíveis sem necessidade de exegese: primeiro, “fruto do ventre” como marcador de fecundidade/descendência no registro jurídico-aliançal e de bênção material (Dt 7.13; Dt 28.4; Dt 28.11; Dt 30.9); segundo, “fruto do ventre” como linguagem de sucessão e continuidade dinástica, em que a descendência é apresentada como vetor de permanência histórica (Sl 132.11), onde ocorre מִפְּרִי בִטְנְךָ (mipərî ḇiṭneḵā, “do fruto do teu ventre”) . Nesse recorte, o mesmo lexema בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) permanece constante, enquanto o primeiro elemento pode alternar entre “fruto” explícito (פְּרִי, perî, “fruto”) e construções equivalentes que focalizam o resultado (descendência) sem descrever o processo biológico.
A correspondência grega evidencia que a LXX não fixa um único calque, mas opera com escolhas lexicais parcialmente distintas para o mesmo núcleo hebraico. Em passagens de Deuteronômio, a estratégia dominante é substituir o “fruto” por um termo denotativo de prole/descendência, τὰ ἔκγονα (ta ekgona, “descendência”), governado por κοιλία (koilia, “ventre/útero”) em genitivo: “τὰ ἔκγονα τῆς κοιλίας σου” (ta ekgona tēs koilias sou, “a descendência do teu ventre”) em Deuteronômio 7.13, com o mesmo padrão em Deuteronômio 28.4 e Deuteronômio 30.9. Já em textos salmódicos e no eco neotestamentário, o grego frequentemente retém o esquema “fruto + ventre”, com καρπός (karpos, “fruto”) e alternância do termo para “ventre”: em Salmos 126.3 LXX ocorre γαστήρ (gastēr, “ventre”) na expressão “καρποῦ τῆς γαστρός” (karpou tēs gastros, “fruto do ventre”); em Salmos 131.11 LXX aparece a construção “ἐκ καρποῦ τῆς κοιλίας σου” (ek karpou tēs koilias sou, “do fruto do teu ventre”); e, no NA28, Lucas conserva precisamente o sintagma “ὁ καρπὸς τῆς κοιλίας σου” (ho karpos tēs koilias sou, “o fruto do teu ventre”) em Lucas 1.42. Assim, o eixo semântico “descendência como bem” mantém-se estável, mas a realização lexical alterna entre (i) “descendência do ventre” (ἔκγονα + κοιλία) e (ii) “fruto do ventre” (καρπός + κοιλία/γαστήρ).
No mesmo conjunto de referências que circundam a noção de prosperidade/continuidade, há ocorrências de בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) que funcionam como extensão adjacente do campo, sem constituírem “fruto do ventre” estrito. Em Provérbios 13.25, “ventre” aparece como sede de saciedade/carência alimentar (“וּבֶטֶן רְשָׁעִים תֶּחְסָר”, ûḇeṭen rəšāʿîm teḥsār, “e o ventre dos ímpios terá falta”), deslocando o foco de descendência para consumo e suficiência . Em Isaías 48.8, מִבֶּטֶן (mibbeṭen, “desde o ventre”) opera como marcador de origem/temporalidade (“e desde o ventre foste chamado…”), isto é, “ventre” como ponto de partida da existência e da identidade, e não como metáfora de herança dinástica em si.
Quanto à quantificação interna deste eixo, o lexema hebraico בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) ocorre 8 vezes no conjunto (Dt 7.13; Dt 28.4; Dt 28.11; Dt 30.9; Sl 127.3; Sl 132.11; Pv 13.25; Is 48.8), enquanto a locução estrita “fruto do ventre” (פְּרִי + בֶּטֶן) está atestada em 6 dessas âncoras (Dt 7.13; Dt 28.4; Dt 28.11; Dt 30.9; Sl 127.3; Sl 132.11). No alinhamento grego apresentado, κοιλία (koilia, “ventre/útero”) ocorre 5 vezes (Dt 7.13 LXX; Dt 28.4 LXX; Dt 30.9 LXX; Sl 131.11 LXX; Lc 1.42 NA28), γαστήρ (gastēr, “ventre”) ocorre 1 vez (Sl 126.3 LXX), e ἔκγονα (ekgona, “descendência”) ocorre 3 vezes no subgrupo deuteronômico (Dt 7.13; Dt 28.4; Dt 30.9).
V. Ventre, juízo e maldição
Na legislação ritual e na retórica profético-covenantal, o “ventre” funciona como marcador semântico para três domínios corporais que se interpenetram: (1) o corpo como superfície jurídica de sanção (a maldição “inscrita” em efeitos corporais observáveis), (2) o ventre como metonímia reprodutiva (o órgão e, por extensão idiomática, a descendência), e (3) o ventre como lugar de reversão da vida (da fecundidade esperada à esterilidade/perecimento). O hebraico mobiliza sobretudo בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) e, por adjacência, termos de interioridade física como מֵעֶה (mēʿeh, “entranhas”), enquanto a tradição grega (LXX) distribui o campo em κοιλία (koilia, “ventre”) e γαστήρ (gastēr, “ventre”), com escolhas que tendem a reforçar o eixo “interior corporal” e “gestação/descendência” conforme o contexto.
Em Números 5.21–27, a sanção é formulada em linguagem corporal técnica, vinculada ao procedimento ritual: a maldição é enunciada como efeito verificável no corpo, combinando a “coxa” e o “ventre”. A cláusula central articula יָרֵךְ (yārēḵ, “coxa”) e בִּטְנֵךְ (biṭnēk, “teu ventre”), com o par verbal-adjetival que define a alteração corporal: נֹפֶלֶת (nōfelet, “caindo”) e צָבָה (ṣābāh, “inchando”). A formulação seguinte desloca o foco para a interioridade orgânica com מֵעַיִךְ (mēʿayik, “tuas entranhas”) e o infinitivo que descreve o resultado pretendido: לַצְבּוֹת (laṣbôt, “para inchar”) בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) e לַנְפִּל (lanpîl, “para fazer cair”) יָרֵךְ (yārēḵ, “coxa”). Nesse recorte, “ventre” não é um mero sinônimo anatômico neutro: ele opera como ponto de inscrição do juízo, isto é, o lugar corporal em que a sentença se torna constatável dentro do rito. A versão grega (LXX) conserva a mesma arquitetura semântica por meio de μηρός (mēros, “coxa”) e κοιλία (koilia, “ventre”), e reforça a visualidade do efeito com πεπρησμένην (peprēsménēn, “inchada”), além de empregar γαστήρ (gastēr, “ventre”) na descrição do “inchar” (πρῆσαι, prēsai, “inchar”).
Em Deuteronômio 28, o hebraico já fixa, no bloco de bênçãos, a locução reprodutiva “fruto do ventre” como idiomatização de descendência: פְּרִי (pərî, “fruto”) aparece associado a בִטְנְךָ (biṭnəkhā, “teu ventre”) para denotar o resultado da fecundidade como bem pactuado, em paralelo a outros “frutos” (solo, rebanho). O mesmo eixo é revertido na seção de maldições, em que a perda extrema de provisões transforma a descendência em signo de ruína coletiva; a LXX torna essa reversão explicitamente legível em Deuteronômio 28.53 com ἔκγονα (ekgona, “descendentes”) τῆς κοιλίας (tēs koilias, “do ventre”) — isto é, a “interioridade” (κοιλία, koilia, “ventre”) passa a funcionar como fonte de “descendência” (ἔκγονα, ekgona, “descendentes”), agora sob o regime de cerco e fome. Sem ampliar em exegese, basta notar a delimitação semântica: “ventre” não descreve apenas um órgão, mas indexa o domínio “geração → prole”, que pode ser abençoado (fecundidade) ou invertido (destruição da própria continuidade familiar) conforme o discurso pactuado.
Nos Profetas, o mesmo campo lexical serve para caracterizar a esterilização histórica de um povo por meio do colapso de nascimento, gestação e geração. Oseias 9.11 encadeia três estágios do ciclo reprodutivo, culminando em בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) e explicitando a supressão de gravidez por הֵרָיוֹן (hērāyôn, “gravidez”): a glória que “se esvai” é descrita como retirada “do nascer” (לֵדָה), “do ventre” (בֶּטֶן) e “da gravidez” (הֵרָיוֹן), isto é, não apenas a criança, mas o próprio processo vital é colocado sob juízo. Em Oseias 9.16, a imagem se condensa em “fruto do ventre” (פְּרִי, pərî, “fruto”) + בֶּטֶן (beṭen, “ventre”), sinalizando que a punição atinge diretamente a continuidade genealógica. Miqueias 6.7 emprega a mesma metonímia em primeira pessoa — פְּרִי (pərî, “fruto”) בִטְנִי (biṭnî, “meu ventre”) — para designar o “filho” como fruto corporal (descendência) no registro da linguagem sacrificial e de expiação; a força do idiomatismo está em tratar a prole como “fruto” do “ventre” (origem corporal) e, assim, como bem máximo que jamais poderia ser moeda adequada. Isaías 13.18, por sua vez, mostra o mesmo núcleo lexical no vocabulário de guerra e devastação: פְּרִי־בֶטֶן (pərî-beṭen, “fruto do ventre”) surge como alvo de aniquilação, enquanto o verbo de “compaixão” deriva da mesma raiz do “útero” (רֶחֶם, reḥem, “útero”) por meio de יְרַחֵמוּ (yeraḥēmû, “terão compaixão”), formando um contraste lexical duro: “fruto do ventre” (vida gerada) e “não terão compaixão” (negação do instinto uterino de misericórdia).
VI. Ventre como registro somático de dor, comoção e afetos
O léxico bíblico para “interioridade corporal” tende a operar com termos anatomicamente amplos, capazes de cobrir tanto o domínio estritamente físico (“abdômen”, “entranhas”, “interior visceral”) quanto extensões figurativas que descrevem a experiência humana por meio de sensações internas. Neste recorte, a delimitação semântica concentra-se em dois núcleos hebraicos recorrentes: מֵעֶה ( mēʿeh, “entranhas, interior visceral”), frequentemente atestado em formas com sufixo pronominal (por exemplo, מֵעַי [mēʿay, “minhas entranhas”]); e בֶּטֶן (beṭen, “ventre, abdômen”), igualmente presente em formas com sufixos (p.ex., בִּטְנִי [biṭnî, “meu ventre”], בִּטְנוֹ [biṭnô, “seu ventre”]). A relevância desses termos, aqui, não está em “localizar” emoções segundo categorias psicológicas modernas, mas em notar como a linguagem bíblica textualiza a dor, a comoção e a pressão interna por meio de vocabulário somático que descreve o corpo “por dentro”.
Jeremias 4.19 constitui um ponto de referência para o uso de מֵעֶה como marcador literário de angústia com forte coloração somática: a duplicação enfática de מֵעַי (mēʿay, “minhas entranhas”) integra a cena verbal de aflição e agitação interna, em paralelo com imagens de estremecimento e compressão interior (“paredes do coração”, no mesmo contexto), sem que isso exija reduzir o fenômeno a uma teoria de “emoções no intestino”; trata-se, antes, de uma codificação semântica em que o “interior visceral” funciona como superfície de inscrição da dor e do alarme.
Isaías 16.11 reforça o mesmo padrão de interioridade somática, agora com ênfase na ressonância do lamento: מֵעַי (mēʿay, “minhas entranhas”) torna-se o lugar onde o pranto “soa”, isto é, onde a comoção se manifesta como vibração interna. A tradição grega registrada no mesmo eixo textual é instrutiva para delimitação de equivalência semântica: o correspondente verte κοιλία (koilia, “ventre”) e τὰ ἐντός (ta entos, “o interior”), confirmando que o hebraico das “entranhas” pode ser representado, em grego, por um termo de cavidade abdominal e por uma expressão abrangente de “interioridade”, sem colapsar automaticamente em “coração” no sentido moderno.
Habacuque 3.16 fornece o segundo núcleo, בֶּטֶן, em um registro de reação corporal ao temor e ao abalo: בִּטְנִי (biṭnî, “meu ventre”) aparece como sede de tremor e instabilidade interna, em um feixe verbal que descreve a experiência como perturbação física (ossos, lábios, passos, ventre), e não como mera introspecção abstrata. Nessa delimitação, בֶּטֶן funciona como índice de “reação interna” (um centro somático de estremecimento), distinto de usos reprodutivos do mesmo lexema em outros corpora.
Jó 32.18–19 desloca בֶּטֶן do registro de tremor para o de “pressão interna” ligada à fala: a expressão רוּחַ (rûaḥ, “espírito”) em construção com בִּטְנִי (biṭnî, “meu ventre”) define uma compulsão interior (“o espírito do meu ventre me constrange”), seguida da imagem do ventre como recipiente sob pressão, comparado a vinho que não encontra saída e a odres prestes a romper. Aqui, bēṭen delimita-se como “interior containerizado” onde se acumulam palavras/impulsos, um uso que permanece somático (pressão, contenção, ruptura), ainda que aplicado ao campo do discurso.
Jó 20.23 acrescenta uma variação penal e retributiva para o mesmo núcleo: o texto emprega בִּטְנוֹ (biṭnô, “seu ventre”) em coligação com a ideia de “encher” e, imediatamente, com a ação divina de “fazer cair” sobre ele a ira, o que configura o ventre como lugar de recepção/consumo e, correlatamente, como alvo de juízo (isto é, o interior que se “enche” não apenas de alimento ou desejo, mas do efeito de uma intervenção punitiva). Essa ocorrência delimita bēṭen como um termo apto a representar, figurativamente, o polo interno do apetite e suas consequências, sem perder o lastro corporal básico do lexema.
Cântico 5.4 e 5.14 permitem ver, no mesmo capítulo, a elasticidade semântica de מֵעֶה: em 5.4, וּמֵעַי (ûmēʿay, “e minhas entranhas”) participa de uma construção de comoção afetiva (“minhas entranhas se agitaram”), em que o interior visceral é o lugar textual da perturbação; em 5.14, מֵעָיו (mēʿāyw, “seu ventre/abdômen”) integra a descrição física do corpo do amado, funcionando como termo de anatomia poética (“seu ventre…”) mais do que de emoção. No recorte aqui delimitado, a coexistência desses dois empregos no mesmo entorno literário confirma que “entranhas/ventre” pode nomear tanto a interioridade sensível (comoção) quanto o torso/abdômen (descrição física), e que a leitura semântica deve ser regulada pelo co-texto verbal e imagético imediato.
VII. Ventre como apetite, gula e eixo ético
O campo semântico aqui delimitado articula (i) o ventre como cavidade fisiológica associada à fome, saciedade e ingestão e (ii) o ventre como metonímia do desejo que governa o comportamento, funcionando como marcador ético (apetite disciplinado vs. apetite soberano). No eixo hebraico, o vocábulo central é בֶּטֶן (beṭen, “ventre”), empregado tanto em enunciados de saciedade/privação quanto em construções figurativas que descrevem interioridade e impulsos; no eixo grego, predomina κοιλία (koilia, “ventre”), que oscila entre o uso físico e o uso moral, e aparece ainda γαστέρες (gasteres, “ventres”) como rótulo de caráter associado à glutonaria. Considerando apenas o conjunto de passagens-âncora deste recorte, formas de בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) ocorrem 9 vezes, κοιλία (koilia, “ventre”) ocorre 4 vezes (com duas ocorrências em 1 Coríntios 6.13), e γαστέρες (gasteres, “ventres”) ocorre 1 vez.
No AT, a polaridade “justo saciado vs. ímpio carente” fixa o ventre como índice de suficiência ou escassez: em Provérbios 13.25, a oposição entre “o justo come” e o destino do ímpio culmina na cláusula “וּבֶטֶן רְשָׁעִים תֶּחְסָר” (בֶּטֶן, beṭen, “ventre”), em que o “ventre” funciona como o polo somático da falta. Ainda no registro sapiencial, o ventre passa a operar como “interioridade receptiva” em relação ao que se ingere não só com a boca, mas também com os ouvidos: em Provérbios 18.8 e 26.22, a imagem “חַדְרֵי־בָֽטֶן” (ḥadrê-ḇāṭen, “câmaras do ventre”) descreve a descida de discursos corrosivos (murmuração, difamação) ao mais íntimo, produzindo um paralelismo semântico entre assimilação alimentar e assimilação verbal; em Provérbios 18.20, a correlação entre fala e saciedade é explicitada pela construção “מִפְּרִי פִי־אִישׁ תִּשְׂבַּע בִּטְנוֹ” (בִּטְנוֹ, biṭnô, “seu ventre”), em que o “ventre” é o lugar figurado onde o efeito do discurso se acumula como “fruto”. Em Provérbios 22.18, a recomendação de guardar instruções “בְּבִטְנֶךָ” (bəḇiṭnêḵā, “em teu ventre”) reforça o mesmo mecanismo de interiorização, agora com valor normativo (conteúdo retido no interior e disponibilizado no falar).
No livro de Jó, o deslocamento é mais agudo: o ventre torna-se laboratório do vazio discursivo e da fabricação do engano. Em Jó 15.2, o discurso insensato é descrito como algo que “enche” o interior com vento: “יִמָּלֵא קָדִים בִּטְנוֹ” (בִּטְנוֹ, biṭnô, “seu ventre”), isto é, um ventre ocupado por conteúdo inconsistente, onde o apetite (por fala) é desmascarado como inflacionamento do nada. Em Jó 15.35, o ventre aparece como oficina de planejamento moralmente perverso: “וּבִטְנָם תָּכִין מִרְמָה” (בִּטְנָם, biṭnām, “seu ventre”; מִרְמָה, mirmāh, “engano”), fórmula em que o órgão não é apenas receptáculo, mas agente figurado de gestação do ardil. Em Jó 20, o léxico alterna entre “entranhas” e “ventre”, convertendo o processo digestivo em gramática moral do desejo: “בְּמֵעָיו” (מֵעֶה, meʿeh, “entranhas”) descreve o interior como sede de transformação do que foi ingerido; em seguida, “מִבִּטְנוֹ” (mibbitenô, “de seu ventre”) e “בְּבִטְנוֹ” (bəḇiṭnô, “em seu ventre”) sustentam a ideia de que a riqueza devorada e o impulso insaciável não permanecem pacificados no interior. Assim, “ventre” não significa apenas órgão, mas o ponto onde a cobiça se revela como incapacidade estrutural de repouso.
No NT, κοιλία (koilia, “ventre”) preserva a ambivalência entre o plano físico e o plano ético, mas com um recorte mais diretamente normativo. Em 1 Coríntios 6.13, o uso é explicitamente fisiológico e recíproco: “τὰ βρώματα τῇ κοιλίᾳ καὶ ἡ κοιλία τοῖς βρώμασιν” (βρώματα, brōmata, “alimentos”; κοιλία, koilia, “ventre”), definindo um domínio de necessidades corporais e suas correspondências. Já em Romanos 16.18, o ventre torna-se metonímia do egoísmo que manipula pela fala: “τῇ ἑαυτῶν κοιλίᾳ” (κοιλία, koilia, “ventre”) nomeia o polo de serviço alternativo ao “Senhor”, deslocando “apetite” para “interesse” como princípio diretor. Em Filipenses 3.19, a metáfora chega ao limite teológico-moral com a identificação “ὧν ὁ θεὸς ἡ κοιλία” (κοιλία, koilia, “ventre”), isto é, a absolutização do apetite como divindade funcional: o ventre não é apenas desejo, mas objeto de culto prático. Por fim, Tito 1.12 usa γαστέρες (gasteres, “ventres”) como rótulo antropológico depreciativo em um estereótipo moral: “γαστέρες ἀργαί” (γαστέρες, gasteres, “ventres”; ἀργαί, argai, “preguiçosas”), onde “ventres” substitui o sujeito por seu apetite dominante, comprimindo em uma imagem a associação entre glutonaria e ociosidade.
A LXX exige cautela metodológica ao tentar “alinhar” mecanicamente os proverbiais hebraicos e suas imagens do ventre: em Provérbios 18, a sequência e o conteúdo das sentenças diferem significativamente entre tradições, de modo que a correspondência versículo a versículo pode falhar e, com ela, qualquer inferência rápida sobre equivalências diretas entre בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) e um termo grego específico naquele ponto.
VIII. Ventre, trato digestivo e pureza alimentar
No corpus legal do AT, a interioridade corporal associada à alimentação aparece sobretudo em dois recortes semânticos distintos: (1) a classificação de seres “rastejantes” segundo o modo de locomoção, em que o “ventre” é descritor anatômico-externo do contato com o solo, e (2) a nomeação de partes internas de animais como itens de distribuição cultual. Em Levítico 11.42, o critério “andar sobre o ventre” é formulado com גָּח֜וֹן (gāḥôn, “ventre [de réptil]”), inserido numa cadeia classificatória (“andar sobre o ventre”, “andar sobre quatro [pés]”, “multiplicar pés”), e culmina na interdição alimentar por razões de impureza (שֶׁ֥קֶץ, šeqeṣ, “coisa abominável/impura”). Em Deuteronômio 18.3 (Dt 18.3), o texto não recorre ao termo geral “ventre”, mas nomeia um órgão específico como parcela do animal de sacrifício destinada ao sacerdote: הַקֵּבָה (haqqēḇāh, “o estômago/ventrículo”), ao lado de “o braço” e “as queixadas”. A delimitação semântica, aqui, é técnico-cultual: não se trata de “ventre” como interioridade afetiva nem como órgão reprodutivo, mas como componente anatômico do animal no contexto de alimentação sacrificial e repartição de porções.
No NT, a discussão sobre impureza em torno do comer mobiliza o “ventre” como estação intermediária do trajeto do alimento, contrapondo a lógica do contato/ingestão à categoria de contaminação moral. Em Mateus 15.17, a sequência é formulada com o encadeamento “boca → ventre → latrina”: στόμα (stoma, “boca”), κοιλία (koilia, “ventre”) e ἀφεδρών (aphedrōn, “latrina”), em construções verbais que descrevem entrada e expulsão (“entra na boca”, “vai ao ventre”, “é lançado à latrina”). Marcos 7.19 preserva o mesmo eixo lexical (κοιλία, koilia, “ventre”); ἀφεδρών (aphedrōn, “latrina”), mas o explicita por contraste com καρδία (kardia, “coração”), ao afirmar que o que entra “não entra no coração, mas no ventre”, e acrescenta a cláusula participial καθαρίζων (katharizōn, “purificando”) πάντα (panta, “todos”) τὰ βρώματα (ta brōmata, “os alimentos”), que fixa o campo “alimento/pureza” com a forma βρώματα (brōmata, “alimentos”). Neste recorte, “ventre” não funciona como metáfora ética de apetite (como em outros contextos), mas como termo de anatomia funcional dentro de uma cadeia espacial que delimita o alcance do “comer” para efeitos de “impureza”.
Tomando apenas as âncoras textuais deste campo, o hebraico registra duas ocorrências pontuais de termos anatômicos associados ao domínio alimentar: גָּח֜וֹן (gāḥôn, “ventre [de réptil]”) em Levítico 11.42 e הַקֵּבָה (haqqēḇāh, “o estômago/ventrículo”) em Deuteronômio 18.3. No grego, o percurso digestivo é marcado por duas ocorrências de κοιλία (koilia, “ventre”) (Mt 15.17; Mc 7.19) e duas ocorrências de ἀφεδρών (aphedrōn, “latrina”) nas mesmas referências, enquanto βρώματα (brōmata, “alimentos”) aparece uma vez em Marcos 7.19, e καρδία (kardia, “coração”) uma vez na antítese explícita do mesmo versículo.
IX. Ventre como linguagem espacial e imagética narrativa
Neste conjunto de ocorrências, “ventre” opera como metáfora de interioridade espacial e de confinamento narrativo: a cavidade do peixe, o “interior” do submundo, a profundidade da terra e, em registro cosmológico, o “ventre” como matriz de procedência de realidades naturais. Trata-se menos de anatomia descritiva e mais de um vocabulário imagético que transfere categorias corporais para topografias (submundo/terra/mar) e para processos (conter, ocultar, gerar, transformar), criando um eixo semântico coerente: “o dentro” como lugar de retenção e de passagem.
Em Jonas 2.1–3, o hebraico alterna dois núcleos lexicais que se complementam nesse efeito: (i) מֵעֶה (mēʿeh, “entranha/entranhas”) em בִּמְעֵי הַדָּג (bimʿê haddāg, “nas entranhas do peixe”) e מִמְּעֵי הַדָּג (mimmʿê haddāg, “das entranhas do peixe”), isto é, a cavidade animal como espaço real de contenção; e (ii) בֶּטֶן (beṭen, “ventre/útero”) em מִבֶּטֶן שְׁאוֹל (mibbeṭen šĕʾôl, “do ventre do Sheol”), onde o submundo é conceptualizado como um “interior” que envolve, retém e, ainda assim, permite clamor e resposta. A LXX reforça a passagem de um “ventre” literal para um “ventre” topográfico ao verter com κοιλία (koilia, “ventre”) tanto para o peixe (“ἐν τῇ κοιλίᾳ τοῦ κήτους”, en tē koilia tou kēteous, “no ventre do peixe”) quanto para o Hades (“ἐκ κοιλίας ᾅδου”, ek koilias hadou, “do ventre do Hades”), consolidando uma ponte lexical direta entre o hebraico (בֶּטֶן / מֵעֶה) e o grego que mais tarde reaparece no NT.
Em Jó 38.29, a mesma base hebraica בֶּטֶן (beṭen, “ventre/útero”) é deslocada para o registro cosmológico: מִבֶּ֣טֶן מִי יָצָ֣א הַקָּ֑רַח (mibbeṭen mî yāṣāʾ haqqāraḥ, “de que ventre saiu o gelo?”). O “ventre” aqui não indica um órgão humano, mas uma matriz geradora aplicada por analogia às origens do mundo físico; a pergunta retórica explora o valor semântico de procedência e geração inerente à imagem do útero/ventre. A LXX, ao traduzir esse mesmo ponto com γαστήρ (gastēr, “ventre”) em “ἐκ γαστρὸς δὲ τίνος ἐκπορεύεται ὁ κρύσταλλος;” (ek gastros de tinos ekporeuetai ho krystallos?, “de que ventre procede o gelo/cristal?”), mostra que, para este campo, não apenas κοιλία (koilia) mas também γαστήρ (gastēr) funcionam como equivalentes gregos possíveis do hebraico בֶּטֶן (beṭen), o que tem implicações diretas para a delimitação do inventário grego quando o “ventre” assume função espacial ou matricial.
Em Mateus 12.40, a forma grega κοιλία (koilia, “ventre”) descreve o confinamento de Jonas “ἐν τῇ κοιλίᾳ τοῦ κήτους” (en tē koilia tou kēteous, “no ventre do grande peixe”), mas o paralelismo aplica ao Filho do Homem uma metáfora diferente para a interioridade terrestre: “ἐν τῇ καρδίᾳ τῆς γῆς” (en tē kardia tēs gēs, “no coração da terra”). A justaposição κοιλία/καρδία ( koilia/kardia, “ventre/coração”) indica que a linguagem de “interior” não está presa a um único órgão-imagem; o ponto comum é a noção de profundidade interna e de ocultamento temporário. Essa oscilação aparece nas tradições de tradução: a ARC verte “coração” por “seio” (“no seio da terra”), enquanto a ARA mantém “coração”, evidenciando que o problema tradutório central não é “anatomia”, mas qual metáfora portuguesa melhor expressa “interioridade profunda” no contexto (Mt 12.40).
Em Apocalipse 10.9–10, κοιλία (koilia, “ventre/estômago”) ocorre duas vezes (“πικρανεῖ σου τὴν κοιλίαν… ἐπικράνθη ἡ κοιλία μου”, pikranei sou tēn koilian… epikranthē hē koilia mou, “amargará o teu ventre/estômago… o meu ventre/estômago se amargou”), vinculando o “ventre” ao processamento interno do βιβλαρίδιον (biblaridion, “livrinho/pequeno livro”) ingerido. Embora o referente imediato seja fisiológico, a função discursiva é imagética: a interioridade corporal é o lugar onde a mensagem é assimilada e transformada, produzindo um contraste sensorial (doçura na boca; amargor no “ventre”) que marca a passagem do receber ao incorporar. Nesse recorte, o grego κοιλία (koilia, “ventre”) aparece uma vez em Mateus (Mt 12.40) e duas vezes em Apocalipse (Ap 10.9–10), totalizando três ocorrências no conjunto neotestamentário aqui delimitado, enquanto καρδία (kardia, “coração”) aparece uma vez (Mt 12.40) como alternativa metafórica para o “interior” da terra.
X. Ventre em visões imperiais e em imagética apocalíptica
No recorte simbólico-visionário, “ventre” deixa de funcionar primariamente como designação anatômica cotidiana e passa a integrar (a) um sistema de mapeamento político por segmentação corporal (corpos-imagem que distribuem materiais/partes para codificar reinos e domínios) e (b) uma dramaturgia de crise escatológica em que gravidez e dores de parto fornecem um modelo de inevitabilidade e vulnerabilidade. Isso implica, metodologicamente, distinguir com rigor (i) ocorrências em que “ventre/abdômen” é apenas um “segmento intermediário” do corpo-imagem, sem carga reprodutiva, e (ii) ocorrências em que a expressão “ter no ventre” é idiomatismo de gestação. No subcampo (i), o termo de referência no texto base é aramaico em Daniel, e hebraico em Jeremias; no subcampo (ii), o eixo do NT se organiza em torno de γαστήρ (gastēr, “ventre”) em construções com a preposição ἐν (en, “em”) e o verbo ἔχω (echō, “ter”), isto é, ἐν γαστρὶ ἔχω (en gastri echō, “ter no ventre”), com léxico adjacente de parto por ὠδίν (ōdin, “dor de parto”) e formas correlatas (Dn 2.32; Jr 51.34; Ap 12.2; Mc 13.17; Lc 21.23; 1Ts 5.3).
Em Daniel 2.32, a estátua do sonho é descrita por enumeração de segmentos: a expressão aramaica מְע֥וֹהִי (məʿōhî, “seu ventre/abdômen”) aparece coordenada a יַרְכָתֵהּ (yarkātēh, “suas coxas/quadris”), configurando o “ventre” como porção medial do corpo-imagem, imediatamente identificada pelo metal correspondente. A relevância tradutória aqui é objetiva, porque a segunda peça do par (“coxas”/“quadris”) delimita a extensão semântica do segmento: há versões portuguesas que estabilizam “ventre e quadris” (NVI/NAA/NVT em formulações visíveis nos paralelos de comparação), enquanto outras vertem “ventre e coxas”, deslocando ligeiramente o recorte corporal para baixo (Dn 2.32). Como o alvo é apenas o agrupamento semântico, a consequência classificatória é simples: em Daniel, “ventre” pertence ao domínio “corpo-imperial segmentado”, sem qualquer valor reprodutivo; no micro-corpus deste tópico, essa é uma ocorrência única do subcampo (i) (Dn 2.32).
Em Jeremias 51.34, o emprego não é de segmentação, mas de consumo/assimilação: o interior do agente imperial é apresentado como recipiente que se “enche” das “delicadezas”, compondo uma metáfora de saque que transforma a cidade-povo em alimento. O termo específico é כְּרֵשֹׂ֖ו (kərēśô, “seu ventre/estômago”), em contexto verbal de preenchimento (“encher”), o que dá ao “ventre” coloração semântica alimentar mais marcada do que uma designação corporal genérica (Jr 51.34). Nas traduções portuguesas consultadas, a escolha “ventre” é majoritária e explícita (“encheu o seu ventre”), preservando o valor imagético de ingestão em vez de reinterpretá-lo como “coração” ou “íntimo” de forma psicologizante. Assim, no subcampo (i), Jeremias fornece uma segunda ocorrência única, agora sob a rubrica “ventre como recipiente de devoração imperial”, semanticamente distinta de Daniel, embora igualmente não reprodutiva (Jr 51.34).
No NT, a imagética apocalíptica desloca o eixo para gestação e dores de parto. Em Apocalipse 12.2, a gravidez é codificada por ἐν γαστρὶ (en gastri, “no ventre”) com o particípio ἔχουσα (echousa, “tendo”), formando ἐν γαστρὶ ἔχουσα (en gastri echousa, “tendo no ventre”), enquanto a cena é intensificada pelo léxico de parto ὠδίνουσα (ōdinousa, “sentindo dores de parto”) (Ap 12.2). A comparação tradutória relevante não está em “ventre” (que, em português, costuma ser substituído pela solução idiomática “grávida”), mas no grau de explicitação do idiomatismo: ARC/NVT/NVI tendem a verter diretamente “estava grávida” (com a sequência “dores de parto”), ao passo que ARA explicita o estado e amplia a pressão da cena (“achando-se grávida… grita… sofrendo tormentos”) (Ap 12.2). Para a delimitação semântica, isso confirma que γαστήρ (gastēr, “ventre”), neste recorte, não funciona como “abdômen” neutro, mas como marcador técnico de gravidez em contexto visionário (Ap 12.2).
O mesmo idiomatismo governa os avisos sinóticos de tribulação e a analogia paulina da inevitabilidade do juízo. Em Marcos 13.17, a vulnerabilidade é marcada pelo dativo plural com artigo: ταῖς ἐν γαστρὶ ἐχούσαις (tais en gastri echousais, “às que têm no ventre”, isto é, “às grávidas”), um uso em que a expressão inteira é praticamente lexicalizada como estado gestacional (Mc 13.17). Em Lucas 21.23, a construção é paralela (ταῖς ἐν γαστρὶ ἐχούσαις), reforçando a estabilidade do padrão em material escatológico sinóptico (Lc 21.23). Em 1 Tessalonicenses 5.3, a inevitabilidade é figurada por ὥσπερ ἡ ὠδὶν τῇ ἐν γαστρὶ ἐχούσῃ (hōsper hē ōdin tē en gastri echousē, “como a dor de parto à que tem no ventre”), em que ὠδίν (ōdin, “dor de parto”) dá a moldura do símile, e γαστρί (gastri, “ventre”, dativo) ancora a imagem na gestação (1Ts 5.3). Aqui, a divergência tradutória relevante está entre traduzir o referente como “mulher grávida” (solução direta em ARC/NVI) ou como “a que está para dar à luz” (ARA), o que afeta a ênfase temporal (“estado” vs. “iminência”) sem alterar a pertença do termo ao mesmo subcampo semântico (1Ts 5.3). Somando apenas este tópico, γαστήρ no padrão ἐν γαστρί ocorre quatro vezes no conjunto mínimo diretamente documentado (Ap 12.2; Mc 13.17; Lc 21.23; 1Ts 5.3), enquanto o domínio “corpo-imperial segmentado/consumo” apresenta duas ocorrências únicas com léxico semântico distinto (Dn 2.32; Jr 51.34).
XI. Vigilância pastoral, supervisão e prestação de contas
Em Hebreus 13.17, a tessitura do imperativo comunitário é construída por dois verbos que frequentemente são nivelados como simples “obediência”, mas que, no grego, permitem nuance: πείθεσθε (peithesthe, “deixai-vos persuadir/acolhei a orientação”) e ὑπείκετε (hypeikete, “cedei/submetei-vos”). O primeiro deriva do campo de “persuadir-se/convencer-se” (πείθω, peithō, “persuadir/convencer; ser persuadido”), de modo que a renderização “obedecei” (ARA/ACF) representa uma leitura possível, mas não exaure o espectro semântico do verbo. O segundo, por sua vez, explicita a dimensão de “ceder” (ὑπείκω, hypeikō, “ceder/submeter-se”), reforçando que o texto articula adesão prática e disposição relacional. Essa dupla moldura verbal, portanto, não descreve mera hierarquia formal: descreve uma dinâmica de condução e responsividade que se torna inteligível pelo motivo causal que segue, “pois” (γάρ), introduzindo a razão pastoral da exortação.
O fundamento dessa razão é o vocabulário explícito da vigilância: ἀγρυπνοῦσιν (agrypnousin, “vigiam permanecendo sem sono”) “por” (ὑπέρ, hyper, “em favor de/por causa de”) “vossas almas” (τῶν ψυχῶν, tōn psychōn, “das vidas/almas”), “como” (ὡς, hōs, “na qualidade de”) “os que hão de prestar contas” (λόγον ἀποδώσοντες, logon apodōsontes, “os que darão conta”) (Hb 13.17). A própria lexicografia reconhece, no uso neotestamentário, que ἀγρυπνέω (agrypneō, “estar sem dormir/velar”) pode denotar vigilância contínua “em favor de” alguém, precisamente em Hebreus 13:17, isto é, uma vigilância “por outrem”, não apenas “sobre si”. Aqui a oscilação tradutória é relevante: ARA mantém “velam por vossa alma”, preservando a metáfora de vigilância e o eixo ψυχή (psychē, “alma/vida”). NVI reexprime em termos de cuidado (“eles cuidam de vocês”), o que comunica corretamente a função pastoral, mas suaviza o nexo imagético entre “velar” e “prestar contas” que o grego coloca em primeiro plano. ACF, ao verter ἡγούμενοις (hēgoumenois, “condutores/líderes”) por “pastores”, explicita uma leitura eclesiológica possível, porém interpretativa: o substantivo grego indica “os que conduzem”, sem, por si só, impor uma nomenclatura ministerial específica. Em termos exegéticos, o ponto nuclear do versículo é a responsabilização: a vigilância não é mero “monitoramento”; é guarda orientada ao bem da comunidade sob a forma de prestação de contas, o que torna o trabalho dos condutores pesado ou jubiloso conforme a resposta do grupo (Hb 13.17).
Atos 20.31 desloca o foco da vigilância para o modo apostólico de cuidar e advertir, mas conserva o mesmo campo semântico por meio do imperativo γρηγορεῖτε (grēgoreite, “permanecei despertos/alertas”). O verbo γρηγορέω (grēgoreō) descreve o estado de “estar acordado/atento” e, metaforicamente, “ser cauteloso/ativo” contra riscos que podem sobrevir — e a tradição lexicográfica explicitamente inclui Atos 20:31 na aplicação contra corrupção por erro. O particípio μνημονεύοντες (mnēmoneuontes, “lembrando-vos”) ancora o imperativo numa memória pedagógica: o padrão de Paulo é descrito como duração (“por três anos”, τριετίαν, trietian, “três anos”), intensidade temporal (“noite e dia”, νύκτα καὶ ἡμέραν, nykta kai hēmeran, “noite e dia”) e afeto pastoral (“com lágrimas”, μετὰ δακρύων, meta dakryōn, “com lágrimas”), convergindo no ato de “admoestar” (νουθετῶν, nouthetōn, “advertindo/instruindo”) “a cada um” (ἕνα ἕκαστον, hena hekaston, “um por um”) (At 20.31). Nesse versículo, ARA e NVI convergem na escolha “vigiai/vigiem”, de modo que a colação de versões serve apenas para confirmar a estabilidade do ponto principal: a vigilância é pastoralmente concreta e individualizada, não genérica.
O enquadramento imediato de Atos 20 reforça que a vigilância é também supervisão responsável: o mesmo discurso já havia nomeado “o rebanho” (ποιμνίῳ, poimniō, “rebanho”), “supervisores” (ἐπισκόπους, episkopous, “supervisores/encarregados”) e a tarefa de “pastorear” (ποιμαίνειν, poimainein, “pastorear/cuidar como pastor”), antes de chegar ao imperativo “sede vigilantes” (γρηγορεῖτε, grēgoreite) (At 20.28–31). Isso esclarece o deslocamento semântico de “vigiar” no campo pastoral: não se trata de curiosidade, controle ou antecipação obsessiva, mas de atenção sustentada que protege pessoas contra danos — danos que, no próprio contexto, incluem “coisas pervertidas” e processos de “arrastar discípulos” (At 20.30–31). Assim, Hebreus 13.17 e Atos 20.31 convergem num ponto: a vigilância cristã, quando aplicada ao cuidado de pessoas, é definida por prontidão contínua, advertência responsável e uma ética de contas, em que o vigia não observa “de fora”, mas responde “por” e “diante de” (Hb 13.17; At 20.31).
XII. Equivalências na LXX entre בֶּטֶן, κοιλία e γαστήρ
No eixo hebraico, בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) funciona como designação anatômica ampla capaz de abranger o “ventre” enquanto cavidade corporal e, por extensão, o “ventre materno” como locus de geração. Na LXX, essa amplitude é reexpressa sobretudo por dois substantivos gregos: γαστήρ (gastēr, “ventre”) e κοιλία (koilia, “ventre/cavidade interior”). O dado decisivo para a delimitação semântica é que a LXX não fixa uma correspondência única e rígida: a mesma área referencial hebraica pode ser vertida por γαστήρ ou por κοιλία, e a escolha, em vez de ser meramente mecânica, tende a acompanhar (i) coligações sintáticas (“em/desde o ventre”), (ii) o foco do enunciado (gravidez/gestação versus “interioridade” corporal) e (iii) a proximidade com outros lexemas hebraicos que já carregam a ideia de “entranhas/interior” (como מֵעֶה mēʿeh, “entranhas”). Em Gênesis 25.23, a própria estrutura paralela do hebraico já distribui funções: “בְּבִטְנֵךְ” (bəḇiṭnēḵ, “em teu ventre”) com בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) e “מִמֵּעַיִךְ” (mimmēʿayiḵ, “de tuas entranhas”) com מֵעֶה (mēʿeh, “entranhas”). A LXX acompanha essa diferenciação por meio de “ἐν τῇ γαστρί σου” (en tē gastrí sou, “em teu ventre”) e “ἐκ τῆς κοιλίας σου” (ek tēs koilías sou, “de tua κοιλία”), alinhando γαστήρ (gastēr, “ventre”) ao membro com בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) e reservando κοιλία (koilia, “cavidade interior/ventre”) para o membro com מֵעֶה (mēʿeh, “entranhas”).
Esse mesmo fenômeno — alternância interna e sensível ao contexto — aparece em sequência curta na tradição salmódica. Em Salmos 22.10–11 (MT), o referente é unitário: “מִבָּטֶן” (mibbāṭen, “desde o ventre”) e “מִבֶּטֶן אִמִּי” (mibbeṭen ʾimmî, “desde o ventre de minha mãe”) derivam ambos de בֶּטֶן (beṭen, “ventre”). Na LXX (numeração grega Salmo 21.10–11), a alternância se torna explícita: “ἐκ γαστρὸς” (ek gastrós, “desde o ventre”) num verso e “ἐκ κοιλίας μητρός μου” (ek koilías mētrós mou, “desde a κοιλία de minha mãe”) no seguinte. O resultado, para fins de agrupamento semântico, é que γαστήρ (gastēr, “ventre”) e κοιλία (koilia, “ventre/cavidade interior”) podem operar como alternativas gregas para o mesmo hebraico בֶּטֶן (beṭen, “ventre”), sem que isso implique mudança de referente (continua sendo o “ventre” como origem/nascimento), mas com leve deslocamento de perfil: γαστήρ (gastēr, “ventre”) tende a soar mais “somático” (“ventre” como órgão/cavidade), enquanto κοιλία (koilia, “cavidade interior/ventre”) é especialmente apta a ligar “ventre” à ideia de “interioridade” (o “dentro” do corpo) — exatamente porque, no mesmo hebraico, ela também pode servir como escolha natural quando o membro paralelo usa מֵעֶה (mēʿeh, “entranhas”), como visto em Gênesis 25.23.
O emprego de γαστήρ (gastēr, “ventre”) como equivalente de בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) também se observa onde o hebraico explora imagens cosmogônicas e “natalidade” de fenômenos naturais. Em Jó 38.29, o hebraico pergunta “מִבֶּטֶן” (mibbeṭen, “de que ventre”) em formulação que transfere para a natureza a linguagem do parto; a LXX verte a mesma pergunta com “ἐκ γαστρὸς” (ek gastrós, “de que ventre”), preservando o núcleo imagético e escolhendo γαστήρ (gastēr, “ventre”) como veículo grego. No conjunto mínimo aqui considerado (Gn 25.23; Sl 22.10–11; Jó 38.29), isso produz um recorte quantitativo estritamente demonstrável: em três ocorrências, בֶּטֶן (beṭen, “ventre”) é refletido por formas de γαστήρ (gastēr, “ventre”); em uma ocorrência, por forma de κοιλία (koilia, “ventre/cavidade interior”) — com a ressalva metodológica de que essa contagem vale apenas para o microcorpus citado e não pretende antecipar uma estatística total da LXX.
Esse pano de fundo explica por que, no NT, κοιλία (koilia, “ventre/cavidade interior”) pode oscilar com naturalidade entre “útero” (ventre materno) e “interior” (dentro da pessoa), sem que isso represente contradição lexical, mas, antes, reutilização de uma palavra já estabilizada na tradição grega bíblica como marcador de interioridade corporal. Em Lucas 1, os dois termos aparecem lado a lado em funções próximas, o que confirma a vizinhança semântica e a possibilidade de distribuição estilística: “ἐν γαστρὶ λήμψῃ” (en gastrí lēmpsēi, “conceberás no ventre”) em Lucas 1.31 usa γαστήρ (gastēr, “ventre”) para o evento da concepção, enquanto “ἐν τῇ κοιλίᾳ αὐτῆς” (en tē koilíā autēs, “no ventre/útero dela”) em Lucas 1.41 e as ocorrências correlatas em 1.42–44 usam κοιλία (koilia, “ventre/útero”) para o “interior” gestacional onde o feto se move.
Já em João 7.38, a expressão “ἐκ τῆς κοιλίας αὐτοῦ” (ek tēs koilías autou, “de sua κοιλία”) desloca o eixo do “ventre” como órgão para a “interioridade” como fonte metafórica: a imagem não descreve um fluxo físico a partir do abdômen, mas localiza a origem do “fluxo” (a vida comunicada) no “dentro” da pessoa, valendo-se de κοιλία (koilia, “cavidade interior/ventre”) como termo naturalmente apto a esse tipo de interiorização. É precisamente aqui que a comparação tradutória se torna relevante: a ARC mantém a literalidade imagética ao verter “rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo 7.38), o que conserva, em português, a superfície corporal do signo “ventre”, ainda que a construção seja metafórica. A KJV, de modo análogo, fixa “belly” como escolha literal para κοιλία (koilia, “ventre/cavidade interior”) no mesmo versículo, preservando o mesmo efeito de concretude somática no inglês. Essas duas opções permitem manter visível, na língua de chegada, a continuidade com a tradição da LXX, na qual κοιλία (koilia, “ventre/cavidade interior”) já funciona como termo de “interior” corpóreo, e, por isso, pode ser reaproveitada em João 7.38 como metáfora de origem interna sem perder contato com seu uso mais estritamente uterino em Lucas 1.41–44.
Bibliografia
BRENTON, Lancelot Charles Lee. The Septuagint with Apocrypha: Greek and English. Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 1990.
BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
BÍBLIA SAGRADA. Almeida Corrigida Fiel. São Paulo: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, 2011.
BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2001.
BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Transformadora. São Paulo: Mundo Cristão, 2016.
ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm (eds.). Biblia Hebraica Stuttgartensia. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.
NOVUM TESTAMENTUM GRAECE. Nestle-Aland (NA28). 28. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.
Cite este artigo:
GALVÃO, Eduardo. Ventre. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 1 jun. 2016. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].