Vinagre — Enciclopédia Bíblica Online

Na Bíblia, “vinagre” designa, de modo primário, o estado “azedado” de uma bebida fermentada e, por extensão, um líquido ácido que pode funcionar como alimento simples, imagem sensorial de irritação e marcador narrativo-teológico de humilhação e sofrimento: no AT, o termo nuclear é חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”), concentrado em um conjunto pequeno porém semanticamente diverso, em que a proibição do nazireado explicita o vinagre como derivado do universo vínico (“vinagre de vinho”/“vinagre de bebida forte”), enquadrando-o como parte do contínuo do álcool do qual o consagrado se abstém (Nm 6.3); a cena agrária de Rute o apresenta como condimento/acompanho de refeição modesta, disponível no cotidiano rural (Rt 2.14); Provérbios o fixa como metáfora de desconforto e inadequação, explorando a acidez como analogia de efeito irritante (Pv 10.26) e como imagem de reação contraproducente num contexto de aflição (Pv 25.20); e o Salmo 69 associa o vinagre à sede do sofredor como gesto de hostilidade (Sl 69.21), em paralelismo com רֹאשׁ (rōš, “veneno/amargor”), que a Septuaginta verte por χολή (cholē, “fel”), enquanto verte חֹמֶץ por ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”), criando um eixo lexical MT → LXX (Sl 68.22 LXX) que se torna especialmente relevante na recepção cristã; no NT, ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) aparece no ciclo da paixão como bebida ordinária/áspera disponível no ambiente da execução e, em João, como peça do encadeamento “sede → Escritura → consumação”, pois a declaração “tenho sede” culmina no oferecimento e na recepção do ὄξος (Mt 27.48; Mc 15.36; Lc 23.36; Jo 19.29–30), distinguindo-se da “primeira bebida” descrita como οἶνος (oinos, “vinho”) com aditivos amargantes — em Mateus, “vinho com fel” (οἶνον… μετὰ χολῆς, oinon… meta cholēs, “vinho… com fel”) (Mt 27.34) e, em Marcos, “vinho misturado com mirra” (ἐσμυρνισμένον οἶνον, esmyrnismenon oinon, “vinho misturado com mirra”) (Mc 15.23) — de modo que o “vinagre” bíblico oscila entre (i) referente material de mesa e campo, (ii) figura retórica de agressão sensorial/afetiva e (iii) sinal narrativo que, no vocabulário da LXX e dos evangelhos, permite ler a cena da sede e do ὄξος como ressonância lexical do lamento do justo.

I. Usos, imagens e teologia de חֹמֶץ (ḥōmeṣ) e ὄξος (oxos)

Este verbete descreve o emprego bíblico de “vinagre/vinho azedo” em dois níveis complementares: (i) como item real de cultura material (produto fermentado, condimentar e bebida simples, particularmente em contextos de trabalho e de racionamento) e (ii) como recurso literário e teológico (imagem sapiencial de irritação/contraste afetivo e motivo de aflição ligado à sede, que se projeta do Sl 69.21 para a narrativa da paixão nos Evangelhos). O eixo lexical do estudo é duplo: no AT, a unidade semântica é representada por חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”), cuja concordância hebraica registra seis ocorrências distribuídas em cinco versículos, com duplicação em Nm 6.3. No NT, o termo nuclear é ὄξος (oxos, “vinagre; vinho azedo”), cuja concordância grega registra seis ocorrências, concentradas no corpus da paixão, sendo Jo 19.29 o ponto de duplicação formal por conter o vocábulo duas vezes. Como parte do escopo, o verbete também registra dois controles indispensáveis: o controle tradutório entre o MT e a LXX (onde ὄξος, em diversos contextos, verte o campo de “vinagre”, inclusive em Nm 6.3) e o controle crítico-textual em Mt 27.34, no qual testemunhos do texto crítico trazem οἶνος (oinos (“vinho”)) enquanto a tradição bizantina/TR registra ὄξος (oxos, “vinagre; vinho azedo”), variação que afeta a distinção entre a “primeira oferta” e o oferecimento final do “vinagre” na cena da crucificação.

No AT, a base documental do verbete é composta por cinco loci: Nm 6.3 (com duas ocorrências do termo no mesmo versículo, no contexto do voto de nazireado, incluindo “vinagre de vinho” e “vinagre de bebida forte”), Rt 2.14 (vinagre como elemento de refeição em cenário agrário), Sl 69.21 (vinagre associado à “sede” no quadro de aflição), Pv 10.26 (imagem do efeito irritante do vinagre aplicada à experiência cotidiana) e Pv 25.20 (vinagre como imagem de inadequação/contraste, cuja formulação envolve uma questão de leitura e de tradução em muitas versões). A partir desses textos, a distribuição semântica que o verbete trabalhará (sem ainda entrar em exegese) é delimitada assim: um bloco normativo-ritual (Nm 6.3), um bloco de uso alimentar-cotidiano (Rt 2.14), um bloco sapiencial metafórico (Pv 10.26; Pv 25.20) e um bloco de lamento/sofrimento (Sl 69.21). 

No NT, o vocábulo ὄξος (oxos) ocorre exclusivamente no conjunto narrativo da paixão: Mt 27.48; Mc 15.36; Lc 23.36; Jo 19.29–30, com Jo 19.29 apresentando duas ocorrências formais no texto grego e Jo 19.30 registrando a recepção final do “vinagre”. O verbete trabalhará, como textos satélites necessários para a inteligibilidade do conjunto, Mt 27.34 (pela variação “vinho”/“vinagre” e pela presença de χολή (cholē (“fel”)) na mistura), Mc 15.23 (pela menção explícita do “vinho com mirra”, que não deve ser confundido com ὄξος) e Jo 19.28 (pela articulação literária da sede imediatamente antes do gesto com a esponja). Nesse ponto, a relação canônica com Sl 69.21 funciona como ponte explícita de motivo (sede → vinagre), devendo-se apenas observar que, no sistema de numeração da Septuaginta e da Vulgata, o Salmo corresponde a “Sl 68” (LXX/Vg), o que exige atenção quando o verbete citar o testemunho grego.

II. Quadro Comparativo

Lexema/forma Delimitação semântica Âncoras textuais
חֹמֶץ (ḥōmeṣ (“vinagre”); KJV: “vinegar” → “vinagre”) Regulação ritual / abstinência (2 ocorrências; duplicação no mesmo versículo) Nm 6.3 (2×)
חֹמֶץ (ḥōmeṣ (“vinagre”); KJV: “vinegar” → “vinagre”) Alimento/condimento em vida cotidiana (trabalho/mesa) (1 ocorrência) Rt 2.14
חֹמֶץ (ḥōmeṣ (“vinagre”); KJV: “vinegar” → “vinagre”) Imagem sapiencial de irritação/contraste afetivo (2 ocorrências) Pv 10.26; Pv 25.20
חֹמֶץ (ḥōmeṣ (“vinagre”); KJV: “vinegar” → “vinagre”) Aflição/sede (motivo de sofrimento; ponte para a paixão) (1 ocorrência) Sl 69.21
ὄξος (oxos (“vinagre; vinho azedo”); KJV: “vinegar” → “vinagre”) Aflição/sede (6 ocorrências no NT; concentradas nos Evangelhos; duplicação em Jo 19.29) Mt 27.48; Mc 15.36; Lc 23.36; Jo 19.29–30

III. Delimitação lexical e conceitual de “vinagre/vinho azedo” no corpus bíblico

No horizonte material do Antigo Oriente Próximo e do Mediterrâneo antigo, a referência bíblica a “vinagre” não exige a importação de uma descrição moderna de laboratório; basta fixar, com rigor semântico, que se trata de uma bebida (ou subproduto de bebida) “azeda”, isto é, sensivelmente ácida, resultante do processo pelo qual vinho (e, em termos mais amplos, bebida fermentada) “vira” e se torna imprópria como vinho pleno, embora permaneça útil como líquido ácido em contextos cotidianos e figurativos. Essa delimitação é justamente o que os léxicos assinalam ao descreverem o hebraico חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) como “bebida fermentada tornada azeda” (isto é, vinho avinagrado) e ao indicarem que seu emprego oscila entre literalidade culinária e imagens de agressão/irritação.

A palavra hebraica central é חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”), atestada 6 vezes em 5 versículos (com duplicação no mesmo versículo), o que delimita um campo lexical pequeno, porém semanticamente expressivo. A duplicação ocorre no texto do voto nazireu, onde a proibição abrange explicitamente “vinagre de vinho” e “vinagre de bebida forte”: חֹמֶץ יַיִן (ḥōmeṣ yayin, “vinagre de vinho”) e חֹמֶץ שֵׁכָר (ḥōmeṣ šēkār, “vinagre de bebida forte”) (Nm 6.3). Fora desse eixo cultual, o termo comparece no cenário agrário de alimentação simples, como molho/imersão: וְטָבַלְתְּ פִּתֵּךְ בַּחֹמֶץ (wə-ṭāḇalt pitteḵ ba-ḥōmeṣ, “e molharás o teu pedaço no vinagre”) (Rt 2.14). No registro lamentatório, a imagem se torna mais aguda: וְלִצְמָאִי יַשְׁקוּנִי חֹמֶץ (wə-liṣməʾi yašqûnî ḥōmeṣ, “e para a minha sede deram-me vinagre para beber”) (Sl 69.21; no texto hebraico, v. 22). Por fim, a literatura sapiencial fixa a acidez como metáfora de incômodo e corrosão: כַּחֹמֶץ לַשִּׁנַּיִם (ka-ḥōmeṣ la-šinnayim, “como vinagre aos dentes”) (Pv 10.26) e כַּחֹמֶץ עַל־נָתֶר (ka-ḥōmeṣ ʿal-nāṯer, “como vinagre sobre neter”) (Pv 25.20). Desse inventário decorrem, com contagem controlada, quatro subcampos semânticos (por ocorrência textual): (i) consagração/abstinência cultual (2 ocorrências no mesmo versículo: Nm 6.3); (ii) alimentação cotidiana/campo (1: Rt 2.14); (iii) lamento e hostilidade social (1: Sl 69.21); (iv) metáfora sapiencial de irritação/insensibilidade (2: Pv 10.26; Pv 25.20).

No NT, o núcleo lexical é ὄξος (oxos, “vinagre; vinho azedo”), concentrado no quadro narrativo da paixão: Marcos registra a oferta de “vinagre” com a forma ὄξους (oxous, “de vinagre”) (Mc 15.36), e João apresenta o recipiente “cheio de vinagre” (ὄξους, oxous, “de vinagre”) e, em seguida, o gesto em que Jesus “recebe o vinagre” (τὸ ὄξος, to oxos, “o vinagre”) (Jo 19.29–30). Mesmo sem expandir aqui para uma análise intertextual completa, é metodologicamente relevante notar que a tradição exegética de die-bibel aproxima esse léxico joanino do Salmo 69 na forma da Septuaginta (LXX), onde ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) e χολή (cholē, “fel/bílis”) aparecem conjuntamente, e esse pano de fundo é explicitamente mobilizado para iluminar o vocabulário da paixão.

Um ponto filologicamente decisivo é não colapsar, por simples equivalência em português, duas ofertas distintas: no início da execução, Marcos descreve a bebida como “vinho aromatizado”, com οἶνον (oinon, “vinho”) em “ἐσμυρνισμένον οἶνον” (esmyrnismenon oinon, “vinho misturado com mirra”) (Mc 15.23). Em outro momento do relato, o mesmo evangelho utiliza o léxico do azedo: “γεμίσας σπόγγον ὄξους” (gemisas spongon oxous, “enchendo uma esponja de vinagre/vinho azedo”) (Mc 15.36). Essa distinção interna (οἶνος/ὄξος) é crucial para evitar que a leitura portuguesa “vinagre” funcione como rótulo indiferenciado para qualquer líquido oferecido ao crucificado. No relato de Mateus, a primeira bebida aparece, no texto crítico tal como reproduzido em die-bibel, como “οἶνον μετὰ χολῆς” (oinon meta cholēs, “vinho com fel”) (Mt 27.34), e a mesma tradição de die-bibel observa que ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) é o termo empregado no episódio posterior da bebida (Mt 27.48), precisamente no horizonte do Salmo 69 na LXX. João, por sua vez, estabiliza o vocabulário do azedo ao repetir ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) de modo concentrado (Jo 19.29–30), o que reforça a leitura de um “vinho avinagrado” (isto é, vinho barato/azedo, já fora do estatuto normal de οἶνος) como elemento narrativo e, ao mesmo tempo, como gatilho intertextual. 

IV. Cultura material do “vinagre/vinho azedo” no mundo bíblico

A terminologia hebraica concentra-se em חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”), cuja distribuição textual indica tanto um produto alimentar comum quanto uma categoria que resulta do envelhecimento/azedamento de bebidas fermentadas. A legislação do nazireado é particularmente explícita ao proibir “vinagre de vinho” e “vinagre de bebida forte”, formulando o binômio חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) + qualificadores de origem (“vinho” / “bebida forte”), o que pressupõe uma cultura material em que o vinagre é concebido como derivado típico de bebidas alcoólicas, e não como substância autônoma (Nm 6.3). Na prática doméstica, a cena de Rute descreve o vinagre como meio de consumo com pão — “mergulhar o pedaço” no vinagre — sugerindo uso como condimento/acompanho alimentar, em contexto rural de refeição frugal (Rt 2.14). A literatura sapiencial explora essa materialidade pela via sensorial: “vinagre para os dentes” funciona como imagem de agressão gustativa que supõe familiaridade cotidiana com o sabor ácido do produto (Pv 10.26). Em Provérbios 25.20, a associação de “vinagre” com um reagente/insumo (נָתֶר nāṯer, “neter”) opera retoricamente por contraste de propriedades, explorando o caráter irritante/perturbador do vinagre em um quadro de experiência prática (Pv 25.20). No plano físico-químico (aqui, apenas como explicitação de cultura material, não como importação de ciência moderna ao texto), a inteligibilidade desse “azedamento” é compatível com o fato de o vinagre ser essencialmente uma solução aquosa de ácido acético associada a processos de fermentação/oxidação de substratos alcoólicos — um horizonte que explica por que, em economias antigas, o “vinho” podia facilmente transitar para “vinagre” sem pretensão de refinamento tecnológico.

No grego do NT, o termo nuclear é ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”), empregado nos relatos da crucificação e associado a um recipiente disponível no local, do qual se embebe uma esponja para ser oferecida ao crucificado (Mc 15.36; Lc 23.36; Jo 19.29; Mt 27.48). O alcance semântico do vocábulo, em grego extrabíblico, não se reduz ao “vinagre” como produto de cozinha, podendo designar também “vinho pobre/de baixa qualidade” (isto é, vinho azedo), o que ajuda a explicar a oscilação tradutória moderna entre “vinegar” e “sour wine”. Essa ambivalência aparece com nitidez quando se comparam traduções: na tradição inglesa clássica, a KJV prefere “vinegar” em Marcos 15:36 e João 19:29, ao passo que versões modernas como ESV usam “sour wine”, preservando a intuição de bebida barata/azeda mais do que a imagem de “vinagre” culinário estrito. Nesse mesmo eixo interpretativo, notas de tradução frequentemente recorrem ao paralelo latino “posca” para descrever uma bebida avinagrada/diluída, associada a estratos populares e ao consumo de soldados; esse tipo de aproximação não é uma “prova” lexical por si, mas funciona como reconstrução plausível do cenário material pressuposto pelos textos da Paixão.

A distinção principal repousa no fato de que os evangelhos registram ao menos dois momentos e duas formulações diferentes: em Mateus, a primeira oferta aparece como οἶνος (oinos, “vinho”) “misturado com” χολή (cholē, “fel”), cuja recusa (após provar) marca a não-adesão a uma bebida apresentada com aditivo amargante (Mt 27.34). Em Marcos, a formulação é ἐσμυρνισμένον (esmyrnismenon, “misturado com mirra”) + οἶνος (oinos, “vinho”), igualmente recusado (Mc 15.23). Só mais adiante, em contexto de sede e de execução em curso, surge ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) como o líquido efetivamente oferecido (Mc 15.36; Jo 19.29). Essa diferenciação é relevante porque impede a leitura niveladora que trata todas as bebidas como um único gesto: o texto separa uma oferta inicial de “vinho com aditivo” (amargor/condimento) de uma oferta posterior de “vinho azedo/vinagre”, mais coerente com o horizonte de provisão barata disponível aos circunstantes. A ligação intertextual com o Saltério é fortalecida quando se observa que a tradição hebraica de Salmos descreve “dar vinagre para a sede” com o mesmo lexema חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) (Sl 69.21), e que a Septuaginta verte exatamente esse ponto com ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”), além de usar χολή (cholē, “fel”) no mesmo verso — um dado que torna linguisticamente inteligível a retomada vocabular nos evangelhos, sem exigir que “fel” e “vinagre” sejam confundidos como uma única substância ou um único ato (LXX Sl 68.22).

V. Usos diretos de חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) por domínio textual

A legislação do nazireado, ao descrever a abstinência, não se limita ao vinho como marcador social de celebração, mas amplia deliberadamente o escopo para seus derivados e estados “degenerados”, de modo que a renúncia abarca tanto o produto “nobre” quanto a forma azedada. O hebraico emprega a construção nominal específica para “vinagre de vinho” e “vinagre de bebida forte”: חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) em combinação com יַיִן (yayin, “vinho”) e com שֵׁכָר (šēkār, “bebida forte/fermentada”), formando um paralelismo que delimita o campo semântico do interdito como um contínuo de fermentação/derivação, não apenas uma categoria social de consumo (Nm 6.3).

A cena rural de Rute pressupõe um gesto simples, porém semanticamente denso: “mergulhar o bocado” no vinagre. A expressão וְטָבַלְתְּ פִּתֵּךְ בַּחֹמֶץ (wə-ṭāḇalt pitteḵ ba-ḥōmeṣ, “e mergulharás o teu pedaço no vinagre”) faz de חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) não um símbolo abstrato, mas um item de mesa/campo, funcionando como elemento de acompanhamento que “estrutura” a refeição em termos práticos e econômicos: um líquido acessível, apto a tornar comestível o pão simples e a marcar a hospitalidade no nível do sustento diário (Rt 2.14).

Em Provérbios, a força do termo deriva do apelo sensorial: o provérbio associa diretamente o vinagre ao desconforto físico, valendo-se da experiência corporal como critério de avaliação moral e social. A comparação “como vinagre para os dentes e como fumaça para os olhos” (כַּחֹמֶץ לַשִּׁנַּיִם וְכֶעָשָׁן לָעֵינָיִם, ka-ḥōmeṣ laššinnayim wə-ḵe-ʿāšān lāʿênayim) transforma חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) em operador imagético de aversão: sua acidez não é apenas uma qualidade gustativa, mas um efeito irritante que fornece a lógica da sentença sobre a ação humana que “desajusta” a expectativa de quem enviou (Pv 10.26).

O provérbio de Provérbios 25.20 condensa duas imagens de inadequação: (i) a ação de “despir-se” em dia frio e (ii) o contato entre vinagre e uma substância chamada נֶתֶר (neṯer, “neter/natro/salitre”). O hebraico lê כַּחֹמֶץ עַל נֶתֶר (ka-ḥōmeṣ ʿal-neṯer, “como vinagre sobre neter”) e completa com “assim é cantar canções sobre um coração” qualificado por רָע (rāʿ, “mau/penoso/desfavorável”), o que torna o ponto do provérbio menos “poético” e mais lógico: não se trata apenas de “ardência”, mas de uma ação que contradiz a finalidade do que se tenta produzir (consolo), gerando um efeito contraproducente (Pv 25.20). A tradição tradutória moderna evidencia essa ambiguidade de imagem ao oscilar entre duas concretizações: ARA/NAA/NVI vertem “vinagre sobre feridas/ferida” (acentuando o efeito doloroso imediato), enquanto a ARC preserva “vinagre sobre salitre” (aproximando-se mais diretamente de נֶתֶר e conservando a estranheza material do hebraico). A NTLH, por sua vez, reconfigura a imagem para “sal numa ferida”, sinalizando que o alvo é a ideia de agravamento do sofrimento, ainda que por outro veículo imagético. Nesse ponto, a LXX não apenas “traduziu”: ela apresenta um enunciado grego substancialmente diferente, em que ὄξος (oxos, “vinagre”) figura em uma comparação distinta, sem a referência direta a נֶתֶר (neṯer, “neter/natro/salitre”), o que indica uma tradição textual/interpretativa diversa e ajuda a explicar por que versões modernas podem divergir tanto na imagem concreta escolhida.

No Salmo 69, o vinagre emerge em um quadro de afronta que se articula com a linguagem de humilhação e sede. O hebraico descreve a oferta de חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) precisamente no eixo da necessidade física: וְלִצְמָאִי יַשְׁקוּנִי חֹמֶץ (wə-liṣmāʾî yašqûnî ḥōmeṣ, “e para a minha sede deram-me a beber vinagre”), de modo que o termo funciona como marcador textual de hostilidade — não porque o líquido seja, por si, “inimigo”, mas porque sua oferta, na lógica do poema, contrasta com o que a sede legitimamente demandaria (Sl 69.21). É relevante notar que, na paginação da Bíblia Hebraica Stuttgartensia, esse membro aparece como v. 22 (por conta da contagem do cabeçalho/superscrição), embora a versificação corrente em traduções costume referi-lo como v.21; a correspondência semântica, porém, permanece inequívoca. A ponte lexical para o grego é direta: a Septuaginta verte o item por ὄξος (oxos, “vinagre”), preservando a associação com “sede” e fixando o par conceitual que se tornará canonicamente saliente na recepção posterior.

VI. Continuidade lexical MT → LXX: חֹמֶץ → ὄξος

No corpus hebraico, o substantivo חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) funciona como marcador lexical de “acidez” em registros muito distintos: no âmbito cultual-normativo, na cena cotidiana de refeição e no emprego metafórico-sapiencial. A cena de Rute preserva um uso literal e doméstico: “וְטָבַלְתְּ פִּתֵּךְ בַּחֹמֶץ” (wə-ṭāḇalt pitteḵ ba-ḥōmeṣ, “e molharás o teu bocado no vinagre”), onde a referência pressupõe um líquido ácido disponível à mesa como acompanhamento simples, coerente com contextos agrários e de alimentação modesta (Rt 2.14). Em Salmos, o mesmo lexema é mobilizado para construir uma imagem de humilhação e desamparo: “וְלִצְמָאִי יַשְׁקוּנִי חֹמֶץ” (wə-liṣmāʾî yašqûnî ḥōmeṣ, “e, para a minha sede, deram-me de beber vinagre”), em que o ḥōmeṣ deixa de ser simples condimento e passa a operar como signo retórico de hostilidade/aflição, especialmente por sua associação com “sede” (Sl 69.22). No registro sapiencial, a acidez é estilizada como força de agressão simbólica: “חֹמֶץ עַל־נָתֶר” (ḥōmeṣ ʿal-nāṯer, “vinagre sobre natrão/soda”), metáfora de reação corrosiva e perturbadora — um choque de substâncias que dramatiza, por analogia, o dano de um ato impróprio sobre um estado frágil (Pv 25.20).

É precisamente nesse ponto que o eixo tradutório para o grego importa, porque a Septuaginta tende a estabilizar, por equivalência recorrente, uma ponte lexical: ὄξος (oxos, “vinagre; vinho azedo”). Em Números, o tradutor grego emprega ὄξος no contexto das proibições do nazireado, quando enumera derivados vínicos que o consagrado não deve ingerir, estabelecendo ὄξος como o correlato natural do “vinagre/vinho azedo” do campo do vinho (Nm 6.3). Em Provérbios, o mesmo termo ὄξος reaparece, mas com um dado metodologicamente relevante: o grego preserva o item “vinagre” (ὄξος), porém reorganiza e expande a imagem, deslocando a comparação para um quadro mais explicitamente “médico”/lesional (“ὥσπερ ὄξος ἕλκος ἀκάθαρτον…”), o que mostra que a continuidade lexical não implica identidade formal ou sintática entre MT e LXX; trata-se, antes, de uma continuidade por ancoragem vocabular, ainda que a moldura imagética seja remodelada (Pv 25.20).

Duas consequências decorrem disso. Primeiro, a LXX cria um “fio” grego relativamente consistente para um referente hebraico que, no MT, já carrega densidade concreta e retórica (alimento/condimento; bebida de acidez; imagem de agressão). Segundo, quando tradições posteriores leem ou reativam cenas de “sede” e “vinagre” em grego, o termo ὄξος funciona como gatilho lexical que faz o leitor reconhecer, por ressonância vocabular, o mesmo campo semântico que já está sedimentado na versão grega dos escritos hebraicos. Essa é uma explicação filológica (e não uma alegação de dependência automática), mas ela delimita o mecanismo pelo qual uma continuidade lexical pode facilitar conexões intertextuais mesmo quando as narrativas são independentes em nível composicional.

A comparação MT ↔ LXX exige atenção redobrada à numeração, porque duas camadas de divergência podem coexistir: (i) diferenças de contagem entre tradições (especialmente em Salmos) e (ii) diferenças de versificação quando se conta o título do salmo como versículo. Na forma hebraica exibida aqui, a linha do “vinagre” aparece numerada como 69:22 (“וְלִצְמָאִי… חֹמֶץ”), o que é compatível com a prática de contar o cabeçalho do salmo como o primeiro versículo; muitas edições de uso corrente em português e inglês, ao não contarem esse título na versificação principal, citam a mesma linha como 69:21. O resultado prático é que a referência “Sl 69.21” pode apontar, na tradição hebraica, para a linha que a própria página do texto hebraico apresenta como 69:22, sem que haja contradição material — trata-se de convenção editorial.

Quando se passa ao grego, soma-se ainda a diferença de numeração dos salmos (por tradição textual), de modo que a correspondência esperada para esse locus é o Salmo 68 no grego, com a linha equivalente situada no versículo 22. A implicação metodológica é direta: qualquer conexão intertextual que dependa do texto grego dos Salmos precisa registrar explicitamente ambos os endereços (Sl 69.21/22 ↔ Sl 68.22), sob pena de o leitor procurar o versículo “certo” no lugar “errado”, ou de parecer que há desacordo entre fontes quando há apenas mudança de convenção de numeração.

VII. ὄξος na paixão: funções narrativas e teológicas nos Evangelhos

A forma grega ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) pertence a um campo semântico que, no grego antigo, pode cobrir tanto “vinagre” em sentido estrito quanto “vinho ácido” (isto é, vinho deteriorado/azedo). Essa amplitude lexical explica por que traduções modernas frequentemente preferem “vinho azedo” (ESV/NASB) onde traduções mais antigas mantêm “vinagre” (KJV), e por que versões portuguesas oscilam entre “vinagre” (ARA/ACF) e “vinho azedo” (NVI). A tensão interpretativa, portanto, não está em “dois líquidos diferentes” no nível do vocábulo, mas no modo de qualificar, em português/inglês, um mesmo referente possível no cenário da execução.

A. Ato dos soldados e ambiguidade pragmática

No relato lucano, a oferta aparece explicitamente acoplada ao escárnio: “os soldados… zombavam… oferecendo ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”)” (Lc 23.36). A construção associa o gesto a uma pragmática de humilhação pública (o verbo ἐνέπαιζον, enepaizon, “zombavam/caçoavam”), mas o próprio conteúdo do objeto oferecido (ὄξος) permite, ao mesmo tempo, plausibilidade material: trata-se de uma bebida simples e disponível em contexto militar, o que torna possível que o ato combine escárnio e ação factível de campo, sem exigir a hipótese de uma “bebida especial” trazida para fins ritualizados. Aqui, a divergência de versões ilumina o problema: “vinagre” em ARA/ACF (Lc 23.36) preserva o termo tradicional, ao passo que “vinho azedo” em NVI desloca o leitor para um horizonte de “sour wine” (ESV/NASB), enfatizando o caráter de vinho barato/acidificado, mais do que de condimento culinário. Nesse ponto, a diferença tradutória é hermeneuticamente relevante porque altera a percepção do gesto: “vinagre” sugere um líquido agressivo por si; “vinho azedo” sugere bebida ordinária e áspera, mas ainda reconhecível como “vinho” em estado de acidez.

B. Esponja, caniço e cronologia

Em Mateus e Marcos, o ato é narrado com pormenor instrumental e, sobretudo, com um comentário que orienta a leitura do gesto. Mateus registra: um dos presentes corre, toma uma esponja, enche-a de ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”), coloca-a num caniço e “dava-lhe de beber” (Mt 27.48). Marcos é ainda mais explícito quanto ao encadeamento: “correndo… e enchendo uma esponja de ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”), colocando-a num caniço… dizia: ‘Deixai, vejamos se Elias vem…’” (Mc 15.36). A frase sobre Elias não é um detalhe ornamental; ela indica que o gesto (a oferta do ὄξος) participa do teatro interpretativo que se forma em torno do crucificado, em que a audiência (ou parte dela) reconfigura o evento como ocasião de teste/sinal. Assim, mesmo quando o gesto possa ser materialmente plausível, sua função narrativa imediata não é “alívio neutro”, mas engrenagem de suspense e ridicularização, porque se ancora numa expectativa irônica (“vejamos se…”).

A distinção crucial, aqui, é não confundir essa oferta de ὄξος com a bebida do início da execução. Mateus descreve, antes, “vinho” — οἶνον (oinon, “vinho”) — “misturado com fel” (Mt 27.34), que Jesus prova e recusa. Marcos, de modo paralelo, fala de “vinho… com mirra” (οἶνον… ἐσμυρνισμένον, oinon… esmyrnismenon, “vinho aromatizado com mirra”), igualmente recusado (Mc 15.23). Essa diferença lexical (οἶνος versus ὄξος) é decisiva para a cronologia e para o sentido: o primeiro quadro envolve “vinho” com aditivo (fel/mirra) e recusa; o segundo quadro envolve “ὄξος” administrado por esponja/caniço e integrado ao clímax narrativo.

A comparação entre versões evidencia um ponto em que a tradução pode criar ruído: a KJV verte Mt 27.34 como “vinegar… mingled with gall”, enquanto o texto grego ali não traz ὄξος, mas οἶνον (“wine” em ESV/NIV; “vinho” em ARA/NVI). Já em Mt 27.48, o grego traz ὄξους (oxous, “vinagre/vinho azedo”), e a distinção entre KJV “vinegar” e ESV “sour wine” passa a ser, aqui, uma questão de escolha de equivalência dentro do mesmo lexema, não uma discrepância de base textual.

C. João e a densidade lexical

João concentra a cena em torno de uma cadeia curta, porém carregada: Jesus afirma saber que “tudo já está consumado” e, “para que se cumprisse a Escritura”, diz “Tenho sede” (διψῶ, dipsō, “tenho sede”) (Jo 19.28). Em seguida, o narrador fixa o cenário material: “havia ali um vaso cheio de ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”)”; põe-se uma esponja cheia de ὄξος num hissopo (ὑσσώπῳ, hyssōpō, “hissopo”) e ela é levada à boca de Jesus (Jo 19.29). Por fim, o evangelista retoma o termo uma segunda vez: “quando Jesus tomou o ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”), disse: ‘Está consumado’ (τετέλεσται, tetelestai, “está consumado”), e… entregou o espírito” (Jo 19.30). A dupla ocorrência (Jo 19.29 e Jo 19.30) dá ao ὄξος uma função de marcador narrativo: ele não é apenas “um detalhe”, mas um pivô entre sede declarada, cumprimento de Escritura e a palavra final “está consumado”.

Nesse ponto, a intertextualidade ganha base textual explícita, porque João conecta sede e Escritura no próprio enunciado (Jo 19.28). A correspondência mais direta, no Septuaginta, é o Salmo 68.22 LXX (numeração grega), onde se lê “na minha sede me deram a beber ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”)”. Assim, em João, o ὄξος não opera somente como objeto disponível; ele é textualizado como peça do encaixe “sede → Escritura → consumação”, e por isso a escolha tradutória “vinagre” (ARA/ACF) versus “vinho azedo” (ESV/NVI) afeta diretamente a percepção dessa costura: “vinagre” acentua o contraste com o sofrimento; “vinho azedo/sour wine” acentua o registro de bebida ordinária e compatível com o ambiente.

VIII. Vinagre, “vinho com fel” e “vinho com mirra” na tradição dos relatos da crucificação

O ponto de partida é que, na forma crítica hoje mais difundida do texto grego de Mateus 27:34, o que se oferece a Jesus é “vinho” e não “vinagre”: aparece οἶνον (oinon, “vinho”) “com fel”, χολῆς (cholēs, “fel”), em formulação contínua (“ἔδωκαν αὐτῷ πιεῖν οἶνον μετὰ χολῆς μεμιγμένον…”). Essa leitura (“vinho”) contrasta com uma tradição textual e editorial que traz ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) no mesmo lugar (“ἔδωκαν αὐτῷ πιεῖν ὄξος μετὰ χολῆς μεμιγμένον…”), como se observa no texto de e também na colação explícita de variantes (οἶνον … ] ὄξος …). Em termos de história da tradução, esse desnível se torna imediatamente visível porque a KJV verte: “They gave him vinegar to drink mingled with gall…” (Mt 27.34). Já traduções modernas baseadas no texto crítico tendem a acompanhar “wine” (por exemplo, “wine mixed with gall”) e deixam “vinegar” para os versículos posteriores em que o grego efetivamente tem ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”).

Esse dado não é periférico: ele altera a leitura semântica do episódio, porque “vinho com fel” descreve uma bebida cujo elemento-base é οἶνος (oinos, “vinho”), ao passo que “vinagre com fel” desloca o foco para ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”). A própria palavra ὄξος (oxos, “vinagre”) é, em grego, o termo padrão para “vinagre” (isto é, um líquido ácido), e é precisamente essa a acepção léxica registrada em repertórios clássicos (ainda que a aplicação concreta possa abarcar “vinho avinagrado” em contextos alimentares). Na prática tradutória em português, vê-se o mesmo efeito: há versões que trazem “vinho” em Mateus 27:34 (por exemplo, “vinho misturado com fel” em NVI/ARA/NTLH) e, ao mesmo tempo, versões que preservam “vinagre” no mesmo versículo: “Deram-lhe a beber vinagre misturado com fel; mas ele, provando-o, não quis beber” (Mt 27.34, ACF). A consequência metodológica é simples: quando Mateus 27:34 aparece como “vinagre” numa tradução, não se trata apenas de opção estilística; com frequência, isso revela dependência de uma base grega que lê ὄξος (oxos, “vinagre”) naquele ponto, e não οἶνον (oinon, “vinho”).

Marcos 15:23 funciona como contraprova interna de que nem toda oferta de bebida no ciclo da crucificação deve ser automaticamente colapsada sob o rótulo “vinagre”. O texto grego de Marcos afirma que ofereceram a Jesus “vinho mirrado”: οἶνον (oinon, “vinho”) qualificado por ἐσμυρνισμένον (esmyrnismenon, “misturado/temperado com mirra”), em sequência contínua (“καὶ ἐδίδουν αὐτῷ ἐσμυρνισμένον οἶνον· ὃς δὲ οὐκ ἔλαβεν”). O valor do particípio ἐσμυρνισμένον (esmyrnismenon, “mirrado”) é lexicalmente transparente: a forma deriva do verbo associado à ideia de “misturar com mirra”, isto é, conferir ao vinho o caráter aromático/ressinoso da mirra (σμύρνα, smyrna, “mirra”), sentido igualmente atestado em léxicos de referência. Assim, a própria redação de Marcos impede que se identifique essa bebida com o ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) que aparece mais adiante nos relatos, pois aqui o substantivo-base permanece οἶνος (oinos, “vinho”), não ὄξος (oxos, “vinagre”).

A distinção fica ainda mais robusta quando se observa que o mesmo Marcos usa ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) num segundo momento, no cenário da esponja: “γεμίσας σπόγγον ὄξους…” (Mc 15.36). Mateus mantém o mesmo contraste narrativo: depois do episódio inicial (em que a tradição textual oscila entre οἶνον/ὄξος em Mt 27.34), ele registra, em Mt 27.48, a oferta de ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) na esponja (“πλήσας τε ὄξους…”). Lucas também descreve os soldados oferecendo ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) (Lc 23.36), e João é especialmente explícito ao situar a esponja com ὄξος (oxos, “vinagre”) no clímax (“σπόγγον… μεστὸν τοῦ ὄξους…”, Jo 19.29–30). Esse conjunto de testemunhos torna metodologicamente recomendável separar, no nível lexical, (i) as bebidas descritas como οἶνος (oinos, “vinho”) qualificado por “fel” (Mateus) ou por “mirra” (Marcos), e (ii) a bebida descrita como ὄξος (oxos, “vinagre/vinho azedo”) associada ao gesto da esponja (Mateus/Marcos/Lucas/João).

Nesse ponto, a interface com o AT pode ser invocada de modo controlado, porque o léxico é realmente comum: no Salmo 69, o hebraico usa חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) (Sl 69.21) e a Septuaginta verte por ὄξος (oxos, “vinagre”), estabelecendo uma correspondência direta entre חֹמֶץ (ḥōmeṣ, “vinagre”) e ὄξος (oxos, “vinagre”). Como João 19:29–30 efetivamente emprega ὄξος (oxos, “vinagre”) no episódio final da esponja, a conexão lexical com o Salmo 69:21 não depende de harmonizações: ela é sustentada pelo próprio vocabulário coincidente (Jo 19.29–30; Sl 69.21).

IX. “Sede” como gatilho semântico que costura poesia e narrativa

A articulação entre Salmos 69 e João 19 não se faz por uma mera coincidência de cenário, mas por um vínculo semântico explícito: a “sede” funciona como marcador de sofrimento extremo e, ao mesmo tempo, como ponto de ancoragem intertextual que permite à narrativa da crucificação ser lida à luz da lamentação. No hebraico de Salmos 69, a cláusula associa a hostilidade recebida pelo sofredor ao oferecimento de uma bebida inadequada no momento da sede, “וְלִצְמָאִי יַשְׁקוּנִי חֹמֶץ” (wəliṣmāʾî yašqûnî ḥōmeṣ, “e, para minha sede, deram-me a beber vinagre”).

Em João 19:28–30, o narrador explicita o sentido escritural do ato ao indicar o cumprimento da Escritura e, imediatamente, põe na boca de Jesus a declaração de sede, seguida da presença do recipiente com vinagre/vinho azedo. O ponto lexical que importa para a costura é o verbo “διψῶ” (dipsō, “tenho sede”), que desencadeia a sequência narrativa em que aparece “ὄξους” (oxous, “vinagre/vinho azedo”) e o gesto de aproximar a esponja com “ὑσσώπῳ” (hyssōpō, “hissopo”).

Nesse eixo, a “sede” não é apenas dado fisiológico: ela opera como sinal textual que faz o leitor reconhecer, na cena final, a reencenação do padrão da lamentação — o justo humilhado cuja necessidade elementar é respondida com algo ácido, inadequado, ambíguo entre alívio mínimo e intensificação do desconforto. A equivalência do gatilho (“tenho sede”) permanece estável na tradição de tradução; a oscilação relevante recai, sobretudo, sobre o valor de ὄξος, que ora é vertido como “vinagre”, ora como “vinho azedo/sour wine”, diferença que afeta a leitura cultural do gesto (se bebida comum de soldados/classe baixa, ou “vinagre” no sentido moderno), e por isso merece ser mantida em vista ao longo da análise do termo principal.

X. “Fel” como par do “vinagre” no imaginário de sofrimento e rejeição

Salmos 69:21 apresenta um paralelismo em duas linhas: alimento marcado por amargor/veneno e bebida ácida no contexto da sede. No TM (na versificação da BHS, o conteúdo tradicionalmente citado como Sl 69.21 aparece como v. 22 por causa do cabeçalho do salmo), o termo que muitas traduções portuguesas vertem por “fel” é “רֹאשׁ” (rōš, “veneno/amargor”), em paralelo com “חֹמֶץ” (ḥōmeṣ, “vinagre”).

A relevância exegética aqui está no fato de que a LXX explicita a interpretação do par por meio de escolhas lexicais que se tornaram decisivas para a recepção cristã do texto: a LXX verte o primeiro membro com “χολή” (cholē, “fel/bile”) e mantém o segundo como “ὄξος” (oxos, “vinagre/vinho azedo”). Essa dupla (χολή/ὄξος) cria um vocabulário de “amargor” e “acidez” que migra com facilidade para a linguagem narrativa da paixão.

Nesse pano de fundo, Mateus 27:34 ganha densidade: o evangelho descreve uma oferta de bebida “οἶνον μετὰ χολῆς” (oinon meta cholēs, “vinho com fel”), acompanhada da recusa após provar. O ponto crítico, para não colapsar cenas, é distinguir este “vinho com fel” (oferta inicial, recusada) do “vinagre/vinho azedo” associado à sede no desfecho joanino. O par “fel + vinagre” em Salmos 69:21 funciona como matriz imagética de rejeição e hostilidade; Mateus reemprega especificamente o polo do “fel” (χολή) na bebida amarga do início, enquanto João, ao enfatizar a sede e o ὄξος, focaliza o polo do vinagre no momento final.

XI. “Mirra” como marcador de “primeira bebida” e contraste narrativo

Marcos 15:23 descreve uma oferta anterior à sequência do “vinagre/vinho azedo” do momento final em outros relatos, qualificando o vinho como preparado com mirra: “ἐδίδουν αὐτῷ ἐσμυρνισμένον οἶνον” (edidoun autō esmyrnismenon oinon, “davam-lhe vinho misturado com mirra”), seguida da nota de recusa (“e ele não o tomou”). A forma verbal “ἐσμυρνισμένον” (esmyrnismenon, “misturado com mirra”) é o marcador decisivo: não se trata apenas de “vinho”, mas de vinho alterado por adição aromática/resinosa associada à mirra (σμύρνα, smyrna, “mirra”).

O dado textual seguro, e metodologicamente suficiente nesta etapa, é a função narrativa de contraste: a recusa da primeira bebida impede que se interprete automaticamente qualquer oferta posterior de líquido como “a mesma coisa” sob outro nome. Em termos de economia narrativa, Marcos separa a oferta qualificada por mirra (recusada) de outras menções de bebida na paixão; e, por consequência, protege a leitura intertextual de Salmos 69:21 em João 19:28–30 de uma fusão indevida com a bebida amarga do início. Quando se afirma, em nível interpretativo, que tal mistura poderia visar mitigação da dor, isso deve ser tratado como inferência contextual comum na literatura secundária, não como conteúdo demonstrável unicamente pela forma ἐσμυρνισμένον; por isso, nesta seção, basta manter o contraste textual e a recusa como eixo interpretativo controlado.

XII. Vinagre no Antigo Oriente Próximo

A documentação do Antigo Oriente Próximo preserva o vinagre menos como um conceito “abstrato” e mais como um produto situado na economia doméstica de bebidas fermentadas e nos repertórios técnicos (sobretudo terapêuticos). Do ponto de vista lexical, um dado estrutural importante é que, em listas bilíngues/lexicais da tradição cuneiforme, o vinagre aparece como item nomeável e distinguível; em um preprint da Cuneiform Digital Library Initiative, por exemplo, registra-se o sumério ĝeštin-bil-lá (“vinagre”), cuja própria composição remete ao universo do “vinho” (ĝeštin), sugerindo que o vinagre é concebido, em termos culturais, como um derivado do vinho (isto é, vinho azedado/acidificado), e não como um produto independente “de fábrica”.

No âmbito técnico, a Mesopotâmia oferece um conjunto particularmente claro de usos em receitas médico-terapêuticas. Em síntese, o vinagre surge como meio de preparo e administração (um “veículo” para misturas), alternando com cerveja, óleo e outros fluidos, o que aponta para práticas padronizadas de diluição, maceração e aplicação. Um exemplo explícito, em discussão de Markham J. Geller, refere uma prescrição em que a substância ativa deve ser “misturada em cerveja ou vinagre”, em paralelo com outras fórmulas que distinguem vinagre comum e “vinagre forte”, além de mencionar “vinho de tâmaras”, o que situa o vinagre dentro de uma ecologia fermentativa mais ampla (uva e também tâmaras), coerente com matérias-primas efetivamente atestadas para bebidas na região.

Essa função de “fluido de trabalho” não é uma inferência isolada: um estudo clássico de A. Leo Oppenheim sobre medicina mesopotâmica lista o vinagre entre os meios recorrentes de preparação e aplicação, ao lado de cerveja, leite, óleos e similares, o que reforça que o vinagre operava como componente regular do repertório farmacotécnico, e não como ocorrência excepcional (OPPENHEIM, Mesopotamian Medicine, vol. 36, no. 2, 1962, pp. 97–108). Em convergência, trabalhos filológicos voltados a textos específicos também registram o vinagre como ingrediente efetivo em procedimentos terapêuticos (inclusive em contextos que envolvem manipulação de “líquidos” de aplicação), confirmando que a presença do vinagre não é apenas lexicográfica, mas textual e operacional (WASSERMAN, An Old-Babylonian Medical Text Agaisnt the KURĀRUM disease, vol. 90, no. 1, 1996, pp. 1–5).

Para o Egito, a evidência direta é igualmente concreta, sobretudo em literatura médico-prescritiva. Na tradução clássica do Papiro Ebers preservada pela National Library of Medicine, aparece uma instrução em que se manda “esfregar” sementes de uma planta “com vinagre”, o que confirma o emprego do vinagre como agente de processamento (provavelmente maceração/extração/veiculação) dentro de uma lógica farmacêutica prática. É relevante notar que, metodologicamente, esse tipo de prescrição é o nível mais informativo para “uso”, porque não apenas nomeia a substância, mas a insere num procedimento.

Além das prescrições internas às tradições egípcias, há também discussões historiográficas que conectam práticas e relatos técnico-médicos do Mediterrâneo antigo ao Egito. Um exemplo, discutido em artigo acadêmico indexado na plataforma ScienceDirect, relata que autores como Dioscórides e Plínio descrevem a aplicação de uma “pedra redonda de Mênfis” com vinagre como forma de anestesia local, com proposta explicativa baseada em reação química (formação de ácido carbônico). Independentemente da avaliação moderna dessa explicação, o ponto decisivo para o inventário histórico é que o vinagre figura, novamente, como reagente/veículo em técnica terapêutica aplicada ao corpo (PAHOR, Pharaonic ORL, v. 1240, pp. 1349-1359). A partir desse conjunto, uma inferência controlada (e, portanto, explicitamente marcada como inferência) é que o vinagre, por sua acidez, oferecia vantagens pragmáticas percebidas empiricamente: facilitar a extração de componentes de certas matérias (plantas, resinas), alterar viscosidade/aderência em aplicações tópicas e compor matrizes líquidas relativamente estáveis para administração. Essa inferência, porém, não substitui a evidência: o que a documentação permite afirmar com segurança é que o vinagre é um item lexicalmente estabilizado e tecnicamente empregado, com maior densidade de atestação em contextos terapêuticos do que em descrições culinárias diretas, ao menos no recorte de fontes aqui mobilizado.

Bibliografia

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Cite este artigo:

GALVÃO, Eduardo. Vinagre. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 3 jun. 2016. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

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