Baluarte — Enciclopédia Bíblica Online

Na Escritura, “baluarte” pertence antes de tudo ao vocabulário concreto da defesa urbana: linha avançada, antemuro, rampa de assédio e proteção perimetral da cidade. A linguagem de cerco aparece de modo técnico na narrativa militar (2Sm 20.15), reaparece em formulações de espaço urbano defensivo (1Rs 21.23) e é teologicamente elevada quando a salvação é descrita com “muros” e “baluarte” (Is 26.1). O mesmo campo lexical explica tanto a estabilidade de Sião, com baluartes inspecionáveis (Sl 48.13), quanto a paz interna da cidade protegida (Sl 122.7), e também o colapso total da defesa no juízo de Jerusalém, quando “muro e baluarte” ruem juntos (Lm 2.8). Em contexto sapiencial, as “obras de cerco” confirmam que o termo não é abstrato, mas ligado à engenharia de assédio (Ec 9.14).

A recepção grega conserva essa materialidade com vocabulário de muralha/perímetro e estacada de cerco, e ao mesmo tempo projeta o campo para releitura teológica. A expressão da “cabeça de ângulo” torna-se ponte hermenêutica entre arquitetura e legitimação messiânica (Sl 118.22), enquanto o Novo Testamento desloca o eixo para a eclesiologia: a igreja é “coluna e baluarte da verdade”, isto é, suporte firme e público da verdade no mundo (1Tm 3.15). Assim, o significado bíblico de “baluarte” percorre um arco contínuo: defesa material da cidade, estabilidade político-comunitária e, por fim, sustentação doutrinária.

I. Baluarte no Antigo Testamento

No recorte semântico adotado para “baluarte”, a distribuição dos vocábulos pode ser organizada em quatro núcleos: antemural/muralha externa com חֵיל (ḥēl, “antemural; por contexto também força militar”) e חֵילָה (ḥēlāh, “fortim/linha externa”); posição fortificada com מָצוֹד (māṣôd, “fortaleza/posição defensiva”); cerco fortificado com מָצוֹר (māṣôr, “cerco, bloqueio militar”); e arquitetura de canto defensivo com פִּנָּה (pinnāh, “ângulo, esquina, torre de canto”). No levantamento proposto, esses campos aparecem com 9 + 1 + 1 + 26 + 28 ocorrências, respectivamente, totalizando 65 ocorrências temáticas.

A materialidade do baluarte aparece de forma muito concreta quando o texto descreve a engenharia de assédio: “levantaram uma rampa de cerco” e ela “se firmou no antemural”, com o par סֹלְלָה (sōlĕlāh, “rampa de cerco”) + חֵל (ḥēl, “antemural/linha externa”) em Segundo Samuel 20.15; isso é linguagem técnica de guerra de sítio, não metáfora devocional (2Sm 20.15). No oráculo contra Jezabel, “no antemural de Jezreel” usa novamente חֵיל (ḥēl, “zona muralhada externa”), preservando o valor topográfico-jurídico de espaço liminar da cidade (1Rs 21.23). Já em 2 Reis 18.17, a mesma forma lexical ocorre em “com grande חֵיל” (ḥēl, “força/exército”), mostrando ambiguidade semêmica real: o termo pode designar obra defensiva ou contingente militar conforme coocorrências do contexto imediato (2Rs 18.17).

No plano poético-profético, o vocabulário urbano é reutilizado com função teológica sem perder o lastro arquitetônico. Em Isaías 26.1, “salvação porá muros e baluarte” contém חוֹמוֹת וָחֵל (ḥōmôt wāḥēl, “muros e antemural”), isto é, a salvação é formulada como sistema defensivo completo, não apenas como imagem vaga de proteção (Is 26.1). Em Lamentações 2.8, a destruição de Sião é descrita com linguagem de projeto e colapso estrutural: “estendeu o cordel… lamentaram-se muro e antemural juntos”, com חוֹמָה וְחֵל (ḥōmāh wəḥēl, “muro e antemural”) (Lm 2.8). Em Naum 3.8, Nô-Amon é apresentada com defesa hídrica: o mar funciona como “baluarte natural”, articulando geografia e fortificação urbana (Na 3.8).

O substantivo מָצוֹר (māṣôr, “cerco fortificado”) concentra, de fato, forte carga semântica de bloqueio militar no corpus. Deuteronômio 20.19–20 regula tecnicamente o cerco e explicita “construirás cerco contra a cidade” (וּבָנִיתָ מָצוֹר), vinculando estratégia, logística e tempo de campanha (Dt 20.19–20). Em Deuteronômio 28.53, 28.55 e 28.57, a sequência “no cerco e no aperto” (בַּמָּצֹור וּבְמָצוֹק, bammāṣôr ûvəmāṣôq, “em cerco e em angústia”) repete-se como fórmula de pressão extrema, sinalizando que מָצוֹר não é detalhe militar periférico, mas eixo pactual de julgamento histórico (Dt 28.53, 28.55, 28.57). A mesma linha prossegue na narrativa do colapso de Jerusalém, onde o estado de cerco estrutura a cronologia da queda (Jr 52.5), e na ação simbólica de Ezequiel 4.2–8, que dramatiza Jerusalém sitiada, culminando em מְצוֹר (məṣôr, “cerco”) e מְצוּרֶךָ (məṣûrekā, “teu cerco”) nos versículos 7–8 (Ez 4.2–8).

Esse conjunto mostra que “baluarte”, na Bíblia Hebraica, não é um termo isolado, mas uma rede técnico-semântica de defesa urbana que envolve antemural, rampa, bloqueio prolongado e vulnerabilidade de cidade cercada; por isso, a leitura exegética mais rigorosa precisa distinguir, em cada contexto, quando חֵיל (ḥēl, “antemural”) descreve estrutura de fortificação e quando descreve “força militar”, evitando homogeneizar usos que o próprio texto mantém diferenciados.

II. Delimitação lexical de חֵיל e חֵילָה e sua projeção teológica

No campo semântico de “baluarte” no Antigo Testamento, o núcleo técnico é formado por חֵיל (ḥēl, “rampa defensiva/ante-muro/baluarte”) e por sua forma correlata חֵילָה (ḥēlāh, “baluarte/entrincheiramento”). A tradição lexicográfica distingue esse uso arquitetônico de outros valores próximos (força, exército, recursos), o que é decisivo para não confundir defesa urbana com poder militar em sentido amplo.

A relação formal entre os dois termos é estreita: חֵילָה aparece como forma ligada ao mesmo campo de חֵיל e é registrada como ocorrência única em Salmos 48.13 (hebraico 48.14, por causa da superscrição), enquanto חֵיל é o termo-base distribuído em vários contextos de fortificação. Esse dado explica por que alguns levantamentos contam “um termo raro” ao lado de “um termo-base” sem que haja contradição metodológica.

No Salmo 122.7, a oração por Jerusalém pede paz “dentro de teus baluartes”, com a forma בְּחֵילֵךְ (de חֵיל), e o paralelismo com “palácios” mostra que não se trata de virtude abstrata, mas de segurança urbana concretamente instalada na cidade. Em Isaías 26.1, a linha “salvação por muros e baluarte” (חוֹמוֹת וָחֵל) repete essa dupla de defesa: muro principal e cinturão defensivo complementar.

Em Lamentações 2.8, o valor é novamente arquitetônico e aparece em paralelismo com “muro”, agora em cenário de juízo e colapso da cidade; a lexicografia já assinala a forma חֵל nesse verso e a sua associação direta com o sistema mural. Em Naum 3.8, a descrição de Nô-Amom combina defesa construída e defesa natural, pois o “mar”/as águas funcionam como elemento de baluarte em torno da cidade, explicitando uma noção de fortificação híbrida (engenharia + geografia).

Obadias 1.20 concentra a principal ambiguidade do grupo: גָּלֻת הַחֵל־הַזֶּה pode ser lido com valor de “fortaleza/baluarte” (topográfico-político) ou, em outra tradição de leitura, aproximado de “hoste/exército”. Essa oscilação é uma das razões pelas quais a contagem de ocorrências “de baluarte” varia entre listas: muda conforme a base lexical adotada e conforme decisões textuais em passagens disputadas. O próprio aparato lexicográfico também marca pontos críticos em textos próximos, como 1 Reis 21.23, o que reforça a necessidade de contagem por recorte semântico, não apenas por forma gráfica.

A Septuaginta oferece um ganho exegético real nesse núcleo porque explicita a arquitetura militar com vocabulário técnico grego. Em Isaías 26.1, aparecem τεῖχος (teichos, “muro”) e περίτειχος (periteichos, “muralha envolvente”); em Lamentações 2, o par προτείχισμα (proteichisma, “ante-muro”) + τεῖχος reforça a distinção entre linha externa e muro principal. Em Obadias 1.20, há deslocamento interpretativo para a temática do exílio/cativeiro, o que sugere (inferência filológica) uma leitura menos arquitetônica e mais etnopolítica naquele ponto específico.

No recorte estrito dos textos-chave solicitados, o campo semântico distribui-se assim: cinco ocorrências com sentido arquitetônico-defensivo direto (Sl 122.7; Is 26.1; Lm 2.8; Na 3.8; Sl 48.13/heb. 48.14), uma ocorrência com ambiguidade lexical relevante (Ob 1.20) e uma ocorrência da forma derivada feminina explícita (חֵילָה em Sl 48.13/heb. 48.14). Quando se amplia o corpus para além desse recorte, as contagens sobem e podem divergir conforme inclusão de passagens fronteiriças e escolha entre leituras concorrentes.

A ponte com o NT não repete a imagem arquitetônica de cidade sitiada, mas preserva a ideia de estabilidade protetiva: em 1 Timóteo 3.15, ἑδραίωμα (hedraíōma, “sustentáculo/base firme”) associado a “coluna” desloca o léxico de defesa urbana para a função eclesial de sustentação pública da verdade. Nesse ponto, “baluarte” é metáfora institucional de firmeza, não termo de engenharia militar.

Como comparação de tradução realmente útil nesse núcleo, Salmos 48.13 em inglês clássico verte “bulwarks”, preservando precisamente o valor de entrincheiramento que a forma hebraica rara exige; por isso essa passagem costuma funcionar como texto-chave para definir “baluarte” em sentido técnico antes de qualquer extensão simbólica.

III. Integração lexical, exegética e comparativa

A semântica bíblica de “baluarte” é melhor descrita como um campo lexical de defesa urbana, não como equivalência de um único termo. No hebraico, o núcleo principal está em חֵיל (ḥēl, “baluarte/anteparo defensivo”) e na forma correlata חֵילָה (ḥēlāh, “baluarte/entrincheiramento”), com ocorrências decisivas em Salmos, Isaías e Lamentações; em paralelo, o NT desloca a imagem para a estabilidade institucional da comunidade de fé com ἑδραίωμα (hedraíōma, “sustentáculo/base firme”). Esse percurso mantém a ideia estrutural de firmeza, mas muda o domínio: de arquitetura militar para função eclesial.

A leitura de Salmos 122.7 mostra claramente a função urbana do termo: a oração por paz e prosperidade está vinculada ao espaço protegido da cidade, e não a uma abstração espiritual sem referente concreto. Em Isaías 26.1, o paralelismo entre “muros” e “baluarte” (חוֹמוֹת וָחֵל, ḥōmôt wāḥēl, “muros e baluarte”) conserva a ideia de defesa em camadas, na qual a salvação é expressa por linguagem de fortificação. Lamentações 2.8 confirma o mesmo padrão lexical em chave de juízo: o colapso atinge simultaneamente “muro” e “baluarte”, o que pressupõe duas linhas defensivas correlatas, não mera repetição poética. Naum 3.8 amplia esse horizonte ao integrar defesa construída e defesa geográfica, quando a topografia hídrica é tratada como proteção estratégica. Obadias 1.20 permanece como ponto de maior ambiguidade, porque a forma הַחֵל pode ser lida no eixo topográfico-político (“fortificação/território fortificado”) ou aproximada de valor coletivo, exigindo decisão contextual e cautela metodológica (Ob 1.20).

A Septuaginta contribui com ganho exegético real justamente nesses pontos. Em Isaías 26.1, a dupla τεῖχος (teichos, “muro”) e περίτειχος (periteichos, “muralha envolvente”) explicita defesa concêntrica; em Lamentações 2.8, προτείχισμα (proteichisma, “ante-muro”) e τεῖχος preservam a distinção entre obra avançada e muro principal; em Obadias 1.20, o grego tende a recentrar o verso na temática do exílio, indicando uma recepção interpretativa menos arquitetônica naquele contexto específico. Assim, a LXX não apenas traduz: ela também documenta como o campo semântico foi lido no judaísmo helenista.

A comparação de versões é particularmente relevante em passagens onde a escolha lexical altera a imagem militar. Em Salmos 48.13, KJV/ASV usam “bulwarks”, ESV/NASB usam “ramparts”; em português, ARA mantém “baluartes”, ACF preserva “antemuros”, enquanto NVT prefere formulação dinâmica (“muros fortificados/cidadelas”), com leve expansão interpretativa (Sl 48.13). Em Salmos 122.7, NVI/ACF/NVT convergem na ideia de segurança intraurbana, com variação de superfície (“muros”, “cidadelas”, “prosperidade”), sem perda do eixo defensivo (Sl 122.7). Em Isaías 26.1, KJV/ESV (“walls and bulwarks”) e NASB (“walls and ramparts”) mantêm a estrutura em duas camadas, em linha com o hebraico e com a leitura da LXX (Is 26.1). Em Lamentações 2.8, traduções como NIV (“ramparts and walls”) ajudam a preservar a distinção técnica entre linhas defensivas, enquanto versões que nivelam para “muros/fortificações” reduzem a precisão arquitetônica do original (Lm 2.8).

No NT, 1 Timóteo 3.15 retoma o princípio de estabilidade sem reproduzir o cenário de cerco urbano: ἑδραίωμα (hedraíōma, “sustentáculo/base firme”) em associação com “coluna” descreve a função pública da igreja em relação à verdade. A variação tradutória (“baluarte”, “fundamento”, “ground”, “support”, “buttress”) não elimina o ponto central: trata-se de linguagem estrutural de sustentação, agora em chave eclesiológica. Com isso, a continuidade semântica entre AT e NT permanece inteligível: o que era defesa material da cidade torna-se, no registro apostólico, estabilidade doutrinária e testemunhal da comunidade.

IV. Família מְצוּדָה/מְצוֹדִים: fortaleza, reduto e engenharia de cerco

No núcleo de Eclesiastes 9, a mesma família lexical de raiz מצ״ד já aparece com dois valores semânticos distintos no próprio contexto imediato: em Eclesiastes 9.12 ocorre מְצוֹדָה (mᵉṣôdâ, “rede/armadilha”), enquanto em Eclesiastes 9.14 aparece מְצוֹדִים (mᵉṣôdîm, “obras de cerco/entrincheiramentos”), no cenário da cidade pequena sitiada por um grande rei (Ec 9.12, 9.14). Esse contraste interno é decisivo para não nivelar automaticamente “fortaleza” e “aparelho de assédio” como se fossem equivalentes em todo lugar.

A Septuaginta reforça a leitura técnico-militar de Eclesiastes 9.14 ao traduzir com χάρακας (charakas, “estacadas/paliçadas”), na expressão “χάρακας μεγάλους”, deslocando o foco para engenharia de cerco construída contra a cidade, e não para um reduto defensivo interno. Esse ponto produz ganho hermenêutico real: no versículo central do campo mᵉṣûdâ/mᵉṣôdîm, o valor mais forte é “obras de assédio” e não “refúgio fortificado”.

No recorte estrito desta seção, a contagem por subcampo fica objetiva: “armadilha/rede” = 1 ocorrência (Ec 9.12), “obras de cerco” = 1 ocorrência (Ec 9.14). A acepção “fortaleza/refúgio” pertence à mesma família em outros contextos do Antigo Testamento, mas não é o valor central da unidade narrativa de Eclesiastes 9.12–15, onde a cena é de cerco e livramento por sabedoria.

V. פִּנָּה como arquitetura defensiva e metáfora política

O campo de פִּנָּה (pinnâ, “canto/esquina/ângulo”) parte de um uso arquitetônico-militar. Em Sofonias 1.16, a fórmula “sobre as cidades fortificadas e sobre os cantos elevados” (עַל הַפִּנּוֹת הַגְּבֹהוֹת) coloca pinnâ no vocabulário de defesa urbana. Em Sofonias 3.6, “seus cantos” (פִּנּוֹתָם, pinnôtām) aparecem dentro da imagem de devastação das estruturas urbanas. No mesmo vetor semântico, 2 Crônicas 26.15 integra “torres” e “cantos” como componentes defensivos da cidade.

A transição para metáfora de legitimação ocorre quando o “canto” arquitetônico vira “pedra angular”. Em Salmos 118.22, אֶבֶן … לְרֹאשׁ פִּנָּה (ʾeven … lᵉrōʾš pinnâ, “pedra … por cabeça de esquina”) transforma a imagem construtiva em categoria de eleição e reversão de status; a Septuaginta traduz como “κεφαλὴ γωνίας” (kephalē gōnias, “cabeça de ângulo/esquina”), preservando a força estrutural da metáfora. Em Isaías 28.16, a tradição textual mantém a mesma direção semântica com o vocábulo de “angularidade” (LXX: ἀκρογωνιαῖον, akrogōniaion, “angular de esquina”).

Zacarias 10.4 mostra o estágio político dessa evolução: no texto hebraico, “dele virá o canto, dele a estaca, dele o arco de guerra, dele sairá todo governante/opressor” (מִמֶּנּוּ פִּנָּה …), encadeando imagem arquitetônica, aparato militar e autoridade. A Septuaginta, porém, reconfigura o verso com ênfase em ordenação/ação militar e “arco em ira”, sem repetir literalmente o mesmo eixo lexical de pinnâ; aqui está um ponto de comparação de versões com ganho hermenêutico concreto, porque a versão grega interpreta e não apenas reproduz o campo metafórico hebraico.

No corpus linguístico para pinnâ, a distribuição semântica fica assim: arquitetura defensiva urbana (2Cr 26.15; Sf 1.16; Sf 3.6); “pedra angular” como legitimação teológico-política (Sl 118.22; Is 28.16; função de liderança/governo em moldura militar (Zc 10.4). Essa progressão não elimina o sentido espacial original; ela o expande para um vocabulário de estabilidade institucional e autoridade histórica.

VI. Septuaginta e recepção helenística

No cântico de Isaías, a formulação hebraica associa defesa urbana e salvação: “muros e baluarte” com חֹמֹות (ḥōmôt, “muros”) e חֵל (ḥēl, “baluarte/cintura defensiva”) (Is 26.1). A Septuaginta verte esse par com τεῖχος (teichos, “muro”) e περίτειχος (periteichos, “muralha periférica”), deslocando o foco para a ideia de perímetro fortificado contínuo, isto é, uma defesa em anéis da cidade. Esse ponto é hermeneuticamente relevante porque a imagem deixa de ser apenas “força” abstrata e passa a ser arquitetura defensiva concreta.

Em Eclesiastes, a narrativa da “cidade pequena” usa מְצוֹדִים (mᵉṣôdîm, “obras de cerco/fortificações de assédio”) para o aparato montado contra ela (Ec 9.14). A LXX traduz por χάρακας (charakas, “estacadas/entrincheiramentos”), termo técnico de cerco que especifica o tipo de operação militar: não apenas fortaleza estática, mas engenharia de assédio. A equivalência hebraico-grega aqui é particularmente útil porque fixa o sentido em “obra de cerco” e não em “refúgio” interno.

No Salmo 118, a expressão אֶבֶן… לְרֹאשׁ פִּנָּה (“pedra… por cabeça de ângulo”), com פִּנָּה (pinnāh, “ângulo/canto”), é vertida pela LXX como κεφαλὴν γωνίας (kephalēn gōnias, “cabeça de ângulo”) (Sl 118.22). A tradução grega preserva o núcleo arquitetônico e cria a ponte terminológica que mais tarde sustentará releituras messiânicas no vocabulário cristão primitivo.

Onde há ganho hermenêutico de tradução em Isaías 26.1, observa-se variação de concretude militar: versões portuguesas oscilam entre “baluartes” e “trincheiras”, enquanto o inglês clássico mantém “walls and bulwarks”; esse espectro confirma que o campo semântico abrange tanto muralha estrutural quanto aparato defensivo externo.

VII. Transposição para a eclesiologia em 1 Timóteo 3.15

Na cláusula paulina “a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade”, o grego traz στῦλος καὶ ἑδραίωμα τῆς ἀληθείας (στῦλος, stylos, “coluna”; ἑδραίωμα, hedraíōma, “suporte firme/esteio”). O movimento semântico é nítido: o léxico de estabilidade arquitetônica, antes ligado a muralhas, ângulos e cerco, é transposto para função eclesial de sustentação pública da verdade (1Tm 3.15).

A comparação de versões mostra a mesma base semântica com ênfases diferentes, e aqui a comparação é interpretativamente útil: KJV/ASV leem “coluna e fundamento”; ESV prefere “coluna e esteio” (ou “contraforte”); NASB, “coluna e sustentáculo”. Em português, ARA mantém “coluna e baluarte”, ACF traz “coluna e firmeza”, e NVI adota “coluna e fundamento”. O conjunto não altera o eixo do texto: a igreja é apresentada como estrutura de sustentação e estabilidade da verdade, não como mera ornamentação institucional (1Tm 3.15).

No BDAG, o substantivo ἑδραίωμα não descreve primariamente uma fortificação militar, mas aquilo que dá estabilidade estrutural, isto é, “apoio/base firme”. A própria entrada lexical o define como “aquilo que fornece uma base firme para algo,... suporte, baluarte.”, e aplica essa nuance de modo figurado a 1 Timóteo 3.15, na expressão “coluna e baluarte da verdade” (στῦλος καὶ ἑδραίωμα τῆς ἀληθείας), indicando função de sustentação doutrinária da comunidade, não “muralha” em sentido bélico literal. (BAUER; DANKER; ARNDT; GINGRICH, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, 2021, p. 244)

Bibliografia

BAUER, Walter; DANKER, Frederick William; ARNDT, William F.; GINGRICH, F. Wilbur. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. 3. ed. Chicago: University of Chicago Press, 2021. Verbete: ἑδραίωμα, p. 244.
BERGER, P. R. chayil (חַיִל/חֵיל). In: BOTTERWECK, G. Johannes; RINGGREN, Helmer (org.). Theological Dictionary of the Old Testament. v. 4. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1980. p. 348.
OEMING, M. pinnâ (corner). In: BOTTERWECK, G. Johannes; RINGGREN, Helmer; FABRY, Heinz-Josef (org.). Theological Dictionary of the Old Testament. Volume XI. Grand Rapids, Michigan; Cambridge, U.K.: William B. Eerdmans Publishing Company, 1974, pp. 586–588.

Textos Primários

BRENTON, Lancelot Charles Lee. The Septuagint with Apocrypha: Greek and English. Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 1990.
BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
BÍBLIA SAGRADA. Almeida Corrigida Fiel. São Paulo: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, 2011.
BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2001.
BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Transformadora. São Paulo: Mundo Cristão, 2016.
HOLY BIBLE. New American Standard Bible. La Habra, CA: The Lockman Foundation, 2020.
HOLY BIBLE. New International Version. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2011.
HOLY BIBLE. English Standard Version. Wheaton, IL: Crossway, 2016.
HOLY BIBLE. New American Standard Bible. La Habra, CA: The Lockman Foundation, 2020.
HOLY BIBLE. American Standard Version. New York: Thomas Nelson & Sons, 1901.
HOLY BIBLE. The King James Study Bible. Nashville: Thomas Nelson, 2017.
ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm (eds.). Biblia Hebraica Stuttgartensia. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.
NOVUM TESTAMENTUM GRAECE. Nestle-Aland (NA28). 28. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.

Pesquisar mais estudos