2019/09/18

Estudo sobre João 12

Estudo sobre João 12

Estudo sobre João 12


A ÚLTIMA CENA DE CONFLITO (12.1-50)
1) O jantar em Betânia (12.1-11)
v. 1. Seis dias antes da Páscoa-. Surge aqui uma dificuldade cronológica em virtude da incerteza com relação ao dia da crucificação. Westcott sugere que ela ocorreu no dia 14 de nisã, e que, por isso, a visita a Betânia foi feita em 8 de nisã. Se a crucificação ocorreu numa sexta-feira, então essa visita foi feita na sexta-feira anterior, sendo o sábado interveniente deixado fora como um dia em que não podia haver julgamento, v. 3. um perfume caro (gr. nardos pistikês) era, provavelmente, um perfume líquido. Essa unção pode ser comparada a outros relatos (cf. Mc 14.3-9; Mt 26.6-13), em que a menção da casa de Simão pode ser explicada pelo fato de que Jesus permaneceu em, e próximo de, Betânia por um tempo (cf. “dois dias”, Mc 14.1). (Até houve quem sugerisse que Simão era o pai de Marta, Maria e Lázaro.) A referência ao fato de Maria enxugar os pés de Jesus com seu cabelo é o único paralelo com outra história sinóptica (cf. Lc 7.36-50), em que, no entanto, a situação é bem diferente, v. 6. era ladrão-, Essa é a única referência clara às tendências de Judas, à parte do suborno que ganhou dos chefes dos sacerdotes (cf. Lc 22.5). v. 7. que o guarde para o dia do meu sepulta-mento-, O sentido aqui não é completamente claro se não recorrermos ao relato de Marcos (cf. Mc 14.8). O unguento dificilmente se conservaria se fosse usado naquele momento. Mas Jesus parece dizer que Maria anteviu o seu sepultamento, mesmo que tivesse reservado o perfume para algum propósito de caridade em outro lugar. v. 10. os chefes dos sacerdotes fizeram planos para matar também Lázaro-, No seu esforço de suprimir a notícia da ressurreição de Lázaro, eles já estão achando que a sua política assassina deve ser estendida a mais uma pessoa.

2) A entrada messiânica (12.12-19)
Somente João registra a razão da feliz aclamação gritada pela multidão nessa ocasião (cf. Mc 11.7-10; Mt 21.4-9; Lc 19.35-38). v. 13. Hosana!: Eles pegaram o canto antifônico do último salmo do Hallel (heb. hoshPa nã, lit. ”salve-nos agora”; cf SI 118.25). A ação de Jesus foi designada para encorajar a fé dos espectadores, que, ao menos entre os discípulos, não foi compreendida senão mais tarde (v. 16) como um cumprimento das Escrituras (Zc 9.9). O ato tinha o propósito de ser um sinal de paz; Zacarias prossegue e diz (cf. Zc 9.10): “Ele proclamará paz às nações”. E Jesus claramente pretendia que esse significado estivesse na base do seu anúncio do reino (cf. F. F. Bruce: “The Book of Ze-chariah and the Passion Narrative”; Bulletin of the John Rylands Library, Manchester, v. 43, 1960-1961, p. 336-53). v. 19. o mundo todo vai atrás dele-, Uma expressão idiomática que quer dizer simplesmente isto: “todo mundo”. Mas para o evangelista isso pode bem ter sugerido o apelo universal do evangelho (cf. v. 32).

3) O pedido dos gregos e a rejeição dos judeus (12.20-43)
A presença desses gregos “tementes a Deus”, isto é, estrangeiros que falavam grego e que tinham adotado a adoração judaica, mas não a lei em sua totalidade, é mencionada somente por João. O discurso, porém, que segue parece fazer eco a uma série de trechos sinópticos (cf. Mc 4.1-9; 8.34; 9.1 etc.). Eles podem ter vindo a Filipe atraídos pelo seu nome. A possível hesitação de Filipe sugerida pelo fato de ele consultar André antes de ambos contarem a Jesus a respeito dos visitantes, provavelmente pode ser explicada pela lembrança das palavras anteriores de Jesus acerca dos gentios (cf. Mt 10.15; 15.24). v. 23. Chegou a hora-, Jesus vê que os eventos agora apontam diretamente para a Páscoa que se aproxima. Mas ele vai ser glorificado como o Homem Celestial, assim como sua encarnação expressou sua humilhação, v. 24. se o grão de trigo não cair na terra e morrer. A parábola sinóptica da semente retrata o reino (cf. Mc 4.1-20; Mc 13.1-9,18-25; Lc 8.4-15); em João, uma metáfora semelhante é usada para denotar o Rei. Ele ensina que o que se torna verdadeiro acerca de si mesmo é um princípio presente em toda a natureza. Cf. Paulo em ICo 15.36ss. v. 25. Aquele que ama a sua vida, a perderá: O dito acerca da vida por meio da morte (v. 24) é passível de aplicação geral, e Jesus aqui o aplica aos seus seguidores (cf. Mc 8.35; Mt 10.39; Lc 17.33) nos seus sofrimentos com ele. Odiar (gr. miseõ) a própria vida significa virar as costas a ela como sendo de importância secundária em comparação com a causa que interessa mais. v. 26. onde estou, o meu servo também estará: Jesus não está prometendo uma saída fácil do sofrimento, isto é, na glória futura. Ele está dizendo que a experiência que está para cair sobre ele pode ser esperada por seu discípulo fiel. Mas, assim como esse servo pode esperar compartilhar os sofrimentos de Cristo, também, de fato, pode esperar entrar na glória com ele (At 14.22; Rm 8.17; lTm 2.11ss).
v. 27. Agora meu coração está perturbado: Jesus agora enfrenta o chamado para o seu sofrimento pessoal. Ele expressa os mesmos sentimentos no jardim do Getsêmani (cf. Mc 14.32-42; Mt 26.36-46; Lc 22.40-46); assim, aprendemos dele que ele sentiu essa agonia de espírito em outros momentos além da noite de quinta-feira antes da sua morte. O que direi? Pai, salva-me desta [gr. ek\ hora?: Essas palavras de fato constituíram uma oração real ou foram só consideradas? Jesus, certamente, não estava pensando em fugir da cruz. A preposição ek (“de dentro de”) sugere que ele se confiou às mãos do Pai enquanto a morte estava se aproximando. De qualquer forma, está claro (v. 28) que ele chegou até esse momento para a glória do Pai. v. 30. Esta voz veio por causa de vocês: Mas o som foi ininteligível para alguns e mal interpretado por outros. Deus tinha glorificado o seu nome uma vez (cf. 11.40) e agora, na Paixão, ele o glorificaria novamente. v. 31. Chegou a hora de ser julgado este mundo: O mundo está julgado da perspectiva da cruz, tanto por sua responsabilidade por crucificar o Príncipe da Vida quanto pelo fato de que o seu momento de vitória vai se tornar, por meio da ressurreição, o momento de sua completa derrota, v. 32. Mas eu, quando for levantado [...] atrairei todos a mim: Até então, ele estava sujeito a restrições no âmbito da sua missão (cf. Lc 12.50); depois disso, sua graça salvadora estaria igualmente disponível para os gregos (como os inquiridores presentes) e para os judeus. Independentemente da amplitude de significado que se possa associar a “levantar” (v. comentário de 3.14), a multidão é suficientemente perspicaz para detectar o que Jesus tem em mente nesse momento, e ela pode conectar isso com as palavras anteriores de Jesus (cf. v. 23,34). Nenhum trecho especial se encaixa com o que eles dizem ter ouvido na lei (v. 34), embora possamos pensar em Is 9.6,7; SI 110.4 etc. v. 34. Quem êesse “Filho do homem'“?: Mas Jesus não pode explicar isso somente com palavras (cf. 8.25). A única esperança de que eles possam compreender é colocar a sua confiança na luz (v.36), ou seja, tentar compreendê-lo como ele é. Por algumas horas ainda, a Luz está brilhando no mundo, e com isso o privilégio especial de eles se tornarem “homens iluminados” por crerem no que vêem (cf. 20.29).
Com essas palavras, Jesus parte. Suas últimas declarações (cf. Mc 13.35,36) instaram seus ouvintes a aproveitar aquela última oportunidade de depositar a fé nele; entretanto, mesmo assim, não creram nele (v. 37), assim levando ao cumprimento uma profecia de Isaías. Essa profecia se tornou significativa não somente por meio do evento; o evento cumpriu a profecia na medida em que a palavra de Isaías declarou a vontade de Deus (cf. Is 53.1). Nem as palavras de Jesus, a “mensagem”, nem suas obras, “o braço do Senhor”, os tinham convencido, v. 39. eles não podiam crer. A consequência da incredulidade seguiria implacavelmente. Como Temple com propriedade expressa: “Deus não causa o pecado, mas ele causa que as devidas conse-quências resultem dele em virtude da lei da ordem da criação” (Readings, p. 202). v. 40. Cegou os seus olhos: Cf. Is 6.10. A cegueira dos judeus, portanto, é parte do plano divino, embora eles não sejam por isso absolvidos da sua culpa, pois odiaram a luz (cf. 3.20) e assim levaram à escravidão a liberdade da sua vontade. Mas dessa sua incredulidade surge o mistério desse Sacrifício que vai resgatar o mundo. (Is 6.10 é aplicado de forma semelhante em Mc 4.12 e paralelos e em At 28.26,27.) v. 41. Isaías [...] viu a glória de Jesus: Cf. Is 6.1. João parece fundamentar a sua referência numa paráfrase de um targum das palavras do profeta, que originariamente omitia qualquer descrição pessoal do Todo-poderoso. A sua glória foi manifesta na encarnação, e foi assim vista por homens mortais (cf. 1.14). v. 42. muitos líderes dos judeus creram nele (gr. episteusan ás auton): E surpreendente que João tenha usado essa frase significando fé completa quando eles, em virtude de sua posição no Sinédrio, obviamente evitavam obstáculos, se mantendo discípulos secretos (mas cf. o uso da frase em 2.23). Nicodemos e José de Arimateia foram exemplos dentre eles.

4) O resumo que Cristo faz da sua mensagem (12.44-50)
Em vista do caráter definitivo e final das palavras de Jesus no v. 36a e sua subsequente partida dentre os judeus (v. 36b), e ainda a natureza decisiva de suas citações no v. 37, alguns estudiosos têm sugerido que os v. 4450 estão deslocados e, provavelmente, deveriam seguir o v. 36a. Se esse é o caso ou não, podemos concluir com propriedade que o evangelista escolheu concluir a presente seção do evangelho ao reunir alguns dos ditos mais significativos do Senhor que continham as principais ideias da sua auto-revelação, i.e., acerca da Luz, da sua autoridade que recebeu do Pai, da natureza do julgamento, da ordem do Pai ao Filho na sua pregação, e da vida que resulta das palavras dele (cf. comentários de 5.24-29; 7.17; 8.12). v. 46. Eu vim ao mundo como luz: Jesus lança luz sobre o caminho para Deus. O homem que crê em Jesus deposita, de fato, a sua confiança nele. Sua confiança não está fundamentada na vida temporal limitada de Jesus “nos dias da sua carne”, mas na vida eterna de Deus que foi manifesta em Cristo. E, porque Deus quer a salvação dos homens, ele deu a Cristo a ordem para a sua mensagem.

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