Elohim — Enciclopédia Bíblica Online
O termo אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) funciona, no hebraico bíblico, como um termo de referência elástica cujo valor semântico é decidido pelo contexto sintático e pragmático. Embora seja uma forma morfológica plural, pode designar o Deus de Israel em construções com concordância verbal singular, como em Gênesis 1.1, onde o predicado verbal é singular e o referente é único. No mesmo corpus, contudo, o mesmo vocábulo pode operar como plural ou como plural de “classe”, servindo para nomear entidades cultuais/teológicas em sentido não exclusivo e até mesmo um polo institucional dentro do direito: em Êxodo 22.27, a proibição de “amaldiçoar” recai sobre אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”), num enunciado normativo em que a referência pode envolver a esfera de autoridade sacral-jurídica, justamente por ser um termo que pode funcionar como marcador de instância “superior” em tribunal e culto. A polissemia atinge um ponto interpretativamente decisivo em Salmos 82.1; 82.6, onde אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) aparece tanto como sujeito que preside a assembleia quanto como predicado aplicado aos destinatários do juízo (“vós sois deuses”), deixando claro que, em certos registros poéticos e forenses, “elohim” pode nomear seres colocados sob a palavra e o julgamento divinos. No NT, esse espectro reaparece em grego: 1Co 8.5–6 reconhece a circulação social de “muitos” θεοί (theoi, “deuses”) e κύριοι (kyrioi, “senhores”), mas reconfigura o campo referencial com a confissão de “um só Deus” e “um só Senhor”, isto é, sem negar o uso do plural como fenômeno linguístico-religioso, mas delimitando normativamente o referente legítimo do discurso cristão. E João 10.34–36, ao citar “vós sois deuses”, mostra como a linguagem “deuses” pode ser mobilizada intra-judaicamente para categorias humanas investidas de função representativa sob a palavra divina, o que ilumina, por convergência, a lógica semântica do próprio (Sl 82.6).
Já a palavra אֵל (ʾēl, “deus”) é, por sua vez, a forma singular e mais “nuclear” do léxico semítico para “deidade”, aparecendo tanto como substantivo genérico quanto como base de epítetos teológicos que qualificam o referente. Em Gênesis 14.18, por exemplo, a expressão אֵל עֶלְיוֹן (ʾēl ʿelyôn, “Deus Altíssimo”) usa אֵל (ʾēl) como cabeça nominal e agrega um qualificativo que define a supremacia do referente, funcionando como título de alta densidade confessional. Em Êxodo 20.5, o mesmo lexema ocorre em um predicado atributivo que caracteriza a identidade do Deus cultuado: אֵל קַנָּא (ʾēl qannāʾ, “Deus zeloso”), onde a escolha de אֵל (ʾēl, “deus”) em vez de אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) não altera o referente, mas ajusta o foco: menos uma “classe” lexical capaz de abarcar múltiplos referentes e mais um título singular que suporta qualificações teológicas diretas. Assim, quando ambos os termos apontam para o Deus de Israel, a diferença prática tende a ser de construção e ênfase: אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) exibe amplitude de uso (inclusive para “outros” referentes em certos contextos), enquanto אֵל (ʾēl) frequentemente aparece como núcleo de designações e epítetos que especificam atributos e status do referente.
I. Delimitação semântica
| Lexema/forma | Delimitação semântica | Âncoras textuais |
|---|---|---|
| Hb. ʾĕlōhîm — H430 |
Deus (“God”) = 2.346 deus(es) (“god”) = 244 deusa (“goddess”) = 2 juiz (“judge”) = 1 juízes (“judges”) = 4 anjos (“angels”) = 1 grande (“great”) = 2 poderoso (“mighty”) = 2 excedente (“exceeding”) = 1 muito (“very”) = 1 piedoso (“godly”) = 1 voltado-para-Deus (“God-ward”) = 1 |
Deus (“God”): Gn 1.1; Dt 4.35; Dt 4.39; Is 45.18 deus(es) (“god[s]”): Ex 20.3; 1Sm 4.8; 2Rs 18.33 deusa (“goddess”): 1Rs 11.5; 2Rs 21.7 juiz/juízes (“judge/judges”): Ex 21.6; Ex 22.8; Ex 22.9 anjos (“angels”): Sl 8.5 grande (“great”): Gn 30.8; 1Sm 14.15 poderoso (“mighty”): Gn 23.6 excedente (“exceeding”): Jn 3.3 piedoso (“godly”): Ml 2.15 voltado-para-Deus (“God-ward”): Ex 18.19 |
| Hb. ʾēl — H410 |
Deus (“God”) = 213 deus (“god”) = 16 ídolos (“idols”) = 1 poderoso (“mighty”) = 6 poder (“power”) = 4 forte (“strong”) = 1 grande (“great”) = 1 formoso (“goodly”) = 1 Emanuel (“Immanuel”) = 2 |
Âncoras programáticas (para o verbete): Gn 14.18; Gn 46.3; 2Sm 22.31; Is 9.6; Gn 17.1 |
| Hb. ʾĕlōah — H433 |
Deus (“God”) = 52 deus (“god”) = 5 |
Âncoras textuais: a completar por concordância específica de H433 (KJV/Strong) |
| Ar. ʾĕlāh — H426 |
Deus (“God”) = 79 deus (“god”) = 16 |
Âncoras textuais: a completar por concordância específica de H426 (corpus aramaico; KJV/Strong) |
| Gr. theos — G2316 |
Deus (“God”) = 1.320 deus (“god”) = 13 piedoso (“godly”) = 3 voltado-para-Deus (“God-ward”) = 2 diversos (“miscellaneous”) = 5 |
Âncoras textuais: a completar por concordância específica de G2316 (NT/LXX; KJV/Strong) |
II. Etimologia
A forma massorética אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) é, do ponto de vista morfológico e histórico-comparativo, um desenvolvimento interno do hebraico bíblico dentro de uma família semítica mais ampla cujo núcleo etimológico é o tema consonantal ʾ-l, amplamente atestado em línguas semíticas com o sentido de “deus/divindade”. A análise lexicográfica clássica descreve אֱלֹהִים como forma plural em -îm, empregada tanto como plural numérico (“deuses”) quanto como designação do Deus de Israel em construção sintática singular (o que a tradição gramatical costuma discutir sob categorias como pluralidade intensiva/majestática, ainda que a explicação deva ser inferida do comportamento sintático e semântico do termo, não apenas do rótulo). Essa dupla possibilidade é registrada de modo explícito no verbete de A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament, que distingue usos plurais (“deuses”, incluindo também extensões semânticas como “seres celestes” e, por metonímia institucional, “juízes/régulos”) e o uso intensivo para o Deus de Israel, com concordância verbal/adjetival frequentemente singular e com sufixação singular (“meu Deus”), além do emprego em expressões fixas e construções de governo.
Quanto à derivação imediata no hebraico, a literatura etimológica representa duas linhas explicativas principais: (i) אֱלֹהִים como plural de אֱלוֹהַּ (ʾĕlōah, “deus”), ou (ii) como plural diretamente de אֵל (ʾēl, “deus”). Ernest Klein registra ambas as propostas ao tratar o verbete “Elohim”, observando que a forma é “plural de ʾĕlōah” segundo alguns, enquanto outros a tomam como plural de ʾēl, e ainda remete ao debate filológico tradicional sobre a formação e a motivação desse plural na história do hebraico. (KLEIN, A Comprehensive Etymological Dictionary of the Hebrew Language for Readers of Englishy of the Hebrew Language for Readers of English, 1987, p. 46). A consequência metodológica disso é que “etimologia” aqui não pode ser reduzida a um único “singular originário”: ela envolve (a) a genealogia semítica do tema ʾ-l (“divindade”), (b) a morfologia nominal hebraica que cria plurais em -îm, e (c) a semântica do uso bíblico que pode reanalisar um plural formal como designação singular quando o referente é o Deus de Israel, sem eliminar o valor plural quando o contexto (BRIGGS, A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament, 1907, p. 43).
O quadro comparativo semítico que sustenta essas leituras aparece com clareza no tratamento de אֵל (ʾēl, “deus”). Klein apresenta a relação de אֵל com cognatos semíticos em diferentes ramos, explicitando que se trata de um termo “muito antigo” no semítico e alinhando-o, entre outros, ao acadiano/assírio (isto é, à tradição babilônico-assíria do acadiano) ilu (“deus”), ao ugarítico 𐎛𐎍 (il, “deus”), ao aramaico (a tradição aramaica do noroeste semítico, aqui representada por formas do tipo “elah”), ao siríaco (p.ex., ܐܠܗܐ, ʾalāhā, “Deus/deus”) e ao árabe (إِلٰه, ʾilāh, “deus”). (KLEIN, op. cit., p. 45).
Esse pano de fundo comparativo permite enquadrar com mais precisão o “salto” específico de אֵל/ʾēl e de um singular do tipo אֱלוֹהַּ/ʾĕlōah para אֱלֹהִים/ʾĕlōhîm. A pluralização hebraica em -îm, quando aplicada a um nome de divindade, é semanticamente disponível para plural real (“deuses”), mas pode também funcionar, em certos contextos, como pluralidade intensiva, isto é, um plural formal que reforça magnitude/majestade sem impor pluralidade referencial; é exatamente essa ambivalência que o léxico de Francis Brown–S. R. Driver–Charles A. Briggs fixa ao lado do inventário de usos que vão de “deuses” a “Deus” em sintaxe singular, e ainda a extensões institucionais (como “juízes/régulos”), que pressupõem uma história semântica em que “poderes” ou “autorizados por linguagem de divindade (sem que isso implique, automaticamente, teologia politeísta no texto que o usa).
Uma nota útil para a dimensão diacrônica dentro do hebraico é que a tradição lexicográfica do século XIX já observava diferenças de distribuição e de sensação estilística entre formas do campo ʾ-l. Julius Fürst descreve אֵל (ʾēl) como nome semítico muito antigo para “deus”, destacando seu papel como base para composições e epítetos e sua produtividade em combinações genitivas e qualificativas; isso ajuda a compreender por que אֵל funciona tanto como designação genérica (“deus”) quanto como elemento em tíque sua relação com formas expandidas (como אֱלוֹהַּ/ʾĕlōah) e com o plural אֱלֹהִים/ʾĕlōhîm é melhor entendida como rede lexical histórica, não como derivação linear única. (FÜRST, A Hebrew & Chaldee Lexicon to the Old Testament, 1885, p. 90). No mesmo campo, Fürst registra אֱלוֹהַּ (ʾĕlōah) como forma ligada ao mesmo domínio semântico de divindade, o que explica o seu campo morfológico — a explicação que toma אֱלֹהִים como plural de אֱלוֹהַּ, sem excluir que o uso bíblico efetivo tenha reconfigurado a percepção dessa pluralidade conforme o referente e o contexto literário. (FÜRST, A Hebrew & Chaldee Lexicon to the Old Testament, 1885, p. 95).
A exigência de “passar por” línguas semíticas como acadiano/assírio, ugarítico e árabe pode ser satisfeita de modo metodologicamente controlado quando se evita transformar o comparatismo em narrativa especulativa: o que as fontes lexicográficas utilizadas autorizam afirmar com lastro é que o hebraico אֵל (ʾēl) e, por extensão histórica, o conjunto do campo lexical que inclui אֱלוֹהַּ/ʾĕlōah e אֱלֹהִים/ʾĕlōhîm pertence a um patrid ilu (“deus”), o ugarítico 𐎛𐎍 (il, “deus”) e o árabe إِلٰه (ʾilāh, “deus”), além das tradições aramaicas/siríacas para “deus/Deus” (KLEIN, op. cit., 1987, p. 45–46). Dentro do hebraico bíblico, o ponto de inflexão semântico de אֱלֹהִים é precisamente o seu comportamento bifronte: pluralidade formal capaz de designar “deuses” em número e, ao mesmo tempo, termo capaz de funcionar como designação singular intensiva para o Deus de Isra e com marcas pronominais singulares, o que fixa a etimologia imediata no entrelaçamento de morfologia (plural em -îm) e história de uso (singularização referencial em determinados contextos).
III. Sentido pictográfico de 𐤀𐤋𐤄𐤉𐤌 no paleo-hebraico
Na escrita paleo-hebraica (uma forma hebraica do alfabeto semítico “médio”), as letras já não são desenhos naturalistas, mas preservam, por herança, a memória de um estágio mais antigo em que cada sinal era um pictograma associado a um objeto concreto; por isso, quando se fala em “significado pictográfico”, o que se descreve com segurança é o valor imagético de cada letra (o objeto original), não uma “tradução” automática do vocábulo inteiro. Essa transição do pictográfico antigo para formas mais simplificadas e alfabéticas é exposta de modo programático por Benner ao reconstruir o desenvolvimento semítico (BENNER, The Ancient Hebrew Lexicon of the Bible, 2005, p. 15).
Aplicando isso a 𐤀𐤋𐤄𐤉𐤌 (hebraico quadrático: אֱלֹהִים, ʾĕlōhîm), a cadeia consonantal pode ser lida letra a letra: 𐤀 corresponde a אָלֶף (ʾālep̄), cujo pictograma originário é a “cabeça de boi”, e por isso se associa a ideias como força, liderança e poder;[1] 𐤋 corresponde a לָמֶד (lāmeḏ), ligado ao “cajado/vara” (o bastão do pastor que dirige), do qual se derivam no plano imagético noções como direção e autoridade;[2] 𐤄 corresponde a הֵא (hē), cujo pictograma é o “homem com os braços erguidos”, associado a “ver/mostrar”, “revelar”;[3] 𐤉 corresponde a יוֹד (yôḏ), derivado de יָד (yāḏ, “mão/braço”), e por isso o valor pictográfico se fixa em mão/obra/ação;[4] 𐤌 corresponde a מֵם (mēm), associado a “água”, e recebe no plano imagético a carga de “massa/caos” (pela mobilidade e indeterminação das águas).[5]
Se — e apenas se — se adotar a leitura composicional desses valores pictográficos (um procedimento heurístico moderno, não uma etimologia semântica demonstrada pelo uso textual), a própria sequência 𐤀𐤋 pode ser entendida como a ideia composta de “autoridade forte”.[6] Nessa mesma chave imagética, acrescentar 𐤄𐤉𐤌 introduz a linha “revelar/manifestar” (𐤄) → “mão/ação” (𐤉) → “águas/massa/caos” (𐤌), permitindo uma glosa pictográfica do tipo “autoridade poderosa que se manifesta/age (com a mão) sobre as águas/massa”. Isso, porém, deve ser tomado explicitamente como inferência pictográfica (iconográfica), não como substituto do significado histórico-linguístico de אֱלֹהִים no hebraico bíblico, que se determina por morfologia e emprego contextual nos textos.[7]
III. Delimitação lexical e morfológica de אֵל / אֱלֹהִים e subdomínios correlatos
O título אֵל (ʾēl, “Deus/poderoso”) aparece, no corpus-base, com estatuto nominal pleno e função identificadora: em Gênesis 46.3, a autodeclaração “אָנֹכִי הָאֵל אֱלֹהֵי אָבִיךָ” (ʾānōkî hāʾēl ʾĕlōhê ʾābîḵā, “Eu sou o Deus, o Deus de teu pai”) concentra, numa mesma cláusula, o artigo definido em הָאֵל (hāʾēl, “o Deus”) e a construção genitiva em אֱלֹהֵי (ʾĕlōhê, “Deus de…”) como mecanismos formais de identificação e exclusividade referencial. A forma com artigo, aqui, não é mero traço estilístico: ela funciona como sinal gramatical de determinação, delimitando o referente em contraste com outros possíveis “poderosos/deuses”, e preparando o terreno para fórmulas de unicidade explícita noutras passagens do corpus (Dt 4.35; 4.39; Is 45.18).
O ponto metodológico decisivo é separar esse substantivo do homógrafo preposicional אֶל (ʾel, “a/para”), que é outro lexema, distinguível sobretudo pela função sintática (marcador direcional/benefactivo) e pela vocalização massorética. Em Jó 38.20, por exemplo, a sequência “אֶל־גְּבֻל֑וֹ” (ʾel-gəvûlô, “para o seu limite/termo”) é preposição + complemento, sem qualquer leitura titulativa; trata-se de governança preposicional ordinária, contrastável com o uso nominal de אֵל em Gênesis 46.3. Este contraste é crucial para evitar falsos positivos em leituras lexicais: o mesmo encadeamento consonantal (אל) pode pertencer a classes gramaticais diferentes, e a determinação deve ser feita por sintaxe e contexto imediato, não por aparência gráfica isolada.
A.ʾĕlōah como singular correlato e ʾĕlōhîm como plural morfológico (numérico vs intensivo)
A forma אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) é morfologicamente plural (terminação -ים), mas, no corpus-base, sua interpretação é controlada por critérios formais de concordância e por marcadores de determinação. O exemplo programático é Gênesis 1.1: “בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים” (bərēʾšît bārāʾ ʾĕlōhîm, “No princípio, Deus criou”), onde o verbo בָּרָא (bārāʾ, “criou”) está no singular, forçando leitura de referente singular apesar da morfologia plural do sujeito. O mesmo tipo de “travamento” formal aparece em Deuteronômio 4.35 e 4.39 pela fórmula identificadora “יְהוָה הוּא הָאֱלֹהִים” (yhwh hûʾ hāʾĕlōhîm, “Yahweh, ele é o Deus”), em que o pronome הוּא (hûʾ, “ele”) e a estrutura copular reforçam a singularidade do referente, enquanto o artigo em הָאֱלֹהִים (hāʾĕlōhîm, “o Deus”) delimita o termo como título determinado, não como “deuses” indefinidos.
Deuteronômio 6.4 explicita o mesmo núcleo referencial em forma litúrgica: “יְהוָה אֱלֹהֵינוּ יְהוָה אֶחָד” (yhwh ʾĕlōhênû yhwh ʾeḥād, “Yahweh, nosso Deus, Yahweh é um”). Aqui, a morfologia de אֱלֹהֵינוּ (ʾĕlōhênû, “nosso Deus”) mostra o plural base em estado construto com sufixo pronominal de primeira pessoa plural, mas a referência é singular por força do predicado final (“אֶחָד”, ʾeḥād, “um”) e pelo uso do tetragrama como sujeito explícito. A passagem de Isaías 45:18, por sua vez, agrega ao título determinado a negação de alternativa: “אֲנִי יְהוָה וְאֵין עוֹד … הוּא הָאֱלֹהִים” (ʾănî yhwh wəʾên ʿôd … hûʾ hāʾĕlōhîm, “Eu sou Yahweh e não há outro… ele é o Deus”). O corpus, portanto, fornece critérios internos suficientes para a nota metodológica: a mesma forma plural אֱלֹהִים pode, em princípio, comportar leitura numérica (“deuses”), mas, quando o referente é singular, a concordância e a determinação (verbo/pronomes singulares, artigo, identificação com o nome divino) funcionam como controles formais que orientam a interpretação.
A referência pelo nome próprio completa essa delimitação: em Salmos 83.18 (na versificação de muitas traduções; correspondente ao versículo final na Biblia Hebraica Stuttgartensia), lê-se “וְיֵדְעוּ כִּי־אַתָּה שִׁמְךָ יְהוָה לְבַדֶּךָ עֶלְיוֹן עַל־כָּל־הָאָרֶץ” (wəyēḏəʿû kî-ʾattāh šimḵā yhwh ləḇaddeḵā ʿelyôn ʿal-kol-hāʾāreṣ, “e saibam que tu, cujo nome é Yahweh, só tu és o Altíssimo sobre toda a terra”), oferecendo o eixo nominal que explica por que, nos textos onde אֱלֹהִים aparece com concordância singular, o referente é o Deus nomeado como יְהוָה. (A discrepância de numeração aqui é um dado filológico regular: a inclusão de superscrições na tradição hebraica frequentemente desloca a contagem de versículos em Salmos, de modo que o “Sl 83.18” em muitas Bíblias corresponde ao último versículo na forma apresentada na BHS.)
No corpus-base desta seção, a distribuição é a seguinte (contagem restrita ao próprio corpus): ocorrências do campo “título divino com referente singular Yahweh” = 6 (Gn 1.1; Gn 46.3; Dt 4.35; Dt 4.39; Dt 6.4; Is 45.18); ocorrências do campo “seres celestes em relação genitiva com Deus” = 1 (Jó 38.7); ocorrências do campo “assembleia celeste designada por ʾēlîm” = 2 (Sl 29.1; Sl 89.6).
B. ʾēlîm e fórmulas “filhos de Deus” como subdomínio lexical
O plural אֵלִים (ʾēlîm, “deuses/poderosos”) aparece, no corpus, integrado a fórmulas de endereçamento celeste em Salmos 29.1: “הָבוּ לַיהוָה בְּנֵי אֵלִים” (hāḇû layhwh bənê ʾēlîm, “tributai a Yahweh, filhos dos poderosos/deuses”). A mesma construção reaparece em Salmos 89:6 (na numeração usual de muitas traduções; com deslocamento na tradição hebraica), onde ocorre “בִּבְנֵי אֵלִים” (biḇnê ʾēlîm, “entre os filhos dos poderosos/deuses”), em contexto que já situa a comparação “no céu/nas nuvens” e, portanto, aponta para um enquadramento celeste do sintagma. Formalmente, “בְּנֵי” (bənê, “filhos de”) é estado construto plural de “filho”, e o genitivo plural (אֵלִים) especifica o domínio de pertença; semanticamente, o próprio co-texto poético do corpus sustenta uma leitura de assembleia celeste, sem exigir importação de hipóteses externas.
A variante com אֱלֹהִים, em Jó 38.7, explicita ainda mais esse subdomínio: “וַיָּרִיעוּ כָּל־בְּנֵי אֱלֹהִים” (wayyārîʿû kol-bənê ʾĕlōhîm, “e jubilavam todos os filhos de Deus”), em paralelismo com “כּוֹכְבֵי בֹקֶר” (kôḵəḇê bōqer, “estrelas da manhã”), isto é, com um marcador cósmico que puxa o sintagma para o campo dos seres celestes. É precisamente aqui que a consulta à Septuaginta oferece um ganho interpretativo controlado: na LXX, o trecho correspondente verte o segmento como “πάντες ἄγγελοί μου” (pantes angeloi mou, “todos os meus anjos”), substituindo a relação “filhos de Deus” por um rótulo explícito de “anjos”. Nos Salmos, a LXX mantém a filiação, mas com genitivo divino transparente: em LXX Salmos 28.1 (correspondente a Sl 29.1 no texto hebraico), lê-se “υἱοὶ θεοῦ” (huioi theou, “filhos de Deus”). De modo análogo, em LXX Salmos 88.7–8 (correspondente ao entorno imediato de Sl 89.6), aparece “ἐν υἱοῖς θεοῦ” (en huiois theou, “entre filhos de Deus”). Assim, o subdomínio lexical “filhos de Deus/filhos dos poderosos” fica duplamente ancorado: (i) no hebraico, por construções genitivas com ʾĕlōhîm/ʾēlîm em contextos cósmico-celestes; (ii) na LXX, por escolhas que ou explicitam “anjos” (Jó 38) ou conservam “filhos de Deus” (Salmos), esclarecendo como tradutores antigos entenderam o valor referencial dessas expressões no fluxo poético.
C. “ʾĔlōhîm” como título “padrão” do Criador e Governante
A abertura de Gênesis 1.1 estabelece, já na forma verbal, o modo como אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) funciona como referência singular ao Deus de Israel: “בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים” (bərēʾšît bārāʾ ʾĕlōhîm, “No princípio criou Deus”). O ponto decisivo, do ângulo morfossintático, é que o predicado verbal בָּרָא (bārāʾ, “criou”) está em forma finita singular (verbo, perfeito, 3ª pessoa masculina singular), apesar de o sujeito nominal ter morfologia plural (-îm). Isso sinaliza que, no eixo do relato, a pluralidade formal não introduz uma pluralidade referencial; antes, o texto constrói “ʾĕlōhîm” como sujeito único de atos soberanos (criar, ordenar, separar, abençoar, avaliar), o que confere ao termo uma função de título teológico que concentra agência e autoridade em um único agente divino.
O fecho da perícope de criação, em Gênesis 2.4, reforça essa leitura ao justapor o Nome próprio e o título: “בְּיוֹם עֲשׂוֹת יְהוָה אֱלֹהִים אֶרֶץ וְשָׁמָיִם” (bəyôm ʿăśôt YHWH ʾĕlōhîm ʾereṣ wəšāmayim, “no dia em que Yahweh Deus fez a terra e os céus”). A fórmula יְהוָה אֱלֹהִים (YHWH ʾĕlōhîm, “Yahweh Deus”) opera como “identificação composta”: o Nome (יְהוָה, YHWH, “Yahweh”) ancora a identidade específica do Deus de Israel, enquanto “ʾĕlōhîm” atua como título que o apresenta como o Deus que governa e age.
IV. “hāʾĕlōhîm” e fórmulas identitárias
Nos textos confessionais do Deuteronômio, a exclusividade cultual é formulada com a construção identitária em que o Nome é predicado como o único Deus: “יְהוָה הוּא הָאֱלֹהִים” (YHWH hûʾ hāʾĕlōhîm, “Yahweh é o Deus”), em Deuteronômio 4.35, e a sua retomada enfática em Deuteronômio 4.39: “יְהוָה הוּא הָאֱלֹהִים … אֵין עוֹד” (YHWH hûʾ hāʾĕlōhîm … ʾên ʿôd, “Yahweh é o Deus… não há outro”). Aqui, o artigo definido em הָאֱלֹהִים (hāʾĕlōhîm, “o Deus”) é semanticamente crucial: não se trata de “um deus” dentre outros, mas do Deus único enquanto referente definido e exclusivo, em oposição implícita a quaisquer alternativas cultuais. O mesmo núcleo confessional estrutura a “declaração do Shema”: “שְׁמַע יִשְׂרָאֵל יְהוָה אֱלֹהֵינוּ יְהוָה אֶחָד” (šəmaʿ yiśrāʾēl YHWH ʾĕlōhênû YHWH ʾeḥād, “Ouve, Israel: Yahweh nosso Deus, Yahweh é um/único”). A força teológica do enunciado não repousa em especulação aritmética sobre a forma plural do título, mas na definição confessional da unicidade de Yahweh como o Deus de Israel, expresso na clausura com אֶחָד (ʾeḥād, “um/único”).
Esse mesmo padrão aparece em contextos de universalização missionária e de polêmica anti-idolátrica. Na dedicação do templo, a finalidade explícita é o reconhecimento universal: “יְהוָה הוּא הָאֱלֹהִים אֵין עוֹד” (YHWH hûʾ hāʾĕlōhîm ʾên ʿôd, “Yahweh é o Deus; não há outro”), em 1 Reis 8.60. No confronto do Carmelo, a aclamação litúrgica do povo reproduz a mesma fórmula em registro responsorial: “יְהוָה הוּא הָאֱלֹהִים יְהוָה הוּא הָאֱלֹהִים” (YHWH hûʾ hāʾĕlōhîm, “Yahweh é o Deus”), em 1 Reis 18.39. Já em Jeremias 10.10, a crítica aos ídolos (apresentados como “הֶבֶל”, “vaidade/vazio”) é contrastada com a realeza viva e verdadeira de Yahweh: “וַיהוָה אֱלֹהִים אֱמֶת … אֱלֹהִים חַיִּים וּמֶלֶךְ עוֹלָם” (wa-YHWH ʾĕlōhîm ʾĕmet … ʾĕlōhîm ḥayyîm ûmeleḵ ʿôlām, “Yahweh é Deus verdadeiro… Deus vivo e Rei eterno”). Nessa linha, “ʾĕlōhîm” concentra atributos de soberania (realeza), veracidade (Deus verdadeiro) e vitalidade (Deus vivo) em oposição a quaisquer “deuses” que sejam apenas artefatos cultuais.
V. Relação semântica com epítetos em “ʾēl”
O emprego de אֵל (ʾēl, “Deus/Poderoso”) mostra como o léxico do “poder/soberania” pode ser articulado por títulos aparentados, ora com “ʾĕlōhîm”, ora com “ʾēl”. No testemunho cósmico, o salmo afirma: “הַשָּׁמַיִם מְסַפְּרִים כְּבוֹד־אֵל” (haššāmayim məsapprîm kəḇôd-ʾēl, “Os céus proclamam a glória de El/Deus”). Aqui, “ʾēl” funciona como título de majestade divina no registro poético, sem deslocar o monoteísmo confessional do corpus; trata-se de uma escolha estilística que preserva o mesmo domínio semântico (“glória”, “poder criador”) por meio de uma forma lexical mais breve e típica da poesia hebraica.
Uma especialização teológica desse domínio aparece em Salmos 83.19 (frequentemente versificado como 83.18 em muitas traduções, por causa do título do salmo contar como v. 1 no hebraico): “אַתָּה שִׁמְךָ יְהוָה לְבַדֶּךָ עֶלְיוֹן עַל־כָּל־הָאָֽרֶץ” (ʾattâ šimkā YHWH ləḇaddêkā ʿelyôn ʿal-kol-hāʾāreṣ, “tu, cujo nome é YHWH, só tu, és Altíssimo sobre toda a terra”). O epíteto עֶלְיוֹן (ʿelyôn, “Altíssimo”) concentra a ideia de supremacia (soberania máxima) e universalidade (“sobre toda a terra”), funcionando como intensificação semântica do que as fórmulas “Yahweh é o Deus; não há outro” expressam em linguagem confessional e polêmica.
VI. Isaías 45:18: “Yahweh… ele é Elohim” e a criação “para habitação”
A formulação de Isaías 45.18 condensa, em sequência densa, predicações criacionais que funcionam como base argumentativa para a exclusividade de Yahweh no bloco imediato (“Eu sou Yahweh, e não há outro”). O versículo, na ARA, verte: “Porque assim diz o SENHOR, que criou os céus, o Deus que formou a terra, que a fez e a estabeleceu; que não a criou para ser um caos, mas para ser habitada: Eu sou o SENHOR, e não há outro.” A cadeia hebraica é marcada por uma série de particípios e verbos de feitura/estabelecimento, culminando na cláusula teleológica: לֹא־תֹהוּ בְרָאָהּ לָשֶׁבֶת יְצָרָהּ (lōʾ-tōhû bərāʾāh lāšeḇeṯ yəṣārāh, “não a criou como caos/vazio; formou-a para ser habitada”). Nessa sequência, תֹהוּ (tōhû, “caos/vazio”) contrasta com o propósito “para habitação”, e o paralelismo entre בָּרָא (bārāʾ, “criar”) e יָצַר (yāṣar, “formar/modelar”) reforça a ideia de criação como ato ordenado e intencional, não como mera produção bruta.
Um ponto de alto relevo para o campo semântico de ʾĕlōhîm (“Deus/deuses”) é a aposição explícita: הוּא הָאֱלֹהִים (hûʾ hāʾĕlōhîm, “ele é o Deus”). Não se trata apenas de atribuir a Yahweh qualidades de “força”; o enunciado identifica Yahweh como o referente próprio de “o Deus” em contraste implícito com outros possíveis ʾĕlōhîm do ambiente religioso. Nesse sentido, Isaías 45.18 não explora o plural morfológico como tema; ele explora a função identificadora do título: Yahweh é “o Deus” precisamente enquanto criador e ordenador do cosmos.
A relevância comparativa de versões aparece sobretudo na expressão negativa associada a תֹהוּ (tōhû). A KJV traduz “he created it not in vain”, deslocando o foco para “inutilidade” (“em vão”), enquanto ESV/NIV preferem “empty” (“vazia”), aproximando-se diretamente do campo semântico de “vazio/caos”. A diferença não é trivial: “em vão” pode sugerir ausência de finalidade; “vazia/caótica” enfatiza a recusa de um estado informe como produto final. O hebraico, pelo contraste com “para habitação”, sustenta fortemente a segunda ênfase: a terra não é “criada-resultado” como tōhû; ela é formada com destino habitacional. A Septuaginta, ao verter οὐκ εἰς κενὸν ἐποίησεν αὐτὴν ἀλλὰ κατοικεῖσθαι (ouk eis kenon epoiēsen autēn alla katoikeisthai, “não a fez para o vazio, mas para ser habitada”), confirma essa leitura ao escolher κενόν (kenon, “vazio”) como correlato de תֹהוּ (tōhû). Ao mesmo tempo, a LXX reexprime a identificação “ele é o Deus” em grego com θεός (theos, “Deus”), preservando a equivalência conceptual central para o trânsito semântico “ʾĕlōhîm → theos” em tradição helenística.
VII. Apocalipse 4.11: “Senhor e Deus” e a causalidade volitiva da criação
Apocalipse 4.11 reapresenta, no horizonte do culto celeste, a mesma lógica teológica que Isaías condensa em forma profética: o direito exclusivo de glória é ancorado na criação. Em português (NVI/NVT convergem substancialmente), o versículo é tipicamente vertido: “Tu és digno, ó Senhor e nosso Deus, de receber glória, honra e poder. Pois criaste todas as coisas, e elas existem porque as criaste segundo a tua vontade.” O texto grego (NA28) formula: ἄξιος εἶ, ὁ κύριος καὶ ὁ θεὸς ἡμῶν… ὅτι σὺ ἔκτισας τὰ πάντα, καὶ διὰ τὸ θέλημά σου ἦσαν καὶ ἐκτίσθησαν (axios ei, ho kyrios kai ho theos hēmōn… hoti sy ektisas ta panta, kai dia to thelēma sou ēsan kai ektisthēsan, “digno és, o Senhor e o nosso Deus… porque tu criaste todas as coisas, e por causa da tua vontade existiam e foram criadas”). Aqui, θεός (theos, “Deus”) aparece em coordenação com κύριος (kyrios, “Senhor”), e a fundamentação do louvor não é apenas o ato criador (κτίζω, ktizō, “criar”), mas a cláusula causal-volitiva: διὰ τὸ θέλημά σου (dia to thelēma sou, “por causa da tua vontade”).
É precisamente nesse ponto que a comparação de traduções é relevante. A KJV lê “for thy pleasure they are and were created”, enquanto ESV/NASB tendem a manter “by your will they existed and were created”, aproximando-se mais literalmente do grego θέλημα (thelēma, “vontade”). “Pleasure” pode sugerir tonalidade afetiva (“agrado”); “will” mantém o eixo volitivo e soberano (“decisão/querer”). O grego, pela construção causal διὰ + acusativo, favorece a leitura de causalidade fundada na vontade soberana como razão de ser do criado: não apenas “foram criadas”, mas “existiam” (ἦσαν, ēsan, “eram/existiam”) em dependência do querer divino, e então “foram criadas” (ἐκτίσθησαν, ektisthēsan, “foram criadas”). A duplicação verbal (“existiam” → “foram criadas”) intensifica a ideia de contingência radical do universo: ser e vir-a-ser são igualmente derivados do querer do “Senhor e Deus”.
No arco canônico, o efeito conceitual é nítido: Isaías 45.18 fundamenta a unicidade e exclusividade de Yahweh como “o Deus” na teleologia criacional (“para habitação”), enquanto Apocalipse 4.11 converte a mesma lógica em doxologia: o Criador é “digno” justamente porque toda a realidade criada depende de sua vontade. O vínculo lexical ʾĕlōhîm ↔ θεός (theos, “Deus”) não exige aqui um desvio sistemático à LXX; basta notar que a tradição grega do culto cristão formula, com θεός (theos, “Deus”) e κύριος (kyrios, “Senhor”), o mesmo núcleo teológico que o hebraico expressa ao identificar Yahweh como הָאֱלֹהִים (hāʾĕlōhîm, “o Deus”).
VIII. Plural numérico, singular retórico e o enquadramento jurídico do culto
A linguagem fundacional do Pentateuco estabelece, desde cedo, que o vocabulário de “deus/deuses” pode operar num registro judicial, em que “deuses” são, por definição, objetos de julgamento e não concorrentes reais de soberania. No contexto da páscoa, a sentença “executarei julgamentos sobre todos os deuses do Egito” faz do plural um alvo de intervenção histórica e de deslegitimação: “וּבְכָל־אֱלֹהֵי מִצְרַיִם” com אֱלֹהֵי (ʾĕlōhê, “deuses de”) governado por “Egito” não descreve uma ontologia do divino, mas um inventário cultual submetido ao ato punitivo de Yahweh.
Esse mesmo léxico é normatizado pela cláusula de exclusividade: “não haverá para ti outros deuses diante de mim”, em que אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “deuses”) recebe o qualificativo אֲחֵרִים (ʾaḥērîm, “outros”), construindo a noção de concorrência cultual como transgressão do pacto, e não como disputa entre potências equivalentes. A força do interdito reside no reposicionamento da categoria “deuses” como categoria de lealdade: o problema não é só o “muitos”, mas o “outros” frente à presença de Yahweh.
A mesma estratégia reaparece quando o texto restringe a produção material do culto: “não fareis para vós deuses de prata nem deuses de ouro”, em que “אֱלֹהֵי כֶסֶף” (ʾĕlōhê keseph, “deuses de prata”) e “אֱלֹהֵי זָהָב” (ʾĕlōhê zāhāb, “deuses de ouro”) deslocam o foco para a fabricação e, por consequência, para a dependência do ídolo em relação ao artesão. O plural aqui é abertamente numérico e material, reforçando a crítica anti-idolátrica por meio da redução do “deus” à sua substância e procedência.
Na formulação teológica de Deuteronômio, a exclusividade é expressa por uma superlativação de títulos: “Yahweh, vosso Deus, é Deus dos deuses e Senhor dos senhores”, onde “אֱלֹהֵי הָאֱלֹהִים” (ʾĕlōhê hāʾĕlōhîm, “Deus dos deuses”) e “הָאֵל הַגָּדֹל” (hāʾēl haggādōl, “o Deus grande”) articulam uma hierarquia discursiva: a categoria “deuses” é admitida como termo de referência sociocultual, mas é subordinada por uma construção genitiva que declara supremacia absoluta.
O ápice polêmico desse campo aparece quando o texto associa o culto concorrente a poderes espirituais degradados: “sacrificaram aos demônios, não a Deus”, com שֵּׁדִים (šēdîm, “demônios”) contrastando com a negação “לֹא אֱלֹהַּ” (lōʾ ʾĕlōah, “não Deus”) e, em seguida, com “אֱלֹהִים לֹא יְדָעוּם” (ʾĕlōhîm lōʾ yedāʿûm, “deuses que não conheceram”). Aqui, “deuses” já não é apenas plural numérico: é rótulo teológico de uma adoração desviada que, sob o ângulo bíblico, rebaixa o objeto do culto a uma mistura de novidade cultual e ignorância religiosa.
IX. “Deuses” como marcador de guerra, temor e propaganda imperial
Quando a narrativa descreve o pânico filisteu diante da arca, a frase “quem nos livrará da mão destes deuses?” usa “הָאֱלֹהִים הָאֵלֶּה” (hāʾĕlōhîm hāʾēlleh, “estes deuses”) para registrar percepção estrangeira e não definição israelita: o plural traduz a leitura político-religiosa do inimigo, que interpreta a presença de Yahweh em chave politeísta. A polêmica, portanto, pode operar por ironia narrativa: o texto preserva a linguagem do adversário para expor seu equívoco e, ao mesmo tempo, dramatizar o temor que o “nome” de Yahweh impõe no teatro de guerra.
No discurso assírio em 2 Reis, a propaganda imperial explora a experiência histórica das derrotas nacionais: “Acaso livraram os deuses das nações cada um a sua terra da mão do rei da Assíria?”, em que “אֱלֹהֵי הַגּוֹיִם” (ʾĕlōhê haggôyim, “deuses das nações”) funciona como categoria comparativa e instrumento de intimidação. A retórica presume equivalência entre Yahweh e os deuses locais vencidos; a resposta teológica do livro, porém, depende exatamente de negar essa equivalência, reconfigurando a história não como disputa de panteões, mas como prova da singularidade de Yahweh.
X. “Nada valem”: deslegitimação sapiencial e profética do panteão das nações
Nos Salmos, a comparação explícita “não há como tu entre os deuses, Senhor” retém o plural como linguagem de contraste para produzir exclusividade: “בָאֱלֹהִים” (bāʾĕlōhîm, “entre os deuses”) não concede legitimidade ontológica aos concorrentes, mas demarca a incomparabilidade de Yahweh por meio de uma comparação assimétrica. A teologia do louvor usa o vocabulário do ambiente religioso circundante como pano de fundo para afirmar singularidade.
Salmo 96 intensifica a deslegitimação com um jogo lexical: “pois todos os deuses dos povos são ídolos”, em que “כָל־אֱלֹהֵי הָעַמִּים” (kol ʾĕlōhê hāʿammîm, “todos os deuses dos povos”) é predicado por “אֱלִילִים” (ʾĕlîlîm, “ídolos/coisas vãs”). O efeito semântico é demolidor: o texto mantém “deuses” como rótulo sociológico, mas redefine sua realidade como “vazio” cultual. Por isso, traduções inglesas convergem no eixo “idols/meros ídolos” (NIV/NKJV/NLT), com algumas explicitando o valor depreciativo (“worthless, lifeless idols” na AMP).
Jeremias articula a mesma antítese em forma de credo: “Yahweh é Deus verdadeiro; é Deus vivente”, com “אֱלֹהִים אֱמֶת” (ʾĕlōhîm ʾĕmet, “Deus verdadeiro”) e “אֱלֹהִים חַיִּים” (ʾĕlōhîm ḥayyîm, “Deus vivente”) deslocando o debate do número para a qualidade: verdade e vida contra a inércia do ídolo. O versículo seguinte, em aramaico, formula a sentença de queda dos “deuses” fabricados: “אֱלָהַיָּא” (ʾĕlāhayyāʾ, “deuses”) “perecerão”, vinculando diretamente a crítica à incapacidade criadora (“não fizeram os céus e a terra”).
XI. Extensões no NT: “muitos deuses” e o “deus” como objeto de devoção
Em 1 Coríntios 8, a comunidade é situada num ambiente onde se fala de “muitos deuses e muitos senhores”, “πολλοὶ θεοὶ καὶ πολλοὶ κύριοι” (polloi theoi kai polloi kyrioi, “muitos deuses e muitos senhores”), mas o argumento reconstrói a identidade do culto cristão por uma rearticulação confessional: “εἷς θεὸς ὁ πατήρ” (heis theos ho patēr, “um só Deus, o Pai”) e “εἷς κύριος Ἰησοῦς Χριστός” (heis kyrios Iēsous Christos, “um só Senhor, Jesus Cristo”). A linguagem não nega que o mundo produza “deuses” como categoria socioreligiosa; redefine, porém, o “para nós” como critério de pertença e adoração.
A elasticidade semântica do termo “deus” aparece de modo incisivo quando “deus” designa o objeto efetivo do culto, mesmo que seja um apetite: “cujo deus é o ventre”, “ὧν ὁ θεὸς ἡ κοιλία” (hōn ho theos hē koilia, “cujo deus é o ventre”), descreve idolatria não como troca de panteão, mas como absolutização do desejo. Romanos reforça a mesma lógica ao afirmar que certos agentes “não servem a Cristo, mas ao seu próprio ventre”, “τῇ ἑαυτῶν κοιλίᾳ” (tē heautōn koilia, “ao seu próprio ventre”), tratando a “servidão” cultual como orientação prática da vida. Nesses textos, “deus” funciona como diagnóstico teológico do que governa a vontade e organiza a lealdade.
XII. Filiação celeste na narrativa primeva
Na sequência pré-abraâmica, a expressão “filhos de Deus” funciona como designação de um grupo supra-humano em contraste explícito com “filhas do homem”, e a construção hebraica está no estado de constructo com artigo no segundo termo: בְּנֵי־הָאֱלֹהִים (bənê-hāʾĕlōhîm, “filhos de Deus/deuses”). A forma é semanticamente classificatória (pertencimento a uma ordem), não genealógica no sentido biológico, e serve ao efeito narrativo de demarcar fronteiras entre domínios. O enunciado de Gênesis 6.2 (“viram... tomaram para si...”) pressupõe que o narrador espera que o leitor reconheça a categoria como inteligível dentro do universo do texto, sem necessidade de explicitação ontológica adicional (Gn 6.2). A repetição do mesmo sintagma em Gênesis 6.4 amarra a categoria “filhos de Deus” ao desenvolvimento do episódio e à memória etiológica do texto (“naqueles dias… também depois…”), indicando que o rótulo pertence ao vocabulário tradicional que o autor mobiliza para descrever uma intrusão de ordem não ordinária no mundo humano.
XIII. Linguagem de corte e conselho
O livro de Jó explicita, por meio de cenografia de corte, o “lugar” textual desses seres. Em Jó 1.6 e Jó 2.1, “os filhos de Deus” aparecem como assembleia que “vem apresentar-se” diante de Yahweh; a fórmula é estável e o texto a integra a um cenário de audiência: בְּנֵי הָאֱלֹהִים (bənê hāʾĕlōhîm, “filhos de Deus/deuses”). O ponto exegético decisivo aqui é funcional: o sintagma identifica participantes de um conselho celeste (uma “corte” narrativa) diante do qual se encena deliberação e autorização; a expressão não é mero ornamento poético, mas peça estrutural do enredo jurídico-teológico do livro (Jó 1.6; Jó 2.1). Em Jó 38.7, o mesmo campo lexical reaparece no registro da criação, com paralelismo entre “estrelas da manhã” e “filhos de Deus”, reforçando o valor de classe celeste e deslocando-o para uma moldura cosmogônica. A frase “todos os filhos de Deus jubilavam” (כָּל־בְּנֵ֥י אֱלֹהִֽים, kol-bənê ʾĕlōhîm, “todos os filhos de Deus/deuses”) fixa o sintagma como linguagem de assembleia celebrante, coerente com a ideia de testemunhas/participantes celestes na inauguração da ordem criada (Jó 38.7).
XIV. Linguagem de assembleia: julgamento “no meio” de ʾĕlōhîm
O Salmo 82 condensa, em forma máxima, a gramática da “assembleia” e a ambivalência controlada do termo ʾĕlōhîm. O versículo abre com ʾĕlōhîm como sujeito singular (“Deus”) e, em seguida, usa ʾĕlōhîm como coletivo plural no complemento locativo: אֱלֹהִים נִצָּב בַּעֲדַת־אֵל; בְּקֶרֶב אֱלֹהִים יִשְׁפֹּט (ʾĕlōhîm niṣṣāb baʿădat-ʾēl; bəqereb ʾĕlōhîm yišpōṭ, “Deus está de pé na assembleia de El; no meio de elohim julga”). A força exegética está na assimetria: o primeiro ʾĕlōhîm domina a cena como autoridade judicante; o segundo delimita o “meio” onde esse juízo ocorre, preservando a linguagem de conselho sem dissolver a supremacia do Deus de Israel (Sl 82.1).
XV. Linguagem de louvor celeste: vocativo aos “filhos dos poderosos”
Nos Salmos 29 e 89, a fórmula correlata “filhos dos poderosos/seres divinos” aparece como vocativo litúrgico que convoca o mundo celeste ao reconhecimento da glória de Yahweh: בְּנֵי אֵלִים (bənê ʾēlîm, “filhos dos poderosos/seres divinos”). Em Salmos 29.1, o paralelismo com “glória e força” situa os destinatários no horizonte de uma corte celeste que rende tributo, não de uma congregação humana. Em Salmos 89.6, a mesma expressão delimita o comparativo: “quem, nos céus, pode ser comparado a Yahweh? quem, entre os filhos dos poderosos, se lhe assemelha?”. O hebraico בִּבְנֵי אֵלִים (bibnê ʾēlîm, “entre os filhos dos poderosos/seres divinos”) opera como categoria de comparação máxima: mesmo no topo imaginável do mundo celeste, não há paridade com Yahweh, o que confere ao vocabulário de “filhos” um papel retórico de exclusividade, não de concorrência.
XVI. Dado hebraico, decisão tradutória da LXX e recepção neotestamentária
Em Salmos 8.5, a ambiguidade semântica é textual e deliberada: “fizeste-o um pouco menor que…” aparece com o termo ʾĕlōhîm: מֵאֱלֹהִים (mēʾĕlōhîm, “do que Deus/deuses/seres divinos”). No texto massorético exibido na Bíblia Hebraica Stuttgartensia, esse membro está na linha de “glória e honra”, sugerindo um contraste entre humanidade e esfera celeste, sem resolver por si só se o referente é “Deus” ou “seres divinos”. A LXX, porém, fixa uma interpretação: ἀγγέλους (angelous, “anjos”), traduzindo o comparativo como “um pouco menor que anjos”, isto é, reespecificando o termo hebraico para a categoria de mediadores celestes. A recepção em Hebreus segue essa decisão e cita o salmo com a mesma escolha lexical (“menos que anjos”), integrando-a ao argumento cristológico e antropológico do autor (Hb 2.6–8). Onde isso é decisivo para a leitura em português, convém registrar que uma tradição contemporânea verte o versículo como “apenas um pouco menores que Deus” (Sl 8.5, NVT), evidenciando que a tensão “Deus”/“seres celestes” permanece viva no nível tradutório.
Em Salmos 97.7, a mesma tensão reaparece em forma ainda mais concentrada: “prostrai-vos diante dele, todos os ʾĕlōhîm” — כָּל־אֱלֹהִים (kol-ʾĕlōhîm). No hebraico, o imperativo dirige-se a uma coletividade que pode ser lida como “deuses” (no sentido de seres da esfera celeste) ou, por extensão, como todo poder cultual rival que deve submeter-se ao reinado de Yahweh. A LXX elimina a polissemia ao traduzir diretamente por “anjos”: πάντες οἱ ἄγγελοι αὐτοῦ (pantes hoi angeloi autou, “todos os seus anjos”). É precisamente essa forma, centrada em “anjos”, que ecoa no emprego de Hebreus 1.6 (“adorem-no todos os anjos de Deus”), mostrando que a tradição textual grega fornece ao autor uma leitura já mediada: o “círculo celeste” convocado ao culto é explicitamente angelológico. Em português, a oposição pode ser percebida no próprio andamento do salmo em tradução moderna, onde o v. 7 introduz a vergonha dos idólatras e prepara a universalização do culto ao Deus rei (NVI/NVT).
XVII. Instâncias humanas com autoridade judicial em textos legais do Pentateuco
Nos materiais jurídico-casuísticos de Êxodo, o emprego de אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) pode designar uma instância humana investida de autoridade para decidir e sancionar, sem implicar ontologia divina no agente. A construção “trazer … ao(s) ʾĕlōhîm” aparece num procedimento formal de servidão permanente: “o seu senhor o levará” a הָאֱלֹהִים (hāʾĕlōhîm, “o Deus/os deuses”), antes de conduzi-lo à porta/ombreira para o rito (Êx 21.6). Nesse contexto, אֱלֹהִים funciona como polo de validação pública e jurídica — a decisão é “ratificada” sob a autoridade que representa a ordem de YHWH na comunidade, ainda que operacionalizada por agentes humanos. A semântica do termo, portanto, não é fixada apenas pelo lexema, mas pelo quadro institucional do rito e pelo gênero legal do texto, que desloca o foco do ser (“o que é”) para a competência (“quem decide e vincula”).
A passagem de depósito/guarda reforça essa leitura porque o texto explicita a dimensão adjudicatória: o caso é levado “aos ʾĕlōhîm” e o resultado envolve “condenação/declaração de culpa”. No hebraico de Êxodo 22 (numeração corrente 22.8–9; na versificação hebraica, o deslocamento pode variar em 1), a oração inclui o verbo no plural “declararem culpado” (יַרְשִׁיעֻן, yaršîʿûn) com אֱלֹהִים como sujeito sintático (“aquele a quem os ʾĕlōhîm declararem culpado”), o que favorece fortemente a leitura de um colegiado/instância humana (juízes/magistrados) e não de uma referência direta a Deus como sujeito gramatical. A combinação “processo → veredito → restituição em dobro” ancora o sentido em prática judicial concreta: ʾĕlōhîm nomeia a autoridade que vincula a sentença no âmbito da aliança.
Ainda em Êxodo 22.28, o paralelismo entre esfera divina e esfera civil torna-se programático: “a אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) não amaldiçoarás” é seguido por “e ao príncipe/líder do teu povo não maldirás”. A justaposição sugere uma ética de reverência à fonte última da norma e, simultaneamente, respeito às autoridades humanas por derivação representativa. A ambiguidade lexical (singular/plural semântico) é aqui funcional: o texto pode atingir ao mesmo tempo a irreverência contra Deus e a difamação de autoridades que exercem poder delegado. Mesmo quando traduções optam por “Deus” ou por “deuses”, o hebraico conserva a elasticidade do termo para cobrir o eixo “autoridade transcendente → autoridade institucional”.
XVIII. Moisés como “ʾĕlōhîm” para Faraó: representação, mediação e autoridade
O caso narrativo-institucional de Moisés explicita que ʾĕlōhîm pode operar como predicação funcional (“ser para alguém como ʾĕlōhîm”), não como atribuição de natureza. Em Êxodo 4.16, a relação comunicacional é estruturada assim: Aarão será “boca” de Moisés, e Moisés será “para ele” לֵאלֹהִים (lĕʾlōhîm, “como Deus/deuses”), isto é, a instância de comando e de emissão autorizada da palavra (Êx 4.16). O texto não descreve divinização; descreve uma assimetria de fala e autoridade: Moisés ocupa o lugar do emissor normativo, Aarão o do porta-voz.
Êxodo 7.1 radicaliza a fórmula ao transportá-la ao confronto político-teológico com o poder imperial: “eu te constituí” אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) “para Faraó” (Êx 7.1). A preposição relacional (“para Faraó”) delimita a predicação: Moisés será, aos olhos do rei, o agente investido de autoridade irresistível, enquanto Aarão será o “profeta” (porta-voz). O termo ʾĕlōhîm qualifica, nesse quadro, a força vinculante da mediação — Moisés representa Yahweh na arena pública e judicial do conflito, funcionando como instância de decisão, palavra e sinal, sem que o texto permita converter a metáfora institucional em ontologia divina.
XIX. Salmo 82 como caso-chave: “deuses” em cenário de julgamento
O Salmo 82 articula o uso de ʾĕlōhîm com um cenário explícito de tribunal. A abertura é deliberadamente densa: “אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) está de pé na assembleia de אֵל (ʾēl, “Deus/poderoso”); no meio de אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “deuses/autoridades”) ele julga” (Sl 82.1). A duplicação do lexema cria um efeito de contraste interno: há o ʾĕlōhîm que julga e há os ʾĕlōhîm “no meio” dos quais o julgamento ocorre; o restante do salmo (especialmente a censura à parcialidade e à opressão) torna natural a leitura de que os segundos são autoridades responsáveis por justiça social, ou seja, agentes humanos investidos de função judicial e falhando nela. O salmo, assim, opera uma “desacralização ética” do título: chamá-los ʾĕlōhîm não os exime; antes, aumenta a gravidade do seu desvio por exercerem autoridade representativa.
Em Salmos 82.6, a sentença “אֲנִי־אָמַרְתִּי אֱלֹהִים אַתֶּם (ʾĕlōhîm ʾattem, “vós sois deuses/autoridades”) e כולם “filhos do Altíssimo”” funciona como linguagem de investidura: a comunidade reconhece neles um estatuto elevado por função (julgam, governam, vinculam decisões), mas o próprio salmo impede a leitura ontológica ao conduzir à mortalidade e à queda (“morrereis como homens”, no fluxo imediato). O título, portanto, é honorífico-institucional e, simultaneamente, acusatório: “deuses” porque portadores de autoridade; culpados porque julgam injustamente.
XX. Recepção em João 10.34–35 e o alcance do argumento de Jesus
A releitura em João parte do dado linguístico-canônico: a Escritura chama certos destinatários de “deuses”. No texto grego, a citação é direta: θεοί (theoi, “deuses”) em “Ἐγὼ εἶπα· θεοί ἐστε” (Egō eipa: theoi este, “Eu disse: vós sois deuses”), e o argumento prossegue distinguindo o ato de nomeação (“a quem a palavra de Deus veio”) da impossibilidade de anular a Escritura (Jo 10.34–35). O raciocínio é jurídico-retórico: se o próprio corpus canônico emprega “deuses” para agentes humanos sob a palavra e a lei, a acusação de blasfêmia contra aquele que reivindica envio e consagração não pode ser construída como se o termo “Deus/deuses” fosse semanticamente unívoco e sempre ontológico. A força do argumento está na elasticidade controlada do vocabulário bíblico: “deuses” pode designar representantes autorizados sem colapsar a distinção Criador/criatura; logo, a acusação precisa demonstrar mais do que o simples uso de linguagem elevada.
XXI. Conexão temática com 2 Pedro 1.4 sem colapsar categorias
A referência a 2 Pedro 1.4 deve permanecer em nível de delimitação conceitual: ali, a participação é formulada em termos de “θείας κοινωνοὶ φύσεως” (theias koinōnoi physeōs, “participantes da natureza divina”), no contexto de promessas, fuga da corrupção e transformação moral. O texto não reclassifica magistrados como ʾĕlōhîm por função institucional; tampouco universaliza a linguagem de Salmos 82 como “deificação automática”. Trata-se de dois campos semânticos distintos: (i) linguagem de investidura/representação e autoridade judicial no AT; (ii) linguagem soteriológica e ética de comunhão/participação no NT, com horizonte de santidade e conformidade. A aproximação é possível como analogia temática (“participação” e “representação”), mas a exegese dos próprios textos exige manter separadas as categorias de vocação institucional e de participação salvífica.
XXII. Necromancia e linguagem visionária: o “referente” em 1 Samuel 28.13–14
O ponto exegético decisivo, aqui, é que o relato não oferece uma descrição “neutra” do que foi visto, mas a linguagem de uma cena visionária mediada por uma necromante, cuja percepção é verbalizada em termos potencialmente ambíguos. A fala da mulher emprega a forma plural אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) com predicação verbal igualmente plural: “אֱלֹהִים רָאִיתִי עֹלִים מִן־הָאָרֶץ” (ʾĕlōhîm rāʾîtî ʿōlîm min-hāʾāreṣ, “vi ʾĕlōhîm subindo da terra”), onde o particípio עֹלִים (ʿōlîm, “subindo”) concorda formalmente no plural. Esse acoplamento (nome formalmente plural + predicação plural) torna metodologicamente frágil reduzir o enunciado, de imediato, a um singular inequívoco (“um ser”) sem ao menos registrar que o texto, no nível gramatical, apresenta pluralidade.
A própria progressão narrativa, entretanto, tensiona uma leitura simplesmente “plural-numérica”. A sequência imediata desloca o foco para um referente singular: “אִישׁ זָקֵן עֹלֶה” (ʾîš zāqēn ʿōleh, “um homem velho está subindo”), e a pergunta de Saul é formulada em chave singular (“qual é a sua aparência?”), conduzindo o leitor a uma identificação individualizada. Do ponto de vista da classificação semântica do emprego de אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) nesse contexto, o dado mais seguro é o seguinte: o texto combina (i) uma rotulação visionária em plural (a fala da médium) e (ii) uma narrativização subsequente que converge para um indivíduo (a descrição do “homem velho”). O fenômeno deve ser registrado como “ocorrência limítrofe” porque a gramática do enunciado visionário e a individuação do enredo posterior não se deixam harmonizar por uma única paráfrase sem perdas.
Aqui, a comparação de traduções é realmente relevante porque evidencia, de modo auditável, que o problema não é “capricho moderno”, mas um ponto reconhecido pela tradição tradutória. A NIV verte: “I see a ghostly figure…”, e anota explicitamente alternativas (“spirits”; “gods”), sinalizando que o hebraico permite mais de uma decisão de referente na superfície. Esse tipo de nota é indício textual importante: o tradutor não está apenas “interpretando”, mas admitindo que a forma hebraica (plural + predicação plural) pressiona contra uma escolha única sem qualificação.
Critério operacional para lidar com esse tipo de caso é manter separados dois níveis: no nível morfossintático, a fala “codifica” pluralidade (אֱלֹהִים… עֹלִים). No nível referencial-discursivo, o enredo “ancora” o episódio num indivíduo que será reconhecido e interrogado. Em termos exegéticos, isso autoriza tipologias interpretativas concorrentes (plural numérico; plural categorial “seres divinos”; plural intensivo; plural indeterminado visionário), mas impede que qualquer delas seja apresentada como “resultado obrigatório” do texto, porque o próprio texto preserva a ambiguidade como traço narrativo.
XXIII. Concordância verbal “fora do padrão”: Gênesis 20.13 e a fricção entre forma e sentido
Em Gênesis 20.13, a dificuldade não é visionária, mas gramatical. A cláusula contém um verbo no plural governando um sujeito formalmente plural אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”): “וַיְהִי כַּאֲשֶׁר הִתְעוּ אֹתִי אֱלֹהִים מִבֵּית אָבִי” (vayhî kaʾăšer hitʿû ʾōtî ʾĕlōhîm mibbêt ʾābî, “e aconteceu que, quando ʾĕlōhîm me fizeram errar/andar vagando da casa de meu pai…”). A forma verbal הִתְעוּ (hitʿû, “fizeram errar/causaram vaguear”) é morfologicamente plural, criando um caso clássico de tensão entre concordância formal (o verbo “segue” a forma plural do substantivo) e referência contextual (o discurso do episódio, como um todo, trata Deus como agente único no trato com Abraão).
O valor exegético desse dado não está em “provar” pluralidade ontológica do referente — inferência que o contexto imediato não exige —, mas em mostrar que o hebraico bíblico pode, em certos pontos, oscilar entre concordância semântica (frequentemente singular com אֱלֹהִים) e concordância morfológica (plural com אֱלֹהִים), sem que isso, por si só, defina o referente como múltiplo. O que se pode afirmar com lastro textual é apenas: nesta ocorrência, a gramática expõe a “pluralidade formal” de אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) de modo mais visível do que nos casos em que o predicado vem no singular. Qualquer explicação histórica (“arcaísmo”, “interferência de fórmulas”, “resquício de linguagem de conselho divino”) seria, aqui, hipótese — e, portanto, só deve entrar como inferência explicitamente marcada, não como conclusão necessária do verso.
Critério de classificação, portanto: quando אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) tem referente inequívoco pelo co-texto (o Deus que fala, promete, intervém), mas aparece com concordância plural, a anotação correta é “referente singular com concordância formal plural”, preservando o dado gramatical em vez de neutralizá-lo.
XXIV. Paralelismo poético e juízo
No fecho do Salmo 58, a formulação hebraica condensa a tensão num único sintagma: “אַךְ יֵשׁ־אֱלֹהִים שֹׁפְטִים בָּאָרֶץ” (ʾaḵ yēš-ʾĕlōhîm šōp̄ṭîm bāʾāreṣ, “certamente há ʾĕlōhîm julgando na terra”), com o particípio plural שֹׁפְטִים (šōp̄ṭîm, “julgando/julgadores”) associado a אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”). É precisamente o tipo de verso que impede uma regra simplista (“sempre majestático” vs “sempre plural real”), porque a poesia pode conservar ambiguidade deliberada: tanto pode ser lido como afirmação de que há um Deus que exerce juízo efetivo na terra, quanto como afirmação de que há “instâncias divinas/julgadoras” (ou “deuses” no sentido de poderes) que respondem pelo juízo — leitura que, em termos estritamente formais, se ajusta à pluralidade do particípio.
Aqui a Septuaginta é realmente útil porque documenta uma decisão interpretativa antiga que resolve a tensão em direção ao singular monoteísta: “ἄρα ἐστὶν ὁ θεὸς κρίνων αὐτοὺς ἐν τῇ γῇ” (ara estin ho theos krinōn autous en tē gē, “portanto existe o Deus que os julga na terra”). A mesma página preserva, em paralelo, a solução inglesa clássica da KJV no mesmo sentido (“a God that judgeth in the earth”), reforçando que a tradição tradutória majoritária optou por ler o hebraico como singular semântico, ainda que a morfologia hebraica, tomada isoladamente, não force essa escolha.
Para fins exegéticos, o procedimento mais controlado é tratar o verso como um caso de “limite”: (i) a superfície hebraica registra pluralidade (אֱלֹהִים + שֹׁפְטִים); (ii) a tradição grega antiga reinterpreta com singular explícito (ὁ θεός + particípio singular κρίνων); (iii) o contexto do salmo, centrado em juízo e retribuição, fornece motivação teológica para a leitura singular (“há um Deus que faz justiça”), sem eliminar a possibilidade de que o poeta esteja explorando, retoricamente, a linguagem de “poderes/julgadores” para denunciar e, ao mesmo tempo, afirmar a realidade do juízo.
Observação de numeração necessária para evitar ruído: o versículo citado como Salmo 58.11 em muitas traduções corresponde ao 58.12 na numeração do texto hebraico exibido na BHS.
XXV. Títulos com ʾēl e teologia dos epítetos
A concentração de fórmulas com ʾēl em Gênesis e Isaías não opera como “sinônimo” indiferente do Nome, mas como cristalização literária de atributos/ações em cenas-chave: bênção sacerdotal e juramento (Gênesis 14.18–22), nomeação experiencial de Deus no encontro no deserto (Gênesis 16.13), autoidentificação divina no rito de aliança (Gênesis 17.1), invocação cultual vinculada à duração do pacto (Gênesis 21.33), rebatismo do lugar como memória de teofania (Gênesis 35.7) e entronização régia por meio de uma cadeia de títulos (Isaías 9.6). O traço comum é sintático e discursivo: ʾēl funciona como “núcleo titular” que admite qualificadores (adjetivos, genitivos e compostos toponímicos), enquanto יהוה (Yahweh) aparece como Nome próprio que pode coocorrer com o título, produzindo enunciados teológicos densos sem dissolver a identidade do Deus de Israel.
A. ʾēl ʿelyôn e a soberania cósmica na bênção e no juramento
No núcleo de Gênesis 14.18–22, a expressão לְאֵל עֶלְיוֹן (ʾēl ʿelyôn, “Deus Altíssimo”) aparece em um quadro de mediação sacerdotal: Melquisedeque é descrito como כֹהֵן לְאֵל עֶלְיוֹן (kōhēn leʾēl ʿelyôn, “sacerdote do Deus Altíssimo”), e a bênção invoca “Altíssimo” como fundamento da elevação de Abraão (Gn 14.18–20). A qualificação seguinte, קֹנֵה שָׁמַיִם וָאָרֶץ (qōnēh šāmayim wāʾāreṣ, “possuidor de céus e terra”), determina semanticamente a soberania do título: a força do epíteto não é apenas hierárquica (“mais alto”), mas cosmológica (“senhorio” sobre o todo criado).
A própria construção do discurso se adensa quando Abraão, no juramento, faz a coocorrência explícita do Nome e do título: אֶל־יְהוָה אֵל עֶלְיוֹן (ʾel-YHWH ʾēl ʿelyôn, “a Yahweh, Deus Altíssimo”), retomando a mesma cláusula cósmica קֹנֵה שָׁמַיִם וָאָרֶץ (qōnēh šāmayim wāʾāreṣ, “possuidor de céus e terra”) (Gn 14.22). Nesse ponto, o título não substitui o Nome: ele o “qualifica” e o projeta no registro público da aliança e da ética da posse (“não tomarei…”, em sequência), de modo que a transcendência (“Altíssimo”) e o senhorio (“céus e terra”) funcionam como base retórica do compromisso.
A Septuaginta preserva o movimento, mas faz uma escolha interpretativa relevante para a semântica de קֹנֵה (qōnēh): onde o hebraico pode ser lido como “possuir”/“adquirir”, o grego explicita criação: θεοῦ τοῦ ὑψίστου (theou tou hypsistou, “do Deus Altíssimo”) e ὃς ἔκτισεν τὸν οὐρανὸν καὶ τὴν γῆν (hos ektisen ton ouranon kai tēn gēn, “que criou o céu e a terra”) (Gn 14.18–20 LXX). O efeito é teológico: o “Altíssimo” é lido como Criador, e o epíteto passa a carregar, por via tradutória, uma ênfase cosmogônica explícita.
B. ʾēl roʾî e a teologia do ver que funda nomeação
Gênesis 16.13 registra uma nomeação direta, com segunda pessoa: אַתָּה אֵל רֳאִי (ʾattāh ʾēl roʾî, “tu és Deus que vê”). A forma רֳאִי (roʾî, “meu ver/aquele que me vê”, conforme a análise morfossintática do sufixo e do contexto) concentra a experiência narrada: a fala de Agar não descreve um atributo abstrato, mas transforma um acontecimento (“ser vista” e sobreviver ao encontro) em título. O epíteto é, portanto, uma “memória verbal” condensada: Deus é confessado como aquele cuja percepção alcança o indivíduo vulnerável no espaço liminar do deserto.
A LXX torna explícito esse vetor experiencial ao verter a cena em termos de “olhar sobre”: Σὺ ὁ θεὸς ὁ ἐπιδών με (Sy ho theos ho epidōn me, “tu és o Deus que me viu / olhou para mim”). Essa escolha reforça que o título nasce de um ato divino concreto (um “olhar efetivo”), não apenas de uma qualidade ontológica. Aqui, a comparação de traduções é materialmente relevante porque elas deixam transparecer a diferença entre “ver” como constatação e “ver” como cuidado: KJV conserva a forma confessional “Thou God seest me”, enquanto NIV atualiza para “You are the God who sees me” (Gn 16.13). A divergência não altera o núcleo, mas evidencia o caráter titular do enunciado: não é mero predicado (“Deus vê”), e sim nomeação (“tu és o Deus que…”).
C. ʾēl šadday como autoidentificação no início da aliança
Em Gênesis 17.1, o título aparece como autoapresentação divina: אֲנִי־אֵל שַׁדַּי (ʾănî-ʾēl šadday, “eu sou Deus Todo-Poderoso”). A sintaxe “eu sou X” posiciona o epíteto como fundamento do imperativo que segue (hísteron na cadeia verbal): a exigência “andar na presença” e “ser íntegro” é ancorada no ser-poder do Deus que estabelece pacto. O texto, assim, conecta o título não a uma especulação etimológica, mas a uma função discursiva: šadday opera como credencial de eficácia do compromisso assumido.
A tradição grega, ao menos neste ponto, mostra uma acomodação: o enunciado é reexpresso como Ἐγώ εἰμι ὁ θεός σου (Egō eimi ho theos sou, “eu sou o teu Deus”) (Gn 17.1 LXX). O efeito é um deslocamento do foco: a LXX enfatiza a relação (“teu Deus”) mais do que o qualificativo específico. Já a KJV mantém o epíteto em inglês como “God Almighty”. Para a leitura exegética, isso importa porque evidencia duas linhas de inteligibilidade do título: (i) como qualificação de potência (hebraico), (ii) como garantia relacional de pertença (grego).
D. ʾēl ʿōlām e o horizonte temporal do culto
Gênesis 21.33 associa a invocação ao gesto cultual e à fixação do lugar: “ali invocou o Nome” e o faz como יְהוָה אֵל עוֹלָם (Yahweh ʾēl ʿōlām) (Gn 21.33). O epíteto אֵל עוֹלָם (ʾēl ʿōlām, “Deus eterno”) qualifica o Nome por uma categoria temporal totalizante: ʿōlām não é apenas “muito tempo”, mas o horizonte indefinido que permite falar de fidelidade que atravessa gerações. O encaixe com o contexto narrativo é estrutural: após conflitos e pactos de convivência, a invocação projeta a história particular sob a durabilidade do Deus que sustenta o futuro. A LXX é transparente e, aqui, mantém o valor temporal do qualificativo: θεὸς αἰώνιος (theos aiōnios, “Deus eterno”). A equivalência reforça que o epíteto não é ornamental: ele nomeia Deus segundo a dimensão temporal em que a promessa e a aliança são inteligíveis.
E. ʾēl bêṯ-ʾēl e a toponímia como teologia da presença
Gênesis 35.7 apresenta um composto que liga ʾēl ao lugar: אֵל בֵּית־אֵל (ʾēl bêṯ-ʾēl, “Deus de Betel”) (Gn 35.7). O texto justifica o título com uma oração causal: “porque ali Deus se revelou” (no mesmo versículo, com הָאֱלֹהִים, hāʾĕlōhîm, “o Deus”). Assim, o epíteto não “localiza” Deus no sentido de restringi-lo a um território, mas ancora a memória da revelação: o lugar é rebatizado como índice narrativo da iniciativa divina. A teologia do epíteto é, portanto, memorial e litúrgica: o altar e o nome do lugar organizam a continuidade da experiência do patriarca em forma transmissível. A LXX confirma a leitura memorial ao verter a forma como título do lugar com “Deus” + topônimo: ὁ θεὸς Βαιθηλ (ho theos Baithēl, “o Deus de Betel”). A tradução conserva o núcleo semântico: o epíteto é um “marco” da história sagrada, não uma tese geográfica sobre a divindade.
F. Isaías 9.6 e a cadeia de títulos: ʾēl gibbôr em tensão com a tradição LXX e as versões vernáculas
Em Isaías 9.6, os títulos não são um epíteto isolado, mas uma cadeia onomástica: פֶּלֶא יוֹעֵץ (peleʾ yōʿēṣ, “Maravilhoso Conselheiro”), אֵל גִּבּוֹר (ʾēl gibbôr, “Deus Poderoso”), אֲבִי־עַד (ʾăvî-ʿad, “Pai da Eternidade”) e שַׂר־שָׁלוֹם (śar-šālôm, “Príncipe da Paz”). Do ponto de vista sintático, a sequência funciona como nomeação programática do governante davídico ideal: cada título abre uma dimensão (sabedoria, potência, temporalidade, ordem pacífica) e, em conjunto, constrói uma teologia régia em que o reinado é descrito por atributos que pertencem, em última instância, ao próprio Deus. A presença de אֵל (ʾēl) dentro da cadeia é o ponto mais denso: gibbôr (גִּבּוֹר, gibbôr, “forte/herói”) qualifica o termo, e o sintagma pode ser lido como atribuição máxima de poder ao rei, no registro teológico do profeta.
Aqui a LXX não é acessória, porque ela reconfigura a cadeia de modo interpretativo e, por isso, ilumina o campo de recepção antiga do texto. O grego introduz Μεγάλης Βουλῆς Ἄγγελος (megalēs boulēs angelos, “mensageiro de grande conselho”) e inclui Θεὸς Ἰσχυρός (theos ischyros, “Deus forte”) e Πατὴρ τοῦ μέλλοντος αἰῶνος (patēr tou mellontos aiōnos, “pai do século vindouro”), entre outros elementos. A oscilação mostra que o tradutor grego não apenas “verteu palavras”, mas rearranjou títulos para produzir inteligibilidade teológica no seu horizonte: o hebraico concentra a cadeia em fórmulas nominais; o grego introduz categorias como “mensageiro” e “conselho”, repondo o eixo da mediação.
A comparação de versões modernas é especialmente relevante neste versículo porque as escolhas de capitalização e de equivalência lexical podem sugerir leituras diferentes (título divino direto vs. título régio hiperbólico). KJV/ESV preservam “Mighty God” no centro (“…and his name shall be called Wonderful Counsellor, The mighty God…”), enquanto NIV mantém “Mighty God” em moldura similar, e NLT explicita o caráter de “títulos honoríficos” (“He will be called…”), com variação de termos ao redor. Em português, ARA/ACF também mantêm “Deus Forte”/“Deus forte” como equivalência central, preservando a proximidade formal com אֵל גִּבּוֹר (ʾēl gibbôr, “Deus Poderoso”). Esse bloco comparativo é hermeneuticamente decisivo porque explicita a ambiguidade controlada do hebraico: o texto poético-profético emprega linguagem de entronização que pode soar “divinizante”, e as versões, ao manterem “Deus forte/poderoso”, reconhecem que o sintagma não se reduz facilmente a “herói poderoso” sem perda do impacto semântico do lexema אֵל (ʾēl).
G. Nome e título: coocorrência, não competição
O padrão que emerge dos núcleos analisados é a coocorrência funcional: יהוה (Yahweh) pode ser invocado com epíteto de ʾēl (יְהוָה אֵל עוֹלָם, YHWH ʾēl ʿōlām, “Yahweh, Deus eterno”, em Gn 21.33) e pode ser o objeto do juramento enquanto “Altíssimo” (אֶל־יְהוָה אֵל עֶלְיוֹן, ʾel-YHWH ʾēl ʿelyôn, “a Yahweh, Deus Altíssimo”, em Gn 14.22). O título, assim, não “explica” o Nome como etimologia, mas o expõe em ângulos teológicos: soberania cósmica (ʾēl ʿelyôn), visão providente (ʾēl roʾî), potência pactual (ʾēl šadday), duração da fidelidade (ʾēl ʿōlām), memória da revelação (ʾēl bêṯ-ʾēl). Essa dinâmica explica por que o discurso bíblico alterna Nome e títulos sem cair em equivalência vazia: o Nome identifica; o título predica de modo condensado, anexando à identidade divina um recorte de ação, atributo e relação que o texto quer salientar naquele ponto da narrativa ou do oráculo.
XXVI. ʾĕlōhîm e as opções interpretativas da LXX
O ponto de fricção em (Sl 8.5) nasce do choque entre forma e referente. O hebraico emprega אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “Deus/deuses”) em uma construção comparativa (“por um pouco abaixo de…”), onde o termo pode funcionar, no próprio hebraico bíblico, tanto como designação do Deus de Israel quanto como categoria de seres do âmbito divino (o texto, por si só, não “explicita” a ontologia do comparativo; é precisamente aí que a tradução se torna interpretação). Nesse lugar, a LXX não escolhe a equivalência direta θεός (theos, “Deus”) nem o plural θεοί (theoi, “deuses”); ela opta por ἄγγελος/ἄγγελοι (angelos/angeloi, “anjo/anjos”), isto é, resolve a ambiguidade por uma leitura “angelológica”, deslocando o comparativo para uma hierarquia de mediação (humano abaixo de anjos) em vez de uma comparação imediata com “Deus/deuses”.
Essa decisão não fica confinada ao Saltério grego: Hebreus 2 constrói sua argumentação a partir da forma grega do Salmo, de modo que a frase decisiva do catena passa a gravitar em torno de “anjos” como termo técnico do rebaixamento temporário e da posterior entronização (Hb 2.6–8). A consequência exegética é estrutural: o “por um pouco” deixa de ser apenas uma reflexão antropológica (humanidade em geral) e torna-se, no fluxo do capítulo, um marcador de economia salvífica (humilhação → exaltação), com “anjos” funcionando como patamar comparativo objetivo na narrativa cristológica.
A. Salmos 97.7, a releitura grega e Hebreus 1.6: de “todos os deuses” a “todos os anjos”
A linha de Salmos 97.7 é, no hebraico, surpreendentemente frontal: ela convoca a adoração de Yahweh por parte de todos os “deuses”, pois o imperativo de prostração/adoração recai sobre o conjunto expresso por אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “deuses”) em contexto de humilhação de ídolos e supremacia divina. No texto hebraico, portanto, a força retórica depende do contraste: quem é chamado de “deus” (no registro polêmico do Salmo) é justamente convocado a reconhecer, pela adoração, a superioridade do Deus de Israel.
A LXX, porém, reconfigura o sujeito do imperativo: em vez de “deuses”, lê-se “anjos” no lugar correspondente (no Saltério grego, isso aparece em Salmo 96 na numeração da LXX), preservando o gesto de adoração, mas substituindo o conjunto potencialmente “teologicamente áspero” por um conjunto compatível com um monoteísmo sem tensão lexical: “todos os anjos dele”. O efeito hermenêutico é duplo e controlado: evita-se que o leitor grego ouça, no plural “deuses”, qualquer concessão ontológica à divindade de outros entes; ao mesmo tempo, mantém-se uma cena de corte celeste em que seres superiores ao humano (anjos) reconhecem a soberania do Deus único.
É exatamente essa moldura que se torna decisiva na recepção cristã primitiva: Hebreus 1.6 coloca a ordem de adoração na boca da Escritura para marcar, não apenas a legitimidade, mas a necessidade de que “anjos” adorem o Filho — e isso serve ao argumento maior do capítulo, que é demonstrar a superioridade do Filho sobre os anjos. A literatura crítica observa, com razão, que a redação de Hebreus 1.6 se aproxima do tema de Salmos 97.7 (na forma LXX), e também de tradições textuais da LXX em Deuteronômio 32.43, de modo que a formulação funciona como convergência de testemunhos na tradição grega.
Nesse ponto, a comparação de versões modernas expõe o lugar exato onde a tradução “denuncia” a decisão interpretativa: a ESV mantém a transparência do hebraico em Salmos 97.7 com “gods”, preservando a agressividade do Salmo contra as divindades cultuais (“worship him, all you gods!”). Já em Hebreus 1.6, a tradição de tradução converge quase inevitavelmente para “angels”, porque ali o próprio texto grego do NT fixa o vocabulário da cena (anjos adorando). Assim, onde o AT hebraico pode soar “polêmico” (deuses que devem adorar), a LXX oferece uma leitura “celestial” (anjos), e o NT explora essa leitura como peça de uma cristologia de entronização.
B. João 10.34–35 e o pano de fundo de Salmos 82
João 10.34–35 introduz um terceiro cenário, em que a equivalência ʾĕlōhîm → theoi não é evitada, mas preservada e argumentativamente explorada. Jesus cita a fórmula “Eu disse: vós sois deuses” com θεοί (theoi, “deuses”) como citação escriturística e, em seguida, ancora o raciocínio na tese de que a Escritura “não pode ser anulada”. A própria forma citada corresponde diretamente ao grego do Salmo na LXX (numeração grega: Salmo 81), onde se lê ἐγὼ εἶπα· θεοί ἐστε (egō eipa: theoi este, “eu disse: vós sois deuses”). No hebraico (Salmo 82), a mesma linha traz אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “deuses”) aplicado a destinatários humanos em um contexto de acusação e juízo — o Salmo inteiro encena um tribunal em que Deus julga os “elohim” por injustiça, parcialidade e abandono do fraco, o que já limita semanticamente a palavra ao campo funcional/jurídico (autoridade investida e responsabilizada), não ao campo ontológico (divindade por natureza).
A utilidade exegética disso é mostrar que a LXX não segue um algoritmo simples (“sempre singular quando Deus, sempre plural quando deuses”). Há pelo menos dois movimentos distintos, ambos teologicamente orientados e textualmente sensíveis: (i) em certos pontos, a LXX “desativa” o plural por meio de uma categoria alternativa (como “anjos” no lugar de “deuses”) para estabilizar a leitura monoteísta em cenas de culto e adoração; (ii) em outros, ela preserva o plural θεοί (theoi, “deuses”) quando o próprio texto hebraico usa אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm, “deuses”) para designar autoridades humanas sob julgamento, justamente porque aí o plural não ameaça o monoteísmo, mas intensifica a ironia judicial: “deuses” que morrem “como homens” (a antítese do Salmo). Essa preservação é a base do argumento de João 10: se a Escritura pôde empregar “deuses” para receptores da palavra divina em um registro jurídico, a acusação de blasfêmia contra o Filho (no contexto imediato) precisa ser reavaliada à luz do próprio uso bíblico do vocabulário.
XXVII. “-el” como elemento teofórico produtivo: tipologia e valores semânticos
O componente teofórico “-el” tem como base o substantivo semítico para “Deus”, אֵל (ʾēl), que pode aparecer como sufixo, como prefixo, ou como segundo membro de compostos onomásticos. A produtividade desse elemento se percebe, antes de tudo, na forma: nomes terminados em “-el” tipicamente sinalizam que o referente “Deus” está gramaticalmente embutido na própria estrutura do nome, mas isso não obriga o intérprete a tratar o nome como uma “definição” doutrinal completa. Em termos de tipologia, dois valores semânticos do repertório bíblico são especialmente transparentes quando o texto fornece apoio interno: (i) nomes que preservam uma relação verbal (por exemplo, “lutar/contender com Deus”) e (ii) nomes construídos como interrogativos (por exemplo, “Quem/Que é como Deus?”), em que o nome funciona como fórmula retórica condensada. O caso de “Israel” pertence ao primeiro tipo por conter uma etimologia narrativa explicitada pelo próprio contexto; já formas como “Mishael” pertencem ao segundo tipo por exibirem o padrão interrogativo “mi-” (quem/que) + comparativo + “-el”, mesmo quando o narrador não “traduza” o nome no corpo do versículo (Dn 1.6).
A. Distinção necessária: onomástica e teologia explícita (nome ≠ definição)
A Escritura pode utilizar nomes como marcadores de identidade, memória e pertencimento cultual, sem transformar automaticamente cada nome teofórico em enunciado teológico normativo. A distinção se torna metodologicamente inevitável quando o próprio texto mostra que nomes são intercambiáveis por razões políticas e culturais. Em Daniel 1.6–7, quatro jovens judaítas são apresentados com nomes hebraicos, e imediatamente recebem nomes babilônicos; a cena, por sua construção, indica que o nome funciona como campo de disputa simbólica: ao trocar o nome, troca-se o “sinal público” de lealdade e inscrição cultural.
O ponto hermenêutico, portanto, é negativo e positivo ao mesmo tempo: negativo, porque não se pode inferir uma doutrina completa apenas do componente “-el”; positivo, porque, quando um texto associa nomeação/renomeação a conflito de pertencimento, a teoforia passa a operar como indício contextual relevante (ainda assim, indício, não definição).
B. Séries representativas com amostras controladas
No Pentateuco, Gênesis 32.28 é exemplar porque o texto não apenas registra o nome, mas oferece uma motivação interna para ele. A forma hebraica יִשְׂרָאֵל (yiśrāʾēl, “Israel”) aparece ligada à explicação “porque lutaste com Deus”, onde “Deus” é expresso por אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm) e o verbo de contenda sustenta a leitura onomástica no próprio fluxo narrativo: “לֹא יַעֲקֹב … כִּי אִם יִשְׂרָאֵל … כִּי־שָׂרִיתָ עִם־אֱלֹהִים” (lōʾ yaʿăqōb … kî ʾim yiśrāʾēl … kî-śārîtā ʿim-ʾĕlōhîm — “não [será] Jacó… mas Israel… porque lutaste com Deus”). Nessa passagem, a comparação de versões é relevante porque expõe duas escolhas interpretativas recorrentes ao verter a cláusula explicativa: a KJV preserva um tom honorífico (“as a prince…”) ao lado do conflito (“power with God”), enquanto a ESV mantém a ideia de contenda (“you have striven with God”) de modo mais “verbal” e menos honorífico. Essa divergência não altera o dado formal (o “-el” permanece), mas altera a ênfase com que o leitor percebe a motivação do nome: “status” versus “conflito”, ambos compatíveis com o quadro do texto, porém com pesos diferentes.
Ainda no Pentateuco, a onomástica de listas é um terreno privilegiado para observar produtividade sem extrapolar teologia: Números 1 concentra uma amostragem densa de nomes tribais e de lideranças, e, dentro desse conjunto, aparecem repetidamente nomes com “-el” ou com “El-” (por exemplo, אֱלִיצוּר ʾĕlîṣûr, “Elizur”; שְׁלֻמִיאֵל šelummîʾēl, “Shelumiel”; נְתַנְאֵל nətanʾēl, “Nethanel”; אֱלִיאָב ʾĕlîʾāb, “Eliab”; אֱלִישָׁמָע ʾĕlîšāmāʿ, “Elishama”; גַּמְלִיאֵל gaṃlîʾēl, “Gamaliel”; פַּגְעִיאֵל pagʿîʾēl, “Pagiel”; אֱלִיאָסָף ʾĕlîʾāsāp̄, “Eliasaph”), o que evidencia produtividade morfológica do teofórico em ambiente de registro administrativo e genealógico, sem exigir que cada ocorrência seja lida como “confissão” explícita.
Nos Profetas/Escritos, Daniel 1.6–7 é especialmente instrutivo por reunir, no mesmo parágrafo, teoforia hebraica e substituição por teoforia babilônica. O texto apresenta דָּנִיֵּאל (dānîʾēl, “Daniel”) e מִישָׁאֵל (mîšāʾēl, “Mishael”) com o elemento “-el”, e, em seguida, registra a imposição de nomes como בֵּלְטְשַׁאצַּר (bēlṭəšaṣṣar, “Beltesazar”) e נְבוּ־… (no nome “Abede-Nego”, com o elemento “Nebo”), produzindo um contraste explícito entre teoforia israelita e inscrição cultual imperial (Dn 1.6–7). Aqui a comparação ARA/NVI é relevante porque ambas preservam claramente a sequência “nome hebraico → nome babilônico” sem diluir a estrutura do episódio, o que reforça a leitura do texto como cenário de reetiquetagem identitária, e não como simples detalhe biográfico.
No NT, o dado decisivo é a continuidade do repertório teofórico hebraico por meio de transliterações gregas em contextos narrativos. Em Lucas 1, Γαβριήλ (Gabriēl, “Gabriel”) aparece em cena de anúncio e autoridade (“Eu sou Gabriel…”, Lc 1.19; e novamente no envio a Nazaré, Lc 1.26), preservando no nível do nome a terminação -ήλ que corresponde, historicamente, ao “-el” hebraico, mesmo que o texto grego não “explique” o nome como Gênesis faz com “Israel”. Nesse ponto, a teoforia opera mais como continuidade cultural-linguística do universo bíblico do que como definição teológica: o nome é portador de tradição e identificação, e a teologia explícita do episódio se comunica prioritariamente por atos de fala, conteúdo do anúncio e moldura narrativa, não pela morfologia do nome.
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Cite este artigo:
GALVÃO, Eduardo. Elohim. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 19 mar. 2017. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].
Referências e Notas Explicativas
1. Ibid., p. 21
2. Ibid., p. 28
3. Ibid., p. 24
4. Ibid., p. 27
5. Ibid., p. 28
6. Ibid., p. 21
7. Do ponto de vista histórico-linguístico, usar uma leitura “pictográfica” de letras paleo-hebraicas para concluir que אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm) “era compreendido” como um pacote de atributos (força, autoridade, revelação, ação, caos etc.) é, essencialmente, um raciocínio pós-factum e uma projeção interpretativa sem base filológica. O problema central é categorial: o paleo-hebraico (como o fenício e outros alfabetos semíticos) é um sistema alfabético/consonantal, isto é, um sistema fonográfico; as letras representam sons, não “ideias” nem “conceitos” componíveis. A origem remota de várias formas gráficas pode ser pictorial (p. ex., a associação tradicional de ʾālep̄ com “boi”), mas o próprio mecanismo de formação do alfabeto é explicado, na literatura especializada, pelo princípio acrofônico: toma-se um desenho de um objeto e atribui-se ao sinal o som inicial do nome semítico desse objeto; a função do sinal passa a ser fonética, não semântica.
Daí decorre por que a inferência “as letras significam X; logo a palavra significa X+Y+Z” é metodologicamente frágil: ela confunde (a) uma etapa conjectural de gênese gráfica (pictorialidade na origem de certos sinais) com (b) o modo real de leitura de uma comunidade alfabetizada, que decodifica uma sequência como 𐤀𐤋𐤄𐤉𐤌 (ʾlhym) por valores fonéticos e por morfologia/lexema, não por “histórias” embutidas nos traços. Em termos lógicos, trata-se de uma forma de eisegese: parte-se de uma palavra já conhecida (אֱלֹהִים), selecionam-se valores imagéticos reconstruídos (muitas vezes com variações de fonte para fonte), e então se “reencontra” na palavra aquilo que já se desejava ver nela. Mesmo quando a acrofonia reconhece que os sinais “vieram” de imagens, ela não autoriza a tratar o alfabeto como se fosse um conjunto de ideogramas em que o significado de uma palavra seja a soma das imagens.
Isso não implica que toda menção à pictorialidade seja “arbitrária” no sentido absoluto; há um núcleo histórico real: a discussão sobre a origem do alfabeto semítico envolve, justamente, a seleção de sinais com base em objetos e a atribuição de valores sonoros por acrofonia. O salto indevido ocorre quando se transforma esse dado histórico (sobre como letras receberam sons) numa teoria semântica (sobre como palavras carregariam conceitos por imagens de letras). Para sustentar que “falantes antigos compreendiam אֱלֹהִים com tais atributos por causa das letras”, seria necessário algum tipo de evidência direta (metalinguagem antiga explicitando tal prática; textos pedagógicos; comentários antigos que operem assim; ou padrões epigráficos consistentes que só se expliquem por ideografia). No estado atual do conhecimento, essa ponte é justamente o que não se tem: a semântica de אֱלֹהִים (ʾĕlōhîm) é tratada de modo controlável por (i) uso no corpus hebraico, (ii) morfologia (pluralidade formal e usos), e (iii) comparações semíticas (p. ex., cognatos para “deus” em outras línguas), não por “valores pictográficos” de letras.
