segunda-feira, agosto 06, 2018

Mateus 5:1-2 — Comentário Católico

Mateus 5:1-2 — Comentário Católico

O Sermão da Montanha: Introdução (4,23-5,2)

23. Este importante versículo apresenta um resumo do ministério de Jesus. Consiste numa oração principal seguida por três participiais que, juntas, formam um terno. O próprio terno tem uma estrutura circular ABA em que o elemento B, “pregando o evangelho do reino”, constitui o núcleo, o centro de importância. Está situado entre “ensinando nas sinagogas” e “curando”. A relação dos três elementos é esta: o evangelho do reino é pregado e incipientemente realizado pelos ministérios da palavra e da ação. O versículo 23 forma um parêntese com 9,35. Mateus descreve Jesus como o ministro da palavra nos caps. 5 a 7 e da ação nos caps. 8 e 9. suas sinagogas: Em oposição a nossas judaico-cristãs (Tg 2,2). Evangelho do Reino: Esta expressão é peculiar de Mateus (três vezes: aqui, 9,35; 24,14). O fato de que a mensagem do reino de Deus precede o Sermão da Montanha, que fala de nossos deveres para com Deus, significa que Deus tem a primazia da iniciativa; colocamos nossa confiança última nele, não em nós mesmos, curando toda e qualquer doença: O fato de que Jesus tenha sido um taumaturgo era um constrangimento para os cristãos posteriores; em consequência, isso certamente é histórico. Ele era, entre outras coisas, um profeta galileu itinerante que fazia milagres segundo o modelo de Elias. A repetição do “toda e qualquer” reflete o esforço de Mateus em busca de plenitude. 24. por toda Síria: A província romana da Síria incluía quatro partes (Estrabo, Geogr. 16.2.2): Comagene (Samosata), Selêucia (Antioquia), Celessíria (Damasco), Fenícia-Palestina. Em Josefo, a Síria parece incluir a Galileia e a costa de Gaza, mas não a Judeia. Abarca Tiro, Sidônia e a Idumeia (cf. Marcos). O adjetivo “toda” é retórico, endemoninhados, lunáticos e paralíticos: Os três tipos de doença são, todos, transtornos nervosos, psicossomáticos, às vezes curáveis por uma personalidade forte. 25. Galileia: Veja o comentário sobre o v. 15. Decápole: Este é um termo geográfico impreciso para descrever dez cidades helenísticas no sul da Síria; a lista não é fixa, mas, de acordo com Plínio (Nat. Hist. 5.16.74), inclui Damasco, Filadélfia-Amã, Rafana, Citópole, Gadara, Hipo-Susita, Dion, Pela, Gerasa, Canata. Jerusalém e Judeia: Estão em penúltimo lugar, embora nas expectativas dos judeus devessem estar em primeiro lugar - uma mudança de ênfase em relação ao judaísmo farisaico. No conjunto, descreve-se uma área ampla de influência (veja S. T. Parker, JBL 94 [1975] 437-41; I. Browning, Jerash and the Decapolis [London, 1982]). 5,1. Com base neste versículo pode-se pensar que o sermão se dirigia somente aos discípulos, mas em 7,28 as “multidões” ouviram e reagem. Então, os discípulos formam a coronafratrum (cf. Ne 8,4), e as multidões o segundo anel concêntrico, a montanha: Não é revelado seu nome, mas funcionalmente é uma montanha revelatória (como o é frequentemente na Bí­blia e em Mateus), um Sinai simbólico. Não há necessidade de criar uma harmonia com Lc 6,17, “lugar plano”. Ao sentar-se: esta é uma postura dos mestres orientais. O ensino ao ar livre era uma marca do ministério de Jesus.

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2. Uma introdução solene. O sermão é uma construção de Mateus, reunido a partir de material disperso em Q (cf. Lc 6,20-49), Marcos e outras fontes. Não há razão para se duvidar que a maior parte deste material se derive do próprio Jesus, mas cada caso deve ser ponderado em seus próprios mé­ritos, pois é evidente que os ditos sofreram uma revisão. Foi proposto que Mateus, na realidade, não aceita o sermão como um ensinamento ainda aplicável a seus leitores ou condizente com o restante do evangelho, mas esta concepção dificilmente é sustentável à luz das inclusões entre 4,23 e 9,35 e entre 5,1-2 e 28,19-20-23

O Sermão da Montanha é o primeiro dos cinco principais discursos no evangelho (8 acima). E a obra-prima de Mateus e foi, desde tempos antigos, a seção mais frequentemente citada. Seu gênero literário continua sendo objeto de disputa. G. Bornkamm (NTS 24 [1977-78] 419-32) afirma que não tem analogia real. H. D. Betz (Essays) compara-o com o epítome de um filósofo. G. A. Kennedy (New Testament Interpretation through Rhetorical Criticism [Chapei Hill, 1984] 39-72) analisa-o como uma composição de retórica deliberativa que nos persuade a agir no futuro e serve como a proposição ou tese do evangelho como um todo, dando satisfação intelectual e segurança. Do ponto de vista bíblico, poderíamos considerá-lo como sabedoria escatológica, ética e legal, ou como lei enquanto instrução (Torá) com vistas ao reino, que não se impõe coerciva, mas escatologicamente, uma fusão de diversos gêneros do AT. Os temas dominantes do sermão são o reino de Deus e a justiça. Sua estrutura pode ser vista a partir do esboço do evangelho (8 acima): um exórdio ou preâmbulo (5,3-16) formado pelas bem-aventuranças e os ditos sobre o sal e a luz (que manifestam o sentido missionário da vida dos discípulos); a nova ética (5,17-7,12): seus princípios legais básicos (5,17-20); suas seis hiperteses (5,21-48); sua reforma das obras de piedade (6,1-18); e suas instruções adicionais (6,19-7,12) - como amar a Deus com todo o coração, amor e for­ça (instruções frouxamente organizadas em torno das necessidades da vida e culminando na regra de ouro); uma conclusão (7,13-27), um ensinamento sobre os dois caminhos, a fórmula da aliança que faz de Mateus uma extensão da teologia deuteronômica da história no NT; e uma parábola conclusiva. O sermão é razoavelmente sistemático, cobrindo as áreas principais da vida ética e religiosa conforme a compreensão de Israel. Não é puramente arbitrário nem exaustivo, mas uma série de indicadores ilustrados por “exemplos focais”. O sermão foi criticado porque estabeleceria um padrão elevado demais, inalcançável (“não se pode governar com o sermão” [Bismarck]); mas, compreendido contra seu pano de fundo judaico, é um padrão possível, embora ainda elevado da sabedoria moral sobre a vida.