segunda-feira, agosto 06, 2018

Mateus 5:13-36 — Comentário Católico

Mateus 5:13-36 — Comentário Católico

Sermão da Montanha (5,13-36)

Mateus tomou ditos antigos da tradição sobre Jesus (Mc 9,50; 4,21; Lc 8,16; 11,33; 14,34-35), que usavam as metáforas do sal e da luz, e os aplicou aos ouvintes do sermão. Cf. Plínio, Nat. Hist. 31.102: “nada é mais útil do que o sal ou o brilho do sol”. Mateus enfatiza a interpelação pessoal através do pronome “vós” e “vossa”. Ele diz aos discípulos: embora perseguidos, vocês têm uma vocação para o mundo. 13. sal insosso: isto é, inútil. Literalmente falando, o sal não pode perder seu sabor e continuar sendo sal, mas no judaísmo pode tornar-se impuro e ter de ser jogado fora. O sal é tanto um tempero quanto um conservante. Assim é um bom mestre. A descrição do destino do sal usa a imagem do julgamento divino. 14. luz: a imagem da luz é aplicada a Deus, a Israel (Rm 2,19). No NT, é aplicada a Jesus (Mt 4,16; Lc 1,79; 2,32; F1 2,15; Ef 5,8). uma cidade situada sobre um monte: veja Is 2,2-5.Se isto se refere a uma cidade específica no topo de uma colina da Galileia, uma cidade possível seria Hipos; se não, Jerusalém. Com a confiança da fé, os discípulos não devem fugir de sua missão no mundo. 15. A imagem pressupõe uma casa de um cômodo na Palestina, uma lamparina comum de argila com óleo e um alqueire. O discípulo vive não somente para si, mas para os outros; cf. 25,26; 2Cor 4,7.16. brilhe do mesmo modo a vossa luz diante dos homens: Mateus tira sua conclusão dos elementos que recebeu da tradição. O versículo contém um ato de equilíbrio delicado entre a prática de boas obras e não ficar orgulhoso ou não receber crédito pelas mesmas. A vida do discipulado, descrita no restante do sermão, não deve conduzir à arrogância, mas à conversão de muitos a “seu Pai que está nos céus”.

É característico de Jesus dirigir-se a Deus como Pai; é característico de Mateus acrescentar ao termo “Pai” “meu/seu... nos céus”. Veja 5,45.48; 6,1.9.14.26.32; 7,11, etc. 26 (C) A nova ética, seus princípios legais básicos e seis hiperteses (5,17-48). (a) A justiça superior (5,17-20). Estes versículos indicam os princípios legais básicos do sermão. São os versículos mais controversos em Mateus e não há consenso quanto à sua interpretação. O intérprete deve tentar formular claramente o problema e emitir um juízo historicamente honesto, mesmo ao preço da meticulosidade teológica. O problema surge porque o sentido manifesto das palavras é que Jesus reafirma a validade permanente da Torá; mas isto contradiz Paulo (p.ex., G1 2,15.16; Rm 3,21-31). Além disso, nenhuma igreja cristã importante requer a observância de todos os 613 preceitos da lei do AT, os éticos e os cerimoniais, mas somente dos mandamentos éticos, como o Decálogo e os mandamentos de amar a Deus e o próximo. Assim, há um hiato entre este ensinamento e o ensinamento e a prática das igrejas. A posição adotada aqui é a seguinte: (a) Há contradições no Novo Testamento em relação a assuntos de importância penúltima; isto não é necessariamente uma desvantagem, visto que deveria ampliar a tolerância cristã da variedade dentro da igreja e ajudar o ecumenismo (veja E. Kasemann, “The Canon of the New Testament and the Unity of the Church”, ENTT 95-107; H. Küng, “The Canon of the New Testament as an Ecumenical Problem”, The Council in Action [New York, 1964]). (b) Historicamente, Mateus (e Tiago) inclinou-se mais para o lado judaico-cristão da polêmica protocristã, embora Mateus esteja claramente aberto à missão aos gentios (28,19-20). Contudo, ele nunca menciona a circuncisão, o assunto mais divisor entre Paulo e Tiago, embora a possa pressupor como desejável, mesmo não sendo absolutamente necessária.

Explicação: Mateus 1 Mateus 2 Mateus 3 Mateus 4 Mateus 5 Mateus 6 Mateus 7 Mateus 8 Mateus 9 Mateus 10 Mateus 11 Mateus 12 Mateus 13 Mateus 14 Mateus 15 Mateus 16 Mateus 17 Mateus 18 Mateus 19 Mateus 20 Mateus 21 Mateus 22 Mateus 23 Mateus 24 Mateus 25 Mateus 26 Mateus 27 Mateus 28

Além disso, Mt 5,21-48 não discute preceitos cerimoniais detalhadamente, mas se concentra na ética. Há duas estratégias exegéticas comuns para evitar o significado evidente: a reinterpretação (a), especialmente através do v. 18d; mas cf. 23,23; (b) negar sua autenticidade. Esta última abordagem contém boa dose de verdade. Com exceção do v. 18, os versículos são, provavelmente, pós-pascais e refletem a perspectiva do cristianismo judaico, que, como movimento separado, acabou sendo derrotado pelo paulinismo e desapareceu (talvez para renascer de uma forma diferente, como islamismo; veja H.-J. Schoeps, Jewish Christianity [Philadelphia, 1969]; J. Daniélou, The Theology of Jewish Christianity [London, 1964]). Mas a negação da autenticidade dos vv. 17.19.20 não faz com que Jesus tenha a mesma opinião que Paulo. 27. A lei em Mateus, Jesus provavelmente não rompeu, em princípio, com a Torá, mas somente com a halacá dos fariseus. Contudo, ele era um espírito livre que enfrentava e resolvia diretamente situações da vida em suas curas e parábolas sem citar textos cuidadosamente. Mateus permanece na mesma linha de fidelidade básica à Torá, mas com uma concentração nos valores mais importantes (23,23) e com um interesse jurídico de proporcionar sustentação textual para inovações. Paulo prefere uma ética de valores como a fé, a esperança e o amor e o andar no Espírito a uma ética legal, mas ele cita o Decálogo como preceito aplicável aos cristãos (Rm 13,8-10), mesmo que as leis cerimoniais não sejam obrigatórias para os gentios convertidos de acordo com seu evangelho. No que se refere à maioria dos cristãos mais modernos, Paulo ganhou esta luta e eles o seguem.

Mas Mateus, exercendo uma influência poderosa na vida da igreja, tem atuado como influência moderadora do paulinismo radical, que pode facilmente se transformar em libertinismo e antinomismo. Paulo e Mateus estimam o Decálogo e o centram no amor. 28,17. não penseis: Esta expressão introdutória supõe uma visão errônea que necessita ser corrigida, a Lei ou os Profetas: Fórmula frequente em Mateus (7,12; 11,13; 22,40), refere-se ao todo da revelação de Deus no AT. revogá-los ... cumprimento: Esta contraposição ensina que a atitude básica de Jesus para com a herança judaica era fundamentalmente positiva e de simpatia, embora incluísse a crítica de alguns desdobramentos que ele julgava prejudiciais (veja caps. 15 e 23) e o começo de uma nova era. No pano de fundo, encontra-se um par de expressões rabínicas, qwm e btl. Qwm significa “confirmar” ou “estabelecer” a lei colocando-a sobre um fundamento exegético melhor (veja Rm 3,31); btl significa “anular, abolir, suspender, esquecer ou cancelar” uma lei. Mas a formulação de Mateus substitui “estabelecer” por “cumprir”, que vai além de uma discussão puramente legal e chega a uma perspectiva cristológica mais ampla. 18. até que passem o céu e a terra: Este é o versículo fundamental da unidade porque está arraigado em uma palavra de Jesus (Q: Lc 16,17). Ele afirma a permanência da lei enquanto o universo físico durar. Mateus apresenta o dito com uma introdução solene “Amém ...” e emoldura sua parte central (“nem um til”) com duas orações temporais em paralelismo rigoroso (até ... até), que significam exatamente a mesma coisa, o fim do mundo. Quando os comentadores acham este significado inaceitável, frequentemente interpretam a segunda expressão com até como se se referisse à crucificação de Jesus, mas há pouca base para esta proposta; veja 24,34s.

O significado do versículo é duplo: (1) A totalidade do AT tem valor religioso para os seguidores de Jesus e deve continuar a ser preservado, rezado, estudado e pregado no movimento que ele iniciou. (2) As prescrições da lei ainda são obrigatórias para os seguidores imediatos (judaico-palestinenses) de Jesus; veja Is 40,8. um só i, uma só vírgula: “1” refere-se ao yôd, a menor letra do alfabeto hebraico; a “vírgula” corresponde a um pequeno sinal em uma letra hebraica que a diferencia de outra letra formada de maneira semelhante. 19. aquele que violar: Este versículo tem sua origem na polêmica judaico-cristã contra os cristãos helenizantes, particularmente contra Paulo e seus seguidores. Ele ensina que mesmo as menores questões da lei são importantes (veja m. ’Abot 2,1; 3,18; 4,21; Mt 23,23). Contudo, o versículo tem o cuidado de não excluir os laxistas do reino; são chamados simplesmente “os menores”. Isto reflete uma maneira delicada, ecumênica de luta: você destaca o que quer ressaltar, mas não condena seu oponente, praticar e ensinar: Esta sequência característica reflete o horror de Mateus pela hipocrisia - ensinar uma coisa e fazer outra. Jesus concederá mais tarde aos líderes da igreja a autoridade para ligar e desligar (16,19; 18,18). 20. vossa justiça: Este versículo quase certamente provém da redação de Mateus e indica o título temático para o restante do capítulo, “uma justiça mais abundante”. Um senso de abundância (perisseuein) é característico de todo nível do protocristianismo.

Para Mateus, a essência do que Jesus trouxe é uma ética superior, uma justiça mais elevada. Sua piedade é uma piedade moral. Seus grandes oponentes são os herdeiros rabínicos dos fariseus de Jâmnia. Observe que ele não diz explicitamente que os fariseus não entrarão no reino. O versículo é uma advertência para os cristãos. 29 (b) Ira (5,21-26). A primeira de seis hiperteses. Elas são geralmente chamadas de antíteses, porque os intérpretes ficaram impressionados com a autoridade soberana de Jesus sobre a Torá do AT e com os casos em que seu ensinamento parece contradizer o AT ou opor-se a ele, por exemplo, sobre o divórcio, que o AT permite e que Jesus proíbe (ou restringe). A interpretação atual enfatiza, pelo contrário, que Jesus parece ir além do ensinamento do AT a profundando-o e radicalizando-o, retornando à vontade original de Deus, mas que ele nunca vai na direção do laxismo; por isso se usa o neologismo hipertese (P. Lapide). Também deve-se observar que a fórmula “foi dito... eu, porém, vos digo” está próxima de uma fórmula exegética comum nas escolas rabínicas: primeiramente uma citação da Bíblia e, então, “podeis pensar que isso significa... mas eu vos digo...”. Na verdade, aqui no sermão discurso um texto do AT é seguido por uma interpretação falsa, que então Jesus corrige; veja sobre 5,43. Entretanto, as hiperteses, embora sejam exegéticas na forma, são, em termos de conteúdo, revelação para Mateus. 21. ouvistes: Isto pressupõe um público que aprendeu a lei judaica, que foi dito: O verbo é um passivo teológico: Deus disse (veja ZBG § 236) aos antigos: Este termo se refere à geração do Sinai que ouviu pela primeira vez a lei da boca de Moisés. não matarás: Êx 20,13; Dt 5,17.

A lei bíblica vem em duas formas: apodítica e casuística. A apodítica tem a forma imperativa negativa do Decálogo; a casuística toma as formas “se qualquer pessoa, ou “toda pessoa que” ou “no caso de”. Aqui temos uma ordem apodítica seguida pela casuística: “aquele que matar terá de responder no tribunal”. Esta é uma interpretação tradicional do mandamento. 22. Eu, porém, vos digo: Jesus considera a interpretação tradicional inadequada, embora não falsa. Ele transfere a base do ato de matar para o prelúdio emocional do assassinato, a raiva. Efetua, assim, uma interiorização que vai à raiz da ação moral. Uma vez que o assassinato é uma tentação relativamente rara, mas a raiva é uma experiência comum, podemos ver uma tendência de trazer a lei do Decálogo, que se aplica ao líder do clã, ao nível do cotidiano do israelita comum, uma tendência à democratização da Torá. (Os fariseus também se encaminharam nesta direção, mas com a diferença que preferiram a complexidade à simplicidade). Atualmente surge um problema porque a psicologia moderna ensina que a raiva neuroticamente reprimida é a fonte de muitas doenças mentais. Portanto, devemos ter cuidado para não pensar que Jesus esteja defendendo a repressão neurótica.

Nós deveríamos reconhecer nossas emoções, mas não expressá-las através da fúria, ou matando alguém, ou praticando alguma outra forma de violência, cretino: Raka pode ser a tradução para o grego do termo aramaico rêqã’, “de cabeça oca” (EWNT3.497). Pode haver uma intensificação das penalidades, do pequeno sinédrio ao grande sinédrio à Gehenna (Vale de Hinom, situado fora de Jerusalém, que, por causa da escória industrial, dos altos fornos e da queima de corpos de vítimas das pragas se tornou um símbolo do fogo do inferno). Estes três casos são todos expressos na forma casuística. O mesmo se aplica ao caso seguinte. 23-24. Este caso pressupõe o Templo ainda em pé e deve ter se originado antes de 70 d.C. Ele também pressupõe que Jesus aprova o Templo e o sistema sacrificial. Após a crucificação alguns cristãos devem ter considerado o sistema do Templo (ou a administração) como falido espiritualmente, como o fez a comunidade de Qumran, embora outros devam ter continuado a prestar culto lá. deixa... depois: Esta prioridade da ética sobre o culto reflete o ensinamento profético do AT: não pode haver adoração verdadeira a Deus sem justiça, uma doutrina chamada monoteísmo ético, frequentemente considerada o centro do AT. Uma vez que a justiça perfeita nos escapa antes que o reino venha, devemos adorar de maneira imperfeita, confiando na misericórdia de Deus. reconciliar-te: No NT, a reconciliação é principalmente um tema paulino. Cf. Mc 11,25. 25-26.

O conselho destes dois versículos é reconciliar-se fora do tribunal, que certamente ainda é um bom conselho hoje. atitude conciliadora: Este versículo emprega um conceito tipicamente grego, eunoia, “boa intenção”, “boa-vontade”, “afeição”. Há uma intensificação nas penas: o juiz, o guarda, a prisão. 30. 27. Após uma fórmula introdutória mais breve, citam-se Ex 20,14; Dt 5,18. Por analogia com o v. 21, poderíamos introduzir, após a citação, a interpretação inadequada: “Quem cometer adultério será levado a julgamento”. Jesus corrigirá e aprofundará agora esta perspectiva. 28. todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso: Jesus passa do nível da ação para o nível da intenção libidinosa. Uma vez que este versículo atribulou muitas consciências, às vezes de forma patológica, é importante tentar compreender seu sentido do modo mais exato possível. Uma vez que o adultério é um assunto grave, que atenta contra a justiça, bem como a castidade, os atos que levam a ele também podem ser gravemente errados do ponto de vista moral, por exemplo, a alienação da afeição. As palavras de Jesus aqui devem ser entendidas estritamente em relação ao adultério. Elas não condenam nenhum pensamento sobre questões sexuais, como o que estaria envolvido no estudo de medicina ou na simples veleidade, já cometeu o adultério com ela em seu coração: Isso ensina a verdade da experiência de que, quando uma pessoa se decidiu seriamente a cometer um erro, o mal moral já está presente, mesmo que possa ser ampliado posteriormente pela própria ação. 29-30 caso o teu olho direito te leve a pecar: Estes versículos são paralelos a Mc 9,43-47, mas são omitidos por Lucas, provavelmente porque são passíveis de mal-entendido por causa do estilo hiperbólico oriental em que são expressos. Seu sentido é que Jesus chama para um sequenciamento radical de prioridades.

A lógica das decisões e escolhas morais de uma pessoa é importante. E melhor sacrificar uma parte da liberdade moral da pessoa do que perder o todo. 31. Esta unidade contém só dois versículos; é extremamente breve sobre um assunto tão delicado e importante para o ser humano: o casamento, a família e a separação (veja os tratamentos mais completos em Mt 19,1-12; Mc 10,1-12; Lc 16,18). Os fundamentos da sociedade humana estão implicados, uma questão grave: “O divórcio é para a vida familiar o que a guerra civil é para o Estado” (Aristóteles). A tarefa interpretativa deve ser descobrir as pressuposições, recuperar a problemática original e as intenções profundas do texto. Há uma enorme literatura sobre o assunto, mas as posições principais são representadas por J. Bonsirven, Le divorce dans le Nouveau Testament (Paris, 1948); J. Dupont, Mariage et divorce dans l'Evangile (Bruges, 1959); mas especialmente C. Marucci, Parole di Gesù sul divorzio (Brescia, 1982). A formula introdutória abreviada sugere uma subordinação ou, pelo menos, uma conexão estreita do tema em questão com a seção precedente sobre o adultério. Do ponto de vista da crítica das fontes, temos aqui uma sobreposição de Marcos e Q; esta atestação múltipla antiga é uma forte indicação de material autêntico de Jesus, reforçado por um paralelo em ICor 7,10-16. De fato, não há dúvida histórica de que Jesus sustentou uma elevada doutrina sobre o casamento, a saber, sua indissolubilidade, uma posição provavelmente sem paralelo no judaísmo contemporâneo, embora não sem algum precedente profético (Ml 2,13-16). Formalmente, essa unidade representa uma breve decisão haláquica, na forma de um comentário sobre um texto bíblico citado; a versão mais completa 19,1-12 é um diálogo escolástico clássico. 31. Dt 24,1-4 é citado em forma condensada.

O texto completo é um fragmento complicado e estranho de uma lei antiga que concerne diretamente apenas ao caso particular de uma segunda união com uma esposa de quem um homem tenha se divorciado e que tenha, ela mesma, se divorciado desde então. Nem este texto nem qualquer outro no AT hebraico declara explicitamente o divórcio lícito ou o regula juridicamente. Indiretamente, Dt 24,1-4 descreve o divórcio e, portanto, o ratifica implicitamente. (Eclo25,26 aconselha a separação de uma esposa desobediente). O profeta Malaquias (2,13­ 16) denuncia o divórcio fácil em termos comovedores e enfatiza a relação pactuai do casamento. Em Qumran, CD 4,19-5,11; 13,15­ 17; llQTemplo 57,17-19 parecem proibir a poligamia e o incesto, mas não o divórcio em si (ao menos explicitamente). Para compreender Mateus, é importante perceber que, na lei israelita, uma mulher adúltera é, em princípio, punida pela morte (Lv 18,20; 20,10; Dt 22,20-21; Jo 8,1-11). O seguinte texto rabínico é relevante: “A escola de Shammai diz: um homem não pode se divorciar de sua esposa a menos que encontre nela indecência em qualquer coisa... E a escola de Hillel diz: pode se divorciar dela até mesmo se ela arruinar um prato que havia preparado para ele, pois está escrito: ‘porque ele encontrou indecência nela em qualquer coisa.’ O rabino Akiba diz: Até mesmo se ele encontrar outra mais bonita do que ela, pois está escrito: ‘E assim será se ela não encontrar favor a seus olhos’” (m. Git. 9,10). 32 Resumo sobre a evolução da instituição do casamento em Israel. No início não havia contrato, a poligamia era comum, o divórcio era fácil e informal. Então, com a propagação da escrita, ocorreu uma juridificação. Havia um contrato marital escrito (o ketubbâ, veja Tb 7,12-14), e também, às vezes, uma nota escrita de divórcio (gêt), como uma proteção para que a mulher pudesse provar que estava livre e se casar novamente. Em terceiro lugar, um movimento em direção à monogamia aparece na LXX; sua versão de Gn 2,24 acrescenta “dois” à expressão “e eles se tornam uma só carne”. Em quarto lugar, houve uma reação profética contra o divórcio fácil. Jesus, então descarta o divórcio para um homem (a mulher não era considerada). Finalmente, Mc 10,12 também descarta o divórcio para uma mulher, uma aplicação do ensinamento de Jesus em um ambiente gentílico.

A tendência é em direção ao refinamento e à estabilização dos costumes e à proteção das necessidades de todas as partes envolvidas, mas teve seu ponto de partida em uma posição de superioridade masculina sem direitos para as mulheres, exceto o que sua família poderia exigir e exigiria. Jesus aponta para o ideal, a vontade paradisíaca de Deus (veja 19,8 e a analogia do reinado em ISm 8,7-9), não para uma opinião minimalista. Este contexto histórico nos prepara para a contribuição de Mateus no versículo seguinte (D. Daube, “Concessions to Sinfulness in Jewish Law”,JJS 10 [1959] 1-13). 32. a não ser por motivo de prostituição. Ao contrário dos paralelos (ICor 7,11; Mc 10,11; Lc 16,18), Mateus tem aqui e em 19,9 esta famosa cláusula de exceção. E comum a suposição de que esta seja seu acréscimo redacional próprio ou de sua tradição. Porneia, traduzido aqui como “prostituição”, significa conduta sexual ilegítima, que poderia incluir o adultério, mas não é a palavra técnica para designar o mesmo (moicheia). Três soluções principais ao difícil problema são propostas para esta cláusula. (1) A chamada solução ortodoxa grega sustenta que a clásula contém uma autêntica exceção à proibição absoluta do divórcio e da segunda união. Neste caso, a posição de Mateus seria a mesma que a dos shammaítas e diferente da de Jesus. Uma dificuldade é que, nesta perspectiva, o texto deveria rezar moicheia, não porneia. Essa concepção foi defendida recentemente de forma extensa por Marucci, que sustenta que a intenção dessa cláusula foi proteger os cristãos que eram cidadãos romanos da Lex lulia de adulteriis coercendis de Augusto, sob a qual um marido era compelido a acusar uma esposa adúltera sob pena de ser acusado da infração capital de lenocinium. Esse argumento permanece muito incerto. (2) A solução “católica” clássica (Dupont) sustenta que a cláusula não contém uma exceção real, uma vez que não se refere ao divórcio, mas à separação sem segundo casamento no caso de uma esposa adúltera (que, na lei israelita, seria apedrejada). Outra vez, o texto não usa a palavra para designar o adultério. (3) Na solução “rabínica”, a cláusula também não contém uma exceção real à proibição do divórcio porque o termo-chave porneia é compreendido como a tradução do hebraico zênut, “prostituição”, compreendido no sentido de uma união incestuosa devido a um casamento dentro dos graus proibidos de parentesco (Lv 18,6-18). Tal união não seria um casamento verdadeiro de fato e não exigiria um divórcio, mas um decreto de nulidade ou uma anulação.

Porneia, usado em At 15,23-29, fica próximo disso; como zenut nos documentos de Qumran (p.ex., CD 4,20-21). Esta solução se ajusta melhor ao texto; ela representa a finesse legal de Mateus e sua lealdade a Jesus (veja Bonsirven, Le divorce) H. Baltensweiler, Die Ehe im NT [Zürich, 1967] 87-102; J. A. Fitzmyer, TAG 79-111). Uma vez que a questão do divórcio é frequentemente dolorosa, é útil recordar que a intenção profunda de Jesus não era causar dor, mas estabelecer um ideal alto e claro de relações humanas, uma visão do casamento como uma aliança de amor pessoal entre esposos que refletia o relacionamento pactuai entre Deus e seu povo. Infelizmente, nem sempre essa visão se ajusta aos caprichos do coração humano (Jr 17,9). 33. também: Este é um indício de que uma nova seção está começando, que chegamos à metade do caminho. Após a fórmula introdutória completa, há uma citação composta do AT: Lv 19,12 (em vez de ou como resumo de Ex 20,7); Nm 30,3. Parece haver uma tensão lógica entre a primeira parte, “não perjurarás”, e a segunda, “mas cumprirás” (que implica que você jura, de fato). E possível que a segunda parte seja compreendida como uma exegese corrupta comum da primeira parte, que Jesus corrige a seguir no v. 34a com sua radicalidade escatológica. 34. não jureis em hipótese alguma: Formulada como uma ordem negativa. Os exemplos que seguem nos vv. 34b.35.36 (citando Is 66,1 e SI 48,2) são fórmulas de juramento, que contêm subterfúgios para o nome divino, que o devoto tentava usar para evitar pronunciar o nome. Mas, ao empregar subterfúgios, introduzia-se um elemento de insinceridade com a intenção de garantir a verdade. Jesus sugere (v. 36) que não há nada na criação que não seja de Deus e não seja dependente dele, refletindo sua glória como criador. 37. “sim”, sim, “não”, não: Este é o versículo crucial na unidade porque dá uma ordem positiva acerca do caráter da fala (logos), para contrabalançar a ordem negativa no v. 34, seguida por uma razão sucinta. Os únicos paralelos do NT a esta unidade são Mt 23,16-22 e Tg 5,12 (que podem refletir a tradição original de Jesus de maneira mais próxima do que as formas desenvolvidas de Mateus); cf. 2Cor 1,17-19 (que confessa que Jesus é o “sim” permanente de Deus para nós). O problema de que todos eles tratam é o da linguagem (cf. os tratados da Mishná Sebu‘ot, Nedarim e Nazir, que lidam todos com votos e juramentos; Diog. Laertius 8.22; 2 Henoc 49,1; Pseudofocílides 1.16). Jesus está se opondo aqui à hipocrisia, ao sofisma e à trivialização acadêmica da vida e os substitui pelo ideal da simplicidade e clareza da fala. Esse ideal não necessita se opor à poesia ou à metáfora (veja suas parábolas) ou fórmulas de juramento, desde que sejam sinceras. (De acordo com b. Sahn. 36a, sim e não tornam-se juramentos quando forem repetidos, como Jesus o faz aqui.). Jesus segue aqui a linha do Decálogo. O Decálogo não diz nada sobre jurar, juramentos ou votos, mas diz que “não pronunciarás em falso o nome de Iahweh teu Deus” e “não apresentarás um testemunho mentiroso contra o teu próximo”, isto é, deve-se falar a verdade em assuntos importantes. Jesus combina os dois mandamentos dizendo que não se deve jurar pelo nome de Deus nem por qualquer substituto seu, e deve-se falar a verdade simplesmente.

A tradição filosófica grega, desde o oráculo de Delfos e dos pitagóricos até os estoicos do tempo de Jesus, caminhava na mesma direção (TDNT 5.176-85,457-67). 34. Esta e a próxima hipertese, sobre o amor aos inimigos, estão estreitamente relacionadas do ponto de vista temático, e sua relação uma à outra e à tradição mais antiga será tratada após o v. 48. Esta unidade expande o dito de Q (veja Lc 6,29-30). 38. olho por olho: Esta é a citação de uma norma legal (talião) que regulamenta a vingança e a retaliação por danos (Ex 21,22-25; Lv 24,20; Dt 19,21). A mesma regra se encontra no Código de Hamurábi, na Lei Romana das XII Tábuas VIII e em Esquilo, Coeph. 309-10. Embora a regra soe como bárbara hoje, sua intenção original era humanitária, limitar a vingança (somente um olho por um olho, não dois ou três) a uma reciprocidade exata. Quando apareceu, constituiu-se em um verdadeiro progresso moral. Na época de Jesus, os rabinos já a achavam muito severa e começaram o processo de comutar a pena por multas, mas o princípio da restituição correspondente permaneceu dominante no pensamento legal. (A etimologia de talião é o termo latino talis, “tal, parelho”.) 39. não resistais ao homem mau: Jesus ensina a não-resistência ao mal no sentido de evitar a violência ou danos físicos. Isso deixa aberta a possibilidade de resistência psicológica ou moral, “guerra da comunicação”, exemplificada por Mahatma Gandhi ou por Martin Luther King. O paralelo em Rm 12,19-21, baseado em Pv 25,21-22, é importante para mostrar que o ensinamento de Jesus é uma estratégia para vencer, não para a resignação passiva ou indiferença ante o mal. O objetivo é envergonhar o oponente para que mude seu coração. Isto pressupõe as disposições necessárias no oponente, que nem sempre estão presentes. Em tais casos difíceis, o recurso a outros princípios bíblicos pode ser necessário (veja o comentário ao v. 48). oferece-lhe também a esquerda: Bater na face direita com as costas da mão é considerado particularmente desonroso em m. B. Qam. 8,6; cf. Jo 18,22-23; Is 50,6; Lm 3,30. 40. deixa-lhe também o manto: Deve-se evitar uma disputa; veja o v. 25. Há um paralelo notável em uma declaração judicial escrita em hebraico nos sécs. VII e VI a.C., em um óstraco encontrado em Mesad Hashavyahu em 1960 (veja D. Pardee, Maarav 1 [1978] 33-66).



41. te obriga a andar uma milha: A palavra grega angareuein, “obrigar”, é um empréstimo persa, refletindo o serviço de mensageiros imperiais, usando cavalos para levar o correio, mas não pagando pelo cavalo. 42. dá: O tema de dar aos pedintes e aos tomadores de empréstimo vai além do escopo da não-resistência ao mal para defender a bondade, a longanimidade, a generosidade e uma atitude de abertura para com as pessoas. 43. amarás o teu próximo: A unidade começa com uma citação incompleta de Lv 19,18, deixando de lado o importante “como a ti mesmo”. Isto é seguido pelas palavras não-bíblicas “odiarás teu inimigo”, uma concepção negativa que confina nosso amor a uma estrutura etnocêntrica estreita. E lamentável que algumas traduções incluam estas palavras entre as mesmas aspas que a citação bíblica. Jesus está atacando uma interpretação falsa do AT. Essa concepção não se encontra verbatim no AT, mas pode estar em 1QS 1,9-10: “E eles (os santos) podem amar todos os filhos da luz cada um de acordo com sua herança (gôrãl) no Conselho de Deus; e eles podem odiar todos os filhos das trevas, cada um de acordo com sua culpa na vingança de Deus”. Ela também é sugerida no AT (p.ex., Dt 7,2). 44. amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem: Isto não é idealismo impossível, mas uma estratégia sábia para superar o perseguidor. A postura heróica do mártir dá ao perseguidor uma má imagem, e é difícil para os governos controlá-la. Os primeiros mártires cristãos criaram uma má consciência na Antiguidade tardia. O cristianismo não é agressão introvertida, mas a agressão transformada numa estratégia para vencer através da sabedoria do amor.

45. filhos do vosso pai: O ser filho por adoção também é um tema de Paulo (Rm 8). Há uma disposição quiástica dos termos “mau, bom, justo, injusto”. 46. Cf. Lc 14,12-14. recompensa: Jesus distingue implicitamente aqui entre as recompensas humanas terrenas e as recompensas de Deus. Se você amar aqueles que o amam, sua recompensa é um acréscimo no amor deles. Se você amar aqueles que odeiam você, sua recompensa é um acréscimo no amor de Deus. Algumas teologias consideram toda menção da motivação ética em termos de recompensa como subcristã, mas isso é estranho aos evangelhos. Porém, não se deve pensar que Deus possa ser forçado por reivindicações estritas de justiça em vez de súplicas humildes. A recompensa é descrita de maneiras variadas como o reino ou a visão de Deus (5,3.8). publicanos: Estão aqui como um símbolo da moralidade baixa, porque eles frequentemente extorquiam e colaboravam com a ocupação romana. Jesus é amistoso com eles, mas nunca aprova seus pecados (cf. Lc 19,1-10). 47. se saudais: No Oriente Próximo, um cumprimento é uma oração de bênção sobre a pessoa que está sendo cumprimentada (m. ’Abot 4,15). gentios: Este termo é uma sugestão de que o texto foi dirigido primordialmente a judeu-cristãos. 48. deveis ser perfeitos: Esse versículo compreende uma fusão complexa de dois textos do AT e da redação de Mateus. Dt 18,13 reza tãmtm, “sem culpa”, em vez de “perfeito”; Lv 19,2 tem qêdõsim, “santo”, mas Lucas (6,36) reza “misericordioso”. Teleios, “perfeito”, é uma palavra rara nos evangelhos (encontra-se somente aqui e em 19,21), embora seja usada por Paulo e por Tiago. Ela é comum no pensamento grego, onde pode significar conformidade ao ideal divino.

Em LQ, o homem perfeito é aquele que observa toda a lei. A versão de Lucas enfatiza a fidelidade pactuai e o amor constante. Estas diferentes ênfases poderiam estar todas presentes em Mateus, tornando o texto rico e sugestivo. Aqui também forma uma inclusio com 5,20. 36 Conclusão geral sobre a vingança e o amor aos inimigos. Podemos reconstruir uma evolução com cinco estágios no pensamento bíblico sobre este tópico: (1) vingança ilimitada (Gn 4,15, 24); (2) a lei do talião ou a vingança limitada (Dt 19,16-21); (3) a regra de prata, “não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você” (Tb 4,15; Hillel, b. Sabb. 31a); (4) a regra de ouro (Mt 7,12, mais positiva do que a prata, praticar o bem, tomar a iniciativa para criar uma atmosfera de boa vontade); (5) amar os inimigos, um convite ao heroísmo moral e à santidade. Este último é o nível mais elevado. Falta-lhe sobriedade ética, como sugeriram seus críticos? Pode ser completamente eficaz (Gandhi). Não precisa ser mais carente de sobriedade do que o é uma greve geral. A pergunta que permanece é: essa é a única regra de conduta legítima para os cristãos em situações conflituosas? Os estágios anteriores do ensinamento bí­blico são simplesmente cancelados? Não. Os estágios anteriores representam um recurso permanente para os crentes, quando for apropriado. O nível de ética bíblica a ser empregado depende do nível moral do oponente. Dada esta gama das opções, pode-se governar com o Sermão da Montanha, apesar do ceticismo de Bismarck, desde que se incluam também os estágios morais anteriores que ele pressupõe. O sermão não é o todo da revelação bíblica, mas representa um ápice da sabedoria moral cuja validade prova a si mesma na vida diária quando sabiamente aplicada.