Débora — Enciclopédia da Bíblia Online

DÉBORA

O nome “Débora” é apresentado como um antropônimo hebraico, com forma transliterada dĕbōrâ (“abelha”), e não funciona, no corpus bíblico e deuterocanônico, como um identificador unívoco: a tradição registradas no verbete distingue explicitamente três pessoas que usam o nome. A primeira é a ama de Rebeca, ligada a Gênesis 35:8 e também mencionada “por posição e não apenas por nome” no séquito de retorno em Gênesis 24:59; a segunda é a profetisa associada ao ciclo de Juízes, cuja atividade é narrada em prosa em Juízes 4 e celebrada em cântico em Juízes 5; a terceira é identificada como a avó de Tobias em Tobias 1:8 (com observação de grafia “Debora” em certas tradições).

Essa discriminação não é um detalhe editorial periférico: ela estabelece o controle prosopográfico mínimo para que informações biográficas, geográficas e teológicas não sejam transferidas indevidamente de uma figura para outra. O roteiro bíblico para entender o multiplos usos na Bíblia amarra cada perfil a um conjunto delimitado de referências textuais (Gênesis 24:59; Gênesis 35:8; Juízes 4–5; Tobias 1:8) e, no caso da Débora de Juízes, a vincula ainda a marcadores narrativos internos.

A Débora, figura de Juízes, exige tratamento mais estratificado do que um simples resumo narrativo, porque a relação entre profecia e guerra, remetida diretamente a Ackerman (1975), é digna de um estudo à parte; a equivalência poética de “Taanaque junto às águas de Megido” e sua leitura topográfica é associada a Rainey (1981; 1983); a comparação tipológica com divindades parceiras (Anate e Astarte) é conectada ao trabalho de Taylor (1982), enquanto o destaque do papel feminino é remetido a Lindars (1983). No desenvolvimento histórico-crítico, a datação sugerida por arqueologia em Megido e Taanaque e a questão aberta sobre a relação entre o Jabim de Juízes 4 e o Jabim de Josué 11 são atribuídas e a caracterização socioeconômica da opressão como ruptura de rotas caravaneiras é explicitamente ligada ao estudo de Chaney (1983). Já a prioridade interpretativa do cântico (Juízes 5:2–31) — deslocando o foco do enredo individual para o desempenho das “constituencies” israelitas — é vinculada ao estudo de Coogan (1978), e a leitura da liga tribal como composta por dez tribos no momento da crise, com discussão correlata sobre Judá e Levi, é atribuída a Freedman (1979) e Boling (1988, pp. 57–63).

Com esse quadro de identidades estabilizado e com o mapa de problemas já atribuído às fontes secundárias correspondentes, o percurso segue de modo controlado pela primeira ocorrência desenvolvida: a Débora vinculada à casa patriarcal, a ama de Rebeca, cuja memória é fixada por Gênesis 24:59 e Gênesis 35:8 e cuja morte é ancorada em Betel sob o chamado Allon-bacuth, antes de qualquer passagem para a Débora de Juízes e suas camadas históricas e poéticas.

Estudo sobre Débora na Bíblia

I. Débora, ama de Rebeca: perfil textual, função doméstica e memória toponímica. 

A primeira “Débora” identificada no verbete é a ama de Rebeca, ligada diretamente a Gênesis 35:8 e, de modo indireto, a Gênesis 24:59, onde ela é descrita como presente “por posição”, isto é, integrada ao grupo que acompanha Rebeca e o servo de Abraão no retorno para encontrar Isaque, ainda que sem nome próprio naquele versículo. A tradição apresentada em português explicita essa função doméstica (“Ama de Rebeca”) e a conecta ao deslocamento familiar do ciclo patriarcal, afirmando que Débora acompanhou Rebeca quando ela deixou a casa de Betuel para se casar com Isaque, e que, após anos na casa de Isaque, ela veio a encontrar-se na casa de Jacó, hipótese situada “talvez depois da morte de Rebeca”, o que fixa a figura como elo geracional de transmissão e cuidado no interior da narrativa familiar.

O dado mais desenvolvido, entretanto, não é biográfico no sentido moderno, mas memorial e toponímico: Gênesis 35:8 registra a morte dessa ama e sua sepultura “sob o carvalho” nas proximidades de Betel; o verbete acrescenta a observação (com formulação interrogativa) de que se trataria de uma “árvore sagrada?”, e afirma que, a partir desse sepultamento, o local passa a ser conhecido como Allon-bacuth (“carvalho do pranto”). A mesma ideia é reforçada quando se explica que a denominação do marco arbóreo (Alom-Bacute, “Árvore Maciça de Choro”) é apresentada como indicador de estima social dentro do clã e ainda quando se introduz um cálculo cronológico estimativo, que deve ser entendido como avaliação do próprio verbete e não como dado explicitamente fornecido pelo texto de Gênesis.

Há um vínculo temático com outra etiologia de pranto, quando se remeter a Juízes 2:1-5, isto é, sugerindo que a paisagem de Betel funciona como polo narrativo de memória e lamentação em diferentes camadas do corpus bíblico, sem afirmar identidade automática entre os episódios. Essa concentração em Betel e em marcos de lugar prepara a passagem para o próximo tópico, porque o mesmo espaço geográfico reaparece, já no ciclo de Juízes, como cenário associado à outra “Débora”, agora não mais como figura doméstica, mas como agente pública descrita como profetisa e consultada sob um marco vegetal distinto (a palmeira), o que permite comparar como a tradição utiliza lugares e nomes para fixar memória, autoridade e função social em registros literários diferentes.

II. Betel como paisagem de memória: “carvalho do pranto” e “Boquim”

É possível conectar o sepultamento da ama de Rebeca em Gênesis 35:8 a uma marcação espacial específica: ela é enterrada “sob o carvalho” perto de Betel, e esse carvalho passa a ser conhecido como Allon-bacuth, isto é, “carvalho do pranto”. Esse carvalho pode ser entendido como “árvore sagrada” no horizonte cultural do relato. Talvez haja uma associação por etiologia (isto é, por explicação narrativa de nomes de lugares), visto que o mesmo território ao redor de Betel funciona, em diferentes camadas do corpus, como polo de “nomeação” de lamento coletivo. Assim, o eixo interpretativo não é biográfico, mas topográfico e memorial: tanto o “carvalho do pranto” ligado a Gênesis 35:8 quanto “Boquim” em Juízes 2:1–5 servem para fixar na geografia uma recordação teológica — o lugar retém, por meio do nome, a memória de um evento carregado de pranto e de responsabilidade espiritual. Essa concentração em Betel prepara a passagem imediata para a Débora de Juízes, porqueo texto afirma que a profetisa era acessível para consulta oracular junto da “palmeira de Débora”, igualmente situada “próximo de Betel”, deslocando o foco da árvore como memorial funerário para a árvore como marco público de justiça e liderança no ciclo narrativo de Juízes 4–5.

III. Débora, profetisa e juíza: função pública e locus de consulta

A Débora vinculada ao ciclo de Juízes é apresentada como “profetisa em Israel” e identificada como esposa de Lapidote (Juízes 4:4), com a ressalva explícita de que não há evidência de que Lapidote e Baraque sejam a mesma pessoa, e de que a associação entre Débora e Baraque decorre do interesse comum em libertar Israel da opressão cananeia (Veja BARAQUE). No quadro narrativo, sua atividade é descrita como lembrada em prosa (Juízes 4) e celebrada em cântico (Juízes 5), e sua atuação pública é enquadrada como disponibilidade para consulta oracular “à palmeira de Débora”, situada perto de Betel. Essa localização é especificada também como uma palmeira na região montanhosa de Efraim, entre Ramá e Betel, sob a qual “os filhos de Israel subiam até ela para julgamento” (Juízes 4:5), o que caracteriza seu papel como centro de decisão comunitária e administração de justiça, antes mesmo de qualquer movimento militar. Ackerman (1975), em sua análise do nexo institucional e social entre profecia e guerra nesse período, situa a liderança profética dentro de um cenário de crise nacional em que discernimento religioso e mobilização coletiva se interpenetram. Esse enquadramento conduz imediatamente ao próximo tópico, porque a própria moldura da atuação de Débora é definida como resposta a “tempo de severa opressão” patrocinada por Jabim, rei cananeu reinando em Hazor, e executada por Sísera, comandante de 900 carros, isto é, o contexto político-militar que torna inteligível por que a consulta “sob a palmeira” evolui para convocação e confronto aberto.

IV. O quadro da opressão: Jabim, Sísera, topografia estratégica e controle de rotas

O período de crise em Juízes 4–5 é definido como “severa opressão” patrocinada por Jabim, descrito como rei de Canaã reinando em Hazor, e operacionalizada por Sísera, apresentado como comandante de “900 carruagens”, isto é, um aparato militar que, no imaginário e na logística do relato, representa clara superioridade tecnológica e capacidade de coerção territorial. A caracterização de Sísera é ainda qualificada pela nota de que seu nome não é semítico e pela hipótese de filiação a um dos Povos do Mar (Tjeker?), o que o insere numa moldura etno-histórica mais ampla do Levante no final da Idade do Bronze/início da Idade do Ferro. O centro operacional do comando é situado em Harosheth-haggoim (“plantations of the gentiles”), e a geografia do conflito é aproximada da cena poética de Juízes 5:19: Harosheth-haggoim é apresentado como equivalente poético de “Taanaque junto às águas de Megido”, leitura associada diretamente a Rainey (1981; 1983), o que desloca a atenção para a planície de Esdraelon como corredor decisivo de circulação e domínio. Nesse horizonte, a opressão não é descrita apenas como pressão militar difusa: Chaney (1983) especifica seu caráter como “interrupção das rotas comerciais de caravanas onde desembocam no Esdraelon”, isto é, uma ruptura de rotas caravaneiras exatamente no ponto em que convergem para o grande corredor econômico da região, com impacto direto sobre conectividade e subsistência das populações do norte e do centro. A dimensão histórico-crítica do cenário é complementada por dois pontos: a arqueologia em Megido e Taanaque é citada como sugerindo um enquadramento não muito tempo depois de meados do século XII a.C., e a relação entre o Jabim de Juízes 4 e o Jabim (rei de Hazor) de Josué 11 é classificada como “impura”, com a direção de interação entre as tradições permanecendo “uma questão em aberto” (BOLING, Judges AB, pp. 92–120). Com essa compressão política, econômica e geográfica posta em foco, o passo seguinte se impõe por coerência narrativa: definir como a resposta israelita é mobilizada, quais forças são reunidas, e por que o teatro decisivo passa a gravitar em torno do Quisom e do eixo Tabor–Esdraelon, onde o aparato de carros encontra seu limite operacional.

V. Convocação de Baraque, composição da milícia e a tensão entre promessa e protagonismo

Sob a pressão do ataque de Sísera, a decisão de Débora é apresentada como a convocação de Baraque, identificado como comandante de campo da milícia israelita proveniente de Quedes, em Naftali, e a mobilização conjunta de forças de Zebulom e Naftali, descritas como as únicas tribos nomeadas explicitamente na narrativa em prosa desse ciclo (Juízes 4:6–10). A mesma moldura inclui a noção de mensagem divina ordenando o encontro com Sísera junto ao ribeiro Quisom, e a reunião de um contingente de 10.000 combatentes provenientes de Zebulom e Naftali, com a condução das tropas até o monte Tabor (Juízes 4:6–10).

O elemento decisivo, contudo, é a hesitação de Baraque diante de armamentos superiores e sua exigência de que Débora o acompanhe ao campo, condição descrita como o ponto de fricção que reorganiza o “crédito” da vitória: Débora consente em acompanhar, mas responde à relutância com uma advertência/ironia narrativa, afirmando que a vitória não resultará em glória para Baraque, porque “uma mulher” dará o golpe final, antecipando o papel de Jael (Juízes 4:6–10, 17–22). Taylor (1982) propõe que a combinação entre promessa pronunciada por Débora e cumprimento efetivado por Jael pode ser comparada, por analogia tipológica, a padrões de “parceria” entre divindades femininas como Anath e Astarte, enquanto Lindars (1983) é referido especificamente pela ênfase no papel destacado da mulher nesse conjunto de tradições narrativas e poéticas. Com a força reunida e posicionada, a sequência imediata desloca o foco da convocação para o choque operacional da batalha, cuja dinâmica é ligada ao Quisom e à falha funcional dos carros, preparando a transição para o episódio de fuga de Sísera e o desfecho fora do campo principal de combate.

VI. O Quisom como fator decisivo: inundação súbita, colapso da vantagem dos carros e linguagem cósmica do cântico

O encadeamento do confronto em Juízes 4–5 é descrito como uma ação militar efetiva acompanhada por uma “grande ajuda providencial”, com o ponto de inflexão localizado no Rio Quisom inundado repentinamente a oeste do Monte Tabor, precisamente onde “as carruagens estavam atoladas”, isto é, onde a superioridade de Sísera baseada em carros perde operacionalidade e o próprio comandante sai de cena. No mesmo enquadramento, a consequência estratégica é expressa em termos funcionais: a derrota de Sísera no corredor de Esdraelon frustra a tentativa de finalmente romper as ligações entre os israelitas na Galileia e na região montanhosa central de Efraim e Manassés, isto é, impede que se rompa a ligação entre os israelitas da Galileia e os da região montanhosa central de Efraim e Manassés, preservando a continuidade territorial entre norte e centro. Por inferência operacional (não formulada como explicação causal técnica no texto citado), a imagem de carros “atolados” pressupõe a fragilidade de forças carroceiras quando o terreno se torna instável por água e lama, o que reverte rapidamente uma vantagem de mobilidade e choque em vulnerabilidade tática.

A tradição poética de Juízes 5 interpreta o mesmo ponto de virada em chave teológica e cosmológica: “Eles lutaram desde os céus, as próprias estrelas, em suas órbitas, lutaram contra Sísera.” (Juízes 5:20), e a sequência correlata descreve o escoamento de forças inimigas por meio do próprio rio, “aquele rio antigo, o rio Quisom” (Juízes 5:21), linguagem que articula o desastre militar como intervenção que excede o cálculo humano e que pode ser lida como evocação de chuva/tormenta vinculada à imagem das “estrelas em seus cursos”. Assim, Juízes 4 preserva o registro narrativo de um deslocamento de cena e de uma derrota no corredor do Quisom, enquanto Juízes 5 reinterpreta o mesmo evento com um vocabulário de participação celeste e de agência natural concentrada no curso do rio. Essa convergência entre hidrologia (inundação súbita), logística (carros atolados) e teologia poética prepara, sem repetição de premissas, o passo seguinte do enredo: com a ruptura do dispositivo carroceiro e a retirada de Sísera do teatro principal, a narrativa desloca o foco para a fuga ao extremo norte e para o desfecho fora do campo de batalha, no encontro com Jael e a execução do “golpe final” anunciado anteriormente.

VIII. Jael e a reversão do desfecho: hospitalidade doméstica, eliminação do comandante e fechamento narrativo

Após a desagregação do dispositivo militar cananeu e a retirada do comandante do teatro principal, Juízes 4 concentra o clímax fora do campo de batalha, no deslocamento de Sísera para o extremo norte, onde ele busca refúgio junto de Jael, esposa de Héber, o queneu, nas proximidades de Quedes (Juízes 4:17–22). O episódio é estruturado por uma inversão de expectativas: o comandante que simboliza a superioridade bélica cananeia se encontra vulnerável em ambiente doméstico, é desarmado pela hospitalidade e adormece após receber leite; nesse estado, Jael o mata por meio de um instrumento associado ao espaço de tenda, atingindo-lhe a cabeça, e o desfecho é apresentado como a concretização do golpe final anunciado previamente (Juízes 4:6–10, 17–22). Na tradição comparativa interna ao próprio relato, a figura de Jael é caracterizada como protótipo de Judite, não como equivalência histórica, mas como aproximação tipológica de um padrão narrativo no qual uma mulher, fora do campo de comando formal, desempenha o ato decisivo contra um inimigo politicamente dominante.

O fechamento do ciclo não se esgota no registro narrativo: o cântico de Juízes 5 retoma o episódio como avaliação e memorialização, atribuindo a Jael o louvor devido por sua ação e integrando esse gesto individual ao quadro teológico mais amplo da vitória (Juízes 5). Essa passagem do mesmo evento do modo prosaico (Juízes 4) para o modo poético (Juízes 5) não acrescenta apenas repetição, mas muda o eixo de leitura: o gesto de Jael deixa de ser apenas um detalhe final e passa a funcionar como peça interpretativa dentro de uma composição que reordena causas, protagonistas e sentido do conflito; por isso, o próximo tópico deve tratar, de forma metodológica, como Juízes 4 e Juízes 5 se articulam como duas camadas complementares do mesmo acontecimento, com funções literárias distintas e efeitos interpretativos próprios.

IX. Dupla forma do relato

Juízes 4 e Juízes 5 constituem duas camadas literárias do mesmo acontecimento, mas com funções distintas: a narrativa em prosa estabiliza a sequência de ações (convocação, deslocamento, batalha, fuga e desfecho), enquanto o cântico funciona como avaliação interpretativa da vitória e como meio de preservação da memória coletiva, atribuindo o crédito do triunfo a Jeová e acrescentando informação relevante ao relato precedente, de modo que ambos devem ser considerados conjuntamente para se obter um quadro completo do episódio. No plano histórico-literário, a Canção de Débora e Baraque (Juízes 5:2–31) é caracterizada como, em grande parte, mais antiga do que a forma recebida do relato em prosa, com base em evidências de linguagem arcaica e estrutura poética, o que desloca o eixo de leitura do encadeamento episódico para a interpretação do evento como memória antiga cristalizada em forma de ode. Coogan (1978) explicita a diferença de foco: o cântico não privilegia primariamente a interação entre personagens centrais, mas a resposta variada e o desempenho das “constituencies” israelitas diante de uma ameaça comum, fazendo da mobilização tribal e de sua avaliação moral o centro do texto poético. Essa reorientação é o ponto de passagem necessário para o próximo tópico, porque a própria lógica do cântico exige mapear quais grupos são elogiados pela participação e quais são expostos pela ausência, abrindo caminho para a análise do rol tribal e da dinâmica interna de adesão e recusa na crise (Juízes 5).

X. Débora avalia tribos e lidera a memória.

Em Juízes 5, a canção atribuída a Débora e Baraque não apenas celebra a vitória, mas exerce uma função que prolonga o seu papel público de juíza: a mesma autoridade que arbitra disputas em Juízes 4 aparece agora como voz que classifica a resposta nacional diante da crise, elogiando adesões e censurando ausências, de modo que o retrato da personagem inclui também sua capacidade de nomear virtudes e omissões coletivas, e não somente de convocar um comandante militar. Freedman (1979) e Boling situam essa avaliação dentro de um quadro em que a liga parece contar com dez tribos no momento do conflito e em que o rol não menciona Judá nem Levi, o que torna a voz de Débora ainda mais determinante como instância que organiza quem pertence, quem responde e como a memória do evento deve ser guardada na consciência do povo. (BOLING, The early biblical community in Transjordan, 1988, pp. 57–63) A própria tessitura do cântico, ao louvar Efraim, Benjamim, Maquir (Manassés), Zebulom, Issacar e Naftali e ao expor Rúben, Gileade (Gade), Dã e Aser, funciona como um “julgamento” em forma poética, no qual a liderança de Débora se manifesta como discernimento comunitário: ela não se limita a anunciar que Israel vencerá; ela determina, para as gerações seguintes, quais lealdades devem ser imitadas e quais indecisões devem ser lembradas como advertência. Essa função de moldar a memória prepara o movimento seguinte do cântico, porque a mesma voz que pesa tribos também contrasta figuras femininas, deslocando a lente da arena pública para o espaço doméstico, onde emergem a autoimagem de Débora em Israel e a cena da mãe de Sísera, que aguarda o retorno do filho.

XI. Débora, mãe em Israel, e a mãe de Sísera

A autodefinição de Débora no cântico funciona como síntese narrativa de sua autoridade pública: quando Juízes 5:7 registra “Cessaram as aldeias em Israel, cessaram; até que eu, Débora, me levantei, por mãe em Israel me levantei”, a imagem de maternidade não é apresentada como dado doméstico, mas como metáfora de liderança que sustenta, reorganiza e protege uma comunidade em colapso social, tornando a personagem, ao mesmo tempo, voz de comando e figura de amparo num momento de desagregação. A atribuição do cântico a Débora e Baraque, com trechos em primeira pessoa associados à própria Débora, reforça que a personagem não aparece apenas como agente de convocação militar, mas como intérprete autorizada do significado do conflito, capaz de converter acontecimento bélico em memória normativa para Israel.

O fecho do cântico intensifica essa função ao colocar, lado a lado, duas maternidades e dois horizontes morais: de um lado, Débora “mãe em Israel” que se levanta; de outro, a mãe de Sísera, enquadrada na janela, cuja expectativa é narrada por perguntas e auto-respostas que giram em torno de atraso e saque, como em Juízes 5:28: “Por que tarda em vir o seu carro? Por que se demoram os ruídos dos seus carros?”, seguido do coro doméstico em Juízes 5:29: “As mais sábias das suas damas responderam; e até ela respondia a si mesma:”, culminando na lógica do despojo em Juízes 5:30: “Uma ou duas moças a cada homem? Para Sísera despojos de estofos coloridos, despojos de estofos coloridos bordados”. Nesse desenho irônico, a cena doméstica não é periférica: ela conclui o retrato de Débora por contraste, porque expõe como a vitória interrompe uma expectativa de pilhagem e de captura humana, e assim fixa a personagem como polo de libertação em oposição a um imaginário de opressão, incluindo o “desapontamento da mãe de Sísera” que aguarda em vão a distribuição de despojos e escravos após a suposta vitória cananeia. Esse contraste abre naturalmente para o último movimento do capítulo, quando o cântico se encerra com a petição de Juízes 5:31: “Assim, ó Senhor, pereçam todos os teus inimigos!”, seguida da nota narrativa que estabiliza o quadro histórico do período, “E sossegou a terra quarenta anos”, preparando o próximo tópico sobre o encerramento teológico do cântico e sua função de selar a memória da vitória como juízo e como paz.

XII. Débora, louvor pós-vitória e tradição feminina

A identidade pública de Débora inclui, além do ato oracular e do julgamento, a função de moldar a memória do livramento por meio do louvor: Juízes 5 descreve que Débora e Baraque entoam um cântico no dia da vitória, com trechos em primeira pessoa que, no conjunto da tradição transmitida, apontam para participação composicional direta de Débora no texto poético, ao menos em parte. Essa dimensão é apresentada como continuação coerente da imagem de “mãe em Israel” já contrastada com a mãe de Sísera, porque a maternidade metafórica aqui não se reduz a proteção; ela também organiza a lembrança pública do acontecimento, evitando que a vitória seja absorvida como glória meramente humana e dirigindo o crédito do triunfo a Yahweh, como eixo interpretativo do evento. No mesmo horizonte cultural, o louvor de Juízes 5 é alinhado a um padrão bíblico mais amplo no qual mulheres celebram vitórias por meio de canto e dança: em Êxodo 15:20, Miriã conduz a celebração quando “todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris e com danças”, e em Êxodo 15:21 a resposta antífona preserva a forma de aclamação comunitária, “Cantai ao Senhor, porque gloriosamente triunfou”. 

Em Juízes 11:34, o mesmo gesto aparece na recepção de Jefté, quando “a sua filha lhe saiu ao encontro com adufes e com danças”, e em 1 Samuel 18:6 a cena se amplia para um movimento nacional, pois “as mulheres de todas as cidades de Israel saíram ao encontro do rei Saul, cantando e dançando”, estabelecendo o canto feminino como prática de celebração pública e difusão de narrativa de vitória. Em Salmos 68:11, a ideia é transposta para o registro de proclamação, com a multiplicação das anunciadoras do anúncio, “tornam-se numerosas as mulheres que anunciam a boa nova”, o que reforça que, no imaginário bíblico, a voz feminina pode funcionar como vetor de memória, anúncio e interpretação comunitária do agir divino. Essa articulação prepara o tópico seguinte, porque o cântico de Débora não apenas celebra: ele encerra o conflito com uma fórmula que projeta juízo sobre os inimigos e, ao mesmo tempo, estabiliza o período subsequente como tempo de repouso, de modo que a conclusão do poema se torna parte essencial do retrato da personagem como liderança que sela o sentido da história.

XIV. Débora e a incerteza histórica sobre Jabim

A moldura histórica do retrato de Débora como líder em “tempos de angústia nacional” se apoia, no relato em prosa de Juízes 4, na identificação do opressor como Jabim (rei cananeu) e, ao mesmo tempo, admite uma zona de incerteza quando essa figura é colocada em relação com o Jabim associado a Hazor em Josué 11: a conexão entre ambos permanece incerta e a direção de influência entre as tradições narrativas é tratada como questão ainda em aberto (Boling, Judges AB, pp. 92–120). Para enquadrar cronologicamente o horizonte em que a liderança de Débora é situada, a arqueologia de Megido e Taanaque é mencionada como sugerindo um cenário não muito posterior à metade do século XII a.C., fornecendo um pano de fundo plausível para a crise descrita, sem que isso elimine as dúvidas sobre a articulação exata entre as memórias preservadas em Juízes e em Josué. A própria Débora, porém, não é apresentada apenas como agente do evento, mas também como voz que interpreta e seleciona como o inimigo deve ser lembrado: na versão poética (Juízes 5), Jabim não é nomeado e o quadro se amplia para uma coalizão de “reis de Canaã” sob o comando de Sísera, o que desloca o foco do antagonista individual para um bloco político mais amplo; a inferência possível (e aqui assumida explicitamente como inferência) é que a imagem de Débora se fortalece como liderança que enfrenta uma ameaça sistêmica, e não meramente um adversário com nome próprio, porque a memória cantada reconfigura a identificação do oponente ao mesmo tempo em que fixa o sentido do livramento. Essa passagem da prosa ao cântico prepara o próximo tópico, pois, se a memória poética pode omitir um nome régio e ainda assim preservar o “núcleo” do acontecimento, torna-se necessário examinar as questões textuais internas do próprio cântico — inclusive as observações sobre formas arcaicas e a proximidade temporal de sua composição — para compreender como a voz atribuída a Débora chega até o leitor como tradição estabilizada.

XV. Débora em Tobias e a memória familiar

Em Tobias 1:8, o nome “Débora” surge não como agente de acontecimentos públicos (como em Juízes 4–5), mas como figura doméstica de transmissão normativa e formação religiosa dentro da família, vinculada à prática do dízimo e ao cuidado social. O versículo a apresenta como avó de Tobias (no enredo, a pessoa que lhe inculca um padrão de observância), em um contexto em que o narrador associa diretamente sua disciplina de piedade a um aprendizado familiar e a uma matriz legal mosaica: “De três em três anos, separava o terceiro dízimo e entregava a órfãos, viúvas e estrangeiros que moravam com o povo de Israel. Eu o consumia de acordo com a ordem estabelecida na Lei de Moisés e como minha avó Débora me havia ensinado. Meu pai tinha falecido e deixara-me órfão.” (Tobias 1:8). Dentro desse enquadramento narrativo, “Débora” funciona como marcador de continuidade: ela representa a ponte entre a Lei (como norma objetiva) e a prática cotidiana (como hábito aprendido), reforçando que a virtude do protagonista não é descrita como impulso espontâneo, mas como tradição internalizada sob tutela familiar, precisamente no ponto em que a ausência paterna é explicitada no próprio versículo.

Do ponto de vista prosopográfico, essa Débora é tradicionalmente listada como homônima distinta, para evitar a fusão indevida de biografias entre a ama de Rebeca, a juíza-profetisa de Israel e a Débora ligada a Tobias, sendo esta última identificada como a avó do personagem (e, em algumas formulações enciclopédicas, como mãe do pai de Tobias, com ênfase no papel de criar/educar o neto após a morte do pai). Há ainda um dado textual relevante para o controle de identidade: certas tradições de transmissão registram, no lugar de “Débora”, outro antropônimo (por exemplo, “Ananiel” no texto grego, segundo observação editorial de edição moderna), o que significa que, mesmo quando o perfil moral permanece (avó como referência pedagógica), o nome próprio pode variar conforme a base textual utilizada. . Esse ponto se harmoniza com a história textual do livro, preservado em múltiplas tradições linguísticas e recensions, e cuja composição costuma ser situada, em termos gerais, no horizonte do período intertestamentário (com ampla margem de discussão), cenário em que o relato funciona como narrativa didática de piedade familiar e justiça social. (Enciclopédia Judaica)

Com essa delimitação, a menção de Débora em Tobias cumpre a função de “limpeza do campo” do nome: fixa uma personagem homônima de perfil doméstico e breve, impedindo que sua referência genealógica e pedagógica seja confundida com a figura pública de Juízes; a partir dessa triagem, torna-se metodologicamente mais seguro retomar a Débora juíza como eixo interpretativo principal, sem contaminação por dados onomásticos de tradições distintas.

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GALVÃO, Eduardo. Débora. In: Enciclopédia da Bíblia Online. [S. l.], 20 fev. 2021. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano. Ex.: 22 ago 2025].

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