Baraque — Enciclopédia Bíblica Online

Baraque é apresentado na Bíblia como um líder militar israelita do período dos juízes, “filho de Abinoão”, oriundo de Quedes, em Naftali, que emerge quando Israel, enfraquecido e oprimido por Jabim, rei de Canaã, clama por socorro e recebe direção por meio da profetisa e juíza Débora (Jz 4:1-9); convocado por ela, ele reúne dez mil homens — sobretudo de Naftali e Zebulão, com outras tribos associadas no cântico — e marcha ao monte Tabor, embora só aceite avançar com Débora ao seu lado, ouvindo dela a sentença paradoxal de que a honra final recairia sobre uma mulher (Jz 4:6-10; Jz 5:9-18); no confronto, as forças de Sísera, general de Jabim, célebres por seus carros, são desbaratadas quando o Quisom se torna torrente e a vantagem tecnológica se desfaz na lama e no pânico, culminando na fuga de Sísera e em sua morte pelas mãos de Jael, o que sela a vitória e abre um período de sossego na terra (Jz 4:15-24; Jz 5:20-31), memória que ressurge como marco do agir divino em favor de Israel (Sl 83:9) e que faz de Baraque, apesar de suas hesitações, um nome preservado entre os exemplos de fé que “desbarataram os exércitos de estrangeiros” (Hb 11:32-34), chegando até a levantar a hipótese de sua identificação com “Bedã” em 1Sm 12:11 conforme certas tradições textuais.

Baraque — Enciclopédia da Bíblia Online

I. Identificação, origem e onomástica

Baraque é apresentado como filho de Abinoão, natural de Quedes, cidade-refúgio situada no território tribal de Naftali, ao norte do lago Huleh e na região montanhosa ao norte do mar da Galileia (Jz 4:6; cf. Js 19:37; Js 21:32). O nome “Baraque” é explicado como derivado do hebraico “בָ רָ ק‎” (bārāq, “relâmpago”), e a onomástica semítica registra ampla atestação do radical: o nome ocorre (com variações e cognatos) no sabeu “ברקס”, no palmíreno “ברק”, e no púnico “Barcas” (como sobrenome de Amílcar), além de aparecer em nomes teofóricos/nominais assírios como “Ramman-Birḳu” e “Gibil-Birḳu” (HALAT 155; Del. Assyrian, HWB, 187). Em outra tradição lexicográfica, a forma hebraica é dada como “בָּרִק” (bārîq, “relâmpago”), com a equivalência grega na Septuaginta e no Novo Testamento “Βαράκ” (Barak, “Baraque”) e, em Josefo (Ant. v. 5, 2), “Βάρακος” (Barakos, “Baraque”), observando-se ainda o paralelo com o nome familiar “Barca”, entendido como “relâmpago de guerra”.

II. Moldura histórico-teológica do episódio em Juízes 4–5

O ciclo narrativo situa Baraque num período inicial do tempo dos juízes, quando Israel se desviou da adoração verdadeira e, como punição, caiu em servidão: por vinte anos, Jabim, rei cananeu sediado em Hazor, oprimiu severamente o povo (Jz 4:1–3; cf. Jz 4:24). A opressão foi agravada pela superioridade bélica inimiga, concentrada em novecentos carros de ferro (Jz 4:3), descritos também como carros com foices de ferro, enquanto Israel aparece desarmado e socialmente paralisado: “não se via nem escudo nem lança no meio de quarenta mil em Israel” (Jz 5:8), com estradas de caravana sob risco, tráfego quase cessando, e a zona cultivada exposta a pilhagem (Jz 5:6–7). No clamor nacional por alívio, Israel invoca Yahweh, e o livramento se organiza em torno de Débora e Baraque (Jz 4:4–9).

III. Débora, a convocação do comandante e a tensão de protagonismo

Débora é explicitamente nomeada como juíza e profetisa que então julgava Israel, e é ela quem convoca Baraque do norte, chamando-o a enfrentar a coalizão cananeia comandada por Sísera, general de Jabim (Jz 4:4–7, veja DÉBORA). Baraque consente em assumir a iniciativa militar, mas impõe a condição de que Débora o acompanhe; ela aceita, porém declara que Yahweh entregará Sísera às mãos de uma mulher, deslocando a “glória” do desfecho (Jz 4:8–9). A própria forma do relato (Juízes 4 e o cântico de Juízes 5) intensifica o contraste: o narrador nomeia Débora como juíza, não Baraque; sugere-se que a estatura militar de Baraque poderia implicar autoridade no norte, mas o texto não o afirma; e a leitura comparativa enfatiza que Débora manifesta fé mais robusta em Yahweh do que Baraque, ao passo que Baraque perde a oportunidade de humilhar pessoalmente o inimigo — ainda que, de modo irônico, seja Baraque (e não Débora) quem é citado em Hebreus como exemplo de fé (Hb 11:32).

IV. Mobilização tribal, adesões seletivas e o problema da coesão intertribal

A mobilização reúne voluntários de Naftali e Zebulão em número de dez mil, recrutados por Baraque (Jz 4:6, 10), e o cântico amplia o quadro ao mencionar outras adesões, como Benjamim, Maquir e Issacar (Jz 5:13–18), ao lado de Zebulão e Naftali, compondo um retrato de participação assimétrica. O poema também preserva a crítica à hesitação de certas tribos, sinalizando falta de entusiasmo geral pela mobilização e registrando a inércia de grupos que evitam o chamamento (Jz 5:15–17). Nesse mesmo registro, a guerra é descrita em chave regional e “confederativa”, chegando a mencionar “reis” no plural — hebraico “מלכים” (mĕlākîm, “reis”) — em Juízes 5:19, o que sugere uma coalizão e não apenas um comando isolado.

V. Teatro de operações e dinâmica tática: Tabor, Jezreel, Quisom, Megido e Taanach

Baraque conduz o contingente ao monte Tabor, escolhendo uma posição favorável a tropas “rudemente armadas” diante de um inimigo bem equipado: as encostas arborizadas e o relevo irregular dificultariam a manobra dos carros cananeus e permitiriam defesa e contra-ataque quando o inimigo se expusesse em marcha (Jz 4:10; Jz 4:12–14). Ao saber do ajuntamento israelita, Sísera avança com seu exército e os novecentos carros de ferro para enfrentar Israel na planície de Jezreel/Esdraelon, associada ao leito (inicialmente seco no relato) do Quisom (Jz 4:13), enquanto o cântico situa a batalha em torno de Taanach e das “águas de Megido”, articulando a geografia do confronto (Jz 5:19–21). A vitória é narrada como resultado de um colapso ambiental e providencial: sob chuva intensa, a planície aluvial se torna um lamaçal, os carros e tropas pesadas perdem mobilidade, e o Quisom se converte em torrente, “arrastando” os inimigos; o poema dramatiza a intervenção cósmica: “desde o céu lutaram as estrelas, desde as suas órbitas lutaram contra Sísera. A torrente de Quisom os arrastou” (Jz 5:20–22). Uma tradição paralela, atribuída a Josefo, fala de uma tempestade providencial e de vento que soprava contra a face do inimigo (Ant. v.4), convergindo com a imagem bíblica de desordem meteorológica decisiva.

VI. Roteamento, Harosete-Hagoiim e a aniquilação do acampamento de Sísera

Com Baraque à frente, o contingente israelita desce do Tabor no momento do colapso tático cananeu e explora a vantagem: as forças de Sísera são derrotadas e perseguidas até Harosete-Hagoiim, cidade associada ao general (Jz 4:15–16), e o relato formula o desfecho em termos totais: “Todo o acampamento de Sísera caiu ao fio da espada. Não restou nem sequer um” (Jz 4:16). A tradição historiográfica e lexicográfica reforça o caráter decisivo do triunfo: Harosete é tomada (Jz 4:16), Sísera perde o controle do teatro de operações, e o poder de Jabim entra em ruína, abrindo um intervalo de paz prolongada.

VII. Sísera, Jael e o cumprimento da palavra profética

Sísera, abandonando seu carro e fugindo a pé, busca refúgio na tenda de Jael, esposa de Héber, um queneu em paz com Jabim (Jz 4:17–18). Jael o acolhe com hospitalidade, mas, enquanto ele dorme, o mata cravando-lhe nas têmporas uma estaca de tenda, fincando-a no solo; o cântico descreve o ato em registro exultante e detalhado (Jz 4:19–22; Jz 5:24–27). Quando Baraque chega, Jael o conduz à tenda e ele vê o cumprimento do oráculo: Yahweh “vendera” Sísera às mãos de uma mulher (Jz 4:9, 22). O episódio, assim, encerra a tensão narrativa entre liderança militar e mediação profética: Baraque triunfa no campo, mas a peça culminante da humilhação do inimigo é atribuída a Jael, exatamente como prenunciado.

VIII. Consequências políticas, memória litúrgica e recepção bíblica posterior

Depois da vitória, “a mão dos israelitas” pesa cada vez mais contra Jabim até que ele é “decepado”, e a região desfruta “sossego por quarenta anos” (Jz 4:23–24; Jz 5:31). O triunfo não se apaga da memória de Israel: ele é evocado em Salmos 83:9 como paradigma de intervenção salvadora. No Novo Testamento, Baraque aparece entre os exemplos de fé: é contado entre os que “pela fé, derrotaram reinos [em conflito], … tornaram-se valentes na guerra, desbarataram os exércitos de estrangeiros” (Hb 11:32–34), reforçando a tradição que o integra ao cânon de “heróis” apesar de sua hesitação inicial e do protagonismo textual atribuído a Débora no ciclo de Juízes.

IX. Tradição textual em 1 Samuel 12:11 e a hipótese “Bedã”

Uma discussão específica emerge em 1 Samuel 12:11, onde se debate se Baraque poderia corresponder ao nome “Bedã”. A hipótese é formulada assim: Baraque talvez seja “Bedã” em 1 Samuel 12:11, caso se siga a leitura da Septuaginta e da tradição siríaca; nessa linha, lê-se “ברק” (bārāq, “Baraque”) em lugar do massorético “בדן” (bĕdān, “Bedã”). A implicação literária sugerida é irônica: se essa leitura for adotada, Baraque “usurpa” novamente o lugar de Débora no rol de heróis, pois o deslocamento onomástico reforçaria a tendência de a tradição recepcional destacar Baraque em detrimento da juíza-profetisa.

X. Hipóteses cronológicas e paralelos com Josué 11:1–12

O cântico preserva um dado incidental em Juízes 5:6 que levou alguns a propor Baraque como contemporâneo de Sangar; nesse caso, argumenta-se que ele não poderia estar tão “tarde” quanto certas cronologias que o situariam cento e setenta e oito anos após Josué. Lord A. Hervey propõe que a narrativa de Baraque seria, em essência, uma repetição de Josué 11:1–12 (Genealogies, p. 228 sq.), e a proposta é defendida por convergências: os nomes Jabim e Hazor; a menção de reis subordinados (Jz 5:19; cf. Js 11:2 sq.); a localidade geral do conflito; a centralidade dos carros em ambas as tradições; e, de modo particularmente sugestivo, o topônimo Misrefote-Maim, interpretado como “queima junto às águas” em vez de “o fluxo das águas”, o que também serviria para remover dificuldades cronológicas. Em contrapeso, registra-se que, na opinião de Stanley (Palestina, p. 392 note), há dificuldades geográficas para essa harmonização. O juízo final dessa tradição lexicográfica é conservador: “no whole, no good reason for departing from the regular order of the judges”, e, nesse arranjo, a “rule” de Baraque é colocada em a.C. 1409–1369.

Bibliografia

BARAK. In: ORR, James (Org.). The International standard Bible encyclopedia. Chicago: The Howard-Severance Co., 1915. Disponível em: https://www.internationalstandardbible.com/B/barak.html. Acesso em: 2 jan. 2026.
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LOWERY, Kirk E. Barak. In: FREEDMAN, David Noel (Org.). The Anchor Bible dictionary. New York: Doubleday, 1992. v. 1, p. 608.

Abreviaturas

Jz = Juízes
Js = Josué
Sl = Salmos
Hb = Hebreus
a.C = antes de Cristo
s.q = sequência
p. = página
cf. = conferir
v. = volume
Ant. = Jewish Antiquities (Antiguidades Judaicas)

Cite este artigo:

GALVÃO, Eduardo. Baraque. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 16 jul. 2009. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

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