Alimento — Enciclopédia Bíblica Online

Na Bíblia, “comida” é um conceito lexical amplo que cobre, no AT, desde a provisão criacional até a ordem social e cultual. No hebraico, um termo genérico é אֹכֶל (ʾōḵel, “comida/alimento”), frequentemente associado ao ato de sustentar a vida cotidiana e a administração de provisões (Gn 1.29; Gn 6.21). Ao lado dele, לֶחֶם (leḥem, “pão/alimento”) funciona muitas vezes como metonímia de refeição (“comer pão” = comer uma refeição), concentrando a ideia de subsistência e hospitalidade (Gn 43.31–32). No campo mais específico, בָּשָׂר (bāśār, “carne”) delimita a comida animal, cuja permissão explícita após o dilúvio vem acompanhada do interdito do sangue como princípio teológico-ritual (Gn 9.3–4), e as legislações de pureza classificam alimentos “limpos” e “impuros” para Israel como forma de disciplina identitária e santidade cultual (Lv 11; Dt 14). Assim, “comida” pode designar tanto o sustento ordinário quanto uma fronteira ética e religiosa, em que comer é também um ato regulado por alianças, culto e comunhão.

No NT, o vocabulário grego mantém essa amplitude e explicita debates comunitários: τροφή (trophē, “alimento/nutrição”), βρῶμα (brōma, “comida/alimento”) e ἄρτος (artos, “pão”) podem referir-se ao sustento simples, mas também a disputas sobre consciência, idolatria e convivência eclesial (1Co 8; Rm 14.17). Há, ainda, usos concentrados no vínculo social: refeições sinalizam inclusão/exclusão e comunhão, de modo que a mesa se torna um lugar de teologia prática (At 11.2–3; Gl 2.11–12). Em registro metafórico, “comida” é elevada a linguagem de revelação: Jesus se identifica com ὁ ἄρτος τῆς ζωῆς (ho artos tēs zōēs, “o pão da vida”), e o alimento passa a nomear participação e vida recebida (Jo 6.35; Jo 6.55); a Palavra de Deus e a vontade divina são descritas como nutrição, com gradações pedagógicas (“leite” e “alimento sólido”), de modo que comer também significa assimilar, amadurecer e perseverar (Dt 8.3; Hb 5.12–14; 1Pe 2.2). A culminação escatológica retoma a mesa como símbolo de consumação, com o banquete figurando a comunhão final dos “chamados” (Ap 19.9).

I. Quadro semântico

Lexema + Strong Campo semântico + gloss base Ocorrências Âncoras textuais (versículos onde ocorre)
Hb. אָכַל — ʾāḵal (Strong H398) Verbo de ingestão/consumo — “comer; devorar; consumir” 815× (703 vv.; Hb. WLC) Gn 2.16; Gn 2.17; Gn 3.1; Gn 3.2; Gn 3.3.
Hb. אֹכֶל — ʾōḵel (Strong H400) Substantivo de provisões — “comida; mantimento; víveres” 44× (41 vv.; Hb. WLC) Gn 14.11; Gn 41.35; Gn 41.36.
Hb. מַאֲכָל — maʾăkāl (Strong H3978) Substantivo “comestível” — “alimento; aquilo que é comido” 30× (29 vv.; Hb. WLC) Gn 2.9; Gn 3.6.
Hb. לֶחֶם — leḥem (Strong H3899) Alimento básico — “pão; por extensão, alimento” 299× (277 vv.; Hb. WLC) Gn 3.19; Gn 14.18; Gn 18.5.
Hb. בָּשָׂר — bāśār (Strong H1320) Carne/corpo (também em linguagem alimentar) — “carne; flesh” 270× (241 vv.; Hb. WLC) Gn 2.21; Gn 2.23; Gn 2.24.
Hb. חָלָב — ḥālāḇ (Strong H2461) Laticínios / abundância — “leite” 44× (44 vv.; Hb. WLC) Gn 18.8; Gn 49.12; Êx 3.8.
Hb. דְּבַשׁ — dĕḇaš (Strong H1706) Doçura / iguarias — “mel” 54× (54 vv.; Hb. WLC) Gn 43.11; Êx 3.8; Êx 16.31.
Hb. יַיִן — yayin (Strong H3196) Bebida fermentada — “vinho” 141× (134 vv.; Hb. WLC) Gn 9.21; Gn 9.24; Gn 14.18.
Hb. מֶלַח — melaḥ (Strong H4417) Tempero/preservação e linguagem de pacto — “sal” 29× (26 vv.; Hb. WLC) Gn 14.3; Gn 19.26; Lv 2.13.
Hb. מָן — mān (Strong H4478) Provisão miraculosa — “maná” 14× (12 vv.; Hb. WLC) Êx 16.15; Êx 16.31; Êx 16.33.
Hb. רָעָב — rāʿāḇ (Strong H7458) Carência/juízo social — “fome; carestia” 101× (88 vv.; Hb. WLC) Gn 12.10; Gn 26.1; Gn 41.27.
Gr. τροφή — trophē (Strong G5160) Alimento/nutrição — “alimento; comida” 16× (16 vv.; Gr. TR) Mt 3.4; Mt 6.25.
Gr. βρῶμα — brōma (Strong G1033) Comida/víveres — “alimento; provisões” 17× (15 vv.; Gr. TR) Mt 14.15.
Gr. ἄρτος — artos (Strong G740) Pão/alimento básico — “pão” 99× (91 vv.; Gr. TR) Mt 4.3; Mt 4.4.
Gr. γάλα — gala (Strong G1051) Leite (metáfora pedagógica e alimento) — “leite” 5× (5 vv.; Gr. TR) 1Co 3.2; 1Co 9.7.
Gr. μέλι — meli (Strong G3192) Doçura / alimento — “mel” 4× (4 vv.; Gr. TR) Mt 3.4; Mc 1.6.
Gr. οἶνος — oinos (Strong G3631) Vinho (uso cotidiano e simbólico) — “vinho” 33× (25 vv.; Gr. TR) Mt 9.17.
Gr. ἅλας — halas (Strong G217) Sal (tempero; metáfora ética) — “sal” 8× (4 vv.; Gr. TR) Mt 5.13.
Gr. μάννα — manna (Strong G3131) Maná (tipologia/lembrança do Êxodo) — “maná” 5× (5 vv.; Gr. TR) Jo 6.31; Jo 6.49; Jo 6.58.
Gr. λιμός — limos (Strong G3042) Fome/carestia (juízo; crise) — “fome; carestia” 12× (12 vv.; Gr. TR) Mt 24.7; Mc 13.8.
Gr. πεινάω — peinaō (Strong G3983) Estado de fome/desejo (literal e metafórico) — “ter fome” 23× (23 vv.; Gr. TR) Mt 4.2; Mt 5.6.
Gr. τροφή — trophē (Strong G5160) Alimento/nutrição — “alimento; provisão” (Gr. LXX) 14× (14 vv.; Gr. LXX) Gn 49.27; 2Cr 11.23.
Gr. βρῶμα — brōma (Strong G1033) Comida/“coisas comestíveis” — “alimentos” (Gr. LXX) 50× (47 vv.; Gr. LXX) Gn 6.21; Gn 14.11.
Gr. ἄρτος — artos (Strong G740) Pão/alimento básico — “pão” (Gr. LXX) 265× (244 vv.; Gr. LXX) Gn 3.19.
Gr. οἶνος — oinos (Strong G3631) Vinho — “vinho” (Gr. LXX) 187× (179 vv.; Gr. LXX) Gn 9.21; Gn 9.24.
Gr. μάννα — manna (Strong G3131) Maná — “maná” (Gr. LXX) 9× (8 vv.; Gr. LXX) Nm 11.6; Nm 11.7; Nm 11.9.

II. Delimitação semântica e teológica de “alimento/comida”

A primeira moldura bíblica para “alimento” não é apenas fisiológica, mas ordenada por dádiva e por limites. Em Gênesis 1.29–30, a provisão alimentar aparece como concessão universal: ao humano e ao domínio animal, o texto formula a alimentação como finalidade (“para alimento”) por meio da expressão לָכֶ֥ם יִֽהְיֶ֖ה לְאָכְלָֽה (lākem yihyeh ləʾoḵlāh, “para vocês será por alimento”) e, de modo paralelo, אֶת־כָּל־יֶ֥רֶק עֵ֖שֶׂב לְאָכְלָ֑ה (ʾet-kol yereq ʿēśeb ləʾoḵlāh, “toda erva verde por alimento”). A forma לְאָכְלָה (ləʾoḵlāh, “por alimento”) deriva do campo verbal de אָכַל (ʾāḵal, “comer”), mas já opera aqui como categoria de destinação: o que é criado é também “comestível” por doação divina, de modo que “alimento” designa tanto a matéria (vegetação/fruto) quanto a teleologia (servir de sustento).

O mesmo livro, porém, instala imediatamente um segundo eixo: a comida é dom, mas não é indiferença moral. Em Gênesis 2.16–17, o mandamento articula permissão ampla e proibição específica: מִכֹּ֥ל עֵֽץ־הַגָּ֖ן אָכֹ֥ל תֹּאכֵֽל (mikkol ʿēṣ-haggān ʾāḵōl tōʾḵēl, “de toda árvore do jardim, certamente comerás / comerás livremente”) contrasta com לֹ֥א תֹאכַ֖ל מִמֶּ֑נּוּ (lōʾ tōʾḵal mimmennû, “não comerás dela”). A duplicação do verbo (infinitivo absoluto + forma finita) em אָכֹל תֹּאכֵל (ʾāḵōl tōʾḵēl) intensifica a permissão, ao passo que a sanção מ֥וֹת תָּמֽוּת (môt tāmût, “certamente morrerás”) mostra que, na primeira teologia bíblica do alimento, a questão decisiva não é a “matéria” ingerida, mas a relação do comer com a palavra normativa.

A queda desloca o “comer” do registro do dom abundante para o registro do trabalho penoso e da finitude. Em Gênesis 3.19, o comer é reconfigurado por um nexo de suor, tempo e retorno à terra: בְּזֵעַ֤ת אַפֶּ֨יךָ֙ תֹּ֣אכַל לֶ֔חֶם (bəzeʿat ʾappeḵā tōʾḵal leḥem, “com o suor do teu rosto comerás pão”). Aqui “pão” (לֶחֶם, leḥem, “pão/alimento”) funciona como metonímia do sustento cotidiano: “alimento” passa a significar subsistência sob limite, obtida em tensão com a terra que, no mesmo contexto, se torna lugar de desgaste e destino de dissolução (“tu és pó…”).

III. Provisão no juízo e ampliação pós-diluviana: alimento, arca e sangue

O episódio do dilúvio introduz um terceiro aspecto: alimento como logística de preservação da vida em meio ao juízo. Em Gênesis 6.21, a instrução a Noé não descreve apenas “o que comer”, mas a necessidade de armazenar provisões: מִכָּל־מַֽאֲכָל֙ אֲשֶׁ֣ר יֵֽאָכֵ֔ל (mikkol-maʾăkāl ʾăšer yēʾāḵēl, “de todo alimento que se come”) e o fecho funcional וְהָיָ֥ה לְךָ֛ וְלָהֶ֖ם לְאָכְלָֽה (wəhāyāh ləḵā wəlāhem ləʾoḵlāh, “e será para ti e para eles por alimento”) preserva o mesmo vocabulário finalístico de Gênesis 1.29–30, mas agora sob condições de ruptura cósmica. O termo מַאֲכָל (maʾăkāl, “alimento/coisa comestível”) reforça a noção de “comestibilidade” como classe: não se trata de um item isolado, mas do conjunto do que é apto a ser comido e, por isso, deve ser providenciado.

Após o dilúvio, a Escritura desloca o escopo alimentar: de “vegetação por alimento” para a autorização do alimento animal, com uma cláusula teológica de restrição. Em Gênesis 9.3–4, a permissão é maximalista: כָּל־רֶ֨מֶשׂ֙ אֲשֶׁ֣ר הוּא־חַ֔י לָכֶ֥ם יִהְיֶ֖ה לְאָכְלָ֑ה (kol-remes ʾăšer hûʾ-ḥay… lākem yihyeh ləʾoḵlāh, “todo ser vivente que se move… para vocês será por alimento”), seguida do paralelo “como a erva verde, tudo vos dou”. O limite, porém, é expresso com força adversativa e com teologia da vida: אַךְ־בָּשָׂ֕ר בְּנַפְשֹׁ֥ו דָמ֖וֹ לֹ֥א תֹאכֵֽלוּ (ʾaḵ-bāśār bənafšô dāmô lōʾ tōʾḵēlû, “porém carne com sua vida—seu sangue—não comereis”). O substantivo נֶפֶשׁ (nepeš, “vida/alma”) funciona aqui como marcador de princípio vital, associado ao sangue (דָּם, dām, “sangue”): a ampliação alimentar não elimina um limite ético-teológico que preserva a sacralidade da vida.

Uma comparação pontual de traduções modernas é útil apenas neste ponto porque evidencia onde o texto concentra seu argumento. Em João 6.27, as versões portuguesas tendem a diferenciar “comida” e “alimento” para dar conta do contraste semântico interno do grego: ARA/ACF usam “comida” (“Trabalhai, não pela comida que perece…”), NVI mantém “comida” mas explicita a deterioração (“comida que se estraga…”), enquanto NVT desloca para “coisas… como a comida” e escolhe “alimento” para o polo permanente, reforçando o contraste entre perecível e durável. Essa oscilação é exegética porque o texto grego opera com o mesmo substantivo nos dois polos, distinguindo-o por particípios qualificadores, e não por dois substantivos diferentes.

IV. Pão, Palavra e reorientação do desejo

A reflexão de Deuteronômio 8.3 concentra, em forma didática, o modo bíblico de delimitar “alimento”: o pão é real, necessário e querido por Deus, mas não é a instância última da vida humana. O hebraico articula o episódio do maná com uma tese antropológica: לֹ֣א עַל־הַלֶּ֤חֶם לְבַדּוֹ֙ יִחְיֶ֣ה הָֽאָדָ֔ם… כִּ֛י עַל־כָּל־מוֹצָ֥א פִֽי־יְהוָ֖ה יִחְיֶ֥ה הָאָדָֽם (lōʾ ʿal-halleḥem ləḇaddô yiḥyeh hāʾādām… kî ʿal-kol-môṣāʾ pî-YHWH yiḥyeh hāʾādām, “não só de pão viverá o ser humano… mas de tudo o que sai da boca de Yahweh viverá o ser humano”). A expressão מוֹצָא (môṣāʾ, “saída/procedência”) desloca o centro da vida para o que “procede” da fala divina: alimento passa a ser também a recepção obediente da palavra que estrutura a existência.

A LXX é relevante aqui porque fornece a formulação grega que o NT retoma quase literalmente: οὐκ ἐπ᾽ ἄρτῳ μόνῳ ζήσεται ὁ ἄνθρωπος, ἀλλ᾽ ἐπὶ παντὶ ῥήματι τῷ ἐκπορευομένῳ διὰ στόματος θεοῦ (ouk ep’ artō monō zēsetai ho anthrōpos, all’ epi panti rhēmati tō ekporeuomenō dia stomatos theou, “não só de pão viverá o ser humano, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”). O hebraico “o que sai” (מוֹצָא, môṣāʾ) é interpretado pela LXX como “palavra/declaração” (ῥῆμα, rhēma, “palavra dita”), reforçando que o contraste é entre sustento material e sustentação normativa-revelacional.

Mateus 4.4 se torna, então, uma aplicação cristológica e ética dessa delimitação: no cenário da fome e da tentação de transformar pedras em pão, a resposta citacional mantém a lógica de Deuteronômio 8.3 na forma grega: οὐκ ἐπ’ ἄρτῳ μόνῳ ζήσεται ὁ ἄνθρωπος, ἀλλ’ ἐπὶ παντὶ ῥήματι ἐκπορευομένῳ διὰ στόματος θεοῦ (ouk ep’ artō monō zēsetai ho anthrōpos, all’ epi panti rhēmati ekporeuomenō dia stomatos theou, “não só de pão viverá o ser humano…”). O ganho exegético central não está em “desmaterializar” o pão, mas em hierarquizá-lo: o alimento é bem real, mas o humano não é reduzível ao circuito “necessidade → satisfação”; a vida é definida por relação com a palavra que procede de Deus.

João 6.27 fecha essa delimitação com uma reorientação do desejo: ἐργάζεσθε μὴ τὴν βρῶσιν τὴν ἀπολλυμένην ἀλλὰ τὴν βρῶσιν τὴν μένουσαν εἰς ζωὴν αἰώνιον (ergazesthe mē tēn brōsin tēn apollymenēn alla tēn brōsin tēn menousan eis zōēn aiōnion, “empenhai-vos não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna”). A unidade lexical (βρῶσις, brōsis, “comida/alimento”) nos dois membros da antítese, modificada apenas por “perecível” (ἀπολλυμένην, apollymenēn, “que se destrói”) e “permanente” (μένουσαν, menousan, “que permanece”), impede que o texto seja lido como desprezo do comer; o que é interditado é absolutizar o perecível. Assim, a delimitação bíblica de “alimento” começa na dádiva (Gênesis 1.29–30), passa pelo limite moral (Gênesis 2.16–17), é reconfigurada pela condição histórica do trabalho (Gênesis 3.19), inclui provisão em contextos de crise (Gênesis 6.21), amplia-se com restrição ética da vida (Gênesis 9.3–4) e culmina na reordenação teológica do sustento: pão e comida existem, mas a vida é definida pela palavra de Deus e pelo dom do Filho (Dt 8.3; Mt 4.4; Jo 6.27).

V. Alimento como dádiva e limite: criação, Éden e a pedagogia do sustento

A distribuição do alimento na ordem criada é formulada como concessão e finalidade. Em Gênesis 1.29–30, o texto delimita a comida humana pela cadeia reprodutiva das plantas (sementes e fruto) e, paralelamente, define a comida dos animais como “erva verde”. A expressão לְאָכְלָה (ləʾoḵlāh, “para alimento”) funciona como marcador de destinação: não descreve apenas “o que existe”, mas “para que serve” na economia da vida; por isso aparece tanto na concessão ao humano (“לָכֶ֥ם יִֽהְיֶ֖ה לְאָכְלָֽה”, lākem yihyeh ləʾoḵlāh, “para vocês será por alimento”) quanto na concessão ao reino animal (“לְאָכְלָ֑ה”, ləʾoḵlāh, “por alimento”). A repetição de זֶרַע (zeraʿ, “semente”) e a combinação de עֵשֶׂב (ʿēśeb, “vegetação/erva”) com פְּרִי (pərî, “fruto”) sublinham que o alimento é pensado, desde o princípio, como provisão estável e renovável, inscrita no ciclo da criação, e não como recurso aleatório. (Gn 1.29–30).

A. Permissão ampla e proibição singular

No Éden, a permissão de comer é maximalista e linguisticamente intensificada: מִכֹּ֥ל עֵֽץ־הַגָּ֖ן אָכֹ֥ל תֹּאכֵֽל (mikkol ʿēṣ-haggān ʾāḵōl tōʾḵēl, “de toda árvore do jardim, certamente comerás”), ao passo que a proibição é formulada com o mesmo verbo, mas sob negação absoluta: לֹ֥א תֹאכַ֖ל (lōʾ tōʾḵal, “não comerás”). O paralelismo mostra que a questão decisiva não é “comer” versus “não comer”, mas a subordinação do comer à palavra normativa. A árvore proibida é nomeada por conteúdo cognitivo-moral, עֵץ הַדַּעַת טוֹב וָרָע (ʿēṣ haddaʿat ṭôḇ wārāʿ, “árvore do conhecimento do bem e do mal”), de modo que a transgressão alimentar, nessa moldura, não é uma curiosidade dietética, mas uma ruptura de obediência que redefine a relação entre desejo, limite e vida (“מ֥וֹת תָּמֽוּת”, môt tāmût, “certamente morrerás”). (Gn 2.16–17).

B. Do dom ao labor: a transformação do alimento

A sentença sobre o solo introduz uma reconfiguração do alimento: ele permanece dado por Deus, mas passa a ser mediado por sofrimento e trabalho. Em Gênesis 3.17–19, o comer é descrito “em fadiga” (בְּעִצָּבוֹן, bəʿiṣṣāḇôn, “com dor/penosidade”), e o campo produz oposição ao humano (“ק֥וֹץ וְדַרְדַּ֖ר”, qōṣ wədardār, “espinho e abrolho”), deslocando o sustento para o registro da luta agrária. A expressão “comerás a erva do campo” (עֵ֥שֶׂב הַשָּׂדֶה, ʿēśeb hassāḏeh, “vegetação do campo”) contrasta com o cenário de abundância do jardim, e o clímax “com o suor do teu rosto comerás pão” (בְּזֵעַת אַפֶּיךָ תֹּאכַל לֶחֶם, bəzeʿat ʾappeḵā tōʾḵal leḥem, “com o suor do teu rosto comerás pão”) faz de לֶחֶם (leḥem, “pão”) uma metonímia da subsistência obtida sob finitude: a comida não desaparece, mas adquire a marca do tempo, do desgaste e do retorno ao pó. (Gn 3.17–19).

C. Providência em linguagem poética

A poesia sapiencial e hínica reinscreve a alimentação dentro de uma teologia explícita da providência. Em Salmo 104.14–15, Deus é descrito como aquele que “faz brotar” (מַצְמִיחַ, maṣmîaḥ, “faz crescer”) o alimento para o gado e para o trabalho humano, e o verso “para fazer sair pão da terra” (לְהוֹצִיא לֶחֶם מִן־הָאָרֶץ, ləhôṣîʾ leḥem min-hāʾāreṣ, “para produzir pão da terra”) integra natureza, labor e dádiva sem reduzir um ao outro. A tríade “vinho… óleo… pão” (יַיִן, yayin, “vinho”; שֶׁמֶן, šemen, “óleo”; לֶחֶם, leḥem, “pão”) amplia o horizonte do alimento: trata-se de sustento e também de alegria e vigor do coração humano (“לְבַב־אֱנוֹשׁ”, ləḇaḇ-ʾĕnôš, “coração do homem”). (Sl 104.14–15).

A mesma lógica aparece de forma universalizante em Salmo 145.15–16: “os olhos de todos” (עֵינֵי־כֹל, ʿênê-ḵōl, “olhos de todos”) aguardam, e Deus “dá-lhes o seu alimento no tempo” (נֹתֵן־לָהֶם אֶת־אָכְלָם בְּעִתּוֹ, nōtēn-lāhem ʾet-ʾoḵlām bəʿittô, “dá a eles o seu alimento em seu tempo”). A imagem “abres a tua mão” (פּוֹתֵחַ אֶת־יָדֶךָ, pōtēaḥ ʾet-yāḏeḵā, “abres a tua mão”) e o verbo “sacias” (מַשְׂבִּיעַ, maśbîaʿ, “satisfazes/sacias”) descrevem o alimento como expressão de generosidade ativa, em que a ordem do sustento se torna um índice do governo benevolente de Deus sobre “todo vivente” (כָּל־חַי, kol-ḥay, “todo ser vivo”). (Sl 145.15–16).

D. Observação pontual da LXX

A Septuaginta, ao traduzir Gênesis 1.29–30, verte a finalidade alimentar por εἰς βρῶσιν (eis brōsin, “para alimento”), preservando a ideia de destinação (“para”) e escolhendo um termo que reaparece em debates neotestamentários sobre o que “perece” e o que “permanece” como alimento. Essa opção não altera o sentido básico do hebraico, mas evidencia uma continuidade lexical que pode ser explorada quando o corpus avança para discussões cristológicas e éticas do comer. (Gn 1.29–30 LXX).

VI. Do dilúvio à aliança: permissão de carne e a fronteira teológica do sangue

A narrativa do dilúvio já enquadra o alimento como problema de preservação da vida, antes mesmo de discutir “carne” como item de consumo humano. A instrução dada a Noé enfatiza estoque e continuidade: “toma… de todo alimento que se come” (מִכָּל־מַאֲכָל, maʾăkāl, “alimento”)… אֲשֶׁר יֵאָכֵל (yēʾāḵēl, “é comido”) e estabelece a finalidade dupla “para ti e para eles por alimento” (לְאָכְלָה (ləʾoḵlāh, “por alimento”) (Gn 6.21). A mesma seção introduz, ainda, a distinção entre animais “limpos” e “não limpos” (הַבְּהֵמָה הַטְּהוֹרָה, habbehēmāh haṭṭəhôrāh, “o animal puro/limpo”) vs. אֲשֶׁר לֹא טְהֹרָה (ʾăšer lōʾ ṭəhôrāh, “que não é puro/limpo”) (Gn 7.2). O texto, nesse ponto, não explicita função dietética para essa classificação; registra, porém, que a categoria “limpo/não limpo” já opera no mundo narrativo antes da legislação sinaítica, o que condiciona a leitura do passo seguinte.

A ampliação explícita do cardápio humano ocorre apenas após o dilúvio, com forma concessiva e abrangente: “todo animal movente que está vivo será para vós por alimento” (כָּל־רֶמֶשׂ… לָכֶם יִהְיֶה לְאָכְלָה, kol-remes… lākem yihyeh ləʾoḵlāh, “todo ser movente… para vocês será por alimento”), seguida do paralelo “como a erva verde, tudo vos dou” (כְּיֶרֶק עֵשֶׂב… אֶת־כֹּל, kəyereq ʿēśeb… ʾet-kol, “como a vegetação verde… tudo”) (Gn 9.3). Aqui, “alimento” não é um termo neutro: ele marca uma reconfiguração da relação humano–animal (“nas vossas mãos são entregues…”) e situa o consumo de carne dentro de uma economia de domínio e temor (Gn 9.2–3).

A permissão, entretanto, nasce acompanhada por uma cláusula limitadora que amarra alimento e vida: “porém carne com sua vida—seu sangue—não comereis” (אַךְ־בָּשָׂר, bāśār, “carne”) בְּנַפְשֹׁו (bənafšô, “com sua vida”) דָמ֖וֹ (dāmô, “seu sangue”) לֹא תֹאכֵלוּ (lōʾ tōʾḵēlû, “não comereis”) (Gn 9.4). A construção “vida… sangue” aproxima נֶפֶשׁ (nepeš, “vida”) de דָּם (dām, “sangue”) não como metáfora, mas como princípio: o sangue é tratado como portador da vida, de modo que comer sangue equivale, simbolicamente, a apropriar-se da vida. Essa relação aparece de modo transparente em traduções que explicitam o vínculo: ARA/ACF dizem “Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis” (Gn 9.4), enquanto a NVI formula “Mas não comam carne com sangue, que é vida” (Gn 9.4), preservando o mesmo nexo semântico por via explicativa.

A legislação levítica retoma e aprofunda essa fronteira, agora vinculando o sangue ao culto e à expiação. A proibição é dirigida tanto ao israelita quanto ao residente estrangeiro e inclui sanção de exclusão: “qualquer… que comer todo sangue… eliminarei” (וְאִישׁ אִישׁ… אֲשֶׁר יֹאכַל כָּל־דָּם (wəʾîš ʾîš… ʾăšer yōʾḵal kol-dām, “qualquer… que comer todo sangue”)… וְהִכְרַתִּי (wəhikratî, “eliminarei”)) (Lv 17.10). O fundamento teológico é enunciado com máxima densidade: “porque a vida da carne está no sangue… e eu o dei… sobre o altar para fazer expiação” (כִּי נֶפֶשׁ הַבָּשָׂר בַּדָּם הִוא (kî nepeš habbāśār baddām hîʾ, “porque a vida da carne está no sangue”)… לְכַפֵּר (ləḵappēr, “para fazer expiação”)… כִּי־הַדָּם הוּא בַּנֶּפֶשׁ יְכַפֵּר (kî-haddām hûʾ bannepeš yəḵappēr, “porque é o sangue que fará expiação em virtude da vida”) (Lv 17.11). Esse versículo fornece o ganho exegético decisivo: o sangue é interditado como alimento precisamente porque é reservado como meio ritual de expiação, isto é, pertence a Deus no regime sacrificial. A oscilação tradutória entre “fazer expiação” (ARA/ACF) e “fazer propiciação” (NVI) em Levítico 17.11 mostra que o centro da frase não está em “alimentação” em si, mas no estatuto do sangue diante do altar; ainda assim, todas preservam a causalidade: “é o sangue… pela vida” (Lv 17.11).

A seção conclui a proibição com um gesto pedagógico que reinscreve o sangue no solo, como devolução da vida ao domínio de Deus: no caso de caça, “derramará o seu sangue e o cobrirá com terra” (וְשָׁפַךְ (wəšāfaḵ, “derramará”) אֶת־דָּמוֹ (ʾet-dāmô, “o seu sangue”) וְכִסָּהוּ בֶּעָפָר (wəkissāhû beʿāfār, “e o cobrirá com terra”)) (Lv 17.13). O motivo se repete em forma quase aforística: “a vida de toda carne é o seu sangue” (כִּי־נֶפֶשׁ כָּל־בָּשָׂר דָּמוֹ… (kî nepeš kol-bāśār dāmô…, “porque a vida de toda carne é o seu sangue”)) e “o sangue de toda carne não comereis” (דַּם כָּל־בָּשָׂר לֹא תֹאכֵלוּ (dam kol-bāśār lōʾ tōʾḵēlû, “o sangue de toda carne não comereis”) (Lv 17.14).

Deuteronômio desloca o tema para o cenário do abate “secular” (fora do santuário), mas mantém a mesma fronteira: “sê forte para não comeres o sangue, porque o sangue é a vida; não comerás a vida com a carne” (רַק חֲזַק לְבִלְתִּי אֲכֹל הַדָּם, raq ḥăzaq ləḇiltî ʾăḵōl haddām, “somente, sê forte para não comer o sangue”) כִּי הַדָּם הוּא הַנָּפֶשׁ (kî haddām hûʾ hannepeš, “porque o sangue é a vida”) וְלֹא־תֹאכַל הַנֶּפֶשׁ עִם־הַבָּשָׂר (wəlōʾ tōʾḵal hannepeš ʿim-habbāśār, “e não comerás a vida com a carne”) (Dt 12.23). ARA/ACF convergem quase ipsis litteris (“pois o sangue é a vida; pelo que não comerás a vida com a carne”), evidenciando que o núcleo semântico buscado é “vida” e não um conceito dualista abstrato de “alma” (Dt 12.23).

No cristianismo primitivo, o Concílio de Jerusalém preserva esse mesmo limite ao legislar para convertidos dentre as nações, mas o faz como “encargo” mínimo, não como imposição total da Lei. A decisão formula uma orientação prática: “julgo não perturbar… mas escrever… para abster-se… do estrangulado e do sangue” (τοῦ ἀπέχεσθαι… καὶ τοῦ πνικτοῦ (tou apechesthai… kai tou pniktou, “abster-se… do estrangulado”) καὶ τοῦ αἵματος (kai tou haimatos, “e do sangue”) (At 15.19–20). A carta retoma e fixa a lista como “coisas essenciais/necessárias”: “não impor… maior encargo… exceto estas coisas… abster-se… de sangue… de estrangulados” (μηδὲν πλέον ἐπιτίθεσθαι… βάρος (mēden pleon epitithesthai… baros, “não impor… maior encargo”)… πλὴν… τῶν ἐπάναγκες (plēn… tōn epanangkes, “exceto… as necessárias”)… ἀπέχεσθαι… αἵματος… πνικτῶν (apechesthai… haimatos… pniktōn, “abster-se… de sangue… de estrangulados”) (At 15.28–29). A relevância tradutória aqui é real porque mostra como πνικτός/πνικτόν (pniktos/pnikton, “estrangulado/sufocado”) é entendido: ARA fala em “carne de animais sufocados”, NVI/NVT em “carne de animais estrangulados”, e ACF em “carne sufocada”, mantendo o mesmo campo semântico (At 15.20, 29). 

A convergência com a Torá é textual ao menos no ponto do sangue: αἷμα (haima, “sangue”) em Atos 15 reapresenta, no vocabulário grego, a fronteira já afirmada como “vida” ligada ao sangue na literatura do Pentateuco, sem que o texto de Atos explicite, nesse contexto imediato, uma teoria nova para o fundamento; a carta se limita a qualificar tais itens como exigências necessárias para a comunhão e a ordem eclesial (At 15.28–29).

VII. Pão e cereais como “idioma” do sustento cotidiano e da dependência

A Bíblia trata o “pão” como metonímia do sustento e como marcador de condição humana: o que entra na boca é, ao mesmo tempo, resultado do trabalho e sinal de fragilidade. Mesmo quando a referência imediata é material, o léxico do comer é carregado de densidade ética e relacional, porque o pão pode significar “refeição”, “subsistência”, “porção” e até “pertencimento” comunitário (Gn 3.19; Pv 12.11). Em Provérbios 12.11, a formulação hebraica (“עֹבֵ֣ד אַ֭דְמָתוֹ יִֽשְׂבַּֽע־לָ֑חֶם…”, ʿōḇēd ʾaḏmātô yiśbaʿ-lāḥem…, “quem trabalha sua terra se farta de pão…”) explicita que o lᵉḥem (“pão”) não é apenas um alimento, mas o índice sintético de uma vida ordenada pelo labor e pelo senso prático (Pv 12.11).

O gesto de hospitalidade em Gênesis 18 expõe com clareza esse uso “idiomático” de pão como refeição: na tradição grega da LXX, a oferta de Abraão é enunciada como “καὶ λήμψομαι ἄρτον, καὶ φάγεσθε” (kai lēmpsomai arton, kai phagesthe, “e tomarei pão, e comereis”), seguida de preparação intensiva com farinha fina (“τρία μέτρα σεμιδάλεως”, tria metra semidaleōs, “três medidas de farinha fina/semolina”), o que reforça que “pão” funciona como síntese de mesa posta e cuidado concreto, não como menção restrita a um único item alimentar (Gn 18.5–6).

O mesmo mecanismo semântico reaparece no episódio de José: a LXX registra a ordem “Παράθετε ἄρτους” (parathete artous, “servi pães/servi a refeição”), e em seguida explica a separação de mesas com um argumento de comensalidade: “οὐ… ἐδύναντο οἱ Αἰγύπτιοι συνεσθίειν μετὰ τῶν Εβραίων ἄρτους” (ou… edynanto hoi Aigyptioi synesthiein meta tōn Hebraiōn artous, “os egípcios não podiam comer com os hebreus ‘pão’/à mesa”), onde “pão” designa o ato social de comer junto e, portanto, fronteiras de pureza e de identidade cultural (Gn 43.31–32). Essa nuance ajuda a compreender por que, em português, há oscilação entre traduzir como “refeição” (ARA) e como “pão” (ARC), sem que isso seja mera divergência estilística: trata-se do mesmo campo semântico, em que pão = mesa/ato de comer em comum.

Em Rute 2.14, o texto hebraico concentra, numa única cena, pão, grão e condimento como sinais de acolhimento: “וְאָכַ֣לְתְּ מִן־הַלֶּ֔חֶם וְטָבַ֥לְתְּ פִּתֵּ֖ךְ בַּחֹ֑מֶץ” (wəʾāḵalt mîn-halleḥem wəṭāḇalt pîttēḵ baḥōmeṣ, “come do pão e molha teu bocado no vinagre”), com a adição de “קָלִי” (qālî, “grão tostado”), que situa a refeição no universo do cereal colhido e preparado de modo simples. A comparação entre versões portuguesas torna-se aqui exegética: ARA verte “vinho”, ao passo que outra tradição portuguesa verte “vinagre”, divergência que afeta o enquadramento sensorial do gesto (bebida nobre vs. acidez de conserva), mas não altera o eixo principal do texto: pão e grão tostado operam como linguagem de inclusão social e provisão concreta no campo.

Deuteronômio 8.8–10 amplia o mesmo léxico do pão para a teologia da terra: o catálogo agrário (“אֶ֤רֶץ חִטָּה֙ וּשְׂעֹרָ֔ה…”, ʾereṣ ḥiṭṭâ ûśəʿōrâ…, “terra de trigo e cevada…”) culmina numa cláusula sobre pão como suficiência (“לֶ֔חֶם”, leḥem, “pão”) e numa resposta litúrgica (“וְאָכַלְתָּ֖ וְשָׂבָ֑עְתָּ וּבֵֽרַכְתָּ֙…”, wəʾāḵaltā wəśāḇaʿtā ûḇēraḵtā…, “comerás, te fartarás e bendirás…”), de modo que cereal e pão funcionam como ponte entre economia doméstica e gratidão pactuai.

A memória do maná condensa a mesma lógica em chave narrativa-teológica: a LXX formula “καὶ ἔβρεξεν αὐτοῖς μαννα φαγεῖν… καὶ ἄρτον οὐρανοῦ ἔδωκεν αὐτοῖς· ἄρτον ἀγγέλων ἔφαγεν ἄνθρωπος” (kai ebrexen autois manna phagein… kai arton ouranou edōken autois; arton angelōn ephagen anthrōpos, “fez chover maná para comer… e deu-lhes pão do céu; pão de anjos comeu o homem”), onde “pão” nomeia provisão que excede o ordinário e reconfigura a dependência: não é o trabalho agrícola que produz esse artos (“pão”), mas o dom que sustenta no deserto (Sl 78.24–25; LXX Sl 77.24–25). Essa mesma gramática do sustento aparece, em registro narrativo, no pão provido a Elias (“עֻגַ֥ת רְצָפִ֖ים”, ʿugāt rəṣāpîm, “bolo/pão assado sobre pedras/quentes”; “צַפַּ֣חַת מָ֑יִם”, ṣappaḥat māyim, “jarra de água”), onde comer e beber são apresentados como condição para atravessar o caminho (1Rs 19.6), e também no conjunto de provisões em contexto de fuga e crise política (2Sm 17.28), em que alimento se torna linguagem concreta de fidelidade e sobrevivência.

VIII. Hortaliças e “comida simples”

A queixa em Números 11 não se estrutura como debate nutricional, mas como diagnóstico do desejo e da memória. O texto atribui a deflagração do lamento ao grupo designado הָאסַפְסֻף (hāʾsafsuf, “populacho/multidão misturada”), e qualifica o impulso com uma formulação enfática: הִתְאַוּוּ תַּאֲוָה (hitʾawwû taʾăwāh, “cobiçaram cobiça/desejaram desejo”), seguida do refrão lacrimoso que contamina “também os filhos de Israel” e culmina na demanda por carne (מִי יַאֲכִלֵנוּ בָּשָׂר, mî yaʾăḵilēnû bāśār, “quem nos dará carne?”). A memória do Egito é apresentada com o advérbio חִנָּם (ḥinnām, “de graça”), aplicado ao peixe (הַדָּגָה, haddāgāh, “peixe”), produzindo um efeito narrativo de ironia: o lugar de servidão é relembrado como espaço de gratuidade alimentar, ao passo que a provisão do maná é reavaliada como monotonia (“nossa vida/ânimo está ressecado”: נַפְשֵׁנוּ יְבֵשָׁה, napšēnû yəḇēšāh; “não há nada”: אֵין כֹּל, ʾên kōl; “a não ser… o maná”: בִּלְתִּי אֶל־הַמָּן, biltî ʾel-hammān). Esse encadeamento mostra que o eixo do texto é a reorientação do apetite: o problema não é a existência de alimentos simples, mas a reinterpretação afetiva da história a partir do paladar. (Nm 11.4–6).

A lista de itens lembrados (peixe, pepinos, melancias e bulbos) é significativa não por exotismo culinário, mas por funcionar como inventário de variedade, contraste e saudade de sensações. O hebraico enumera הַקִּשֻּׁאִים (haqqiššuʾîm, “pepinos”), הָאֲבַטִּחִים (hāʾăḇaṭṭîḥîm, “melancias”), הֶחָצִיר (heḥāṣîr, “porros/verdura”, termo cujo alcance semântico permite diferentes escolhas tradutórias), הַבְּצָלִים (habbeṣālîm, “cebolas”) e הַשּׁוּמִים (haššûmîm, “alhos”). A divergência entre versões portuguesas em torno de הֶחָצִיר — NVI/ACF convergindo em “alhos porós/porros” e ARA optando por “alhos silvestres” — não altera o ponto principal: o texto constrói uma memória gustativa de hortaliças e temperos como contraponto ao regime de subsistência centrado no maná, e com isso evidencia que a crise é de desejo e de imaginação, não de falta absoluta de comida. (Nm 11.5).

A resposta narrativa à demanda por carne em Números 11 culmina numa concessão abundante que, paradoxalmente, se torna veículo de juízo. A provisão é descrita como ação mediada por “vento” (רוּחַ, rûaḥ, “vento/impulso”), que traz codornizes (שַׂלְוִים, śalwîm, “codornizes”) e as espalha ao redor do arraial; a reação coletiva é de coleta ininterrupta (“todo o dia… toda a noite… todo o dia seguinte”), e o texto quantifica a acumulação (“dez ômeres”: עֲשָׂרָה חֳמָרִים, ʿăśārāh ḥomārîm). O clímax teológico recai sobre a simultaneidade entre consumo e ira: “a carne ainda estava entre os dentes” (הַבָּשָׂר עוֹדֶנּוּ בֵּין שִׁנֵּיהֶם, habbāśār ʿōḏennû bēn šinnêhem) “antes que fosse cortada” (טֶרֶם יִכָּרֵת, ṭerem yikkārēt), e “a ira de Yahweh se acendeu… e feriu o povo com uma praga muito grande” (וַיַּךְ יְהוָה… מַכָּה רַבָּה מְאֹד, wayyaḵ YHWH… makkāh rabbāh məʾōḏ). Assim, a narrativa não opõe “comida simples” a “comida rica” como valores em si, mas revela como o desejo desmedido (já nomeado por תַּאֲוָה, taʾăwāh, “cobiça/desejo”) pode transformar provisão em ocasião de juízo. (Nm 11.31–33).

A literatura sapiencial amplia esse campo ao empregar linguagem alimentar para descrever experiências limite, em que paladar e sobrevivência expõem a precariedade humana. Em Jó 6.6, a pergunta retórica contrasta o “insosso” (תָּפֵל, tāp̄ēl, “insípido”) com o “sal” (מֶלַח, melaḥ, “sal”), insistindo que há coisas cuja ingestão sem tempero é tão absurda quanto a aceitação resignada de uma situação intolerável; a expressão final (בְּרִיר חַלָּמוּת, bərîr ḥallāmût) é notoriamente difícil e justamente por isso as traduções oscilam, mas o argumento do verso é estável: o paladar funciona como metáfora da possibilidade (ou impossibilidade) de encontrar “sabor” onde não há. Em Jó 30.4, por sua vez, a miséria social é representada por um cardápio de sobrevivência: “colhem” uma planta salobra (מַלּוּחַ, mallûaḥ, “malva/salvadeira”, conforme escolhas tradutórias) e fazem de “raiz de giestas” seu pão (שֹׁרֶשׁ רְתָמִים לַחְמָם, šōreš rətāmîm laḥmām, “raiz de giestas é o seu pão”), isto é, alimento de emergência que marca expulsão e degradação. O conjunto coloca “comida simples” em sua borda extrema: não a frugalidade virtuosa, mas a alimentação como índice de colapso social e de desamparo. (Jó 6.6; Jó 30.4).

A. A terra boa como vocabulário material da promessa

A descrição de Canaã, em chave didática, não enumera itens agrícolas de modo neutro: ela traduz uma teologia da dádiva em bens concretos, vinculando estabilidade, memória e gratidão. O catálogo de Deuteronômio apresenta produtos que funcionam como marcadores de habitação sustentável e não apenas de sobrevivência: “videira” גֶּפֶן (gefen, “videira”), “figueira” תְּאֵנָה (təʾēnāh, “figueira/figo”), “romã” רִמּוֹן (rimmōn, “romã”), “azeite/oliveira para óleo” זֵית שֶׁמֶן (zēt šemen, “azeite/oliveira para óleo”) e “mel” דְּבַשׁ (dĕḇaš, “mel”), emoldurados pela ideia de “terra” como lugar onde a alimentação é resultado de ordem criada e de doação divina, não de acaso (Dt 8.8).

B. O fruto como prova tangível e “sinal” do futuro

O relato dos espias transforma a fertilidade em evidência pública: não se trata somente de “falar” sobre a terra, mas de portar sua materialidade. A narrativa registra a coleta de um “cacho” אֶשְׁכֹּל (ʾeškōl, “cacho”) de “uvas” עֲנָבִים (ʿănāḇîm, “uvas”), junto de “romãs” הָרִמֹּנִים (hārimmōnîm, “romãs”) e “figos” הַתְּאֵנִים (hattəʾēnîm, “figos”), construindo uma retórica do “ver e tocar” que ancora a promessa em objetos de consumo e de celebração (Nm 13.23).

C. Provisões, hospitalidade e política do alimento

Em contextos narrativos, frutas e derivados (secos, prensados, transportáveis) aparecem como meios de pacificação e manutenção de alianças, porque circulam com facilidade e têm alto valor nutricional e social. No episódio de Abigail, a lista de provisões inclui “passas” צִמֻּקִים (ṣimmûqîm, “passas”) e “bolos/pastas de figos” דְּבֵלִים (dĕḇēlîm, “bolos/pastas de figos”), junto de pão e vinho, compondo um “presente-alimento” capaz de reorientar um conflito iminente (1Sm 25.18). A mesma lógica de fartura organizada aparece na celebração em torno de Davi, onde retornam “bolos/pastas de figos” דְּבֵלִים (dĕḇēlîm, “bolos/pastas de figos”) e “passas” צִמּוּקִים (ṣimmûqîm, “passas”) como parte de uma economia de abastecimento comunitário (1Cr 12.40-41). Em termos de recepção tradutória, a forma como versões portuguesas explicitam esses itens como “pastas de figos” e “cachos de passas” preserva a concretude do quadro de abastecimento e alegria coletiva (ARA/ACF).

D. O figo entre metáfora de efemeridade e recurso terapêutico

A imagética profética recorre ao fruto “temporão” para comunicar rapidez e vulnerabilidade: Isaías descreve a “glória” que murcha “como” uma “primícia/temporão” כְּבִכּוּרָה (kəbikkûrāh, “como fruto temporão/primícia”), enfatizando a prontidão com que algo desejável pode ser “engolido” e desaparecer (Is 28.4). Em outro registro, o figo é mobilizado de maneira prática, quase clínica: a instrução “tomem um bolo/pasta de figos” דְּבֶלֶת תְּאֵנִים (dĕḇelet təʾēnîm, “bolo/pasta de figos”) para aplicação sobre a enfermidade supõe conhecimento empírico de preparo e uso do fruto como emplastro (Is 38.21). A tradução “pasta de figos… como emplasto” explicita bem esse caráter terapêutico e evita ler o elemento apenas como item alimentar (ARA).

E. Crise agrícola e reconfiguração da bênção no discurso profético

Quando a literatura profética descreve colheita, árvores e vinhas, ela frequentemente está avaliando a saúde moral e cultual da comunidade por meio de indicadores econômicos. A autoapresentação de Amós menciona a atividade ligada ao sicômoro: “colhedor/operador de sicômoros” וּבוֹלֵס שִׁקְמִים (ûḇōlēs šiqmîm, “e trabalhador de sicômoros”), sinal de inserção na economia rural e de intimidade com o mundo da produção (Am 7.14). Joel descreve o colapso como secagem do conjunto das árvores frutíferas — “videira” הַגֶּפֶן (haggefen, “videira”), “figueira” הַתְּאֵנָה (hattəʾēnāh, “figueira/figo”), “romã” רִמּוֹן (rimmōn, “romã”), “tamareira” תָּמָר (tāmār, “tamareira”) e “macieira” תַּפּוּחַ (tappûaḥ, “macieira”) — tratando a fruticultura como termômetro de alegria social e de continuidade da vida (Jl 1.12). Em Ageu, a lista semelhante funciona ao inverso: a pergunta sobre a “semente” e o estado de videira, figueira, romã e oliveira é seguida pela promessa de bênção, articulando a reversão da escassez como reordenação do dom (Ag 2.19).

F. Valor, desejo e linguagem sensorial além da nutrição

O Cântico dos Cânticos emprega um vocabulário sensorial que toca o universo do alimento, mas também o transcende; assim, mesmo quando o verso não lista frutos, ele participa da mesma gramática de “delícias” e de valor. A afirmação “sua cabeça é ouro puro” רֹאשׁוֹ כֶּתֶם פָּז (rōšô ketem pāz, “sua cabeça é ouro puro”) desloca a ênfase do comestível para o precioso, sugerindo que a imagética de abundância pode ser convertida em linguagem de estima e excelência, sem perder o pano de fundo rural e material que estrutura o livro (Ct 5.11).

IX. Especiarias, sal e mel: preservação, aliança e metáforas sapienciais

A expressão “aliança de sal” em Números 18.19 surge no interior de uma seção normativa que garante aos aaronitas “as ofertas sagradas” como “estatuto perpétuo”, e a cláusula final concentra a ideia de estabilidade por meio de בְּרִית מֶלַח עוֹלָם הִוא (bərît melaḥ ʿōlām hîʾ, “aliança perpétua de sal”) diante de Yahweh. O sintagma reúne um termo jurídico-relacional (בְּרִית, bərît, “aliança”) e um elemento material (מֶלַח, melaḥ, “sal”), produzindo uma metáfora institucional: assim como o sal preserva e estabiliza, a disposição cultual é apresentada como não contingente e não provisória, mas garantida como permanência (“עוֹלָם”, ʿōlām, “perpetuidade”). Uma comparação de traduções portuguesas é pertinente apenas para confirmar que o caráter “perpétuo” não é inferência, mas dado textual: ARA/NVI convergem em “aliança… perpétua de sal” (Nm 18.19).

A mesma locução é reaplicada em 2 Crônicas 13.5 ao campo político, quando a realeza davídica é descrita como doação divina “para sempre” e selada “por aliança de sal”: בְּרִית מֶלַח (bərît melaḥ, “aliança de sal”). O valor exegético desse reaproveitamento reside em mostrar que o “sal” não está restrito à linguagem sacerdotal, mas opera como signo de irrevogabilidade também no discurso sobre legitimidade dinástica, funcionando como argumento de continuidade e de direito conferido por Yahweh, e não como mera imagem ornamental.

Quando “especiarias” aparecem nesse conjunto temático, o texto as situa prioritariamente no domínio do culto, e não da dieta. Em 2 Crônicas 13.11, a rotina sacrificial e a ordenação do templo incluem “incenso de especiarias” (קְטֹרֶת־סַמִּים, qəṭōret sammîm, “incenso aromático”), ao lado da oferta contínua e da disposição do pão no “puro” mobiliário cultual. A “especiaria”, assim, não é mobilizada como tempero de mesa, mas como meio sensorial de sacralização: o aroma torna-se linguagem ritual, e a materialidade do “sabor/cheiro” é deslocada para significar ordem, serviço e fidelidade no espaço sagrado.

O mel, por sua vez, é empregado tanto em cenas narrativas de vigor físico quanto como figuração do valor da revelação e do discurso. Em 1 Samuel 14.27, o consumo de “mel” (דְּבַשׁ, dĕḇaš, “mel”) está associado a um efeito descrito como “iluminar os olhos” (וַתָּרֹאְנָה עֵינָיו, wattārōʾnāh ʿênāw, “se iluminaram seus olhos”); o episódio se desenvolve em tensão com um juramento régio que proíbe comer naquele dia e produz exaustão coletiva, explicitada no próprio texto. A sequência argumentativa de Jônatas (“meus olhos se iluminaram, porque provei um pouco deste mel”) mostra que o relato não romantiza o alimento: ele o integra à crítica de uma medida que “perturbou a terra” ao enfraquecer o povo em combate, fazendo do mel um ponto de contraste entre provisão disponível e restrição politicamente disfuncional.

A poesia teológica de Salmos 19.10 desloca o mel do registro fisiológico para o axiológico: os “juízos” e a instrução de Yahweh são “mais doces que o mel e o destilar dos favos” (וּמְתוּקִים מִדְּבַשׁ וְנֹפֶת צוּפִים, ûmətûqîm middĕḇaš wənōpet ṣûpîm, “mais doces que o mel e o destilar dos favos”). O paralelismo com o ouro, no mesmo verso, organiza uma escala de desejo: o mel fornece a metáfora sensorial para o prazer legítimo, enquanto o “destilar dos favos” intensifica a imagem de doçura como qualidade superlativa da palavra divina, sem reduzir “doçura” a emoção privada, mas a um critério de valoração do que orienta a vida.

No provérbio, a imagem se torna ainda mais “ética” ao ligar doçura à cura. Provérbios 16.24 chama “as palavras agradáveis” de “favo de mel” (צוּף־דְּבַשׁ, ṣûp-dĕḇaš, “favo de mel”) e acrescenta dois efeitos: “doçura para a vida” (מָתוֹק לַנֶּפֶשׁ, mātôq lannepeš, “doce para a vida”) e “cura para os ossos” (וּמַרְפֵּא לָעָצֶם, ûmarpēʾ lāʿeṣem, “e remédio/cura para o osso”). O ganho exegético está em que o texto não idealiza a “fala” apenas como ornamento social: ele a descreve como força que produz bem-estar integral, reunindo interioridade (נֶפֶשׁ, nepeš, “vida”) e corporeidade (“ossos”) sob a mesma metáfora alimentar.

A mesma substância doce, entretanto, é usada em Provérbios 25 para ensinar limites: “Achaste mel? come o que te basta” (דְּבַשׁ מָצָאתָ אֱכֹל דַּיֶּךָּ, dĕḇaš māṣāʾtā ʾĕḵōl dayyeka, “mel achaste? come o suficiente”) e a advertência prossegue até a consequência do excesso (vomitar) (Pv 25.16). O mesmo capítulo retoma o ponto em forma sentenciosa: “comer muito mel não é bom” (אָכֹל דְּבַשׁ הַרְבּוֹת לֹא־טוֹב, ʾāḵōl dĕḇaš harbōt lōʾ-ṭôḇ, “comer muito mel, muito, não é bom”), e associa a lógica do excesso à autoglorificação (“procurar a própria honra”) como distorção do valor (Pv 25.27). O mel, portanto, atua como instrumento pedagógico: a Bíblia não opõe “prazer” e “virtude”, mas regula o prazer pelo princípio da medida, convertendo a comida doce em laboratório moral.

O Eclesiastes usa um elemento ligado ao paladar para marcar o declínio vital no poema da velhice. Em Eclesiastes 12.5, a sequência de imagens culmina em “falhar” algo nomeado הָאֲבִיּוֹנָה (hāʾăḇiyyōnāh, “alcaparra/capim/‘apetite’, conforme a opção tradutória”), na frase תָפֵר הָאֲבִיּוֹנָה (tāp̄ēr hāʾăḇiyyōnāh, “falhará a alcaparra” / “cessará o apetite”). ARA traduz o segmento como “perecer o apetite”, opção que interpreta a imagem alimentar como perda do impulso de desejar e desfrutar, coerente com a linha que conduz o ser humano à “casa eterna”. O ponto literário é que o texto não descreve “comida” para ensinar culinária, mas para tornar visível, por linguagem sensorial, a dissolução progressiva das forças que sustentavam a experiência do mundo.

Em Isaías 25.6, a alimentação torna-se linguagem escatológica de consolação coletiva: Yahweh prepara “banquete” (מִשְׁתֶּה, mišteh, “banquete”) com “gorduras” (שְׁמָנִים, šəmānîm, “comidas gordas/ricas”) e “vinhos sobre as borras” (שְׁמָרִים, šəmārîm, “vinhos bem curtidos”), qualificados por “refinados” (מְזֻקָּקִים, məzûqqāqîm, “purificados/depurados”). A densidade do vocabulário culinário serve para afirmar abundância e qualidade, não apenas quantidade: o banquete é símbolo de reversão do luto e do juízo no plano histórico-teológico do profeta, e por isso a “mesa” aparece como sinal da vitória sobre aquilo que devora a vida, sem precisar abandonar a concretude do comer para comunicar esperança.

X. Carne, caça, aves, ovos e peixes

A possibilidade de consumir carne, no horizonte do Pentateuco, aparece como concessão real, porém regulada por critérios rituais e por uma ética do sangue. A formulação de Deuteronômio explicita o eixo: “carne” é בָּשָׂר (bāśār, “carne”) e seu consumo é permitido “conforme todo desejo” (Dt 12.15), mas a mesma unidade preserva a interdição do sangue (דָּם, dām, “sangue”), deslocando-o para fora do âmbito alimentar e vinculando-o ao princípio vital que não pode ser apropriado como comida (Dt 12.16). A própria redação associa a expansão do consumo ao espaço doméstico (“em todas as tuas portas”) e, por contraste, deixa subentendido que a carne, por envolver abate e sangue, exige um regime de limites que não recai do mesmo modo sobre alimentos vegetais.

Quando a Torá sistematiza as categorias de “puro/impuro”, o que está em jogo não é apenas higiene, mas sobretudo uma gramática de santidade aplicada ao comer. Levítico descreve “impuro” como טָמֵא (ṭāmēʾ, “impuro”) e “detestável” como שֶׁקֶץ (šeqeṣ, “coisa abominável/detestável”), com listas que atravessam terra, água e ar. No domínio aquático, a regra é formalizada por dois marcadores: “barbatana” é סְנַפִּיר (sənappîr, “barbatana”) e “escama” é קַשְׂקֶשֶׂת (qaśqeśeṯ, “escama”); a ausência desses traços torna o animal “detestável” para consumo (Lv 11.9–12). A mesma seção inclui aves e, de modo significativo, insetos comestíveis (entre eles o gafanhoto), mostrando que a distinção não se reduz à polaridade “carne versus vegetal”, mas delimita um mapa simbólico do que pode e do que não pode entrar no corpo sem transgredir a ordem cultual (Lv 11.13; Lv 11.21–22).

Deuteronômio retoma o mesmo sistema sob o prisma identitário (“povo santo”), articulando a proibição como fronteira de pertença: “não comerás nenhuma coisa abominável” (Dt 14.3). A redação repete os marcadores de Levítico para peixes (סְנַפִּיר sənappîr, “barbatana”; קַשְׂקֶשֶׂת qaśqeśeṯ, “escama”), mas troca o vocabulário de “detestável” pela marca direta do “impuro” (טָמֵא ṭāmēʾ, “impuro”) ao negar o consumo do que não possui tais sinais (Dt 14.9–10). O mesmo capítulo registra animais de caça permitidos (como “cervo” אַיָּל, ʾayyāl, “cervo/veado” e “gazela” צְבִי, ṣəvî, “gazela”), de modo que a “carne” admitida não é apenas a do rebanho doméstico; há um espectro de consumo que inclui caça, porém sempre sob a lógica classificatória do puro/impuro e sob a disciplina da santidade comunitária (Dt 14.5).

A dimensão “ovo” funciona, nos textos bíblicos, tanto como alimento cotidiano quanto como figura de fragilidade e espoliação. Isaías recorre à imagem do saqueador que recolhe “ovos abandonados” — בֵּיצִים (bēṣîm, “ovos”) — para dramatizar a assimetria de poder: a mão que “ajunta” não encontra resistência, como num ninho deixado sem defesa (Is 10.14). No NT, o ovo comparece como item doméstico pressuposto na lógica do argumento: ᾠόν (ōon, “ovo”) é o exemplo do “pedido legítimo” que não deveria ser respondido com dano (“escorpião”), assim como “peixe” ἰχθύν (ichthyn, “peixe”) não deveria ser trocado por “serpente” ὄφιν (ophin, “serpente”) (Lc 11.11–12). O ponto não é o alimento em si, mas a confiabilidade do doador: o cotidiano da mesa sustenta a inferência teológica sobre a bondade divina.

O lugar social da carne como alimento “forte” e relativamente excepcional é explorado pela literatura sapiencial como contraste ético. Provérbios formula a antítese entre abundância carnal e convivência moral: “refeição de hortaliça” é אֲרֻחַת יָרָק (ʾărûḥaṯ yārāq, “refeição de verdura/legumes”), enquanto o banquete rico é “boi cevado” (מִשּׁוֹר אָבוּס, miššôr ʾābûs, “de boi engordado no estábulo”); a sentença valoriza a refeição simples “com amor” contra a mesa opulenta “com ódio” (Pv 15.17). A carne, aqui, não é demonizada; ela é relativizada como bem incapaz de substituir a qualidade ética das relações que a refeição manifesta.

O peixe emerge como alimento e como indicador econômico quando o foco se desloca para o espaço urbano e suas rotas de comércio. A memória de Jerusalém preserva um “Portão do Peixe”, שַׁעַר הַדָּגִים (šaʿar haddāgîm, “portão dos peixes”), cuja simples designação já sugere uma zona de circulação associada a esse gênero alimentar (Ne 3.3). Em Neemias, o comércio de peixe no sábado é explicitado com vocabulário direto: “trazendo peixe” é מְבִיאִים דָּאג (məbîʾîm dāʾg, “trazendo peixe”), acompanhado de “toda mercadoria”, e a crítica do texto se dirige ao choque entre mercado e santificação do tempo, não ao peixe como tal (Ne 13.16).

Nos evangelhos, o peixe se torna veículo pedagógico por sua familiaridade e por sua disponibilidade regional. Na multiplicação narrada por Marcos, a contagem é literal e concreta: “cinco pães e dois peixes”, πέντε… καὶ δύο ἰχθύας (pente… kai dyo ichthýas, “cinco… e dois peixes”), e o relato insiste no gesto de distribuição e na saciedade coletiva como sinal (Mc 6.38). Mateus, ao narrar outra multiplicação, preserva um detalhe lexical sugestivo: os “peixinhos” ἰχθύδια (ichthydia, “peixinhos”) aparecem ao lado de sete pães, e o diminutivo se ajusta ao cenário de recursos modestos que, no entanto, se convertem em abundância compartilhada (Mt 15.34). A função não é construir uma “dieta” bíblica, mas mostrar como alimentos comuns se tornam linguagem de compaixão e provisão.

A releitura neotestamentária do eixo “pureza/alimento” ganha precisão quando se observa o verbo de Mateus: “tornar comum/contaminar” é κοινόω (koinoō, “tornar comum, profanar/contaminar”), e a sentença desloca o foco do que entra para o que sai, isto é, da ingestão para a fala como lugar de impureza moral (Mt 15.11). Essa nuance explica por que traduções oscilam: ARA/ACF/ARC vertem “contamina” (“…o que sai da boca… contamina o homem”), enquanto a NVI prefere “impuro” (“…não torna o homem ‘impuro’… o torna ‘impuro’”), aproximando a frase do campo ritual; a NVT também escolhe “contamina” e explicita “palavras” como mediação (“…vocês se contaminam com as palavras…”). A diferença não é meramente estilística: ela revela opções interpretativas sobre se o dizer de Jesus dialoga primariamente com categorias cultuais ou com ética da linguagem, embora o grego suporte a ponte entre ambos ao falar de “profanar/contaminar” como passagem do comum ao indevido.

Dois quadros narrativos expõem extremos do espectro alimentar: a hospitalidade e a penúria. No epílogo joanino, a cena do fogo de brasas inclui “peixe” e “pão” como refeição preparada: ὀψάριον (opsarion, “peixe/peixe assado”) aparece sobre a ἀνθρακιὰ (anthrakia, “braseiro”), e o convite a comer reconstitui comunhão após a crise (Jo 21.9). Em contraste, a parábola lucana descreve o limite da fome com a tentativa de saciar-se com “vagens” κεράτια (keratia, “vagens de alfarrobeira”), alimento destinado aos porcos, sem que lhe fosse dado sequer isso; o detalhe não é culinário, mas moral: a degradação do comer exprime a ruptura social que a reconciliação, ao final, reverte (Lc 15.16).

XI. Lacticínios e bebidas: “leite e mel”, vinho e seus usos

A expressão “terra que mana leite e mel” condensa, em linguagem alimentar, um programa teológico de libertação e reassentamento. O hebraico emprega um predicado de fluência/abundância que não descreve um fenômeno físico literal, mas um modo imagético de afirmar fertilidade e suficiência: “אֶרֶץ זָבַת חָלָב וּדְבָשׁ” (ʾereṣ zāḇat ḥālāḇ ûḏəḇāš, “terra que mana leite e mel”). A combinação de חָלָב (ḥālāḇ, “leite”) e דְבָשׁ (ḏəḇāš, “mel”) reúne dois bens associados a um ambiente produtivo — criação e colheita — e, por isso, funciona como emblema de “terra boa e ampla” no próprio encadeamento retórico do versículo. (Ex 3.8).

O leite, no ciclo narrativo de Juízes, aparece como elemento concreto de hospitalidade e, simultaneamente, como marcador de inversão: quem pede água recebe um alimento mais “denso” e honroso. A cena registra que Sísera solicita “um pouco de água” e a anfitriã abre “o odre de leite”: “אֶת־נֹאוד הֶחָלָב” (ʾet-nōʾōd heḥālāḇ, “o odre de leite”). A escolha do substantivo נֹאוד (nōʾōd, “odre/recipiente de couro”) é relevante porque situa o leite no regime prático do transporte e da conservação, deslocando o foco do mero “dar de beber” para uma hospitalidade materialmente planejada — sem que o texto dependa disso para sua progressão narrativa. (Jz 4.19).

O cântico de Juízes reelabora o mesmo episódio com maior densidade simbólica: a alternativa “água/leite” torna-se antítese poética, e o leite é elevado por um segundo produto lácteo, explicitamente oferecido em contexto de honra. O verso diz: “מַיִם שָׁאַל חָלָב נָתָנָה… הִקְרִיבָה חֶמְאָה” (mayim šāʾal ḥālāḇ nāṯānāh… hiqrîḇāh ḥemʾāh, “água pediu, leite deu… ofereceu coalhada/creme”). A presença de חֶמְאָה (ḥemʾāh, “coalhada/creme”) e do recipiente “בְּסֵפֶל אַדִּירִים” (bəsēp̄el ʾaddîrîm, “em taça de nobres”) interpreta a hospitalidade como gesto de superioridade social e de domínio da cena, sem precisar explicar “por que” isso ocorre: o próprio paralelismo faz a leitura. (Jz 5.25).

Em 2 Samuel, o mesmo campo semântico é deslocado para a logística de sobrevivência no contexto de deslocamento e desgaste: a narrativa enumera provisões destinadas “para comer”, explicitando o estado do grupo (“faminto, cansado e sedento”). O elenco inclui “וּדְבַשׁ וְחֶמְאָה” (ûḏəḇāš wəḥemʾāh, “mel e coalhada/creme”), ao lado de itens do rebanho, compondo um quadro de alimentos concentrados e energéticos, adequados a um cenário de travessia. Aqui, o “mel” não é metáfora, mas provisão; o efeito literário, porém, é o mesmo: alimento e estado físico do povo se tornam índices narrativos da crise. (2Sm 17.29). 

O livro de Jó emprega imagens lácteas para descrever a formação do corpo em registro poético-teológico, convertendo processos culinários em analogia de constituição. O texto pergunta: “הֲלֹא כֶחָלָב תַּתִּיכֵנִי וְכַגְּבִנָּה תַּקְפִּיאֵנִי” (halōʾ kheḥālāḇ tattîḵēnî wəkaggəḇinnāh taqpiʾēnî, “não me derramaste como leite e me coalhaste como queijo?”). A força do verso está em que “leite” (חָלָב, ḥālāḇ, “leite”) e “queijo/coalhada” (גְּבִנָּה, gəḇinnāh, “queijo/coalhada”) não funcionam como dado biológico, mas como metáfora de agência criadora: a materialidade do alimento empresta inteligibilidade a um tema ontológico. (Jó 10.10).

No âmbito das bebidas, Provérbios constrói um cenário de banquete pedagógico em que o vinho é componente de convite e de formação. A sabedoria “mistura” seu vinho: “מָסְכָה יֵינָהּ” (māskāh yēnāh, “misturou seu vinho”) e, no chamado, ordena: “וּשְׁתוּ בְּיַיִן מָסָכְתִּי” (ûšətû bəyayin māsakhtî, “bebei do vinho que misturei”). O verbo associado a “misturar” (מסך) é relevante porque sugere preparo intencional do vinho para consumo em mesa, reforçando o caráter civilizatório do quadro: comer e beber aparecem como linguagem de instrução e socialização, não como impulso desregrado. (Pv 9.2; Pv 9.5).

Isaías, em contraste, utiliza a imagem do vinho “adulterado” para denunciar degradação moral e perda de integridade comunitária. A acusação diz: “סָבְאֵךְ מָה֥וּל בַּמָּֽיִם” (sāḇʾēk māhûl bammāyim, “tua bebida/vinho foi misturada com água”), em paralelo com “tua prata tornou-se escória”. A metáfora é deliberadamente econômica: diluir o vinho se alinha a corromper a prata; ambos expressam a mesma lógica de perda de valor e de confiabilidade social. (Is 1.22).

A crítica profética ao beber assume, em Isaías e Oséias, a forma de reprovação do “heroísmo etílico” e do colapso moral associado. Isaías denuncia “גִּבּוֹרִים לִשְׁתּוֹת יָיִן” (gibbôrîm lištôt yayin, “valentes para beber vinho”) e associa a perícia no beber ao preparo de “שֵׁכָר” (šēkār, “bebida forte”), isto é, uma competência socialmente celebrada, mas teologicamente invertida em sinal de perversão de valores. (Is 5.22). No mesmo horizonte de crítica, Oséias formula uma sentença curta e densa: “סָר סָבְאָם” (sār sāḇʾām, “cessou/virou a bebida deles”), seguida de acusações de prostituição e de amor à vergonha, de modo que a linguagem da bebida não é mero detalhe etnográfico, mas engrenagem de um diagnóstico espiritual e social. (Os 4.18).

No NT, o vinho aparece, de um lado, como elemento de rito e de promessa, e, de outro, como recurso terapêutico pontual. Em Marcos, o relato da ceia preserva a terminologia do “cálice” e evita nomear diretamente “vinho” ao empregar uma perífrase tradicional: “ἐκ τοῦ γενήματος τῆς ἀμπέλου” (ek tou genēmatos tēs ampelou, “do fruto da videira”). A formulação delimita o referente de modo semântico-cultural e sustenta a ênfase no gesto e na promessa futura, não na substância em si. (Mc 14.23–25). Em João, o termo é explícito e avaliativo: “τὸ ὕδωρ οἶνον γεγενημένον” (to hydōr oinon gegenēmenon, “a água tornada vinho”) e “τὸν καλὸν οἶνον” (ton kalon oinon, “o bom vinho”) estruturam a cena como reconhecimento público de qualidade e como sinal narrativo. (Jo 2.9–10). Por fim, a recomendação paulina de abandonar “beber só água” e usar “pouco vinho” (“οἴνῳ ὀλίγῳ χρῶ”, oinō oligō chrō, “usa um pouco de vinho”) explicita um emprego medicinal circunscrito (“por causa do estômago e das frequentes enfermidades”), afastando-se tanto de uma ascese absoluta quanto de um incentivo à intemperança. (1Tm 5.23).

XII. Maná: provisão, teste, memória e releitura cristológica

A primeira caracterização do maná em Êxodo é construída por um jogo entre desconhecimento e interpretação autorizada. A reação “מָן הוּא” (mān hûʾ, “é maná/‘que é isto?’”) aparece como confissão de ignorância (“não sabiam o que era”), imediatamente reorientada pela identificação teológica: “הוּא הַלֶּחֶם אֲשֶׁר נָתַן יְהוָה לָכֶם לְאָכְלָה” (hûʾ halleḥem ʾăšer nātan YHWH lākem ləʾoḵlāh, “este é o pão que Yahweh vos deu por alimento”). O texto, assim, não apenas “batiza” um item comestível; ele enquadra o alimento como dádiva interpretada pela palavra profética, o que impede que a subsistência seja reduzida a mero achado natural e a transforma em sinal de dependência regulada. (Ex 16.15).

A. Descrição e paladar como linguagem de experiência

A tradição preserva uma descrição sensorial que evita a abstração e mantém o maná no horizonte de uma comida concreta, ainda que extraordinária. A narrativa registra o ato de nomear (“אֶת־שְׁמוֹ מָן”, ʾet-šəmô mān, “seu nome: maná”) e associa aparência e sabor por comparações: “כְּזֶרַע גַּד לָבָן” (kəzeraʿ gaḏ lāḇān, “como semente… branca”) e “וְטַעְמוֹ כְּצַפִּיחִת בִּדְבָשׁ” (wəṭaʿmô kəṣappîḥit biḏəḇāš, “seu sabor como um bolo com mel”). Ao articular “brancura” e “doçura” com termos cotidianos, o texto sustenta a dimensão de prazer e de suficiência sem eliminar o caráter de “pão dado”, isto é, de provisão cuja origem não é controlada pelos comensais. (Ex 16.31).

B. Maná sob queixa: processamento, trabalho e ambivalência do desejo

Números preserva um retrato do maná em um contexto de murmuração, mas a descrição concentra-se na manipulabilidade do alimento, sugerindo que a monotonia alegada convive com possibilidades reais de preparo. O texto alinha ações sucessivas — “וְטָחֲנוּ… אוֹ דָכוּ… וּבִשְּׁלוּ… וְעָשׂוּ… עֻגֹות” (wəṭāḥănû… ʾô dāḵû… ûḇiššəlû… wəʿāśû… ʿugôt, “moíam… ou socavam… cozinhavam… faziam… bolos”) — e ainda explicita um perfil visual (“כִּזְרַע־גַּד”, kizeraʿ-gaḏ, “como semente…”) e comparativo (“כְּעֵין הַבְּדֹלַח”, kəʿên habbəḏōlaḥ, “como a aparência do bdólio”). Nesse enquadramento, a queixa não nasce de ausência de alimento, mas de uma reordenação afetiva do apetite, em que a comida recebida deixa de ser lida como dom suficiente e passa a ser percebida como privação de variedade desejada. (Nm 11.7-8).

C. Pedagogia do maná: fome, dependência e vida pela palavra

Deuteronômio interpreta o maná de forma programática: ele não é somente provisão, mas instrumento pedagógico. O verso concentra uma cadeia de finalidade (“para humilhar”, “para fazer saber”) e culmina na tese antropológica: “לֹא עַל־הַלֶּחֶם לְבַדּוֹ יִחְיֶה הָאָדָם… עַל־כָּל־מוֹצָא פִי־יְהוָה” (lōʾ ʿal-halleḥem ləḇaddô yiḥyeh hāʾādām… ʿal-kol-môṣāʾ pî-YHWH, “não só de pão vive o ser humano… mas de tudo o que procede da boca de Yahweh”). O maná, nesse quadro, funciona como “pão” que relativiza o próprio pão: alimenta de fato, mas precisamente para ensinar que a existência humana não se sustenta por autonomia material; ela é mantida por uma palavra que precede, regula e dá sentido ao alimento. (Dt 8.3).

D. Memória litúrgica: “grão do céu” e a intensificação poética do dom

O Salmo 78 reelabora a história em linguagem hínica e, ao fazê-lo, intensifica o caráter “celeste” da provisão por paralelismos concentrados: “וַיַּמְטֵר… מָן לֶאֱכֹל… וּדְגַן־שָׁמַיִם” (wayyamṭēr… mān leʾĕkōl… ûḏəgan-šāmayim, “fez chover… maná para comer… e grão do céu”) e “לֶחֶם אַבִּירִים אָכַל אִישׁ” (leḥem ʾabbîrîm ʾāḵal ʾîš, “pão de poderosos/fortes comeu o homem”). A convergência de ARA/ACF/NVI/NVT em “pão dos anjos” evidencia uma leitura interpretativa de אַבִּירִים (ʾabbîrîm, “fortes/poderosos”) como seres celestes, enquanto o hebraico, em si, preserva a imagem de “força/excelência” sem nomear diretamente “anjos”; essa passagem mostra como o louvor pode ampliar semanticamente o dado narrativo para sublinhar a excepcionalidade do sustento. (Sl 78.24-25).

E. Releitura cristológica: do maná histórico ao “pão da vida”

Em João 6, a memória do maná é invocada como precedente e, ao mesmo tempo, corrigida em seu eixo causal e em seu alcance. A citação resume a tradição: “τὸ μάννα… ἄρτον ἐκ τοῦ οὐρανοῦ ἔδωκεν αὐτοῖς φαγεῖν” (to manna… arton ek tou ouranou edōken autois phagein, “o maná… pão do céu lhes deu para comer”); em seguida, o discurso desloca o agente do passado (“não foi Moisés”) para o presente (“o Pai… dá”) e redefine a qualidade: “τὸν ἄρτον… τὸν ἀληθινόν” (ton arton… ton alēthinon, “o pão… o verdadeiro”), culminando na autoidentificação “ἐγώ εἰμι ὁ ἄρτος τῆς ζωῆς” (egō eimi ho artos tēs zōēs, “eu sou o pão da vida”). O maná permanece como referência indispensável, mas sua função passa a ser tipológica: ele aponta para um dom que não é apenas “algo que se come”, e sim uma pessoa que concede vida e saciedade em chave escatológica. (Jo 6.31-35).

F. “Maná escondido”: promessa escatológica e recompensa velada

A linguagem do maná reaparece em Apocalipse como promessa dirigida “ao vencedor”, agora sob a forma de alimento reservado: “τοῦ μάννα τοῦ κεκρυμμένου” (tou manna tou kekrymmenou, “do maná escondido”). O adjetivo “escondido” (κεκρυμμένου, kekrymmenou, “oculto/escondido”) desloca o campo do “sustento diário visível” para a “provisão guardada”, sugerindo uma recompensa que não depende de reconhecimento público imediato. Assim, o vocabulário do Êxodo é reempregado para afirmar que a comunidade não vive apenas de alimentos presentes, mas também de uma promessa de sustento que permanece velada até o tempo devido. (Ap 2.17).

XIII. Refeição em conjunto, hospitalidade e fronteiras de comunhão no cânon bíblico

A comensalidade, no horizonte bíblico, não se reduz a um ato biológico, mas funciona como linguagem social e, muitas vezes, cultual: comer junto pode selar pactos, manifestar reconciliação, instituir pertencimento e, inversamente, sinalizar ruptura. Em Gênesis, a cena de Gênesis 31:54 descreve uma refeição que nasce de um contexto de aliança e delimitação relacional: Jacó “sacrifica” e convoca “os seus” para “comer pão”, unindo ato cultual e mesa comum. A sequência lexical do hebraico conecta diretamente culto e comensalidade — זֶבַח (zevaḥ, “sacrifício”) e לֶאֱכָל־לָחֶם (leʾĕkōl-leḥem, “comer pão”) — e conclui com pernoite no mesmo espaço (Gn 31.54), o que reforça o sentido de estabilização temporária das relações após a disputa.

A reconciliação também pode ser codificada pela lógica do dom e da aceitação pública do presente, que, na prática cultural do antigo Oriente, frequentemente se prolonga em hospitalidade e mesa. Em Gênesis 33:8–16, o foco narrativo está no gesto de “presente” e na sua recepção como sinal de pacificação entre irmãos; a palavra-chave é מִנְחָה (minḥāh, “presente/oferta”), cuja aceitação funciona como marcador performativo de reaproximação (Gn 33.10–11) e evita que a relação permaneça no registro de ameaça e cálculo (Gn 33.8–16). Ainda que o texto não descreva explicitamente uma refeição, a dinâmica é a mesma da comensalidade: a aceitação do outro se torna pública, visível e socialmente vinculante. 

Nos livros históricos, a mesa real pode operar como dispositivo institucional de reintegração, transformando alguém vulnerável em participante reconhecido. Em 2 Samuel 9:7, 10–13, a fórmula “comer pão à mesa” aparece de modo programático, e o hebraico explicita a permanência como categoria teológica e política: תֹּאכַל לֶחֶם (tōʾkhal leḥem, “comerás pão”) e עַל־שֻׁלְחָנִי (ʿal-šulḥānî, “à minha mesa”), com o advérbio תָּמִיד (tāmîḏ, “continuamente”). A motivação é enunciada como חֶסֶד (ḥeseḏ, “lealdade/amor pactual”), isto é, fidelidade que transcende mérito imediato e se ancora em compromisso anterior (2Sm 9.7, 10–13). A mesa, aqui, não é mero cenário doméstico: é lugar de restauração de status e de pertencimento.

O reverso da mesa compartilhada é igualmente eloquente: recusar-se a comer, ou afastar-se da mesa, pode ser gesto de protesto, luto ou ruptura. Em 1 Samuel 20:34, a recusa de Jônatas é narrada com alta densidade afetiva e social: ele se levanta “da mesa” e “não come pão”, sob “ira” e tristeza, porque a honra de Davi foi atingida. O hebraico é incisivo: מֵעִם הַשֻּׁלְחָן (mēʿim haššulḥān, “de junto da mesa”), וְלֹא־אָכַל (wĕ-lōʾ-ʾāḵal, “e não comeu”), além de חֳרִי־אָף (ḥŏrî-ʾāp̄, “ira ardente”). A mesa, portanto, é espaço moral: permanecer ou retirar-se comunica avaliação ética do vínculo.

No NT, a comensalidade se torna um dos lugares mais sensíveis da disputa por fronteiras identitárias. Em Atos 11:2–3, a objeção contra Pedro não se formula em torno de doutrina abstrata, mas de prática social concreta: “entraste” na casa de “incircuncisos” e “comeste com eles”. O grego concentra a acusação no verbo συνέφαγες (synephages, “comeste com”), e qualifica o grupo como ἄνδρας ἀκροβυστίαν ἔχοντας (andras akrobystian echontas, “homens tendo incircuncisão/ incircuncisos”). A censura vem “dos da circuncisão” e mostra que mesa comum é, na percepção do grupo, ato de comunhão que atravessa (ou ameaça) limites tradicionais (At 11.2–3).

Em Gálatas 2:11–12, Paulo descreve a mesma problemática no nível microcomunitário: a prática anterior de Pedro era comer com gentios, mas, com a chegada de certos enviados, ele recua e se separa. A passagem é particularmente transparente por causa de três verbos: συνήσθιεν (synēsthien, “comia junto”), ὑπέστελλεν (hypestellen, “recuava/retirava-se”) e ἀφώριζεν (aphōrizen, “separava-se”). A motivação declarada é o “temor” diante “dos da circuncisão” (Gl 2.11–12). O texto sugere que a mesa é um termômetro da coerência do evangelho na vida comunitária: não se trata apenas de etiqueta social, mas de como a comunhão se materializa em atos cotidianos.

As exortações apostólicas generalizam essa teologia da mesa sob a forma de virtude comunitária. Em Romanos 12:13, a hospitalidade não aparece como gesto ocasional, mas como prática intencional: “perseguir” a hospitalidade. O grego é expressivo ao unir disposição e ação: τὴν φιλοξενίαν (tēn philoxenian, “a hospitalidade”) com o particípio διώκοντες (diōkontes, “perseguindo/empregando esforço ativo”), ao lado do compartilhamento com as necessidades dos santos (Rm 12.13). Essa construção indica que a comunhão se preserva e se expande pela abertura concreta do espaço doméstico e social, e não apenas por adesão verbal.

A carta aos Hebreus reforça o mesmo eixo, agora com um motivo teológico explícito: hospitalidade pode implicar acolher o inesperado. Hebreus 13:2 ordena que não se esqueça da hospitalidade e justifica com a possibilidade de alguns terem hospedado “anjos” sem o saber. O texto utiliza φιλοξενίας (philoxenias, “hospitalidade”) e o aoristo ξενίσαντες (xenisantes, “hospedando/acolhendo como hóspede”), ancorando a exortação na convicção de que a recepção do outro pode se tornar lugar de visita divina (Hb 13.2). Nesse quadro, a mesa não é apenas símbolo de sociabilidade: ela se torna disciplina ética que traduz, em atos verificáveis, o tipo de comunidade que o texto pretende formar.

XIV. Leis alimentares, santidade e liberdade cristã

A lógica das leis alimentares na Torá é estruturada por categorias de separação que não se esgotam em pragmatismo dietético, mas organizam uma gramática de santidade aplicada ao corpo e à vida comunitária. Levítico emprega o par טָמֵא (ṭāmēʾ, “impuro”) e טָהוֹר (ṭāhôr, “puro”), além do rótulo שֶׁקֶץ (šeqeṣ, “detestável/abominável”), para demarcar aquilo que pode ou não ser ingerido sem violar a ordem simbólica que distingue Israel entre os povos (Lv 11.1–47). A própria redação alterna critérios morfológicos (por exemplo, traços do animal) com interdições de contato e ingestão, sugerindo que “impureza” não é apenas propriedade física do alimento, mas um estatuto relacional regulado por mandamento. O resultado é uma disciplina do comer como prática identitária e cultual, na qual o corpo é inserido na pedagogia da aliança.

A releitura deuteronômica não abandona o sistema, mas o reposiciona retoricamente dentro de uma autocompreensão nacional: o interdito alimentar é precedido por fórmulas de pertença e seguido por um vocabulário de repulsa moral. A injunção “não comerás” é articulada com תּוֹעֵבָה (tôʿēḇāh, “abominação/coisa detestável”), de modo que a comida proibida não é apenas “não permitida”, mas classificada como incompatível com o ethos de um povo “separado” (Dt 14.1–21). Essa moldura mostra que a dieta funciona como fronteira pedagógica: comer e abster-se tornam-se atos públicos de fidelidade, e o cotidiano da mesa passa a carregar a mesma lógica de consagração que o culto formal pretende instaurar.

No ensino de Jesus, a categoria de “contaminação” é deslocada do objeto ingerido para o circuito interior que produz palavras e atos, sem que isso elimine a linguagem de pureza, mas altere seu centro. Marcos usa o verbo κοινόω (koinoō, “tornar comum/contaminar”) para descrever o que não pode ser produzido pelo alimento que entra no corpo, e registra a frase final com uma construção que concentra o debate textual: (καθαρίζων πάντα τὰ βρώματα, katharizōn panta ta brōmata, “purificando/declarando puros todos os alimentos”) (Mc 7.18–23). A relevância exegética está na ambiguidade funcional do particípio: ele pode ser entendido como comentário editorial (“assim, declarou puros todos os alimentos”) ou como fechamento do argumento fisiológico (“…vai ao esgoto, purificando todos os alimentos”), diferença que explica por que traduções oscilam ao explicitar ou não uma conclusão normativa.

A visão de Pedro radicaliza o vocabulário de pureza ao aplicar a linguagem de “purificar” ao que antes era considerado intrinsecamente interdito, preparando uma expansão social da comunhão. A ordem divina é formulada com o imperativo negativo e um aoristo que atribui a Deus o ato decisivo: (ὃ ὁ θεὸς ἐκαθάρισεν, σὺ μὴ κοίνου, ho ho theos ekatharisen, sy mē koinou, “o que Deus purificou, tu não consideres comum/impuro”) (At 10.9–16). O ganho hermenêutico do texto está no fato de que a cena começa com animais e termina orientando a recepção de pessoas: o léxico alimentar funciona como linguagem de fronteira, e a “purificação” passa a sinalizar que a separação não pode ser usada para impedir o avanço do evangelho.

A deliberação de Jerusalém organiza uma solução prática para a mesa comum entre judeus e gentios ao selecionar interdições que têm peso social imediato e lastro na tradição veterotestamentária. A carta opta por verbos de abstenção e lista itens ligados a idolatria e sangue: (εἰδωλόθυτον, eidōlothuton, “coisa sacrificada a ídolo”), (αἷμα, haima, “sangue”) e (πνικτός, pniktos, “estrangulado/sufocado”), articulados sob a forma “abster-se” (ἀπέχεσθαι, apechesthai, “abster-se”) (At 15.19–20, 28–29). A pertinência exegética do recorte não está em reconstruir uma “nova lei dietética”, mas em proteger a comunhão e evitar que a liberdade gentílica seja lida como participação cultual em ídolos ou desprezo pela sacralidade do sangue, que permanece um limite teologicamente carregado.

A ética paulina em Romanos recusa tanto a absolutização da dieta quanto a indiferença diante do impacto comunitário do comer. O argumento contrapõe “comida e bebida” ao reino de Deus com termos que nomeiam práticas ordinárias: (βρῶσις, brōsis, “comida”) e (πόσις, posis, “bebida”), e conclui que o bem pode consistir em não exercer um direito quando isso produz tropeço; por isso aparece o enunciado prudencial envolvendo carne e vinho: (κρέα, krea, “carne”) e (οἶνος, oinos, “vinho”) (Rm 14.17, 21). O eixo é que a pureza do alimento não é a última instância moral: o critério passa a ser a edificação do outro e a preservação da paz comunitária, sem negar que certos contextos podem exigir renúncia concreta.

Em 1 Coríntios, a discussão sobre alimento é recortada por um caso específico: carne vinculada a práticas idolátricas. A carta nomeia diretamente o problema com (εἰδωλόθυτον, eidōlothuton, “oferta sacrificada a ídolo”) e submete a “liberdade” ao princípio de amor que protege o vulnerável; por isso o texto contrapõe o efeito inflacionador do saber à função edificadora do amor e insiste que a “consciência” (συνείδησις, syneidēsis, “consciência”) do irmão fraco pode ser ferida por um gesto que, em si, parece indiferente (1Co 8.1–13). A questão não é reintroduzir categorias levíticas de puro/impuro, mas impedir que a comunhão cristã legitime, ainda que indiretamente, a participação em ritos que competem com a exclusividade de Deus.

A mesma epístola oferece um discernimento de campo mais amplo ao tratar do alimento no “mercado” e em refeições com não cristãos, distinguindo consumo cotidiano de comunhão religiosa. A liberdade é relativizada por dois critérios — utilidade e edificação — e por uma regra prática que evita investigação ansiosa quando não há dimensão cultual em jogo; o texto, contudo, exige abstenção quando o ato é explicitamente interpretado como ligado ao sacrifício, porque aí o comer se torna comunicação simbólica. A passagem culmina em um princípio teleológico (“fazer tudo para a glória de Deus”) e em uma ética de não causar escândalo a diferentes públicos (1Co 10.23–33). A preocupação não é com “matéria contaminada”, mas com o significado público do gesto e com a preservação do testemunho em contextos plurirreligiosos.

A carta aos Colossenses desloca a discussão para o plano da avaliação religiosa: não se trata apenas do que se come, mas de quem tem autoridade para julgar a espiritualidade alheia por práticas externas. O texto proíbe que alguém “julgue” (κρινέτω, krinetō, “julgue”) “em comida e em bebida” (ἐν βρώσει καὶ ἐν πόσει, en brōsei kai en posei, “em comida e em bebida”) e associa tais observâncias a um regime de “sombra” (σκιά, skia, “sombra”) diante da realidade centrada em Cristo (Cl 2.16–17). O ganho exegético está em perceber que o alvo não é a disciplina alimentar em si, mas a transformação dessas práticas em critério de superioridade e em mecanismo de coerção comunitária.

A advertência pastoral em 1 Timóteo atinge um ascetismo que, sob aparência de rigor, é retratado como distorção doutrinária ao “proibir” e “ordenar abstinência” de alimentos. O texto descreve os agentes como “ordenando abster-se” (ἀπέχεσθαι βρωμάτων, apechesthai brōmatōn, “abster-se de alimentos”) e responde com uma afirmação sobre a criação recebida “com ação de graças”, sustentando que “toda criatura de Deus é boa” (πᾶν κτίσμα θεοῦ καλόν, pan ktisma theou kalon, “toda criatura de Deus é boa”) e que o alimento é “santificado” pela palavra e pela oração (1Tm 4.3–5). O ponto não é negar a possibilidade de jejuns ou abstinências voluntárias, mas recusar uma teologia que torna a criação intrinsecamente suspeita e transforma o alimento em marcador de “pureza” superior.

Dois textos finais condensam a transição do eixo “alimento/pureza” para uma interioridade ética: o problema não é o objeto, mas o sujeito moral e a fonte de estabilidade espiritual. Tito afirma que “tudo é puro para os puros” (πάντα καθαρὰ τοῖς καθαροῖς, panta kathara tois katharois, “todas as coisas são puras para os puros”), contrapondo isso à mente e consciência “contaminadas” (Tt 1.15), enquanto Hebreus declara que é “bom” o coração ser fortalecido “pela graça” e não “por alimentos” (οὐ βρώμασιν, ou brōmasin, “não por alimentos”), aludindo a práticas que não trouxeram proveito a quem nelas caminhou (Hb 13.9). Esses enunciados não anulam a seriedade da idolatria nem a prudência pastoral, mas estabelecem que a santidade cristã não pode ser reduzida a um regime alimentar, pois a pureza é descrita como condição moral e a estabilidade como dom de graça, não como efeito de regras de mesa.

XV. Fome, juízo e justiça

A moldura de Deuteronômio 28 organiza a fome como sinal de reversão pactual: a abundância, quando desvinculada da escuta obediente, pode ser convertida em privação, e a privação assume caráter pedagógico e judicativo. A seção descreve a passagem do “serviço” prestado a Yahweh para um “serviço” compulsório aos inimigos, no qual a carência alimentar se torna parte do jugo: fome e sede aparecem como instrumentos de humilhação, enquanto o cerco (“aperto”) conduz à dissolução da solidariedade e à degradação extrema do instinto de sobrevivência. O ponto teológico não é transformar a fome em espetáculo moral, mas expor que a quebra da aliança corrói a ordem social de tal modo que o alimento, em vez de celebrar vida e comunhão, passa a medir a ruptura e o colapso do convívio. (Dt 28.47-57).

O profeta Amós formula a fome como “linguagem” de advertência, e o faz com um sarcasmo calibrado: a expressão “dentes limpos” descreve um povo sem restos de comida, isto é, sem alimento suficiente. A frase concentra o paradoxo em hebraico contínuo: (נִקְי֤וֹן שִׁנַּ֨יִם֙ … וְחֹ֣סֶר לֶ֔חֶם, niqqāyôn šinnayim … wəḥōser leḥem, “limpeza de dentes … falta de pão”), seguida pelo refrão de recusa (“não retornastes a mim”), que dá ao fenômeno físico o estatuto de apelo moral. Nesse enquadramento, a escassez não é descrita como acidente meteorológico isolado, mas como evento interpretável dentro de uma relação: o alimento, ou sua falta, torna-se índice de uma história em que a injustiça persiste apesar dos chamados ao retorno. (Am 4.6).

Em Ezequiel, a fome é encenada como sinal profético de cerco e desintegração social, mas com um vocabulário que liga diretamente “pão” a estabilidade coletiva. A sentença central é: (הִנְנִ֨י שֹׁבֵ֤ר מַטֵּה־לֶ֨חֶם֙, hinənî šōvēr maṭṭē-leḥem, “eis que quebro o bastão do pão”), seguida por racionamento e afeto de pânico: comer “por peso” e beber “por medida”, “com preocupação” e “com desolação”. O texto conclui que a finalidade do quadro é produzir “falta de pão e água” e o esgotamento mútuo, para que a crise material seja lida como efeito de iniquidade que consome a comunidade por dentro. (Ez 4.16-17).

Neemias desloca o foco do “juízo” externo para a violência interna: a fome expõe estruturas de exploração no interior do próprio povo. A queixa pública registra, em forma direta, a urgência do básico: (נִקְחָ֥ה דָגָ֖ן וְנֹאכְלָ֥ה וְנִחְיֶֽה, niqqāḥāh dāgān wənōʾkəlāh wəniḥyeh, “tomemos grão, comamos e vivamos”), mas a sequência revela que o acesso ao grão é mediado por penhoras de campos, vinhas e casas, e por endividamento que chega à servidão de filhos e filhas. A fome, assim, não apenas “acontece”; ela é agravada por mecanismos de crédito e por assimetria de poder, tornando-se prova moral de uma comunidade capaz de devorar a si mesma quando o alimento se torna mercadoria absoluta. (Ne 5.1-5).

Isaías 58 redefine a relação entre jejum e justiça ao afirmar que a prática cultual é inválida quando não se traduz em partilha efetiva. O eixo programático aparece na ordem de repartir pão e de acolher vulneráveis: (הֲל֨וֹא פָרֹ֤ס לָֽרָעֵב֙ לַחְמֶ֔ךָ, halōʾ pārōs lā-rāʿēb laḥmekā, “acaso não é repartir ao faminto o teu pão?”), e se aprofunda ao exigir que a própria interioridade seja implicada na misericórdia: (וְתָפֵ֤ק לָֽרָעֵב֙ נַפְשֶׁ֔ךָ, wətāpēq lā-rāʿēb napšekā, “faze sair ao faminto a tua vida/entrega tua vida ao faminto”). A promessa de “luz” que rompe a escuridão não opera como prêmio mágico, mas como restauração de ordem: a comunidade que alimenta e protege torna-se, ela mesma, sinal de cura social e de presença divina verificável no cotidiano. (Is 58.6-10).

A narrativa de Elias em Sarepta mostra a fome como cenário onde misericórdia e confiança são testadas no limite do mínimo. A viúva descreve sua reserva em termos quase contábeis: (מְלֹ֤א כַף־קֶ֨מַח֙ … וּמְעַט־שֶׁ֖מֶן, məlōʾ kap-qemaḥ … ûməʿaṭ-šemen, “um punhado de farinha … e um pouco de óleo”), e interpreta a próxima refeição como última antes da morte. A palavra profética, por sua vez, não promete luxo, mas continuidade: (כַּ֤ד הַקֶּ֨מַח֙ לֹ֣א תִכְלָ֔ה וְצַפַּ֥חַת הַשֶּׁ֖מֶן לֹ֣א תֶחְסָ֑ר, kad haqqemaḥ lōʾ tikhlāh wəṣappaḥat haššemen lōʾ teḥsar, “a jarra de farinha não se acabará e a botija de óleo não faltará”). O texto transforma a fome em campo de preservação da vida, e o faz ao centrar a cena numa mulher socialmente vulnerável, tornando a provisão um argumento narrativo sobre o cuidado divino que alcança a periferia. (1Rs 17.8-16).

O episódio de Eliseu com “pães das primícias” retoma o motivo da fome, mas sublinha a passagem do cálculo para a confiança na palavra. A oferta é explicitamente modesta para o número de pessoas: (לֶ֤חֶם בִּכּוּרִים֙ עֶשְׂרִֽים־לֶ֣חֶם שְׂעֹרִ֔ים, leḥem bikkūrîm ʿeśrîm-leḥem śəʿōrîm, “pão das primícias: vinte pães de cevada”), e a objeção do servo (“como dar isto a cem?”) expressa racionalidade de escassez. A resposta profética estabelece uma norma de abundância que não nasce do estoque, mas do dizer divino: (אָכֹ֥ל וְהוֹתֵֽר, ʾāḵōl wəhōtēr, “comer e sobrar”), confirmada pela sequência final (“comeram e sobrou”). A fome, aqui, é o palco onde a partilha se torna possível porque o alimento é reinserido na esfera do dom, não do medo. (2Rs 4.42-44).

Amós 8 radicaliza a metáfora ao falar de uma fome que não se mede por grãos, mas por acesso à palavra: (וְהִשְׁלַחְתִּ֥י רָעָ֖ב בָּאָ֑רֶץ לֹֽא־רָעָ֤ב לַלֶּ֨חֶם֙ … כִּ֣י אִם־לִשְׁמֹ֔עַ אֵ֖ת דִּבְרֵ֥י יְהוָֽה, wəhišlaḥtî rāʿāb bāʾāreṣ lōʾ-rāʿāb la-leḥem … kî ʾim-lišmōaʿ ʾēt dibrê YHWH, “enviarei fome na terra, não fome de pão… mas de ouvir as palavras de YHWH”). A construção “não… mas” impede reduzir o texto a espiritualização evasiva: o profeta não nega a fome material (ela é conhecida no livro), mas afirma que existe uma forma de juízo em que a sociedade perde a orientação e “perambula” buscando palavra sem encontrá-la. Assim, alimento continua sendo termômetro moral, agora transposto para a esfera do sentido: a ruptura com a palavra é descrita com a mesma gravidade de uma catástrofe alimentar. (Am 8.11-12).

No NY, a fome é elevada a critério de discernimento escatológico e de autenticidade comunitária, sem abandonar sua concretude. Em Mateus, a identificação do Rei com o necessitado é formulada com verbos de ingestão e oferta: (ἐπείνασα γὰρ καὶ ἐδώκατέ μοι φαγεῖν, epeinasa gar kai edōkate moi phagein, “tive fome e me destes de comer”), tornando a assistência alimentar parte do juízo final. Tiago, por sua vez, diagnostica a inconsistência de uma “paz” verbal que não supre o corpo: (λειπόμενοι ὦσιν τῆς ἐφημέρου τροφῆς … θερμαίνεσθε καὶ χορτάζεσθε, leipomenoi ōsin tēs ephēmerou trophēs … thermainesthe kai chortazesthe, “careçam do alimento diário… aquecei-vos e saciai-vos”), seguida da crítica: não dar “o necessário” torna a fé estéril. O conjunto conecta justiça e alimento com máxima objetividade: a verdade do vínculo com Deus é testada na resposta ao faminto, porque é aí que o amor deixa de ser discurso e se torna ato mensurável. (Mt 25.35-46; Tg 2.15-17).

XVI. Alimento espiritual

A formulação de Deuteronômio 8.3 estabelece uma gramática decisiva para o uso bíblico de imagens alimentares aplicadas à revelação: a experiência do maná é interpretada como pedagogia que relativiza o próprio pão, de modo que a vida humana não se explica pelo suprimento material isolado, mas pela dependência do dizer divino (לֹא עַל־הַלֶּחֶם לְבַדּוֹ יִחְיֶה הָאָדָם, lōʾ ʿal-halleḥem ləḇaddô yiḥyeh hāʾādām, “não sobre o pão somente viverá o ser humano”; עַל־כָּל־מוֹצָא פִי־יְהוָה, ʿal-kol-môṣāʾ pî-YHWH, “sobre tudo o que sai da boca de Yahweh”). A oposição não é entre “corpo” e “espírito”, mas entre uma leitura autossuficiente da subsistência e uma leitura da subsistência como dom interpretado pela palavra. (Dt 8.3).

O profetismo radicaliza essa gramática ao descrever a palavra como algo que se “come”, isto é, que se internaliza até tornar-se princípio de alegria e identidade. Jeremias 15.16 apresenta a apropriação do discurso divino como ingestão (נִמְצְאוּ דְבָרֶיךָ וָאֹכְלֵם, nimṣəʾû dəḇāreykā wāʾoḵlēm, “foram achadas as tuas palavras, e eu as comi”), e o efeito é descrito como júbilo do coração, não como curiosidade intelectual. Ezequiel 3.1–3 converte a mesma lógica em cena performativa: o profeta é ordenado a comer o rolo (אֱכֹל אֶת־הַמְּגִלָּה הַזֹּאת, ʾĕḵōl ʾet-hamməgillāh hazzōʾt, “come este rolo”) e a doçura é explicitada como mel (כִּדְבַשׁ לְמָתוֹק, kidəḇaš ləmāṯôq, “como mel, para doçura”), unindo assimilação cognitiva e transformação afetiva. (Jr 15.16; Ez 3.1–3).

A tradição hínica e sapiencial consolida o mesmo campo semântico ao afirmar que o valor da instrução divina pode ser descrito pela categoria de “doçura”. Em Salmos 19.10, a excelência dos juízos de Yahweh é comparada ao mel e ao destilar dos favos (וּמְתוּקִים מִדְּבַשׁ, ûmətûqîm middəḇaš, “e mais doces que mel”), e a comparação funciona como critério axiológico: a palavra é desejável, não apenas correta. Em Salmos 119.103, a experiência é formulada em primeira pessoa como avaliação sensorial da palavra (מַה־נִּמְלְצוּ לְחִכִּי אִמְרָתֶךָ, mah-nimləṣû ləḥikkî ʾimrāteḵā, “quão doces ao meu paladar são as tuas palavras”), com a consequente intensificação (“mais que mel à boca”), indicando que a doçura, aqui, é linguagem para deleite normativo, não para excesso hedonista. (Sl 19.10; Sl 119.103).

O convite de Provérbios 9.1–6 organiza o mesmo tema por meio da imagem do banquete: a sabedoria edifica casa, prepara mesa e convoca o ingênuo a comer e beber (לְכוּ לַחֲמוּ בְלַחְמִי, ləḵû laḥămû bəlaḥmî, “vinde, comei do meu pão”; וּשְׁתוּ בְּיַיִן מָסָכְתִּי, ûšətû bəyayin māsakhtî, “bebei do vinho que misturei”). A refeição, nesse texto, não é ornamento literário: ela é o modo como a instrução se torna participação em um caminho (“vivei… andai pelo caminho do entendimento”), isto é, “alimento” como estrutura de formação. (Pv 9.1–6).

No quarto evangelho, o vocabulário alimentar se desloca do regime de “metáfora sapiencial” para uma cristologia que interpreta sinais e discursos como auto-revelação. João 4.32–34 apresenta o “alimento” de Jesus como obediência missionária (ἐμὸν βρῶμά ἐστιν ἵνα ποιῶ τὸ θέλημα τοῦ πέμψαντός με, emon brōma estin hina poiō to thelēma tou pempsantos me, “meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou”), integrando nutrição e vocação sem espiritualizar o corpo nem materializar a missão. Nesse horizonte, “alimento” não é o que Jesus possui, mas o que Jesus é enquanto Enviado cuja obra deve ser completada; essa integração é explicitamente associada ao dito de 4.34 na leitura teológica do evangelho (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 243).

A transição para João 6.26–35 torna visível um princípio hermenêutico interno: os sinais não se esgotam no fenômeno, mas apontam para um referente cristológico, e essa referencialidade é enfatizada como traço do próprio evangelho (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 14). Esse enquadramento impede que a multiplicação seja lida como simples solução de escassez: Jesus critica a busca motivada pela saciedade e redireciona a ação para o “alimento” que não perece (βρῶσις, brōsis, “comida/alimento”), instruindo a trabalhar pelo que “permanece para a vida eterna” (ἐργάζεσθε μὴ τὴν βρῶσιν τὴν ἀπολλυμένην, ergazesthe mē tēn brōsin tēn apollymenēn, “trabalhai não pela comida que perece”). Nesse ponto, a leitura teológica do discurso registra o deslocamento do foco do dom para o Doador, em continuidade com a estrutura “sinal → significado”: o evangelho pode apresentar Jesus como anfitrião no sinal, mas o discurso subsequente desloca a ênfase para sua identidade, “o pão verdadeiro” vindo do céu (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 109). A mesma lógica aparece no registro do imperativo do capítulo: a busca correta é trabalhar “pelo pão que permanece” (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 224), e o eixo do debate é requalificado: não basta falar de pão, nem mesmo de “pão do céu”, mas do “pão verdadeiro” que cumpre a revelação plena (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 227). 

A autodeclaração de João 6.35 explicita a densidade cristológica da categoria: a sentença “eu sou” não distribui um benefício externo, mas identifica Jesus como o próprio alimento escatológico (ἐγώ εἰμι ὁ ἄρτος τῆς ζωῆς, egō eimi ho artos tēs zōēs, “eu sou o pão da vida”). A observação decisiva é que o predicado está no “eu” que fala, e não em um “pão” concebido como objeto separado: o evangelho formula uma das sentenças “eu sou” em que o “eu” funciona como predicado real, exigindo fé dirigida à pessoa (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 229). Consequentemente, o discurso não se limita a afirmar que Jesus concede pão; ele afirma que Jesus é o pão, e a recepção do dom coincide com a recepção do Doador (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 229).

A passagem para João 6.54–60 intensifica a linguagem de “comer” e “beber” ao ancorá-la na autodoação do Filho: “quem come minha carne e bebe meu sangue” (ὁ τρώγων μου τὴν σάρκα καὶ πίνων μου τὸ αἷμα, ho trōgōn mou tēn sarka kai pinōn mou to haima, “o que come a minha carne e bebe o meu sangue”) é descrito como participante da vida, e o verbo de permanência (“permanece em mim e eu nele”) define comunhão duradoura. O ganho exegético consiste em observar que a linguagem alimentar não é introduzida como artifício estranho ao capítulo; ela se desenvolve organicamente do contraste anterior entre perecível e imperecível (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 235). O maná, nesse horizonte, é reavaliado como provisão real, porém limitada: enquanto alimento que perece, possui poder vivificante apenas temporário (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 235), ao passo que o “pão vivo” é definido pelo alcance de vida. A identificação do pão com a “carne” de Jesus concentra a frase no valor soteriológico da entrega, e a ênfase recai precisamente na identificação (“é a minha carne”), não em um esclarecimento marginal (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 235). Por isso, leituras que tratam o trecho como simples codificação litúrgica podem perder o eixo do conflito do discurso, isto é, o escândalo da vida recebida pela participação crente na entrega do Filho (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 239). A continuidade do capítulo confirma que a apropriação não é episódica, mas perseverante, descrita como prática reiterada de fé (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 243), e o fechamento do diálogo conserva a força semântica acumulada pela expressão “este pão”, que se torna portadora do conjunto de sentidos construídos ao longo do debate (RIDDERBOS, The Gospel of John: A Theological Commentary, 1997, p. 244).

A recepção e a maturação desse “alimento” são tematizadas no NT por uma pedagogia explícita da nutrição espiritual. Em 1 Coríntios 3.1–3, a distinção entre “leite” e “alimento” demarca estágio de formação: γάλα (gala, “leite”) designa instrução adequada à infância espiritual, enquanto βρῶμα (brōma, “alimento”) remete a capacidade ainda não adquirida. Hebreus 5.12–14 intensifica a distinção com “leite” versus “alimento sólido” (στερεὰ τροφή, sterea trophē, “alimento sólido”), vinculando-a à aptidão para discernimento e ao exercício que torna possível julgar bem e mal. Em 1 Pedro 2.2, a imagem retorna de modo positivo e universalizante: os recém-nascidos na fé devem desejar “o leite racional, sem engano” (τὸ λογικὸν ἄδολον γάλα, to logikon adolon gala, “o leite racional, sem dolo”), para crescer “para salvação”, o que reconduz o tema à lógica de assimilação: a palavra é recebida como alimento que forma vida e discernimento, e não como adorno de discurso. (1Co 3.1–3; Hb 5.12–14; 1Pe 2.2).

XVII. Mesa messiânica e consumação: banquete escatológico

A imagem do banquete escatológico, no horizonte profético, não é mero ornamento poético: funciona como condensação simbólica de restauração total, na qual a abundância material se torna linguagem adequada para descrever reconciliação cósmica, reversão da morte e comunhão universal. Em Isaías 25.6, o núcleo semântico do quadro é dado pela repetição de מִשְׁתֶּה (mišteh, “banquete”), qualificado por שְׁמָנִים (šəmānîm, “manjares gordurosos”) e שְׁמָרִים (šəmārîm, “vinho envelhecido”), isto é, alimentos e bebida em sua forma “plena” e celebrativa, próprios de mesa régia e festividade culminante, explicitamente “para todos os povos”, o que confere ao motivo uma abertura universal que depois se torna decisiva na leitura cristã do “reclinar-se” no Reino.

A passagem de Isaías 55.1–2 desloca o mesmo campo imagético para a economia do dom: a convocação litúrgica (הוֹי, hôy, “ó!”) culmina na oferta paradoxal de compra “sem dinheiro” por meio de לֹא־בְכֶסֶף (lōʾ-ḇəḵesep̄, “sem dinheiro”) e “sem preço”, de modo que יַיִן (yayin, “vinho”) e חָלָב (ḥālāḇ, “leite”) deixam de ser marcadores de status e passam a significar acesso gracioso ao “bem” prometido, em contraste com a frustração de investir em “não pão”. Essa tensão entre gasto improdutivo e satisfação verdadeira prepara, em chave profética, a crítica neotestamentária à recusa do convite e ao deslocamento dos convidados para fora do círculo presumido.

O pano de fundo sapiencial-real dos Salmos mantém a mesma gramática simbólica: a abundância agrícola é sinal de governo justo e de bênção que atravessa o tecido social. Em Salmos 72.16, a expressão פִּסַּת־בַּר (pissat bār, “abundância de cereal”) associa prosperidade extraordinária a um quadro de fertilidade que excede o ordinário; em Salmos 85.12, a relação entre o “bem” divino e o “produto” da terra aparece na cláusula יְבוּלָהּ (yəḇûlâh, “colheita/produção”), funcionando como índice de reconciliação entre Deus e território, isto é, de restauração do mundo habitável como espaço de vida.

No ensinamento de Jesus, a imagem deixa de ser apenas promessa e se torna critério de inclusão e exclusão no tempo escatológico. Em Mateus 8.11, o ponto linguístico decisivo é o verbo ἀνακλιθήσονται (anaklithēsontai, “reclinar-se-ão à mesa”), que pressupõe a postura do banquete formal e, por isso, transforma a cena em metáfora do Reino como mesa de comunhão. A força exegética do dito está na dupla inversão: muitos “de oriente e ocidente” participam, enquanto outros, associados por expectativa identitária à herança, ficam de fora; nessa linha, a leitura de Keener acentua que o quadro retoma a promessa veterotestamentária do banquete final e a aplica à reunião escatológica com os patriarcas, ao mesmo tempo em que denuncia a perda por parte de quem supunha a herança como automática (KEENER, A Commentary on the Gospel of Matthew, 1999, p. 347).

A parábola do banquete em Mateus 22.1–14 amplia o motivo, combinando convite e julgamento: a cena se estrutura em torno de γάμος (gamos, “casamento/bodas”) e do envio reiterado dos chamados, com a recusa que desencadeia a reconfiguração do conjunto de convidados e, por fim, a avaliação do ἔνδυμα γάμου (endyma gamou, “traje nupcial”) como sinal de adequação ao evento. O ganho exegético central aqui não é “cerimonialismo”, mas a tese narrativa de que a participação no Reino não é definida por proximidade social ao anfitrião, e sim pela resposta ao convite e pela conformidade ao caráter do Reino. Keener observa que a parábola “enquadra” o banquete como imagem do Reino e explicitamente o aproxima do imaginário de Isaías, ao notar uma alusão especial ao banquete escatológico e ao deslocamento do foco para a celebração final do Reino (KEENER, A Commentary on the Gospel of Matthew, 1999, p. 627)

Lucas 14.15–24, por sua vez, preserva o coração do motivo com outra configuração narrativa e, por isso, ilumina o tema por contraste. O banquete é descrito como δεῖπνον μέγα (deipnon mega, “grande ceia”), e a recusa se articula por “desculpas” socialmente plausíveis; o ponto recai, então, sobre a incapacidade humana de perceber a urgência do convite, não sobre uma oposição direta entre enviados e perseguidores. Fitzmyer destaca a proximidade estrutural entre as formas mateana e lucana (derivação de tradição comum), mas ressalta que, em Lucas, “não há rei… não há festa de casamento… falta a reviravolta de rejeição e retaliação violenta” e que a ênfase recai na variedade de desculpas “pessoais” (FITZMYER, The Gospel According to Luke X–XXIV, 1985, pp. 1051-1053). Essa diferença reforça o mesmo eixo teológico: a mesa é oferecida, mas a recusa revela uma ordem de valores incompatível com o Reino.

A consumação apocalíptica retoma e sela o motivo do banquete com uma bem-aventurança formal. Em Apocalipse 19.9, o anúncio “bem-aventurados” se ancora em μακάριοι (makarioi, “bem-aventurados”) e define os destinatários como “os chamados” para o δεῖπνον (deipnon, “banquete/ceia”) “do casamento do Cordeiro”, isto é, δεῖπνον τοῦ γάμου τοῦ ἀρνίου (deipnon tou gamou tou arniou, “banquete do casamento do Cordeiro”). O comentário de Osborne explicita o efeito literário-teológico de alternar imagens (noiva e convidados) e atribui a esse movimento uma ênfase interpretativa na iniciativa divina do convite (OSBORNE, Comentário Exegético Apocalipse, 2014, p. 774). A mesma seção interpreta a cláusula final como fórmula de credenciamento do anúncio (“as verdadeiras palavras de Deus”) e, ao mesmo tempo, reinsere o motivo no repertório do “banquete messiânico”, tratado como tradição judaica ancorada em Isaías 25.6 (OSBORNE, Comentário Exegético Apocalipse, 2014, p. 756). A própria forma verbal aplicada aos “chamados” é comentada como sinal teológico: κεκλημένοι (keklēmenoi, “chamados”) é tomada como perfeito intensivo e caracterizada como “passivo divino”, isto é, uma forma que destaca Deus como agente subentendido do chamado (OSBORNE, Comentário Exegético Apocalipse, 2014, p. 756).

XVIII. A Septuaginta como estabilização do léxico alimentar

A tradução grega do AT constitui um laboratório filológico no qual escolhas repetidas de equivalência lexical criam um “vocabulário padrão” para “comida”, “pão”, “grão” e “vinho”, oferecendo um horizonte linguístico relativamente estável para a recepção posterior. Em termos de distribuição, a recorrência de βρῶμα (brōma, “alimento/comida”), ἄρτος (artos, “pão”), σῖτος (sitos, “trigo/grão”) e οἶνος (oinos, “vinho”) na Septuaginta é suficientemente ampla para que esses itens funcionem como pivôs semânticos capazes de sustentar tanto referências concretas (nutrição, provisão, banquete) quanto extensões figurativas (vida, dádiva, comunhão): βρῶμα ocorre 50×, ἄρτος 265×, σῖτος 75× e οἶνος 187× na LXX segundo concordância eletrônica do corpus grego.

No relato de Gênesis 6.21, a LXX fornece um exemplo de como o grego consolida um termo genérico para o domínio do “alimento” ao empregar a expressão ἀπὸ πάντων τῶν βρωμάτων (apo pantōn tōn brōmatōn, “de todos os alimentos”) para enquadrar a provisão que deve ser recolhida “para si” e “para eles” (Gn 6.21). Essa formulação cria um eixo lexical amplo (não restrito a um item específico), no qual o foco recai sobre a comestibilidade e a função de sustento, não sobre a natureza do alimento. Como inferência filológica (não como citação do hebraico nesta passagem), a equivalência usual subjacente tende a envolver um termo hebraico genérico do campo de “comida” como אֹכֶל (ʾōkhel, “comida/alimento”), de modo que o grego funcione como estabilização de um hiperônimo apto a reaparecer em contextos narrativos e cultuais.

A mesma lógica de estabilização se observa quando a LXX fixa pares de itens alimentares em cenas de alta densidade simbólica. Em Gênesis 14.18, a referência conjunta a pão e vinho é apresentada como ἄρτους (artous, “pães”) e οἶνον (oinon, “vinho”), em formulação narrativa contínua (Gn 14.18). Do ponto de vista estritamente lexical, o que importa aqui é que ἄρτος (artos, “pão”) e οἶνος (oinos, “vinho”) tornam-se escolhas-padrão para dois núcleos semânticos que atravessam a Escritura grega: o pão como alimento básico e o vinho como bebida celebrativa, ambos disponíveis para ressignificações posteriores sem necessidade de criar novo vocabulário.

A bênção de Gênesis 27.28 explicita outro pareamento estrutural ao reunir “grão” e “vinho” como marcadores de prosperidade: a LXX verte a sequência como πλῆθος σίτου καὶ οἴνου (plēthos sitou kai oinou, “abundância de trigo/grão e de vinho”). Aqui, σῖτος (sitos, “trigo/grão”) aparece não apenas como item agrícola, mas como índice condensado de sustento e plenitude material, enquanto οἶνος (oinos, “vinho”) funciona como complemento de festa e satisfação. Como inferência filológica (não como citação do hebraico desta passagem), a correspondência esperada costuma envolver termos hebraicos do campo de “cereal” e “mosto/vinho” como דָּגָן (dāgān, “cereal/grão”) e תִּירוֹשׁ (tîrôš, “vinho/mosto”), de modo que o grego, mais uma vez, tenda a padronizar o vocabulário para usos transversais no corpus.

Essa herança lexical torna-se particularmente visível quando o NT trabalha com linguagem alimentar em registros metafóricos densos sem abandonar o vocabulário ordinário da nutrição. Em João 6.35, a autodeclaração ἐγώ εἰμι ὁ ἄρτος τῆς ζωῆς (egō eimi ho artos tēs zōēs, “eu sou o pão da vida”) mobiliza ἄρτος (artos, “pão”) como termo já plenamente “naturalizado” pelas Escrituras gregas, capaz de suportar uma extensão semântica para “vida”. A mesma unidade discursiva intensifica o valor real do alimento quando afirma ἡ γὰρ σάρξ μου ἀληθής ἐστιν βρῶσις (hē gar sarx mou alēthēs estin brōsis, “pois a minha carne é verdadeira comida/alimento”) em João 6.55, empregando βρῶσις (brōsis, “comida/alimento”) — termo do mesmo campo lexical de βρῶμα (brōma, “alimento/comida”) — para articular, em linguagem concreta, uma afirmação de participação vital. O efeito exegético decisivo, nesse ponto, não depende de vocabulário técnico raro, mas do fato de o NT operar com o léxico alimentar comum já consolidado na tradição grega da Escritura, permitindo que “pão” e “comida” transitem do nível material ao figurativo com máxima inteligibilidade.

Bibliografia

FITZMYER, Joseph A. The Gospel According to Luke X–XXIV: introduction, translation, and notes. Garden City, NY: Doubleday, 1985. (The Anchor Bible, v. 28A).
KEENER, Craig S. A commentary on the Gospel of Matthew. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1999.
OSBORNE, Grant R. Apocalipse: comentário exegético. Tradução de Robinson Malkomes; Tiago Abdalla Teixeira Neto. São Paulo: Vida Nova, 2014.
RIDDERBOS, Herman. The Gospel of John: a theological commentary. Tradução de John Vriend. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1997.

Textos primários

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BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
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HOLY BIBLE. New American Standard Bible. La Habra, CA: The Lockman Foundation, 2020.
HOLY BIBLE. New International Version. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2011.
HOLY BIBLE. English Standard Version. Wheaton, IL: Crossway, 2016.
HOLY BIBLE. New American Standard Bible. La Habra, CA: The Lockman Foundation, 2020.
HOLY BIBLE. American Standard Version. New York: Thomas Nelson & Sons, 1901.
HOLY BIBLE. The King James Study Bible. Nashville: Thomas Nelson, 2017.
ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm (eds.). Biblia Hebraica Stuttgartensia. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.
NOVUM TESTAMENTUM GRAECE. Nestle-Aland (NA28). 28. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.

Citação acadêmica:

GALVÃO, Eduardo. Alimento. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 16 jul. 2009. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

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