Estevão — Enciclopédia Bíblica Online

Estevão foi uma das figuras mais decisivas da igreja nascente em Jerusalém. Ele aparece primeiro entre os sete escolhidos para atender a necessidade concreta da comunidade, sobretudo no cuidado cotidiano ligado às viúvas helenistas, mas o relato mostra rapidamente que sua importância ultrapassou qualquer função meramente assistencial. Lucas o descreve como “homem cheio de fé e do Espírito Santo” e, logo depois, como alguém “cheio de graça e poder”, realizando sinais e falando com tal sabedoria que seus opositores não conseguiam resistir ao seu testemunho (At 6.3-5; At 6.8-10). Por isso, Estevão deve ser entendido como uma testemunha carismática e teológica da fé cristã primitiva, alguém que unia serviço, poder espiritual e interpretação profunda da história de Israel (At 6.15; At 7.2).

Seu papel se torna ainda maior quando, diante do Sinédrio, ele pronuncia um longo discurso em que relembra Abraão, José, Moisés, o tabernáculo e o templo para mostrar que Deus nunca esteve preso a um único lugar e que Israel, repetidas vezes, resistiu aos enviados divinos (At 7.2-53). Essa fala provoca sua execução por apedrejamento, tornando-o o primeiro mártir cristão narrado de forma explícita no Novo Testamento; mesmo na morte, porém, ele permanece configurado a Jesus, entregando o espírito ao Senhor e pedindo perdão para seus algozes (At 7.54-60). Seu martírio também se torna um ponto de virada na narrativa de Atos, porque desencadeia a perseguição que dispersa a igreja para além de Jerusalém e aparece diretamente ligado à figura de Saulo, que mais tarde se tornará Paulo (At 8.1-4; At 11.19; At 22.20).

Apedrejamento de Estevão

I. Estevão entre os Sete em Atos

Atos 6.1-7 deve ser lido como uma unidade eclesiológica de transição, na qual o crescimento numérico da comunidade produz uma exigência nova de ordenação interna. O relato se abre com a expressão Ἐν δὲ ταῖς ἡμέραις ταύταις πληθυνόντων τῶν μαθητῶν (En de tais hēmerais tautais plēthynontōn tōn mathētōn, “naqueles dias, multiplicando-se os discípulos”), e Lucas imediatamente vincula expansão e tensão: a comunidade cresce, mas o crescimento faz emergir uma fissura concreta na administração cotidiana (At 6.1). Não se trata, portanto, de um episódio lateral, e sim de uma crise interna produzida pela própria vitalidade da igreja. O comentário de Darrell L. Bock formula bem esse ponto ao definir a perícope como narrativa de nomeação, com função literária de organizar problema, solução, qualificação e seleção (BOCK, Acts, 2007, p. 317). No mesmo eixo, a tensão é descrita como séria, porém superável, pois o autor entende que há questões étnicas reais a serem resolvidas numa comunidade aberta a diversos grupos, mas que a própria comunidade consegue atravessar essa situação potencialmente destrutiva (BOCK, 2007, p. 316).

O conteúdo da queixa é preciso: “suas viúvas” estavam sendo negligenciadas na διακονία καθημερινή, isto é, no serviço cotidiano de sustento (At 6.1). O substantivo γογγυσμός (gongysmos, “murmuração”, “queixa”, “resmungo coletivo”) não descreve mero desconforto privado, mas um murmúrio comunitário já tornado visível; por isso, a situação toca a credibilidade da comunidade como espaço de justiça. O paralelo léxico da Septuaginta é relevante porque o mesmo termo reaparece em Êxodo 16 para a murmuração de Israel no deserto, onde se lê τὸν γογγυσμόν (ton gongysmon, “a murmuração”) diante da crise de provisão. O eco não precisa ser transformado em tipologia rígida, mas ele mostra que Lucas escolhe um vocábulo já marcado pela memória de tensão interna em contexto de cuidado material e provisão divina (Ex 16.9,12 LXX). Também aqui o conflito não nasce em tese doutrinária abstrata, mas na mesa, no alimento e no amparo das viúvas. Bock insiste que o problema é real e específico: as viúvas helenistas não estavam sendo assistidas com o mesmo cuidado dispensado às viúvas hebreias na comunidade de Jerusalém (Ibid.). Quanto aos Ἑλληνισταί (Hellēnistai, “helenistas”), a formulação mais segura é sociolinguística: trata-se, provavelmente, de judeus cuja língua principal era o grego, em contraste com aqueles que utilizavam uma língua semítica (BOCK, 2007, p. 319).

A resposta dos Doze em Atos 6.2-4 não diminui a importância do serviço às viúvas; ela define prioridades ministeriais sem abandonar a necessidade apresentada. O núcleo verbal é οὐκ ἀρεστόν ἐστιν (ouk areston estin, “não é agradável”, “não é adequado”, “não é desejável”), frase cuja nuance merece atenção. KJV verte “It is not reason”, enquanto ESV/NIV traduzem “It is not right”; essa oscilação mostra que o ponto pode ser lido tanto como razoabilidade quanto como correção. Bock, porém, sustenta com acerto que a ênfase não é moralista, mas vocacional: a frase exprime uma escolha de prioridade ligada ao chamado divino, e não primariamente uma distinção entre certo, errado e pecado (BOCK, Acts, 2007, p. 321). Assim, o texto não opõe palavra e mesa como se uma fosse espiritual e a outra inferior; ele afirma que os Doze não devem abandonar a tarefa a que foram diretamente chamados. Por isso a sequência é coerente: os apóstolos não deveriam abrir mão de sua função principal de anunciar Jesus. A solução não é omissão, mas delegação responsável, de modo que a oração e o ministério da palavra permaneçam centrais sem que a comunidade deixe de atender a necessidade concreta (At 6.2-4).

A seleção dos sete, em seguida, mostra que Lucas não imagina eficiência administrativa separada de maturidade espiritual. O imperativo ἐπισκέψασθε (episkepsasthe, “escolhei”, “selecionai”) é seguido da exigência de homens μαρτυρουμένους (martyroumenous, “bem atestados”, “bem recomendados”), πλήρεις πνεύματος καὶ σοφίας (plēreis pneumatos kai sophias, “cheios do Espírito e de sabedoria”), aos quais se confiaria a χρεία (chreia, “tarefa”, “necessidade”, “encargo”) em questão (At 6.3). O texto, portanto, não pede apenas boa vontade, mas reputação pública, sensibilidade espiritual e discernimento. Bock resume isso observando que as qualificações possuem dois componentes principais: espiritualidade e aceitação pública do caráter desses homens. Ao mesmo tempo, convém evitar leitura anacrônica: o comentarista observa que ainda não existe aqui um ofício técnico e formal de “diácono”, mas uma incumbência funcional para resolver uma necessidade concreta da comunidade.

No versículo 5, Estevão aparece em primeiro lugar e recebe a caracterização mais forte da lista: Στέφανον, ἄνδρα πλήρης πίστεως καὶ πνεύματος ἁγίου (Stephanon, andra plērēs pisteōs kai pneumatos hagiou, “Estevão, homem cheio de fé e do Espírito Santo”). A posição inicial não é casual, pois prepara a ampliação narrativa dos versículos seguintes, onde ele se tornará o protagonista de Atos 6.8–8.1. Aqui o juízo de Bock é decisivo: ele observa que Estevão encabeça a lista e já é descrito como cheio de fé e do Espírito, o que antecipa seu papel ampliado na narrativa posterior (BOCK, Acts, 2007, p. 323). Também importa notar que todos os nomes são gregos. Isso não autoriza uma conclusão absoluta sobre a identidade sociológica de cada indivíduo, mas permite uma inferência histórica prudente: o grupo provavelmente possuía forte enraizamento helenista. O próprio comentário formula essa cautela ao observar que os nomes gregos sublinham a provável origem helenista do grupo, embora tais nomes já fossem relativamente comuns entre judeus da Judeia (Ibid.). Essa probabilidade explica por que justamente homens oriundos do setor mais afetado da comunidade recebem a incumbência de enfrentar a crise.

A conclusão da cena em Atos 6.6-7 é teologicamente expressiva. Os sete são colocados diante dos apóstolos, que oram e lhes impõem as mãos; em seguida, o relato registra que “a palavra de Deus crescia” e que o número dos discípulos se multiplicava intensamente, inclusive com adesão sacerdotal (At 6.6-7). O gesto não legitima uma divisão étnica da igreja, mas precisamente o contrário. Bock o formula de modo inequívoco ao afirmar que os discípulos não se fragmentam em linhas étnicas nem propõem comunidades separadas; ao contrário, comprometem-se a trabalhar juntos (BOCK, Ibid.). Por isso, a escolha dos sete não deve ser lida apenas como solução administrativa; ela constitui uma resposta eclesial que preserva simultaneamente a unidade, a justiça interna e a prioridade missionária. É justamente por isso que a perícope funciona como passagem-pivô: Bock observa que essa unidade narrativa serve de ponte literária importante em Atos, pois desloca a atenção para a atuação de personagens fora do grupo dos Doze, especialmente Estevão e Filipe (BOCK, Acts, 2007, p. 317). Em outras palavras, a narrativa não apenas resolve a crise das viúvas; ela introduz o leitor à emergência de Estevão como testemunha maior no desenvolvimento subsequente de Atos.

II. Perfil espiritual e ministerial de Estevão

A apresentação de Estevão em Atos 6 não começa com sua controvérsia pública, mas com sua qualificação espiritual. O texto grego estabelece, primeiro, que os sete deveriam ser “πλήρεις πνεύματος καὶ σοφίας” (plēreis pneumatos kai sophias, “cheios do Espírito e de sabedoria”); em seguida, quando a escolha é concretizada, Lucas individualiza Estevão como “Στέφανον, ἄνδρα πλήρης πίστεως καὶ πνεύματος ἁγίου” (Stephanōn, andra plērēs pisteōs kai pneumatos hagiou, “Estevão, homem cheio de fé e do Espírito Santo”) (At 6.3-5). Essa sequência mostra que sua estatura não é ocasional, mas anterior ao conflito. Keener observa que, nesse ponto, os líderes já aparecem continuamente cheios do Espírito e que a descrição de Estevão como “cheio de fé e do Espírito” o liga diretamente ao requisito anterior e também ao desdobramento dramático que isso lhe trará mais adiante (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1277, p. 1282).

A progressão do retrato em Atos 6.8 confirma que o ministério de Estevão não se restringe a uma função assistencial. A forma crítica da NA28 o descreve como “πλήρης χάριτος καὶ δυνάμεως” (plērēs charitos kai dynameōs, “cheio de graça e de poder”), alguém que realizava “τέρατα καὶ σημεῖα μεγάλα” (terata kai sēmeia megala, “prodígios e grandes sinais”) entre o povo (At 6.8). O nexo entre χάρις (charis, “graça”) e δύναμις (dynamis, “poder”) sugere capacitação divina para atuação pública, e não mera disposição subjetiva. Keener afirma que, ligada a “poder”, a palavra “graça” provavelmente envolve empoderamento divino; acrescenta também que os sinais operados por Estevão demonstram que tal atuação não estava limitada ao círculo dos Doze e que seus adversários não conseguiam responder adequadamente a esse tipo de manifestação (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1296, p. 1298).

A mesma integração entre dom espiritual e ação pública reaparece no campo do debate. Em Atos 6.10, os oponentes “não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava”, isto é, “τῇ σοφίᾳ καὶ τῷ πνεύματι ᾧ ἐλάλει” (tē sophia kai tō pneumati hō elalei). A formulação não reduz o êxito de Estevão a habilidade retórica isolada, nem dissolve a sabedoria no Espírito como se fossem apenas um único conceito indistinto. Keener insiste que a chave de seu sucesso está precisamente nessa dupla, e acrescenta que o discurso do capítulo 7 funciona como amostra concreta dessa sabedoria inspirada; por isso, a fala de Estevão deve ser entendida como intelectualmente articulada e pneumaticamente sustentada ao mesmo tempo (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1310).

Quando a narrativa chega ao Sinédrio, a descrição do rosto de Estevão acrescenta uma camada teológica decisiva ao seu perfil. Atos 6.15 registra que todos viram “εἶδον τὸ πρόσωπον αὐτοῦ ὡσεὶ πρόσωπον ἀγγέλου” (eidon to prosōpon autou hōsei prosōpon angelou, “viram o seu rosto como rosto de anjo”). Keener lê esse detalhe como inversão irônica da acusação de oposição a Moisés: em vez de romper com Moisés, Estevão segue o seu padrão. Essa observação ganha relevo quando se recorda que, em Êxodo 34.29-35, o texto hebraico afirma que, ao descer do Sinai, “קָרַן עוֹר פָּנָיו” (qāran ʿōr pānāyw, “a pele do seu rosto resplandecia”). Assim, o rosto angeliforme de Atos 6.15 não funciona como mero ornamento hagiográfico, mas como moldura revelacional e profética que aproxima Estevão de Moisés e prepara a sua fala do capítulo 7. O próprio Keener afirma que Estevão segue o padrão mosaico, que sua face angeliforme e sua visão posterior da glória de Cristo emolduram seu discurso de martírio, e que, longe de minar a Lei, ele é associado à sua mediação angélica e oferece revelação profética no capítulo seguinte (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1327).

O clímax desse retrato ocorre em Atos 7.55-56. O texto retoma a mesma lógica de plenitude e a leva à sua culminação: “ὑπάρχων δὲ πλήρης πνεύματος ἁγίου” (hyparchōn de plērēs pneumatos hagiou, “estando cheio do Espírito Santo”), Estevão vê a glória de Deus e Jesus “ἑστῶτα ἐκ δεξιῶν τοῦ θεοῦ” (hestōta ek dexiōn tou theou, “em pé à direita de Deus”) (At 7.55-56). Para Keener, essa visão não é apenas consolo interior, mas ato de vindicação. Jesus, que fora condenado em seu próprio julgamento, agora se põe de pé para vindicar sua testemunha; além disso, a posição do Filho do Homem à direita de Deus estabelece um claro paralelo com a autodeclaração de Jesus em Lucas 22.69. Assim, o ministério de Estevão termina não em derrota interpretativa, mas em ratificação celeste: sua palavra é confirmada pelo próprio Cristo exaltado, que aparece como juiz, testemunha e vindicador de seu servo (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, 2013, p. 1430, p. 1442).

III. Conflito de Estevão nas Sinagogas Helenistas

No texto grego de Atos 6, a cena se abre com Estevão “cheio de graça e poder”, realizando “prodígios e grandes sinais entre o povo”, e logo em seguida com a reação de certos membros de um ambiente sinagogal helenista: “ἀνέστησαν δέ τινες… συζητοῦντες τῷ Στεφάνῳ” (anestēsan de tines… syzētountes tō Stephanō, “levantaram-se alguns… debatendo com Estevão”) (At 6.8-9). A moldura literária dessa unidade é importante, porque Fitzmyer a trata explicitamente como a seção do “testemunho de Estevão”, e não como episódio solto; por isso, o embate nas sinagogas já deve ser lido como início formal de um testemunho público que desembocará em processo e morte (FITZMYER, The Acts of the Apostles, 1998, p. 354). Na mesma linha, o comentário entende que se trata de um debate com judeus da diáspora residentes ou em estada em Jerusalém, e não de um confronto inaugural com pagãos ou com um bloco exterior ao judaísmo; além disso, descreve Estevão como alguém agraciado do céu com “graça e poder”, precisamente para um ministério eficaz junto desses judeus da diáspora em Jerusalém (FITZMYER, The Acts of the Apostles, 1998, p. 355, p. 356).

A designação do grupo opositor em Atos 6.9 exige cautela filológica e histórica. Lucas menciona a “συναγωγὴ τῆς λεγομένης Λιβερτίνων” (synagōgē tēs legomenēs Libertinōn, “sinagoga chamada dos Libertos”), seguida dos cireneus, alexandrinos, e dos provenientes da Cilícia e da Ásia. Fitzmyer considera plausível a realidade histórica dessa sinagoga, mas recusa sua identificação automática com a conhecida inscrição de Teódoto, observando que essa associação permanece debatida (FITZMYER, The Acts of the Apostles, 1998, p. 358). Ainda mais importante para a exegese da frase é sua solução sintática: em vez de multiplicar sinagogas de forma indiscriminada, ele prefere entender que Lucas fala, provavelmente, de uma única sinagoga dos libertos composta por vários contingentes de judeus da diáspora. Nesse quadro, cireneus e alexandrinos representam o setor norte-africano e egípcio da diáspora, ao passo que Cilícia e Ásia remetem à Ásia Menor, regiões onde, segundo o comentário, já havia presença judaica antiga e consolidada (FITZMYER, The Acts of the Apostles, 1998, p. 358). O efeito literário desse catálogo geográfico é mostrar que o conflito surge dentro de um judaísmo transregional e grego-falante, não numa oposição simplista entre “judeus” e “cristãos”.

A dinâmica do confronto também merece atenção. O texto não apresenta Estevão como provocador inicial; a iniciativa parte desses membros das sinagogas, que “se levantam” para debater com ele, e Fitzmyer ressalta explicitamente que o impulso do debate vem dos próprios frequentadores sinagogais, não de Estevão (FITZMYER, The Acts of the Apostles, 1998, p. 358). Isso é coerente com o versículo seguinte, no qual se afirma que eles “não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava”: “καὶ οὐκ ἴσχυον ἀντιστῆναι τῇ σοφίᾳ καὶ τῷ πνεύματι ᾧ ἐλάλει” (kai ouk ischyon antistēnai tē sophia kai tō pneumati hō elalei) (At 6.10). Fitzmyer entende que, embora esses opositores não estivessem à altura de sua eloquência e argumentação, ainda assim conseguiram levá-lo às autoridades religiosas de Jerusalém; desse modo, a controvérsia exegética intra-judaica transforma-se narrativamente em acusação formal e comparecimento diante do Sinédrio (FITZMYER, The Acts of the Apostles, 1998, p. 355). A passagem, portanto, liga debate, impotência argumentativa dos oponentes, recurso à instância institucional e, por fim, judicialização da controvérsia.

Esse conflito nas sinagogas helenistas também redefine a posição de Estevão dentro da própria narrativa de Atos. Embora ele pertença ao grupo dos Sete, Fitzmyer observa que, no desenvolvimento lucano, tanto Estevão quanto Filipe deixam de ser retratados como meros responsáveis por mesas e passam a exercer aquilo que os apóstolos chamaram de “ministério da palavra” (FITZMYER, The Acts of the Apostles, 1998, p. 355). Por isso, o embate de Atos 6.8-10 não é uma digressão sobre administração comunitária, mas a primeira exposição pública de Estevão como testemunha. E o sentido histórico-teológico da cena é ainda mais amplo: Fitzmyer afirma que o discurso subsequente de Estevão permitirá a Lucas formular com clareza a posição do cristianismo diante do judaísmo perante as autoridades religiosas de Jerusalém (FITZMYER, The Acts of the Apostles, 1998, p. 356). Assim, quando o sumo sacerdote abre o capítulo seguinte com “Εἶπεν δὲ ὁ ἀρχιερεύς· εἰ ταῦτα οὕτως ἔχει;” (Eipen de ho archiereus; ei tauta houtōs echei?, “Disse então o sumo sacerdote: estas coisas são assim?”) (At 7.1), a narrativa já completou a transição do debate helenista para a audiência oficial diante do centro religioso de Jerusalém.

IV. A acusação contra Estevão diante do Sinédrio

A seção de Atos 6.11-14 constrói a acusação contra Estevão como uma passagem de forte densidade judicial e literária. O texto não descreve um processo sereno, mas uma sequência em que suborno, agitação popular, captura e apresentação ao conselho se interpenetram. A própria cadeia verbal mostra essa escalada: “τότε ὑπέβαλον ἄνδρας” (tote hypebalon andras, “então instigaram/subornaram homens”), depois “συνεκίνησάν τε τὸν λαὸν” (synekinēsan te ton laon, “e agitaram o povo”), e enfim “συνήρπασαν αὐτὸν καὶ ἤγαγον εἰς τὸ συνέδριον” (synērpasan auton kai ēgagon eis to synedrion, “o agarraram e o conduziram ao Sinédrio”). Conzelmann entende que Lucas trabalha um material em que se alternam traços de motim e de procedimento legal, e que essa oscilação é intencional, para representar autoridades que, embora formalmente investidas de poder, agem de modo próximo ao de uma turba (CONZELMANN, Acts of the Apostles, 1987, p. 47). Desse modo, a moldura judicial já nasce comprometida, e o discurso do capítulo seguinte deve ser lido como resposta a um enquadramento previamente enviesado.

A primeira imputação formal é a de blasfêmia contra Moisés e contra Deus: “βλάσφημα ῥήματα εἰς Μωϋσῆν καὶ τὸν θεόν” (blasphēma rhēmata eis Mōysēn kai ton theon, “palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus”) (At 6.11). O ponto decisivo, aqui, é que a acusação não surge como constatação espontânea, mas como fala preparada e posta em circulação por instigação. A observação de Conzelmann sobre ὑποβάλλω (hypoballō, “instigar”, “subornar”, “introduzir de forma induzida”) mostra que a denúncia já pertence ao mecanismo de fabricação do caso, não ao registro de uma avaliação neutra dos fatos. Assim, desde o primeiro enunciado acusatório, a narrativa não apresenta um tribunal examinando uma infração clara, mas opositores produzindo a linguagem necessária para transformar uma controvérsia teológica em crime religioso (CONZELMANN, Acts of the Apostles, 1987, p. 47). A gravidade da fórmula “contra Moisés e contra Deus” reside precisamente nisso: ela busca converter a fala de Estevão em ataque simultâneo à revelação mosaica e ao próprio Deus, elevando o conflito ao nível máximo de periculosidade religiosa.

A segunda acusação aprofunda o caso ao introduzir falsas testemunhas e ao deslocar o foco para o templo e para a Lei: “ὁ ἄνθρωπος οὗτος οὐ παύεται λαλῶν ῥήματα κατὰ τοῦ τόπου τοῦ ἁγίου τούτου καὶ τοῦ νόμου” (ho anthrōpos houtos ou pauetai lalōn rhēmata kata tou topou tou hagiou toutou kai tou nomou, “este homem não cessa de falar palavras contra este lugar santo e contra a Lei”) (At 6.13). Conzelmann aproxima essas falsas testemunhas do processo de Jesus e observa que a sua falsidade não decorre do fato de não haver nenhuma matéria controversa em jogo, mas do modo como a acusação deforma a posição de Estevão. Em sua leitura, ainda que o discurso subsequente trate de questões reais sobre Israel, templo e revelação, Lucas não vê Estevão como alguém que abandona a Lei; por isso, a imputação é mentirosa em seu núcleo interpretativo (CONZELMANN, Acts of the Apostles, 1987, p. 47). Nessa mesma linha, Conzelmann entende que τόπος (topos, “lugar”) em Atos 6.13 deve ser lido como referência ao templo, não como localidade genérica; portanto, a acusação se concentra deliberadamente sobre os dois polos mais sensíveis do judaísmo de Jerusalém: o santuário e a Lei (CONZELMANN, Acts of the Apostles, 1987, p. 47). A função das testemunhas falsas, então, não é inventar um tema inexistente, mas torcer teologicamente o sentido da fala de Estevão para torná-la juridicamente condenável.

A terceira formulação acusatória introduz explicitamente Jesus e explicita o conteúdo que estaria por trás da denúncia anterior: “Ἰησοῦς ὁ Ναζωραῖος οὗτος καταλύσει τὸν τόπον τοῦτον καὶ ἀλλάξει τὰ ἔθη ἃ παρέδωκεν ἡμῖν Μωϋσῆς” (Iēsous ho Nazōraios houtos katalysei ton topon touton kai allaxei ta ethē ha paredōken hēmin Mōysēs, “esse Jesus, o Nazareno, destruirá este lugar e mudará os costumes que Moisés nos transmitiu”) (At 6.14). Para Conzelmann, essa formulação retoma, no julgamento do primeiro mártir, a acusação tradicional dirigida contra Jesus em Marcos 14.58, precisamente um elemento ausente da narrativa lucana da paixão. A consequência exegética é importante: Lucas teria moldado a cena de Estevão à luz do processo de Jesus, de tal modo que o discípulo comparece ao Sinédrio sob o mesmo padrão acusatório do mestre (CONZELMANN, Acts of the Apostles, 1987, p. 47). Por isso, a acusação de Atos 6.11-14 não funciona apenas como preâmbulo narrativo; ela é o dispositivo teológico-literário que prepara Atos 7 como defesa acerca de Moisés, da Lei, do templo e do verdadeiro sentido da história de Israel. Nesse arranjo, a injustiça do processo e a proximidade entre o destino de Jesus e o de Estevão tornam-se partes integrantes da argumentação do próprio livro.

V. A defesa histórica de Estevão no Sinédrio

A fala de Estevão em Atos 7.2-53 não funciona como simples retrospecto devocional da história de Israel, mas como resposta articulada às acusações levantadas em Atos 6.11-14. A própria macroestrutura do discurso mostra isso: a seção patriarcal (At 7.2-8), a história de José (At 7.9-19), a juventude de Moisés (At 7.20-29), sua vocação (At 7.30-34), a peregrinação no deserto (At 7.35-43), o contraste entre tabernáculo e templo (At 7.44-50) e a aplicação final (At 7.51-53) compõem uma defesa ao mesmo tempo forense e teológica. Bruce observa que o discurso assume a forma de retrospecto histórico judaico, mas com uma arquitetura que responde precisamente às acusações contra Moisés, contra Deus e contra o templo (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 161). Nessa leitura, os dois eixos dominantes da defesa são, de um lado, a afirmação de que a presença divina não se deixa aprisionar por uma terra ou edifício e, de outro, a demonstração de que Israel repetidamente resistiu aos mensageiros levantados por Deus (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 129, “A major theme of the speech is its insistence that the presence of God is not restricted to any one land or to any material building.”) (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 129).

A abertura do discurso confirma esse programa ao começar com Abraão e não com o templo. O Deus da glória, “ὁ θεὸς τῆς δόξης” (ho theos tēs doxēs, “o Deus da glória”), aparece a Abraão em Mesopotâmia, antes de qualquer posse da terra e muito antes de qualquer santuário fixo (At 7.2-8). Bruce destaca justamente esse ponto: a primeira autorrevelação divina da história da promessa ocorre longe da terra prometida, o que desmonta desde o início qualquer absolutização do espaço sagrado de Jerusalém (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 161,). Por isso, a obediência de Abraão é apresentada como fidelidade em deslocamento, não como fixação sacral de território; Bruce infere que quem obedece à visão celestial permanece solto em relação a qualquer ponto terrestre particular, pronto a seguir para onde Deus o conduzir (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 162). O mesmo raciocínio prossegue na lembrança de que, antes mesmo de existir “lugar santo”, já estavam dados os elementos essenciais da religião de Israel, o que subordina o santuário à aliança, e não o contrário (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 164). A seção de José (At 7.9-19) acrescenta o segundo grande eixo do discurso: o escolhido de Deus é rejeitado pelos próprios irmãos, mas a rejeição não interrompe o propósito divino. Bruce formula isso dizendo que Deus superintendia continuamente a realização de seu propósito crescente, iniciado com o chamado de Abraão e consumado em Cristo; por isso, a narrativa de José funciona como prenúncio do padrão do libertador recusado e depois reconhecido (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 164, “But God was continuously superintending the accomplishment of that one increasing purpose which he inaugurated when he called the father of the faithful out of Mesopotamia, and which was to find its consummation in the coming of Christ.”) (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 165).

Na grande seção mosaica (At 7.20-43), Estevão reverte diretamente a acusação de falar contra Moisés. A narrativa mostra que Moisés foi o agente escolhido por Deus para a libertação, enquanto o próprio povo se mostrou lento em reconhecê-lo. Bruce salienta que, se Faraó serviu como instrumento indireto para desapegar Israel do Egito, Moisés foi o agente divino para tirá-lo de lá; logo, o verdadeiro conflito com Moisés não está em Estevão, mas no padrão histórico de resistência do povo ao libertador enviado por Deus (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 167). O episódio da sarça ardente (At 7.30-34) leva esse argumento adiante. Quando o texto diz “λύσον τὸ ὑπόδημα τῶν ποδῶν σου· ὁ γὰρ τόπος… γῆ ἁγία ἐστίν” (lyson to hypodēma tōn podōn sou; ho gar topos… gē hagia estin, “tira a sandália dos teus pés, porque o lugar… é terra santa”), a santidade do local deriva da manifestação divina e não de uma sacralidade inerente da geografia. Bruce o formula de modo explícito: nenhum lugar da terra possui santidade inata; aquele pedaço de território gentílico tornou-se “terra santa” unicamente porque Deus ali se manifestou a Moisés (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 169). Já na peregrinação pelo deserto (At 7.35-43), Bruce vê a reunião de dois veículos da revelação veterotestamentária, atos poderosos e palavra profética, o que impede qualquer leitura anti-mosaica do discurso; além disso, ele nota que o povo de Deus aparece aqui como assembleia peregrina, e não como instituição estabilizada em pedra (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 171). O efeito retórico final dessa seção é incisivo: a acusação de blasfêmia contra Moisés volta-se contra os próprios acusadores, descendentes daqueles que recusaram sua autoridade ainda em vida (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 171).

A seção final sobre tabernáculo e templo (At 7.44-50) leva o argumento ao seu ponto mais sensível. Estevão não nega que ambos tenham surgido por determinação divina; o foco está no modo de compreendê-los. Bruce afirma que, embora tabernáculo e templo sejam comparáveis em vários aspectos, o ponto sobre o qual Estevão concentra sua atenção é a diferença entre mobilidade e fixidez: o tabernáculo acompanha o povo em marcha, ao passo que o templo, por sua natureza estática, pode ser supervalorizado como se confinasse a presença divina (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 179). O apelo a Isaías 66.1-2 no fecho da seção reforça esse ponto: Deus não pode ser localizado nem aprisionado em edifício material, e a pergunta “que casa me edificareis?” desfaz qualquer teologia que faça do templo um recipiente do Altíssimo. Bruce sintetiza esse movimento dizendo que essa é a gravidade do argumento de Estevão, e chega a entender o discurso como grande defesa da comunidade invisível de Deus fundada na história redentiva, não numa instituição visível confinadora do divino (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 179). A crítica, portanto, não visa abolir a história de Israel, mas recolocar templo e culto sob a transcendência do Deus que sempre agiu antes, fora e além dos limites que seus ouvintes absolutizaram.

Quando o discurso chega a Atos 7.51-53, a retrospectiva histórica se converte em acusação direta: “σκληροτράχηλοι καὶ ἀπερίτμητοι καρδίαις” (sklērotrachēloi kai aperitμήtoi kardiais, “duros de cerviz e incircuncisos de coração”). Bruce insiste que essa invectiva não é explosão descontrolada nem quebra de raciocínio, mas condensação pessoal do libelo que vinha sendo construído ao longo de todo o discurso; em outros termos, o clímax acusatório já estava contido na própria leitura da história de Israel desde o início (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 179). A menção aos profetas perseguidos e ao “Justo” rejeitado fecha a retrospectiva com seu centro cristológico: a mesma história de rejeição que atingiu José, Moisés e os profetas alcança seu ápice na rejeição daquele por meio de quem Deus falou definitivamente (BRUCE, The Book of the Acts, 1988, p. 181). Assim, a defesa de Estevão diante do Sinédrio não é simples autodefesa individual; ela é demonstração de que o Deus da glória jamais esteve preso a um lugar e de que a história de Israel registra, de forma recorrente, a resistência aos libertadores e mensageiros por ele enviados.

VI. Templo, Lei e presença divina em Estevão

A acusação formulada contra Estevão já define com precisão o eixo do conflito. As falsas testemunhas afirmam que ele não cessava de falar “contra este lugar santo e contra a Lei”, e explicitam a imputação dizendo que “esse Jesus, o Nazareno” destruiria “este lugar” e mudaria os costumes transmitidos por Moisés. No grego de Atos 6.13-14, a fórmula é “κατὰ τοῦ τόπου τοῦ ἁγίου [τούτου] καὶ τοῦ νόμου” (kata tou topou tou hagiou toutou kai tou nomou, “contra este lugar santo e contra a Lei”) e, em seguida, “καταλύσει τὸν τόπον τοῦτον καὶ ἀλλάξει τὰ ἔθη” (katalysei ton topon touton kai allaxei ta ethē, “destruirá este lugar e mudará os costumes”). O ponto de partida exegético, portanto, não é uma oposição genérica entre Estevão e o judaísmo, mas a acusação de que sua mensagem relativiza simultaneamente o templo e a ordem mosaica. O vocábulo τόπος (topos, “lugar”), aqui, funciona claramente como referência ao templo, porque é qualificado como “santo” e reaparece como objeto da pretensa destruição.

A resposta de Estevão, porém, não começa atacando o templo; começa com Deus. Logo na abertura de Atos 7, ele fala do “Ὁ θεὸς τῆς δόξης” (Ho theos tēs doxēs, “o Deus da glória”), que apareceu a Abraão “na Mesopotâmia”, isto é, fora da terra de Israel e antes de qualquer estrutura cultual centralizada. A força do argumento está em que a primeira autocomunicação decisiva de Deus na história patriarcal ocorre antes do templo, antes da posse da terra e fora de Jerusalém. Isso não elimina o valor posterior da terra prometida, mas impede sua absolutização. A presença divina, no raciocínio de Estevão, é anterior à instituição cultual e livre em relação ao espaço sagrado. Por isso, a crítica posterior ao templo não nasce de desprezo pela história de Israel, mas de uma releitura da própria história de Israel a partir do fato de que Deus sempre excedeu o confinamento geográfico. Essa é uma inferência diretamente sustentada pela forma como o discurso é construído: a autodoação divina vem primeiro; o lugar vem depois.

A seção mosaica reforça o mesmo princípio com ainda mais nitidez. Em Atos 7.33, a voz divina diz a Moisés que o lugar onde ele está é “γῆ ἁγία” (gē hagia, “terra santa”), e essa santidade não decorre de um santuário edificado, mas da presença de Deus no evento da revelação. O pano de fundo hebraico de Êxodo 3.5 torna isso ainda mais claro: “שַׁל־נְעָלֶיךָ… כִּי הַמָּקוֹם… אַדְמַת־קֹדֶשׁ הוּא” (šal nəʿālêkā… kî hammāqôm… ʾadmat-qōdeš hûʾ, “tira as sandálias… porque o lugar… é solo santo”). Em outras palavras, a santidade do espaço é derivada, não inerente; o lugar é santo porque Deus ali se manifesta. A implicação teológica é decisiva: se um trecho de deserto em Midiã pode tornar-se “solo santo”, então a categoria de santidade espacial não pode ser monopolizada pelo edifício do templo. Estevão não nega que o templo tenha tido função real na história de Israel; o que ele nega é que a presença de Deus possa ser circunscrita a ele como se ele fosse sua morada exaustiva ou necessária.

A acusação contra Estevão também o apresentava como alguém que falava contra a Lei, mas o discurso de Atos 7 reverte essa leitura. Longe de depreciar Moisés, Estevão o exalta como libertador enviado por Deus e como mediador de “λόγια ζῶντα” (logia zōnta, “oráculos vivos”) dados ao povo no deserto. O problema, então, não está na Lei em si, mas na resposta histórica de Israel a ela: “não quiseram tornar-se obedientes”, “o rejeitaram” e “voltaram em seus corações para o Egito”. A expressão “ἐστράφησαν ἐν ταῖς καρδίαις αὐτῶν εἰς Αἴγυπτον” (estraphēsan en tais kardiais autōn eis Aigypton, “voltaram em seus corações para o Egito”) é crucial, porque desloca o foco da mera observância externa para a interioridade rebelde. Essa linha culmina no uso de Amos em Atos 7.42-43: o culto sacrificial pode coexistir com idolatria quando o coração está desviado. Assim, a tese de Estevão não é anti-lei, mas anti-desobediência; não é anti-Moisés, mas antiapropriação de Moisés contra o próprio Deus que o enviou.

É precisamente por isso que a linguagem do “coração” em Atos 7.51 não é decorativa, mas programática. Quando Estevão chama seus ouvintes de “ἀπερίτμητοι καρδίαις” (aperitμήtoi kardiais, “incircuncisos de coração”), ele retoma uma tradição veterotestamentária já estabelecida. Em Deuteronômio 10.16, o hebraico ordena: “וּמַלְתֶּם אֵת עָרְלַת לְבַבְכֶם” (ûmaltem ʾet ʿorlat ləvavkem, “circuncidai o prepúcio do vosso coração”); em Jeremias 4.4, a linguagem reaparece como chamado à conversão interior: “הִמֹּלוּ לַיהוָה וְהָסִרוּ עָרְלוֹת לְבַבְכֶם” (himmōlû layhwh wəhāsîrû ʿorlôt ləvavkem, “circuncidai-vos para o Senhor e removei os prepúcios do vosso coração”). O ganho exegético aqui é real: Estevão não substitui a Lei por uma espiritualidade vaga, nem rompe com o Antigo Testamento; ele acusa o Sinédrio com categorias da própria Torá e dos Profetas. Sua denúncia é que a posse histórica da Lei não equivale à sua guarda verdadeira. Isso é confirmado pela frase final de Atos 7.53, segundo a qual eles “receberam a Lei” e “não a guardaram”. A crítica, portanto, é profética e interna, não externa e antijudaica em sentido simplista.

O ápice do argumento aparece em Atos 7.44-50, quando o discurso passa da “σκηνὴ τοῦ μαρτυρίου” (skēnē tou martyriou, “tenda do testemunho”) ao templo construído por Salomão. Estevão reconhece a legitimidade histórica de ambos: a tenda foi feita segundo o modelo mostrado a Moisés, e Salomão, de fato, edificou uma casa para Deus. O movimento crítico começa no versículo seguinte: “ἀλλ’ οὐχ ὁ ὕψιστος ἐν χειροποιήτοις κατοικεῖ” (all’ ouch ho hypsistos en cheiropoiētois katoikei, “mas o Altíssimo não habita em coisas feitas por mãos”). A citação de Isaías 66.1-2 confirma que esse não é pensamento estranho ao Antigo Testamento: “הַשָּׁמַיִם כִּסְאִי וְהָאָרֶץ הֲדֹם רַגְלָי” (haššāmayim kisʾî wəhāʾāreṣ hadōm raglay, “os céus são o meu trono e a terra o estrado dos meus pés”), seguida de “וְאֶל־זֶה אַבִּיט אֶל־עָנִי וּנְכֵה־רוּחַ וְחָרֵד עַל־דְּבָרִי” (wəʾel-zeh ʾabbîṭ ʾel-ʿānî ûnəkēh-rûaḥ wəḥārēd ʿal-dəvārî, “para este olharei: para o aflito, o contrito de espírito e o que treme diante da minha palavra”). A transcendência de Deus, então, não destrói o culto; ela o julga, relativiza sua autossuficiência e o reconduz à obediência humilde. O deslocamento do centro teológico é claro: do edifício sagrado para o Deus soberano que criou todas as coisas e se inclina para o humilde.

Por isso, a tríade templo-Lei-presença divina em Estevão não se resolve numa rejeição da antiga revelação, mas numa reordenação de seus termos. O templo é incluído na história sagrada, mas não absolutizado; a Lei é reconhecida como dom divino, mas desmascarada quando apropriada sem obediência; a presença de Deus aparece como livre, antecedente e maior do que qualquer estrutura cultual. Quando, no clímax, Estevão acusa seus ouvintes de sempre resistirem ao Espírito Santo, ele amarra os três fios: a idolatria do lugar, a instrumentalização da Lei e a incircuncisão do coração pertencem ao mesmo fenômeno de resistência ao Deus vivo. A seção seguinte confirma isso narrativamente, porque o homem condenado por supostamente blasfemar vê a glória de Deus e Jesus à sua direita, enquanto seus juízes tapam os ouvidos e o expulsam da cidade. A verdadeira presença divina, assim, não está do lado da instituição que se fecha em si, mas do lado da testemunha que lê a história de Israel à luz do Deus que nunca pôde ser contido por “este lugar”.

VII. Estevão como paralelo lucano de Jesus

A construção narrativa de Estevão em Atos não o apresenta apenas como mártir isolado, mas como personagem configurado segundo o padrão de Jesus. Essa aproximação é especialmente visível quando se lê em conjunto Atos 6, Atos 7, Lucas 22 e Lucas 23. O paralelismo inclui julgamento religioso, controvérsia em torno do templo, entrega do espírito, oração pelos perseguidores e legitimação celeste. Há, contudo, uma precisão metodológica necessária: o motivo explícito das “falsas testemunhas” aparece textualmente em Atos 6.13 e em Marcos 14.56-59, mas não em Lucas 22.66-71; assim, a analogia entre Jesus e Estevão, nesse ponto específico, é canônica e sinótica, enquanto, no plano estritamente lucano, os paralelos mais fortes concentram-se no processo diante das autoridades, no tema do templo e na moldura de inocência e exaltação.

O primeiro eixo é judicial. Em Atos 6.12-14, Estevão é arrastado ao Sinédrio, e a acusação formal declara que ele fala “contra este lugar santo e contra a Lei” e que Jesus destruiria “este lugar” e mudaria os costumes mosaicos; o grego concentra isso nas expressões “κατὰ τοῦ τόπου τοῦ ἁγίου [τούτου] καὶ τοῦ νόμου” (kata tou topou tou hagiou toutou kai tou nomou, “contra este lugar santo e contra a Lei”) e “καταλύσει τὸν τόπον τοῦτον” (katalysei ton topon touton, “destruirá este lugar”). Em Marcos 14.56-59, Jesus também é enquadrado por testemunho falso ligado ao santuário, com a acusação de que destruiria o templo feito por mãos. Já em Lucas 22.66-71, o foco recai mais diretamente sobre a identidade de Jesus perante o conselho, mas o cenário permanece o de um julgamento religioso concentrado na palavra do réu diante das autoridades. O resultado é um padrão deliberado: Jesus e Estevão são colocados perante a liderança cultual de Jerusalém como réus cuja fala é reinterpretada como ameaça à ordem sagrada.

O segundo eixo é a moldura de inocência e glória. No caso de Estevão, antes mesmo de falar, os membros do conselho veem “τὸ πρόσωπον αὐτοῦ ὡσεὶ πρόσωπον ἀγγέλου” (to prosōpon autou hōsei prosōpon angelou, “o seu rosto como rosto de anjo”), sinal narrativo de legitimação, não de culpa. Pouco depois, ele vê “δόξαν θεοῦ” (doxan theou, “a glória de Deus”) e “τὸν υἱὸν τοῦ ἀνθρώπου ἐκ δεξιῶν ἑστῶτα τοῦ θεοῦ” (ton huion tou anthrōpou ek dexion hestōta tou theou, “o Filho do Homem em pé à direita de Deus”) (At 7.55-56). Em Lucas 22.69, Jesus anuncia que “ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου” (ho huios tou anthrōpou, “o Filho do Homem”) estará “καθήμενος ἐκ δεξιῶν τῆς δυνάμεως τοῦ θεοῦ” (kathēmenos ek dexiōn tēs dynameōs tou theou, “assentado à direita do poder de Deus”), e, em Lucas 23.47, o centurião o declara “δίκαιος” (dikaios, “justo”). A correspondência é forte: Jesus anuncia sua exaltação; Estevão a contempla. Uma inferência plausível, e apenas inferência, é que a posição “em pé” em Atos 7.56 intensifica a cena de testemunho e acolhimento, em contraste com o “assentado” de Lucas 22.69, sem desfazer a identidade essencial entre ambos os quadros.

O terceiro eixo é a morte como ato de entrega confiante. Jesus morre dizendo: “πάτερ, εἰς χεῖράς σου παρατίθεμαι τὸ πνεῦμά μου” (pater, eis cheiras sou paratithemai to pneuma mou, “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”) (Lc 23.46). Estevão morre dizendo: “κύριε Ἰησοῦ, δέξαι τὸ πνεῦμά μου” (kyrie Iēsou, dexai to pneuma mou, “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”) (At 7.59). A semelhança é inequívoca, mas a diferença também é teologicamente relevante: Jesus entrega o espírito ao Pai; Estevão o confia ao Senhor Jesus. No plano cristológico de Atos, isso não reduz Jesus a mero intermediário humano, mas o situa no lugar da recepção escatológica da vida do fiel. O paralelo, portanto, não é apenas verbal; ele é estrutural: a morte de Estevão é narrada como conformação à morte de Jesus e, ao mesmo tempo, como confissão elevada da autoridade de Jesus ressuscitado.

O quarto eixo é a oração em favor dos perseguidores. Em Lucas 23.34, o texto da NA28 registra entre colchetes duplos a frase: “πάτερ, ἄφες αὐτοῖς, οὐ γὰρ οἴδασιν τί ποιοῦσιν” (pater, aphes autois, ou gar oidasin ti poiousin, “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”); a marcação indica uma questão textual real e impede tratá-la com ingenuidade. Em Atos 7.60, porém, a oração de Estevão está textualmente estável: “κύριε, μὴ στήσῃς αὐτοῖς ταύτην τὴν ἁμαρτίαν” (kyrie, mē stēsēs autois tautēn tēn hamartian, “Senhor, não lhes imputes este pecado”). Mesmo com a cautela textual em Lucas 23.34, a linha de composição de Lucas-Atos permanece clara: a morte justa não termina em maldição contra os agressores, mas em intercessão. A figura de Estevão, assim, prolonga na história da igreja o ethos do crucificado.

No conjunto, a narrativa faz de Estevão a primeira grande personagem de Atos moldada segundo a paixão de Jesus. Ele é conduzido ao conselho, associado ao tema do templo, cercado por acusação injusta, marcado por sinais de inocência, posto em relação explícita com o Filho do Homem e descrito, em sua morte, com fórmulas que ecoam diretamente as de Jesus. Isso significa que Atos não apresenta o martírio de Estevão apenas como repetição biográfica, mas como continuação da história de Jesus na vida de sua testemunha. A perseguição contra a igreja começa, literariamente, quando a forma de Jesus reaparece no destino de Estevão.

VIII. A visão do Filho do Homem

O ápice cristológico do relato de Estevão encontra-se em Atos 7.55-56, quando a narrativa abandona definitivamente o registro de mera reação humana ao discurso e o substitui por uma cena de revelação. O texto afirma que ele estava “πλήρης πνεύματος ἁγίου” (plērēs pneumatos hagiou, “cheio do Espírito Santo”), que fitou o céu, viu “δόξαν θεοῦ” (doxan theou, “glória de Deus”) e contemplou Jesus “ἐκ δεξιῶν τοῦ θεοῦ” (ek dexiōn tou theou, “à direita de Deus”). Nessa formulação, a visão não é detalhe devocional acrescentado ao martírio, mas a chave interpretativa do episódio inteiro. Johnson entende que essa identificação de Estevão como cheio do Espírito, nesse exato momento, reforça sua configuração profética e mostra que a rejeição sofrida por ele prolonga a velha resistência de Israel ao Espírito e aos profetas (JOHNSON, The Acts of the Apostles, 1992, p. 139, “filled with the Holy Spirit: Stephen has already been identified in prophetic terms (6:10), but this designation emphasizes that those who have ‘always resisted the Holy Spirit’ and ‘killed the prophets’ are doing so again in the rejection of Stephen.”). Assim, a visão não suspende a lógica do discurso anterior; ela a sela com confirmação celeste.

A expressão “glória de Deus” em Atos 7.55 possui, na leitura de Johnson, uma função tríplice. Primeiro, reconecta Estevão ao início do próprio discurso, onde o “Deus da glória” aparece a Abraão, de modo que sua visão o legitima como intérprete autorizado da história do povo. Segundo, vincula-o ao Cristo ressuscitado, porque a “glória” em Lucas-Atos é associada à exaltação de Jesus. Terceiro, prepara o conteúdo específico da visão do Filho do Homem, já que essa mesma glória se associa, na tradição lucana, à sua manifestação escatológica. Por isso, a cena deve ser lida não apenas como experiência subjetiva de consolo, mas como autenticação teológica de Estevão enquanto testemunha da ressurreição e porta-voz legítimo de Israel (JOHNSON, The Acts of the Apostles, 1992, p. 139). O peso da visão, portanto, não é apenas escatológico; é também histórico-salvífico e cristológico.

O conteúdo central da visão é formulado com a frase “τὸν υἱὸν τοῦ ἀνθρώπου… ἐκ δεξιῶν ἑστῶτα τοῦ θεοῦ” (ton huion tou anthrōpou… ek dexiōn hestōta tou theou, “o Filho do Homem… em pé à direita de Deus”) (At 7.56). Johnson observa que a linguagem da “direita” deriva de Salmo 109.1 LXX, texto já mobilizado em Lucas-Atos para expressar exaltação pascal e entronização messiânica; assim, a visão mostra não somente que Jesus está vivo, mas que ocupa o lugar de honra e autoridade junto de Deus (JOHNSON, The Acts of the Apostles, 1992, p. 139). O dado mais expressivo, contudo, é que ele aparece em pé, não sentado. Em vez de reduzir esse detalhe a uma única explicação, Johnson o abre a várias possibilidades semanticamente compatíveis: postura cultual, profética, forense, judicial e também de acolhimento. Sua observação é deliberadamente ampla, e isso impede uma leitura simplista que absolutize apenas uma dessas nuances (JOHNSON, The Acts of the Apostles, 1992, p. 140). Nessa mesma linha, ele acrescenta que “estar em pé” é também a postura tradicional dos que assistem a Deus na corte celeste, o que torna plausível compreender a visão dentro do horizonte de tribunal celestial, com Jesus agindo publicamente ao lado de Deus (JOHNSON, The Acts of the Apostles, 1992, p. 140).

A cena inteira é reforçada pelo descerramento dos céus. Quando Estevão declara “θεωρῶ τοὺς οὐρανοὺς διηνοιγμένους” (theōrō tous ouranous diēnoigmenous, “vejo os céus abertos”), o texto não descreve uma emoção interior indeterminada, mas uma autêntica linguagem visionária de revelação (At 7.56). Johnson aproxima esse motivo da abertura dos céus ao batismo de Jesus em Lucas 3.21 e o trata como preâmbulo característico de visões, o que confirma que a morte de Estevão é narrada como morte visionária, não apenas como morte corajosa (JOHNSON, The Acts of the Apostles, 1992, p. 140). A própria identificação do “Filho do Homem” deve ser lida em continuidade direta com a tradição lucana: Johnson observa que, no quadro do Evangelho, a identificação com Jesus é óbvia e que o dito mais próximo desta visão é Lucas 22.69, onde também se combinam as imagens de Daniel 7.13 e Salmo 109.1 LXX (JOHNSON, The Acts of the Apostles, 1992, p. 140). No fim, a postura de Jesus pode igualmente ser lida como acolhimento do mártir, sobretudo à luz do pedido “recebe o meu espírito”; Johnson admite explicitamente essa nuance de aceitação e boas-vindas, o que faz da visão não apenas uma confirmação da mensagem de Estevão, mas também uma antecipação de sua recepção pelo Cristo exaltado (JOHNSON, The Acts of the Apostles, 1992, p. 140). Por isso, em Atos, a morte de Estevão não é descrita apenas como martírio moral; ela é pneumatológica, cristológica e escatológica ao mesmo tempo: ele morre vendo a glória, confessando o Filho do Homem exaltado e já sob o sinal de legitimação e acolhimento celestes.

IX. Martírio, testemunho e perdão de Estevão

A sequência de Atos 7.57-60 e Atos 8.1-3 apresenta a morte de Estevão não como simples encerramento biográfico, mas como cena cuidadosamente moldada para espelhar a paixão de Jesus. Esse dado não depende apenas de afinidades gerais, mas da própria arquitetura narrativa do bloco. Witherington entende que Lucas compõe deliberadamente os últimos dias de Estevão para que correspondam aos de seu mestre, inserindo-o também numa linha mais longa de figuras santas, como José e Moisés, cuja fidelidade os conduz ao sofrimento. Nessa perspectiva, o martírio de Estevão possui dupla moldura: cristológica, porque seu fim é narrado em paralelo com Jesus, e histórico-profética, porque o coloca na sucessão dos enviados justos de Deus (WITHERINGTON, The Acts of the Apostles: A Socio-Rhetorical Commentary, 1998, p. 256).

O momento da execução é descrito em termos que excluem a ideia de sentença regular pronunciada ao fim de um processo formal. Depois da reação furiosa à visão do Filho do Homem, os ouvintes “clamaram em alta voz”, “taparam os ouvidos”, “arremeteram unânimes contra ele”, “lançaram-no para fora da cidade” e “o apedrejaram” — “φωνῇ μεγάλῃ… συνέσχον τὰ ὦτα… ὥρμησαν ὁμοθυμαδόν… ἐκβαλόντες ἔξω τῆς πόλεως ἐλιθοβόλουν” (phōnē megalē… syneskhon ta ōta… hōrmēsan homothymadon… ekbalontes exō tēs poleōs elithoboloun) (At 7.57-58). Witherington insiste que nada é dito sobre um veredito do sumo sacerdote, nenhuma sentença formal é anunciada, e o quadro corresponde antes a um linchamento produzido por paixão violenta do que a uma execução juridicamente regular. Por isso, discussões sobre eventual autoridade legal do Sinédrio tornam-se secundárias para a interpretação da cena; o texto enfatiza a explosão da turba, não a legitimidade do ato. Nesse mesmo contexto, a introdução de Saulo já no versículo 58, depois confirmada em Atos 8.1, vincula desde o início a morte de Estevão à figura do futuro Paulo, como alguém que aprova o derramamento de sangue e participa simbolicamente do acontecimento (WITHERINGTON, The Acts of the Apostles: A Socio-Rhetorical Commentary, 1998, p. 276).

A dimensão propriamente testemunhal do martírio aparece nas palavras finais de Estevão. Enquanto era apedrejado, ele invoca: “κύριε Ἰησοῦ, δέξαι τὸ πνεῦμά μου” (kyrie Iēsou, dexai to pneuma mou, “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”) (At 7.59). Witherington observa que essa fala ecoa intencionalmente a palavra final de Jesus em Lucas 23.46, mas com uma diferença cristológica decisiva: Jesus entrega seu espírito ao Pai, ao passo que Estevão dirige sua súplica a Jesus. O paralelismo, portanto, não é mera imitação verbal; ele pressupõe a exaltação do Senhor Jesus como destinatário legítimo da invocação derradeira do justo. Em seguida, “pondo-se de joelhos”, ele brada em alta voz: “κύριε, μὴ στήσῃς αὐτοῖς ταύτην τὴν ἁμαρτίαν” (kyrie, mē stēsēs autois tautēn tēn hamartian, “Senhor, não lhes imputes este pecado”) (At 7.60). Também aqui Witherington sublinha o eco deliberado de Jesus, agora no registro da intercessão pelos executores. A postura corporal e a intensidade vocal não descrevem passividade resignada, mas oração suplicante: Estevão morre ajoelhado, clamando, e sua última palavra une injustiça sofrida e misericórdia concedida. É precisamente por isso que o relato pode ser lido como morte orante e cristologicamente configurada (WITHERINGTON, The Acts of the Apostles: A Socio-Rhetorical Commentary, 1998, p. 276).

O encerramento da cena acrescenta duas notas interpretativas de grande peso. A primeira é a fórmula “ἐκοιμήθη” (ekoimēthē, “adormeceu”), com a qual Atos 7.60 descreve a morte. Witherington a lê como eufemismo judaico para a morte, adequado a uma narrativa que não trata o fim de Estevão como aniquilação, mas como passagem. A segunda nota aparece em Atos 8.1-3: sua morte desencadeia perseguição generalizada e dispersão da igreja de Jerusalém, excetuados os apóstolos. O comentário sustenta que Lucas quer enfatizar precisamente esse nexo causal entre o apedrejamento de Estevão e o início da perseguição que espalha a comunidade para fora de Jerusalém. Ao mesmo tempo, Atos 8.2 informa que “homens devotos” o sepultaram e fizeram grande lamentação sobre ele. Witherington considera esse detalhe altamente significativo: o luto público sugere que, apesar da violência da multidão, havia judeus que respeitavam Estevão e o viam como homem nobre e justo; além disso, se a lamentação pública era problemática após execução legal, o sepultamento e o pranto podem implicar percepção de que sua morte não foi um ato jurídico regular, ou ao menos rejeição moral do que se fizera com ele. Por fim, embora o grupo helenista provavelmente tenha sofrido o impacto inicial com especial intensidade, a perseguição subsequente não deve ser reduzida a conflito puramente intrahélenico, pois o relato a expande à igreja de Jerusalém como um todo (WITHERINGTON, The Acts of the Apostles: A Socio-Rhetorical Commentary, 1998, p. 276, p. 278).

X. Estevão, Saulo e a expansão do testemunho

A ligação entre Estevão e Saulo em Atos não é episódica, mas estrutural. O relato de Atos 7.58, Atos 8.1-3, Atos 11.19-26 e Atos 22.20 constrói um eixo narrativo em que o sangue de Estevão se torna ponto de inflexão para a história da missão. Em Atos 8.1, a expressão “διωγμὸς μέγας” (diōgmos megas, “grande perseguição”) não funciona apenas como nota histórica; ela introduz uma transição literária decisiva. Parsons observa que Atos 8.1b e Atos 8.3 antecipam diretamente as narrativas de Filipe e de Paulo, o que mostra que a perseguição desencadeada após a morte de Estevão serve de ponte entre o encerramento de um ciclo e a abertura de outro (PARSONS, Acts, 2008, p. 112, “These two verses, 8:1b and 8:3, then, anticipate the narratives of Philip and Paul, immediately following (8:4–40; 9:1–31).”). Assim, a morte do mártir não é apenas desfecho trágico; ela atua como mecanismo de deslocamento do enredo para além de Jerusalém.

A primeira consequência visível desse deslocamento aparece no próprio tratamento dado ao corpo de Estevão. Atos 8.2 registra que “ἄνδρες εὐλαβεῖς” (andres eulabeis, “homens devotos”) o sepultaram e fizeram grande lamentação sobre ele. Parsons entende esse detalhe como sinal de alta estima comunitária e como fechamento retrospectivo do episódio do martírio, não como informação funerária secundária (PARSONS, Acts, 2008, p. 113). Em paralelo, Atos 8.3 desloca o foco para Saulo, usando o verbo “ἐλυμαίνετο” (elymaineto, “devastava”, “assolava”, “maltratava violentamente”) para descrever sua ação contra a igreja. Essa transição não reinicia sua caracterização do zero; segundo Parsons, Atos 9.1 retoma conscientemente as aparições anteriores de Saulo em Atos 7.58, Atos 8.1 e Atos 8.3, de modo que sua identidade narrativa como perseguidor já nasce em íntima conexão com o caso de Estevão (PARSONS, Acts, 2008, p. 126, “The reference in 9:1 to Saul’s still breathing threats … recalls his earlier appearances in 7:58 and 8:1, 3 and continues the character development begun there.”). O vínculo entre ambos, portanto, não é retrospectivo apenas; ele já está inscrito na progressão interna do livro.

Esse nexo se adensa ainda mais quando Saulo reaparece, já convertido, em Atos 9.29. Ali, debatendo com os helenistas e enfrentando ameaça de morte, ele passa a ocupar precisamente o espaço narrativo antes marcado por Estevão. Parsons observa que Saulo assume o papel do mártir no debate com os helenistas e, com esse papel, assume também as ameaças de sofrimento e morte que o acompanhavam (PARSONS, Acts, 2008, p. 133, “Saul takes up the role (along with the threats of suffering and death that accompanied it) of the martyred Stephen in the debate with the Hellenists with whom he once associated.”). O efeito literário é notável: o antigo aprovador da lapidação torna-se herdeiro do lugar discursivo do lapidado. Nessa altura, a relação entre Estevão e Saulo já ultrapassa a causalidade histórica e alcança uma função de espelhamento narrativo. O perseguidor entra no espaço do perseguido; o homem que guardava as vestes dos executores passa a ocupar o lugar do debatedor ameaçado pelos mesmos círculos helenistas.

A morte de Estevão, contudo, não repercute apenas na caracterização de Saulo; ela reorganiza o mapa missionário de Atos. Em Atos 11.19, a narrativa retoma explicitamente “os que foram dispersos” por causa da tribulação que sobreveio em conexão com Estevão: “Οἱ μὲν οὖν διασπαρέντες” (Hoi men oun diasparentes, “os que, pois, foram dispersos”). Parsons sustenta que essa retomada ecoa deliberadamente Atos 8.4, de modo que a expansão para Fenícia, Chipre e Antioquia é narrativamente apresentada como continuação do abalo iniciado com o martírio (PARSONS, Acts, 2008, p. 166). Dessa forma, Estevão se torna figura de transição entre a igreja de Jerusalém e a igreja de Antioquia. O movimento não para aí. Barnabé vai a Tarso buscar Saulo, e ambos retornam a Antioquia para ensinar durante um ano inteiro (PARSONS, Acts, 2008, p. 168). Parsons acrescenta que a igreja de Antioquia é descrita com traços surpreendentemente semelhantes aos da igreja de Jerusalém, o que indica continuidade e ampliação, não ruptura simples (PARSONS, Acts, 2008, p. 168, “This passage is one of several in which the church at Antioch is described in ways strikingly similar to the description of the Jerusalem church”). A cadeia narrativa, então, é precisa: morte de Estevão → perseguição → dispersão → Antioquia → reintegração de Saulo ao centro missionário.

A recepção mais explícita desse vínculo aparece na releitura autobiográfica de Paulo em Atos 22.20: “καὶ ὅτε ἐξεχεῖτο τὸ αἷμα Στεφάνου τοῦ μάρτυρός σου” (kai hote execheito to haima Stephanou tou martyros sou, “e quando era derramado o sangue de Estevão, tua testemunha”). Parsons nota que essa lembrança não é simples reminiscência, mas peça retórica estrategicamente colocada antes da explosão de hostilidade da multidão; por isso, a menção ao sangue de Estevão serve de ponte entre o passado perseguidor de Paulo e a nova rejeição que ele sofre em Jerusalém (PARSONS, Acts, 2008, p. 313). Nessa perspectiva, Atos não conserva o nome de Estevão apenas como memória do primeiro mártir. Ele permanece como ponto axial da narrativa: é a partir de sua morte que Saulo é definido, a perseguição se intensifica, a dispersão missionária se amplia e Antioquia emerge como novo centro do testemunho cristão.

XI. Estevão, Saulo e a transição missionária

A ligação entre Estevão e Saulo em Atos é estrutural e deve ser lida como peça de arquitetura narrativa, não como simples coincidência biográfica. Depois do martírio, a narrativa introduz “διωγμὸς μέγας” (diōgmos megas, “grande perseguição”) contra a igreja em Jerusalém e, ao mesmo tempo, destaca que todos foram dispersos, exceto os apóstolos, enquanto Saulo devastava a comunidade, entrando de casa em casa e arrastando homens e mulheres para a prisão (Atos 8.1-3). Parsons entende esses versículos como uma verdadeira dobradiça literária: eles não apenas encerram o ciclo de Estevão, mas antecipam diretamente as narrativas de Filipe e de Paulo, de modo que a perseguição nascida após a morte do mártir já prepara os próximos protagonistas da expansão cristã (PARSONS, Acts, 2008, p. 112). Assim, o sangue de Estevão não marca apenas um fim; ele inaugura uma nova fase do testemunho.

A própria forma como Lucas trata o corpo de Estevão confirma esse papel de transição. Atos 8.2 informa que “ἄνδρες εὐλαβεῖς” (andres eulabeis, “homens devotos”) o sepultaram e fizeram grande lamentação sobre ele. O dado é breve, mas teologicamente carregado, porque não funciona como detalhe funerário secundário. Parsons interpreta esse sepultamento como sinal da alta estima em que Estevão era mantido por seus correligionários, o que transforma a cena num fecho reverente do episódio do martírio e, ao mesmo tempo, impede que sua morte seja absorvida apenas pela violência da turba (PARSONS, Acts, 2008, p. 113). Em paralelo, o foco se desloca para Saulo, cujo verbo característico em Atos 8.3, “ἐλυμαίνετο” (elymaineto, “devastava”, “assolava”), já o fixa como agente ativo da perseguição. Esse retrato não será abandonado nem reiniciado mais tarde; segundo Parsons, quando Atos 9.1 fala que Saulo ainda respirava ameaças e morte, o texto retoma conscientemente suas aparições em Atos 7.58, 8.1 e 8.3, prolongando a caracterização do perseguidor que nasce precisamente no contexto do caso de Estevão (PARSONS, Acts, 2008, p. 126).

Esse vínculo se adensa ainda mais após a conversão de Saulo. Em Atos 9.29, agora falando ousadamente em nome do Senhor, ele debate com os helenistas e passa a sofrer ameaça de morte. Parsons entende que, nesse ponto, Saulo assume o papel outrora ocupado por Estevão no debate com os helenistas, inclusive herdando o risco de sofrimento e morte que acompanhava esse tipo de testemunho (PARSONS, Acts, 2008, p. 133). A inversão narrativa é decisiva: aquele que havia estado ligado ao apedrejamento do mártir passa a ocupar seu antigo espaço discursivo. Isso não significa identidade simples entre ambos, mas mostra que Lucas constrói uma continuidade dramática entre o primeiro grande mártir e o futuro grande missionário. O antigo aprovador da violência é reinscrito no lugar do antigo alvo da violência.

A morte de Estevão, entretanto, não repercute apenas na figura de Saulo; ela reorganiza o próprio mapa da missão. Em Atos 11.19, a narrativa retoma explicitamente os “dispersos” por causa da tribulação surgida em conexão com Estevão e informa que eles chegaram até Fenícia, Chipre e Antioquia. Parsons observa que Atos 11.19-26 começa ecoando o relato de Atos 8.4, de modo que a dispersão provocada pelo martírio é apresentada como causa narrativa formal da expansão subsequente (PARSONS, Acts, 2008, p. 166). Desse modo, Estevão torna-se figura de transição entre Jerusalém e Antioquia. O desenvolvimento seguinte confirma essa função. Barnabé vai a Tarso procurar Saulo, encontra-o e o leva a Antioquia, onde ambos ensinam por um ano inteiro à comunidade local (PARSONS, Acts, 2008, p. 168). Parsons acrescenta que a igreja de Antioquia é descrita com traços notavelmente semelhantes aos da igreja de Jerusalém, o que mostra continuidade e ampliação, e não ruptura abrupta entre os dois polos narrativos (PARSONS, Acts, 2008, p. 168).

A releitura mais explícita dessa conexão aparece na própria boca de Paulo. Em Atos 22.20, ao recordar sua antiga cumplicidade, ele fala do “αἷμα Στεφάνου τοῦ μάρτυρός σου” (haima Stephanou tou martyros sou, “o sangue de Estevão, tua testemunha”) e relembra que estava ali, aprovando o que acontecia e guardando as vestes dos que o matavam (Atos 22.20). Parsons observa que essa evocação não é apenas memória biográfica, mas também preparação retórica para a reação furiosa da multidão que logo se seguirá, o que mostra que o nome de Estevão continua carregado de força dramática no interior do livro (PARSONS, Acts, 2008, p. 313). Por isso, em Atos, Estevão não permanece apenas como memória do primeiro mártir. Sua morte desencadeia a perseguição, molda a introdução narrativa de Saulo, reaparece na sua memória autobiográfica, impulsiona a dispersão missionária e abre o caminho que levará a igreja até Antioquia, onde o testemunho assume escala mais ampla e duradoura.

XII. Estevão e a teologia da transição

O valor teológico de Estevão em Atos não se esgota na identificação tradicional de “primeiro mártir” nem na função prática ligada ao grupo dos sete. A narrativa o introduz, desde o início, como figura de densidade pneumatológica e sapiencial: “Στέφανον, ἄνδρα πλήρης πίστεως καὶ πνεύματος ἁγίου” (Stephanon, andra plērēs pisteōs kai pneumatos hagiou, “Estevão, homem cheio de fé e do Espírito Santo”), depois como “πλήρης χάριτος καὶ δυνάμεως” (plērēs charitos kai dynameōs, “cheio de graça e de poder”) e, finalmente, como alguém cujos adversários não conseguiam resistir “à sabedoria e ao Espírito” com que falava (At 6.5, 6.8, 6.10). O efeito dessa caracterização é decisivo: Estevão não aparece como personagem secundário que ocasionalmente ganha relevo, mas como testemunha exemplar em quem palavra, poder, discernimento e Espírito convergem. Sua importância, portanto, é teológica antes de ser apenas institucional.

Essa centralidade se aprofunda no grande discurso de Atos 7, onde Estevão se torna intérprete da história de Israel. O ponto de partida não é o templo, mas “ὁ θεὸς τῆς δόξης” (ho theos tēs doxēs, “o Deus da glória”), que aparece a Abraão na Mesopotâmia, isto é, antes da posse da terra e antes de qualquer santuário fixo. A partir daí, toda a releitura histórica segue a mesma lógica: Deus conduz José no Egito, chama Moisés em solo estrangeiro e acompanha o povo no deserto, mostrando que sua presença nunca esteve encerrada num único espaço. Quando Estevão afirma que Moisés recebeu “λόγια ζῶντα” (logia zōnta, “oráculos vivos”), ele não rebaixa a revelação mosaica; ao contrário, a honra. A crítica recai sobre a recorrente incapacidade do povo de corresponder ao dom recebido, pois os pais “não quiseram obedecer” e “voltaram em seus corações para o Egito” (At 7.2, 7.38-39). O discurso, assim, não é antijudaico em sentido simplista; é uma acusação profética interna, construída com as próprias categorias da história sagrada de Israel.

Nesse quadro, a crítica ao templo não equivale a negação da história cultual de Israel, mas a rejeição de sua absolutização. O argumento atinge o auge quando Estevão reconhece que Salomão edificou uma casa, mas acrescenta: “ἀλλ’ οὐχ ὁ ὕψιστος ἐν χειροποιήτοις κατοικεῖ” (all’ ouch ho hypsistos en cheiropoiētois katoikei, “mas o Altíssimo não habita em coisas feitas por mãos”), e logo apoia essa afirmação na profecia de Isaías 66.1-2. O mesmo princípio já havia sido insinuado na cena da sarça, quando o lugar se torna “γῆ ἁγία” (gē hagia, “terra santa”) não por santidade inerente, mas porque Deus ali se manifesta. O pano de fundo hebraico de Isaías reforça esse deslocamento: “הַשָּׁמַיִם כִּסְאִי” (haššāmayim kisʾî, “os céus são o meu trono”), seguido da declaração de que Deus olha para o aflito, o contrito e o que treme diante de sua palavra. A teologia de Estevão, portanto, subordina o santuário à transcendência divina e reorienta o centro da piedade do edifício para a obediência.

O núcleo mais penetrante dessa teologia aparece na linguagem do coração. Ao chamar seus ouvintes de “ἀπερίτμητοι καρδίαις” (aperitμήtoi kardiais, “incircuncisos de coração”), Estevão não abandona a Torá nem os Profetas; ele os reativa. A expressão se enraíza em Deuteronômio 10.16 e Jeremias 4.4, onde a circuncisão exigida é interior, não apenas externa. Em outras palavras, a posse da Lei não garante fidelidade à Lei; a verdadeira ruptura está em resistir ao Espírito Santo enquanto se reivindica o patrimônio mosaico. Por isso, Atos 7.51-53 condensa todo o discurso: a resistência aos enviados de Deus, visível na rejeição de José, Moisés e dos profetas, culmina agora na rejeição do “Justo”. O valor teológico de Estevão está precisamente em mostrar que o problema decisivo da história sagrada não é falta de revelação, mas dureza interior diante dela.

A dimensão final dessa figura é cristológica e missionária. Estevão morre configurado a Jesus e, ao mesmo tempo, apontando além de Jerusalém. Sua visão do “Filho do Homem” à direita de Deus sela sua leitura da história: o rejeitado foi exaltado, e a verdadeira legitimação vem do céu, não do Sinédrio (At 7.55-56). Logo depois, sua morte desencadeia “grande perseguição” e dispersão, e essa dispersão se torna o motor da expansão do testemunho para fora de Jerusalém (At 8.1-4). Assim, Estevão exerce função de mediação teológica entre a igreja centrada em Jerusalém e a missão em direção mais ampla: sua morte não encerra uma etapa apenas, mas abre outra. Nessa perspectiva, ele deve ser compreendido como testemunha cheia do Espírito, leitor cristológico de Israel, crítico do absolutismo cultual, expositor da resistência do coração humano à revelação e figura-limite pela qual o evangelho começa a atravessar, com maior clareza, a fronteira entre o centro judaico de Jerusalém e o horizonte universal da missão.

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Cite este artigo:

GALVÃO, Eduardo. Estevão. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 17 jul. 2009. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

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