Figo, Figueira — Enciclopedia Bíblica Online
Na Bíblia, “figo” e “figueira” designam mais do que um fruto e uma árvore do cotidiano agrário. No AT, o campo lexical hebraico é dominado por תְּאֵנָה (tĕʾēnâ, “figueira/figo”), enquanto no NT predominam συκῆ (sykē, “figueira”) e σῦκον (sykon, “figo”); esse vocabulário se associa, em primeiro lugar, à fertilidade da terra, à provisão concreta de Yahweh e à vida estável do povo na herança prometida (Nm 13.23; Dt 8.8). Por isso, a figueira pode simbolizar doçura e utilidade (Jz 9.10-11), alimento e sustento (1Sm 25.18; 30.12), além de paz doméstica e segurança social quando aparece ao lado da videira na fórmula “cada um debaixo de sua videira e de sua figueira” (1Rs 5.5; Mq 4.4; Zc 3.10). Ao mesmo tempo, sua primeira aparição em Gênesis 3.7 já introduz uma nota antropológica importante: as folhas de figueira servem como cobertura improvisada da nudez, de modo que a árvore entra na narrativa também como sinal da vulnerabilidade humana após a queda (Gn 3.7). A própria literatura bíblica de referência destaca essa centralidade da figueira no imaginário agrário e teológico de Israel.
Essa mesma riqueza simbólica explica por que a figueira pode carregar sentidos opostos conforme o contexto. Quando frutifica, ela representa restauração, recomeço e bênção renovada (Jl 2.22; Jr 24.5-7); quando seca, falha ou perde seu fruto, torna-se imagem de juízo, esterilidade e colapso da terra sob julgamento divino (Jr 8.13; Jl 1.7,12; Hc 3.17). No ensino de Jesus, a figueira assume ainda função moral e escatológica: ela serve para falar da necessidade de fruto verdadeiro e da incoerência entre aparência e realidade (Mt 7.16; Mc 11.12-21; Lc 13.6-9), bem como da capacidade de discernir os sinais do tempo, assim como se reconhece a proximidade do verão pelo brotar de seus ramos (Mt 24.32-34; Lc 21.29-31). Em Tiago 3.12, a impossibilidade de a figueira produzir azeitonas confirma o princípio de que a natureza se revela por seu fruto; em Apocalipse 6.13, a queda dos “figos verdes” transforma a árvore em imagem da instabilidade cósmica sob o juízo final. Assim, “figo” e “figueira” na Escritura resumem, num único símbolo vegetal, provisão, paz, fecundidade, prova moral, juízo e esperança de restauração (Os 9.10; Jr 24.2; Tg 3.12; Ap 6.13).
I. Quadro comparativo
| Campo semântico | Termos bíblicos | Delimitação semântica | Ocorrências |
|---|---|---|---|
| Núcleo lexical | תְּאֵנָה (tĕʾēnâ, “figueira/figo”); συκῆ (sykē, “figueira”); σῦκον (sykon, “figo”) | Designa o campo lexical principal do verbete. Em português, a tradução oscila entre “figueira” e “figo” conforme o contexto enfatize a árvore, o fruto ou, em alguns casos, a folhagem. |
49x no total תְּאֵנָה = 39x συκῆ = 6x σῦκον = 4x |
| Figos temporãos e verdes | בִּכּוּרָה (bikkûrâ, “figo temporão”); פַּג (pag, “figo verde”); ὄλυνθος (olynthos, “figo verde/tardio”) | Refere-se ao ciclo sazonal do fruto, distinguindo estágio, qualidade e valor agrícola. Esse subcampo impede tratar “figo” como categoria uniforme, pois a Bíblia diferencia figo temporão, figo verde e fruto ainda não plenamente amadurecido. |
4x no total בִּכּוּרָה = 2 פַּג = 1 ὄλυνθος = 1 |
| Uso derivado e espécie afim | דְּבֵלָה (dĕbēlâ, “bolo de figos”); שִׁקְמָה (šiqmâ, “sicômoro/figo-sicômoro”); συκομωραία (sykomōraia, “figueira brava/figo-sicômoro”) | Inclui derivados alimentares do figo e a espécie correlata do figo-sicômoro. Amplia o verbete para além da figueira comum, incorporando tanto seu uso doméstico quanto árvores aparentadas relevantes no imaginário bíblico. |
14x no total דְּבֵלָה = 6 שִׁקְמָה = 7 συκομωραία = 1 |
| Mapa geral do campo | Núcleo “figueira/figo”; figos temporãos/verdes; figos prensados; campo correlato do figo-sicômoro | Quadro sintético para abrir o verbete com visão de conjunto. Permite ao leitor perceber, desde o início, a distribuição temática do vocabulário ligado ao figo e à figueira na Bíblia. |
Núcleo “figueira/figo” = 49x Figos temporãos/verdes = 4 Figos prensados = 6 Figo-sicômoro = 8 |
II. A Figueira no Imaginário da Terra Prometida
No conjunto lexical do AT, a designação dominante para a figueira é תְּאֵנָה (tĕʾēnâ, “figueira/figo”), termo que, conforme o contexto, pode apontar para a árvore como espécie cultivada ou para o seu fruto como produto da terra. A Septuaginta verte esse campo semântico sobretudo por συκῆ e seus correlatos, preservando a centralidade da figueira também na tradição grega. Essa estabilidade lexical já indica que não se trata de um elemento marginal da paisagem bíblica, mas de um marcador recorrente da vida agrícola de Israel. O dado lexicográfico é coerente com a observação de WiBiLex de que a figueira figura entre as plantas mais relevantes do mundo agrário israelita e ocupa posição de destaque ao lado da videira e da oliveira.
O relato dos espias oferece a primeira grande moldura teológica para esse simbolismo. Em Números 13.23, os exploradores não regressam apenas com uma descrição verbal da terra, mas com amostras concretas de sua fecundidade: uvas, romãs e figos. A forma hebraica וּמִן־הַתְּאֵנִים (ûmin-hattĕʾēnîm, “e dos figos”) aparece no plural, o que destaca aqui não a espécie em abstrato, mas o fruto efetivamente colhido e transportado. A LXX mantém a mesma concretude com ἀπὸ τῶν συκῶν (apo tōn sykōn, “dos figos”). Exegeticamente, isso é decisivo: a terra prometida não é apresentada como mera promessa futura ou abstração geográfica, mas como realidade empiricamente comprovável por seus frutos. A figueira, nesse contexto, funciona como evidência material da veracidade da promessa e da qualidade do território dado por Yahweh (Nm 13.23).
A formulação mais programática ocorre em Deuteronômio 8.8, onde a terra é descrita como “terra de trigo, cevada, videira, figueira e romã; terra de oliveira de azeite e mel”. Nessa enumeração, וּתְאֵנָה (ûtĕʾēnâ, “e figueira/figo”) aparece em singular, com valor coletivo de espécie, inserida entre a videira e a romã dentro de uma lista de abundância agrícola. A Septuaginta, ao empregar συκαῖ (sykai, “figueiras/figos”), pluraliza o referente sem alterar sua função semântica: continua sendo um emblema da fertilidade da terra. O contexto imediato intensifica essa leitura, porque a lista vem enquadrada pela expressão אֶרֶץ טוֹבָה (ʾereṣ ṭôbâ, “terra boa”) e seguida da afirmação de que nela nada faltará ao povo. A figueira, portanto, não é simples detalhe botânico, mas componente de uma topografia teológica da dádiva: ela participa da descrição da terra como espaço de nutrição, estabilidade e benevolência pactual (Dt 8.7-10).
Essa mesma rede semântica reaparece de forma invertida em Números 20.5. Na queixa do povo, o deserto é condenado precisamente porque “não é lugar de semente, nem de figueira, nem de videira, nem de romã, e não há água para beber”. O hebraico לֹא מְקוֹם זֶרַע וּתְאֵנָה וְגֶפֶן וְרִמּוֹן (lōʾ mĕqôm zeraʿ ûtĕʾēnâ wĕgepen wĕrimmôn, “não [é] lugar de semente, figueira, videira e romã”) mostra que a ausência da figueira não é uma observação casual sobre alimentação, mas parte de um catálogo de impossibilidades agrárias. A LXX reforça essa leitura com a sequência τόπος, οὗ οὐ σπείρεται οὐδὲ συκαῖ οὐδὲ ἄμπελοι οὐδὲ ῥόαι (topos, hou ou speiretai oude sykai oude ampeloi oude rhoai, “lugar onde não se semeia, nem há figueiras, nem videiras, nem romãs”). Exegeticamente, o versículo funciona como contraface de Deuteronômio 8.8: se ali a figueira integra a gramática da posse da terra, aqui sua ausência integra a gramática da esterilidade e da privação. A falta de figueira é, assim, falta de habitabilidade, de sustento e de normalidade agrária (Nm 20.5).
Desse entrelaçamento textual emerge uma conclusão precisa. A figueira pertence ao vocabulário bíblico da terra boa não apenas porque produz um fruto apreciado, mas porque sinaliza um tipo específico de vida: sedentarizada, cultivada, fértil e sustentada pela provisão divina. Por isso, sua presença em Números 13.23 autentica a promessa; sua inclusão em Deuteronômio 8.8 qualifica a excelência do território; e sua ausência em Números 20.5 define, por contraste, o deserto como espaço antitético à herança. Nesse ponto, a observação de WiBiLex é confirmada pelos próprios textos: ao lado da videira e da oliveira, a figueira figura entre os grandes indicadores da fertilidade de Israel e da bondade concreta da terra dada por Yahweh.
III. Folhas de Figueira, Nudez e Cobertura
A primeira ocorrência da figueira na narrativa bíblica aparece em Gênesis 3.7, não em contexto de alimento, cultivo ou prosperidade, mas no momento em que a transgressão produz autoconsciência e exposição. O enunciado hebraico diz: וַיִּתְפְּרוּ עֲלֵה תְאֵנָה וַיַּעֲשׂוּ לָהֶם חֲגֹרֹת (wayyitpĕrû ʿălēh tĕʾēnâ wayyaʿăśû lāhem ḥăgōrōt, “e coseram folhas de figueira e fizeram para si cintas/coberturas”). A Septuaginta preserva a mesma sequência com φύλλα συκῆς (phylla sykēs, “folhas de figueira”) e περιζώματα (perizōmata, “coberturas ao redor da cintura”). A figueira, portanto, entra no texto sagrado como matéria-prima de uma cobertura improvisada, vinculada imediatamente à percepção da nudez e não à fruição da terra ou à fecundidade agrícola (Gn 3.7).
A força literária do versículo se torna ainda mais nítida quando lida à luz da abertura do capítulo. A serpente é descrita em Gênesis 3.1 como עָרוּם (ʿārûm, “astuto”), ao passo que o casal, após comer, percebe que está עֵירֻמִּם (ʿêrummîm, “nu”). Essa aproximação fônica cria uma ironia narrativa: a promessa de aquisição de discernimento culmina, antes de tudo, na descoberta da vulnerabilidade. Na tradição grega, esse jogo sonoro se perde, porque a LXX distingue φρονιμώτατος (phronimōtatos, “muitíssimo sagaz”) para a serpente e γυμνοί (gymnoi, “nus”) para o casal. O texto hebraico, assim, intensifica com mais força o efeito de reversão: a astúcia que parecia conduzir à elevação desemboca em vergonha, medo e necessidade de encobrimento (Gn 3.1, 7, 10).
A ambiguidade exegética mais relevante concentra-se em חֲגֹרֹת (ḥăgōrōt, “cintas/coberturas de cintura”). O termo não sugere, em primeiro plano, uma veste completa, mas algo ajustado ao corpo para cobrir parcialmente a nudez, o que é confirmado pela LXX com περιζώματα (perizōmata, “coberturas cingidas”). Por isso, as versões oscilam: ACF/KJV/ASV preferem “aventais/aprons”; ARA usa “cintas”; NASB/ESV caminham para “loin coverings/loincloths”; NVI/NVT optam por formulações mais gerais, como “algo para cobrir-se” e “para se cobrirem”. A divergência tradutória é importante porque afeta a imagem do episódio: não se trata de roupa acabada, mas de um recurso mínimo, funcional e provisório. Exatamente por isso, a cena deve ser lida menos como invenção têxtil e mais como gesto humano de contenção da exposição recém-descoberta (Gn 3.7).
O desenvolvimento imediato do relato confirma essa leitura. Depois de costurarem as folhas, o homem e a mulher não emergem reconciliados, mas escondem-se; o texto liga a nudez percebida ao medo e ao ocultamento diante de Deus (Gn 3.8-10). A cobertura feita de folhas, portanto, não resolve o problema narrativo que a queda inaugurou. Esse ponto se torna ainda mais claro em Gênesis 3.21, quando Yahweh faz para o casal כָּתְנוֹת עוֹר (kotnôt ʿôr, “túnicas de pele”), e a LXX traduz χιτῶνας δερματίνους (chitōnas dermatinous, “túnicas de couro/pele”). O dado textual seguro não é uma teoria sacrificial explícita, que o versículo não formula, mas um contraste literário inequívoco entre cobertura autoconstruída e vestimenta provida por Deus. A progressão do capítulo mostra, assim, que a figueira comparece primeiro como sinal da insuficiência da solução humana para a vergonha: ela encobre algo, mas não restaura a relação rompida nem elimina o medo que se instalou após a transgressão (Gn 3.7-10, 21).
Sob esse prisma, a primeira menção da figueira adquire densidade teológica singular. Antes de simbolizar fartura, paz rural ou prosperidade da terra, ela aparece associada à condição humana decaída, isto é, à tentativa de administrar a própria exposição depois da ruptura com Deus. A ordem narrativa é decisiva: primeiro surgem folhas de figueira costuradas às pressas; somente depois virão, em outras passagens, os figos como fruto da terra, alimento, doçura e sinal de bênção. Em sua estreia textual, a figueira é elemento de uma antropologia da vergonha e da precariedade, não de uma botânica da abundância. É precisamente essa prioridade narrativa que explica por que Gênesis 3.7 permanece um texto-chave para compreender a dimensão simbólica da figueira no restante da Escritura.
IV. Doçura, Alimento e Medicina da Figueira
Na fábula de Jotão, a figueira não é valorizada por majestade régia, mas por utilidade fecunda. O convite dos “árvores” à figueira em Juízes 9.10-11 recai sobre תְּאֵנָה (tĕʾēnâ, “figueira/figo”), e a resposta da árvore recusa a realeza com base em dois bens próprios: מָתְקִי (mātqî, “minha doçura”) e תְּנוּבָתִי הַטּוֹבָה (tĕnûbātî haṭṭôbâ, “meu bom produto/minha boa produção”). O contraste é teologicamente expressivo, porque a dignidade da figueira não está em dominar outras árvores, mas em continuar produzindo aquilo que alimenta e beneficia. A tradição grega conserva o mesmo eixo semântico ao falar da γλυκύτης (glykytēs, “doçura”) e dos γεννήματα τὸ ἀγαθόν (gennēmata to agathon, “bons frutos/boa produção”). A passagem, portanto, associa a figueira à lógica da fecundidade útil, não da ascensão política: seu valor reside na bondade concreta do que ela oferece.
Quando o foco passa do pomar para a circulação de bens, emerge outro termo decisivo: דְּבֵלָה (dĕbēlâ, “bolo de figos prensados”) e seu plural דְּבֵלִים (dĕbēlîm, “bolos de figos prensados”). A tradição lexicográfica hebraica o define precisamente como “lump of pressed figs, pressed (fig-) cake”, distinguindo-o do fruto fresco e registrando seu uso alimentar em 1 Samuel 25.18, 1 Samuel 30.12 e 1 Crônicas 12.40. Em 1 Samuel 25.18, Abigail inclui “duzentos דְּבֵלִים” em sua provisão diplomática, ao lado de pão, vinho, ovelhas preparadas, grãos tostados e passas; em 1 Samuel 30.12, um “פֶלַח דְּבֵלָה” (pelaḥ dĕbēlâ, “pedaço de bolo de figos”) e duas porções de passas restauram as forças do egípcio abandonado; em 1 Crônicas 12.40, os דְּבֵלִים reaparecem entre os suprimentos levados em animais de carga para a celebração em torno de Davi. O conjunto mostra um alimento compacto, transportável e energeticamente concentrado, apropriado tanto para presente diplomático quanto para deslocamento militar e socorro imediato.
A mesma família lexical reaparece num registro diverso em 2 Reis 20.7 e Isaías 38.21, agora em contexto terapêutico. Em ambos os textos ocorre a expressão דְּבֶלֶת תְּאֵנִים (dĕbelet tĕʾēnîm, “bolo/massa de figos”), aplicada sobre o שְּׁחִין (šĕḥîn, “furúnculo/úlcera inflamada”). A diferença verbal entre as duas passagens é exegética e semanticamente relevante: em 2 Reis 20.7 lê-se קְחוּ ... וַיָּשִׂימוּ (qĕḥû ... wayyāśîmû, “tomai ... e puseram”), enquanto Isaías 38.21 emprega יִשְׂאוּ ... וְיִמְרְחוּ (yiśʾû ... wĕyimrĕḥû, “tomem/tragam ... e espalhem/apliquem”). O segundo texto explicita mais claramente a operação tópica, isto é, a ideia de espalhar a massa sobre a lesão. Por isso, a oscilação das versões não é trivial: ESV/KJV/NASB preservam a concretude de “cake/lump of figs”, ao passo que NIV/NABRE explicitam a função com “poultice of figs”. A comparação é pertinente porque o hebraico nomeia primariamente a substância, enquanto o contexto e, sobretudo, o verbo de Isaías justificam a compreensão médica. A tradição grega reforça essa leitura: em 2 Reis 20.7 aparece παλάθην σύκων (palathēn sykōn, “massa/bolo de figos”), e em Isaías 38.21 a formulação é ainda mais técnica, com κατάπλασαι (kataplāsai, “aplicar como emplastro/cataplasma”).
Em Provérbios 27.18, a figueira retorna ao horizonte sapiencial como imagem de diligência recompensada. O provérbio afirma: נֹצֵר תְּאֵנָה יֹאכַל פִּרְיָהּ (nōṣēr tĕʾēnâ yōʾḵal piryāh, “quem guarda/cultiva a figueira comerá o seu fruto”), em paralelo com וְשֹׁמֵר אֲדֹנָיו יְכֻבָּד (wĕšōmēr ʾădōnāyw yĕḵubbād, “e quem guarda/serve ao seu senhor será honrado”). O particípio נֹצֵר (nōṣēr, “quem guarda/cultiva”) não descreve um contato ocasional, mas vigilância perseverante e cuidado constante. A força do paralelismo reside exatamente nisso: o trabalhador que cuida da figueira participa legitimamente do fruto, assim como o servo fiel participa da honra ligada ao serviço leal. As versões inglesas convergem amplamente em “keep/tend/guard the fig tree”, o que confirma que o núcleo semântico não é mera posse da árvore, mas cuidado continuado que leva à fruição legítima do resultado.
Esses textos delineiam um perfil coerente da figueira no imaginário bíblico. Em Juízes 9.10-11, ela representa doçura e boa produção; em 1 Samuel 25.18, 1 Samuel 30.12 e 1 Crônicas 12.40, torna-se alimento comprimido, preservável e transportável; em 2 Reis 20.7 e Isaías 38.21, converte-se em recurso de aplicação terapêutica doméstica; em Provérbios 27.18, serve de analogia para o princípio sapiencial segundo o qual o cuidado fiel conduz ao fruto e à honra. O campo semântico, assim, não é abstrato nem ornamental. A figueira aparece como árvore útil em toda a cadeia da vida cotidiana: oferece prazer gustativo, sustento em deslocamento, matéria para preparo armazenável, recurso de tratamento e metáfora da recompensa do trabalho perseverante.
V. Videira e Figueira como Imagem de Paz
A fórmula que associa videira e figueira adquire sua primeira expressão programática no retrato do reinado de Salomão. No texto hebraico consultado em die-bibel.de, a passagem corresponde a 1 Reis 5.5, embora grande parte das versões modernas a numere como 1 Reis 4.25. A redação é densa e precisa: וַיֵּשֶׁב֩ יְהוּדָ֨ה וְיִשְׂרָאֵ֜ל לָבֶ֗טַח אִ֣ישׁ תַּ֤חַת גַּפְנוֹ֙ וְתַ֣חַת תְּאֵֽנָת֔וֹ (wayyēšev yĕhûdâ wĕyiśrāʾēl lāveṭaḥ ʾîš taḥat gapnô wĕtaḥat tĕʾēnātô, “Judá e Israel habitaram em segurança, cada homem debaixo de sua videira e debaixo de sua figueira”). O advérbio-preposição לָבֶטַח (lāveṭaḥ, “em segurança”) controla a cena inteira: a videira e a figueira não funcionam ali como meros adornos botânicos, mas como sinais do usufruto pacífico da terra, da estabilidade doméstica e da ausência de ameaça imediata. A extensão “de Dã até Berseba” reforça o alcance nacional dessa condição, de modo que a imagem vegetal se torna linguagem política e social da ordem salomônica, não simples nota rural.
Essa mesma imagem reaparece de forma ironicamente deslocada na fala assíria em 2 Reis 18.31 e no relato paralelo de Isaías 36.16. No texto de Isaías, a proposta do mensageiro é formulada como עֲשׂוּ אִתִּי בְרָכָה וּצְאוּ אֵלַי וְאִכְלוּ אִישׁ גַּפְנוֹ וְאִישׁ תְּאֵנָתוֹ וּשְׁתוּ אִישׁ מֵי בוֹרוֹ (ʿăśû ʾittî bĕrāḵâ ûṣĕʾû ʾēlay wĕʾiḵlû ʾîš gapnô wĕʾîš tĕʾēnātô ûšĕtû ʾîš mê bôrô, “fazei comigo paz/saudação e saí a mim; e cada um comerá de sua videira e de sua figueira, e beberá das águas de sua cisterna”). Aqui a ambiguidade de בְרָכָה (bĕrāḵâ, “bênção”, mas idiomaticamente “paz”, “saudação” ou “termos amistosos”) é exegética e tradutoriamente relevante. ESV/NASB/NIV vertem “make peace with me”, ao passo que KJV prefere “make an agreement with me by a present”, sinal de que o termo foi entendido não como “bênção” em sentido estrito, mas como gesto diplomático de rendição amistosa. O núcleo do versículo, porém, está menos nessa expressão inicial do que na apropriação imperial da linguagem da segurança agrária: o invasor promete, em registro de propaganda, justamente aquilo que a tradição de Israel vinculava ao bem-estar sob a dádiva de Yahweh. A repetição da fórmula em 2 Reis 18.31 confirma que não se trata de coincidência isolada, mas de reaproveitamento deliberado de um imaginário de paz e suficiência.
Em Miqueias 4.4, a fórmula é transportada do registro histórico para o horizonte escatológico. O texto hebraico declara: וְיָשְׁבוּ אִישׁ תַּחַת גַּפְנוֹ וְתַחַת תְּאֵנָתוֹ וְאֵין מַחֲרִיד (wĕyāšĕbû ʾîš taḥat gapnô wĕtaḥat tĕʾēnātô wĕʾên maḥărîḏ, “e sentar-se-ão, cada homem debaixo de sua videira e de sua figueira, e não haverá quem amedronte”). A cláusula final, וְאֵין מַחֲרִיד (wĕʾên maḥărîḏ, “não há quem aterrorize”), explicita o conteúdo da imagem: paz não é apenas produtividade da terra, mas eliminação do medo. A LXX amplia essa nuance ao empregar ἀναπαύσεται (anapausetai, “descansará”), de modo que a cena não é só de localização espacial “debaixo” da planta, mas de repouso efetivo em estado de segurança. Exegeticamente, o versículo depende do contexto imediato: depois de anunciar que as armas serão convertidas em instrumentos agrícolas e que as nações não aprenderão mais a guerra, o profeta traduz a paz universal em termos concretos de vida doméstica, trabalho frutífero e posse tranquila da herança. A figueira, assim, torna-se emblema de shalom em sua dimensão social mais palpável.
Zacarias 3.10 preserva a mesma imagem, mas introduz um elemento adicional que a torna ainda mais relacional. Após a promessa de remoção da iniquidade da terra “num só dia” em Zacarias 3.9, o versículo seguinte anuncia: בַּיּוֹם הַהוּא ... תִּקְרְאוּ אִישׁ לְרֵעֵהוּ אֶל־תַּחַת גֶּפֶן וְאֶל־תַּחַת תְּאֵנָה (bayyôm hahûʾ ... tiqrĕʾû ʾîš lĕrēʿēhû ʾel-taḥat gephen wĕʾel-taḥat tĕʾēnâ, “naquele dia ... chamareis cada um ao seu próximo para debaixo da videira e para debaixo da figueira”). A LXX verte συγκαλέσετε ἕκαστος τὸν πλησίον αὐτοῦ ὑποκάτω ἀμπέλου καὶ ὑποκάτω συκῆς (synkalēsete hekastos ton plēsion autou hypokatō ampelou kai hypokatō sykēs, “cada um convocará o seu próximo para debaixo da videira e da figueira”). A diferença em relação a 1 Reis e Miqueias é significativa: ali a ênfase recai sobre habitar ou descansar em segurança; aqui, sobre convidar o próximo. A paz, portanto, não é concebida como bem privado, mas como condição compartilhável, socialmente aberta e teologicamente fundada no perdão restaurador anunciado no versículo anterior. A recorrência da fórmula ao longo desses textos permite inferir que a figueira não simboliza apenas fertilidade vegetal, mas ordem social, descanso sem terror e hospitalidade dentro de uma terra reconciliada.
VI. A Linguagem Sazonal do Figo Bíblico
A semântica do figo nos textos bíblicos não é estática, porque o vocabulário distingue com nitidez o fruto ainda em formação, o fruto temporão e o fruto já avaliado por sua qualidade. Essa diferenciação aparece de modo exemplar em Cântico dos Cânticos 2.13, Isaías 28.4, Oséias 9.10, Naum 3.12 e Jeremias 24.2. Sem essa atenção ao estágio do fruto, perde-se a força imagética de passagens em que a figueira serve não apenas como elemento botânico, mas como marcador de estação, valor, fragilidade e discernimento.
No quadro primaveril de Cântico dos Cânticos 2.13, a expressão הַתְּאֵנָה חָנְטָה פַגֶּיהָ (hattĕʾēnâ ḥānĕṭâ paggeyhã, “a figueira formou os seus figos verdes”) coloca a ênfase no início do ciclo, não na colheita consumada. O substantivo פַּג (pag, aqui no plural com sufixo, פַגֶּיהָ, paggeyhã, “seus figos verdes”) aponta para fruto imaturo ou ainda tenro, e a LXX confirma essa direção ao traduzir ἡ συκῆ ἐξήνεγκεν ὀλύνθους αὐτῆς (hē sykē exēnenken olynthous autēs, “a figueira produziu os seus figos verdes”). Por isso, a diferença entre versões é exegética e não apenas estilística: ACF/KJV preservam “figos verdes”, NVI fala em “primeiros frutos”, NVT em “começam a dar frutos”, enquanto ESV/NASB avançam para “ripens its figs/fruit”, formulação mais madura do que o hebraico parece exigir. O texto, portanto, não descreve a estação da colheita plena, mas o despertar da fertilidade, em paralelo com as vinhas em flor e o fim do inverno, de sorte que a figueira funciona como sinal de renovação sazonal e de começo, não de consumação.
A linguagem de Isaías 28.4 move-se para outro estágio semântico. Ali a glória efraimita é comparada a כְּבִכּוּרָה בְּטֶרֶם קַיִץ (kĕbikkûrâ bĕṭerem qayiṣ, “como figo temporão antes do verão”), isto é, ao fruto precoce que, justamente por ser raro e desejável, é engolido assim que alguém o tem à mão. A LXX traduz ὡς πρόδρομος σύκου (hōs prodromos sykou, “como figo precoce/adiantado”), preservando a noção de antecipação temporal. O ponto central não é apenas a rapidez do consumo, mas a conjunção entre precocidade e voracidade: aquilo que surge antes do tempo comum é imediatamente apropriado. Por isso, KJV/ACF falam em “hasty fruit/fruto temporão”, e ESV/NASB em “first-ripe fig”, convergindo no essencial. A metáfora, assim, não representa maturidade estabilizada, mas brilho fugaz e prontamente devorado, o que se ajusta ao contexto de esplendor efêmero e queda iminente.
Oseias 9.10 emprega a mesma ideia de modo afetivo e histórico. Yahweh declara ter encontrado Israel “como uvas no deserto” e visto os pais da nação כְּבִכּוּרָה בִתְאֵנָה בְּרֵאשִׁיתָהּ (kĕbikkûrâ bitʾēnâ bĕrēʾšîtāh, “como fruto temporão na figueira em seu começo”). A imagem associa descoberta, raridade e agrado inicial: o primeiro figo da estação não é só cronologicamente anterior, mas especialmente apreciado. A redação grega é mais livre, porém mantém o eixo da precocidade com πρόιμον (proimon, “precoce/temporão”). Também aqui a comparação de versões ajuda: ACF/ARA/ESV/NASB falam em “fruta temporã”, “primícias” ou “earliest/first season”, ao passo que NVT prefere “primeiros figos maduros”, o que desloca discretamente o foco da prioridade temporal para a maturidade do fruto. O valor da metáfora profética está precisamente na prioridade amorosa do olhar divino sobre Israel em seus primórdios, seguida pelo contraste brutal com a apostasia em Baal-Peor.
Em Naum 3.12, a expressão hebraica כָּל־מִבְצָרַיִךְ תְּאֵנִים עִם־בִּכּוּרִים (kol-mibṣārayiḵ tĕʾēnîm ʿim-bikkûrîm, “todas as tuas fortalezas são figueiras com figos temporãos”) transforma a imagem sazonal em metáfora militar. A ideia é a da extrema vulnerabilidade: basta sacudir, e os frutos caem diretamente “na boca do comedor”. O versículo não fala de figos quaisquer, mas do fruto temporão, valorizado e ao mesmo tempo fácil de desprender. A comparação de versões mostra o ponto em disputa: ACF/ARA/KJV/ESV/NASB mantêm “figos temporãos/first-ripe figs”, enquanto NVI/NVT falam em “figos maduros”, tradução inteligível, porém menos precisa quanto ao traço de precocidade que o hebraico enfatiza. Como inferência filológica mínima, a forma grega de Naum 3.12 é menos transparente que o texto hebraico neste ponto, razão pela qual o hebraico preserva com mais nitidez a relação entre temporalidade curta e fragilidade extrema.
Jeremias 24.2 dá um passo adicional, porque a sazonalidade deixa de servir apenas para indicar começo ou fragilidade e passa a funcionar como critério de distinção qualitativa. O primeiro cesto contém תְּאֵנִים טֹבוֹת מְאֹד כִּתְאֵנֵי הַבַּכֻּרוֹת (tĕʾēnîm ṭōbôt mĕʾōd kitʾēnê habbakkurot, “figos muito bons, como figos temporãos”), ao passo que o segundo contém figos ruins e intragáveis. O fruto temporão aparece aqui como paradigma do que é excelente, não simplesmente do que é cronologicamente antecipado. Por isso, ACF/NVI/ESV/NASB preservam a ideia de “figos temporãos/first-ripe figs”, enquanto NVT prefere “figos frescos e maduros”, tradução comunicativa, mas menos sensível ao valor técnico de בַּכֻּרוֹת (bakkurot, “primeiros amadurecimentos/temporãos”). A visão de Jeremias depende justamente dessa nuance: a comparação não opõe apenas bom e ruim, mas bom como o fruto mais desejável do início da estação, contra ruim a ponto de não poder ser comido.
Desse conjunto emerge um traço semântico consistente. Em Cântico dos Cânticos 2.13, o figo marca a irrupção da primavera; em Isaías 28.4, a precocidade torna-se imagem da glória efêmera que se consome depressa; em Oséias 9.10, o primeiro figo traduz o valor afetivo da eleição inicial; em Naum 3.12, o mesmo fruto precoce passa a simbolizar a facilidade da queda; e, em Jeremias 24.2, o figo temporão torna-se padrão de excelência na visão que separa o bom do intragável. A linguagem da figueira, portanto, não opera por um simbolismo genérico, mas por uma rede de nuances agrícolas precisas, em que “verde”, “temporão”, “precoce” e “bom” podem convergir ou divergir conforme o propósito literário e teológico do texto.
VII. Juízo Profético Sobre Figueira e Terra
No material profético e poético do AT, a figueira deixa de funcionar apenas como marcador de fertilidade da terra e passa a operar como índice visível da relação entre pecado, juízo e desordem da criação. O lexema dominante continua sendo תְּאֵנָה (tĕʾēnâ, “figueira”), regularmente associado à videira e, em alguns contextos, a outras árvores frutíferas correlatas; na tradição grega, esse campo é normalmente representado por συκῆ (sykē, “figueira”). A mudança decisiva está no valor simbólico: quando a figueira é ferida, devorada, murcha ou deixa de frutificar, o texto não lamenta só a perda de um fruto apreciado, mas a retirada de um dos sinais mais concretos de estabilidade agrária, sustento e normalidade social. É justamente nessa direção que a literatura de referência de die-bibel.de resume o fenômeno: a destruição da figueira equivale, nos textos de juízo, a desgraça pública e colapso da terra sob julgamento divino.
Em Jeremias, essa lógica é articulada de dois modos complementares. Jeremias 5.17 anuncia que a nação invasora “comerá” o sistema inteiro da subsistência: וְאָכַל ... גַּפְנְךָ וּתְאֵנָתֶךָ (wĕʾākal ... gapnĕkā ûtĕʾēnātekā, “e devorará ... tua videira e tua figueira”). A figueira aparece no singular com sufixo de segunda pessoa, o que individualiza a perda e a torna doméstica: não se trata apenas de devastação coletiva abstrata, mas daquilo em que Judá depositava sua segurança cotidiana. Em Jeremias 8.13, o quadro já não é o da invasão que consome, mas o da esterilidade que se instala: אֵין עֲנָבִים בַּגֶּפֶן וְאֵין תְּאֵנִים בַּתְּאֵנָה (ʾên ʿănābîm baggepen wĕʾên tĕʾēnîm battĕʾēnâ, “não há uvas na videira e não há figos na figueira”), seguido da nota de que a folha murcha. O início do versículo é relevante para a tradução: o hebraico אָסֹף אֲסִיפֵם (ʾāsōp ʾăsîpēm) sugere intensificação do verbo “ajuntar/recolher”, razão pela qual a NIV explicita “I will take away their harvest”, enquanto a KJV verte “I will surely consume them”; a divergência é real, mas, em ambos os casos, o núcleo imagético permanece o mesmo: a terra perde sua capacidade de oferecer o que deveria naturalmente dar. Assim, a figueira funciona como barômetro da aliança rompida: a violência externa de Jeremias 5.17 e a esterilidade de Jeremias 8.13 são duas faces do mesmo juízo histórico (Jr 5.17; 8.13).
Em Oseias, Joel e Amós, o motivo recebe formulações ainda mais densas. Oseias 2.14, na numeração hebraica de die-bibel.de, anuncia: וַהֲשִׁמֹּתִי גַּפְנָהּ וּתְאֵנָתָהּ (waḥăšimmōtî gapnâh ûtĕʾēnātâh, “devastarei a sua videira e a sua figueira”), logo após a acusação de que Israel atribuíra esses bens aos seus “amantes”; o juízo, portanto, é também desmascaramento teológico da falsa origem da prosperidade. Em Joel 1.7, a devastação assume linguagem de desnudamento: שָׂם גַּפְנִי לְשַׁמָּה וּתְאֵנָתִי לִקְצָפָה (śām gapnî lĕšammâ ûtĕʾēnātî liqṣāpâ, “reduziu a minha videira a desolação e a minha figueira a desnudamento/descascamento”), e Joel 1.12 completa o quadro com הַתְּאֵנָה אֻמְלָלָה (hattĕʾēnâ ʾumlālāh, “a figueira murchou”), ligando a ruína da árvore ao desaparecimento da alegria humana. Já Amós 4.9 apresenta o juízo em forma de praga e seca pedagógica: וּתְאֵנֵיכֶם וְזֵיתֵיכֶם יֹאכַל הַגָּזָם (ûtĕʾēnêkem wĕzêtêkem yōʾkal haggāzām, “as vossas figueiras e oliveiras o gafanhoto devorou”), sempre acompanhado do refrão acusatório “e não voltastes para mim”. Nesses textos, a figueira deixa de ser apenas emblema da boa terra e passa a revelar que o juízo divino atinge exatamente aquilo que sustenta a vida ordinária, de modo que a calamidade agrícola se torna linguagem histórica da infidelidade religiosa (Os 2.14; Jl 1.7,12; Am 4.9).
O cântico de Habacuque leva essa tradição à forma mais concentrada. Em Habacuque 3.17, a sequência “a figueira não florescerá”, כִּי־תְאֵנָה לֹא־תִפְרָח (kî-tĕʾēnâ lōʾ-tip̄raḥ, “porque a figueira não floresce”), é seguida por ausência de produto na videira, fracasso da oliveira, falta de mantimento nos campos e desaparecimento do rebanho. O versículo não descreve apenas um infortúnio setorial, mas um colapso agrário total. Algo semelhante aparece no Saltério ao rememorar as pragas do Egito. Em Salmo 105.33, o texto hebraico é explícito: וַיַּךְ גַּפְנָם וּתְאֵנָתָם (wayyaḵ gapnām ûtĕʾēnātām, “feriu as suas videiras e as suas figueiras”), fazendo da vegetação frutífera objeto direto do juízo divino. O paralelo de Salmo 78.47 amplia a cena para árvores correlatas, traduzidas nas versões de die-bibel.de como “sycomore trees/sycamore-figs”, o que mostra que a memória do castigo não se limita a colheitas anuais, mas alcança também o patrimônio arbóreo da terra. A consequência exegética é clara: quando a figueira e seu campo vegetal correlato entram no raio do julgamento, o texto quer representar a suspensão da ordem vital que normalmente assegura alimento, sombra, continuidade e usufruto da terra (Hc 3.17; Sl 78.47; 105.33).
Naum 3.12 desloca esse repertório para a metáfora político-militar sem abandonar sua base agrícola. A formulação hebraica é particularmente precisa: כָּל־מִבְצָרַיִךְ תְּאֵנִים עִם־בִּכּוּרִים (kol-mibṣārayiḵ tĕʾēnîm ʿim-bikkûrîm, “todas as tuas fortalezas são figueiras com figos temporãos”); e prossegue: אִם־יִנּוֹעוּ וְנָפְלוּ עַל־פִּי אוֹכֵל (ʾim-yinnōʿû wĕnāplû ʿal-pî ʾōkēl, “se forem sacudidas, caem na boca do devorador”). Aqui a imagem não descreve esterilidade, mas vulnerabilidade extrema. A comparação entre versões é realmente relevante neste ponto, porque ESV/NIV preservam “first-ripe figs”, ao passo que traduções mais generalizantes podem sugerir apenas “figos maduros”; contudo, o hebraico com בִּכּוּרִים (bikkûrîm, “figos temporãos/primeiros figos”) mantém a nuance de fruto precoce, valorizado e facilmente desprendido. O sentido é devastador: as defesas de Nínive são como fruto que, em vez de resistir, cai ao menor abalo. A passagem mostra que o imaginário da figueira, no discurso profético, não serve apenas para falar de fecundidade e paz, mas também para tornar visível a rapidez com que a segurança aparente pode converter-se em queda inevitável (Na 3.12).
IX. Figueira entre Restauração, Eleição e Separação
Em Joel 2.22, a figueira reaparece no exato ponto em que o discurso passa do juízo para a restauração. Depois do chamado ao arrependimento, o texto descreve Yahweh voltando-se para a sua terra e para o seu povo, de modo que a reversão da calamidade é expressa em linguagem agrária: “a árvore leva o seu fruto; a figueira e a videira deram a sua força” — תְּאֵנָה וָגֶפֶן נָתְנוּ חֵילָם (tĕʾēnâ wāgepen nātnû ḥêlām, “a figueira e a videira deram sua força/plenitude”). O substantivo חַיִל (ḥayil, “força”, “vigor”, “riqueza”, “plenitude produtiva”) explica por que ESV/NASB tendem a verter “full yield”, enquanto outras versões preferem um registro mais amplo de abundância. Exegeticamente, o ponto não é meramente botânico: a frutificação da figueira sinaliza a restauração da ordem vital rompida pelo desastre anterior, e o contexto imediato o confirma ao falar da reposição dos anos consumidos pelo gafanhoto, da saciedade do povo e do renovado conhecimento de que Yahweh está no meio de Israel (Jl 2.22-27). A figueira, nesse quadro, funciona como sintoma visível do retorno da benevolência pactual.
A formulação de Oséias 9.10 introduz uma nuance distinta e mais densa. Yahweh declara ter encontrado Israel “como uvas no deserto” e visto os pais da nação “como o primeiro figo na figueira em seu começo” — כְּבִכּוּרָה בִתְאֵנָה בְּרֵאשִׁיתָהּ (kĕbikkûrâ bitĕʾēnâ bĕrēʾšîtāh, “como figo temporão na figueira em seu início”). O vocábulo בִּכּוּרָה (bikkûrâ, “figo temporão”, “primeiro figo”) não designa simplesmente anterioridade cronológica, mas um fruto precocemente valorizado; a literatura lexicológica de WiBiLex observa precisamente que a imagem dos primeiros figos carrega a ideia de algo particularmente desejável e precioso. A força do versículo está em comprimir, numa única frase, eleição e apostasia: o que inicialmente foi percebido com agrado passa, em seguida, à consagração a Baal-Peor e à deformação cultual. Por isso, a figueira aqui não simboliza apenas fertilidade, mas memória de um começo eleito que foi traído. A metáfora do primeiro figo, longe de ser ornamental, estabelece o contraste entre o valor inicial de Israel diante de Yahweh e a rapidez com que essa relação foi profanada.
Jeremias 24 radicaliza essa ambivalência ao transformar os figos em instrumento de discernimento histórico dentro do próprio povo. A visão se abre com “dois cestos de figos” postos diante do templo após a deportação de Jeconias; um contém figos “muito bons, como figos temporãos” — תְּאֵנִים טֹבוֹת מְאֹד כִּתְאֵנֵי הַבַּכֻּרוֹת (tĕʾēnîm ṭōbôt mĕʾōd kitĕʾēnê habbakkurôt, “figos muito bons, como figos temporãos”) — e o outro, figos “muito ruins”, intragáveis. A LXX preserva com notável clareza essa distinção ao falar de σύκα χρηστά (syka chrēsta, “figos bons”) como τὰ σῦκα τὰ πρόιμα (ta syka ta proima, “os figos precoces/temporãos”) e de σύκα πονηρά (syka ponēra, “figos ruins”). A imagem é deliberadamente paradoxal: o exílio de 597 a.C., que poderia parecer o pior destino, torna-se o ponto de referência para os “bons figos”, ao passo que a permanência em Jerusalém não recebe automaticamente valoração positiva. A escolha da figura mostra que, no discurso profético, a frutificação ou a qualidade do figo já não indicam apenas estado agrícola da terra, mas avaliação teológica de grupos humanos diante da ação soberana de Deus.
A interpretação da visão, nos versículos 4-10, confirma esse deslocamento. Os “bons figos” representam os deportados de Judá, sobre os quais Yahweh afirma: “porei os meus olhos sobre eles para o bem” e “dar-lhes-ei coração para me conhecer” — וְנָתַתִּי לָהֶם לֵב לָדַעַת אֹתִי (wĕnātattî lāhem lēb lādaʿat ʾōtî, “e dar-lhes-ei coração para conhecer-me”). Aqui a tradição inglesa é significativamente uniforme: KJV/ESV/NIV/NASB mantêm, com mínimas variações, “a heart to know me”, o que indica que a dificuldade não está no léxico, mas na densidade teológica da expressão. “Coração”, nesse contexto, não designa mera afetividade, mas a interioridade reorientada por Deus para o conhecimento pactual, culminando na fórmula clássica: “eles serão meu povo, e eu serei seu Deus”, porque voltarão “de todo o seu coração”. Em contrapartida, os “figos ruins” representam Zedequias, seus oficiais, o restante de Jerusalém e os que habitam no Egito; sobre eles recaem dispersão, opróbrio, espada, fome e peste. A figueira, portanto, deixa de ser apenas imagem de bênção ou de ruína e passa a operar como símbolo de separação interna: não basta pertencer visivelmente ao povo; é preciso ser o fruto que Deus reconhece “para o bem”.
Essa convergência entre Joel, Oséias e Jeremias mostra que a simbologia da figueira é constitutivamente ambivalente. Quando frutifica em Joel 2.22, ela anuncia recomposição da terra, da provisão e da comunhão com Yahweh; quando aparece como primeiro figo em Oséias 9.10, ela evoca o valor singular do início de Israel diante de Deus; quando é repartida em bons e maus figos em Jeremias 24.1-10, ela se torna critério profético de preservação e rejeição. A continuidade do símbolo reside justamente nisso: a figueira pertence ao imaginário da aliança, e por isso pode expressar tanto a bênção do recomeço quanto o fracasso da fidelidade e a distinção entre o remanescente restaurado e o grupo entregue ao juízo.
X. A Figueira no Ensino de Jesus
No NT, a figueira deixa de ser apenas um marcador da fertilidade da terra e passa a concentrar um conjunto de funções teológicas de alta densidade. O vocábulo dominante para “figueira” é συκῆ (sykē, “figueira”), enquanto o fruto aparece como σῦκον / σῦκα (sykon / syka, “figo / figos”); a tradição lexical registrada em die-bibel.de observa justamente essa continuidade do campo da figueira entre o universo veterotestamentário e o neotestamentário. Nos Evangelhos e em Tiago, esse mesmo referente vegetal serve para falar de revelação, tempo de arrependimento, juízo sobre esterilidade, discernimento escatológico e coerência ética entre interioridade e resultado visível. A força da imagem reside no fato de que a figueira é uma árvore reconhecível, de ciclos perceptíveis e de fruto esperado; por isso, ela se presta particularmente bem a uma teologia do “sinal” e do “fruto”.
Em João 1.48-50, a figueira entra na cena como lugar de reconhecimento e revelação. A formulação πρὸ τοῦ σε Φίλιππον φωνῆσαι ὄντα ὑπὸ τὴν συκῆν εἶδόν σε (pro tou se Philippon phōnēsai onta hypo tēn sykēn eidon se, “antes que Filipe te chamasse, eu te vi estando debaixo da figueira”) é retomada em 1.50 com a variação ὑποκάτω τῆς συκῆς (hypokatō tēs sykēs, “debaixo da figueira”), sem alteração material do sentido. O texto não informa o que Natanael fazia ali; por isso, leituras que transformam a figueira em símbolo inequívoco de estudo da Torá ou de oração ultrapassam o dado explícito. Exegeticamente, o ponto seguro é outro: a referência a esse lugar funciona como sinal de conhecimento prévio e sobrenatural de Jesus, suficiente para provocar a confissão “Tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. A seguir, o próprio relato desloca o foco da figueira para uma revelação maior, quando Jesus promete que Natanael verá “o céu aberto” e os anjos de Deus “subindo e descendo” sobre o Filho do Homem, o que amplia a cena do reconhecimento pessoal para a manifestação cristológica. Também é plausível notar, com base na tradição agrária lembrada em WiBiLex, que a figueira era apreciada como árvore de sombra, o que torna a cena concreta e verossímil sem esgotar seu valor simbólico.
A parábola de Lucas 13.6-9 desloca a figueira do campo da revelação para o da paciência julgadora. O relato começa com συκῆν εἶχέν τις πεφυτευμένην ἐν τῷ ἀμπελῶνι αὐτοῦ (sykēn eichen tis pephyteumenēn en tō ampelōni autou, “um homem tinha uma figueira plantada em sua vinha”), e a combinação entre figueira e vinha não é casual: trata-se de uma árvore instalada em espaço já cultivado, isto é, cercada de cuidado e expectativa. O dono procura fruto por três anos e não o encontra; por isso ordena: ἔκκοψον αὐτήν (ekkopson autēn, “corta-a”). A pergunta seguinte é ainda mais forte: ἱνατί καὶ τὴν γῆν καταργεῖ; (hinati kai tēn gēn katargei?, “por que ainda torna improdutiva / ocupa inutilmente a terra?”). A comparação de versões é relevante aqui, porque KJV conserva a formulação tradicional “why cumbereth it the ground?”, enquanto NIV a explicita como “Why should it use up the soil?”; a diferença mostra que o verbo καταργεῖν (katargein) não sugere mera presença inócua, mas esterilidade que pesa sobre o terreno. A resposta do viticultor, pedindo mais um ano para cavar e adubar, impede qualquer leitura precipitada de juízo imediato, mas também impede uma leitura sentimental: a prorrogação existe, porém é limitada. No contexto de Lucas 13.1-5, onde Jesus repetira duas vezes “se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis”, a figueira torna-se imagem narrativa da oportunidade ainda aberta, mas não indefinidamente aberta, para a produção de fruto correspondente ao arrependimento.
O episódio da figueira amaldiçoada em Mateus 21.18-21 e Marcos 11.12-14,20-21 radicaliza essa lógica ao transformá-la em ação simbólica. Mateus apresenta a cena de modo compacto: Jesus vê uma figueira junto ao caminho, encontra nela “somente folhas” — εἰ μὴ φύλλα μόνον (ei mē phylla monon, “nada senão folhas apenas”) — e a árvore seca imediatamente, παραχρῆμα (parachrēma, “logo, de imediato”). Marcos conserva o mesmo núcleo, mas acrescenta dois elementos decisivos: a observação de que Jesus se aproxima da árvore “se porventura acharia nela alguma coisa” e a nota explicativa ὁ γὰρ καιρὸς οὐκ ἦν σύκων (ho gar kairos ouk ēn sykōn, “pois não era tempo de figos”). As versões inglesas principais convergem substancialmente nesse ponto — KJV, NIV, ESV e NASB mantêm “the time/season of figs was not [yet]” — de modo que a dificuldade aqui não é tradutória, mas interpretativa. O próprio arranjo de Marcos orienta a leitura: a maldição da figueira aparece em 11.12-14, a purificação do templo ocupa 11.15-19, e o ressecamento é constatado em 11.20-21. Esse enquadramento literário sugere fortemente que a árvore cheia de folhas, mas sem fruto, funciona como sinal visível de uma religiosidade com aparência, porém sem produtividade correspondente. WiBiLex, ao comentar as folhas, observa precisamente que em Marcos 11.13 e Mateus 21.19 a decepção nasce do fato de haver apenas folhas e não fruto, enquanto em Marcos 13.28 e Mateus 24.32 o surgimento das folhas indica o verão; essa justaposição ajuda a perceber que, no episódio da maldição, o problema não é o vegetal em si, mas a incongruência entre exterior promissor e esterilidade real.
Nos discursos escatológicos, a figueira assume uma função diversa: já não serve para condenar esterilidade, mas para ensinar discernimento temporal. Mateus 24.32-34 e Marcos 13.28-31 usam praticamente a mesma formulação: Ἀπὸ δὲ τῆς συκῆς μάθετε τὴν παραβολήν (Apo de tēs sykēs mathete tēn parabolēn, “aprendei, porém, da figueira a parábola/lição”); quando o ramo se torna ἁπαλός (hapalos, “tenro”) e brotam as folhas, sabe-se que o verão está próximo. Lucas 21.29-33, entretanto, introduz uma nuance importante ao dizer “vede a figueira e todas as árvores”, universalizando o princípio observacional, e ao explicitar em 21.31: “sabei que está próximo o reino de Deus”, em vez do mais elíptico “está perto, às portas” de Mateus e Marcos. A figueira, nesse contexto, não é um código secreto, mas uma analogia pedagógica: assim como certos processos naturais permitem reconhecer a estação, assim também certos acontecimentos permitem reconhecer a proximidade do que Jesus anuncia. O peso exegético recai menos na botânica do que na exigência de leitura inteligente dos sinais, sem que isso elimine a tensão da afirmação sobre “esta geração”, que os três textos conservam em posição enfática.
O último núcleo neotestamentário desloca a figueira para o campo da ética do fruto. Em Mateus 7.16, no contexto dos falsos profetas, Jesus pergunta: μήτι συλλέγουσιν ἀπὸ ἀκανθῶν σταφυλὰς ἢ ἀπὸ τριβόλων σῦκα; (mēti syllegousin apo akanthōn staphylas ē apo tribolōn syka?, “porventura colhem-se de espinhos uvas ou de abrolhos figos?”). Em Lucas 6.44, a formulação é paralela — οὐ γὰρ ἐξ ἀκανθῶν συλλέγουσιν σῦκα (ou gar ex akanthōn syllegousin syka, “não se colhem figos de espinhos”) —, mas Lucas prolonga imediatamente a aplicação para o interior humano ao afirmar que o homem bom tira o bem do bom tesouro do coração e que a boca fala do que está cheio o coração. Tiago 3.12 retoma a mesma lógica natural em função da língua e da sabedoria: μὴ δύναται, ἀδελφοί μου, συκῆ ἐλαίας ποιῆσαι ἢ ἄμπελος σῦκα; (mē dynatai, adelphoi mou, sykē elaias poiēsai ē ampelos syka?, “pode, porventura, meus irmãos, a figueira produzir azeitonas ou a videira figos?”). A sequência de Tiago é decisiva porque liga a impossibilidade botânica à impossibilidade moral de uma mesma boca produzir coerentemente bênção e maldição. Nesse conjunto, o figo deixa de funcionar como mero fruto e se torna critério de correspondência entre natureza, fala e conduta: não é a aparência momentânea, mas o fruto efetivo que revela a realidade do sujeito.
XI. O Sicômoro no Campo Semântico Bíblico
Dentro do vocabulário bíblico relacionado ao universo dos figos, o sicômoro ocupa um lugar correlato, mas não idêntico ao da figueira comum. No hebraico do AT aparece sobretudo como שִׁקְמָה / שִׁקְמִים (šiqmâ / ši qmîm, “sicômoro / sicômoros”), enquanto a tradição grega emprega formas da família συκάμινος e, no relato lucano, συκομορέα. Do ponto de vista botânico, trata-se normalmente do chamado “sycamore fig”, Ficus sycomorus, uma espécie de figueira distinta de Ficus carica, embora pertencente ao mesmo universo vegetal dos figos; isso explica por que o campo semântico bíblico pode aproximá-lo da figueira sem reduzi-lo à mesma árvore. A relação entre esses termos, portanto, é de parentesco lexical e cultural, não de identidade estrita.
No Salmo 78.47, dentro da releitura poética das pragas do Egito, a devastação divina alcança não só a videira, mas também os sicômoros: שִׁקְמוֹתָם (šiqmôtām, “seus sicômoros”). O paralelismo com “suas vinhas” mostra que a árvore é tratada como parte do patrimônio agrário atingido pelo juízo, e não como detalhe paisagístico secundário. A função da imagem é histórica e memorial: o castigo de Yahweh sobre o Egito atinge a infraestrutura da fecundidade, isto é, aquilo que sustenta produção, alimento e estabilidade econômica. Aqui, o sicômoro integra a mesma lógica simbólica da figueira e da videira quando estas são tomadas como sinais materiais de subsistência cuja perda expressa juízo sobre uma terra.
Em Isaías 9.9, a referência ao sicômoro surge num contexto inteiramente diverso. O povo altivo declara: לְבֵנִים נָפָלוּ וְגָזִית נִבְנֶה שִׁקְמִים גֻּדָּעוּ וַאֲרָזִים נַחֲלִיף (lĕbēnîm nāp̄ālû wĕgāzît nibneh; ši qmîm guddāʿû waʾărāzîm naḥălîp̄, “caíram tijolos, mas construiremos com pedra lavrada; foram cortados os sicômoros, mas os substituiremos por cedros”). A Septuaginta traduz ἐκκόψωμεν συκαμίνους καὶ κέδρους (ekkopsōmen sykamínous kai kédrous, “cortemos sicômoros e cedros”), preservando a oposição arbórea. Por inferência do próprio paralelismo, o versículo contrapõe material ordinário e material mais prestigioso, árvore mais comum e madeira mais nobre, de modo que o sicômoro participa da retórica da autossuficiência humana: em vez de ler o golpe recebido como chamado à conversão, o povo responde com projeto de reconstrução orgulhosa. Nesse texto, a árvore já não simboliza somente produção agrícola, mas a pretensão de superar o juízo por meio de engrandecimento autoconfiante.
A passagem mais delicada do ponto de vista exegético é Amós 7.14. Ali o profeta responde a Amazias: כִּי־בוֹקֵר אָנֹכִי וּבוֹלֵס שִׁקְמִים (kî-bōqēr ʾānōḵî ûbōlēs ši qmîm, “pois sou boieiro/pastor e tratador de sicômoros”). A dificuldade concentra-se em וּבוֹלֵס (ûbōlēs), pois o verbo não impõe de forma absolutamente unívoca se Amós “cultivava”, “tratava”, “incidia” ou “colhia” os frutos do sicômoro. A Septuaginta oferece καὶ κνίζων συκάμινα (kai knízōn sykám ina), confirmando pelo menos a ideia de atividade manual ligada aos sicômoros. Também por isso as versões modernas oscilam de modo significativo: KJV/ESV/NASB/NIV tendem a preservar a noção de alguém que “tende”, “dress” ou “takes care of sycamore-fig trees”, enquanto NVI/NVT deslocam o foco para “fazer colheita de figos silvestres” ou ser “colhedor de figos”. A ambiguidade, porém, não compromete o sentido principal do contexto: Amós reivindica origem rural e trabalho ordinário, não pertencimento a uma corporação profética profissional. O sicômoro, nesse caso, serve para sublinhar a procedência social do profeta e a gratuidade do chamado divino que o arranca de sua ocupação comum para enviá-lo a Israel.
No relato de Lucas 19.4, por fim, Zaqueu sobe numa συκομορέαν (sykomoréan, “figueira-sicômoro / sicômoro”) para ver Jesus. O uso desse termo, e não do vocábulo mais comum para a figueira ordinária, mostra que o grego do NT preserva a existência de uma árvore relacionada ao campo dos figos, mas lexicalmente diferenciada. Aqui a função narrativa é concreta: o sicômoro oferece a visibilidade que a multidão e a baixa estatura de Zaqueu lhe negavam. Ainda assim, a escolha lexical tem importância, porque confirma a continuidade do campo semântico: o universo bíblico dos “figos” inclui não apenas a figueira comum, mas também a figueira-sicômoro. Isso aparece inclusive nas traduções: NIV/NLT conservam “sycamore-fig tree”, ao passo que NASB/NRSV simplificam para “sycamore tree”; a primeira solução é mais útil quando se quer evitar que o leitor associe o texto a árvores modernas não relacionadas ao gênero dos figos. Assim, o sicômoro entra no NT não como simples curiosidade botânica, mas como prolongamento terminológico e cultural de um repertório vegetal já consolidado nas Escrituras anteriores.
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GALVÃO, Eduardo. Figo, Figueira. In.: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 1 set. 2009. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].
