2009/09/14

Infalibilidade e os Cristãos Primitivos

PRIMITIVOS, CRISTÃOS, INFABILIDADE
A doutrina da infalibilidade está intimamente vinculada à do “primado”, ou poder supremo, do papa. De acordo com a Enciclopedia Catolica, “os textos da Bíblia que estabelecem o primado dão testemunho da i[nfalibilidade] do pontífice”. Em apoio a tal doutrina, esta mesma obra cita os seguintes versículos, em que Cristo está falando a Pedro.

Mateus 16:18: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei minha Igreja.”

Lucas 22:32: “Mas eu roguei por ti, para tua fé não desfalecer; e tu, uma vez convertido, confirma os irmãos.”

João 21:15-17: “Apascenta meus cordeiros.” “Apascenta minhas ovelhas.” “Apascenta minhas ovelhas.” — Bíblia Vozes, católica.

Segundo a Igreja Católica, os versículos supracitados deviam demonstrar: primeiro, que Pedro era o “príncipe dos apóstolos”, isto é, que detinha o primado entre eles; segundo, que ele era infalível; e, terceiro, que ele teria “sucessores” que partilhariam de suas prerrogativas, o primado e a infalibilidade.

Neste respeito, contudo, Giuseppe Alberigo, preletor sobre história eclesiástica, tece os seguintes comentários significativos: “Como se sabe, no NT [Novo Testamento], o termo ‘papa’, ou a substantivação relativa ‘papado’, jamais ocorre. A única figura dominante é Jesus de Nazaré; entre os discípulos, e especialmente entre os apóstolos, é muito problemático reconhecer-se, à base dos textos, uma figura que se destaque acima das demais. Pedro, João, Tiago, Paulo, constituem figuras igualmente características e significativas, diferentes umas das outras e complementares. Sem dúvida, Pedro é apresentado como um dos apóstolos com quem Cristo falou com mais frequência, embora não seja o único, nem o mais significativo.”

Em que criam os cristãos primitivos? O Professor Alberigo responde: “Nos primeiros séculos, não existe nenhuma elaboração doutrinal ou nenhum pragmatismo quanto à figura e as funções do papa. . . . A possibilidade de um ‘episcopus episcoporum’ [bispo dos bispos] foi uma aberração de Cipriano [escritor do terceiro século], como ele afirmou no sínodo de Cartago.”

Quando foi que se arraigou a doutrina do papado? O Professor Alberigo diz: “Perto do fim do quarto século, a afirmação da igreja romana de possuir uma função apostólica, isto é, de coordenação das igrejas ocidentais, torna-se mais insistente.”

Foi “durante o episcopado de Leão I [quinto século]”, acrescenta Alberigo, que se desenvolveu “o conceito do ‘principado’ de Pedro entre os apóstolos, baseado em Mt 16:18”. “No NT, não se encontram indicações da parte de Jesus a respeito de sucessores de Pedro, ou dos outros apóstolos.”

Mas, será que versículos tais como Mateus 16:18, citado com maior frequência pelos teólogos católicos, apóiam a doutrina do papado?

Quem É a Preciosa “Pedra” de Alicerce?

“Tu és Pedro [grego, Pétros], e sobre esta pedra [grego, pétrai] construirei minha Igreja.” No que tange à Igreja Católica, a grande similaridade entre os dois termos mostra que Pedro é a pedra de alicerce da verdadeira igreja, ou congregação cristã. Mas, uma vez que a Bíblia tem muito a dizer sobre a pedra simbólica, é mister examinar outros versículos, a fim de obter um entendimento correto. Mateus 16:18, Bíblia Vozes.

Importantes profecias das Escrituras Hebraicas já haviam anunciado a vinda duma simbólica pedra de alicerce e o duplo papel que ela desempenharia. Devia ser um instrumento de salvação para aqueles que exercessem fé: “Eis que lanço por alicerce em Sião uma pedra, uma pedra provada, ângulo precioso de um alicerce seguro. Ninguém que exercer fé ficará em pânico.” (Isaías 28:16) Paradoxalmente, deveria ser uma rocha em que tropeçariam os israelitas descrentes: “A pedra que os construtores rejeitaram tem-se tornado a principal do ângulo.” (Salmo 118: 22) “Como pedra contra que se esbarra e como rocha em que se tropeça, para ambas as casas de Israel.” —Isaías 8:14.

Era possível para um simples homem, especialmente o impulsivo Pedro, desempenhar o duplo papel da pedra simbólica? (Mateus 26:33-35, 69-75; Marcos 14:34-42) Em quem devemos exercer fé, a fim de obter salvação, em Pedro ou em outrem maior do que ele? Em quem tropeçaram os israelitas, em Pedro ou em Jesus? As Escrituras indicam claramente que as profecias a respeito daquela preciosa pedra se cumpriram, não em Pedro, mas no Filho de Deus, Jesus Cristo. Foi Jesus quem aplicou as profecias de Isaías e do Salmo 118 a si mesmo, como mostra Mateus 21:42-45.

O próprio Pedro, como lemos em 1 Pedro 2:4-8, considerava Jesus, e não a si mesmo, como a pedra de alicerce. Numa ocasião anterior, ao falar aos líderes religiosos judeus, ele confirmou que “Jesus Cristo, o nazareno”, era “a pedra que por vós, construtores, não foi levada em conta, que se tornou a principal do ângulo”. — Atos 4:10, 11.

O apóstolo Paulo tinha essa mesma idéia, como se pode deduzir de textos tais como Romanos 9:31-33 1 Coríntios 10:4 e Efésios 2:20, este último versículo confirmando que os membros da congregação cristã são “edificados sobre o alicerce dos apóstolos e profetas, ao passo que o próprio Cristo Jesus é a pedra angular de alicerce”. Ele também é ‘cabeça da congregação’, a qual ele guia desde os céus. “Estou convosco todos os dias, até a terminação do sistema de coisas”, disse Jesus. — Efésios 1:22; 5:23; Mateus 28:20; Colossenses 1:18.

Pedro — Papa ou Um Entre Iguais?

Que instrumento utilizou Jesus para dirigir a obra de seus fiéis seguidores depois de ascender ao céu? Será que nomeou um deles como seu “vigário”, dotado de supremos poderes, como o papa? Não, ele não estabeleceu um sistema monárquico de governo para a congregação. Antes, ele entregou seu rebanho aos cuidados de um corpo, ou grupo, de servos fiéis. No seu início, a congregação cristã foi guiada pelo corpo inteiro dos 12 apóstolos, junto com os anciãos da congregação de Jerusalém.

Foram os 12 apóstolos, coletivamente, que decidiram como prover as necessidades materiais dos necessitados. (Atos 6:1-6) O corpo dos 12 também decidiu quem devia ser enviado aos samaritanos, depois de estes aceitarem as boas novas, e Pedro e João foram escolhidos. Nesta ocasião, parece que Pedro, longe de ele mesmo fazer as decisões, foi simplesmente um dos que os apóstolos “mandaram-lhes”. — Atos 8:14.

Por fim, foi durante a assembléia realizada em Jerusalém, por volta de 49 EC, que “os apóstolos e os anciãos” decidiram, à base das Escrituras, que não era preciso circuncidar os gentios convertidos ao cristianismo. (Atos 15:1-29) Do relato histórico, torna-se claro que não foi Pedro, mas sim Tiago, meio-irmão de Jesus, quem presidiu esta assembléia. Com efeito, ele concluiu o processo decisório por afirmar: “A minha decisão é não afligir a esses das nações, que se voltam para Deus.” (Atos 15:19) Teria Tiago podido falar de ‘sua decisão’ se Pedro, que estava presente, detivesse o primado entre os apóstolos?

O apóstolo Paulo, falando dos vários ministérios que contribuíam para a edificação da congregação, não mencionou o suposto magistério do papa, mas, em vez disso, o serviço coletivo de todos os apóstolos. — 1 Coríntios 12:28; Efésios 4:11, 12.

Graças a seu zelo e sua iniciativa, Pedro sem dúvida desempenhou um papel “considerável”, como Alberigo escreve. Jesus lhe deu “as chaves do reino dos céus”. (Mateus 16:19) Ele utilizou estas chaves simbólicas para abrir para os judeus, os samaritanos e os gentios a oportunidade de entrarem no Reino dos céus. (Atos 2:14-40; 8:14-17; 10:24-48) Também lhe foi dada a responsabilidade de ‘amarrar’ e ‘soltar’, tarefa esta que partilhava com os demais apóstolos. (Mateus 16:19; 18:18, 19) Ele devia pastorear a congregação cristã, algo que todos os superintendentes cristãos têm de fazer. — Atos 20:28; 1 Pedro 5:2.

No entanto, devido às suas qualidades cristãs, outros apóstolos, além de Pedro, também eram pessoas “de destaque”. Paulo falou daqueles “que pareciam ser colunas” da congregação, referindo-se a “Tiago, e Cefas [Pedro], e João”. (Gálatas 2:2, 9) Tiago, meio-irmão de Jesus, desempenhou um papel especialmente importante. Conforme já foi mencionado, ele presidiu a assembléia de Jerusalém, e existem vários relatos que confirmam seu notável papel. — Atos 12:17; 21:18-25; Gálatas 2:12.

Deus concedeu grande poder aos fiéis discípulos de Jesus, inclusive a capacidade de realizar milagres. Mas, em parte alguma lemos que ele lhes tenha dado poder para fazer declarações infalíveis. Embora fiel, Pedro cometeu erros. Ele foi repreendido por Jesus, e, numa ocasião, o apóstolo Paulo o corrigiu publicamente. Mateus 16:21-23; 26:31-34; Gálatas 2:11-14.

Apenas as Escrituras são infalíveis, sendo a Palavra de Deus. Pedro falou da “palavra profética” à qual se devia prestar atenção, como a uma lâmpada brilhante. (2 Pedro 1:19-21) Se havemos de conhecer a vontade de Deus, então temos de nos confiar à sua Palavra “viva”. (Hebreus 4:12) Apenas a Palavra de Deus, e não uma ambígua definição de líderes religiosos, oferece as certezas de que a humanidade tanto carece!

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