2011/03/12

Evangelho de João — Data da Escrita

Evangelho de João — Data da Escrita


Evangelho de João — Data da Escrita

Houve tanta controvérsia sobre a datação do Evangelho de João quanto houve sobre a autoria. Foram sugeridas datas, que variam desde o começo da vida da igreja militante até o final do primeiro século. O terminus ad quem deve ser necessariamente a data do Papiro 52. Este pequeno fragmento de João 18 foi encontrado no Egito e datado como pertencendo à primeira metade do segundo século, por volta de 130. Se o quarto Evangelho foi conhecido e publicado no Egito durante o primeiro quarto do segundo século, então deve-se conceder tempo para seu transporte para o Egito desde quando saiu do lugar em que foi composto (se o Evangelho não foi escrito no Egito). Isto, então, transportaria a data a vários anos atrás, até uma época por volta da mudança do século. Por outro lado, o terminus ad quo não é facilmente identificável. Pensou-se que João usou os Sinópticos como fontes para seu material, e se isto fosse verdadeiro, o quarto Evangelho iria incidir após a composição deles. Foi de maneira geral suposto que Lucas foi escrito por volta de 70 d.C, e João escrito alguns dez a vinte anos mais tarde, cerca de 80-90. Esta foi a época de escrita aceita pelos estudiosos liberais e conservadores. Kümmel acrescenta, à sua discussão de um parágrafo, acerca da data do quarto Evangelho, as palavras: “Desta forma, hoje é opinião quase comum que João foi escrito na última década do primeiro século” (Introduction to the New Testament — Introdução ao Novo Testamento, p. 175).

Mas nem todos os estudiosos (liberais e conservadores) concordam com essa datação tardia do quarto Evangelho. Deve ser observado que existe alguma evidência em favor de uma composição antiga do Apocalipse. Tertuliano faz a interessante declaração de que João foi banido de Roma (após ter sido imergido num caldeirão de óleo fervendo e sobreviver sem ferimentos) para a ilha de Patmos (De Praescriptione Haereticorum, XXXVI, 3). A isto pode-se acrescentar o testemunho de Clemente de Alexandria; ele escreveu que, quando de sua libertação de Patmos, João foi (Clemente não usou a palavra “voltar”) para Éfeso (Quis. Div. Salv.? XLII, 1; também citado em Eusébio, H. E., III, 23). A inferência é que isto ocorreu sob a perseguição de Nero e depois da morte de Paulo e de Pedro. Se, então, o Apocalipse pode ter sido escrito antes de 70 d.C, não existe nenhuma razão concreta para o quarto Evangelho não poder ter sido escrito por volta da mesma época.

John A. T. Robinson (em Redating the New Testament — Uma Nova Datação para o Novo Testamento) argumenta, mui forçosa e convincentemente, em favor de uma data anterior a 70 d.C. De fato, Robinson insiste que todos os livros do Novo Testamento tiveram que ser escritos antes desta data, devido à ausência de uma referência explícita ao único acontecimento mais importante do primeiro século, depois da ressurreição de Jesus Cristo. Esse acontecimento foi a destruição de Jerusalém e do Templo pelos romanos, sob Tito, em 70 d.C. Isto significaria que muitos dos argumentos em favor da datação tardia da leitura joanina não mais são aplicáveis. Se João realmente usou os Sinópticos como fontes, mesmo estes foram escritos antes de 70. Segundo as palavras de Tertuliano e Clemente de Alexandria, João teria estado em Patmos, para escrever o Apocalipse, e depois foi para Éfeso, e lá escreveu o Evangelho. Tudo isto antes de Tito ter entrado em Jerusalém com as destruidoras legiões romanas.

Mais difícil de se explicar é o argumento acerca da teologia desenvolvida, que parece estar refletida no quarto Evangelho. Foi mantido que este Evangelho representa uma situação histórica de gnosticismo desenvolvido e uma relação tão forçada entre o cristianismo e o judaísmo que não poderia ter existido antes do final do primeiro século. Pode-se dizer, com alguma confiança, no momento presente, que os rolos de pergaminho do Mar Morto mostraram que as idéias helenísticas eram comuns na Palestina antes da época de Cristo. Há muitos pontos de contato entre o quarto Evangelho e os rolos, mas nenhum paralelo exato. Contudo, os rolos mostram que muita coisa do que se pensou ser do segundo século foi, na realidade, encontrada na Palestina antes de 70 d.C. Como a comunidade de Qumram fora destruída nessa época, estas idéias devem ter estado presentes por um considerável período de tempo. Este é especialmente o caso com referência ao gnosticismo. Reconhece-se agora que João não reflete um gnosticismo do segundo século, mas os conceitos prevalecentes durante a primeira parte do primeiro século. Portanto, o argumento de que foi necessário tempo para o desenvolvimento do gnosticismo, conforme encontrado em João, não mais é válido.

Constatou-se também que o judaísmo era muito mais forte antes de 70 d.C. do que depois. Deve-se observar que o termo “judeus”, no Evangelho de João, refere-se primariamente aos líderes religiosos, e não ao povo como um todo. Desde o princípio, João mostra que havia uma hostilidade contra Jesus, da parte dos líderes. Após a morte de Jesus, essa hostilidade é vista no livro de Atos e em Paulo. Não tem de haver um longo período de tempo para esse cisma, que se desenvolvia. Ele estava lá desde o começo do ministério de Jesus.

Outra razão dada para a datação tardia do quarto Evangelho é a teologia altamente desenvolvida encontrada nele. Contudo, a teologia não é mais desenvolvida que a de Paulo, encontrada na Epístola aos Romanos. Esta carta foi escrita, no mínimo, por volta de 50-56 d.C. Assim, João poderia ter escrito o Evangelho por volta da mesma época, no tocante à teologia. A teologia é profunda, em nosso quarto Evangelho, mas Paulo mostra que este era o pensamento vigente da igreja antes de seu encarceramento. Não houve nenhum avanço sobre a teologia contida em Romanos; João simplesmente a expressa de outro modo.

Desta forma, nenhum dos argumentos em favor de uma data tardia está fora de contestação. Isto não quer dizer que o Evangelho teve que ser escrito na última década do primeiro século. Quer dizer que não podemos fixar precisamente uma época de sua composição. Uma solução sugerida é que as origens do Evangelho são anteriores a 70 d.C. e ele foi composto e publicado em Éfeso pela época da morte de João, com o apêndice acrescentado, para dar testemunho de que proveio da mão do “discípulo a quem Jesus amava”, João, o filho de Zebedeu. Isto é convidativo, e é uma maneira de tentar tornar disponível a maior parte da melhor evidência acerca da autoria e datação. Esta ideia não é recente, mas está agora sendo sugerida por mais e mais críticos que não podem decidir a questão em definitivo. Tais idéias são interessantes, mas não encerram a questão. A mim me parece que a conclusão mais provável é que João escreveu antes da época da destruição de Jerusalém e a referência contida em João 21:24 foi acrescentada na época de sua apresentação pública em Éfeso. Esta me parece ser a conclusão mais lógica, após examinar a evidência embaraçosa e contraditória dos escritores cristãos primitivos.

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