2011/03/13

Evangelho de João — Harmonia de Textual

Harmonia Textual do Evangelho de João

Harmonia Textual do Evangelho de João


De que maneira o quarto evangelho chegou à forma com que se nos apresenta hoje? Essa pergunta surge obrigatoriamente durante a leitura do evangelho. Por um lado, o evangelho se caracteriza por uma unidade singular, tanto que poderíamos dizer que o autor o escreveu em uma sentada. Por outro lado, há trechos inexplicáveis, que nos fazem supor terem existido diversos extratos de tradições até a forma atual.

7.53—8.11 não está nos manuscritos mais antigos do NT e provavelmente foi acrescentado ao evangelho de João de outras fontes.

21 parece ser um epílogo de outro autor, já que em 20.30s é feito o encerramento do evangelho. Em 21.24 a mão de alguém que ajudou o autor é evidente.

5-6 surge a pergunta se os capítulos foram trocados, já que a mudança de local de Jerusalém para a Galiléia acontece sem aviso ou explicação.

15-17 parecem um acréscimo posterior ao final do discurso em 14.31.

A isso acrescentam-se ainda observações que muitos estudiosos do NT consideram desequilíbrios teológicos: Por um lado, o quarto evangelho enfatiza o tempo presente da salvação (escatologia presente; 3.18,36; 5.24; 11.25). Por outro lado, fala também da ação futura no fim dos tempos (escatologia futura; 5.28s; 6.39s,44b,54; 12.48). Será que esses desníveis têm alguma relação com a história das tradições? Várias soluções foram sugeridas.

Talvez tenha havido trocas de folhas, por engano, no trabalho dos copistas nos capítulos 5 e 6 como também nos capítulos 14 e 15. Trocas de páginas são comprovadas em escritos antigos.(22)

E. Schweizer(23) e A. Wikenhauser(24) defendem essa posição, que, no entanto, é pouco provável porque os trechos supostamente trocados não têm a mesma extensão.

Outros tentam comprovar a utilização de várias fontes, que supostamente foram introduzidas no evangelho. Em Lucas há menção explícita de que os evangelistas trabalhavam com fontes diversas (Lc 1.1-4). R. Bultmann foi o que mais trabalhou com essa hipótese das fontes. Ele tentou comprovar a existência de escritos de duas fontes no evangelho de João: a fonte dos sinais e a fonte dos discursos da revelação. Para comprovar a primeira, ele se baseou na enumeração dos sinais em 2.11 e 4.54. Concluiu daí que na fonte dos sinais a enumeração continuava, mas o evangelista não deu seqüência a ela no seu texto. A fonte dos discursos da revelação se fundamenta nos desníveis presentes nos discursos de Jesus no evangelho de João. É verdade que após a reconstrução da fonte original feita por Bultmann, o pensamento do texto é retilíneo (ex.: 6.27-59; 6.27,34s,30-33,47-51a,41-46).25 Mas a estrutura de pensamento típica de João — e provavelmente a de Jesus também — foi quebrada por meio dessa reconstrução.

Como complementação para a separação das fontes, ou como alternativa a ela, é sugerida a revisão redacional. O que se quer dizer com isso é que a obra do autor foi continuada por um de seus discípulos. A favor disso estaria a observação em João 21.24s. Supõe-se que esse discípulo fez acréscimos e mudanças que explicariam os desníveis que encontramos no texto hoje. R. Schnackenburg crê que, com esta hipótese, a maioria dos desníveis podem ser explicados, sem, no entanto, colocar em dúvida a veracidade das tradições, já que mesmo o discípulo era da escola joanina. Mesmo assim, essa tentativa de solução não é tão inofensiva, pois já ficou demonstrado que também é usada para aliviar tensões teológicas com base em revisões redacionais. O problema com isso é que é muito fácil substituir o texto em questão pela imaginação que o intérprete faz do texto.

Pode ser também que o autor não tenha escrito o seu evangelho de uma só vez. Talvez teve de interromper o seu trabalho e reiniciá-lo depois de algum tempo. Achou que alguns acréscimos eram importantes, sem que achasse necessário reescrever todo o texto. Talvez ele não teve tempo de trabalhar os desníveis. De qualquer forma, segundo a opinião de W. Wilkens(27), o evangelho passou por um processo de expansão na mão do evangelista. Isso é imaginável, mas não pode ser comprovado historicamente. Por isso esta solução é considerada pura especulação por muitos eruditos.

Considerando e avaliando as diversas propostas de solução, parece que R. Schnackenburg tem razão nos seguintes aspectos:

Do ponto de vista literário, o evangelho de João está baseado em extratos diversos e independentes, mas na base é obra completa do evangelista. Ele se baseia em tradições que não surgiram de fontes escritas. Em alguns lugares há semelhança com a tradição dos sinópticos. Para o material exclusivo em João, o autor dispunha de impressões pessoais, relatos falados e material oral que era material confiável. Em alguns trechos o autor se baseia aparentemente em material litúrgico (prólogo). O evangelista não pôde dar a última forma ao seu livro. Por isso uma revisão redacional foi necessária. Essa revisão está no capítulo 21 e talvez também explique outros desníveis em outros trechos do evangelho.

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NOTAS
20. R. Schnackenburg, Johannesevangelium, IV/1, p. 127.
21. R. Schnackenburg, Johannesevangelium, IV/1, p. 140.
22. R. Schnackenburg, Johannesevangelium, IV/1, p. 41.
23. E. Schweizer, Ego eimi, p. 109ss.
24. A. Wikenhauser, Evangelium nach Johannes, p. 34-37.
25. R. Bultmann, Evangelium nach Johannes.
26. R. Schnackenburg, Johannesevangelium, IV/1, p. 59-60.
27. W. Wilkens, Die Entstehungsgeschichte des vierten Evangeliums. Zürich, 1958.

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