2014/09/28

Comentário de Apocalipse 18:1-24 (J. W. Scott)

Comentário de Apocalipse 18

APOCALIPSE 18, COMENTÁRIO, ESTUDO, LIVROEste capítulo modela-se nos cânticos de vitória dos profetas do Velho Testamento sobre as nações hostis dos seus tempos. Tão rememorativo destes é ele, que se pode dizer que sumaria todos os oráculos proféticos sobre a destruição dos povos injustos. As profecias contra Babilônia (Is 13; 21; 47; Jr 1; 51) e Tiro (Ez 26-27) parecem ter estado especialmente na mente de João. Descreve-se a glória deste anjo (1) em palavras empregadas por Ezequiel na descrição da chequiná (glória de Deus) que voltava para o templo restabelecido (Ez 43.2). Para semelhantes quadros de resplendor angélico, cfr. Ap 10.1 e Ap 14.14. Caiu, caiu a grande Babilônia (2) é uma citação de Is 21.9. Para o resto do versículo, cfr. Is 13.21-22. Estritamente falando, este quadro é incompatível com Ap 19.3; não é impossível que João misture propositadamente o seu simbolismo, esperando que os seus leitores exercitem cautela na interpretação. Comparar ambos os vers. com Is 13.19-22. Porque todas as nações beberam do vinho da ira da sua prostituição; isto atribui a Roma a responsabilidade pela corrupção de toda a terra. Cfr. o vers. 4 com Jr 51.6,45; Is 52.11; também o vers. 5 com Jr 51.9; e o vers. 6 com Jr 16.18; Jr 51.29; Is 40.2. Dirige-se o clamor do vers. 6 aos exércitos vingadores do anticristo e os seus aliados? Ver Ap 17.12-13,16-17. O juízo de Roma deverá ser em proporção à sua autoglorificação, devassidão e orgulho; cfr. Is 47.7-9. É possível que no vers. 8 como em Ap 6.8, thanatos deva ser traduzida "pestilência", em vez de morte. Podemos também traduzir penthos por "calamidade", em vez de pranto, assim fazendo as três pragas "pestilência e calamidade e fome". A destruição pelo fogo faz-se pelas hostes invasoras sob o anticristo; cfr. Ap 17.16.

A lamentação sobre Babilônia faz-se pelos reis da terra (9-10), os mercadores da terra (11-17a) e os proprietários de navios e marinheiros (17b-19). João aqui endivida-se particularmente ao cântico de destruição de Ezequiel sobre Tiro (Ez 26-27). Note-se que os reis da terra (9) são aqueles mencionados em Ap 17.18, não aqueles em aliança com a besta (Ap 17.16-17). Cfr. Ez 26.16-17. A substância de cada lamentação é a mesma, a saber, pois numa hora veio o seu juízo (10; ver vers. 17,19).

Com o vers. 11 cfr. a lista das nações mercantes que negociavam com Tiro (Ez 27.12-24) e o seu pavor e medo (Ez 27.35-36). Vers. 12-13 fornecem uma relação das mercadorias vendidas pelos mercadores a Roma. Cfr. as importações de Tiro (Ez 27.12-24). Madeira odorífera, vinha da África setentrional e era especialmente usada na fabricação de mesas dispendiosas. Marfim era popular entre os romanos tanto para adorno para móveis como para ornamentos. Cinamomo é uma especiaria aromática, "amomo" era uma planta fragrante da Índia, usada na fabricação de caro unguento para os cabelos. Carros aqui são de um gênero especial (gr. rhedai), tendo quatro rodas e muitas vezes custosamente decorados. Duas palavras são usadas aqui para escravos: sõmata, "corpos", e psychai anthrõpõn, "algumas de homens", esta última frase ocorrendo em Ez 27.13. Talvez João tenha empregado ambos os termos para exprimir a sua repugnância ante um sistema tão brutal, que esmagava tanto os corpos como as almas dos homens. Swete observa que, enquanto os reis lamentam sobre Babilônia pela força que lhe partira (10), os mercadores se preocupam principalmente com a riqueza que esvanecera; assim também os marinheiros, no vers. 19.

O apelo aos céus e à Igreja para regozijar-se sobre o juízo de Babilônia (20), formando um forte contraste à lamentação anterior, parece proceder do mesmo profeta. Se deverá ser assim ou não, Ap 19.1-7 forma uma resposta adequada ao clamor. A ação simbólica do anjo (21-24) sugere-se por uma semelhante feita sobre Babilônia por Jeremias (Jr 51.63-64). Mousikõn, traduzida músicos (22), deve ser traduzida "cantores" como em Test. Judá 23.2. A sentença relembra Ez 26.13. As cláusulas que se seguem, descrevendo a cessação de artes, indústria, as alegrias do matrimônio e todos os meios de iluminação, reproduzem Jr 25.10, porém, numa ordem diferente. Os teus mercadores eram os grandes da terra (23) foi primeiro dito por Isaías com relação a Tiro (Is 23.8). Aduze-se como uma razão pelo juízo de Roma porque, julgando do vers. 3, os seus mercadores promulgaram a "devassidão" da cidade, e isso de pura ambição, e desta maneira eles mesmos se ligavam com o vício luxurioso de Roma. Isaías já havia comentado as feitiçarias da original Babilônia (Is 47.12), e Naum trouxe uma acusação semelhante contra Nínive, (Na 3.4) . As feitiçarias (23), contra as quais se invectiva, podem ser tomadas no sentido literal de magia negra, porém mais provavelmente "a feitiçaria de vício alegre e luxurioso e as suas idolatrias concomitantes, pela qual o mundo era fascinado e desviado" ("Swete").

Cfr. o vers. 24 com Mt 23.35, onde o nosso Senhor acusa Jerusalém da mesma maneira. A afirmação de João se justifica não somente pelas perseguições ferozes que ele antecipava se ergueriam na grande tribulação, mas também pelo seu conceito de Roma como a encarnação do espírito do mal, que tem assaltado ao povo de Deus (ver notas sobre Ap 17.7-18).

Uma principal pergunta pede a consideração da leitura dos cap. 13, 17 e 18. Se Roma é o Império das visões de João, não são eles desacreditados, vendo que Roma subsequentemente não foi destruída, mas se tornou um centro universal do Cristianismo? Não há, contudo, nenhuma dúvida de que Roma fosse, na realidade, a cidade meretriz das visões de João. O profeta faz tudo senão nomeá-la em Ap 17.9,18
e pelo seu uso do nome místico Babilônia (ver 14.8 n.). Roma era, para João, o requinte do espírito ímpio manifesto nas eras mais antigas, porém, agora, em seu auge. Como tal, era o último Império sobre o qual o diabo dominaria. O aparecimento impendente de um anticristo pessoal, que encarnaria a sua maldade, seria um fenômeno de curta existência. João parece sugerir que cairiam brevemente os juízos messiânicos e o domínio de Roma cederia lugar ao reino milenário. Antes de passar juízo nesta matéria, torna-se necessário recordar que o ponto de vista de João em nada difere do parecer de seus predecessores no ofício profético. Todos os profetas aguardavam derrota da nação opressora do seu dia, seguida pelo estabelecimento do reino de Deus. Isaías esperava que o livramento messiânico se seguisse ao juízo de Deus sobre a Assíria (ver Is 10-11), Habacuque, na destruição de Babilônia (Hb 2.2-3), Jeremias, Isaías e Ezequiel, todos profetizavam o estabelecimento do reino depois do retorno dos judeus, sob Ciro (Jr 29-31; Is 49; 51; Ez 26). Ageu, escrevendo depois daquele retorno, predisse o advento do reino após o término do templo, que estava então no curso de reconstrução (Ag 2), enquanto toda a visão de Daniel colocou o término depois da derrota de Antíoco Epifânio. Semelhantemente no Novo Testamento, a segunda vinda de Cristo parece ser esperada no futuro não muito remoto (Rm 13.11-12; 1Co 7.29-30; Hb 10.37; Tg 5.8; 1Pe 4.7; 1Jo 2.18; Ap 1.3). Até mesmo o nosso Senhor coloca o seu ensino, com respeito ao segundo advento, lado a lado com as suas profecias concernentes à queda de Jerusalém (ver Mc 13).

Não era João exceção a esta regra. Foram-lhe dadas revelações da consumação da era. Elas não foram novas; estavam de acordo com a fé do resto da Igreja, ainda que formassem um avanço nela. Toda a Igreja esperava uma última rebelião sob um anticristo como o precursor do fim, e não tinha nenhuma dúvida quanto à conseqüência do conflito. Viu João que Roma já estava apresentando o papel de anticristo. Como a conseqüência destas tendências era precisamente a de que falavam os profetas anteriores, ele aplicava as suas visões à situação. Roma era a cidade meretriz, um imperador demoníaco seria o anticristo pessoal, e o sacerdócio do culto do imperador supriria o falso profeta. Estava preparado o palco para o fim e João descrevia o drama. Que o fim não chegou então, não invalida a essência da sua profecia, não mais do que os outros profetas de que temos falado. Os muitos anticristos desde o dia de João têm-se aproximado mais e mais do retrato dele e culminarão em um que calhará perfeitamente. O que dizer do retrato que João fez do próprio anticristo? Muitos expositores entendem em um sentido literal a sua aparente reprodução da legenda de Nero. Deve-se notar, contudo, que João não tem empregado esta ideia isoladamente, mas tem-na fundido com a saga Tiamat. Esta última é usada em um sentido puramente alegórico, como é aparente pelo fato de o monstro representar o diabo, o Império e o anticristo pessoal, cada um por seu turno. Que João desse o mínimo crédito ao mito original da morte de Tiamat por Marduk é fora de questão, se bem que, com toda a certeza, ele seria sabedor do caso. Sua habilidade em transformar histórias populares, como um meio para proclamar o evangelho, vê-se na aplicação do mito do Redentor universal no cap. 12. De uma maneira semelhante, ele se serviu da legenda do retorno de Nero dos mortos como um excelente retrato do anticristo, porém sem nenhum intento de declarar a sua crença nela; ele simplesmente diz que o anticristo será um agente diabólico de uma ordem semelhante ao Nero da corrente expectação.

Uma consideração que prova este ponto, para o presente escritor, pelo menos, é o conhecimento de João de uma profecia muito anterior, a respeito de alguém voltando dos mortos para tomar parte ativa no tempo do fim: Malaquias havia dito que Elias viria antes do dia do Senhor (Ml 4.5). João deve ter sabido como o nosso Senhor aplicou esta profecia a João Batista; ele mesmo colocou-a em uso ainda mais largo aplicando-a à Igreja (Ap 11). Era, por conseguinte, tanto simples como natural para ele representar o anticristo como trabalhado "no espírito e poder de Nero" (cfr. Lc 1.17) por empregar a história de "Nero Redivivus" sem mais explanação; em vista do ensino acerca de "Elias Redivivus", não era necessária mais explanação.




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