2014/10/14

Comentário de Apocalipse 3:1-22 (J. W. Scott)

Comentário de Apocalipse 3

APOCALIPSE 3, COMENTÁRIO, ESTUDO, LIVROSardes era uma cidade de glória delustrada. Outrora tinha sido a capital do antigo reino da Lídia, mas entrou em ocaso, depois da conquista persa, até que Tibério a reconstruiu depois de um terremoto. A cidade era célebre por duas coisas: a sua indústria de tintura e lã, e a libertinagem. A igreja em Sardes parece refletir a história da cidade. Houve tempos quando tinha um nome para progresso espiritual, mas agora era sem vida (1); a libertinagem caracterizava tanto os cristãos como os pagãos, de sorte que ali havia poucas pessoas que não tinham contaminado os seus vestidos (4), isto é, manchado a sua profissão cristã. Consequentemente, ela foi censurada com uma severidade igualada somente na carta aos laodicenses. O título reflete Ap 1.4 e Ap 1.16. Cristo se apresenta como o possuidor dos sete espíritos, possivelmente para representar o Seu perfeito conhecimento dos feitos da igreja (veja vers. 6), se bem que isto possa sugerir os dons espirituais que ele deseja conferir-lhe em contraste ao estado desanimado da igreja. Para as sete estrelas (1) ver Ap 1.4; Ap 1.20. Note-se que embora alguns cristãos permaneçam fiéis ao seu Senhor (4), a igreja como tal é caracterizada como morta; por estarem nesta condição todos são tidos como responsáveis. Com a primeira parte do vers. 2, comparar Mt 24.42; com a segunda parte, comparar Dn 5.27. Os tempos dos verbos no vers. 3 são descomunalmente variados: "Lembra-te (presente), pois, do que tens recebido (perfeito) e ouvido (aoristo); e guarda-o (presente), e arrepende-te (aoristo). E, se não vigiares (3) relembra Mt 24.43-44 e se refere ao Advento final. Alguns estudiosos consideram que Ap 16.15 tem sido deslocado e deve ser inserido logo antes desta afirmação. É fato que a situação de Ap 16.15 no contexto atual é curiosa e fica melhor aqui, mas a deslocação do texto não passa de ser pura conjetura. O seu nome (5). Segundo certo uso da época o nome era sinônimo de "pessoa". É de supor que os cristãos contaminavam os seus vestidos acomodando-se aos costumes pagãos dos seus próximos. Aquele que mantinha o seu caráter e testemunho imaculados haveria de acompanhar a Cristo num vestuário de glória. Andarão comigo (5); Swete compara o convívio dos doze com Ele, nos dias do seu ministério terrestre. O vencedor recebe a dupla promessa deste privilégio. A literatura apocalíptica, contemporânea considerava o corpo da ressurreição como um vestuário de glória. A ideia é usada por Paulo (ver 2Co 5.4), e se revela neste livro também (ver Ap 4.4). Porém Ap 7.13-14 e Ap 19.8 parecem salientar a pureza moral no uso deste símbolo, enquanto que, segundo Swete, o uso de branco às vezes denota festividade (Ec 9.8) e vitória (2Mac 11.8). Parece que várias idéias se associam com este quadro; é bom aceitar e ao mesmo tempo reconhecer que o elemento ético predomina. O riscar do livro da vida (5) recorda Êx 32.32, onde o livro mencionado é um registro dos cidadãos do reino teocrático, aqui trata-se do registro de reino eterno, como em Dn 12.1 e muitas passagens neotestamentárias (ver por exemplo, Lc 10.20; Fp 4.3; Hb 12.23). Ver Ap 20.12,15, onde isto se explica. Para a confissão do vencedor, comparar Mt 10.32.

Devido a freqüentes terremotos, a população de Filadélfia era pequena. A igreja parece ter sido numericamente fraca (ver vers. 8, "tendo pouca força"). Não há nenhuma alusão à perseguição das autoridades pagãs nem a heresias dentro da igreja; como em Esmirna, os judeus criavam um problema (9). Em contraste notável à carta que precede e à que se lhe segue, não há repreensão nem advertência do Senhor para esta igreja, mas apenas encômio e exortação. Os predicados santo e verdadeiro (7), aplicados aqui a Cristo, são usados em Ap 6.10 em referência a Deus, assim dando uma das muitas indicações neste livro de que os atributos de Deus são compartilhados por Cristo. Jesus é verdadeiro no sentido de "fiel a sua palavra". Isto se diz em conexão com a sua posse da chave de Davi (7), uma frase que recorda Ap 1.18, mas que, na realidade, cita Is 22.22; reivindica para Cristo o direito de ingressar ou fechar ao homem a cidade de Davi, a nova Jerusalém, o reino messiânico. A relevância deste poder se manifesta no trecho entre parênteses, vers. 8-9.

Os judeus de Filadélfia não eram mais dignos do nome do que os seus compatriotas em Esmirna e, como estes, são designados a sinagoga de Satanás (9). Este versículo declara que um dia, presumivelmente ao estabelecer-se o reino messiânico, eles serão obrigados a reconhecer que estes cristãos desprezados são na realidade os companheiros do Filho do Homem, os herdeiros do reino de Deus. É claro que os judeus ainda negavam esta última reivindicação. "Vós cristãos", diziam eles, "sois excluídos do reino; é para nós, os judeus". "Assim não", declara o Senhor; "Eu sou fiel à minha promessa. Só eu tenho a chave do reino. Tenho posto diante do meu povo, uma porta aberta que ninguém pode fechar. Eles entrarão no reino, e a homenagem que vós, judeus, esperais receber dos gentios (Is 60.14), vós tereis que prestar a eles". Esta interpretação coaduna afirmações aparentemente sem nexo e concorda com a promessa do vers. 12. A fidelidade desta fraca comunidade cristã (8) receberá a sua devida compensação. A hora da tentação ("provação"), de que o Senhor guardará estes cristãos, não se refere ao prazo em que os juízos de Deus cairão sobre a terra, mas às próprias tribulações. Cfr. Mc 14.35, onde a "hora" representa os horrores da cruz e as circunstâncias concomitantes. A tribulação mencionada aqui se aplica àqueles que habitam na terra (10), a frase técnica neste livro para os descrentes do mundo (cfr. Ap 11.10). Para uma representação pictórica desta promessa ver Ap 7.1-4.

O vencedor será na nova era uma coluna no templo (12); Ap 21.22 torna claro que não haverá outro templo na Jerusalém celeste senão Deus e o cordeiro. Esta promessa assegura nossa indissolúvel união com Deus para todo sempre. Escreverei sobre ele o nome do meu Deus (12). Caso esta frase se usar com a mesma metáfora a inscrição seria na coluna e não na testa do vencedor. I Macabeus 19.26-48, relata como os feitos de Simão Macabeus foram inscritos sobre tábuas de bronze; estas foram fixadas "sobre colunas no monte de Sião", "dentro do recinto do santuário, num lugar conspícuo". Destarte foram conservados permanentemente os anais das façanhas de Simão. O motivo de orgulho do vencedor, contudo, não deverá ser nos seus feitos, mas antes no fato de que ele leva o nome do seu Deus, e da cidade de Deus, e o novo nome de Cristo; isto é; ele pertence a Deus e a Cristo revelado em glória (Ap 19.12); é cidadão da nova Jerusalém, o eterno reino de Deus (Ap 21.2).
Laodicéia era situada à margem dum rio e ficava no entroncamento de três estradas que atravessavam a Ásia Menor. De modo natural, ela se tornou um grande centro comercial e administrativo. Três fatos que se conhecem acerca da cidade, lançam luz sobre esta carta: era um centro bancário de fabulosas reservas financeiras; as indústrias principais eram de tecidos e tapetes de lã; possuía também uma faculdade de medicina. A igreja não era acusada de imoralidade, nem de idolatria, nem tão pouco de franca apostasia (perseguição era desconhecida em Laodicéia). A terrível condenação que se pronunciava sobre ela era devido ao orgulho e auto-satisfação do elemento pagão dentro da igreja de sorte que sua comunhão com Cristo se enfraqueceu tragicamente. A severa descrição da sua condição espiritual (17) e a admoestação ao arrependimento (18), são apresentados em termos das três ocupações da cidade. Na qualidade de o Amém (14) Jesus é a encarnação da verdade e fidelidade de Deus (ver Is 65.16); o uso cristão do Amém acrescenta a ideia de que Ele é também cumpridor fiel dos propósitos declarados de Deus. Nesta designação achamos um contraste singular com a infidelidade dos laodicenses. Semelhantemente o título o princípio da criação de Deus (14) exalta a Cristo como Criador acima das pequeninas criaturas orgulhosas que se gabam da sua auto-suficiência. No vers. 16, se encontra uma censura sem igual no Novo Testamento, como expressão do aborrecimento de Cristo. A referência prende-se ao último juízo (cfr. Lc 13.25-28). Os vers. 17 e 18 formulam uma só afirmação: Pois dizes: ... Aconselho-te que compres... A pretensão dos laodicenses não é apenas que eles de nada carecem, mas que a sua riqueza, tanto moral como material se deve completamente aos seus próprios esforços. Revela-se a sua verdadeira condição de pobreza, apesar de possuir dinheiro; de nudez, a despeito da sua abundância de vestidos; de cegueira, embora haja nela muitos médicos. Esta igreja, portanto é a única de todas as sete, a ser chamada de miserável. O seu recurso é "comprar" (cfr. Is 55.1) de Cristo o ouro fino de um espírito regenerado, de pureza de coração, que possa levá-la à glória da ressurreição (Ap 7.13-14) e da graça pela qual possa apropriar as realidades espirituais (cfr. 1Co 3 e 2Co 4). A condição repugnante dos laodicenses não extinguiu o amor de Cristo para com eles; a escorchante censura não é senão a expressão do seu profundo afeto que os possa levar ao arrependimento. O gracioso convite que se segue dirige-se, não à igreja coletivamente (que exigiria "se ouvirdes" a minha voz, mas a cada membro individualmente. Cristo deseja participar com eles mesmo nas atividades mais comuns da vida. Coincidente com o alto privilégio que se oferece a estes cristãos quase apóstatas é a promessa que transcende às que foram aplicadas às outras igrejas. Assim como o crente pede a Cristo que compartilhe consigo tudo quanto tem vida transitória, de igual modo, o Senhor o convida, se ele permanecer até o fim, a compartilhar o trono dos séculos vindouros dado pelo Pai. O cumprimento da promessa do reino milenar é descrito em Ap 20.4-6, e do reino eterno da nova Jerusalém em Ap 22.5.





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