Comentário de Romanos 12:1-21 (J. W. Scott)

Comentário de Romanos 12:1-21 (J. W. Scott)

Comentário de Romanos 12



Romanos 12

O apóstolo encerrou as partes doutrinárias da epístola, que se ocuparam de princípios e problemas. Mostrou como ajustar relações com Deus e como manter essas relações. Defendeu esta livre justiça de Deus contra todas as objeções. Agora procura explicar a vida da fé na prática e inculcar a seus leitores o dever da vida cristã. A justiça de Deus aceita pelo crente é uma experiência interior que deve ter expressão exterior. A conclusiva pois do vers. 1 marca a transição, das doutrinas da justificação, santificação e eleição, por ele defendidas, para o Cristianismo aplicado. A vida cristã é radicalmente consagrada a Deus, vivida não em conformidade com o mundo, mas em “transformação” no sentido de Deus. O modo como o apóstolo se dirige aos cristãos de Roma serve de modelo para todos os veros pregadores. Rogo-vos, pois, irmãos (1); cfr. o mesmo apelo em Ef 4.1; 1Tm 2.1; 1Co 4.16. Note-se que as misericórdias de Deus (1) constituem a base do apelo. São as misericórdias todas que Paulo referiu na maneira compassiva de Deus tratar os pecadores de ambos os lados, judeus e gentios. O que pede é um culto racional (1), isto é culto espiritual, ou oferenda, em contraste com o sacrifício de animais brutos, uma entrega moral a Deus, antes que cerimonial (cfr. 1Pe 2.5). Esta consagração envolve corpo e espírito. Pode ser que Paulo insista com os cristãos romanos para apresentarem seus corpos (1) pelo motivo de existir uma tendência para amesquinhar a carne e abusar do templo terrestre como essencialmente mau. O conceito que o cristão faz do corpo, como sagrado e como servo da alma, é único entre as religiões do mundo. Uma vida santa é nimiamente agradável a Deus (cfr. Rm 14.18; Fp 4.18). Este sacrifício vivo inclui também a mente que, entretanto, deve ser renovada para poder ser oferecida (2). É um milagre de transformação, readaptação a realidades temporais e eternas. As ideias que esses termos apresentam, de não conformidade e transformação, são impressionantes. A primeira tem a raiz schema, implicando aparência externa; a outra deriva-se de morphe, significando semelhança essencial e radical. A consequência é o reconhecimento da vontade de Deus como justa, adequada e ideal. Depois deste exórdio, que apresenta o princípio fundamental da vida cristã, sacrifício pessoal e devotamento a Deus, o apóstolo passa a aplicar a lei em quatro seções exortativas.

Nesta seção, o apóstolo evidentemente visa às relações com cristãos e pagãos. Suas advertências são dadas espontaneamente, sem qualquer tentativa de apresentação lógica; todavia, muitas, de maneira característica, se apresentam agrupadas.

1. O EXERCÍCIO DOS DONS (Rm 12.3-8) - Pela graça que me foi dada (3); Moff. “em virtude do meu ofício”. Paulo declara que os talentos de Deus recebidos devem ser usados com humildade. Os que têm dons especiais são tentados a fazer alto conceito de si mesmos e a se tornar importantes; daí o apóstolo avisar que os tais se devem olhar com seriedade e evitar vaidade. Uma atitude razoável quanto a isso baseia-se no fato de os dons procederem de Deus, e, na verdade, da interdependência de todos, visto como Deus repartiu a cada um segundo a medida da fé (3). Esta ideia de distribuição segundo a fé, como norma da concessão de dons, leva o apóstolo a apresentar a figura do corpo com seus membros (4-5; cfr. 1Co 12.12; Ef 4.16; Cl 1.18). Ele está pensando claramente na comunidade cristã como organismo social, com os seus vários membros cooperando em serviço mútuo. Segue uma lista de sete dons ilustrativos, correlacionados em suas funções (6-8). A profecia (6), isto é, a declaração inspirada da verdade, ou a pregação (cfr. 1Co 15.1) deve ser exercida segundo a proporção da fé. Pode isto querer dizer que, quanto mais cheia de fé for a pessoa, tanto melhor será sua pregação, ou, então, que suas palavras devem sempre estar em harmonia com o seu credo (interpretando-se objetivamente a palavra “fé”). Ministério (isto é, o trabalho de diácono, serviço no que concerne às coisas materiais, antes que às espirituais), ensino e exortação são três dons que devem ser usados cada qual no seu lugar; do contrário, não produzirão efeito (7-8). A contribuição ou a liberalidade deve ser exercida com simplicidade (8), isto é, sem ostentação (cfr. 2Co 9.11-13; Tg 1.5) e simplesmente por causa da necessidade. Quem preside (8); isto é, o que tem autoridade, ou qualidades de liderança. A referência pode ser ao lar (cfr. 1Tm 3.4-5,12) ou à congregação (cfr. 1Ts 5.12; 1Tm 5.17). Quem exerce misericórdia (8); isto é, quem é ativo em servir alegremente aos outros (Moff. traduz “o visitador de enfermos deve ser jovial”). A frase expressa a ideia geral de afabilidade cristã.

2. A LEI DO AMOR EXPRESSA EM VÁRIAS ATIVIDADES (Rm 12.9-13) – O amor, que é realmente o princípio governante da vida cristã, é mais do que uma comoção e é de natureza mais firme do que mero sentimentalismo ou pura filantropia. O termo grego agape implica uma cota de intelecto e volição tanto quanto de sentimento. Tem afinidade com a qualidade divina das “misericórdias de Deus” (1) e com toda a Sua intervenção redentora nos destinos de um mundo perdido. Se este amor for sem dissimulação, (9), isto é, vazio de hipocrisia, puro e sincero em suas manifestações, então encontrará várias formas de se mostrar ativo. O amor produzirá aborrecimento ao mal e apego ao bem (9). Também inspirará uma afeição mútua de almas congeniais (10). Preferindo-vos em honra uns aos outros (10) é uma frase capaz de ser interpretada de vários modos. Pode significar a colocação dos interesses alheios na frente dos nossos, ou sermos diligentes em honrar os outros, ou com avidez avantajarmo-nos aos outros em obras louváveis. No zelo não sejais remissos (11); a ideia é que o amor, se lhe dermos permissão de nos governar, nunca deixará que o entusiasmo arrefeça. Fervorosos no espírito (11) é memoravelmente traduzido por Moffatt, assim: “conservai o brilho espiritual”, sendo a referência não ao espírito divino, mas ao humano. Servindo ao Senhor (11); isto é, o Senhor Jesus Cristo. Alguns MSS dizem to(i) kairo(i), em vez de to(i) Kyrio(i), donde se traduzir “servindo à oportunidade” (cfr. Ef 5.16). O apóstolo ainda está referindo as multiformes manifestações da dinâmica do amor na vida cristã, citando o ardor da realidade da esperança cristã, a paciência no sofrimento, a perseverança na oração, o partilhar das necessidades dos irmãos em Cristo, e a prática da hospitalidade (12-13)

3. OUTRAS MÁXIMAS DE ÉTICA CRISTÃ (Rm 12.14-21) - Nesta outra lista de preceitos morais; Paulo pode ter mais em mente pessoas não cristãs. Alguns, por certo, se relacionam definidamente com os de fora da comunidade da Igreja. O vers. 14 é um eco do ensino de nosso Senhor no Sermão do Monte (Mt 5.44). “Partilhai das alegrias e tristezas dos outros”, admoesta o apóstolo (15). Tende o mesmo sentimento (16); lit. “pensai nas mesmas coisas” (cfr. 2Co 13.11; Fp 2.2; Fp 4.2), isto é, nunca modifiqueis vossa atitude cristã para com os vossos companheiros. Acautelai-vos de ambições egoísticas. “Não aspireis a tarefas altivas, mas segui o curso dos deveres humildes” (Prof. David Smith). Precavei-vos da presunção (cfr. Pv 3.7). Nunca torneis mal por mal (17; cfr. Mt 5.43-44; 1Co 13.5-6; 1Ts 5.15; 1Pe 3.9) . Procurai as coisas honestas (ARC) (17); melhor, como na ARA, “Esforçai-vos por fazer o bem perante todos”; isto é, ou considerai as melhores coisas de qualquer filosofia ou religião de vosso meio cosmopolita (cfr. Pv 3.4; 2Co 4.2; 2Co 8.21), ou pensai nobremente a respeito de todos, ou almejai ficar acima de qualquer censura à vista de todos (Moff.). A admoestação seguinte é estar em paz com todos, subordinando-se à restrição quanto depender de vós (18).

Paulo introduz no seu sermão um tom homilético, chamando amados aos seus ouvintes, para causar neles a impressão de que os vê em Roma, embora lhes dite sua epístola. Esta última exortação acerca da vingança é um ponto importante, ele parece dizer-lhes. Dai lugar à ira (19). Pode significar ou que devemos deixar com Deus o exercício da ira, como se declara em Dt 32.35, ou devemos deixar que o princípio da retribuição, inerente ao universo moral, tenha livre curso, ou devemos dar lugar à cólera ou à de nosso inimigo, isto é, “que a cólera arrefeça”. A primeira alternativa é a melhor interpretação. A atitude do cristão sob a regra do amor deve ser misericordiosa, o contrário exato das represálias. Amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça (20); isto é, faz que ele tenha um sentimento ardente de vergonha. O verso é citação de Pv 25.21-22 (LXX). Portanto, faze que o bem triunfe sobre o mal (21).

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