2013/05/03

Comentário de Romanos 4:1-25 (J.W Scott)

Comentário de Romanos 4:1-25 (J.W Scott)

Comentário de Romanos 4


Romanos 4

Agora, Paulo toma o caso de Abraão como prova, mostrando a relação do novo sistema de justificação com o ensino do Velho Testamento. Imagina o impugnador a perguntar onde, nesse debate, fica Abraão. Caracteriza-se ele pela fé ou pelas obras? É este um ponto crucial, contudo o apóstolo demonstra, além de qualquer dúvida, que o patriarca foi justificado pela fé e não pelas obras da lei. A base do argumento é Gn 15.6 –“Ele creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça”. O exame da vida de Abraão revela três realidades.

1. SUA JUSTIÇA FOI INTEIRAMENTE PELA FÉ (Rm 4.1-8) – Era universalmente aceito pelos judeus que Abraão fora singularmente justo, tendo melhores fundamentos para se jactar, do que a maioria dos homens. Mas tal ufania é inadmissível à vista de Deus (2). A Escritura diz que Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça (3; ver. Gn 15.6). Ora, se alguém trabalha, seu salário não depende da boa vontade do patrão, mas torna-se uma dívida deste para com o seu empregado (4). Todavia, se não trabalha, crendo apenas nAquele que justifica ao pecador, sua fé é considerada como justiça (5).

O sagrado escritor de faz eco ao ponto de vista do Velho Testamento, nos vers. Rm 11.8-19. Foi notável a fé demonstrada por Abraão, e o referido escritor tem para ele um lugar conspícuo em sua galeria de honra. E digno de nota que Tiago, em sua epístola (Rm 2.23), também cita Gn 15.6, acrescentando “E foi chamado amigo de Deus”. Paulo e Tiago chegam à mesma conclusão, partindo de pontos de vista diferentes. Quando Tiago declara: "Não foi por obras que o nosso pai Abraão foi justificado?” (Rm 2.21), seu alvo é recomendar as boas obras como prova necessária e fruto essencial da fé. A tarefa de Paulo, por outro lado, é condenar as boas obras como base última da salvação, e negar-lhes qualquer mérito para ajustar relações com Deus. Prossegue o apóstolo salientando que este novo sistema de justificação, apresentado em seu evangelho, está radicado no Velho Testamento e, para isso, mostra que Davi também se distinguiu pela fé; visto como expressou a bem-aventurança daqueles que são considerados justos à parte de qualquer mérito proporcionado por obras (Sl 32.1-2). Tal estado de altíssima felicidade do homem perdoado não é o próprio Davi quem o declara, senão Deus mesmo. O salmista está simplesmente registrando o fato bendito, embora que exultando pessoalmente, em consequência da sua própria experiência.

2. A JUSTIÇA DE ABRAÃO INDEPENDEU DA CIRCUNCISÃO (Rm 4.9-12) A experiência do patriarca decorreu na seguinte ordem: primeiro a fé, seguindo-se a justificação e depois a circuncisão. Os judeus inverteram a ordem, pondo em primeiro lugar o rito. Com a ideia de bem-aventurança como liame, o apóstolo mostra que Abraão possuía este fruto da fé, antes de sua circuncisão (10). Recebeu o sinal da circuncisão como selo (11). O próprio rito era o sinal ou confirmação do concerto feito por Deus com Abraão (cfr. Gn 17.1-14; At 7.8). Nesta base, o Patriarca é o pai de todos os que creem (11), circuncisos ou não (cfr. 2Pe 1.1). Em desafio à doutrina ortodoxa judaica, Paulo afirma um dos princípios vitais do seu próprio ensino, qual seja a porta franqueada aos gentios, o privilégio universal da justificação pela fé.

3. A JUSTIÇA DE ABRAÃO INDEPENDEU DA LEI MOSAICA (Rm 4.13-22) O ponto ferido por Paulo, a seguir, é que Abraão foi considerado justo com Deus uns quatrocentos anos antes que a lei viesse a existir, antes que fosse promulgada no monte Sinai. A promessa de ser herdeiro do mundo não foi feita ao patriarca nem à sua posteridade por intermédio da lei, e sim mediante a justiça da fé (13). “Herdeiro do universo” interpreta-se como a suma de todas as promessas feitas a Abraão, como reveladas em Gn 12.3-7; Gn 13.15-16; Gn 15.1,5,18; Gn 17.8-19, e mencionadas em At 3.25 e Gl 3.8. Estas promessas incluíam a dádiva de um filho e herdeiro uma descendência inumerável, o Messias e Seu reino universal. Observe-se o modo pelo qual nosso Senhor, em uma das beatitudes, espiritualizou a ideia da herança do mundo, ao declarar que os mansos herdariam a terra (Mt 5.5). Se os da lei a herdassem, a fé se tornaria vã, e a promessa, de nenhum efeito para assegurar justiça (14). A lei, entretanto, desperta somente o senso de pecado, culpa e penalidade. Remova-se a lei e o pecado desaparece (15). Nessa conformidade, a fé e não a lei é a base da justiça de Abraão à vista de Deus. O apóstolo argumenta semelhantemente em Gl 3.17 e segs., mas a lógica aí é mais legal e histórica, ao passo que aqui é mais doutrinária. Leis e graça são incompatíveis. Daí vem que a promessa é confirmada a toda a descendência, não somente à que procedeu da lei, mas igualmente à que procedeu da fé (16). Por essa fé, Abraão se torna pai de todos os que creem, gentios e judeus. Num sentido físico, dizia a promessa que ele seria pai de todos (Gn 17.5); porém Paulo está pensando aqui numa paternidade espiritual e universal. Abraão, pai dos fiéis, aparece perante Deus como representante de todos os crentes, judeus ou gentios (16,17). Notem-se os dois atributos divinos, impressivos e apropriados, que Paulo acrescenta aqui: Deus que vivifica os mortos, e chama à existência as coisas que não existem (17). O poder vivificador de Deus é visto nos seguintes milagres: a capacidade de Abraão procriar Isaque (19; cfr. Hb 11.12, “aliás já amortecido”); o livramento de Isaque da morte, no altar do sacrifício (cfr. Hb 11.19, “Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dos mortos”) e a ressurreição de Cristo (24). O segundo atributo, de chamar à existência o que não existe, tem referência aos filhos nascituros, à posteridade do pai Abraão, quando historicamente, ele não tinha filhos.

Outra vez Paulo elogia a fé do patriarca. Não duvidou... mas, pela fé, se fortaleceu (20), significando que, em referência à promessa divina, Abraão não vacilou em incredulidade, mas foi fortalecido pela fé, glorificando destarte o nome de Deus pela confiança plena na capacidade divina de cumprir a dita promessa. A conclusão deste caso de Abraão, apresentado como prova, é a declaração inicial de que sua fé lhe foi imputada como justiça (22; cfr. vers. 3). Agora, o apóstolo se prepara para o seu maior tema, a justiça do crente. Esta aceitação de Abraão, pai dos fiéis, está registrada para que também creiamos e reivindiquemos a justiça de Deus mediante Jesus, que Se ofereceu por nossas transgressões e ressuscitou para nossa justificação (23-25).

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