2014/09/28

Comentário de Romanos 5:1-21 (J. W. Scott)

Comentário de Romanos 5:1-21 (J. W. Scott)

Comentário de Romanos 5



Romanos 5

Passa agora o apóstolo mais para o âmbito do subjetivismo ou da experiência. Alguns consideram este capítulo um parêntese devocional, visto basear-se na experiência pessoal de Paulo quanto ao modo de ser tratado por Deus. Contudo, o grande tema da justificação pela fé recebe aqui maior desenvolvimento. Paulo jamais considera a possibilidade de justificação que não se acompanhe invariavelmente de santificação: uma e outra, para ele, estão de fato inseparavelmente ligadas. Uma é o batente, a absolvição preliminar; a outra é a longa estrada que conduz à Jerusalém celestial. O apóstolo une-se a todos os crentes e fala por eles. Declara os benditos efeitos da justificação baseada firmemente no ajustamento de relações com Deus (1-5). Depois, em estilo poético, vem a garantia dessa bem-aventurança (6-11). A isto se acrescenta o método da justificação, o modo como os homens de fé a realizam mediante o novo Cabeça da raça (12-21).

1. OS BENEFÍCIOS QUE A JUSTIFICAÇÃO TRAZ (Rm 5.1-5) - Temos paz com Deus (1). Os justificados pela fé têm assegurada sua paz com Deus. Os melhores textos trazem o subjuntivo, em vez do indicativo, echomen, sendo a única diferença a vogal longa ou breve. Donde a forma exortatória da versão ARA, “tenhamos”. Todavia, como Paulo com referência a ensino e pregação, raramente emprega um pelo outro, o sentido é o de exortação branda “devemos ter” e, daí, “temos” (cfr. o comentário sobre Romanos do I.C.C., pág. 120). Realmente, como pessoas de fé, gozamos paz com Deus. Trata-se de uma nova relação para com Deus, que não é questão de mero sentimento, mas de fato. Em segundo lugar, temos acesso (2). Aquele que crê não passa a gozar do favor de Deus à base de merecimento próprio. A ideia de acesso é introdução à câmara da presença do rei. Esta apresentação ao trono real é efetuada por alguém que está junto do próprio monarca. É Jesus que nos leva a Deus (cfr. Ef 2.18-3.12). O apóstolo descreve pelo termo graça o favor ativo do Pai para com os que creem (2; cfr. Gl 5.4; 1Pe 5.12). Os justificados são introduzidos num estado de graça que produz segurança e confiança. Um terceiro resultado de se estar em relações justas com Deus é gozo, triunfo baseado na esperança e vitorioso sobre a tribulação (2-3). Os que creem exultam na esperança da glória de Deus (2). "Gloriam-se na glória" (cfr. Rm 3.23), que um dia será a coroa e a consumação de todas as coisas para os justificados. Também se ufanam até das tribulações, porque as aflições produzem muitas qualidades excelentes nos que creem, os quais sabem que os sofrimentos produzem paciência, e tal perseverança (cfr. Rm 2.7) leva a um caráter provado, e esta experiência provada (cfr. 2Tm 2.3) traz esperança. (Paulo usa outra vez este estilo de encadeamento no cap. Rm 10.13-15; cfr. também 2Pe 1.5-7). Esta elevada esperança não acarreta vergonha nem se mostra ilusória (cfr. 2Co 7.14; 2Co 9.4) porque as almas dos que creem estão inundadas do amor de Deus, que é de fato, a presença do Paráclito (5). Os justificados se tornam cônscios do amor de Deus para com eles mediante o Espírito habitando no seu íntimo. (Cfr. a bem-aventurança do homem a quem Deus atribui justiça independentemente de obras; Rm 4.5-8). Note-se que nesta epístola é esta a primeira vez que Paulo se refere ao Espírito Santo.

2. A SEGURANÇA DOS CRENTES (Rm 5.6-11) - Os que creem, estando de relações ajustadas com Deus, gozam esse novo estado, sua posição na graça, com perfeita segurança. Isso lhes está garantido, de um lado pela morte de Jesus Cristo na cruz (6-8), e, de outro lado, pela vida de ressurreição do mesmo Salvador (9-11). Cristo morreu pelos ímpios (6; cfr. vers. 8). A morte de Cristo na cruz foi por nós, primeiro, quando éramos fracos (6); isto é, quando éramos incapazes de nos salvar a nós mesmos por mérito legal, e éramos com efeito ímpios (6), pecadores (8) e inimigos (10). Em segundo lugar, foi por nós a seu tempo (6). Essa época apropriada, o “momento psicológico” do relógio do mundo, é frequentemente expressa por Paulo (cfr. Gl 4.4; Ef 1.10; 1Tm 2.6; 6.15; Tt 1.3). Por nós, então, na plenitude dos tempos, Cristo morreu, embora não somente nada tivéssemos que nos recomendasse, mas na verdade tínhamos tudo contra nós. No vers. 7 o apóstolo estabelece um contraste entre o homem justo e o homem bom. Por um dificilmente alguém morreria; pelo outro alguém poderia animar-se a morrer. O justo é aquele que guarda a lei, modelo de rigoroso dever. O bom é aquele que em espírito e, por disposição própria, excede as justas exigências da lei (cfr. Mt 5.20).

Muito mais agora (9). Paulo prossegue em afirmar a segurança da justiça do crente com um triunfante argumento a fortiori. O amor de Deus por nós, indignos e rebeldes pecadores, é atestado pelo sacrifício de Seu Filho em nosso lugar, a morte na cruz que nos leva a uma completamente nova relação com Ele. Este admirável amor de Deus, pondo-nos em justas relações com Ele, é o maior fato de nossa salvação, maior do que nossa nova vida. Deus operou reconciliação pela morte de seu Filho quando estávamos em incredulidade hostil (10). Muito mais agora Deus será capaz de manter-nos em paz consigo, como Seus amigos, pela vida do Seu Filho. Se Deus pode realizar nossa justificação, sem dúvida alguma também pode levar a efeito nossa santificação. A ideia é toda de vida, a vida do crente por intermédio da vida do Salvador. Paulo não emprega o termo “Santificação” avaliando o que é maior e o que é grande. Ele põe em contraste a justificação e a salvação. Mas este último termo tem o sentido de santidade progressiva. Em união com Cristo como Senhor vivo, somos potenciados a viver uma vida santa de vitória moral e espiritual, de modo que, em nossa personalidade santificada, escapamos da ira de Deus no dia do juízo, mediante o mérito e a mediação
de Jesus Cristo.

Essa obra levada a efeito na cruz, que ajusta as relações dos crentes com Deus e envolve a conservação dessas relações mediante a vida de Jesus, é fonte de gozo constante (11). Essas relações são designadas pelo termo expiação (ARC “reconciliação”). O grego katallage significa “mudança” ou “troca”; daí vem que, quando se diz de pessoas, uma mudança de inimizade para amizade, é reconciliação. Implica uma mudança de atitude da parte de Deus e do homem. A necessidade de mudança do lado humano é óbvia; porém muitos teólogos negam qualquer necessidade disto do lado divino. O amor de Deus é permanente e Ele em Si mesmo é imutável. Note-se, no entanto, que o apóstolo fala de sermos recipientes (gr. elabomen) de uma reconciliação que Deus livremente nos dá. Implícita na doutrina da justificação está a nova atitude de Deus para com o pecador, na base do mérito de Jesus Cristo.

3. JUSTIÇA PELA GRAÇA (Rm 5.12-21) - O apóstolo conclui esta seção, da justiça do crente, frisando que é na verdade uma posição na graça, visto que é realizada mediante a graça (vers. 15-20). O canal da justificação é por meio de uma Pessoa pelo dom gratuito de Deus, princípio este que leva Paulo a discutir os dois cabeças da raça humana, Adão e Cristo (cfr. 1Co 15.21 e segs.). Note-se a construção da passagem. Depois de declarar a verdade da universalidade do pecado e sua penalidade mediante Adão (12), o apóstolo faz uma digressão em parêntese (13-17), e volta ao seu argumento nos vers. 18-19. Temos no vers. 12 um anacoluto gramatical. Não há oração correlativa para a cláusula que começa “assim como”, a qual descreve Adão como tipo dAquele que teria de vir. Essa locução conjuntiva “assim como” não encontra sua correlativa senão no vers. 18, depois de fechado o parêntese que tratou de algumas dificuldades. A passagem decisiva é o vers. 12, onde e apresentada a doutrina da relação de um para com muitos. Ênfase especial é dada às duas preposições usadas no grego, dia, “através de”, e eis, “para dentro”, pelas quais se indicam um canal e uma passagem. Por um homem, como canal, o pecado entrou no mundo (kosmos) e, pelo pecado, a morte, como penalidade. O mundo até então fora declarado "muito bom" pelo Criador, mas agora, pela transgressão de Adão, o pecado e a morte entraram nele. O ponto a que Paulo quer chegar é que todos estão envolvidos no pecado de Adão, todos pecaram nele e com ele. A humanidade não é considerada apenas como havendo pecado e sido debitada legalmente pela transgressão de Adão, porém todos são declarados como havendo real e ativamente pecado juntamente com Adão. Esta declaração dogmática leva o apóstolo a um parêntese, onde ele enfrenta duas dificuldades. A primeira é que até ao tempo de Moisés a lei não houvera sido declarada.

Como não havia lei, não podia haver pecado. O apóstolo aceita o argumento, admitindo que o pecado não elevado em conta quando não há lei (13); isto é, não é considerado como culpa, envolvendo penalidade. Em segundo lugar, ele argumenta que, houvesse ou não houvesse lei, a penalidade de Adão veio operando desde o tempo deste. Ninguém podia negar a universalidade da morte, e Paulo endossa a doutrina de que a morte e a sentença de Deus sobre o pecado, embora não houvesse lei até ao tempo de Moisés, e se bem que os que assim sofriam essa pena não houvessem transgredido à semelhança do pecado de Adão, isto é, comendo o fruto proibido (14). Comentando este vers. 14, alguns argumentam a favor da universalidade do pecado, porém não de sua originalidade. Isto seria negar nossa unidade em Adão, a qual é tipo da unidade dos remidos em Cristo. Até aqui Paulo está traçando uma comparação entre Adão e Cristo. Ambos, por um simples ato, influenciaram a raça inteira. Agora segue-se o contraste. O efeito do pecado de Adão é a morte; o efeito da justiça de Cristo é a vida. Paulo, porém, não o formula nestes termos. Declara que o resultado é graça abundante ou transbordante, ou seja o dom pela graça (15), que adiante é definido, no vers. 17, como o dom da justiça. A sentença era de um para a condenação de todos; o dom gratuito era de muitas transgressões para um pronunciamento de justificação (16). O grego dikaioma, não o costumeiro dikaiosis, traduzido simplesmente justificação, significa uma sentença judicial, ou decreto, ou ato de justificação, ou ajustamento de relações com Deus. A mesma palavra grega ocorre em Rm 1.32-2.26; Rm 8.4, a qual a ARA traduz por “sentença” ou “preceito”. O contraste entre Adão e Cristo é ainda desenvolvido no vers.17, onde um estabelece o reinado de pecado e morte, e o outro o reinado de graça e vida. A união com Cristo anula eternamente a união pecaminosa com Adão. Paulo agora retoma o princípio declarado no vers. 12, reafirmando-o e adicionando a outra cláusula do paralelismo, assim também pela justiça de um veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida (18). A ofensa de um... a justiça de um (18). A diferença é entre agente e ato.

A suma de toda a comparação e contraste entre Adão e Cristo vem declarada no vers. 19, como conclusão do argumento de que a justiça do crente provêm da graça. Resta-nos, o problema da relação de Adão e Cristo com o gênero humano, pela qual o pecado, de um lado, e a graça, de outro, são transmitidos. A imputação é um conceito legal e não satisfaz completamente. A teoria de chefia (cabeça) federal ajuda. Paulo ensina alhures que essa chefia espiritual de Cristo antecipou-se à chefia física de Adão (cfr. Ef 1.4; Cl 1.15-17; ver também Jo 1.1-5). Todavia, das deduções que tira do fato, o apóstolo indica uma relação mais íntima, porque a humanidade não tem poder de escolha para comissionar seu representante. O fato científico da solidariedade da raça oferece a melhor solução. Como o todo está contido no germe, a árvore na semente, assim toda a humanidade reside em Adão e, pela graça mediante a fé, também em Cristo. Assim como somos um organismo físico, também somos um organismo espiritual. Paulo conclui esta seção da justiça do crente acrescentando uma nota sobre a função da lei. “Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça; a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo nosso Senhor”. A graça não é o fim, porém, mediante a justiça, tem sua consumação na vida eterna.


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