2014/09/28

Comentário de Romanos 9:1-33 (J. W. Scott)

Comentário de Romanos 9:1-33 (J. W. Scott)

Comentário de Romanos 9


Romanos 9

Paulo agora parece que atingiu seu clímax e tudo está preparado para a aplicação prática de seu ensino sobre como ajustar relações com Deus e como manter essas mesmas relações de reconciliação. Expôs sucessivamente as doutrinas da justificação, santificação e glorificação. Mas daí emerge outro problema, a questão judaica. O apóstolo deve ter enfrentado essa dificuldade muitas vezes. Declarada em termos simples, é a seguinte: Este novo evangelho de “justiça pela fé”, em lugar de “justiça pela lei”, o qual abre a porta da salvação para os gentios, abriga os direitos e privilégios da aliança com a raça judaica e, além disso, não os leva em consideração como veículos da revelação. Os judeus não são apenas rebaixados na ordem da graça, mas de todo em todo rejeitados. Que valor tem, pois, sua história e que vai ser do seu futuro? Os fatos históricos não parecem concordar com o evangelho de Paulo; daí vem que deve ser falso o evangelho de um novo método de vida por ele pregado. Nenhum pregador podia alterar o lugar dos judeus na revelação de Deus. Paulo sentiu vivamente essa objeção. Valia ela como acusação de não ser ele um apóstolo autêntico, e seu evangelho estava sendo considerado como de todo faltando à verdade. Não era esta, contudo, a dor mais aguda. A tragédia dos judeus era que eles tinham sido deixados fora da revelação progressiva de Deus e cortados da economia da graça. Refere, por isso, Paulo esse problema histórico. Era óbvio que o povo de Deus estava perdendo seu lugar no reino, e os gentios estavam nele entrando. O evangelho, entregue ao povo pagão, estava sendo prontamente aceito e parecia que Israel não estava sendo salvo, nem se mostrava prestável para nada. Quando os gentios estavam em seus pecados, Israel tinha a revelação de Deus. Era o povo escolhido de Deus. Eleito e rejeitado! Como podia ser isso? Paulo ensaia a solução do problema em três assertivas. A primeira trata da absoluta soberania de Deus (Rm 9.1-29), a segunda refere a responsabilidade judaica na situação histórica (Rm 9.30-10.21), e a terceira menciona o propósito misericordioso de Deus (Rm 11.1-36).

1. A TRISTEZA DE PAULO (Rm 9.1-5) - Como prefácio do principal problema de que vai tratar, ele expressa sua angústia pela condição dos judeus. Digo a verdade em Cristo (1). É o seu juramento solene. Seus adversários judeus acusavam-no de falta de sinceridade; daí sua defesa veemente, na qual se revela como verdadeiro patriota. Amava os de sua raça e não Se envergonhava de chamá-los meus irmãos, meus compatriotas segundo a carne (3). Ufana-se dos privilégios judaicos e refere-os com certo floreio de linguagem, sendo o maior deles ser o Cristo descendência de Israel (5). A sinceridade do desapontamento do apóstolo, pelo fato de sua própria raça não estar desempenhando sua função e aceitando o Messias, evidencia-se por seu nobre desejo de ser anátema, separado de Cristo, por amor de seus irmãos (3; cfr. a oração de Moisés, Êx 32.32-33).

2. DEUS NÃO É INFIEL A SUAS PROMESSAS (Rm 9.6-13) - Este é o conteúdo da primeira objeção. Paulo começa sua réplica por negar que a palavra de Deus haja falhado (6). As promessas que acabava de mencionar (4) não foram quebradas, mas cumpridas com o verdadeiro Israel. O Israel de Deus, daqui por diante, é contrastado com o Judaísmo, que até há pouco fora o herdeiro oficial de Abraão, porém agora foi rejeitado devido à sua falta de fé e recusa de aceitar os direitos do Messias. O apóstolo esclarece a distinção que faz entre a filiação espiritual e a carnal, empregando ilustrações tiradas à história dos patriarcas. Dava a história a entender à raça judaica ter ela direitos sobre Deus, invertendo o que parece ser mais normal, Deus ter direitos sobre ela? Por que eram semente de Abraão, seriam todos os judeus filhos de Deus? Paulo declara que Deus, no exercício de sua vontade soberana, tem decretado que a fé, não hereditariedade, é o princípio eterno de filiação. Dentro do propósito redentor de Deus, suas reais promessas a Sara e a Rebeca foram cumpridas. Deus era livre para exercer Sua graça seletiva no caso dos patriarcas, uma vez que somente Ele é o originador dos propósitos dela. A justiça, pois, não é por obras, mas por aquele que chama (11), excluindo destarte todo mérito humano. Jacó e Esaú não foram tratados de modos diferentes por motivo da vida e do caráter deles, porque Jacó fora escolhido antes que ele e o irmão nascessem (11-12). Amei a Jacó, porém me aborreci de Esaú (13) deve ser isto interpretado no sentido das duas nações, não dos indivíduos, segundo se deduz da referência original nas duas citações do Velho Testamento (Gn 25.23; Ml 1.2-3).

Além disso, “amor” e “aborrecimento” não são fundamentos de eleição, como nós entendemos estes sentimentos subjetivos. Deus não é arbitrário em Sua escolha e não pode ser acusado de favoritismo irracional. Os termos sentimentais indicam antes uma função e um destino nacionais. Judá, e não Edom, foi eleito para revelação progressiva na história. Esta significação pode ser mantida pelo seguinte modo de traduzir: “Amei a Jacó, porém a Esaú amei menos” (cfr. Gn 29.30-33; Mt 10.37; Lc 14.26; Jo 12.25).

3. DEUS NÃO É INJUSTO NO SEU MODO DE TRATAR (Rm 9.14-24) – O judeu impugnador (real ou imaginário) prossegue na acusação dizendo que, se o Evangelho de Paulo é verdadeiro, então Deus tem sido injusto. O apóstolo enfrenta primeiro a insinuação de que Deus é injusto nas escolhas que faz (vers. 14-18). E expressa veemente e categoricamente sua contestação: De modo nenhum (14). Ninguém afirme tal coisa! Misericórdia e compaixão pertencem de todo a Deus. Tanto assim é que não podemos compreender, mas só aceitar a incidência delas como sendo Sua vontade. Não é nova esta doutrina. Foi revelada na antiguidade a Moisés (Êx 33.19, LXX). Nem o propósito nem o esforço humano entra na eleição divina. Não depende de quem quer, ou de quem corre (16). Deus sozinho age sozinho. É isto e ninguém pode impedi-lo! Faraó (17) é apenas um instrumento que dá oportunidade a que Deus manifeste nele Seu poder e publique Seu santo nome em toda a parte. Absolutamente porque quer, Deus mostra misericórdia; e, igualmente porque quer, Ele endurece os homens. Note-se que no vers. 18 o verbo querer é thelo e não boulomai. Este último denota vontade firme, determinação de propósito. Paulo usa-o com parcimônia e prefere a primeira palavra, como aqui, o que permite ver por trás do caráter divino mais do que simples volição (cfr. Ef 1.5-11). E Deus, como nosso Pai em Cristo Jesus que quer de uma forma ou de outra; não se trata de um querer divino rígido, frio. Numa palavra, é Deus e não uma Vontade desconhecida que quer.

Prossegue Paulo e agora enfrenta a acusação de que, se o que ele diz é verdade, então Deus é injusto e merece censura (vers. 19-24). Se Deus é absolutamente livre para eleger no sentido do melhor ou do pior, como Paulo acaba de demonstrar, que é da responsabilidade humana? Visto como ninguém pode resistir a essa vontade divina onipotente, o pecado deixa de ser voluntário (19); decorre daí que o pecador não merece censura. Responde Paulo que tal argumento não procede. A criatura não pode achar falta no Criador, embora que o contrário se dê. Quem é que discute com Deus? A coisa formada simplesmente não pode altercar com Deus sobre como se formou (20). O apóstolo introduz a ilustração do oleiro e do barro (cfr. Is 29.16; Is 45.9-10; Is 64.8; Jr 18.6). É prerrogativa do oleiro fazer do mesmo barro um vaso para honra e outro para desonra (21), uma obra primorosa de arte e outra para uso doméstico. (Cfr. 2Tm 2.20). “Que resposta tens agora a dar?” Paulo desafia o seu opositor. Se Deus quer, por um lado, revelar Sua ira e manifestar Seu poder, a Vontade é Sua e Ele aguarda a Sua oportunidade para revelá-la. Se por outro lado, Deus quer publicar Sua misericórdia em eleger alguns para a salvação, ainda é isso uma questão de Seu bom querer.

O contraste é expresso vividamente com os termos vasos de ira (22) e vasos de misericórdia (23). A vontade soberana de Deus em relação com estes últimos é uma eterna preparação para a glória. Pode-se interpretar igualmente que os primeiros são predestinados, antes de o mundo existir, para a destruição? Os vasos de ira são os desobedientes, com quem Deus está justamente irado e sobre quem desce o castigo por causa do pecado. Foram eles também de antemão preparados para a perdição eterna? Note-se, em primeiro lugar, que os dois verbos são diferentes. Os vasos de misericórdia são preparados de antemão (23), gr. proetoimasen, ao passo que os vasos de ira são adaptados, apropriados (22), gr. katertismena; lit. tornar “adequados” ou “completos”, com o particípio perfeito dando o sentido de “equipados”, ou “aperfeiçoados”. Não se declara que Deus é o agente dessa “adaptação”. A condição se declara apenas como fato histórico. Daí vem que alguns prefeririam a tradução “apropriados para a destruição”, isto é, “maduros e prontos para a destruição” (Moffatt). Em segundo lugar, note-se que os prefixos dos dois verbos paralelos são diferentes - pro, significando antecipação, e kata, significando intensidade da ação do verbo. É legítimo deduzir do fato que no caso dos desobedientes falta a ênfase do aspecto eterno. O mistério da predestinação deve ser mantido, todavia não parece haver aqui nenhum apoio para se dogmatizar acerca da predestinação para a condenação, enquanto que a pré-ordenação paralela para a glória é declarada sem sombra de dúvida. Em terceiro lugar, parece claro da linguagem e do pensamento de Paulo que, enquanto no caso dos vasos de misericórdia a ação de Deus consistiu em preparar de antemão, no caso dos vasos da ira Ele não empreendeu nenhuma ação, mas suportou com muita longanimidade (22). Ele foi ativo de um lado e passivo do outro. “Deus tem tolerado muito pacientemente os objetos de sua ira” (Moffatt). Paulo deixa deste modo seus oponentes sem poder responder, porquanto nenhum mortal pode replicar ao direito que Deus tem de eleger, ou ao exercício desse direito. Não há réplica, não obstante o caráter de Deus permanece irrepreensível.

4. A ELEIÇÃO DIVINA É CONFIRMADA PELAS ESCRITURAS (Rm 9.25- 29) - Em toda esta seção, que trata da questão judaica, é provável que o apóstolo tenha em mira mais particularmente os judeus cristãos de Roma. Por isso, reporta-se naturalmente à lei e ao testemunho, para confirmação do que acaba de declarar. Para corroborar sua conclusão de que a divina vontade é absolutamente livre para incluir gentios e rejeitar judeus (25-26), e para fazer uma eleição dentre os eleitos, Paulo cita livremente, primeiro, Os 2.23 (LXX) e Os 1.10 (LXX) e depois Is 10.22-23 (LXX) e Rm 1.9. Aqui se introduz a doutrina do “remanescente”, que voltará a ser referida em Rm 11.1-10 (ver as notas respectivas).

Nesta defesa da legitimidade do seu evangelho, cuja essência era o novo meio de justificação pela fé, não por obras, Paulo destroçou todas as acusações, fulminando-as com uma predestinação, alta e inescrutável. Seus oponentes silenciaram, mas o apóstolo pressente que os judeus vão refugiar-se agora em uma atitude de fatalismo. Para evitar uma descaída para o determinismo, Paulo se põe a examinar a questão da responsabilidade humana. O problema judaico é portanto revisado, agora não do ponto de vista divino, como há pouco, mas do ponto de vista humano. Paulo assevera que os judeus merecem censura por haverem sido rejeitados por Deus como instrumentos da revelação ao mundo e (o que é ainda mais trágico) como filhos de Deus.

1. OS JUDEUS BUSCAVAM A JUSTIÇA DA LEI, AO INVÉS DA JUSTIÇA DA FÉ (Rm 9.30-10.13) - Os judeus são responsáveis por sua própria apostasia. São eles que rejeitam a Deus, e não Deus que os rejeita. Traça-se vivo contraste entre os gentios que tinham apenas a luz da consciência, e os judeus que possuíam uma revelação especial. Aqueles alcançaram a salvação pela fé, sendo aliás aceitos por Deus; os judeus perderam o caminho da vida por dependerem da observância da lei. Tropeçaram em (isto é, “ofenderam-se”, ou “mostraram-se irritados com”) a pedra de tropeço (isto é, “a pedra que causa tropeço ou ofensa”) (32). A referência é à cruz (1Co 1.23), uma aparente vergonha que os judeus não podiam tolerar fosse o destino do seu Messias.

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