2014/10/16

Explicação de Mateus 19

Mateus 19

19.1-3 — Essa pergunta pode ser perigosa. A resposta de João Batista o levou a ser preso e resultou na sua morte (Mt 14-3-11). O problema aqui é que a pergunta foi feita com uma intenção maliciosa, e vemos isso quando o texto diz “tentando-o”. Eles estavam testando Jesus, e usaram para isso o texto de Deuteronômio 24.1.

Uma discussão muito comum entre os rabinos era o significado do termo coisa feia (Dt 24.1); literalmente, a nudez de alguma coisa, que se refere a alguma indecência, na opinião da maioria. Uma das escolas de pensamento, a escola de Shammai, era mais rígida e dizia que a única razão para o divórcio era a imoralidade. O outro ponto de vista, da escola de Hillel, era mais complacente e cria que tudo que desagradasse o marido era suficiente para provocar o divórcio. A pergunta aqui parece ter sido feita por alguém que adotou o ponto de vista de Hillel, já que pelo menos a maneira como ele aborda o tema caminha nessa direção.

19.4-6 — Jesus evitou a controvérsia Hillel-Shammai e foi diretamente as Escrituras. Ele nos dá três motivos para a continuidade do casamento: (1) Deus fez o homem macho e fêmea. Se Ele quisesse que Adão tivesse mais de uma esposa, poderia e teria criado outras mulheres para Adão. Podemos dizer o mesmo em relação a um marido para Eva. O Criador “os fez”. Isso significa que o Criador e Senhor é o único que determina o que é ideal no casamento. (2) Deus criou o casamento como o elo mais forte nos relacionamentos humanos (Mt 19.5).

Deixara o homem pai e mãe e se unirá a sua mulherA linguagem é muito forte aqui. “Deixar” é o mesmo que “abandonar”, e “unir-se” significa “estar colado a”. O relacionamento mais duradouro na construção da sociedade não é entre pais e filhos, já que ele é quebrado por ocasião do casamento (Gn 2.24), mas, sim, o casamento entre homem e mulher. (3) E serão dois numa só came (conforme Gn 2.24). O elemento fundamental no casamento e o contrato ou a aliança (Ml 2.14), e o resultado dessa aliança e a relação sexual. A união física entre um homem e uma mulher representa a união de duas vidas e o compromisso um com o outro. É por isso que o adultério é algo muito grave (1 Co 6.16). A união física no casamento é o símbolo da união em várias áreas. Romper essa união é o mesmo que destruir a unidade da própria vida. Com o divórcio, o homem separa o que Deus ajuntou.

19.7 — Os acusadores de Jesus encontraram uma brecha na Sua resposta e o tentaram com outra pergunta.

19.8 — A resposta de Jesus foi que Moisés nunca mandou alguém se divorciar; Moisés só permitiu. E essa permissão só lhes foi dada por causa da dureza do coração dos seres humanos. O divórcio nunca esteve nos planos de Deus.

19.9 — Esse versículo traz a tona muitas discussões. Por exemplo, o que significa a palavra “mulher”? Alguns consideram a lei do divórcio valida somente no período de noivado, como no caso de José e Maria (Mt 1). Nesse caso, mulher significa “aquela com quem o homem está noivo”, uma explicação até plausível. Todavia, Deuteronômio 24.1, cujo contexto histórico é aplicado nitidamente a discussão em Mateus 19, não está falando do período de noivado. Fala especificamente do marido que repudia sua mulher quando ambos já vivem juntos. Outra questão é o significado de “prostituição”.

A palavra aqui (que está dentro do contexto de Deuteronômio 24-1) tem um sentido amplo e pode referir-se a todo tipo de imoralidade sexual: sexo antes do casamento, adultério, libertinagem, homossexualidade e até bestialidade. Um problema muito grande nessa cláusula de exceção e se ela dá direito ao homem apenas de divorciar-se ou também permissão para que ele se case novamente. É provável que ambos. Em outras palavras, a imoralidade de um cônjuge não somente serve como base para o divórcio, mas também da respaldo ao traído para um novo casamento.

Provavelmente o significado da última parte de Mateus 19.9 é que o homem que se casa com uma mulher divorciada após ele ter praticado imoralidade comete adultério ao casar-se com ela. Algo que devemos considerar e que a carta de divórcio resguardava a mulher. Um marido não podia livrar-se de sua mulher de qualquer maneira, simplesmente mandando-a embora. Ele precisava ter motivos para fazer isso e também dar a ela uma carta por escrito. Porém, mesmo que ele tivesse muitas razões para se divorciar, o melhor seria que isso não acontecesse.

O plano de Deus era que o casamento durasse por toda a vida (Mt 19.8). Não é por acaso que a passagem sobre o divórcio no capítulo 19 vem logo após a discussão sobre o perdão no capítulo 18.

19.10 — Nesse ponto, os discípulos entram na discussão. Certamente eles ficaram surpresos com a opinião inflexível do Senhor. Se o único motivo para o divórcio era a imoralidade, eles concluem que não convém casar. Mas essa não era a intenção de Jesus, até porque Deus criou o casamento entre homem e mulher para o próprio bem deles (Gn2.17).

19.11 — Jesus disse que permanecer solteiro e somente para poucas pessoas.

19.12 — Alguns não se casam porque não tem desejo sexual. Outros não se casam porque foram castrados. Outros ainda não se casam para servir a Deus; são os que se fizeram ”eunucos” (l Co 7.7).

19.13-17 — Porque me chamas bom. Pode significar o mesmo que “por que você esta me perguntando o que é bom?”. O único que pode responder a essa pergunta sobre a bondade é Deus. Mas o fato de Jesus ter respondido é uma afirmação silenciosa de Sua deidade.

19.18 — “Quais” na verdade é o mesmo que “quais destes”?

19.18,19 — O Senhor respondeu a pergunta citando a última parte do Decálogo, enfatizando o quinto mandamento e Levítico 19.18.

19.20-22 — Esses versículos não ensinam que a salvação é pelas obras (Rm 3.23,24; Ef 2.8,9). Ao contrário, Jesus estava provando que o jovem rico estava errado ao pensar que tinha cumprido a Lei de Deus (Mt 19.20). Se o jovem amasse seu semelhante como era exigido pela Lei de Moisés (Mt 19.19; Lv 19.18), não teria dificuldade alguma em doar sua riqueza para os pobres.

19.23-26 — É difícil entrar um rico no Reino dos céus. Esse comentário provocou espanto nos discípulos: Quem poderá pois salvar-se? E que eles compartilhavam da opinião comum naquela época de que os ricos eram abençoados por Deus e, no fim, com certeza seriam salvos. Para corrigir esse erro, Jesus explicou a dificuldade humana que o rico tem de converter-se. Difícil (gr. duskolos) expressa algo que é penoso de se alcançar, embora não seja impossível. A ilustração do camelo passando pelo fundo de uma agulha tem sido interpretada de varias maneiras, como uma corda de pelo de camelo passando pelo buraco de uma agulha, ou mesmo como um camelo de verdade sendo espremido para passar por uma porta bem estreita chamada fundo de agulha, que ficava perto da entrada principal de Jerusalém.

Outra interpretação trataria da absoluta impossibilidade de um camelo (o maior animal da Palestina) tentar passar literalmente pelo buraco minúsculo de uma agulha. Essa última é a interpretação mais provável, assemelhando-se a um provérbio do Talmude sobre o elefante. Observe que eles não estavam em Jerusalém nessa ocasião. A questão é que a salvação do rico parece humanamente impossível.

De fato, a humanidade inteira é incapaz de salvar a si mesma e precisa confiar na eficácia da graça de Deus, pois aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo e possível. A salvação de um pecador rico é um milagre tão grande quanto a salvação de um pecador pobre. Um e outro só podem ser salvos pela ação de Deus.

19.23,24 — O comentário de Jesus sobre a salvação do jovem rico era algo difícil de aceitar por parte de muitos judeus da época porque eles tinham sua própria teologia da prosperidade. Se alguém era prospero, isso era uma evidência da benção de Deus sobre ele. Mas além de Mateus 19.23 dizer que é difícil um rico ser salvo, Mateus 19.24 afirma que isso é tão possível quanto um camelo passar pelo fundo de uma agulha (Mc 10.25; Lc 18.25).

19.25,26 — A resposta de Cristo é que nenhum ser humano pode salvar a si mesmo; a salvação vem de Deus (Ef 2.8).

19.27 — Eis que nós deixamos tudo. O que Jesus ensinou ao jovem rico foi justamente o que Pedro e os outros discípulos haviam feito (Mt 4.18-22). A pergunta mais apropriada então seria: que receberemos ? Em vez de repreender Pedro por sua pergunta, que parecia tão egoísta, Jesus lhe garantiu que ele e os outros discípulos ganhariam cem vezes tanto (v. 29) pelo investimento que fizeram em vida (Mt 16.24-28).

19.28 — Os apóstolos jamais se esqueceram da promessa de Jesus sobre o lugar que ocupariam no Seu Reino; isso era algo que ainda estava muito vivo na mente deles em Atos 1.15-26. Na regeneração aponta para a vinda do Reino prometido em Daniel 7.13,14. Trono da sua glória. Cristo hoje está assentado a destra do trono eterno do Pai. Em Seu Reino futuro, Ele ocupará o trono de Davi (Ap 3.21). E, nesse Reino, os doze apóstolos se assentarão sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel.

19.29 — A expressão cem vezes tanto pode representar incontáveis vezes, mas isso em nada altera sua interpretação ou aplicação. Na família de Deus, se alguém perde um membro da família, esse membro e substituído inúmeras vezes, ou cem vezes, pelos servos de Cristo, pois Sua visão é de uma grande família, não de uma família comum.


19.30 — Esse ditado, ou provérbio, obviamente é semelhante a Mateus 20.16 e esta ligado a parábola. Ele serve de introdução e é o tema principal da parábola. Aparece na ordem inversa em Mateus 20.16.

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