2014/12/03

Interpretação de Filipenses 1


Interpretação de  Filipenses 1




COMENTÁRIO
Filipenses 1
I. Saudações. 1:1, 2.
Cartas antigas costumavam começar assim: "De A para B, Saudações". Embora seguindo o padrão convencional, Paulo não pôde deixar de transformar essa vaga expressão de boa vontade em uma significativa bênção cristã.
1. Paulo, o único autor, gentilmente acrescentou o nome de Timóteo (que estava com ele no momento de escrever a carta e poderia ter exercido o papel de seu secretário). Juntos eles eram servos de Cristo Jesus. Douloi significa literalmente escravos, mas não há aqui uma idéia de submissão servil. Com alegre disposição eles se entregaram ao serviço daquele a Quem pertenciam. O termo santos não designa um nível de realizações éticas, mas pessoas que em Cristo Jesus foram separadas para a nova vida. Exatamente por que foi acrescentado inclusive bispos e diáconos não está claro. Talvez fosse uma reflexão posterior, chamando a atenção para aqueles que supervisionaram (episcopos traduz-se melhor por "superintendente") a coleta enviada a Paulo como presente pessoal (4:10-19).
Uma vez que os termos "bispo" e "presbítero" são virtualmente sinônimos (cons. J. B. Lightfoot, St. Paul's Epistle to the Philippians, pág. 96 e segs.), e uma vez que havia diversos "bispos" (observe o plural) em Filipos, não seria sábio defender um episcopado no primeiro século com base neste versículo.
2. Graça e paz a vós. A versão cristã de Paulo das saudações grega e hebraica combinadas. Não kairein, "saudações", mas karis, "graça" – a bondade espontânea, imerecida e amorosa de Deus para com os homens. Paz é mais do que tranqüilidade íntima; tem implicações teológicas que falam da comunhão restaurada entre o homem e Deus com base na obra de reconciliação de Cristo. Estas bênçãos espirituais encontram sua fonte principal em Deus nosso Pai e. . . Senhor Jesus Cristo.
II. Ação de Graças e Oração. 1:3-11.
Paulo eleva o seu coração em gratidão e oração pela participação dos cristãos filipenses na obra do Evangelho e expressa seus profundos anseios em que continuem a crescer no amor e no discernimento.
3. Ação de graças com alegria é uma corrente oculta que permeia todas as cartas de Paulo. (Só em Gálatas ela foi momentaneamente eclipsada pela seriedade da ameaça judaizante.) Em nenhum outro lugar ela explode à superfície mais expressivamente do que em Filipenses. Mesmo na prisão os pensamentos de Paulo se dirigiam para os outros. Em sua contínua lembrança deles, ele dá graças a Deus. O singular meu Deus exibe um relacionamento profundo e íntimo.
4. Este versículo é parentético. Sempre . . . em todas as minhas súplicas combina melhor com o que vem a seguir do que com o versículo 3 (cons. J. J. Muller, The Epistles of Paul to the Philippians and to Philemon, pág. 40, n. 4). Para Paulo, lembrar-se era orar. A natureza de sua intercessão foi colocada em destaque pela escolha da deêsis (uma oração petitória) em lugar da mais comum proseuchê. A estudada repetição da palavra todas (1:4, 7, 8, 25; 2:17, 26; 4:4) é o delicado lembrete de Paulo de que não há lugar para sectarismo na comunidade cristã. A intercessão não é um fardo a ser carregado mas um exercício da alma a ser praticado com alegria.
5. O motivo da ação de graças é a "simpática cooperação" dos filipenses "na propagação do evangelho".
Koinonia foi pobremente traduzida pela palavra cooperação. Vem de um verbo que significa "ter em comum" e pode ser definido, no N.T., como "aquela vida cristã cooperativa e mútuo relacionamento que brota da participação comum de Cristo e seus benefícios" (C. E. Simcox, They Met at Philippi, pág. 28). Embora a referência imediata talvez fosse ao presente em dinheiro (koinonia tem sido assim empregado nos papiros), a expressão não fica exaurida nesse ato único. O presente é apenas um símbolo de uma preocupação muito mais profunda pela propagação do Evangelho. O desejo de partilhar fora característica dos filipenses desde o primeiro dia. Um presente alcançou Paulo quando ele mal chegou a Tessalônica (4:16).
6. A confiança de Paulo em que a participação deles no Evangelho continuaria dependendo da fidelidade divina que, tendo começado uma boa obra, não deixaria de completá-la. Para o convertido que vinha do paganismo, os termos semi-técnicos começou e completá-la trariam à lembrança a iniciação e o alvo principal das religiões pagãs. Boa obra. Essa ação total da graça divina em seu meio.
O dia de Cristo Jesus. O equivalente do N.T. para o "dia do Senhor" do V.T.
7. Paulo podia pensar deles desse modo porque os tinha no seu coração. Esse laço de afeição toma-se evidente pela participação deles nas algemas de Paulo como também na defesa diante da corte. (Descobertas feitas em papiros mostram que tanto apologia, defesa, como bebaiôsis, confirmação, são termos jurídicos.) Eram participantes dele na graça, e não da sua graça. Sofrer por Cristo é um favor especial de Deus.
8. Da saudade que tenho de todos vós revela um profundo sentimento de afeição familiar cristã. Splagchnos (lit., coração, pulmões, fígado, etc.; não intestinos) refere-se metaforicamente aos sentimentos de amor e ternura que se cria brotarem das entranhas. A afeição de Paulo tinha origem divina; na verdade, era o próprio Cristo que habitava nele, que amava por intermédio dele (cons. Gl. 2:20).
9. Paulo não amesquinhava o entusiasmo da afeição deles mas orava para que o seu amor abundasse mais e mais em pleno conhecimento (epignôsis) e percepção moral (aisthêsis). O amor tem de compreender com exatidão e aplicar a verdade com discriminação, e bom senso ético. Toda percepção. Discernimento para todo tipo de situações.
10. Para aprovardes as coisas excelentes (interpretando tu diaferonta como "coisas que transcendem") é dar todo o apoio àquilo que depois de testado comprovou-se ser essencial e vital. O resultado do amor inteligente é um senso justo de valores. Isto, por sua vez, capacita a pessoa a ser sincera (uma derivação de eilikrineis sugere o significado de "sem jaça quando testado contra a luz") sem ofender os outros (tomando aproskopoi como transitivo). Isto se transforma em preocupação vital à vista da vinda do dia de Cristo.
11. Cheios do fruto de justiça. O amor que discerne também resultará em uma colheita abundante (observe o sing. karpos – fruto) de justiça, Mas mesmo isso depende da justiça pela fé – aquela que vem através de Jesus Cristo. O alvo de toda atividade cristã é reconhecer e homenagear (epainos) a perfeição divina (doxa) de um Deus redentor.
III. O Evangelho Indestrutível. 1:12-14.
Os filipenses estavam grandemente angustiados diante da notícia da prisão de Paulo. O que aconteceria à causa de Cristo agora que o principal dos apóstolos se encontrava em cadeias? Paulo escreveu encorajando-os, dizendo-lhes que aquilo que poderia parecer um contratempo, era na realidade um progresso importante. Além de toda a guarda pretoriana ter ouvido de Cristo, a igreja local também fora encorajada a proclamar o Evangelho aberta e destemidamente.
12. Seis vezes nesta carta Paulo dirige-se aos destinatários chamando-os de irmãos. O termo indica um forte sentimento de unidade e camaradagem espiritual. As circunstâncias (ta kat'eme) que rodearam Paulo inesperadamente provaram servir para o progresso ativo do Evangelho. Pokopê (progresso ou avanço) vem de um verbo usado originalmente em relação ao pioneiro que abre caminho no mato (Souter, Pocket Lexicon, pág. 216).
13. O progresso fora em duas fronteiras: o Evangelho fora anunciado à Guarda Pretoriana (v. 13), e os cristãos foram despertados para testemunhar mais destemidamente (v. 14). Praitôrio refere-se aqui não à residência oficial do governador, mas à guarda imperial. (Cons. Lightfoot, observação famosa na op. cit., págs. 99-104). Até mesmo os guardas profissionais não podiam deixar de falar desse notável prisioneiro e dos motivos de sua prisão. Logo toda a cidade (de todos os demais) sabia que Paulo estava preso por causa de Cristo.
14. E a maioria dos irmãos foram "contaminados com o heroísmo de Paulo" (Rainey em ExpB, pág. 52). É melhor aceitar o no Senhor (E.R.A.) como representando a esfera da confiança deles, do que considerá-lo modificando os irmãos. (E.R.C.). O motivo da confiança foi as algemas de Paulo. O resultado final foi que tiveram mais ousadia do que nunca, de falar (laleô indica o som produzido) a palavra de Deus.
IV. Pregação Inescrupulosa. 1:15-18.
Nem todos pregavam movidos por motivos puros; mas, se Cristo era pregado, Paulo se regozijava.
15. A identidade desses alguns que pregavam Cristo movidos por motivos impuros não pode ser estabelecida com certeza. Entretanto, não eram do partido judaizante (como Lightfoot e Moule sustentam), porque eles pregavam Cristo, não "outro evangelho" (cons. Gl. 1:6-9). Seria próprio de Paulo tolerar agora o que ele repudiara completamente antes? Não era também a minoria implícita em Fp. 1:14, porque não eram de modo nenhum reticentes no que pregavam. Mais provavelmente os antagonistas eram um grupo dentro da igreja que, invejando a influência de Paulo (na prisão ou fora dela) e incitados por um espírito de rixa, aumentaram sua atividade missionária no desejo de aumentar as contrariedades do apóstolo preso. A boa vontade dos outros refere-se aos motivos de sua pregação.
16. O Texto Recebido, seguindo documentação inferior, inverteu os versículos 16 e 17 para fugir à suposta irregularidade no trato com os dois grupos do versículo 15 em ordem oposta. Por amor refere-se tanto à preocupação deles pelo progresso do Evangelho quanto ao seu apego pessoal à pessoa de Paulo. Keimai, estou incumbido (aqui), é a figura de uma sentinela no seu posto cumprindo a obrigação. No presente contexto pode ter um significado mais metafórico de estar destinado à defesa do evangelho.
17. A pregação do segundo grupo partiu de um espírito de discórdia (eritheia foi usado por Aristóteles para indicar "uma busca egoísta de uma posição política por meios desonestos", Arndt, pág. 309). Seu verdadeiro interesse era ganhar de Paulo e, no processo, aborrecê-lo na prisão. Thlipsis, tribulação, significa literalmente fricção. "Despertar fricção pelas cadeias" é um modo pitoresco de descrever a consternação de uma pessoa que não pode acertar uma situação por causa de alguma limitação que lhe foi imposta.
18. Mas qual foi a reação de Paulo? Quaisquer que fossem os motivos, se Cristo era pregado, ele se regozijava. Anda que o Evangelho fosse usado como camuflagem para lucros pessoais, ainda era "o poder de Deus para salvação". Michael subestima o apóstolo quando diz que "o espírito de Paulo estava agitado quando escreveu" e que 1:18 foi "uma tentativa deliberada . . . de controlar seu espírito" (op. cit., pág. 45).
Sim, sempre me regozijarei não pertence ao versículo 18 como expressão de uma forte determinação de não escorregar para a irritação diante da decepcionante conduta de seus adversários, mas introduz os próximos motivos de regozijo dados nos versículos 19, 20.
V. Vida ou Morte? 1:19-26.
Enquanto o desejo pessoal do apóstolo era de partir para estar com Cristo, a necessidade da igreja o convencia de que ele cedo seria libertado e continuaria trabalhando para o progresso dela na fé.
19. Paulo cria que a presente oposição resultaria no bem porque os cristãos estavam orando. Como resultado, o Espírito de Jesus Cristo (o Espírito Santo, não um espírito cristão) concederia um suprimento abundante daquilo que fosse necessário para a emergência existente. Sôtêria seria melhor se tomada como libertação da prisão, embora muitos comentadores entendem-na num sentido mais amplo. Alguns julgam perceber uma citação de Jó 13:16 (LXX), e interpretam a esperança de vindicação de Paulo como descansando sobre a consciência que tinha de sua integridade (cons. Michael, in loc.)
20. Apokaradokia, ardente expectativa, é uma palavra extraordinária, talvez cunhada pelo próprio Paulo. Literalmente significa olhar intensamente à distância com a cabeça estendida. A expectativa do apóstolo era dupla: para que ele não fosse envergonhado (isto é, desapontado com o fracasso do auxílio divino), e que Cristo fosse engrandecido (observe a substituição sensível da terceira pessoa passiva pela primeira pessoa ativa) no seu corpo (a esfera natural para a expressão externa do homem interior). A ênfase colocada sobre agora implica na proximidade da hora da crise. Quer pela vida, quer pela morte, não reflete indiferença da parte de Paulo sobre seu destino, mas a preocupação de que, em qualquer dos casos, Cristo seja honrado.
21. A vida do próprio Paulo foi tão completamente absorvida pela pessoa e programa do seu Senhor que ele podia dizer, Porquanto para mim o viver é Cristo. Cristo era o resultado total de sua existência. O morrer é lucro porque na ausência das limitações da vida, a união com Cristo seria completamente realizada. Nenhum sentido de cansaço do mundo deve ser entendido nessas palavras.
22. A falta de continuidade do versículo 22 reflete a perplexidade de Paulo. Das diversas possibilidades, a construção elítica – Se entretanto, (For-me concedido) o viver na carne, isto (resultará em) trabalho frutífero para mim – é a preferível. A escolha de carne em lugar de "corpo" enfatiza a natureza fraca e transitória da vida física. Paulo não se aventura a decidir entre as duas alternativas (neste contexto gnôrizô significa "tomar conhecidas as decisões de alguém"), mas prefere deixar a escolha com o Senhor.
23. Ora, de um e outro lado estou constrangido. Synekomai (estou em apuros) é uma expressão mais forte significando "estar ligado". Com a adição de um e outro lado significa "tolhido e pressionado de ambos os lados". Contemplando a possibilidade da libertação ou da espada, Paulo sente-se tolhido de tomar qualquer uma das direções. Seu desejo pessoal é partir (analyô descreve um navio levantando a âncora ou um soldado saindo bruscamente do acampamento; é um eufemismo para "morrer") e estar com Cristo. Isto seria incomparavelmente melhor – um comparativo duplamente reforçado ("uma ousada acumulação", Moule, op. cit.,), expressando a excelência superior de se estar com Cristo.
24. Mas a obrigação maior é continuar prosseguindo na presente vida. A preposição composta com o verbo simples – epi-menô, dá-lhe o pensamento especial de persistência. Desejo pessoal dá lugar à necessidade espiritual.
25. E, convencido disto (isto é, tudo o que foi dito nos vs, 19-24), Paulo sabe (convicção pessoal, não visão profética) que ele permanecerá com todos vós para o vosso progresso. O resultado será o gozo da fé (os dois substantivos dificilmente podem ser separados). Da fé (objetivamente – o credo, e subjetivamente – a apropriação do crente).
26. Afim de que assinala um propósito específico – dando-lhes um abundante motivo de glória. Em Cristo é a esfera de sua glória. Quanto a mim é o motivo, explicado pela frase seguinte, pela minha presença de novo convosco.
VI. Exortação à Firmeza. 1:27-30.
Para que a jactância deles não os levasse ao descuido no conflito contra o paganismo, Paulo os adverte. Com unidade e firmeza deviam prosseguir lutando pela fé.
27. Deviam viver de modo digno, como cidadãos do céu. O uso que Paulo faz de politeuomai, "viver como cidadãos", "cumprindo deveres comuns", em vez do seu usual peripateô, "andar", seria notado e apreciado numa colônia romana como Filipos. A palavra enfatiza o efeito de uma comunidade cristã em uma sociedade pagã. Indo . . . estando ausente não indica dúvidas quanto ao futuro mas uma tentativa de desprendê-los de uma indevida dependência dele. A idéia do combate de gladiadores passa por todos estes versículos: Eles deviam estar firmes (stêkô), lutando juntos (synathleô), e não deviam se espantar (ptyreomai, v. 28). Em um só espírito indica uma ofensiva unificada; uma só alma (sede das afeições) indica que a unidade deve estender à disposição interior.
28. O verbo, espantar-se, descreve cavalos assustados prontos a debandar. Os oponentes não eram os judaizantes mas membros de um elemento violentamente hostil em Filipos. O destemor dos cristãos era uma prova evidente de perdição para os adversários, pois suas tentativas de frustrar o Evangelho eram fúteis, causando apenas a própria destruição. Também lhes revelava que Deus estava do outro lado (da vossa salvação e não para vós de salvação).
29. Vos foi concedido poderia ser mais literalmente traduzido para vos foi graciosamente concedida (karizomai é a forma verbal de karis, "graça"). "O privilégio de sofrer por Cristo é o privilégio de fazer o tipo de serviço que é bastante importante para merecer o contra-ataque do mundo" (Simcox, op. cit., pág. 61). Sofrer por Cristo (no interesse de Sua causa) é um favor só concedido àqueles que crêem nEle.

30. Ligar com o versículo 28a. Os filipenses estavam envolvidos no mesmo tipo de conflito (agôn; cons. nossa palavra agonia) em que Paulo estivera (Atos 16:19 e segs.) e ainda estava.



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