2016/09/23

Significado de João 1

Significado de João 1

Significado de João 1


João 1

1.1-18 — Esses primeiros versículos são os mais lindos e profundos descritos em toda a Palavra de Deus. Eles nos transportam para antes do início da criação e nos fazem viajar no tempo e no espaço da história humana. Eles revelam, como em nenhuma outra parte das Escrituras, que o Jesus que fez parte da história da humanidade (Jo 1.14) é o Deus Criador, descrito em Gênesis 1.1. O texto em João 1.1-18 revela a relação eterna entre Pai e Filho e mostra que podemos andar na luz e ter a vida eterna quando aceitamos aquele que é a maior revelação do Pai: Jesus Cristo!

1.1 — No princípio. A narrativa em Gênesis 1.1 começa com a criação do universo e prossegue até a criação do homem (Gn 1.27; 2.22,23). O relato em João 1.1 relembra criação e revela a eternidade, enfatizando que, antes da criação deste universo material, o Verbo (gr. Logos) já existia. A Palavra já existia antes de tudo (compare com o versículo 14, em que o Verbo eterno se fez carne).

O substantivo palavra significa aquilo que é falado, discurso, pregação. Na tradução do Antigo Testamento do hebraico para o aramaico, esse vocábulo é traduzido por Deus. Já o termo grego Logos [que consta na Septuaginta] era usado nos círculos intelectuais gregos para expressar a força imaterial que rege todo o universo, a mente soberana que governa e dá sentido a todas as coisas. [Contudo, apesar de o Novo Testamento ser escrito em grego] O conceito que havia na mente de João era o do Antigo Testamento. O Verbo aqui é a expressão ou a manifestação de Deus (Jo 1.14, 18). Sem dúvida alguma, João se referia a Jesus (Jo 1.14; Ap 19.13). E por isso que esse Evangelho começa com a ideia de que Jesus, o Verbo, a maior manifestação de Deus ao homem, já existia quando o universo material foi criado. O fato de que o Verbo estava com Deus expressa um relacionamento íntimo, uma ideia de comunhão face a face. N o mundo antigo, as pessoas de mesma classe social deviam sentar-se no mesmo nível, uma de frente para a outra; e isso era algo muito importante. Portanto, a preposição com indica relação pessoal e também situação de mesmo status. O Verbo, o próprio Jesus Cristo, é alguém que tem íntima comunhão com o Pai (1 Jo 1.2). Além disso, o Verbo estava com Deus. A construção grega dessa frase enfatiza que o Verbo tem as mesmas características de Deus. Desse modo, o Evangelho de João começa com uma frase simples, singela, confirmando a preexistência (a eternidade), a personalidade e a divindade do Logos, Jesus Cristo. Ele é diferente do Pai, mas ainda assim é Deus.

1.2 — Cristo não veio a tornar-se uma Pessoa ou Filho de Deus em algum momento da história. Ao contrário, o Pai e o Filho sempre existiram e tinham um relacionamento amoroso um com o outro.

1.3 — Todas as coisas foram feitas (gr. ginomai) por ele. Antes da criação, o Verbo já existia (Jo 1.1). O tempo verbal aqui aponta para a Sua existência eterna. A criação, contudo, teve um início Qo 1-3); ela não é eterna. Deus Pai criou o mundo (Gn 1.1) por meio do Filho (Cl 1.16; Hb 1.2). Jesus não foi parte da criação. Todas as coisas foram criadas por Jesus; Ele é o Deus Criador. O ensinamento bíblico sobre a criação, confirmado por esse versículo, esclarece que ela foi completa. Aqueles que creem na teoria da evolução e em reencarnação afirmam que a criação é uma obra contínua. No entanto, a criação foi realizada de forma plena, completa, por Deus, como vemos em Génesis 1; Ele agora está apenas cuidando de tudo que criou (Jo 5.17).

1.4 — Veja que não es tá escrito aqui que a vida foi criada; ela já existia em Cristo (Jo 5.26; 6.57; 10.10; 11.25; 14.6; 17.3; 20.31). O homem depende de Deus para viver. Nossa existência, física e espiritual depende do poder provedor de Deus. Mas o Filho, por outro lado, em si mesmo tem a vida por toda a eternidade. A vida, Jesus Cristo, também é a luz dos homens. Essa figura de linguagem nos traz o conceito da revelação. Por ser a luz, Jesus Cristo releva ao homem tanto Deus como o pecado (SI 36.9). Ainda nesse evangelho, pouco mais à frente, Jesus declara que é a vida (Jo 11.25) e a luz (Jo 8.12). A morte cessa, e as trevas se dissipam quando a vida chega e a luz começa a brilhar. Os mortos se levantam, e os cegos passam a ver, tanto física como espiritualmente.

1.5 — A luz resplandece nas trevas. Jesus veio a este mundo de trevas para trazer a luz espiritual (Is 9.2). O verbo compreender pode ser traduzido por (1) tomar posse, (2) dominar, ou (3) entender. Sendo assim, as trevas não sobrepujaram a luz; embora não a entendessem, não conseguiram vencê-la. Apesar de o homem [em trevas espirituais] não entender a luz nem a receber; apesar de Satanás e seus aliados resistirem à luz, eles não podem superar o poder da luz. Em suma, Jesus é a vida e a luz, e aqueles que o aceitam tornam-se filhos da luz (J° 12.35-36). Quando os cristãos recebem a luz, Cristo, eles passam a fazer parte de uma nova criação (2 Co 4.3-6).

1.6 — Esse versículo mostra a diferença entre João e Jesus Cristo. Jesus é Deus (Jo 1.1), João Batista foi um homem enviado por Deus. Jesus é a luz dos homens (v. 4), João veio para testificar da luz (v. 7,8). Nossa função, assim como a de João, não é atrair as pessoas para nós mesmos, mas para Jesus. A escuridão era tão intensa que Deus teve de enviar Seu Filho para nos mostrar a luz. E a decadência moral não estava apenas no mundo, mas também em Israel e nos seus líderes religiosos.

1.7,8 — Não era ele [João Batista] a luz, mas veio para que testificasse da luz. A locução para que testificasse significa dar testemunho ou declarar. João usou o verbo testemunhar cerca de 39 vezes e o substantivo testemunho aproximadamente 14 vezes em seu Evangelho. Isso era muito importante para ele alcançar o seu propósito, ou seja, dar testemunho correto de Jesus como o Messias àqueles que creriam nele (Jo 20.30-31). Crer implica confiar. João usa o verbo crer quase 100 vezes para enfatizar o que uma pessoa precisa fazer para receber o dom da vida eterna. Não encontramos nesse Evangelho, porém, a palavra fé ou o verbo arrepender-se.

1.9 — Ali [em Jesus] estava a luz verdadeira, que alumia a todo homem que vem ao mundo. Para trazer maior compreensão à encarnação do Verbo, esse versículo poderia ser assim traduzido: “Essa é a verdadeira luz [Jesus] que veio ao mundo para iluminar todos os homens”. Jesus se tornou homem para revelar a verdade a todas as pessoas. Ele revela a todo homem que vem ao mundo quem é o Criador, e a criação revela a todos na terra que há um Criador no céu (Rm 1.20).

A inclusão de todas as pessoas aqui contrasta com o exclusivismo por Israel no pacto antigo. Os profetas judeus ensinaram, e muitos judeus creram, que nos últimos dias as profecias em Zacarias 14 se cumpririam, e os gentios se converteriam. Isso também contrasta com a ótica das sociedades grega e romana. Os gregos jamais imaginariam que o conhecimento pudesse ser acessível a todos. Os romanos desprezavam os bárbaros, pois consideravam-nos uma raça inferior sem lei. Cristo encarnou para trazer luz a todos, embora nem todos recebessem a Sua luz, pois nem todos creram nele. A função de João Batista [como a voz profética, o arauto enviado à frente do Messias] era dar testemunho dessa luz. E nós, hoje, temos de aproveitar toda e qualquer oportunidade para refletir essa luz e dar testemunho dela. Dependendo do contexto, o termo mundo pode significar (1) o universo, (2) a terra, (3) a humanidade, ou (4) o sistema mundano contrário ao Reino de Deus. Neste texto de João, significa a terra, o local onde vive a humanidade.

1.10,11 — O verbo conhecer no versículo 10 significa não apenas ter o conhecimento, mas também receber [esse conhecimento, essa pessoa] de bom grado. Mas, em vez de receber a Jesus de braços abertos, o mundo virou as costas para Ele. A aceitação e a rejeição do Messias (v. 12) são os temas que começam nesse prólogo (Jo 1.1-18) e aparecem em todo o Evangelho de João.

1.12 — A frase aos que creem no seu nome aparece três vezes no Evangelho de João (Jo 1.12; 2.23; 3.18). O termo nome nesse versículo não se refere à maneira como Jesus é chamado, mas ao que representa o Seu nome: o Senhor é a salvação (Jo 3.14,15). Nesse contexto, significa crer que Jesus é o Verbo, a vida e a luz, ou seja, que Ele é o Cristo, o Filho de Deus (Jo 20.31). A expressão deu-lhes o poder refere-se ao direito legal de assumir a posição de filhos de Deus. Nenhum de nós era filho de Deus, na verdade. Por natureza, éramos filhos da ira e estávamos condenados à morte e ao inferno. Imagine um miserável ser adotado como filho por um rei e receber o direito às suas riquezas e o status de realeza. Por meio da fé, crendo em Jesus, os pecadores, destituídos de todo e qualquer direito, tornam-se membros da família de Deus.

1.13 — Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus. Esse novo nascimento que experimentam aqueles que creem em Jesus é espiritual. Os nascidos do Espírito não nasceram do sangue, ou seja, não estão ligados por laços consanguíneos. Não são fruto da fecundação natural. Não foram gerados pela vontade do carne, isto é, pelas nossas próprias forças ou vontade. O novo nascimento é uma obra feita somente por Deus. È um dom que recebemos gratuitamente (Jo 4-10,14), e não uma recompensa pelo nosso esforço pessoal. O novo nascimento está baseado no relacionamento individual com Cristo, e não em nossa condição pessoal. Cristo é o único Mediador entre Deus e o homem. Cristo é a vida (Jo 1.4; 14-6). Aqueles que creem nele nasceram de Deus, pois receberam vida espiritual.

1.14 — E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. O Verbo (gr. logos), Aquele que sempre existiu se fez (gr. ginomai, uma ação concreta) carne (gr. sarx) e habitou entre nós.

O versículo 1 fala da natureza divina e eterna de Cristo e de Suas obras, que transcendem o tempo e o espaço. Aqui, no versículo 14, o Verbo entra na dimensão do tempo e do espaço, materializa-se, faz-se carne, e muda a história da humanidade. O Filho de Deus que existia desde a eternidade (Fp 2.5-9), por um tempo, abriu mão de Seu estado eterno e imortal e de Sua condição divina, e fez-se homem. Ele se tornou um ser humano, limitado pelo tempo e espaço, sujeito à dor e à morte. Jesus Cristo se identificou completamente conosco como homem. Mas Ele não tinha pecado, pois o pecado não fazia parte da natureza humana antes da Queda. Sendo assim, João usou a palavra carne neste versículo para aludir à natureza humana, e não sua propensão para o pecado (diferente do apóstolo Paulo, em Romanos 8.1-11). Deus habitou entre nós. O verbo traduzido como habitar é de origem grega e significa tabernacular, alude a ideia de armar uma tenda.

No Antigo Testamento, o tabernáculo era uma tenda móvel, armada no meio do acampamento dos israelitas e que representava a presença de Deus no meio do Seu povo. [Isto aponta para o desejo do nosso Criador de ter comunhão conosco.] Deus não é um tirano arrogante que fica ditando ordens do Seu trono no céu. Apesar de ser Rei e Senhor, Ele quer viver entre nós. Para isso, chegou a fazer-se homem, para habitar conosco. E vimos a sua glória. No Antigo Testamento, a palavra glória estava ligada à presença divina (Éx 33.18). Assim como Deus manifestou a Sua glória no tabernáculo edificado por Moisés, em Cristo Ele revelou a Sua presença divina e o Seu caráter (Jo 18.6; 20.26,27).

Como a glória do Unigênito do Pai. Jesus é o unigênito de Deus (Jo 3.16,18); o único Filho. O mesmo termo é usado para Isaque (Hb 11.17), embora este não fosse o único filho de Abraão, mas era o único filho da promessa. No evangelho de João, os que não nasceram do sangue, nem da vontade da came, nem da vontade do varão, mas de Deus (v. 13), pela fé em Cristo, foram chamados filhos de Deus (Jo 1.12,13). Mas Jesus Cristo é o unigênito de Deus, o único que sendo totalmente divino fez-se totalmente humano. Cheio de graça e de verdade. Jesus é cheio de graça e de verdade. Quando Deus se revelou a Moisés, Ele revelou a si mesmo como grande em beneficência e verdade (Êx 34.6). Quando aplicado a Jesus Cristo, esse atributo divino o identifica como o Autor da revelação e redenção perfeitas.

1.15 — O que vem depois de mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. Jesus nasceu depois de João Batista (Lc 1.36) e começou o Seu ministério depois do dele. Entretanto, João Batista disse que Jesus era antes dele, pois já existia desde a eternidade (v. 30). João Batista é um exemplo maravilhoso da humildade necessária para alguém cumprir seu ministério diante de Deus. Ele conhecia muito bem a mensagem específica que Deus havia designado para ele pregar, e não se desviou dela.

1.16 — A maioria das pessoas atribui as palavras do versículo 15 a João Batista. As palavras dos versículos 16-18, porém, são de João, o escritor deste Evangelho, embora também possam ter sido ditas por João Batista.

A expressão graça sobre graça significa várias manifestações da graça — termo também usado no versículo 17, que se encontra em Êxodo 32—34- Moisés e o povo de Israel receberam a graça de Deus, mas tinham uma grande necessidade de receber mais graça (Êx 33.13). [A plenitude da graça é a encarnação do Verbo.]

1.17 — Em todo o Novo Testamento, graça é o favor de Deus concedido ao homem pecador, independente de suas obras e de seus méritos. A lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. João não está desmerecendo a Lei ou Moisés nesse versículo. A Lei e a graça não eram antagônicas no Antigo Testamento. Quem estava sob a Lei no Antigo Testamento também era salvo pela graça (veja Êx 34-6,7) - Em Êxodo 34.6,7a, Yahweh se revela como o Deus piedoso e misericordioso, embora na parte b do versículo 7 seja dito que Ele não tem o culpado por inocente [ou seja, Ele é justo e age com justiça]. Jesus reúne esses mesmos atributos divinos: a graça (que assegura o perdão) e a justiça (que garante o juízo previsto na Lei para aquele que comete pecado). Além disso, Jesus experimentou em Seu próprio corpo o castigo pelos pecados cometidos pelo homem e, desse modo, perdoou os transgressores.

Sendo assim, João não disse que a Lei começou com Moisés, e Jesus trouxe a graça. Ele assinalou que, em Cristo graça e justiça (ou a verdade) se manifestam como uma coisa só. Embora a graça e a verdade manifestadas por Deus por meio da Lei dada a Moisés fossem abundantes, é na pessoa de Jesus Cristo que elas alcançaram plenitude da revelação.

1.18 — Deus nunca foi visto por alguém. Deus é Espírito (Jo 4-24), é invisível (Cl 1.15; 1 Tm 1.17) e só pode ser visto quando se revela a alguém. Nenhum ser humano pode ver a face de Deus e viver (Êx 33.20). Abraão, o amigo de Deus, não o viu. Nem mesmo Moisés, aquele pelo qual a Lei foi dada a Israel, não pôde ver a face de Deus (Ex 33.22,23). Mas o Filho tem um relacionamento íntimo com o Pai e o vê face a face (Jo 1.1; 6.46; 1 Jo 1.2). Deus se tomou compreensível aos olhos humanos por meio de Jesus. Nós podemos ver a face, o caráter de Deus, por meio de Seu Filho. È verdade que hoje não podemos ver Jesus, porém nós o conhecemos pela Sua Palavra [que é espírito e verdade]. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer. O seio é aqui usado aqui para expressar uma íntima comunhão (Jo 13.23; Lc 16.23). Aquele que é o Filho unigênito do Pai e que o conhece intimamente veio a esta terra e o fez conhecer. O termo unigênito significa único da espécie e expressa a ideia de intimidade, profunda comunhão que Jesus tem com o Pai. O verbo conhecer também pode ser traduzido por revelar. Portanto, Jesus Cristo, tendo a mesma natureza divina do Pai (Jo 1.1), tornou-se homem (Jo 1.14) para revelar Deus a nós (Jo 1.18) e também decidiu trazer-nos misericórdia e juízo (graça e verdade). Uma das muitas bênçãos da graça (Jo 1.17) é o conhecimento de Deus (Jo 1.18). E, quanto mais conhecemos a Sua glória, como nos é revelado nas Escrituras, mais somos transformados na mesma imagem (2 Co 3.18). Imagine só! Nós, que fomos criados conforme a imagem de Deus, mas que nos tornamos vis por causa do pecado, agora somos restaurados por conhecermos a Cristo, possuidores da mesma natureza de Deus. Poderia haver algo melhor para investirmos o nosso tempo do que conhecer a Cristo? Essa é a chave da vitória (Hb 12.2,3).

1.19—2.11 — Esta passagem descreve o que aconteceu por uma semana no início do ministério do Senhor. No primeiro dia, João Batista deu testemunhou de Jesus aos líderes judeus (Jo 1.19- 28). No dia seguinte (Jo 1.29), João testemunhou novamente (Jo 1.29-34). No dia seguinte, João testemunhou a dois dos seus discípulos que passam a seguir a Cristo (Jo 1.35-42). No dia seguinte (Jo 1.43), Jesus chamou mais dois discípulos (Jo 1.43-51). Ao terceiro dia (Jo 2.1), ou seja, o terceiro dia após o último dia mencionado, Jesus foi para Canaã com Seus novos discípulos. A viagem de Betânia a Jericó, na Judeia (Jo 1.28), levava cerca de três dias de caminhada. Desse modo, em João 1.19—2.11, são relatados em detalhes os testemunhos da primeira semana.

1.19,20 — Os judeus aqui são os líderes judeus que compunham o Sinédrio e opuseram-se ao Senhor Jesus. O Sinédrio era responsável por avaliar todo aquele que fosse acusado de ser falso profeta ou blasfemo, bem como outros crimes de natureza religiosa. O Sinédrio era composto sobretudo por membros de dois grupos religiosos influentes na época: os saduceus e os fariseus. A delegação que foi investigar João Batista era de fariseus (Jo 1.24). A pergunta que eles fizeram a João Batista foi: Quem és tu? João afirmou que não era o Messias.

No primeiro século, muitos esperavam a vinda do Messias anunciada pelos profetas do Antigo Testamento. E a preocupação principal dos líderes judeus era manter a paz sob os olhares de Roma; por isso estavam atentos a todos os supostos Messias. João foi rápido ao afirmar: eu não sou o Cristo.

1.21,22 — Es tu Elias? Era uma promessa do Antigo Testamento que Elias viria antes do dia grande e terrível do Senhor (Ml 4-5). Es tu o profeta? Moisés profetizou que o Senhor enviaria um profeta como ele (Dt 18.15). João Batista negou ser tanto um como o outro; ele não tinha nenhuma intenção de se passar pelo Messias. E, assim como João, não devemos ter de nós mesmos um conceito mais elevado do que realmente somos, mas ao contrário, devemos ter um conceito equilibrado, de acordo com a medida da fé que Deus nos concedeu (Rm 12.3 — nvi).

1.23 — A voz- Cristo é o Verbo; João Batista, a voz. Quando foi pressionado a dizer quem era, João Batista afirmou ser o cumprimento de Isaías 40.3: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Nos dias de Isaías havia poucas estradas. Quando um rei viajava, estradas eram construídas para que a carruagem real passasse por elas e não ficasse atolada na lama. Isaías disse que antes de Deus aparecer para manifestar Sua glória, uma voz seria ouvida, convidando Israel a endireitar o caminho por onde o próprio Deus passaria. João identifica a si mesmo: Eu sou a voz do que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor.

1.24 — Os fariseus constituíam uma seita muito influente com quase seis mil membros. Além de serem exímios intérpretes da Lei em Israel, eles também eram extremamente zelosos quanto aos costumes e às tradições. Nem todos os fariseus eram como os que foram descritos por João (Jo 5.20), porém, de maneira geral, esses líderes religiosos não aceitaram o Messias.

1.25 — Realizar o ritual do batismo era o mesmo que assumir uma posição de autoridade. Os fariseus questionaram João Batista quanto à autoridade que ele possuía para realizar tal ato religioso: Por que batizas [...] se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? As autoridades judaicas achavam que eram os únicos detentores do direito de legitimar pregadores religiosos. A autoridade de João, contudo, havia sido dada por Deus. Ele conhecia muito bem Sua missão (Jo 1.26) e a realizou no espírito e na virtude de Elias (Lc 1.17).

1.26,27— Este é aquele [...] do qual eu não sou digno de desatar as correias das sandálias. Desatar as correias das sandálias era trabalho de escravos. O Talmude judaico prescrevia: “Tudo que um servo faz para o seu senhor, o discípulo deve fazer para o seu mestre, menos a tarefa humilhante de desatar as correias das sandálias” . Com aquela declaração no versículo 26, João Batista estava dizendo: “Jesus Cristo é o Deus vivo, e eu sou a voz que clama no deserto, Seu servo e escravo”.

1.28 — A localização de Betânia é incerta. Alguns acham que Betânia aqui não é a mesma que conhecemos, próxima a Jerusalém. Do outro lado do Jordão significa no lado oriental do rio Jordão. E este, com toda certeza, era o local onde João batizava.

1.29 — Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! No Antigo Testamento, os israelitas sacrificavam cordeiros na Festa da Páscoa (Ex 12.21) como ofertas a Deus (Lv 14-10-25). Jesus Cristo é o Cordeiro de Deus que foi oferecido como sacrifício pelos pecados não apenas de Israel, mas de toda a humanidade (Is 52.13—53.12). Com essa magnífica frase, na introdução do seu Evangelho, João revela resumidamente todo o plano da redenção do Antigo Testamento.

1.30 — Um homem que foi antes de mim. Jesus é superior em posição e honra. Porque já era primeiro do que eu. Jesus já existia antes de João Batista.

1.31 — Eu não o conhecia. A princípio, João Batista não tinha certeza de que Jesus era o Messias. Ao que parece, embora Maria e Isabel fossem parentes (Lc 1.36), não há prova alguma de que Jesus e João tenham tido contato durante a infância. Tudo que João sabia é que devia batizar com água e que o Messias seria manifesto a Israel ao ser batizado. Deus deu um sinal a João para que este reconhecesse o Messias: o Espírito Santo desceu do céu como uma pomba e pousou sobre o Filho de Deus. Quando Jesus foi batizado, o Espírito Santo desceu sobre Ele (v. 32), revelando a João quem Ele era (v. 33). Mateus ainda fala de uma voz que veio do céu, dizendo: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo (Mt3.17).

1.32-34 — Esse é o que batiza com (gr. en) o Espírito Santo. O Novo Testamento menciona sete vezes esse ministério de Jesus. Cinco vezes em citações proféticas (Mt 3:11 ;M c l.8 ;Lc 3.1 6; Jo 1.33; At 1.5), uma em citação histórica (At II.16-18), e outra em texto doutrinário (1 Co 12.13). Embora a tradução em português varie entre com e no, o grego usa de um modo consistente a preposição en, que fala da esfera em que Cristo batizava. Todavia, o Messias não fez isso enquanto estava nessa terra. O batismo com o Espírito Santo aconteceu pela primeira vez durante o Pentecostes que se seguiu à morte e à ressurreição de Jesus (At 1.5; 11.15,16), tomando-se uma realidade na vida de todos os cristãos por ocasião do novo nascimento (1 Co 12.13).

1.35 — Estava João outra vez ali na companhia de dois dos seus discípulos. Um dos dois discípulos de João era André (v. 40). O outro não é citado aqui, mas provavelmente era o próprio João, autor desse Evangelho.

1.36,37 — Os dois discípulos [...] seguiram a Jesus. João Batista estava disposto a perder seus discípulos, caso eles fossem seguir a Jesus. Depois de apresentar Jesus, João sai de cena e só aparece novamente no final do capítulo 3 (v. 22-36). Seguiram a Jesus. Os discípulos a partir desse momento não somente passaram a seguir a Jesus, mas também tiveram a bênção de João Batista para que se unissem a ele.

1.38 — E Jesus [...] disse-lhes: Que buscais? Essa foi uma das perguntas mais importantes que os seguidores de Jesus tiveram de responder. No entanto, a pergunta de Jesus a esses discípulos foi mais profunda do que a resposta obtida — onde estás hospedado? (nvi). Em Sua pergunta Jesus intencionava deixar claro Seu propósito para os novos discípulos. Será que eles estavam procurando um revolucionário? Ou talvez um modo de vida mais fácil? Se assim fosse, Jesus não seria a melhor escolha certamente. Então, Jesus começou a ensinar-lhes que tipo de compromisso Seu discipulado exigiria.

1.39 — E era já quase a hora décima. Há seis referências a um período do dia no Evangelho de João (Jo 1.39; 4.6, 52; 18.28; 19.14; 20.10). Então, a questão é: que sistema João usava para contar o tempo?

Os judeus começavam a contar um novo dia ao pôr-do-sol do anterior. O dia dos romanos começava à meia-noite, como o nosso hoje. João, que provavelmente escreveu seu Evangelho em Efeso, ao que parece, usava o sistema romano. E se ele não estivesse usando esse sistema, então, João 19.14 estaria em conflito com Marcos 15.25. Pelo sistema judeu de contagem do tempo, a décima hora desse versículo seria quatro horas da tarde. Segundo o sistema romano, a décima hora era dez da manhã. Sendo assim, fica claro que João estava usando o sistema romano; a décima hora era mesmo dez da manhã. Jesus convidou os dois discípulos para passar quase praticamente o dia inteiro com Ele.

1.40-42 — Um dos primeiros exemplos de evangelismo pessoal: André levou as boas-novas ao seu irmão, Pedro, dizendo que Jesus era o Messias. André ainda aparece mais duas vezes no Evangelho de João (Jo 6.4-9; 12.2-22) e, em ambas, ele está levando alguém até Jesus. Veja como Jesus vai ao encontro da necessidade pessoal de cada um deles. A André, Jesus revelou Sua humildade. A Pedro, Jesus revelou Sua habilidade de mudar o caráter humano. A Filipe, Ele revelou Sua autoridade. A Natanael, Ele revelou Sua onisciência. Tais demonstrações levaram cada um desses discípulos a testemunhar que Jesus é o Filho de Deus.

Tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro). Cefas é uma palavra em aramaico que significa rocha (Mt 16.18). Jesus viu queocaráter de Pedro era como uma rocha, o que no futuro o levaria a tornar-se um líder e uma fiel testemunha.

1.43,44—Jesus [...] achou a Filipe, e disse-lhe: Segue-me. Segundo esse versículo, parece que Filipe passou a seguir Jesus sem ter sido evangelizado por outro discípulo, mas há alguns fatores que indicam que André e Pedro estiveram com ele antes de ele se encontrar com Jesus. O versículo 44 diz que André e Pedro eram da mesma cidade de Filipe, o que sugere que eles tenham conversado. Além disso, quando Filipe disse a Natanael o que havia acontecido, ele disse: Havemos achado [...] Jesus de Nazaré (v. 45).

1.45 — O nome Natanael não é mencionado nos Evangelhos Sinóticos. Mas em cada lista dos apóstolos registrada em Mateus, Marcos e Lucas o nome Bartolomeu é citado junto ao de Filipe. E bem provável que Natanael e Bartolomeu sejam a mesma pessoa.

Filho de José. Até então, Filipe não sabia acerca do nascimento virginal de Jesus. Todavia, todos os discípulos logo vieram a reconhecer Jesus como Filho de Deus (v. 49).

1.46 — Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Natanael sabia que os profetas do Antigo Testamento haviam profetizado que o Messias nasceria em Belém; e Nazaré era um vilarejo inexpressivo. Por isso, Natanael não podia aceitar que alguém tão importante como o Messias viesse de um lugar tão insignificante como Nazaré. Vem e vê. Percebe-se que Filipe não foi com Natanael. A verdade não é transmitida com mais eficácia por meio de uma argumentação impositiva, mas por meio de um gentil convite: Vem e vê!

1.47 — Eis aqui um verdadeiro israelita. Por um bom tempo, Jacó, um patriarca israelita, foi um homem astuto e cheio de dolo. Natanael era um israelita, um descendente de Jacó, porém, verdadeiro e sincero. Jesus viu o caráter de Natanael como um livro aberto (Jo 2.24)-

1.48,49 — Te vi eu estando tu debaixo da figueira. No Antigo Testamento, esse termo sugere ideia de descanso e segurança (1 Rs 4-25; Mq 4-4; Zc 3.10). Natanael talvez estivesse meditando debaixo da figueira sobre o sonho de Jacó citado nos versículos 50 e 51.

Te vi eu. Jesus aqui demonstra Seu conhecimento sobrenatural. Ao que parece, foi o que convenceu Natanael; sabedor de tal detalhe de sua vida, Jesus tinha de ser o Filho de Deus, o Rei de Israel (Jo 20.31). Esses dois títulos se referem ao Messias.

1.50 — Coisas maiores do que estas verás. Jesus garantiu a Natanael que ele veria manifestações sobrenaturais ainda maiores no futuro. Jesus poderia estar referindo-se aos milagres dos capítulos 2 ao 11; Ele poderia estar se referindo também à futura glória de Cristo na vinda do Filho do homem (Jo 1.51; Dn 7.13).

1.51 — Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subirem e descerem. Jacó teve uma visão de anjos subindo e descendo do céu por uma escada (Gn 28.12). E o sentido aqui é esse mesmo: uma ligação entre o céu e a terra. Filho do Homem, a mesma expressão usada em Daniel 7.13 para se referir a um ser celestial, era a maneira que Jesus mais gostava de referir-se a si próprio (Mt 8.20; Mc 2.10).




2 comentários:

  1. Eu adorei, muito bem explicado e com vários detalhes, deveriam fazer um aplicativo..

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  2. Obrigado por compartilharem isso conosco. Muito bom.

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