Interpretação de Daniel 4

Interpretação de Daniel 4

Interpretação de Daniel 4

1) Saudação de Nabucodonosor. 4:1-3.
A forma da saudação, como do restante do capítulo, indica que este é um documento governamental da Babilônia, incorporado por Daniel às Sagradas Escrituras. Isto indica que a inspiração das Escrituras é através da autoridade divina da pessoa por cuja orientação uma determinada palavra é incluída. Até as palavras de uma mula foram incluídas nas Escrituras (Nm. 22:28, 30) pela autoridade de Moisés! A saudação de Nabucodonosor deu início a este documento – que sem dúvida circulava independentemente antes de ser incluído nas Escrituras – dirigido a todo o seu reino. Não é demais esperar que alguns arqueólogos o encontrem algum dia. Talvez ele já esteja incógnito entre alguns dos milhares de documentos em tabuinhas de barro, descoberto, mas ainda não decifrado.
2) Circunstâncias na Corte. 4:4-9.
4. Eu, Nabucodonosor, estava tranqüilo em minha casa. Guerras bem sucedidas e grandes construções na Babilônia tinham lhe proporcionado a tranqüilidade da realização. (Imensas ruínas arqueológicas testificam disso. Veja bibliografia e texto de Boutflower, In and Around the Book of Daniel, págs. 65-113). Feliz no meu palácio. Geralmente usado em relação a plantas, o adjetivo ra-'anan, florescente (E.R.C.), aparece na Bíblia Hebraica nas descrições do luxuriante crescimento das árvores (Sl. 92:12) e figurativamente da saúde das pessoas (Sl. 92:14). Materialmente tudo prosperava.
5. Tive um sonho, que me espantou. O rei tinha uma neurose! A cabeça que carrega uma coroa não tem sossego.
6, 7. Apelar para os seus conselheiros não tinha propósito. Esse grupo de pomposos charlatães já há muito devia ter sido desfeito.
8. Por fim se me apresentou Daniel. Seria o orgulho nacional que o impediu de chamar Daniel antes? Perversidade? Depravação? O restante do versículo indica que embora tivesse uma elevada opinião sobre Daniel, ainda continuava mantendo um ponto de vista inteiramente pagão. Não há evidência de que rûah 'elahîn qaddishîn deveria ser traduzido para “o Espírito do Santo Deus”, como defendem alguns, embora essa tradução seja possível gramaticalmente e o paralelo com a cognata hebraica de Js. 24:19 a apóie, como também a grega de Teodósio e a RSV, à margem. Vendo que Nabucodonosor reconhecia outro como “meu deus”, duvidamos que ele considerasse Jeová como o Deus santo e único. Santo aqui parece significar simplesmente “divino”. Meu Deus é de identidade incerta. Pode significar Bel, como em Belsazar, ou Nabu como em Nabucodonosor, ou Marduque o principal deus da Babilônia e de todo o panteão babilônico. Via as palavras de Faraó em Gn. 41:38 semelhantes a estas.
Quatro expressões resumem as circunstâncias na corte: prosperidade aparente, perturbação no coração do rei, frustração dos seus esforços e um apelo patético ao profeta de Deus.
3) Narrativa do Sonho. 4: 10-18.
10, 11. Uma árvore. A mais útil de todas as plantas, que serve para dar sombra, alimento para o homem e os animais, decoração e beleza, combustível, material de construção. Nas Escrituras um símbolo comum (por exemplo, Jz. 9:8 e segs.; Sl. 1:13; Jr. 1:11, 12; Ez. 15:1 e segs. 31:3-18). Nabucodonosor amava as árvores do Líbano. Registros existentes falam de suas viagens para vê-las e trazer sua madeira para a Babilônia (Wady Brissa Inscription. Boutflower, op. cit., in loco). Cons. Ez. 31:3-18, 12. Cons. Mt. 13:31, 32.
14, 16. Se qualquer insinuação naturalmente psicológica sobre o passado do rei estava por trás do sonho, era provavelmente sua experiência no Líbano, onde ele pessoalmente supervisionara o corte dos cedros para o transporte até a sua capital. A queda de uma árvore alta deixa uma profunda impressão na pessoa que observa.
Para maiores detalhes, veja comentários sobre a interpretação na seção seguinte. O que importa aqui é a declaração de propósito, que resume a mensagem espiritual não só deste capítulo mas também de todo o livro.
17. A observação de Young (Proph. of Dan., in loco) de que o rei aqui fala como um pagão parece estar errada. O rei está repetindo as palavras de um mensageiro divino. É melhor dizer que temos uma citação aparentemente exata que um pagão faz das palavras de um mensageiro divino. A profecia aqui, como no capítulo 2, está no nível do entendimento de um rei pagão. Esta sentença. Antes, o decreto, ou a decisão. Autoridades concordam que esta é a linguagem do paganismo. Possivelmente foi usada a linguagem das decisões astrológicas (Montgomery, BDB). Por decreto dos vigilantes . . . dos santos. Cons. v. 13 – “um vigilante, um santo” (RSV). Os dois nomes são para o mesmo mensageiro divino geralmente conhecido pelos hebreus como aqui. São anjos santos e vigilantes. O Altíssimo. Este nome é peculiarmente apropriado. O rei pagão atribuiu assim ao Deus de Daniel, com o qual ele identificava o próprio Daniel, a preeminência acima de todos os deuses. A designação também pode ser entendida como a solitária grandeza de Deus na qualidade de Deus único e verdadeiro (cons. I Co. 8:4-6). Ao mais humilde dos homens. A referência é aos homens de situação humilde e não aos de caráter mau.
Este versículo que declara solenemente o controle providencial e soberano de Deus no decorrer da história humana é o centro do livro de Daniel (cons. Is. 40:15 e contexto; Pv. 21:1; Rm. 13:1; Atos 17:24-26).
4) A Interpretação do Sonho. 4:19-27.
19. Daniel . . . esteve atônito. Antes, perplexo – não porque tivesse dificuldade na interpretação do sonho mas porque não tinha nenhuma dificuldade e se sentia muitíssimo relutante em dar as más noticias ao bondoso monarca. Algum tempo e não uma hora. Provavelmente uma expressão familiar como o nosso “um minuto”, significando um momento. Seus pensamentos o turbavam (isto é, o amedrontavam). Ele se sentia amedrontado por causa do rei. O fato do rei ter se compadecido de Daniel parece indicar a afeição que ele sentia por seu conselheiro hebreu, apesar de não tê-lo convidado antes à sua presença. Contra os que te têm ódio. Alguns acham que esta e a cláusula seguinte indicam que Daniel desejava que a desgraça predita ao rei pudesse recair sobre os seus inimigos e rivais. É inteiramente possível interpretar suas palavras como uma simples afirmação de que os acontecimentos preditos dariam satisfação aos inimigos e rivais do rei, e este parece ser o sentido mais provável.
20-22. A árvore... és tu, ó rei. O próprio rei, conquistador e senhor orgulhoso de toda a terra, está simbolizado pela árvore. A tua grandeza cresceu, e chegou até ao céu, e o teu domínio até à extremidade da terra. Esta declaração, especialmente a segunda e terceira partes dela, não era literalmente verdadeira, embora fosse a declaração de um profeta. Os antigos semitas gostavam das hipérboles e as usavam sem que fossem mal-interpretados por alguém. O reino de Nabucodonosor, na realidade, era geograficamente menor do que os impérios persa, grego ou romano. Era, entretanto, muito grande e incluía a maioria das partes conhecidas do mundo.
23. A intenção dessas palavras era de que o rei pessoalmente experimentasse um grande desastre, perdendo a sua posição durante um período de sete tempos. O aramaico não é mais específico do que a tradução portuguesa no que se refere à duração de tempo envolvido. Considerando que dias, semanas ou meses dificilmente teriam dado tempo suficiente para o desenvolvimento do versículo 33b, parece melhor acompanhar a maioria dos comentaristas e adotar “anos” como o significado.
26. Isto assegurava ao rei uma final restauração.
27. O conselho de Daniel era no sentido de que o rei desse sinais de arrependimento (veja Joel 1:8, 14; 2:17, 18), sem dúvida como prova de mudança interior (via Joel 2:13). Impureza pessoal (pecados) como também a opressão aos súditos e inimigos derrotados (iniquidades) precisavam acabar. Seu arrependimento poderia provocar o “arrependimento” divino (veja Jr. 18; Joel 2:12-14).
5) Cumprimento do Sonho. 4:28-33.
29. Doze meses. Houve um misericordioso “prolongamento de sua tranqüilidade” (v. 27). O palácio real de Babilônia. Escritores antigos contam, e a arqueologia confirma, que Nabucodonosor, além de remodelar e ampliar os antigos edifícios da Babilônia, levantou seus próprios projetos de magníficas construções. Uma grande rua que ele reconstruiu para desfiles estendia-se diante dele, como também muitos templos e quilômetros de muros. “Agora, neste palácio, tendo construído grandiosas estruturas de pedra e tendo plantado sobre elas todos os tipos de árvores, dando-lhes um aspecto muito parecido com o de montanhas, ele elaborou e preparou os famosos Jardins Suspensos, para agradar à sua esposa, que gostava das terras montanhosas, porque fora criada na Média” (Josefos Against Apion 1, 19).
30. A grande Babilônia que eu edifiquei. Veja observações sobre 4:29. Cons. Is. 14:4 e segs. ''Todo o cenário e a auto-complacência do rei em sua gloriosa Babilônia são extraordinariamente leais à história” (Montgomery, op. cit., pág. 243. Consulte também o padrão de obras da antiga história e arqueologia da Babilônia. Algumas das melhores são as do século dezenove; por exemplo, Layard, Nineveh and Babylon; as diversas obras de Rawlinson; Assyrian Discoveries de George Smith. Cons. Boutflower, op. cit., quanto aos trabalhos mais recentes, além de Montgomery, op. cit., pág. 243).
31-33. Uma voz do céu. A última experiência consciente e lúcida do rei voltou sua atenção para Deus no céu. Na próxima seção vemos que sete anos depois, quando ele retomou à sanidade mental, sua primeira reação foi a de reagir olhando para cima.
Quanto a evidências históricas da veracidade do fato, o leitor deve recorrer a obras de maior alcance. Existe apoio, mas não provas. Na antiguidade, diversos exemplos da doença de Nabucodonosor têm sido descritos. Se foi um juízo divino especial, não temos necessidade de um paralelo natural, por mais interessante que seja. Considerando que os antigos geralmente consideravam as pessoas loucas como “possuídas” por um deus, o rei talvez fosse mantido em um parque recebendo tratamento especial. Exemplos das alterações físicas do rei existiram na antiguidade na história aicar (ANET, págs. 427-430).
6) Recuperação e Restauração do Rei. 4:34-37.
34. Quando o homem recuperou o entendimento, ele louvou a Deus! Nada é mais insano que o orgulho humano. Nada é mais sóbrio e sensível que o louvor de Deus.
35-37. A restauração do rei deveria encorajar os homens a esperar dias melhores, na providência divina, por mais profundo que o castigo do Senhor possa ter sido para com eles.
Este capítulo mostra que os pagãos não estão isentos do governo moral de Jeová. As leis morais governam a elevação e a queda dos homens quer estejam relacionadas com Deus através da graça salvadora quer não (vaia também Amós 1:1 – 2:3).
D. A Festa de Belsazar: Uma Lição sobre o Pecado e o Seu Castigo. 5:1-31.
O propósito deste capítulo é dar instrução moral mais que informação histórica. Os versículos 1, 30, 31 fornecem os únicos dados históricos significativos. O resto é uma lição sobre o pecado e o seu castigo. Gobryas (babl. Gubaru), general de Ciro, está junto ao portão da Babilônia no exato momento em que o rei dava início a sua festa. Ele tinha desviado as águas do Eufrates e marchava com seus homens subindo o leito do rio a caminho da cidade que ficava em suas duas margens. Os portões do rio tinham ficado sem guardas. A Babilônia, com mantimentos estocados para vinte anos, supunha-se segura por trás dos muros maciços. Nabonidus (bab. Nabunaid), o pai de Belsazar, fora derrotado na batalha pelos exércitos de Ciro, e agora estava cercado em Borsipa, não muito longe. Não havia lugar para loucas bebedices!