2016/06/29

Estudo sobre Apocalipse 2

Índice: Apocalipse 1 Apocalipse 2 Apocalipse 3 Apocalipse 4 Apocalipse 5 Apocalipse 6 Apocalipse 7 Apocalipse 8 Apocalipse 9 Apocalipse 10 Apocalipse 11 Apocalipse 12 Apocalipse 13 Apocalipse 14 Apocalipse 15 Apocalipse 16 Apocalipse 17 Apocalipse 18 Apocalipse 19 Apocalipse 20 Apocalipse 21 Apocalipse 22

II. AS CARTAS ÀS SETE IGREJAS (2.1—3.22)
As cartas às igrejas seguem um padrão facilmente reconhecível. O Cristo ressurreto, designando-se a si mesmo por um de seus títulos, se dirige ao “anjo” da igreja com as palavras “Conheço”; segue uma breve descrição da condição da igreja com a devida recomendação ou censura, promessa ou advertência. Cada carta termina com a exortação: “Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas” precedendo ou seguindo uma palavra de encorajamento para aquele que vencer (“ao vencedor”) — i.e., o cristão que permanecer firme na sua confissão, sem apostatar ou fazer concessões, nem que tenha de pagar com a vida, se for necessário.
As cartas dão uma impressão clara da vida cristã na província da Ásia algumas décadas depois da evangelização dessa província feita por Paulo e seus colegas (52-55 d.C.). Há pressão sobre os cristãos para que sejam menos inflexíveis na sua atitude negativa a atividades aprovadas pela sociedade como a adoração ao imperador e coisas semelhantes, a serem menos insistentes em coisas que distinguem o seu estilo de vida tão claramente da civilização em que vivem. A pressão pode assumir a forma de perseguição ativa, como em Esmirna e Pérgamo, ou a forma mais sutil (e mais difícil de ser resistida) da ênfase contínua nas vantagens de se conformar ao paganismo somente o bastante para tornar a vida um pouco mais confortável.
1) A carta a Éfeso (2.1-7)
Éfeso, na foz do Caister, era uma cidade antiga da Anatólia colonizada pelos gregos jónicos. Nessa época, era a maior cidade comercial da Ásia Menor e capital da província da Ásia; manteve sua constituição autônoma sob os romanos, com seu próprio senado e assembleia civil. Era amplamente conhecida como o lar do culto à deusa Ártemis dos efésios (uma manifestação local da grande deusa-mãe da Ásia Menor), cujo templo na cidade era uma das sete maravilhas do mundo. A igreja de Éfeso datava da permanência de três anos de Paulo na cidade (At 20.31).
A associação de João com Éfeso é perpetuada no topônimo Ayasolúk, forma corrompida do grego hagios theologos, “o santo teólogo”.
v. 1. Estas são as palavras daquele que tem as sete estrelas em sua mão direita e anda entre os sete candelabros de ouro: Acerca desses títulos, cf. 1.16,13. O seu andar entre os candelabros pode significar a inspeção, um por um, das suas condições, v. 2. Conheço as suas obras-Cf. o v. 19; 3.1,8,15. você não pode tolerar homens maus-. Cf. “esses que praticam o mal” de Fp 3.2 (e 2Co 11.13); aqui provavelmente são os que querem afrouxar os padrões de conduta cristãos, pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores-. Cf. 2Co 11.13: “tais homens são falsos apóstolos [...] fingindo-se apóstolos de Cristo” — mas aqui os falsos apóstolos são mais provavelmente antinomianos do que judaizantes. Inácio, na sua carta aos efésios (c. 115 d.C.), elogia seus leitores porque se recusaram a ouvir os visitantes que ensinavam uma doutrina falsa. v. 4. Contra vocêporém, tenho isto-. Cf. v. 14,20. você abandonou o seu primeiro amor. Um diagnóstico tão penetrante, especialmente de pessoas que acabam de ser elogiadas por perseverarem e não se fatigarem na fé (v. 3), fala de uma percepção espiritual incomum e da familiaridade e intimidade de longa data com a igreja a quem se dirige. Apesar de toda a perseverança tão elogiável, o fervor do seu primeiro amor — o seu “amor que demonstram para com todos os santos”, como o texto mais extenso de Ef 1.15 formula — tinha desvanecido. E nada — nem as muitas boas obras nem a sã doutrina — pode tomar o lugar de agapê na comunidade cristã. A não ser que houvesse mudança de coração e um retorno às primeiras obras do amor, os dias dessa igreja estariam contados; o seu candelabro seria removido (v. 5). Que a igreja de Efeso levou a sério essa advertência é uma dedução possível do testemunho de Inácio, que a elogia por sua fé e amor. v. 6. Mas há uma coisa a seu favor. Isso é para o seu crédito, você odeia as práticas dos nicolaítas-. Esta palavra significa “os seguidores de Nicolau” — não há como saber se era Nicolau, o prosélito, de Antioquia (At 6.5), como foi defendido pelos pais da Igreja a partir de Ireneu e Clemente de Alexandria (c. 180 d.C.), ou outro Nicolau. Aparentemente eles afrouxaram as condições estabelecidas pela carta apostólica de At 15.20,29 (cf. v. 14,15,20). v. 7. darei o direito de comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus-. Isto é, vou dar-lhe vida eterna. A origem da figura de linguagem pode ser reconhecida em Gn 2.8,9; 3.22. A árvore da vida no Éden em Gênesis era a contraparte terrestre da árvore da vida no Éden celestial. Cf. 22.1,2.
2) A carta a Esmirna (2.8-11)
Esmirna havia sido uma antiga colônia grega, destruída pelos lídios em 627 a.C. Foi fundada de novo por Lisímaco, um dos sucessores de Alexandre, o Grande, em 290 a.C. A partir de 195 a.C., Esmirna manteve relações de sólida amizade com Roma. A deidade local era a “Mãe de Sipilene”, uma versão local de Cibele. A carta à igreja em Esmirna, embora a mais breve das sete, é também a mais calorosa e laudatória.
v. 8. o Primeiro e o Último, que morreu e tomou a viver. Um eco de 1.17,18. v. 9. dos que se dizem judeus mas não são-. O verdadeiro judeu é alguém cuja vida é digna de elogios aos olhos de Deus (cf, Rm 2.28,29). A comunidade judaica em Esmirna, em virtude de seus ataques caluniosos aos cristãos, tinha se mostrado indigna do nome “judeu”; era, antes, por causa de sua oposição ao evangelho, sinagoga de Satanás (cf. 3.9). (Satanás significa “adversário”, assim como o seu equivalente grego diabolos significa “caluniador” ou “falso acusador”; cf. 12.9,10). Algumas décadas mais tarde, os judeus de Esmirna tomaram parte proeminente no ataque a Policarpo, bispo de Esmirna. v. 10. O Diabo lançará alguns de vocês na prisão-. O Diabo usou as autoridades imperiais como suas ferramentas (cf. 13.2, em que a besta imperial é fortalecida pelo dragão). O encarceramento não era um castigo em si mesmo, mas o prelúdio do juízo e da sentença. Episódios bastante conhecidos na história da igreja de Esmirna são o martírio de Policarpo (156 d.C.) e o de Piônio (250 d.C.). a coroa da vida-. A grinalda que os cristãos de Esmirna conquistariam por sua perseverança e vitória na batalha espiritual seria a vida eterna — a promessa é a mesma feita a Efeso no v. 7, embora a figura de linguagem seja diferente. A figura de linguagem usada aqui é sugerida pela “coroa de Esmirna”, um círculo de construções e colunatas sobre o monte Pagos, acima da cidade. v. 11. a segunda morte: O juízo final, a alternativa para a vida eterna (cf. 20.14; 21.8).
3) A carta a Pérgamo (2.12-17) Pérgamo significa “cidadela” (gr. pergamos); a cidade recebeu esse nome da posição elevada acima do vale do Caicus, e o nome sobrevive na moderna Bergama, que está no vale abaixo. Era a capital da dinastia dos atálidas cujo reino, entregue aos romanos em 133 a.C., se tornou a província da Ásia.
v. 12. que tem a espada afiada de dois gumes. Acerca desse título, cf. 1.16; é adequado aqui em virtude da severidade da linguagem dos v. 14-16. v. 13. onde está o trono de Satanás. Três explicações dessa expressão têm sido oferecidas, pois Pérgamo se orgulhava (a) de um trono semelhante a um altar a Zeus na cidadela; (b) de um templo do Deus da cura, Esculápio, diante do qual estava uma imagem do deus associada a uma serpente gigante, que poderia lembrar os cristãos da serpente no Éden; (c) do santuário mais antigo do culto provinciano de Roma e de Augusto, estabelecido ali em 29 a.C. Em vista de outras alusões em Apocalipse ao culto imperial, essa é mais provavelmente a referência aqui. ... mesmo quando Antipas, minha fiel testemunha-. Cf. 1.5; 3.14, em que o próprio Cristo é a “fiel testemunha”. Não sabemos quem foi Antipas, nem em que circunstâncias morreu; evidentemente sua morte tinha ocorrido já havia um tempo considerável. Um trecho como esse marca o início da transição do significado do termo grego martys de “testemunha” para “mártir” (cf. At 22.20). v. 14. ensinos de Balaão-. Uma referência à apostasia de Baal-Peor (Nm 25.3ss) que foi instigada por Balaão (Nm 31.16); incluiu fornicação ou prostituição ritual, como também idolatria. Aqui os nicolaítas e seus seguidores (v. 15) são descritos como defendendo o seu ensino. Com base nisso, alguns estudiosos têm pensado que Nicolau, segundo o qual esses últimos foram nomeados (cf. v. 6), era simplesmente Balaão, cujo nome (derivado do heb. bala‘, “devorar”, e ‘am, “povo”, o que dá o significado “devorador do povo”) foi traduzido para o grego por “Nicolau” (“conquistador do povo”); mas isso é improvável. Evidentemente havia uma tendência nessa época de afrouxar as exigências de At 15.20, 29, como uma carta morta, incluindo as que proibiam comer carne sacrificada a ídolos e a realização de casamentos proibidos pela lei de Israel (Lv 18), mas aprovadas pelos costumes pagãos. Esse afrouxamento teria reduzido as diferenças sociais entre os cristãos e os seus vizinhos pagãos. E possível, no entanto, que mais do que isso esteja incluído aqui — algo equivalente a uma participação simbólica nos cultos pagãos, v. 16. a espada da minha boca\ A palavra auto-realizável do julgamento divino (cf. v. 12). v. 17. maná escondido-. Uma compensação suficiente para a abstenção da comida dedicada aos ídolos. Como a árvore da vida tinha o seu arquétipo celestial (v. 7), assim tem o maná que Israel comeu no deserto. Havia entre os judeus um corpo considerável de ensinos acerca desse maná, escondido no céu, que seria revelado no fim dos tempos e dado como alimento aos fiéis (assim, e.g., 2Bar 29.8). É chamado de “pão dos anjos” (SI 78.25) e “pão de Deus” (Jo 6.33); à luz do ensino acerca do pão da vida em Jo 6.27ss, podemos reconhecer o “maná escondido” como mais uma expressão de vida eterna, uma pedra branca com um novo nome nela-, O significado desse presente é desconhecido, mas pode denotar uma pedra com uma inscrição (gr. psêphos) servindo como bilhete de entrada para o banquete celestial. O “novo nome”, de acordo com 3.12, é Cristo (cf. 22.4). conhecido apenas por aquele que o recebe. Fornecedores de amuletos mágicos sabiam quanto era importante que um nome de poder fosse mantido em segredo; o poder do nome de Jesus não pode ser controlado por artes mágicas, mas é conhecido na experiência dos seus servos.
4) A carta a Tiatira (2.18-29)
Tiatira foi fundada por Seleuco I, em torno de 300 a.C., como uma cidade de tropas do exército. Sua outra menção no NT é como lugar de nascimento de Lídia, a vendedora de púrpura, a primeira convertida de Paulo em Filipos (At 16.14).
v. 18. cujos olhos são como chama de fogo e os pés como bronze reluzente-. Com base em 1.14, 15, aqui, como em 1.15, “pernas” seria preferível a “pés”, v. 19. e sei que você está fazendo mais agora do que no princípio-. Até esse ponto, o elogio a Tiatira excede o elogio feito a Efeso, cujo amor tinha desvanecido tanto que o retorno às suas primeiras obras era necessário. v. 20. você tolera Jezabel, aquela mulher que se diz profetisa-, E certo que ela não somente se autodenominava profetisa, mas era reconhecida como tal por seus colaboradores (chamados no v. 22 de os “que cometem adultério com ela”) e seguidores (podemos lembrar as profetisas montanistas que foram proeminentes no século seguinte na Frigia). O seu nome real não era Jezabel, mas ela é descrita aqui como essa “Jezabel de mulher” porque seu afrouxamento dos termos do decreto apostólico ou outras concessões que fazia ao paganismo (cf. v. 14) a colocavam na linha de sucessão da Jezabel do AT, cujo culto a Baal foi caracterizado pela idolatria e prostituição ritual, v. 21. Dei-lhe tempo para que se arrependesse. Sua atividade evidentemente já tinha durado algum tempo, e advertências anteriores não tinham sido respeitadas; agora a enfermidade e a praga vão cair como castigo sobre ela e seus admiradores, v. 23. Matarei os filhos dessa mulher. Lit. “Vou matar os seus filhos com a morte”, em que “morte” pode significar “peste”, como na segunda ocorrência em 6.8 (“pragas”), eu sou aquele que sonda mentes e corações-, Cf. SI 7.9; 26.2; Jr

20.12. Mais uma vez, os atributos de Deus são compartilhados por Cristo, retribuirei a cada um de vocês de acordo com as suas obras-, O princípio constante do juízo divino nas Escrituras; cf. 20.12; 22.12; também SI 62.12; Mt 16.27; Rm 2.6 etc. v. 24. os profundos segredos de Satanás-, Da mesma forma que há uma sabedoria celestial que sonda “as coisas mais profundas de Deus” (ICo 2.10), uma sabedoria forjada promete revelar “coisas profundas”, como são chamadas — “de fato, são coisas profundas”, diz o autor, “mas coisas profundas de Satanás”. A referência provavelmente é a alguma forma de ensino gnóstico. Não porei outra carga sobre vocês-, — i.e., além das impostas pelo concílio de Jerusalém; ouve-se aqui o eco de At 15.28. v. 25. até que eu venha-, A sua vinda é uma visitação de castigo para os infiéis (v. 5,16), mas de recompensa para os fiéis. v. 26,27. darei autoridade sobre as nações. Ele as governará com cetro de ferro, Cf. SI 2.8,9; o domínio do Messias (cf. 12.5; 19.15) é compartilhado por seus seguidores vitoriosos. “Governar” é lit. “pastorear” (poimainein); o cajado do pastor é uma proteção para as ovelhas, mas também uma arma de ataque contra os seus inimigos, v. 28. a mesma autoridade que recebi de meu Pai-, Cf. SI 2.8; Mt 11.27; 28.18; Lc 22.29. v. 28. Também lhe darei a estrela da manhã-. Isso deve ser entendido em relação a 22.16 (q.v.), em que Jesus se autodenomina “a resplandecente Estrela da Manhã” — talvez uma alusão à “estrela [...] de Jacó” anunciada por Balaão em Nm 24.17. O crente vencedor, assim se deduz, vai compartilhar o governo real do Senhor vencedor (cf. 3.21).

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