2016/06/29

Estudo sobre Apocalipse 6

Estudo sobre Apocalipse 6

Estudo sobre Apocalipse 6




IV. OS SETE SELOS SÃO ABERTOS (6.1—8.5)
Quando Cristo toma o livro do destino e começa a abrir os selos um após o outro, a “revelação” propriamente dita começa. A sua ação no céu determina eventos na terra. Visto que se imagina que ele tenha tomado o rolo no ano 30 d.C., não é surpreendente encontrar uma correlação próxima entre os seis primeiros selos e a previsão de um futuro imediato a ser cumprido em uma geração, apresentado no discurso escatológico dos Evangelhos sinóticos (Mc 13.5ss e paralelos). São anunciadas a invasão, a guerra civil, a escassez, a mortalidade espalhada, a perseguição e o terremoto: “E necessário que estas coisas aconteçam, mas ainda não é o fim” (Mc 13.7). Os sete selos, como as sete trombetas que os seguem, dividem-se em dois grupos de quatro e três, com um interlúdio antes do sétimo. A abertura dos primeiros quatro selos solta os quatro cavaleiros do Apocalipse, e cada um cavalga para dentro da arena após a ordem de um dos seres viventes. Esses podem nos trazer à memória os quatro cavaleiros de Zc 1.8ss; ó.lss, enviados por Javé para patrulhar a terra; mas sua função aqui é muito mais sinistra. “As corridas messiânicas começam com a corrida comum em quatro cores. Mas não é a corrida comum, é a corrida apocalíptica da morte, um jogo temível em que o Imperador celestial zomba do coração desafiador e assustado do falso Cristo romano. Todas as esperanças e promessas do governo imperial estão despedaçadas; todos os temores do mundo romano são realizados” (E. Stauffer, Christ and the Caesars, p. 184). A aparição dos cavaleiros marca “o início das dores” que anunciam os tempos finais (Mc 13.8).

Os primeiros quatro selos: Os quatro cavaleiros (6.1-8)
1) O primeiro selo (6.1,2) v. 1. vi um dos seres viventes dizer [...] Venha. Ele está dando uma ordem ao primeiro cavaleiro (cf. 3,5,7), e não fazendo um convite a João (como a VA, seguida em português pela ARC: “Vem e vê”!), v. 2. um cavalo branco. Seu cavaleiro empunhava um arco\ Uma interpretação estabelecida há longa data entende isso como o progresso vitorioso do evangelho, sendo Cristo o cavaleiro do cavalo branco, como em 19.11. Mas a analogia dos outros cavaleiros e o fato de que esse cavaleiro está equipado com um arco (como os arqueiros montados do exército dos partos) sugerem, antes, uma invasão de além da fronteira oriental do Império Romano, e foi-lhe dada uma coroa'. Um símbolo adequado para alguém que cavalgava como vencedor determinado a vencer.

2) O segundo selo (6.3,4)
v. 4. vermelho (gr. pyrrhos): O vermelho, da cor de sangue, do cavalo está em concordância com a missão do cavaleiro, que é semear brigas e matança pela terra — dessa vez, guerra civil em vez de invasão estrangeira: guerra civil tal qual havia sido experimentada recentemente durante o “ano dos quatro imperadores” (68-69 d.C.).

3) O terceiro selo (6.5,6)
v. 5. um cavalo preto'. A cor desse cavalo não é muito significativa: dificilmente seria a descoloração causada pela fome (cf. Lm 4.8), pois a escassez, os preços altos e o racionamento, e não a fome, são sugeridos pela proclamação do v. 6. Seu cavaleiro tinha na mão uma balança'. Uma indicação de que o pão precisa ser vendido e comido por peso (Lv 26.26; Ez 4.10,16). v. 6. Um quilo de trigo por um denário, e três quilos de cevada por um denário. O “quilo” é a tradução de choinix, uma medida de secos pouco maior do que um litro. No século V a.C., o choinix de trigo era a ração diária adequada para um soldado persa ou um escravo grego; para o soldado grego, o dobro dessa porção era considerado adequado. O denário era uma moeda de prata romana que pesava em torno de cinco gramas, menos do que uma moeda de 25 centavos; cf. Mc 12.15; de acordo com a parábola de Mt 20.2, esse era o salário diário de um trabalhador braçal na Palestina em 30 d.C. O anúncio significa então que o salário diário compraria somente o trigo suficiente para uma pessoa, ou a cevada suficiente só para três pessoas — significativamente mais do que as rações de sítio de Ez 4.10, mas a um preço até dez vezes maior do que em tempos normais, e não danifique o azeite e o vinho\ Essa ordem é evidentemente dirigida aos cavaleiros; a oliveira e a videira devem ser poupadas nesse estágio, mas elas também vão sofrer com as outras árvores quando os ventos da ira forem soltos contra elas (7.1,3; 8.7).

4) O quarto selo (6.7,8)
v. 8. um cavalo amarelo-. Uma cor pálida, de defunto, é sugerida (gr. chlõros, geralmente traduzido por “verde”, como em 8.7; 9.4).
Seu cavaleiro chamava-se Morte, e o Hades o seguia de perto..:. A morte e o Hades (sheol) aparecem em paralelismo sinônimo no AT (e.g., Os 13.14), mas em Apocalipse são personificados como dois seres aliados, mas distintos (cf. 20.13,14). Foi-lhes dado poder (“autoridade”, gr. exousia) sobre um quarto da terra\ Quatro tipos de morte são especificados, por meio dos quais um quarto da humanidade é eliminado. pela espada-. Em continuação do v. 4. pela fome: A escassez do v. 6 se intensificou. por pragas: Lit. “com morte” (como, possivelmente, em 2.23). Cf. Jr 15.2 com Ez 5.12 acerca desse sentido restrito de “morte”. Obviamente trata-se aqui de uma forma particular de morte, não a morte em geral, por meio dos animais selvagens da terra: Esses se multiplicariam em territórios devastados e despovoados por guerra, fome e pragas.

5) O quinto selo: O clamor dos mártires (6.9-11)
v. 9. vi debaixo do altar. João ainda está no céu “em espírito”; o “altar” é portanto o altar de incenso no templo celestial, no qual as orações dos santos são oferecidas a Deus (8.3,4). As almas dos mártires que oraram são adequadamente retratadas como estando debaixo do altar de onde sobem suas orações, v. 10. Soberano (gr. despotês): Sua oração por vindicação é dirigida a Deus, que está no seu trono (cf. Lc 18.7). os habitantes da terra: V. comentário de 3.10. v. 11. uma veste branca: Um símbolo das suas bênçãos (cf. 7.9,13,
14). que esperassem um pouco mais, até que se completasse o número: A perseguição, iniciada em 64 d.C., precisa completar seu ciclo. Mas, quando toda a história dos mártires for concluída, as orações dos santos no altar caem como juízo sobre a terra (8.5).

6) O sexto selo: O dia da ira (6.12-17)
v. 12. um grande terremoto: Um sinal recorrente da visitação divina na Bíblia (Ex 19.18; Zc 14.4,5; Mt 27.51). O sol ficou escuro como tecido de crina negra, toda a lua tomou-se vermelha como sangue: Acerca do escurecimento dos corpos celestes no dia do Senhor, cf. Is 13.10; Ez 32.7,8; J1 2.10; 3.15; ainda mais especificamente J1 2.31, citado por Pedro no dia de Pentecoste como parte da profecia cumprida naquele tempo (At 2.20). Os ouvintes de Pedro lembravam a escuridão sobrenatural ao meio-dia da Sexta-Feira Santa, sete semanas antes; seja lá o que escureceu o sol naquele dia pode bem ter ocasionado que a lua cheia pascal tenha nascido vermelha, da cor de sangue. Aquele era o dia do Senhor em escatologia realizada, o dia em que essa característica de simbolismo apocalíptico foi experimentada uma vez em pura realidade, v. 13. as estrelas do céu caíram sobre a terra: Cf. Mc 13.25: Aqui quer dizer o colapso da autoridade estabelecida, figos verdes caem da figueira: O símile lembra o de Is 34.4, em que no dia do Senhor as hostes celestes são comparadas a “folhas secas da videira”. Os “figos verdes” (gr. olynthos, como em Ct 2.13, LXX) são os que aparecem antes das folhas e caem prontamente quando o vento bate. v. 14. O céu foi se recolhendo como se enrola um pergaminho: Com base em Is 34.4. todas as montanhas e ilhas foram removidas de seus lugares: Isso sugere uma convulsão completa do céu e da terra; o uso de tal linguagem para descrever levante político está bem estabelecido na profecia bíblica. Cf. o retrato do caos recorrente em Jr 4.23-26, em que se dá a entender a desolação causada por invasores estrangeiros.

v. 15. Então os reis da terra [...] esconderam-se em cavernas: Temos aqui um eco de Is 2.10,19, em que os homens fogem “para as cavernas das rochas e para os buracos da terra, por causa do terror que vem do Senhor e do esplendor da sua majestade, quando ele se levantar para sacudir a terra”. Mas João elabora o retrato ao enumerar as classes sucessivas de homens, desde reis até todos os escravos e livres, que assim buscam refúgio no dia da ira. v. 16. Eles gritavam às montanhas e às rochas: “Caiam sobre nós... ”: Com base em Os 10.8; mas o melhor comentário desse trecho de Apocalipse está nas palavras do nosso Senhor às “filhas de Jerusalém” na Via Dolorosa (Lc 23.30), em que ele aplicou a linguagem de Oseias ao desespero delas durante o sítio e a destruição da sua cidade que estavam por vir. Se a mesma crise está em vista aqui, os primeiros seis selos abarcam os quarenta anos até 70 d.C. ira do Cordeiro-. Um paradoxo audacioso, do qual o livro de A. T. Hanson, The Wrath of the Lamb, é um comentário ampliado, v. 17. Pois chegou o grande dia da ira deles; e quem poderá suportar? Cf. J1 2.11. Essa “ira” é a retribuição que deve operar num universo moral como é o universo de Deus; mesmo se chamarmos isso de “retribuição” em vez de “ira” para excluir a cólera imoderada que raramente está ausente na nossa raiva, não é um princípio que opera de forma independente de Deus, mas a reação da sua santidade à maldade impenitente e renitente. E de fato sua “obra muita estranha” (Is 28.21), à qual ele se aplica de forma lenta e relutante, em contraste com a sua obra adequada e pertinente de misericórdia; mas, sempre que sua misericórdia é decididamente rejeitada, os homens são entregues às consequências do curso que escolheram por livre vontade. Se aqui a ira de Deus é também a “ira do Cordeiro”, é porque essa ira não foi separada da cruz; aliás, é mais bem compreendida à luz da cruz.

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