Tenda, Barraca — Enciclopédia Bíblica Online

Na Bíblia, “tenda” e “barraca” designam, em primeiro plano, uma habitação portátil própria de deslocamento pastoral e de vida em trânsito, funcionando como marcador de vulnerabilidade, provisoriedade e dependência de proteção (cf. Gn 12.8; 18.1; 26.25); em seguida, o vocabulário se especializa para a esfera cultual quando a “tenda” se torna o tabernáculo, isto é, o santuário móvel que simboliza a presença de Deus no meio do povo (Êx 25.8), articulando a ideia veterotestamentária de “habitar” por meio do hebraico שָׁכַן, šākan, (“habitar”) e sua rede de imagens de glória e condução (cf. Êx 13.21; 40.34–38; 1Rs 8.10–13), enquanto “cabana” aparece com valor memorial e pedagógico na Festa das Cabanas, vinculando o viver provisório no deserto à identidade do povo (Lv 23.42–43). Esse campo semântico se expande para usos figurativos: a “tenda” pode descrever a fragilidade da vida e do corpo, como morada desmontável (cf. Is 38.12; 2Co 5.1), pode funcionar como índice de prosperidade e expansão (Is 54.2) ou, em sentido inverso, como emblema de ruína quando “cordas” e “estacas” são cortadas (Jr 10.20).

No NT, a família σκηνή/σκηνόω/σκῆνος — σκηνή, skēnē, (“tenda/tabernáculo”); σκηνόω, skēnoō, (“habitar em tenda/tabernacular”); σκῆνος, skēnos, (“tenda”, em sentido metafórico) — preserva o núcleo de “habitar” e o reconfigura cristológica e escatologicamente: o Logos “tabernacula” entre os humanos (João 1:14), a presença divina é descrita como “habitar” sobre os redimidos (Ap 7.15) e, no horizonte final, Deus “tabernacula” com a humanidade em chave de comunhão definitiva (Ap 21.3). Ao mesmo tempo, o termo pode manter um uso concreto e socioeconômico, como em Atos 18.3, onde o ofício de σκηνοποιός, skēnopoios, (“fazedor de tendas”) situa Paulo no mundo do trabalho urbano (At 18.3), e pode operar como metáfora político-profética na “tenda de Davi”, lendo-se a restauração davídica como estrutura para a inclusão das nações (Am 9.11; At 15.16).

I. Delimitação semântica do campo lexical

No hebraico bíblico, o núcleo do campo semântico “tenda” é expresso sobretudo por אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”), com ampla aplicabilidade para habitação portátil e, por extensão semântica, para imagens figurativas que preservam a ideia de estrutura montável/desmontável e de abrigo temporário. A forma aparece, por exemplo, em Isaías com referência explícita a “tenda” em contexto de ampliação (אָהֳלֵךְ, ʾoholēk, “tua tenda”) (Is 54.2); em Jeremias, com “tenda” e seus componentes estruturais em uma mesma moldura lexical (אָהֳלִי, ʾoholî, “minha tenda”) (Jr 10.20); e também em Isaías, onde “tenda” é acompanhada do vocabulário de fixação (אֹהֶל, ʾōhel, “tenda”) (Is 33.20). Em Cântico dos Cânticos, o mesmo lexema ocorre no plural para “tendas” em expressão comparativa (“tendas de Quedar”), preservando a referência concreta ao artefato (אָהֳלֵי, ʾoholē, “tendas”) (Ct 1.5). Em Salmos, a ocorrência de “tenda” em imagem cosmológica mantém o mesmo núcleo semântico de “estrutura armada”, sem exigir mudança lexical: אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”) (Sl 19.4).

Quando o foco recai sobre o material da tenda (o “corpo” têxtil), o hebraico recorre a יְרִיעָה (yərîʿāh, “cortina/pano”), termo que, no uso bíblico, delimita semanticamente “painéis/lençóis de cobertura” mais do que “tenda” como unidade habitacional. Jeremias emprega a forma com sufixo (“minhas cortinas/panos”) lado a lado com “minha tenda”, evidenciando a distinção lexical entre a estrutura-habitação e seus panos de cobertura (יְרִיעֹתָי, yərîʿōṯāy, “minhas cortinas/panos”) (Jr 4.20), e repete o par “tenda + panos” no mesmo verso em (Jr 10.20) (יְרִיעָתַי, yərîʿāṯay, “minhas cortinas/panos”). Isaías 54.2 conserva a mesma articulação lexical, agora com a forma plural em paralelo a “tenda” e a outros termos de fixação (יְרִיעוֹת, yərîʿōṯ, “cortinas/panos”) (Is 54.2).

Para os elementos de tração e estabilização, duas famílias lexicais emergem com especial relevância. A primeira é מֵיתָר (mêtār, “corda”), termo direto para o componente tensionador da tenda; ele aparece, por exemplo, em Isaías 54.2 no imperativo de “estender” associado à ampliação da tenda (מֵיתָרַיִךְ, mêtārayik, “tuas cordas”) (Is 54.2) e em Jeremias 10.20 com a mesma referência concreta a cordas da armação (מֵיתָרָי, mêtārāy, “minhas cordas”). A segunda é חֶבֶל (ḥeḇel, “corda/cabo”), usada em Isaías 33.20 em paralelo explícito com “estacas” (חֲבָלָיו, ḥăḇālāw, “suas cordas”) (Is 33.20); semanticamente, delimita-se aqui como termo funcionalmente equivalente a “corda” em contexto de tenda, ainda que a família seja mais ampla no hebraico.

O componente de ancoragem ao solo é expresso por יָתֵד (yātēd, “estaca/pino”), com formas flexionadas que preservam o mesmo núcleo semântico. Isaías 54.2 o associa diretamente à estabilidade do conjunto (יְתֵדֹתַיִךְ, yətēḏōṯayik, “tuas estacas”); Isaías 33.20 usa o mesmo termo no plural com sufixo para as estacas da tenda “inabalável” (יְתֵדֹתָיו, yətēḏōṯāw, “suas estacas”) (Is 33.20); Jeremias 10.20 o emprega na descrição de colapso estrutural (יְתֵדֹתָי, yətēḏōṯāy, “minhas estacas”). Em Juízes 4.21, a materialidade do objeto se torna ainda mais nítida pela coocorrência com o instrumento de cravação: “estaca da tenda” (יְתַד הָאֹהֶל, yəṯaḏ hāʾōhel, “a estaca da tenda”) e “martelo/malho” (מַקֶּבֶת, maqqeḇeṯ, “martelo/malho”). Para fins de delimitação semântica, a relevância aqui é que יָתֵד designa o elemento fixador (não “poste”), distinguindo-se do léxico de sustentação vertical.

Dentro do mesmo domínio de “abrigo temporário”, há um termo distinto que não deve ser colapsado com “tenda” sem critério: סֻכָּה (sukkāh, “cabana/abrigo”). Em Salmos 27.5, ele aparece ao lado de “tenda”, indicando uma diferenciação lexical interna no próprio verso entre “abrigo/cobertura” e “tenda” (בְּסֻכֹּה, bəsukkōh, “na sua cabana/abrigo”; e אָהֳלֹו, ʾoholōw, “sua tenda”). Sem extrapolar para leitura teológica, o dado estritamente semântico é que סֻכָּה pertence ao campo dos abrigos leves/temporários, mas não é sinônimo técnico obrigatório de אֹהֶל.

No grego do NT, o substantivo central para o campo “tenda/tabernáculo” é σκηνή (skēnē, “tenda/tabernáculo”). A forma ocorre em Hebreus 8.2 na expressão “da tenda verdadeira” (τῆς σκηνῆς, tēs skēnēs, “da tenda”). Para delimitação do léxico técnico associado, é relevante também o termo profissional σκηνοποιός (skēnopoios, “fabricante de tendas”), atestado em Atos 18.3 no plural (σκηνοποιοὶ, skēnopoioi, “fabricantes de tendas”); semanticamente, esse composto ancora “tenda” como objeto de produção artesanal (não apenas metáfora), sem exigir qualquer ampliação interpretativa.

A verificação de ambiguidade tradutória em português é particularmente relevante em Isaías 54.2, porque os tradutores oscilam entre termos de “têxtil de cobertura” e termos mais genéricos. Na ARA, aparecem escolhas como “tenda” e “lonas” para o domínio de cobertura, ao passo que NVI/ACF mantêm “tenda” mas preferem “cortinas”; como o hebraico distingue אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”) de יְרִיעָה (yərîʿāh, “cortina/pano”) no próprio verso, a variação “lonas”/“cortinas” é uma escolha de equivalência para o componente têxtil, não para o núcleo “tenda” (Is 54.2). Em Jeremias 10.20, a convergência tradutória costuma ser maior (tenda + cortinas/panos + cordas + estacas), o que torna o verso útil como “controle” terminológico para o vocabulário técnico (Jr 10.20).

II. Tenda como unidade doméstica e espaço social

No AT, o núcleo lexical mais recorrente para “tenda” é אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”), com extensão natural para o plural/“complexo de tendas” e, por metonímia, para a unidade doméstica que nelas se organiza. A fórmula típica que sinaliza essa identidade socioespacial aparece em Gênesis 25.27: יֹשֵׁב אֹהָלִים (yōšēḇ ʾōhālîm, “habitante de tendas”), na qual “tendas” funciona não apenas como objeto arquitetônico, mas como marcador semântico de um modo de vida e de uma economia familiar articulada em torno do espaço móvel do acampamento.

Esse alargamento metonímico (“tenda” → “casa/household”) torna-se especialmente transparente quando “tenda” designa o grupo humano pertencente à esfera doméstica. Em Jó 31.31 a expressão מְתֵי אָהֳלִי (mətê ʾoholî, “homens da minha tenda”) usa “tenda” como termo-âncora para o círculo interno de pertença (domésticos, comensais, dependentes), isto é, o “interior social” que a habitação delimita e representa.

Na linguagem poética, “tenda” também opera como metonímia de pertença moral e social (“esfera de convivência”), mesmo quando o referente é estável e não-nômade. Em Salmos 84.10, a locução בְּאָהֳלֵי־רֶשַׁע (bəʾoholê-rešaʿ, “nas tendas da impiedade”) estrutura a oposição semântica entre “habitar” em determinado âmbito (piedade/impiedade) e “permanecer” num espaço de pertença; aqui “tendas” não exige leitura arquitetônica estrita, pois funciona como rótulo de domínio social e ético (o “ambiente” dos ímpios).

Para fins de análise interlinguística, a LXX confirma que σκηνή (skēnē, “tenda”) é o equivalente normal de אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”) em cenas de hospitalidade e liminaridade doméstica: em Gênesis 18, a fórmula “porta da tenda” aparece como θύρᾳ τῆς σκηνῆς (thyra tē(s) skēnē(s), “porta da tenda”), em que “tenda” funciona semanticamente como “fronteira social” (o ponto de entrada que regula acolhimento, visibilidade e interação).

A mesma tradição grega, porém, também evidencia que, em certos contextos domésticos, o conteúdo semântico de “tenda” pode ser lido como “casa” (isto é, o espaço familiar em sentido amplo), sem perda funcional. Em Gênesis 24.67, a LXX verte o âmbito doméstico materno por οἶκος (oikos, “casa”), ao falar de εἰς τὸν οἶκον τῆς μητρὸς αὐτοῦ (eis ton oikon tēs mētros autou, “para a casa de sua mãe”), o que é coerente com a delimitação semântica aqui proposta: “tenda”, nesse uso, pode designar primariamente o “domínio doméstico” e não o material/forma da habitação.

No NT, a forma σκηνή (skēnē, “tenda”) mantém essa elasticidade semântica: em Lucas 16.9 (NA28) a expressão εἰς τὰς αἰωνίους σκηνάς (eis tas aiōnious skēnas, “para as tendas eternas”) emprega “tendas” como “moradas”/“habitações” (designação de destino e acolhimento), não como referência necessária a estruturas nômades. Essa amplitude aparece de modo relevante na tradição tradutória: ACF/ARA preservam “tabernáculos” (“…vos recebam eles nos tabernáculos eternos”), enquanto NVI prefere “moradas” (“…os recebam nas moradas eternas”); do lado inglês, KJV usa “everlasting habitations” e ESV “eternal dwellings”, confirmando que o núcleo semântico aqui é “lugar de acolhimento/habitação” (domicílio em sentido amplo), e não a materialidade de uma tenda literal.

III. Nomadismo, peregrinação e identidade

No eixo narrativo patriarcal, “vida em tenda” é codificada, em primeiro lugar, pelo substantivo hebraico אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”), geralmente associado a verbos que marcam instalação provisória e deslocamento reiterado. A fórmula com נטה (nāṭâ, “estender/armar”) aparece, por exemplo, em Gênesis 12.8, com a sequência וַיֵּט אָהֳלֹה (wayyēṭ ʾoholō, “armou a sua tenda”), imediatamente seguida do léxico de movimento (Gn 12.8–9). A mesma associação “deslocar-se → armar tenda” reaparece em Gênesis 26.25 (וַיֶּט־שָׁם אָהֳלוֹ, wayyēṭ šām ʾoholō, “armou ali a sua tenda”), conservando o traço semântico de provisoriedade da habitação em contraste com residência edificada. Em Gênesis 35.21, o paralelismo verbal torna a ligação ainda mais explícita: וַיִּסַּע יִשְׂרָאֵל (wayyissaʿ yiśrāʾēl, “Israel partiu”) e וַיֵּט אָהֳלֹה (wayyēṭ ʾoholō, “armou a sua tenda”), fixando, por simples encadeamento lexical, o campo “mobilidade → instalação temporária”.

Ainda no corpus de Gênesis, o mesmo núcleo semântico admite alternância de verbos de “fixação” que não mudam o referente (a “tenda”), mas modulam a imagem de montagem. Em Gênesis 31.25, o texto usa תקע (tāqaʿ, “firmar/instalar”), com תָּקַע אֶת־אָהֳלוֹ (tāqaʿ ʾet-ʾoholō, “firmou/instalou a sua tenda”), distinguindo lexicalmente o ato de “estender/armar” (נטה) do ato de “assentar/firmar” (תקע), sem exigir mudança de objeto. Em Gênesis 33.19, volta-se ao padrão com נטה, em וַיֶּט־שָׁם אָהֳלוֹ (wayyēṭ šām ʾoholō, “armou ali a sua tenda”), o que mantém o referente doméstico-pastoril do termo e reforça a ideia de assentamento situacional (localização momentânea) e não de fixidez urbana.

No Pentateuco, especialmente em Números, a delimitação semântica amplia-se ao incluir o vocabulário de acampamento comunitário, no qual “tenda” deixa de ser apenas habitação familiar e passa a integrar um sistema espacial e político-religioso. O primeiro marcador é a locução אֹהֶל מוֹעֵד (ʾōhel môʿēd, “tenda do encontro”), que situa a comunicação normativa “no deserto” e “na tenda” (Nm 1.1). A partir daí, aparecem termos que delimitam “vida em tenda” como organização de um corpo social em marcha: מַחֲנֶה (maḥăneh, “acampamento”) e o verbo חנה (ḥānâ, “acampar”), como em וְחָנ֖וּ… אִ֧ישׁ עַֽל־מַחֲנֵ֛הוּ (wəḥānû… ʾîš ʿal-maḥănehû, “acamparão… cada um junto ao seu acampamento”), além de דֶּגֶל (degel, “estandarte/bandeira”), que marca ordenação e identidade grupal no espaço do acampamento (Nm 1.52).

Tenda no deserto nas terras bíblicas, com material têxteis e madeira como sustentação
Tenda típica da cultura beduína, também conhecida como jaima. É um tipo de habitação tradicional usada por povos nômades do deserto, como os beduínos, no Norte da África e no Oriente Médio.

O campo semântico “mobilidade regulada” fica particularmente nítido em Números 9.15–17, onde “tenda” é também o referente do fenômeno que governa o ritmo da marcha: o texto associa אֹהֶל הָעֵדֻת (ʾōhel hāʿēdût, “tenda do testemunho”) e o léxico de deslocamento e parada. O eixo verbal forma um conjunto coerente: יִסְעוּ (yisʿû, “partirão”), יִשְׁכָּן (yiškōn, “pousar/assentar-se”) e יַחֲנוּ (yaḥanû, “acamparão”), em que a alternância “partir/acampar” não descreve apenas logística, mas delimita o sentido de “habitar” como estado transitório, governado por um princípio externo ao grupo (Nm 9.17). Aqui, “tenda” participa de um vocabulário de itinerância institucional: não se trata de um nomadismo puramente econômico, mas de uma mobilidade ritmada e normatizada.

No NT, a delimitação terminológica do eixo “peregrinação/estrangeiridade” se concentra em torno de dois elementos: (i) o substantivo σκηνή (skēnē, “tenda”) e seus usos em plural (σκηναῖς, skēnais, “tendas”); (ii) verbos e qualificadores que explicitam residência não definitiva. Em Hebreus 11.9 (NA28), a construção ἐν σκηναῖς (en skēnais, “em tendas”) é acompanhada por παρῴκησεν (parōkēsen, “residiu como estrangeiro/forasteiro”) e pela qualificação ὡς ἀλλοτρίαν (hōs allotrian, “como [terra] alheia”), de modo que “tendas” não funciona apenas como detalhe etnográfico, mas como marcador lexical de habitação temporária e status de não-propriedade/alienidade. A mesma base nominal σκηνή reaparece em Atos 7.44 (NA28) em sentido cultual (“tenda do testemunho”): σκηνὴ τοῦ μαρτυρίου (skēnē tou martyriou, “tenda do testemunho”), o que confirma, no grego do NT, a polissemia controlada do termo entre “habitação/instalação” e “estrutura sacra móvel”, sem exigir mudança de lexema.

IV. “Tenda” em contextos bélicos e de campanha

No corpus hebraico, o núcleo lexical de “tenda” em cenários de guerra/campanha gravita em torno de אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”) e de suas flexões (p. ex., אָהֳלֵיהֶם [ʾoholêhem, “as suas tendas”]; אֹהָלִים [ʾōhālîm, “tendas”]), frequentemente em coocorrência com o vocabulário de acampamento, em especial מַחֲנֶה (maḥăneh, “acampamento”). Em 2 Reis 7.7–10, por exemplo, o cenário é explicitamente o de um acampamento militar: o texto menciona o abandono das “tendas” e, no mesmo quadro, a borda do “acampamento” (אָֽהֳלֵיהֶם [ʾoholêhem, “as suas tendas”]; הַֽמַּחֲנֶה [maḥăneh, “o acampamento”]). Essa justaposição é semanticamente decisiva porque permite distinguir “tenda” como unidade material de habitação provisória e “acampamento” como a totalidade logística (espaço, ordenamento, recursos, animais de carga, etc.), ainda que, por metonímia, “tendas” possa funcionar como atalho referencial para o conjunto do aparato militar em operação (2Rs 7.7–10).

Nesse mesmo domínio bélico, “tenda” também opera como marcador de retirada/desagregação das fileiras e retorno à esfera privada imediata do combatente. Em 1 Samuel 4.10, a derrota é descrita com a fuga “cada um para a sua tenda”: אִישׁ לְאֹהָלָיו (ʾîš ləʾōhālâyw, “cada um para a sua tenda”). A expressão é semanticamente econômica: não precisa afirmar “para sua casa”, pois o referente pragmático do soldado em campanha é a “tenda” como seu locus de pertença temporária e sua unidade de abrigo/armazenamento no teatro de operações (1Sm 4.10).

Um terceiro ponto de delimitação vem do uso de “tenda” para designar, não a habitação “interna” do exército, mas a infraestrutura externa de cerco/pressão militar. Jeremias 6.3 descreve o movimento de forças que “armam tendas ao redor” da cidade: אֹהָלִים (ʾōhālîm, “tendas”). Aqui, “tenda” não é apenas objeto; ela indexa um gesto estratégico (instalação, permanência operacional, controle de perímetro), e por isso tende a aparecer com verbos de implantação (o texto codifica a ideia de “armar/finar” em torno), formando um quadro semântico típico de campanha e sítio (Jr 6.3).

Do ponto de vista morfossemântico, Isaías 13.20 explicita uma extensão relevante: o hebraico pode derivar um verbo do mesmo campo de “tenda”, exprimindo a ação de “armar/erguer tenda”. O texto emprega a forma verbal לֹֽא־יַהֵ֥ל (lōʾ-yahēl, “não armará tenda”), associada ao árabe beduíno como agente típico de “armar” habitação provisória no deserto. A passagem é útil para delimitar “tenda” como operador semântico de transitoriedade e mobilidade: a impossibilidade de “armar tenda” é o índice de desolação, isto é, de inviabilidade de ocupação humana mesmo na modalidade nômade (Is 13.20).

Em textos sapienciais e poéticos, “tenda” pode conservar o valor básico de habitação provisória, mas deslocar-se para avaliações sociais (segurança, vulnerabilidade, paradoxo moral) sem que isso constitua exegese do argumento do livro. Em Jó 12.6, a formulação “tendas dos saqueadores” articula a imagem de morada (אֹהָלִים (ʾōhālîm, “tendas”)) com a qualificação sociomoral do ocupante (לְשֹׁדְדִים (ləšōdədîm, “para saqueadores”)), produzindo um sintagma em que “tenda” funciona como indicador de estabilidade/segurança paradoxal dentro de um mundo percebido como desordenado (Jó 12.6). Em Salmos 120.5, por outro lado, “tendas de Quedar” fixa a referência num registro etnogeográfico de habitação nômade: אָֽהֳלֵ֥י קֵדָֽר (ʾoholê qēdār, “tendas de Quedar”). Mesmo quando não descreve combate diretamente, esse uso preserva o traço semântico de mobilidade e vida “fora” de estruturas urbanas estáveis — traço que, em contextos bélicos, é reempregado para caracterizar a vida de campanha e suas vulnerabilidades estruturais (Sl 120.5).

V. Tenda cultual e santidade

No AT, “tenda” pode designar uma moradia comum, mas o campo semântico muda decisivamente quando a tenda é indexada ao culto, à mediação sacerdotal e ao regime de pureza. O ponto de inflexão lexical é a especialização de combinações e sinônimos técnicos que funcionam como rótulos institucionais: a mesma forma básica “tenda” passa a carregar, por composição e coocorrência, o sentido de “espaço de encontro autorizado”, “santuário móvel” e “complexo cultual” (cf. Êxodo 33.7; Êxodo 40.34).

A base genérica para “tenda” em hebraico é אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”), termo que pode permanecer não técnico quando descreve tendas domésticas e do acampamento. Em Êxodo 33.7, porém, o texto introduz explicitamente a renomeação funcional: a “tenda” (אֹהֶל, ʾōhel, “tenda”) passa a ser chamada אֹהֶל מוֹעֵד (ʾōhel môʿēd, “tenda do encontro/tempo marcado”), isto é, um espaço definido por finalidade (consulta/encontro) e por localização regulamentada “fora do arraial”, distinguindo-se das tendas ordinárias do povo no mesmo contexto narrativo.

O segundo polo terminológico é מִשְׁכָּן (miškān, “morada/tabernáculo”), que, no uso cultual, designa o “tabernáculo” enquanto estrutura-santuário (o conjunto cultual montável, com seus elementos). Êxodo 40.34–35 é particularmente útil para delimitação porque põe lado a lado os dois termos numa mesma unidade: אֹהֶל מוֹעֵד (ʾōhel môʿēd, “tenda do encontro”) e הַמִּשְׁכָּן (hammiškān, “o tabernáculo”), sugerindo distinção funcional: a “tenda do encontro” como designação do espaço de encontro/consulta e o “tabernáculo” como designação do santuário enquanto edificação ritual (ou, pelo menos, como rótulos parcialmente sobrepostos, mas não intercambiáveis em todas as posições).

Uma ampliação semântica relevante, ainda no AT, é o eixo do “testemunho”, que qualifica o tabernáculo e o torna tecnicamente identificável como santuário portador do depósito normativo. Em Números 1.50 aparece מִשְׁכַּן הָעֵדֻת (miškan hāʿēdût, “tabernáculo do testemunho”), com עֵדוּת (ʿēdût, “testemunho”), e a mesma passagem articula também אֹהֶל מוֹעֵד (ʾōhel môʿēd, “tenda do encontro”), delimitando um vocabulário institucional: “tenda do encontro” (função/instância) e “tabernáculo do testemunho” (identidade do santuário vinculada ao “testemunho”).

No corpus sacerdotal, a fórmula “de dentro/da entrada da tenda do encontro” fixa o valor técnico do termo como lugar de fala autorizada e de regulamentação cúltica. Levítico 1.1 usa a moldura “da tenda do encontro” para situar a comunicação normativa, reforçando que אֹהֶל מוֹעֵד (ʾōhel môʿēd, “tenda do encontro”) não é apenas uma “tenda” entre outras, mas um marcador institucional de procedência (o lugar/instância de onde procede a instrução cultual).

No NT, a delimitação lexical converge para σκηνή (skēnē, “tenda/tabernáculo”) como termo-base para o referente cultual herdado do AT. Em Atos 7.44, a expressão σκηνὴ τοῦ μαρτυρίου (skēnē tou martyriou, “tenda do testemunho”) mostra a mesma qualificação por “testemunho” (μαρτύριον, martyrion, “testemunho”), funcionando como rótulo técnico para o tabernáculo mosaico no discurso histórico.

Em Hebreus, σκηνή (skēnē, “tenda/tabernáculo”) é usada de modo sistemático para o complexo cultual e suas partes, e a delimitação semântica se torna mais precisa por contraste qualificativo: Hebreus 8.2 caracteriza “a tenda” como ἀληθινός (alēthinos, “verdadeiro”) na expressão τῆς σκηνῆς τῆς ἀληθινῆς (tēs skēnēs tēs alēthinēs, “da tenda verdadeira”), estabelecendo um par terminológico “tenda”/“tenda verdadeira” que não é meramente arquitetônico, mas classificatório. Hebreus 9.2–3, por sua vez, usa σκηνή (skēnē, “tenda”) para delimitar espacialmente compartimentos e mobiliário cultual, confirmando o valor técnico do termo no discurso sacerdotal do escrito.

Em termos de recepção tradutória (apenas onde há impacto semântico real), Êxodo 33.7 em português oscila de modo relevante porque a qualificação מוֹעֵד (môʿēd, “tempo/encontro marcado”) pode aparecer como “Encontro” (NVI) ou como “congregação” (ARA), o que produz leituras distintas no nível da delimitação: “tenda do encontro” enfatiza a finalidade/ocasião de encontro; “tenda da congregação” enfatiza o agrupamento assemblear como referente. As formas “tenda da congregação” (ARA) e “Tenda do Encontro” (NVI) aparecem explicitamente nesse versículo.

Corpus principal. Êx 23.21; Lv 16.16; Lv 16.21; Nm 14.18; Js 24.19; 1Sm 24.11; 1Rs 8.50; Jó 7.21; Jó 8.4; Jó 35.6; Jó 36.9; Sl 5.10; Sl 19.13; Sl 103.12; Sl 107.17; Pv 12.13; Pv 17.9; Pv 17.19; Is 24.20; Is 43.25; Is 44.22; Jr 5.6; Lm 1.5; Lm 1.14; Lm 1.22; Ez 14.11; Ez 18.22; Ez 18.28; Ez 18.30; Ez 18.31; Ez 39.24; Dn 8.12; Dn 8.13; Dn 9.24; Am 1.3; Am 1.6; Am 1.9; Am 1.11; Am 1.13; Mq 1.5; Mq 1.13; Mq 6.7; Mq 7.18.

Forma verbal/variante. Sl 37.38; Sl 51.13; Is 1.28; Is 46.8; Is 48.8; Is 53.12; Is 59.13; Dn 8.23; Os 14.9; Am 4.4.

VI. Profetas e Salmos

O eixo lexical que sustenta as imagens deste recorte é אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”), que, fora do domínio literal, funciona como matriz metafórica e metonímica para (i) uma “cobertura” estendida (cosmologia imagética), (ii) uma “morada” provisória (transitoriedade), (iii) uma “estrutura doméstica/clânica” (tendas como metonímia de povo/famílias), e (iv) um “espaço protegido” (segurança), frequentemente com o vocabulário técnico de montagem e estabilidade: יְרִיעָה (yərîʿâ, “cortina/lona”), מֵיתָר (mêṯār, “corda”), יָתֵד (yāṯēḏ, “estaca/pino”). O primeiro uso figurativo, de caráter cosmogônico, explicita a tenda como modelo de “extensão” e “cobertura”: em Isaías 40.22, “espalhar” os céus é formulado “como tenda”, com כָּאֹהֶל (kāʾōhel, “como [uma] tenda”), o que delimita semanticamente “tenda” como imagem de algo tensionado/estendido para servir de habitação (Is 40.22).

A imagem de expansão e prosperidade se organiza como um campo semântico de ampliação de espaço habitável: em Isaías 54.2, a ordem de “alargar” o “lugar” da tenda articula אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”) com “cortinas/lonas” e componentes estruturais, “as cortinas das tuas moradas” (יְרִיעוֹת מִשְׁכְּנוֹתַיִךְ, yərîʿōt miškənōṯayiḵ, “cortinas de tuas habitações”), além das peças de tensionamento e fixação (“tuas cordas”: מֵיתָרַיִךְ, mêṯārayiḵ, “cordas”; “tuas estacas”: יְתֵדֹתַיִךְ, yəṯēḏōṯayiḵ, “estacas”). O resultado é que “tenda”, nesse contexto, não designa apenas moradia nômade, mas a totalidade do “espaço doméstico” em expansão, com o léxico de engenharia mínima do abrigo (Is 54.2).

A metáfora da transitoriedade individual usa “tenda” como equivalente imagético de vida corporal desmontável: em Isaías 38.12, o enunciado compara a remoção/cessação da existência à retirada de uma tenda, formulando explicitamente “como tenda” com כְּאֹהֶל (kəʾōhel, “como [uma] tenda”), e qualificando-a com o determinante do mundo pastoril (“tenda de pastor” como cenário de desmontagem rápida), o que delimita semanticamente “tenda” como estrutura provisória, fácil de deslocar (Is 38.12).

No polo oposto, a estabilidade é expressa por “tenda” como morada segura e inamovível: em Isaías 33.20, Jerusalém é descrita como “tenda” (אֹהֶל, ʾōhel, “tenda”) que “não será removida”, e a estabilidade é especificada pelo vocabulário de fixação (יְתֵדֹתָיו, yəṯēḏōṯāyw, “suas estacas/pinos”), de modo que o sentido não é “provisoriedade”, mas “fixidez garantida” (Is 33.20). Essa mesma direção semântica aparece na linguagem de abrigo: em Salmos 61.4, habitar “na tenda” (אֹהֶל, ʾōhel, “tenda”) funciona como metonímia de refúgio sob proteção superior, deslocando o foco do objeto material para a ideia de acolhimento e segurança (Sl 61.4). Em Salmos 91.10, a referência à “tenda” com forma preposicionada (“em tua tenda”: בְּאָהֳלֶךָ, bəʾāhŏleḵā, “na tua tenda”) integra o mesmo campo de proteção, agora associada à preservação contra adversidade (Sl 91.10).

Em textos de ruína, “tenda” volta a significar vulnerabilidade estrutural, mas com ênfase nos mecanismos de colapso: em Jeremias 4.20, a devastação é formulada como destruição de “minhas tendas” (אָהֳלַי, ʾāhŏlay, “minhas tendas”) e de “minhas cortinas/lonas” (יְרִיעֹתָי, yərîʿōṯāy, “minhas cortinas”), configurando “tenda” como o conjunto do habitat desfeito (Jr 4.20). Em Jeremias 10.20, a mesma semântica se torna mais técnica ao explicitar o rompimento das cordas: “minha tenda” (אָהֳלִי, ʾāhŏlî, “minha tenda”) está devastada e “todas as minhas cordas” (כָל־מֵיתָרַי, kol-mêṯāray, “todas as minhas cordas”) foram arrancadas/rompidas, delimitando “tenda” como sistema estrutural cujo colapso decorre da ruptura dos elementos de tensão (Jr 10.20). Lamentações 2.4 aplica “tenda” ao espaço coletivo de Sião, “na tenda da filha de Sião” (בְּאֹהֶל בַּת־צִיּוֹן, bəʾōhel bat-Ṣiyyōn, “na tenda da filha de Sião”), em que “tenda” funciona como metonímia do domínio habitado/comunitário atingido pela agressão, não como simples objeto doméstico (Lm 2.4).

Há, além disso, um uso metonímico consolidado em que “tendas” equivalem a grupos, territórios ou linhagens: em Jeremias 30.18, “as tendas de Jacó” (אָהֳלֵי יַעֲקֹב, ʾāhŏlê Yaʿăqōḇ, “tendas de Jacó”) aponta para a restauração do conjunto sociofamiliar/nacional, onde “tenda” é marcador de pertença e organização comunitária. Em Habacuque 3.7, “tendas” nomeiam coletividades associadas a regiões/povos (“tendas de Cusã” e “tendas de Midiã”), reforçando o valor metonímico do termo para unidades humanas identificáveis. Em Zacarias 12.7, a forma plural “tendas” (אָהֳלֵי, ʾāhŏlê, “tendas de”) integra a expressão “tendas de Judá”, novamente com sentido de corpo social/territorial, não de abrigo individual (Zc 12.7). Em Oseias 12.9, a referência a “habitar em tendas” (בָאֳהָלִים, bāʾŏhālîm, “em tendas”) delimita “tenda” como marcador de condição histórico-social (modo de vida em habitações móveis), observando-se que, na apresentação do texto hebraico na BHS, a numeração pode aparecer como 12:10 no mesmo contexto verbal (Os 12.9). Em Malaquias 2.12, “tendas” aparece no sintagma “tendas de Jacó”, preservando o mesmo valor metonímico de pertencimento comunitário (Ml 2.12).

O uso sapiencial fixa um contraste avaliativo em que “tenda” pode equivaler à esfera doméstica dos ímpios: em Provérbios 14.11, a oposição entre “casa” e “tenda” (“a casa dos ímpios” versus “a tenda dos retos”) explora “tenda” como designação do âmbito habitacional/relacional associado a um grupo, servindo como marcador de destino e estabilidade comparativa, e não como comentário técnico sobre arquitetura nômade (Pv 14.11).

VII. Desenvolvimento “intertestamentário” via LXX

A delimitação semântica do campo “tenda/tabernáculo” entre AT e NT depende, em larga medida, do modo como a LXX estabiliza equivalências entre lexemas hebraicos distintos e um conjunto relativamente concentrado de termos gregos, sobretudo σκηνή (skēnē, “tenda/tabernáculo”). Nesse processo, pelo menos três itens do hebraico bíblico tendem a convergir para o mesmo rótulo grego: אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”), מִשְׁכָּן (miškān, “tabernáculo/habitação”) e סֻכָּה (sukkāh, “cabana/tolda”). A convergência não apaga diferenças de uso no hebraico, mas cria, na tradição grega, um “guarda-chuva” semântico em que σκηνή pode designar tanto (i) uma tenda comum quanto (ii) uma estrutura cultual tecnicamente definida e, em alguns contextos, (iii) uma metáfora de “habitação/presença” divina.

Hebraico (BHS) LXX (Rahlfs) Nota de delimitação
סֻכַּת (sukkat, “cabana de…”) σκηνὴ (skēnē, “tenda/tabernáculo”) A LXX pode verter “cabana/tolda” (סֻכָּה) por σκηνή, o que condiciona fórmulas citadas no NT (cf. Am 9.11).
מִשְׁכַּן (miškān, “tabernáculo”) + עֵדוּת (ʿēdût, “testemunho”) σκηνὴ τοῦ μαρτυρίου (skēnē tou martyriou, “tenda do testemunho”) Forma técnica (“tenda/tabernáculo do testemunho”) cristalizada na LXX e retomada no NT.
(Gr. do NT) σκηνὴ τοῦ θεοῦ (skēnē tou theou, “tenda/habitação de Deus”) Extensão metafórica: o mesmo lexema σκηνή é empregado para “habitação” (não necessariamente um objeto cultual terrestre).

A fórmula “tenda do testemunho” ilustra bem a estabilização terminológica. Em Números 1.50, o hebraico traz מִשְׁכַּן הָעֵדֻת (miškān hāʿēdût, “tabernáculo do testemunho”), e a LXX verte por σκηνὴν τοῦ μαρτυρίου (skēnēn tou martyriou, “tenda do testemunho”). A relevância para a delimitação semântica do NT é direta: em Atos 7.44, ocorre a mesma construção σκηνὴ τοῦ μαρτυρίου (skēnē tou martyriou, “tenda do testemunho”), e em Apocalipse 15.5 reaparece na expressão mais ampla ναὸς τῆς σκηνῆς τοῦ μαρτυρίου (naos tēs skēnēs tou martyriou, “santuário da tenda do testemunho”). Assim, em contextos em que o genitivo μαρτυρίου (martyriou, “do testemunho”) qualifica σκηνή (skēnē, “tenda/tabernáculo”), não se trata primariamente de “tenda” como objeto comum, mas de um tecnicismo herdado da linguagem cultual da LXX, cuja base hebraica envolve עֵדוּת (ʿēdût, “testemunho”) como rótulo do “testemunho” associado ao santuário (Nm 1.50). Nessa zona técnica, a oscilação portuguesa entre “tenda” e “tabernáculo” costuma marcar precisamente essa diferença de registro: versões como ARA frequentemente preferem “tabernáculo” (“tabernáculo do testemunho”) em Atos 7.44, enquanto a tradição inglesa clássica preserva “tabernacle of witness” (KJV).

O sintagma “tenda de Davi” é ainda mais instrutivo porque evidencia uma equivalência LXX que não é intuitiva a partir do hebraico sem mediação. Em Amós 9.11 (BHS), a expressão-chave é סֻכַּת דָּוִיד (sukkat dāwīd, “cabana de Davi”), com o substantivo סֻכָּה (sukkāh, “cabana/tolda”). A LXX verte precisamente por σκηνὴν Δαυιδ (skēnēn Dauid, “tenda de Davi”), mantendo o mesmo núcleo nominal σκηνή (skēnē) para representar “cabana/tolda”. Em Atos 15.16, a citação aparece com o mesmo eixo lexical: σκηνὴν Δαυὶδ (skēnēn Dauid, “tenda de Davi”) e o qualificativo da queda (“a que caiu”), o que, em termos de delimitação semântica, significa que a expressão “tenda de Davi” no NT reflete diretamente a escolha da LXX para סֻכַּת דָּוִיד, e não uma leitura imediata de אֹהֶל (ʾōhel, “tenda”) no hebraico. Aqui, portanto, σκηνή (skēnē) funciona como termo-ponte que cobre pelo menos dois domínios hebraicos distintos: “tenda” em sentido amplo e “cabana/tolda” (sukkāh), com impacto direto na forma como a tradição cristã grega nomeia e fixa a expressão.

Em Hebreus, a delimitação semântica de σκηνή (skēnē, “tenda/tabernáculo”) é reforçada por qualificadores que explicitam contraste de estatuto semântico, ainda que a análise aqui permaneça no nível lexical. Em Hebreus 8.2, aparece τῆς σκηνῆς τῆς ἀληθινῆς (tēs skēnēs tēs alēthinēs, “da tenda ‘verdadeira’”), onde ἀληθινός (alēthinos, “verdadeiro/genuíno”) restringe o referente de σκηνή para um polo de “genuinidade” em oposição a um uso meramente tipológico ou representacional. Em Hebreus 8.5, o termo retorna em um contexto de execução cultual: μέλλων ἐπιτελεῖν τὴν σκηνήν (mellōn epitelein tēn skēnēn, “prestes a completar a tenda/tabernáculo”), o que fixa o valor técnico de σκηνή como “santuário” no âmbito do culto mosaico (sem necessidade, aqui, de detalhar o argumento). Em Hebreus 9.1–11, a polissemia controlada do termo é marcada por contrastes internos (“primeira” e “segunda”): ἡ πρώτη σκηνή (hē prōtē skēnē, “a primeira tenda”), τῆς δευτέρας σκηνῆς (tēs deuterās skēnēs, “da segunda tenda”) e, no v. 11, σκηνῆς μείζονος καὶ τελειοτέρας (skēnēs meizonos kai teleioteras, “tenda maior e mais perfeita”), onde os adjetivos dimensionais e qualitativos funcionam como operadores semânticos que deslocam σκηνή para um referente “ampliado” e “aperfeiçoado”, sem abandonar o núcleo imagético de “tenda/tabernáculo”.

Em Apocalipse 21.3, a expressão ἡ σκηνὴ τοῦ θεοῦ (hē skēnē tou theou, “a tenda/habitação de Deus”) evidencia a extensão metafórica do mesmo lexema: σκηνή (skēnē) deixa de remeter necessariamente a uma estrutura cultual histórica específica e passa a designar, em termos semânticos, “morada/presença”. Essa elasticidade explica por que traduções variam entre “tabernáculo” e “morada/dwelling”: ARA, por exemplo, tende a manter “tabernáculo de Deus”, enquanto uma versão inglesa como ESV prefere “dwelling place of God”. O ponto decisivo, para fins de delimitação, é que o NT preserva e explora uma rede lexical já sedimentada pela LXX, na qual σκηνή (skēnē) opera como termo unificador para diferentes referentes hebraicos (incluindo סֻכָּה, “cabana”) e, por isso, torna-se particularmente suscetível a expansões semânticas controladas por qualificadores (ἀληθινός, “verdadeiro”; prōtē/deuterā, “primeira/segunda”) e por genitivos técnicos (τοῦ μαρτυρίου, “do testemunho”; τοῦ θεοῦ, “de Deus”).

VIII. Uso do vocabulário σκην- no NT

O campo lexical aqui delimitado é estruturado pela família σκην-: o substantivo σκηνή (skēnē, “tenda; tabernáculo”), seus derivados verbais e nominais (p. ex., σκηνόω (skēnoō, “armar tenda; habitar”), σκῆνος (skēnos, “tenda; habitação provisória”), σκηνῶμα (skēnōma, “tenda; morada provisória”)), além do termo ocupacional σκηνοποιός (skēnopoios, “fabricante de tendas”). A rede semântica é observável de modo suficiente nas ocorrências desta família (Mt 17.4; Mc 9.5; Lc 9.33; Lc 16.9; At 7.43-44; At 15.16; At 18.3; Hb 8.2,5; Hb 9.2-11,21; Hb 11.9; 2Co 5.1; 2Pe 1.13-14; Ap 7.15; Ap 12.12; Ap 13.6; Ap 15.5; Ap 21.3; Jo 1.14).

Em seu núcleo, σκηνή (skēnē, “tenda; tabernáculo”) designa uma estrutura de habitação “armável” e, por extensão, um espaço de residência ou culto concebido sob essa imagem de mobilidade. A forma acusativa plural σκηνάς (skēnas, “tendas”) em Mateus 17.4, Marcos 9.5 e Lucas 9.33 explicita o sentido primário de “tendas” construídas como abrigos provisórios (ποιήσωμεν… σκηνάς; “façamos… tendas”), sem exigir, nesse nível de delimitação, qualquer decisão interpretativa além do valor léxico da unidade σκηνάς (skēnas, “tendas”).

O mesmo substantivo, porém, admite alargamento semântico para “moradas” quando o contexto já não descreve um abrigo físico imediato. Em Lucas 16.9, a expressão αἰωνίους σκηνάς (aiōnious skēnas, “tendas eternas”) mostra que σκηνάς (skēnas, “tendas”) pode funcionar como metáfora de “domicílios” ou “habitações” no horizonte da permanência, isto é, uma “tenda” que já não é provisória, mas assume valor de destino-habitação. Esse deslocamento é relevante porque impede reduzir automaticamente σκηνή (skēnē, “tenda”) a “tabernáculo cultual” em todo uso: o termo pode operar também como imagem de residência.

Quando a referência se desloca para objetos de culto, σκηνή (skēnē, “tenda; tabernáculo”) adquire coloração técnico-cúltica. Em Atos 7.43 aparece ἡ σκηνὴ τοῦ Μολόχ (hē skēnē tou Moloch, “a tenda de Moloque”), em um emprego que preserva a ideia de “santuário portátil” (ainda que ilegítimo), e em Atos 7.44 surge ἡ σκηνὴ τοῦ μαρτυρίου (hē skēnē tou martyriou, “a tenda do testemunho”), expressão tradicional para o tabernáculo mosaico. A própria justaposição desses usos em Atos 7 evidencia que, no NT, σκηνή (skēnē, “tenda; tabernáculo”) pode denotar tanto um artefato sacral rival (Moloque) quanto o espaço cultual de Israel, mantendo em ambos o traço de “estrutura armável/transportável”.

Esse valor técnico é estabilizado em Hebreus, onde σκηνή (skēnē, “tenda; tabernáculo”) se torna termo-chave para o “santuário” concebido como “tenda”: ἡ σκηνὴ ἡ ἀληθινή (hē skēnē hē alēthinē, “a tenda verdadeira”) em Hebreus 8.2, bem como o uso programático de σκηνήν (skēnēn, “tenda”) em Hebreus 8.5, indicam que o vocábulo funciona como categoria cultual estruturante. Em Hebreus 9, o mesmo campo lexical aparece com forte especialização descritiva: σκηνὴ ἡ πρώτη (skēnē hē prōtē, “a primeira tenda”) e a oposição de compartimentos e utensílios (9.2-5), culminando no emprego de τὴν σκηνὴν (tēn skēnēn, “a tenda”) em 9.21. Em Hebreus 11.9, por sua vez, a forma σκηναῖς (skēnais, “tendas”) retorna ao sentido de habitação provisória, mostrando que o autor alterna, dentro do mesmo livro, entre o uso “doméstico” (tendas como moradia) e o uso “técnico” (tenda como santuário), ambos legitimados pela elasticidade semântica do radical σκην-.

No Apocalipse, a família σκην- é deliberadamente reorientada para o eixo do “habitar divino” e de sua polaridade céu/terra. Em Apocalipse 21.3, a sentença ἡ σκηνὴ τοῦ θεοῦ (hē skēnē tou theou, “a tenda de Deus”) explicita a “tenda” como figura de presença e residência divina “com” os humanos, e em Apocalipse 15.5 a expressão ὁ ναὸς τῆς σκηνῆς τοῦ μαρτυρίου (ho naos tēs skēnēs tou martyriou, “o santuário da tenda do testemunho”) mostra a continuidade terminológica entre “tenda/tabernáculo” e o espaço sacro. Já em Apocalipse 13.6, o par τὴν σκηνὴν αὐτοῦ (tēn skēnēn autou, “a sua tenda”) e τοὺς… σκηνοῦντας (tous… skēnountas, “os que habitam/armam tenda”) associa o substantivo e o particípio verbal do mesmo radical, reforçando que “tenda” e “habitar” são, aqui, faces de uma única imagem lexical.

O verbo σκηνόω (skēnoō, “armar tenda; habitar”) e suas formas finitas/participiais delimitam o ponto em que a metáfora deixa de ser apenas “tenda” como objeto e se torna “habitar” como ação. Em João 1.14, ἐσκήνωσεν (eskēnōsen, “armou tenda; habitou”) formula o “habitar” em linguagem de “tenda”, e isso é semanticamente importante porque muitas tradições tradutórias vertem o verbo por “habitar” (p. ex., “habitou”), sem necessariamente conservar a imagem da tenda; a ARA registra “habitou” em João 1.14, enquanto a YLT explicita “tabernacled” (“armou tenda/tabernaculou”), exibindo dois modos de representar o mesmo núcleo verbal. Em Apocalipse 7.15, a forma σκηνώσει (skēnōsei, “armará tenda; habitará”) projeta a mesma semântica de “cobrir/abrigar por tenda” sobre os beneficiários (“sobre eles”), e Apocalipse 12.12 usa οἱ… σκηνοῦντες (hoi… skēnountes, “os que habitam/armam tenda”) para caracterizar os habitantes dos céus, preservando a ideia de residência definida por uma “tenda” (mesmo quando a referência é celestial).

A metáfora antropológica do “corpo como tenda” se concentra em dois itens lexicais: σκῆνος (skēnos, “tenda; habitação provisória”) e σκηνῶμα (skēnōma, “tenda; morada provisória”). Em 2 Coríntios 5.1, a expressão ἡ… οἰκία τοῦ σκήνους (hē… oikia tou skēnous, “a casa da tenda”) mostra a combinação de “casa” com “tenda” para indicar uma morada marcada por transitoriedade, e em 2 Pedro 1.13-14 aparecem τόσο… ἐν τούτῳ τῷ σκηνώματι (… en toutō tō skēnōmati, “nesta tenda”) e ἡ… ἀπόθεσις τοῦ σκηνώματός μου (hē… apothesis tou skēnōmatos mou, “o despojamento da minha tenda”), onde σκηνῶμα (skēnōma, “tenda”) funciona como imagem do invólucro corporal/biográfico passível de “deposição”.

O radical σκην- também delimita um domínio socioprofissional em Atos 18.3: σκηνοποιός (skēnopoios, “fabricante de tendas”), termo composto que preserva a base σκην- (skēn-, “tenda”) e o elemento produtivo -ποιός (-poios, “fazedor”), fixando semanticamente a atividade econômica ligada à produção de “tendas”. Isso é relevante para evitar leituras que absolutizem o campo “cultual”: o radical pode operar, no mesmo NT, tanto como vocabulário técnico de santuário quanto como léxico do cotidiano (moradia, abrigo, trabalho).

A ponte hebraico-grega decisiva para este recorte ocorre onde o NT cita o AT. Em Atos 15.16, a expressão τὴν σκηνὴν Δαυὶδ (tēn skēnēn Dauid, “a tenda de Davi”) corresponde à forma hebraica סֻכַּת דָּוִיד (sukkat dāwīd, “tenda/cabana de Davi”) de Amós 9.11 (BHS). Essa equivalência não é apenas “interlinguística”, mas semântica: o hebraico סֻכָּה (sukkāh, “tenda; cabana”) — aqui no construto סֻכַּת (sukkat, “tenda de”) — é representado na LXX por σκηνή (skēnē, “tenda”), como se lê em Amós 9.11 na Septuaginta (ἀναστήσω τὴν σκηνὴν Δαυιδ; “levantarei a tenda de Davi”), e o NT retoma a mesma solução léxica em Atos 15.16. Assim, a delimitação semântica pode ser formulada com precisão mínima: quando o NT emprega σκηνή (skēnē, “tenda; tabernáculo”) em registros cultuais ou citacionais, há continuidade efetiva com o emprego da LXX para verter סֻכָּה (sukkāh, “tenda; cabana”), o que legitima, no plano lexical, tanto a tradução “tenda” quanto “tabernáculo” conforme o contexto imediato.

A. Festas das Barracas

Designação e forma lexical. No AT, a designação técnica para a celebração é חַג הַסֻּכּוֹת (ḥag hassukkōt, “festa das barracas”) (Dt 16.13). O substantivo central é סֻכָּה (sukkāh, “barraca/cabana”) e o plural festivo סֻכּוֹת (sukkōt, “barracas/cabanas”), empregado em Levítico 23 para a obrigação de “habitar” nessas estruturas temporárias: בַּסֻּכֹּת (bassukkōt, “em barracas”) (Lv 23.42). No NT (NA28), João nomeia a festa com o tecnicismo grego σκηνοπηγία (skēnopēgia, “festa das barracas/tabernáculos”), em João 7.2 (ἡ σκηνοπηγία). A forma σκηνή (skēnē, “tenda/tabernáculo”) permanece o termo nuclear para “tenda/tabernáculo” em usos mais amplos, mas, para a festa, João preserva o rótulo específico σκηνοπηγία (skēnopēgia, “festa das barracas”).

Núcleo prescritivo: “habitar em barracas” como sinal memorial. Em Levítico 23, o traço definidor não é apenas o nome do evento, mas a prática mandatória: “habitareis em cabanas sete dias” e a finalidade declarada “para que saibam as vossas gerações…” (Lv 23.42–43). Essa delimitação restringe semanticamente “barracas” a abrigos rituais-temporários, vinculados a uma função de memória histórica, e não a “tenda” genérica como moradia nômade. O comentário de referência ressalta precisamente a função memorial dessa habitação ritual, descrevendo o gesto como obediente à determinação de “viver em barracas” durante o ciclo prescrito (ROOKER, Leviticus, 2000, p. 476, “living in booths during the entire seven-day”). Nesse mesmo horizonte, o mesmo tratamento enfatiza que o evento ocupa lugar singular na pauta festiva por exigir alegria prescrita, o que reforça o perfil semântico da festa como celebração de memória e júbilo, não mero rito residencial (ROOKER, Leviticus, 2000, p. 476, “only festival event in the Israelite calendar”).

Festa de colheita/ingathering, sem perda do sinal das “barracas”. Em Deuteronômio 16, a festa é fixada temporalmente “quando tiveres colhido da tua eira e do teu lagar” (Dt 16.13) e recebe o comando de alegria inclusiva (“Alegrar-te-ás na tua festa…”, Dt 16.14–15). No plano semântico, isso delimita “Festa das Barracas” como um marcador de sazonalidade agrícola e de reunião celebrativa diante de YHWH, ainda que o nome remeta a “barracas”. O comentário especializado explicita essa ênfase ao tratar a designação “tabernacles/sukkot” como referência a “huts/booths” e, simultaneamente, ao enquadrar o texto como focalizado no caráter agrícola do festival (WOODS, Deuteronomy, 2011, p. 212). A consequência metodológica para o verbete é que “barracas”, aqui, não deve ser definida apenas por materialidade arquitetônica (tenda/cabana), mas por sua indexação litúrgica: o termo nomeia uma festa cuja moldura textual combina calendário de colheita e alegria comunitária diante do santuário (Dt 16.13–15).

Delimitação tradutória em português: “tabernáculos”, “cabanas”, “barracas”. Nos pontos normativos do AT, a oscilação tradutória incide sobretudo sobre סֻכּוֹת (sukkōt, “barracas/cabanas”). Em Levítico 23.42, a NVI verte “cabanas” (“Sete dias vocês habitarão em cabanas…”) (Lv 23.42), enquanto versões mais tradicionais mantêm “tabernáculos/tendas” como solução consagrada em português eclesiástico (Lv 23.42). Em Deuteronômio 16.13, a NVI apresenta “festa dos tabernáculos” e alinha o nome à tradição terminológica (“Festa dos Tabernáculos”), ainda que o substantivo hebraico subjacente seja o mesmo (Dt 16.13). Nessa zona, a comparação é relevante porque “tabernáculos” pode sugerir ao leitor moderno uma associação imediata ao santuário móvel, ao passo que “cabanas/barracas” preserva o sentido concreto da habitação temporária; por isso, quando o foco é o rito de “habitar”, “cabanas/barracas” tende a ser semanticamente mais transparente (Lv 23.42–43), ao passo que, quando o foco é o nome consagrado da festa, “Tabernáculos” funciona como rótulo histórico consolidado (Dt 16.13; Jo 7.2).

Festival como moldura semântica de práticas rituais e linguagem simbólica. Em João 7, a festa não é apenas um marcador cronológico (“estava próxima a festa… dos tabernáculos”), mas um enquadramento cultural que condiciona a inteligibilidade do cenário narrativo (Jo 7.2; Jo 7.37). O comentário de referência formula a exigência metodológica de leitura: o intérprete “must have an intimate knowledge of the” pano de fundo festivo e de suas práticas para captar a lógica do texto (BROWN, The Gospel According to John I–XII, 1966, p. 326, “must have an intimate knowledge of the”). No que toca à delimitação semântica do termo (sem avançar a exegese do discurso), importa notar que a tradição ritual associada à festa inclui movimentos processionais com água, descritos como “a procession went down to the fountain”, elemento que, no nível lexical-cultural, torna pertinente a associação do “último dia, o grande dia da festa” com um ambiente de símbolos aquáticos (Jo 7.37–38). Assim, no NT, σκηνοπηγία (skēnopēgia, “festa das barracas/tabernáculos”) delimita um referente que traz consigo um complexo litúrgico-cultural (calendário, peregrinação, práticas), e não apenas a ideia abstrata de “tenda”.

B. Tabernacular no NT (σκηνόω)

O verbo grego σκηνόω (skēnoō, “tabernacular/armar tenda; habitar como em tenda”) e o substantivo σκηνή (skēnē, “tenda/tabernáculo”) constituem, no NT, o núcleo do vocabulário que veicula a ideia de presença divina em forma de habitação. Esse núcleo se articula, por continuidade conceitual, com o hebraico שָׁכַן (šākan, “habitar; estabelecer morada”) e com o eixo cultual expresso no BHS: “וְשָׁכַנְתִּי בְּתוֹכָם” (wəšāḵantî bəṯōḵām, “habitarei no meio deles”) em Êxodo 25.8.

No mesmo horizonte semântico, a Festa das Tendas é designada por סֻכּוֹת (sukkōṯ, “cabanas/tendas”) em Deuteronômio 16.13 (Dt 16.13), e o mandamento “בַּסֻּכֹּת תֵּשְׁבוּ” (bassukkōṯ tēšəḇū, “habitarei[s]/assentareis em tendas”) estrutura a memória ritual em Levítico 23.42–43 (Lv 23.42–43). O comentário de Woods explicita o valor denotativo do termo: (WOODS, Deuteronomy, 2011, p. 212, “denotes the huts or booths which were used”). Essa matriz do AT é decisiva para compreender por que, no NT, “tabernacular” não se reduz a “morar” de modo genérico, mas tende a ativar ressonâncias cultuais (presença) e protetivas (abrigo).

1. João 1.14: tabernacular como presença encarnacional e “glória” visível

Em João 1.14, a forma verbal ἐσκήνωσεν (eskēnōsen, “tabernaculou/armou sua tenda”) concentra a afirmação de que a presença divina se torna historicamente localizada na encarnação: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (ARA) (Jo 1.14). A ARA/ARC verte “habitou”, mantendo a noção básica de morada (Jo 1.14), enquanto a NVI prefere “viveu entre nós” (Jo 1.14), uma solução mais interpretativa que pode atenuar o potencial imagético do verbo (Jo 1.14). 

O ponto semântico relevante é que o verbo selecionado por João é o do domínio “tenda/tabernáculo”, não o de “residir” em termos neutros. Brown traduz com ênfase no valor de morada: “O Verbo se fez carne e fez sua habitação”.[1] Beasley-Murray torna explícita a imagem de tenda: “...o Logos “armou sua tenda””. (BEASLEY-MURRAY, John (WBC), 1987, p. 14).

Assim, o emprego de σκηνόω em João 1.14 delimita semanticamente “tabernacular” como habitar-presença: a morada ocorre “entre” (ἐν) a comunidade, e a sequência imediata “vimos a sua glória” (Jo 1.14) vincula essa habitação a uma manifestação perceptível, coerente com o padrão veterotestamentário de presença divina no meio do povo (cf. Êx 25.8).

3. Apocalipse 7.15: tabernacular como proteção e comunhão cultual no cenário celeste

Em Apocalipse 7.15, o tabernacular aparece como ação protetiva do entronizado: a NAA registra “…e aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo” (Ap 7.15). Texto auditável (Ap 7.15). A relevância semântica está em que a ideia não é apenas “Deus morar com”, mas “estender tabernáculo sobre”, isto é, uma metáfora de cobertura/abrigo, que desloca o domínio da simples residência para o de proteção permanente. Osborne explicita o pano de fundo imagético e lexical (AT) do “tabernacular” no Apocalipse: 

A ideia de Deus “tabernaculando” entre seu povo se baseia em todo o conjunto de imagens da shekiná no AT. Tanto o termo hebraico (שָׁכַן, šākan) quanto o termo grego (σκηνόω, skēnoō) são derivados do termo básico que significa “tenda” e, portanto, implica “habitar”. O tabernáculo era uma “tenda” e, em Êxodo 25.8, Deus diz: “Eles me farão um santuário para que eu habite no meio deles”. Essa ideia de Deus “habitando” entre seu povo se torna a base para o conceito de shekiná (do hebraico שָׁכַן, cf. Êx 29.45; Lv 26.11,12; Dt 12.5,11; Zc 2.10; 8.3). Os dois símbolos principais para esse conceito eram “a coluna de nuvem” de dia e a “coluna de fogo” à noite, conforme “o Senhor ia à frente deles [...] para guiá-los pelo caminho” (Êx 13.21) no deserto. Eles indicavam que a glória de Deus habitava entre seu povo para guiá-lo e protegê-lo. Depois da construção do tabernáculo e, então, do templo, Deus habitou no lugar santíssimo no meio da arca, entre os dois querubins (1Sm 4.4) e, de fato, uma nuvem desceu sobre o tabernáculo (Êx 40.34–38) e sobre o templo (1Rs 8.10–13), e a “glória do Senhor encheu o templo” (2Cr 7.1–3). No judaísmo intertestamentário, a shekiná se tornou um conceito importante para a obra de Deus entre seu povo. VanGemeren (ISBE 4:467) diz que “designações relacionadas à shekiná são ‘a Palavra’ (mēmrāʾ), ‘o Espírito’, ‘a Glória’, ‘a Luz’ e ‘as asas da shekiná’”.(OSBORNE, Apocalipse: Comentário Exegético, 2014, p. 368).

No mesmo bloco, ele ancora a ligação do verbo grego ao hebraico שָׁכַן (šākan, “habitar”) de Êxodo 25.8, reforçando que o “tabernacular” em Apocalipse 7.15 comunica presença protetiva e comunhão contínua (Ap 7.15; Êx 25.8).

4. Apocalipse 21.3: tabernáculo como clímax escatológico (“morada definitiva”)

Apocalipse 21.3 formula o ápice da teologia da presença: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens” (ARA) / “Vejam, o tabernáculo de Deus está no meio de seu povo!” (NVT) (Ap 21.3). Aqui, o campo semântico se estabiliza em “tabernáculo” como habitação definitiva, não temporária: a fórmula anuncia a reversão final da distância entre Deus e humanidade. Osborne conecta esse clímax à lógica do templo celeste e à revelação da arca, explicitando que Apocalipse 21.3 “explica a importância” de Apocalipse 11.19, e cita a declaração programática.[2] A variação tradutória entre “tabernáculo” (NVI/ARA/NVT/NAA/ARC) e “morada” (p. ex., NTLH/NBV) é relevante porque “morada” pode preservar o sentido geral, mas “tabernáculo” mantém o vínculo lexical com σκηνή/σκηνόω, que estrutura a unidade temática interna do livro (Ap 7.15; 21.3).

5. Apocalipse 12.12 e 13.6: “os que tabernaculam” como marcador de pertencimento (céu vs. terra)

O Apocalipse utiliza o vocabulário de “tabernacular” para marcar esferas de pertencimento. Em Apocalipse 12.12, o contraste céu/terra é operacionalizado no desenvolvimento do conflito; e em Apocalipse 13.6 a blasfêmia da besta alcança “o tabernáculo” e os que pertencem ao céu (Ap 13.6). Nesse quadro, Osborne observa que o verbo define identidade e destino.[3]

Semântica e teologicamente, isso delimita “tabernacular” como termo que pode designar:

  1. Ação divina de abrigo/presença (Ap 7.15).

  2. Condição comunitária escatológica (pertencimento ao céu, comunhão contínua), em contraste com os “habitantes da terra” (Ap 12.12; 13.6).

C. Metáfora antropológica do corpo como tenda

Em 2 Coríntios 5:1, a antropologia paulina toma o corpo presente como morada provisória, escolhendo deliberadamente a imagem da “tenda” para estruturar o contraste entre o regime do “agora” e a estabilidade do que é “de Deus”. O efeito semântico da metáfora, no ponto exato do argumento, é sublinhar a fragilidade e a caducidade do corpo enquanto condição terrena: ao falar do corpo sob esse registro, a leitura de Martin explicita que a figura “sugere que o corpo é uma estrutura temporária” (MARTIN, 2 Corinthians, 1986, p. 102, “suggests that the body is a temporary structure”). O período condicional que enquadra essa linguagem não relativiza a certeza do “edifício” futuro, mas marca a indecisão apenas quanto ao quando da experiência pessoal do “desmantelamento” em relação ao evento escatológico: a construção frasal, tal como comentada, “expressa incerteza na mente do apóstolo quanto a se” ele atravessará essa desmontagem antes da “mudança” associada à Parusia.[4]

Dentro desse mesmo quadro, o presente “temos” não é tratado como posse consumada de um estado corpóreo já realizado, mas como posse de uma expectativa objetiva: o foco recai sobre “a esperança de que há uma casa preparada”, que funciona como correlato permanente ao caráter desmontável da “tenda”.[5]

Em 2 Pedro 1:13–14, a mesma metáfora corporal aparece sob outra inflexão retórica, agora orientada para a iminência da morte e para a obrigação pastoral da lembrança: o corpo é concebido como “tenda” enquanto espaço onde a vida transcorre até o momento da remoção. Green observa, no nível lexical, que o termo skēnōma (“tenda”) circulava com naturalidade no grego para referir-se ao corpo, pois “era uma palavra grega comum para o corpo” (GREEN, 2 Peter and Jude, 1987, p. 87, “was a common Greek word for the body”). No versículo seguinte, a morte é enunciada precisamente como gesto de deposição e desligamento dessa morada transitória: “isso significa o deixar de lado a tenda” — formulação que, no comentário, define o teor da expressão e fixa o valor antropológico do corpo como abrigo removível diante da partida.[6]

D. “Tenda” em Atos: ofício paulino e restauração davídica

Em Atos 18.3, a identificação ocupacional de Paulo é formulada pelo grego σκηνοποιοί (skēnopoioi, “fabricantes de tendas”), explicitando que o vínculo doméstico com Áquila e Priscila se ancora no compartilhamento de um “mesmo ofício” e na prática laboral contínua: “ἦσαν γὰρ σκηνοποιοὶ τῇ τέχνῃ” (ēsan gar skēnopoioi tē technē, “pois eram fabricantes de tendas por ofício”). A tradição patrística antiga, ao ler o termo como “trabalhador do couro”, mostra que o campo semântico admitia, já na recepção antiga, uma compreensão “tenda” → “couro” (KEENER, Acts: An Exegetical Commentary, vol. 3, 2014, p.1081). O dado é metodologicamente relevante porque impede que o rótulo moderno “fabricante de tendas” seja tratado como descrição estreita e unívoca, autorizando uma leitura mais ampla, na qual “tenda” pode designar tanto o produto final quanto o conjunto de materiais e técnicas do ateliê.

Esse enquadramento lexical se torna sociologicamente denso quando se observa que o trabalho manual, no mundo urbano mediterrânico, era um espaço de circulação social “horizontal” e, ao mesmo tempo, de estigma simbólico; a hipótese “tecelão” sofre objeções internas ao próprio ethos antigo, uma vez que a tecelagem podia ser associada a impropriedade masculina.[7]

Além disso, o tipo de equipamento demandado por tecelagem tornava o ofício menos “portátil” e menos compatível com deslocamentos missionais, em contraste com o manuseio mais manejável de ferramentas de couro. Nesse cenário, o ateliê funciona como microespaço de interação prolongada, no qual o anúncio pode ocorrer sem depender exclusivamente das instâncias cultuais; a compatibilidade entre labor e fala persuasiva é reforçada pelo próprio relato de que Paulo “trabalhava” e “dialogava” regularmente, e a plausibilidade pragmática desse arranjo é assumida como dado. A inserção econômica também delimita público e rede: clientes de tendas (especialmente como itens de viagem e de sombra) tenderiam a ser majoritariamente civis, não restritos a circuitos militares ou estatais.[8]

Até mesmo quando se considera a alternativa de “linho” e corporações artesanais, o quadro social resultante (exclusão cívica e vulnerabilidade econômica) é avaliado como pouco compatível com o perfil biográfico paulino, inclusive por ter sido formado “em Jerusalém” e não em ambiente de indústria têxtil local. Desse modo, o “léxico da tenda” em Atos 18 não apenas nomeia um ofício, mas indexa uma posição social intermediária, com acesso real a conversas, deslocamentos e mediações cotidianas.

A mesma família lexical “tenda/tabernáculo” reaparece em Atos 15.16–17, agora com valor metafórico-político, no centro do debate sobre gentios. A citação profética emprega σκηνή (skēnē, “tenda”), retomando a promessa de reconstrução: “ἀνοικοδομήσω τὴν σκηνὴν Δαυὶδ τὴν πεπτωκυῖαν” (anoikodomēsō tēn skēnēn Dauid tēn peptōkyian, “reconstruirei a tenda de Davi que caiu”). O pano de fundo hebraico de Amós 9.11 enuncia “a tenda de Davi” como סֻכַּת דָּוִיד (sukkat Dāwîd, “tenda de Davi”), com a imagem de restauração de ruínas e reparo de brechas: “אָקִים אֶת־סֻכַּת דָּוִיד הַנֹּפֶלֶת” (ʾāqîm ʾet-sukkat Dāwîd hannōfelet, “erguerei a tenda caída de Davi”). A metáfora é interpretada como referência à “casa” davídica, isto é, ao corpo político-dinástico, não a uma tenda literal (KEENER, op. cit., p. 260). O ponto decisivo, porém, está no modo como a tradição grega de Amós reconfigura o versículo seguinte para favorecer o tema da busca/inclusão: a leitura da Septuaginta pode trocar a ideia de “possuir” pela de “buscar”, de modo que “o restante” passa a “buscar o Senhor”, o que se encaixa diretamente no argumento de Atos 15.[9] O resultado hermenêutico é que a restauração davídica e o movimento dos gentios não são concorrentes, mas sequenciais e correlatos.[10] Assim, “tenda” opera em dois níveis em Atos: no capítulo 18, como sinal de inserção social e prática econômica do missionário; no capítulo 15, como metáfora de restauração régio-messiânica cuja consequência é a integração dos povos sob o “nome” do Senhor.[11]


Abreviaturas e siglas

1Rs = 1 Reis
1Sm = 1 Samuel
2Co = 2 Coríntios
2Cr = 2 Crônicas
2Pe = 2 Pedro
2Rs = 2 Reis
ACF = Almeida Corrigida Fiel
Am = Amós
Ap = Apocalipse
ARA = Almeida Revista e Atualizada
ARC = Almeida Revista e Corrigida
AT = Antigo Testamento
At = Atos
BHS = Biblia Hebraica Stuttgartensia
cf. = conferir; compare
Ct = Cântico dos Cânticos
Dt = Deuteronômio
etc. = et cetera
ESV = English Standard Version
Êx = Êxodo
Gr. = grego
Hb = Hebreus
Ibid. = ibidem
Is = Isaías
ISBE = International Standard Bible Encyclopedia
Jo = João
Jr = Jeremias
KJV = King James Version
Lc = Lucas
Lv = Levítico
LXX = Septuaginta
Mc = Marcos
Ml = Malaquias
Mq = Miqueias
Mt = Mateus
NAA = Nova Almeida Atualizada
NA28 = Nestle-Aland Novum Testamentum Graece, 28ª ed.
NBV = Nova Bíblia Vida
Nm = Números
NT = Novo Testamento
NTLH = Nova Tradução na Linguagem de Hoje
NVI = Nova Versão Internacional
NVT = Nova Versão Transformadora
op. cit. = opere citato
Os = Oseias
p. = página
p. ex. = por exemplo
Pv = Provérbios
Sl = Salmos
vol. = volume
vs. = versus
WBC = Word Biblical Commentary
YLT = Young’s Literal Translation
Zc = Zacarias

Bibliografia

BEASLEY-MURRAY, George R. John. Dallas, TX: Word Books, 1987. (Word Biblical Commentary, v. 36).
BROWN, Raymond E. The Gospel According to John (I–XII): introduction, translation, and notes. Garden City, NY: Doubleday, 1966. (The Anchor Bible, v. 29).
GREEN, Michael. The Second Epistle of Peter and the Epistle of Jude: an introduction and commentary. Leicester: Inter-Varsity Press, 1987. (Tyndale New Testament Commentaries).
KEENER, Craig S. Acts: an exegetical commentary. Volume 3: 15:1–23:35. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2014.
MARTIN, Ralph P. 2 Corinthians. Waco, TX: Word Books, 1986. (Word Biblical Commentary, v. 40).
OSBORNE, Grant R. Apocalipse: comentário exegético. 2. ed. Tradução de Denise Maranhão; Astrid Steinhauer. São Paulo: Vida Nova, 2014.
ROOKER, Mark F. Leviticus. Nashville, TN: Broadman & Holman Publishers, 2000. (The New American Commentary, v. 3A).
WOODS, Edward J. Deuteronomy: an introduction and commentary. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2020. (Tyndale Old Testament Commentaries).

Cite este artigo:

GALVÃO, Eduardo. Tenda, Barraca. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], 7 jun. 2016. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

Notas Bibliográficas

1. BROWN, op. cit., p. 4

2. OSBORNE, op. cit., p. 504

3. Ibid., p. 537.

4. MARTIN, op. cit., p. 103.

5. Ibid., p. 104.

6. GREEN, op. cit., p. 88.

7. KEENER, op. cit., p. 1083.

8. Ibid., p. 1084.

9. KEENER, op. cit., p.258.

10. Ibid., p. 261.

11. Ibid., p. 258.

Pesquisar mais estudos