Hebreus 8: Significado, Devocional e Exegese
Hebreus 8
Hebreus 8 constitui a culminação da argumentação iniciada no capítulo 7 e serve de ponte para o desenvolvimento litúrgico e sacrificial que será aprofundado nos capítulos 9 e 10. O capítulo apresenta duas teses interdependentes: (1) Cristo é o Sumo Sacerdote entronizado no céu, que ministra no santuário verdadeiro, não feito por mãos humanas; e (2) sua mediação está associada a uma nova aliança, superior à antiga, baseada em promessas superiores. Com isso, o autor articula os temas centrais de sua teologia: sacerdócio celeste, tipologia mosaica e a necessidade de uma aliança renovada. A ênfase está não apenas na continuidade, mas sobretudo na superação do pacto antigo por meio da obra perfeita e eficaz do Messias. Hebreus 8, portanto, não apenas reafirma a supremacia de Cristo como mediador, mas também redefine o lugar da Lei, do templo e do sacerdócio dentro da economia da nova aliança, fazendo avançar o argumento soteriológico e eclesiológico da epístola.
I. Estrutura e Estilo Literário
O capítulo se organiza em dois grandes movimentos: os versículos 1–6 desenvolvem a teologia do sacerdócio celeste de Cristo, enquanto os versículos 7–13 apresentam a nova aliança como cumprimento das promessas proféticas. O versículo inicial introduz com clareza o ponto central (κεφάλαιον [kephálaion, “resumo”]): “temos tal Sumo Sacerdote” — ἔχομεν τοιοῦτον ἀρχιερέα [échomen toioûtοn archieréa] — linguagem solene que reitera a identidade do Cristo exaltado. A imagem da entronização à destra da Majestade (ἐν τοῖς οὐρανοῖς [en toîs ouranoîs, “nos céus”]) retoma temas do Salmo 110 e da ascensão.
O estilo da primeira metade do capítulo é argumentativo e explicativo, com ênfase na contraposição entre o santuário terreno (σκηνή [skēnḗ, “tabernáculo”]) e o santuário celeste. A linguagem é cultual, mas também filosófica: o termo ὑπόδειγμα [hypódeigma, “modelo”] (v. 5) revela a influência da concepção platônica de realidade e cópia. A segunda metade do capítulo (vv. 7-13) adota um tom exegético e profético: trata-se da mais longa citação contínua do Antigo Testamento em todo o Novo Testamento, reproduzindo Jeremias 31:31-34 quase integralmente, segundo o texto da LXX. O estilo aqui é litúrgico e escatológico, com ritmos paralelos, repetições (“διαθήκη… διαθήκη…” [diathḗkē… diathḗkē, “aliança… aliança…”]) e fórmulas oraculares (“λέγει κύριος” [légei Kýrios, “diz o Senhor”]). O versículo final conclui com linguagem jurídica: a antiga aliança é chamada de “envelhecida” (πεπαλαίωκεν [pepaláiōken]) e “perto de desaparecer” (ἐγγὺς ἀφανισμοῦ [eggùs aphanismoû]).
II. Hebraísmos no Texto Grego
A linguagem de Hebreus 8 continua profundamente marcada por hebraísmos e estruturas semíticas. A designação de Cristo como “λειτουργὸς τῶν ἁγίων” [leitourgòs tōn hagíōn, “ministro dos santos”] (v. 2) reflete o hebraico מְשָׁרֵת בַּקֹּדֶשׁ [mĕšārēt baqqōdesh], título aplicado aos levitas (cf. Êxodo 28:35; Números 3:6). A contraposição entre “santuário verdadeiro” (τῆς σκηνῆς τῆς ἀληθινῆς [tês skēnês tês alēthinês]) e o terreno deriva da distinção entre o tabernáculo terrestre e o trono celeste em textos como Isaías 6:1-6 e Ezequiel 1. A fórmula “ἐν τοῖς οὐρανοῖς” [en toîs ouranoîs, “nos céus”] traduz a expressão hebraica בַּשָּׁמַיִם [baššāmayim], comum em contextos litúrgicos e apocalípticos.
A referência a Moisés construindo o tabernáculo “segundo o modelo” — “κατὰ τὸν τύπον” [katà tòn túpon] (v. 5) — ecoa Êxodo 25:40, onde Deus ordena: “רְאֵה וַעֲשֵׂה בְּתַבְנִיתָם” [rĕʾeh waʿăśê bĕtabnîtām, “vê e faze segundo o modelo”]. A correspondência entre τύπος [týpos] e תַּבְנִית [tabnît] está bem atestada na LXX e reflete o entendimento judaico de que o tabernáculo terrestre era imagem do santuário celeste.
A citação de Jeremias 31:31–34 (vv. 8–12) é reproduzida na LXX com mínima adaptação. As expressões-chave mantêm sua cadência hebraica, como “διαθήκην καινήν” [diathḗkēn kainḗn, “nova aliança”], tradução de בְּרִית חֲדָשָׁה [berît ḥădāšāh], e a fórmula “καὶ ἔσομαι αὐτοῖς εἰς θεόν, καὶ αὐτοὶ ἔσονταί μοι εἰς λαόν” [kaì ésomai autoîs eis theón, kaì autoì ésontaí moi eis laón, “e eu serei o Deus deles, e eles serão meu povo”], que reproduz quase literalmente o hebraico וְהָיִיתִי לָהֶם לֵאלֹהִים וְהֵמָּה יִהְיוּ־לִי לְעָם [wĕhāyîtî lāhem lĕʾĕlōhîm wĕhēmāh yihyû-lî lĕʿām]. Essa repetição contratual é o núcleo da linguagem pactual hebraica e reflete a fórmula da aliança mosaica agora aplicada ao novo pacto escatológico.
III. Versículo-Chave
Hebreus 8:6
agora, porém, ele obteve ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de superior aliança, instituída com base em melhores promessas.
Este versículo articula o centro teológico do capítulo: Cristo é mediador (μεσίτης [mesítēs]) de uma nova aliança, superior à antiga não por ser simplesmente posterior, mas por ser fundada em melhores promessas — ἐπὶ κρείττοσιν ἐπαγγελίαις [epì kreíttosin epangelíais]. A lógica do “melhor” (κρείττων [kreíttōn]) é estruturante em Hebreus. A “liturgia” (λειτουργία [leitourgía]) que Ele realiza é celeste, eficaz, eterna — não sombra, mas realidade.
IV. Intertextualidade com o Antigo e o Novo Testamento
Hebreus 8 é moldado por duas passagens veterotestamentárias fundamentais: Êxodo 25:40 e Jeremias 31:31–34. O texto de Êxodo fornece a base para a teologia do santuário celeste, com a ordem divina a Moisés para construir segundo o “modelo” revelado no monte — ideia reinterpretada aqui como indicação de que o culto mosaico era apenas sombra e figura. O tabernáculo e o sacerdócio levítico, portanto, são símbolos temporários apontando para a realidade consumada no Cristo celeste.
A citação de Jeremias 31, por sua vez, fornece a base escriturística para a nova aliança. Trata-se da única profecia explícita do AT a usar a expressão “nova aliança” — בְּרִית חֲדָשָׁה [berît ḥădāšāh] — e ela é aqui aplicada integralmente a Cristo e sua mediação. A estrutura da promessa inclui três elementos: interiorização da Lei (“darei minha lei em sua mente”), relação direta com Deus (“todos me conhecerão”) e perdão final (“dos seus pecados jamais me lembrarei”). Esses três elementos são reinterpretados cristologicamente em Hebreus: a Lei agora é cumprida em Cristo, o acesso a Deus é feito por Ele, e o perdão definitivo é resultado do seu sacrifício.
No Novo Testamento, Lucas 22:20 e 1 Coríntios 11:25 usam a mesma expressão “nova aliança” (διαθήκη καινή [diathḗkē kainḗ]) para descrever o cálice da Ceia como sinal do sangue de Cristo. Hebreus 8 une essas tradições eclesiais com a profecia de Jeremias, oferecendo um fundamento teológico para a soteriologia cristã: a nova aliança é superior, definitiva e eficaz porque foi selada não com sangue de animais, mas com o sangue do Filho.
V. Lição Teológica Geral
Hebreus 8 ensina que a nova aliança mediada por Cristo é a consumação de tudo o que o Antigo Testamento prefigurou. O culto levítico, o tabernáculo, os sacerdotes — tudo apontava para uma realidade superior: o santuário celeste, o sumo sacerdote eterno, a aliança baseada em promessas irrevogáveis. O capítulo reafirma que Cristo não apenas inaugurou uma nova etapa da revelação, mas também cumpriu, substituiu e superou a antiga. Sua mediação é eficaz porque é exercida nos céus; sua aliança é melhor porque interioriza a Lei, oferece perdão completo e estabelece uma comunhão plena e definitiva com Deus. A fé cristã, portanto, não está ancorada em sombras, mas na realidade eterna do Cristo exaltado, que ministra como verdadeiro sacerdote em favor do seu povo.
VI. Comentário de Hebreus 8
Hebreus 8 resume o cerne do argumento: nós temos um Sumo Sacerdote “tal” — santo e exaltado — que, após oferecer o sacrifício único, sentou-se à destra da Majestade e agora ministra no santuário celestial, o “verdadeiro tabernáculo” que o próprio Senhor erigiu, do qual o tabernáculo mosaico era apenas figura e sombra segundo o modelo mostrado a Moisés [Hebreus 8:1-5; Êxodo 25:40; Hebreus 7:26-28; 10:11-14]. Como todo sumo sacerdote é constituído para oferecer, Cristo tinha o que oferecer: a si mesmo; por isso seu ministério é “tanto mais excelente”, pois é o Mediador da Nova Aliança, fundada em promessas superiores [Hebreus 8:3, 6; 9:11-12]. Essa Nova Aliança, anunciada por Jeremias, não é mera renovação da primeira: Deus escreve sua lei na mente e no coração, estabelece o conhecimento pessoal universal (“todos me conhecerão”) e concede perdão definitivo (“de seus pecados jamais me lembrarei”) — exatamente o que a antiga, “com defeito” por ser provisória e por causa da infidelidade do povo, não podia efetuar [Hebreus 8:7-12; Jeremias 31:31-34; Romanos 8:3-4]. Ao chamar de “nova”, Deus torna a primeira antiquada e prestes a desaparecer; logo, voltar às sombras é regressão, pois em Cristo possuímos a realidade: acesso a Deus por um Sumo Sacerdote entronizado e uma aliança eficaz e eterna [Hebreus 8:13; 4:14-16; 6:17-20].
A. O Ministério Superior de Cristo em um Santuário Superior (Hebreus 8:1-6)
Hebreus 8:1 Ora, o essencial das coisas que temos dito (O autor resume tudo o que demonstrou em Hebreus 5–7: Deus instituiu um novo sacerdócio por juramento, “segundo a ordem de Melquisedeque”, superior, eterno e eficaz [Salmo 110:4; Hebreus 5:5-6; 7:15-22]. O “essencial” é a conclusão prática e teológica do argumento: o que segue é a síntese do núcleo da carta.) ...é que possuímos tal sumo sacerdote, (“Tal” aponta para a qualidade única já descrita: santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e exaltado [Hebreus 7:26]. Não é um ideal abstrato, nós temos — realidade presente — esse Sumo Sacerdote como representante e intercessor [Hebreus 4:14-16; 7:25].) ...que se assentou à destra do trono da Majestade nos céus, (“Assentou-se” traduz o aoristo de ekathisen: gesto de obra consumada; os levitas permaneciam de pé porque o serviço nunca terminava, mas Cristo, tendo oferecido um sacrifício único, sentou-se [Hebreus 10:11-14]. “À destra… da Majestade” retoma o Salmo real-messiânico aplicado a Jesus [Salmo 110:1; Hebreus 1:3,13]; “nos céus” situa o seu ministério no santuário celeste, acima de todo arranjo terrestre [Efésios 1:20-22].)
Hebreus 8:2 como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem. (“Ministro” traduz leitourgos — oficiador público-sacral [Hebreus 8:2; 9:21]. “Santuário” é ta hagia; “verdadeiro” é alēthinos, no sentido de definitivo/último (o antítipo), não de negar a realidade do antigo [Hebreus 9:11,24]. O “tabernáculo que o Senhor armou” (hēn epēxen ho Kyrios) contrasta com o feito por mãos humanas: Deus mesmo estabelece o lugar e o modo do culto definitivo [Êxodo 25:8-9; Hebreus 9:24]. Assim, o ministério de Cristo é celestial em sede, divino em instituição e final em eficácia.)
Hebreus 8:3 Pois todo sumo sacerdote é constituído para oferecer tanto dons como sacrifícios; (Princípio cultual universal: o sumo sacerdote existe para ofertar (prospherein) a Deus [Hebreus 5:1; 8:3; 9:9]. “Dons” (dōra) e “sacrifícios” (thysiai) resumem ofertas não sangrentas e sangrentas [Levítico 2; 4–5].) ...por isso, era necessário que também esse sumo sacerdote tivesse o que oferecer. (Necessidade lógica e salvífica: o ofício de Cristo exige oferta. E Ele a tem: a si mesmo — corpo e sangue — entregues “uma vez por todas” [Hebreus 7:27; 9:12, 14, 26-28; 10:5-10]. A cruz é o sacrifício; o céu é o santuário onde a obra é apresentada/aplicada com eficácia eterna [Hebreus 9:24].)
Hebreus 8:4 Ora, se ele estivesse na terra, nem mesmo sacerdote seria, visto existirem aqueles que oferecem os dons segundo a lei, (Porque Jesus pertence à tribo de Judá, não de Levi, Ele não se enquadra no sacerdócio terreno “segundo a lei” [Hebreus 7:13-14; Números 18:1-7]. Logo, Seu ministério não concorre com o sistema levítico; é outro em ordem e lugar: celestial. Esse contraste também protege contra qualquer retorno nostálgico ao culto antigo [Gálatas 4:9-11].)
Hebreus 8:5 os quais ministram em figura e sombra das coisas celestes,... (“Figura” (hypodeigma) e “sombra” (skia) designam cópia/antegosto que indica uma realidade maior [Colossenses 2:17; Hebreus 10:1]. O AT não é ilusão, mas tipologia: sinal pedagógico que aponta para Cristo e o céu [Gálatas 3:24].) ...assim como foi Moisés divinamente instruído,... (Moisés recebeu revelação específica sobre o padrão do tabernáculo: o culto não nasce da imaginação humana, mas da palavra de Deus [Êxodo 25:40].) ...quando estava para construir o tabernáculo;... (No Sinai, Deus deu o modelo do santuário que representaria a realidade celestial no meio do povo [Êxodo 25–31; 35–40].) ...pois diz ele: Vê que faças todas as coisas de acordo com o modelo que te foi mostrado no monte. (Citação de [Êxodo 25:40; 26:30]. “Modelo” = typos: o tabernáculo terrestre é réplica autorizada. Se a réplica era tão regulada, quanto mais o original celestial e o ministério do Filho! Conclusão implícita: o antigo, sendo “sombra”, era provisório; chegado o corpo, persiste só como testemunho que aponta para Cristo [Hebreus 9:8-10].)
Hebreus 8:6 Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, (O “agora” indica realização histórica na obra, ressurreição e entronização de Cristo. “Mais excelente” (diaphorōteran leitourgian) porque: (1) o oficiante é perfeito; (2) o lugar é celestial; (3) o sacrifício é único e eficaz; (4) o resultado é acesso real a Deus [Hebreus 7:26-28; 9:11-12; 10:19-22].) ...quanto é ele também Mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas. (“Mediador” mesitēs: Aquele que garante, inaugura e administra a aliança [Hebreus 9:15; 12:24]. “Superior aliança” (kreittōn diathēkē) é a Nova Aliança prometida, “instituída/enacta” (nenomothetētai) sobre “superiores promessas” (kreittosai epangeliai): lei escrita no coração, conhecimento pessoal de Deus e perdão definitivo dos pecados [Jeremias 31:31-34; Ezequiel 36:25-27; Hebreus 8:8-12; 10:16-18]. As promessas são “superiores” porque cumprem o que o antigo só prefigurava e o fazem com eficácia eterna no Espírito [2 Coríntios 3:6-11].)
B. A Superioridade da Nova Aliança (Hebreus 8:7-13)
Hebreus 8:7 Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito,... (“Primeira aliança” = prōtē diathēkē, o arranjo mosaico com seu sacerdócio levítico e culto [Êxodo 24:3-8; Hebreus 7:11; 9:1]. “Sem defeito” não significa “má” vs. “boa”, mas “capaz de levar à teleíōsis (perfeição)”: acesso pleno a Deus e consciência realmente purificada [Hebreus 7:19; 9:9-10; 10:1-4]. Seu “defeito” foi provisório/pedagógico — revelava o pecado, apontava para Cristo, mas não transformava o coração [Gálatas 3:19-24; Romanos 8:3-4].) ...de maneira alguma estaria sendo buscado lugar para uma segunda. (A promessa de “outro sacerdote” e de “nova aliança” prova que Deus mesmo planejou algo superior [Salmo 110:4; Jeremias 31:31-34; Hebreus 7:11-12]. Se a primeira bastasse, não haveria anúncio de uma segunda.)
Hebreus 8:8 E, de fato, repreendendo-os, diz: (“Repreendendo-os” (memphomenos autous): o alvo imediato da censura é o povo, não Deus “culpando” Sua própria lei; o problema foi a infidelidade humana sob um arranjo incapaz de curar o coração [Hebreus 3:10; Romanos 7:12-14].) Eis aí vêm dias, diz o Senhor,... (Fórmula profética de certeza e proximidade [Jeremias 31:31; Amós 9:13]. Em Cristo, esses “dias” chegaram [Marcos 1:15; 2 Coríntios 6:2].) ...e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá,... (“Nova” traduz kainē — “de qualidade nova/superior”, não meramente nea (“recente”). O sujeito é Deus: “firmarei” (diathēsomai) [Jeremias 31:31]. O endereço “Israel/Judá” mantém a história da aliança; em Cristo, gentios são enxertados nesse povo e feitos coerdeiros [Efésios 2:12-19; Romanos 11:17-24; Gálatas 3:29].)
Hebreus 8:9 não segundo a aliança que fiz com seus pais,... (Contraste qualitativo: a nova aliança não é simples renovação da antiga; é outro arranjo [Jeremias 31:32; Hebreus 7:12].) ...no dia em que os tomei pela mão,... (Imagem terna do Êxodo: Deus como Pai guiando o filho pela mão [Êxodo 19:4; Oseias 11:1-4].) ...para os conduzir até fora da terra do Egito;... (Marco fundacional da antiga aliança [Êxodo 20:2].) ...pois eles não continuaram na minha aliança,... (Apostasia recorrente: bezerro de ouro, deserto, juízes, reis — quebraram o pacto [Êxodo 32; Juízes 2:11-19; 2 Reis 17:7-18].) ...e eu não atentei para eles, diz o Senhor. (Kagō ēmelesa autōn LXX: “eu os desconsiderei/“deixei de cuidar”. É linguagem de juízo pactual: Deus “entrega” à própria obstinação quando há persistência na infidelidade [Salmo 81:11-12; Romanos 1:24].)
Hebreus 8:10 Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel,... (Definição positiva do conteúdo da nova aliança.) ...depois daqueles dias, diz o Senhor: (Após o período do antigo arranjo, chega a economia do Espírito inaugurada por Cristo [João 7:39; Hebreus 9:26].) ...na sua mente imprimirei as minhas leis,... (Didous nomous mou eis tēn dianoian): interiorização — não apenas preceitos externos, mas disposição interna renovada [Deuteronômio 30:6, 14; Ezequiel 36:26-27; 2 Coríntios 3:3].) ...também sobre o seu coração as inscreverei;... (Kardia como centro afetivo-volitivo; Deus escreve Seu querer no coração, tornando a obediência fruto do Espírito, não de coação [Salmo 40:8; Romanos 8:3-4].) ...e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. (Fórmula da aliança consumada — comunhão real, não apenas jurídica [Levítico 26:12; Apocalipse 21:3].)
Hebreus 8:11 E não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: (Hiperbole escatológica: não abole o ensino cristão [Mateus 28:20; Efésios 4:11-13], mas promete acesso universal e imediato ao conhecimento de Deus entre o povo da aliança.) Conhece ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior. (Pantes gnōsontai me: conhecimento relacional e transformador, prometido para todo o povo de Deus [Jeremias 31:34; João 6:45; 1 João 2:20, 27]. A democratização do conhecimento de Deus é fruto da unção do Espírito.)
Hebreus 8:12 Pois, para com as suas iniquidades, usarei de misericórdia e dos seus pecados jamais me lembrarei. (Clímax da nova aliança: perdão definitivo. “Jamais me lembrarei” não é amnésia, mas não lançar em conta — remover a culpa do foro pactual [Salmo 103:12; Isaías 43:25; Miqueias 7:19; Hebreus 10:17-18]. Esse perdão se baseia no sacrifício único do Mediador [Hebreus 9:26-28; 10:12,14].)
Hebreus 8:13 Quando ele diz Nova,... (A própria palavra kainē implica novidade qualitativa.) torna antiquada a primeira. (Pepalaiōken = “tornou obsoleta/envelhecida”: o antigo arranjo cumpriu seu papel tipológico e cedeu lugar ao definitivo [Colossenses 2:17; Hebreus 10:1].) Ora, aquilo que se torna antiquado e envelhecido está prestes a desaparecer. (No tempo do autor, o culto levítico ainda funcionava, mas, teologicamente, estava “por desaparecer” [Hebreus 9:8-10]. Historicamente, isso coincide com o juízo anunciado por Jesus sobre o templo [Mateus 24:2]. O ponto pastoral: voltar às “sombras” é regredir; em Cristo, possuímos a realidade — coração novo, perdão pleno, acesso a Deus pelo Sumo Sacerdote entronizado [Hebreus 4:14-16; 10:19-22].)
VII. Devocional de Hebreus 8
“Agora, porém, obteve Ele ministério tanto mais excelente, quanto é Mediador de aliança superior, instituída sobre promessas superiores” (Hb 8.6). Aqui está o coração do argumento do autor de Hebreus e, ouso dizer, a nota dominante de todo o Evangelho. Nada menos do que isto: o Senhor Jesus Cristo, não apenas como tema da nossa fé, mas como Aquele que, pelo Seu próprio sangue, instituiu uma nova aliança, e, pela Sua vida indissolúvel, administra e faz vigorar tudo quanto essa aliança promete (Hb 7.16, 24–25; 9.15, 24). E é por isso que o seu ministério é “tanto mais excelente”: não porque seja mais belo de contemplar, mas porque salva, purifica, pacifica a consciência, e introduz o pecador na presença do Deus vivo (Hb 9.11–14; 10.19–22).
É decisivo que vejamos o verso no seu contexto. O Espírito Santo insiste que Moisés foi avisado a fazer “tudo segundo o modelo” mostrado no monte (Êx 25.40; Hb 8.5). O tabernáculo, o véu, o propiciatório, o incenso, o sangue—não eram folclore do deserto; eram um mapa celeste desenhado para um povo terreno. Deus Se serviu de sombras para educar a Sua igreja até que viesse a realidade (Gl 3.19,24; Cl 2.17). E quando a realidade chegou—quando o Filho entrou “não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo Seu próprio sangue, no Santo dos Santos, uma vez por todas” (Hb 9.12)—as sombras cumpriram sua vocação e cederam lugar. Assim, quando lemos que Cristo “obteve” um ministério mais excelente, não estamos diante de uma melhoria gradual de um sistema antigo; estamos diante do cumprimento das promessas, do estabelecimento de um pacto cuja natureza é de outra ordem, “superior”, porque repousa numa obra acabada e é ministrado num santuário que “o Senhor erigiu, e não o homem” (Hb 8.2; 9.24; Jo 19.30).
Mas o que é uma “aliança superior”? O profeta Jeremias já a anunciara: “Farei nova aliança… porei as Minhas leis no íntimo e as escreverei no coração; Eu serei o seu Deus, e eles serão Meu povo… todos Me conhecerão… e dos seus pecados jamais Me lembrarei” (Jr 31.31–34; Hb 8.8–12). Observai a diferença. No Sinai, leis gravadas em tábuas de pedra; na nova aliança, a própria lei gravada no coração (Ez 36.26–27). No Sinai, um povo mantido à distância, limites no sopé do monte, o som de trombetas e um terror santo que os fazia suplicar para não ouvirem mais (Êx 19.12–13; Hb 12.18–21). Agora, por causa de Cristo, “ousadia para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue” e um “vivo caminho” rasgado até o próprio coração de Deus (Hb 10.19–22). No regime antigo, “lembrança de pecados” ano após ano (Hb 10.3); no novo, uma sentença divina que é música para consciências cansadas: “nunca mais Me lembrarei” (Hb 8.12; 10.17). E se alguém pergunta onde repousa tal ousadia, a resposta é uma só: no Mediador. Não em nossa reforma moral, não em promessas que fazemos durante uma tempestade e esquecemos quando o sol volta a brilhar, mas n’Ele que é “o único Mediador entre Deus e os homens” (1Tm 2.5), “Fiador” da própria aliança (Hb 7.22), que a assinou com sangue e a faz valer pela Sua intercessão incessante (Hb 7.25).
Por que precisamos de um Mediador? Porque não há comércio direto entre a santidade infinita e a culpa consciente. O Sinai ensinou isto com o seu véu e a sua arquitetura hierarquizada: um sacerdote entre o povo e Deus; e, dentro do véu, apenas o sumo sacerdote, e isto uma vez por ano, “não sem sangue” (Hb 9.7). O Evangelho não nega essa pedagogia; cumpre-a. Cristo veio, tomou carne para ter “o que oferecer” (Hb 8.3), apresentou-Se como Cordeiro “sem defeito e sem mácula” (1Pe 1.19), e, tendo feito “uma só oferta pelos pecados, para sempre, assentou-Se à destra de Deus” (Hb 10.12). Não é isto notável? O antigo sacerdócio levantava-se sempre de novo, porque a obra nunca estava concluída; este Sacerdote assenta-Se, porque a obra está feita. E, no entanto, Ele vive e ministra. A cruz foi a Sua oblação; o céu é o Seu ofício. A morte foi o Seu “It is finished”; a vida é o Seu “Eu rogarei ao Pai” (Jo 19.30; 14.16; Hb 7.25; 9.24).
“Mas”, diz alguém, “isto não nos torna passivos? Não nos reduz a espectadores?” Pelo contrário. É precisamente porque a aliança é promessa que ela produz vida. Pecadores que recebem absolvição não se acomodam; levantam-se e caminham. Quando Deus escreve a lei no coração, não diminui a lei; interioriza-a. O fim de Deus, diz Paulo, é que “a justa exigência da lei se cumpra em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.4). Vede como a nova aliança junta aquilo que nós tão facilmente separamos: perdão absoluto e santidade real; justificação perfeita e santificação progressiva (Rm 5.1; Hb 10.14). E como tudo isto se experimenta? Pela fé—não fé como um esforço meritório, mas fé como mão vazia que recebe o que Cristo obteve, e como olhar fixo que entra “além do véu”, onde a nossa esperança-âncora se prende (Hb 6.19–20; Rm 4.16; Ef 2.8–9).
Não percamos de vista a palavra do verso: “obteve”. Isto é linguagem de conquista e de direito. Não nos movemos num vago otimismo religioso; movemo-nos num pacto ratificado. Quando Moisés aspergiu o povo com sangue e disse: “Eis o sangue da aliança” (Êx 24.8; Hb 9.19–22), ninguém duvidava de que um vínculo objetivo se estabelecera. Quanto mais agora, quando Aquele que é maior que Moisés ergue o cálice e declara: “Este cálice é a nova aliança no Meu sangue” (Lc 22.20). A base não é o que tu sentes hoje e poderás deixar de sentir amanhã; a base é o sangue do Filho e o juramento do Pai (Hb 6.17–18; 13.20). E se Deus jurou e o Filho sangrou, quem ousará dizer que a aliança é frágil?
Alguém objetará: “Mas eu falhei; prometi e não cumpri; comecei e desanimei; como posso me aproximar?” Observa a ordem dos termos em Jeremias e em Hebreus. Não começa com “eles escreverão”; começa com “Eu darei… Eu escreverei… Eu serei… Eu perdoarei” (Jr 31.33–34; Hb 8.10–12). A iniciativa é divina do princípio ao fim. O arrependimento com que retornas é dom (At 11.18); a fé com que te lanças é dom (Ef 2.8–9); o Espírito que te sustém é dom (Lc 11.13). Confessa, portanto, a tua insuficiência, mas não difama a suficiência do Mediador. Não te atrevas a imaginar que teus pecados são mais pesados que o sangue eterno, nem que tua inconstância é mais teimosa que a intercessão incessante do Filho de Deus (Hb 7.25; 13.20–21).
E, no entanto, há outro desvio mortal. Alguns amam tanto o Sinai que tentam “ajustar” a nova aliança ao velho esquema: reduzem a lei até que caiba no bolso, elevam suas reformas até que pareçam ouro, e tratam Cristo como quem apenas “facilitou” a escada em que agora sobem por si mesmos. Chamam isso de “vida cristã”; a Escritura chama de “frustrar a graça de Deus” (Gl 2.21). A nova aliança não é a velha com verniz; é promessa que opera o que ordena, é graça que produz o que exige. Nada vos peço que Cristo não dê, e nada vos dou que Cristo não tenha comprado. Por isso a vida cristã é ao mesmo tempo humilde e ousada: humilde, porque tudo recebe; ousada, porque tudo espera Daquele em quem “todas as promessas de Deus têm o sim e o amém” (2Co 1.20).
Voltemos, então, à prática. Se Cristo é Mediador agora, não amanhã; se o véu está rasgado já, não em algum dia nebuloso; se as promessas são “melhores” porque são Suas, por que andas distante? Por que conservar pecados que Ele promete “nunca mais lembrar”? Por que carregar culpas que Ele manda lançar fora “com sincero coração” no lavar da água e no aspergir do sangue (Hb 10.22)? Vem como estás, mas não fiques como estás; aproxima-te com verdade no íntimo, e dize: “Deus, sê propício a mim, pecador” (Lc 18.13). E quando vieres, não tragas contigo teus pequenos adendos à aliança, como se pudesses reforçar o documento do céu com anexos humanos. É desonrar o Fiador. Cristo assinou por completo; oferece-te por inteiro; recebe-te por inteiro.
E tu, aflito, cuja consciência é como um mar sempre agitado, aprende a viver não do barômetro das tuas sensações, mas do pacto jurado por Deus e selado por Cristo. Quando a tempestade sopra, lança outra vez a âncora; e lembra-te onde ela se prende: “além do véu”, onde o teu Representante já entrou, “o Precursor, Jesus” (Hb 6.19–20). O Pai olha para o Filho, e é por isso que olha para ti com favor (Cl 3.3–4). O Filho apresenta Seu sangue, e é por isso que tens paz (Rm 5.1). O Espírito escreve a lei, e é por isso que podes andar (Rm 8.1–4). Três Pessoas, uma obra, um povo. Esta é a glória da nova aliança.
Finalmente, deixa-me falar-te como um pastor fala ao rebanho. Talvez digas: “Mas e se eu cair?” Ouve: “Com uma só oferta aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados” (Hb 10.14). Não há contradição. “Aperfeiçoou para sempre”—justificação perfeita; “estão sendo santificados”—processo real. Se caíres, levanta-te pelo mesmo caminho por que entraste; não por méritos recém-fabricados, mas pelo sangue que nunca perde o seu valor (1Jo 2.1–2; Hb 9.14). Talvez digas: “E se eu fraquejar no caminho?” Ouve outra vez: “Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la” (Fp 1.6); “o Deus de paz… vos aperfeiçoe em todo o bem, para fazerdes a Sua vontade” (Hb 13.20–21). Talvez digas: “E quanto ao futuro incerto?” Lembra: as promessas são “melhores” porque abrangem o tempo e a eternidade. Esta aliança não caduca; seu Mediador não morre; seu sangue não expira; sua intercessão não se interrompe (Hb 7.24–25; 9.15).
“Agora, porém, obteve Ele…”—é isto que sustenta a pregação, consola o penitente, fortalece o santo e humilha o soberbo. O Filho obteve; o Pai jurou; o Espírito aplica. Que nos resta, senão crer, vir, desfrutar e viver de modo digno? Segura-te desta palavra como de vida: aliança superior, promessas superiores, Mediador superior. E como o escritor de Hebreus dirá mais adiante, “retenhamos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois fiel é Aquele que prometeu” (Hb 10.23).
VIII. Concordância Bíblica Comentada
O autor abre Hebreus 8 com um golpe de síntese e coroação: kephaláion (“ponto principal, cabeça do argumento”), toîs legoménois (“sobre o que vimos dizendo”), toioûton échomen archiereâ (“temos tal sumo sacerdote”), ekáthisen en dexia (“que se assentou à direita”), toû thrónou tês megalōsýnēs (“do trono da Majestade”), en toîs ouranoîs (“nos céus”). Quando ele escreve kephaláion, não quer um simples “resumo”; aponta o ápice do que construiu em Hebreus 7:26–28: aquele sumo sacerdote “santo, inocente, imaculado… e exaltado acima dos céus” é justamente o que temos agora (échomen, “possuímos”). A expressão “assentou-se à direita” (ekáthisen en dexia) retoma a abertura da carta: o Filho, “tendo realizado a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas” (Hebreus 1:3), ecoa a entronização do Salmo 110 e reaparece como sinal de obra consumada em Hebreus 10:12 (“assentou-se para sempre”) e como foco devocional em Hebreus 12:2 (“olhando para Jesus… que está assentado à direita”). É também a confissão que percorre o Novo Testamento: “Cristo está à direita de Deus” (Romanos 8:34); “estai pensando nas coisas lá do alto, onde Cristo está, assentado” (Colossenses 3:1); “ele se assentou à destra de Deus” (Marcos 16:19); “ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono” (Apocalipse 3:21). E “Majestade” aqui — megalōsýnē (“grandeza soberana”) — conversa com a linguagem do Antigo Testamento que exalta o esplendor real de Deus (1 Crônicas 29:11; Salmos 45; 104; 145; Isaías 24:14; Miqueias 5:4): o trono do qual o Filho ministra é o trono do próprio Deus. O “ponto principal”, portanto, não é apenas “onde” Jesus está, mas quem Ele é ali: o nosso Sumo Sacerdote entronizado. O acesso inaugurado em Hebreus 7 não desemboca num vazio, mas numa pessoa viva sentada no trono. Por isso a pequena frase “temos tal Sumo Sacerdote” é pastoralmente enorme: não é uma ideia superior que possuímos, é Alguém.
No versículo 2, o autor desce do trono ao santuário sem sair do céu: tôn hagíōn (“dos santos/das coisas santas/do Santo”), leitourgós (“ministro litúrgico”, servo-oficiante), tês skēnês tês alēthinês (“da tenda/Tabernáculo verdadeiro”), hḗn epḗxen ho Kýrios (“que o Senhor armou/erigiu”), ouch ánthrōpos (“não um homem”). Duas afirmações se abraçam aqui. A primeira: Jesus é leitourgós — ministro cultual real — do Santo. O Antigo Testamento instituiu Arão e seus filhos “para me servirem no sacerdócio” (Êxodo 28:1, 35), e toda a economia do Tabernáculo girava nesse “serviço” (Êxodo 36:1; 38:21). Hebreus diz: esse verbo agora se cumpre no céu. O que os levitas faziam em figura (entradas, vestes, sinos e romãs, sangue e incenso) era sombra do ministério atual do Filho “como grande sacerdote sobre a casa de Deus” (Hebreus 10:21), e “enquanto o primeiro tabernáculo subsistia, o Espírito Santo indicava que o caminho do Santo ainda não estava manifesto” (Hebreus 9:8–12). Com Cristo, manifestou-se: “Cristo… por um Tabernáculo maior e mais perfeito, não feito por mãos… entrou uma vez por todas no Santo” (Hebreus 9:11–12). Até quando Lucas 24:44 afirma que “era necessário cumprir-se tudo… na Lei, nos Profetas e nos Salmos”, Hebreus traduz esse cumprimento no registro litúrgico: o Ministro que aquelas Escrituras prometiam está, agora, oficiando. E Paulo, dizendo que “Cristo se fez diácono dos da circuncisão” para confirmar as promessas (Romanos 15:8), ilumina esse mesmo traço: o Messias é Servo litúrgico que realiza o que foi prometido.
A segunda afirmação: o lugar do seu ofício é a skēnê alēthinê — o “Tabernáculo verdadeiro”. Alēthinós aqui não contrasta “real” com “imaginário”, mas definitivo com provisório: a tenda mosaica era cópia e sombra (Hebreus 8:5–que o contexto imediato dirá), enquanto a “verdadeira” é a realidade celeste onde Deus habita. Por isso Hebreus 9:23–24 falará em “figuras das coisas nos céus” purificadas com sangue de animais, mas “o próprio céu” alcançado por Cristo, “para comparecer agora por nós perante Deus”. É a mesma trilha da expressão “não feito por mãos” que percorre o Novo Testamento: “casa não feita por mãos, eterna nos céus” (2 Coríntios 5:1); “circuncisão não feita por mãos” (Colossenses 2:11); um santuário cuja planta e ereção têm Deus por arquiteto (Hebreus 11:10). Daí a cláusula decisiva: “hḗn epḗxen ho Kyrios, ouch anthrōpos” — epḗxen (“armou/erigiu”), ho Kýrios (“o Senhor”), ouch ánthrōpos (“não homem”). Moisés levantou a tenda terrena “conforme o modelo” (Êxodo 26:30), mas o modelo é de Deus; o santuário onde Cristo ministra não depende de costuras humanas — é obra direta do Senhor. O resultado espiritual é nitidez: o nosso culto não subiu de nível por requinte simbólico, e sim porque o Oficiante está no lugar onde o sangue fala definitivamente. Por isso a exortação de Hebreus 10 desce com tanta confiança: “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santo… e um grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos” (Hebreus 10:19–22). O “sumo” (o kephaláion) de 8:1–2 é exatamente isso: temos (não apenas cremos em) um Sumo Sacerdote entronizado (ekáthisen en dexia toû thrónou tês megalōsýnēs) que oficia (leitourgós) no Santo real, dentro do Tabernáculo verdadeiro (skēnê alēthinê) que o Senhor erigiu (epḗxen ho Kýrios). Toda a majestade que os Salmos atribuem a Deus (1 Crônicas 29:11; Salmos 21; 45; 104; 145) não ficou distante; ela é o ambiente do nosso acesso. E toda a minúcia de Êxodo sobre vestes, sinos, entrada e serviço (Êxodo 28) não ficou obsoleta; ela foi cumprida por um Ofício vivo.
Se você mantiver esses dois versículos no centro da leitura, o resto do capítulo se organizará sem esforço: a maior aliança, o melhor ministério, as melhores promessas não são um “upgrade” de rito, mas a presença do Sacerdote assentado e oficiante no santuário que Deus mesmo levantou. É por isso que a esperança cristã é tão concreta: ela não depende de um altar que a gente monta, mas de um trono e de um Tabernáculo que já estão firmes — e de um Ministro que não cansa, não morre e não falha.
O fio de Hebreus 8:3–6 continua o que 8:1–2 coroou: o nosso Sumo Sacerdote está assentado e, ao mesmo tempo, oficia. O versículo 3 define a natureza desse ofício; o 4 esclarece onde ele não acontece; o 5 explica o que o antigo culto era em relação ao novo; e o 6 proclama o que Cristo obteve: um ministério e uma aliança melhores, legalmente promulgados em promessas superiores.
Em 8:3, o autor escreve: “todo sumo sacerdote (pâs archierèus) é constituído (kathistátai) para oferecer (prosphérein) dons (dōra) e sacrifícios (thysías); por isso é necessário (anankáion) que também este (kai toûton) tenha (échein) algo que oferecer (tí ho prosenénken, ‘alguma coisa que ele ofereceu’)”. Aqui Hebreus retoma a definição de sacerdócio já dada: “todo sumo sacerdote… é constituído em favor dos homens nas coisas concernentes a Deus, para oferecer dons e sacrifícios” (Hebreus 5:1). A rotina “dia após dia” do sacerdócio levítico (Hebreus 7:27; 10:11) confirma essa vocação: havia “a oferta” cotidiana do sacerdote (Levítico 6:20) e um calendário inteiro de oblações. Mas, quando o autor diz que “também este” — Cristo — precisava “ter algo que oferecer”, ele não o está rebaixando ao nível das imperfeições levíticas; está apontando para o conteúdo radicalmente novo do seu sacrifício. O que Ele “tem” não é um animal alheio, é Ele mesmo. É por isso que, mais adiante, a carta dirá que “pelo Espírito eterno, a si mesmo (heautón) se ofereceu (prosēnéngken) sem mácula a Deus” (Hebreus 9:14), e que Ele entrou “uma vez por todas” com o próprio sangue (Hebreus 10:9–12). Jesus, aliás, já havia antecipado o que “teria” para dar: “o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (João 6:51). Paulo leu assim: “Cristo vos amou e se entregou (parédōken heautón) por nós, oferta e sacrifício (prosphorá kai thysía) a Deus” (Efésios 5:2), “para nos remir… purificando para si mesmo um povo” (Tito 2:14). Até Zacarias 6:12, ao prometer o Renovo que edifica o templo do SENHOR, aponta para esse sacerdote-rei que não apenas serve no santuário, mas faz do próprio corpo o templo e o sacrifício; e quando Gálatas 3:25 declara que, “vindo a fé”, já não estamos debaixo do aio, está dizendo que o tutor (o sistema de ofertas que apontava) cumpriu seu trabalho ao nos conduzir ao conteúdo: “vemos Jesus… para provar a morte por todos” (Hebreus 2:9). Por isso, quando 8:3 exige que “também este tenha algo a oferecer”, toda a teologia de Hebreus responde: Ele tem — o seu próprio corpo (Hebreus 10:5).
Em 8:4, vem o ajuste decisivo de esfera: “se Ele estivesse (ên) na terra, nem seria sacerdote (oud’ an ên hieréus), havendo já (óntōn) os que oferecem (prospherontōn) segundo a lei (kata nómón) os dons (tà dōra)”. O ponto é a jurisdição: o sacerdócio de Jesus não se exerce no plano levítico-terreno; lá (na terra) a Lei determinou quem podia servir — “o estranho que se chegar… morrerá” (Números 3:10), e o incenso de Coré virou memorial “para que nenhum estranho… se chegue para queimar incenso perante o SENHOR” (Números 16:40). Quando Uzias, rei de Judá, tentou invadir o ofício sacerdotal, foi ferido de lepra (2 Crônicas 26:18–19). O próprio livro de Números insiste: os levitas guardam o santuário para que não haja ira (Números 18:5). Portanto, “na terra” já há (tempo presente) sacerdotes que oferecem os “dōra” — palavra que inclui tanto ofertas propiciatórias quanto ofertas voluntárias (veja-se o uso paradigmático em Hebreus 11:4, quando Abel oferece “dōron” melhor). Logo, se o sacerdócio de Cristo fosse levítico, Ele estaria impedido; mas como Hebreus 7:11–15 já demonstrou, houve mudança de sacerdócio e, com ela, mudança de lei. O ofício do Filho não é em Jerusalém; é no céu.
Isso prepara 8:5, que explica a relação do antigo culto com o atual: “os quais ministram (latreúousin) como cópia e sombra (hypodeígmati kaì skiā̂, ‘exemplo-representação e sombra’) das coisas celestiais, assim como foi advertido (kechrēmátistai, ‘instruído oracularmente’) a Moisés quando estava para concluir a tenda: ‘Vê (hóra) — diz — que faças (poiḗseis) tudo conforme o modelo (týpos) que te foi mostrado no monte’.” A tenda terrena era, portanto, hipomodelo e sombra: uma representação didática (Êxodo 25:40; 26:30; 27:8; Números 8:4) — Moisés não inventa, replica; Davi entrega a Salomão o “modelo” recebido por escrito da mão do SENHOR (1 Crônicas 28:12, 19); Estêvão diz que Israel levou no deserto o “tabernáculo do testemunho… conforme o modelo” (Atos 7:44). Por isso Hebreus 9:9 chama aquele sistema de “parábola para o tempo presente” e 9:23–24 distingue entre “figuras das coisas nos céus” e “o próprio céu”; 10:1 resume: “a Lei, tendo sombra (skián) dos bens vindouros, não a imagem exata.” Paulo afina a mesma corda: as coisas do calendário cerimonial eram “sombra das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Colossenses 2:17). Até lampejos distantes entram aqui: Josué 22:28 ergue um altar testemunho, “vê, é réplica”; 1 Reis 8:13 confessa a casa “estável” como morada, mas Hebreus 8 reorienta: a morada verdadeira é a celeste; 2 Crônicas 4:7 registra vasos “segundo o modelo”; Ezequiel 43:11 manda mostrar o desenho da casa — tudo pedagógico. E a oração do salmista, “desvenda os meus olhos, para que eu veja as maravilhas da tua lei” (Salmos 119:18), se cumpre quando, “fugindo as sombras” (Cantares 2:17), a realidade aparece em Cristo. É essa a lógica do versículo: os levitas serviam no teatro da sombra; o Filho serve no original celeste.
Chegamos, então, ao estandarte de 8:6: “agora, porém, Ele obteve (tétuchen) um ministério mais excelente (diaphorōtéras… leitourgías); tanto quanto (hóso̱) é Mediador (mesítēs) de uma aliança melhor (diathḗkēs kreíttōnos), a qual foi promulgada por lei (nenomothétētai, ‘foi legalmente estabelecida’) sobre promessas melhores (epì kreittosi epangelíais).” Tudo que o capítulo ainda vai detalhar (8:7–13) está aqui em semente. Primeiro: Ele obteve um ministério mais excelente — linguagem que conversa com 2 Coríntios 3:6–11: o ministério da letra (que mata) tinha glória, mas o do Espírito é de glória superior; o que permanece é mais glorioso. Segundo: Ele é mesítēs — Mediador. Hebreus acabou de chamá-lo Fiador (engyos) da aliança (7:22); agora, chama-o Mediador (mesítēs), título que reaparecerá em 12:24 (“Mediador da Nova Aliança”) e que Paulo usa quando explica a função da Lei na história (Gálatas 3:19–20) e quando confessa a unicidade do caminho: “um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, homem Cristo Jesus” (1 Timóteo 2:5). Terceiro: a diathḗkē — aliança — é “melhor”. Não é capricho de linguagem: Jeremias prometera uma Nova Aliança (Jeremias 31:31) que Hebreus 8:7–13 citará por inteiro; Jesus, na Ceia, ergueu o cálice e disse: “Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue” (Lucas 22:20). Roma lembrará que “as alianças” pertencem a Israel (Romanos 9:4), mas Gálatas 3:16–21 explicará como a promessa anterior — feita a Abraão e à sua Descendência (Cristo) — não foi anulada pela Lei; pelo contrário, a Lei serviu de aio até Cristo, para que a promessa fosse segundo a fé. Quarto: essa aliança “foi promulgada por lei” — nenomothétētai — expressão técnica: Deus não apenas a prometeu, a institucionalizou; ela é um arranjo jurídico divino (pense no Sinai, “as tábuas da aliança”, Deuteronômio 9:11; nos livros do pacto e nas renovações do pacto, 2 Reis 23; 2 Crônicas 34:31), agora renovado e elevado em Cristo (Atos 6:14 reconhece, até pela acusação, que houve “mudança” no edifício cultual). Quinto: tudo repousa sobre “promessas melhores”. Quais? As de 8:10–12: a lei escrita no coração, o conhecimento pessoal de Deus, o perdão pleno — promessas que se alinham com “as magníficas e preciosas promessas” pelas quais nos tornamos “coparticipantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4); que brotam do “Deus que não pode mentir” e que prometeu antes dos tempos eternos (Tito 1:2); que realizam a esperança de “bens melhores” preparada por Deus (Hebreus 11:40) e nos dão acesso confiante (Hebreus 7:19). Se, em Gálatas 3, a promessa é mais antiga que a Lei e não é revogada, aqui, em Hebreus 8, ela é também mais alta e mais íntima: o Espírito grava o que as tábuas apenas exibiam.
Assim, 8:3–6 encaixa cada peça: o Sacerdote tem o que oferecer — a si mesmo; o seu sacerdócio não é terreno nem levítico, pois lá já há quem ofereça segundo a lei; o que os levitas faziam era cópia e sombra de uma realidade celeste; e agora Ele obteve um ministério de qualidade superior, porque Ele é o Mediador de uma aliança que Deus promulgou sobre promessas melhores. E, se o nosso culto hoje é seguro, é porque a base jurídica (nenomothétētai, “foi estabelecida por Deus”), a base histórica (a Nova Aliança de Jeremias que Jesus selou no cálice) e a base pessoal (o Mediador vivo) convergem no mesmo lugar: o Santo verdadeiro onde Cristo serve por nós.
Hebreus 8:7 é um golpe de franqueza teológica: ei gar (“pois se”), hē prōtē (“a primeira [aliança]”), ekeínē (“aquela mesma”), ên ámemptos (“fosse irrepreensível/sem falta”), ouk an… tópos (“não teria… lugar”), deutéras ezētéito (“sido buscado [o] espaço para uma segunda”). O autor não acusa Deus de ter falhado; prepara o que dirá no versículo seguinte: a “falha” está em nós. O “primeiro” aqui é o arranjo mosaico, honrado e santo, mas incapaz de levar à teleíōsis (perfeição-consumação) que Hebreus exige (compare com Hebreus 7:11: “se a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico…”; e 7:18: “há, pois, ab-rogação do mandamento anterior por causa da fraqueza”). A própria carta já tinha posto a nova base: um Mediador de diathēkē kreíttōn (aliança melhor, Hebreus 8:6) e, adiante, dirá sem rodeios: “tira o primeiro para estabelecer o segundo” (Hebreus 10:9). Paulo faz o mesmo diagnóstico quando pergunta: “a Lei se opõe às promessas?” e responde que não; porém, “se tivesse sido dada uma lei capaz de vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei” (Gálatas 3:21). Em outras palavras, a primeira aliança era de Deus, era pedagógica, era gloriosa — mas não era o fim: não conseguiu produzir, em nós, o que prometia exigir. Por isso “buscou-se lugar para a segunda”: não um remendo, mas a própria consumação prometida desde o início. É nessa linha que Hebreus 9 chamará o antigo sistema de “primeiro” (Hebreus 9:1, 15, 18), preparando a grande troca de 10:9.
Então vem Hebreus 8:8, e o autor desloca a “culpa” do texto para o povo: memphómenos (“censurando/reprovando”), autoùs (“a eles”), légei (“diz”). A falta não está na Palavra de Deus; está no coração que não permaneceu na aliança (como o próprio oráculo dirá adiante). E qual é a resposta de Deus a um povo que falhou? Promessa. O autor põe na boca de Deus a citação de Jeremias 31: Idoú hēmérai érchontai (“Eis que vêm dias”), légei Kýrios (“diz o Senhor”), kai diathḗsomai (“e firmarei/contratarei”), tō oíkō Israḗl… tō oíkō Iouda (“com a casa de Israel e com a casa de Judá”), diathḗkēn kainḗn (“uma aliança nova”). O “Eis que vêm dias” liga Hebreus ao horizonte profético: dias de Renovo e justiça (Jeremias 23:5), dias de retorno e restauração (Jeremias 23:7; 30:3), dias em que Deus semeia de novo (Jeremias 31:27) e reconstrói (Jeremias 31:38). Hebreus quer que você perceba: o que Jeremias prometeu chegou — e o próprio Autor de Hebreus, mais adiante, repetirá os dois pontos centrais dessa citação: lei escrita no íntimo e perdão sem memória (Hebreus 10:16–17: didṓmi “darei”, nómon “lei”, diànoian “mente”, ou mē mnēsthō “de modo algum me lembrarei”). É por isso que, na Ceia, Jesus ergue o cálice e sela: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue” (Mateus 26:28; Marcos 14:24; Lucas 22:20; 1 Coríntios 11:25). Paulo também dirá que Deus o fez diákonos (ministro) de “kainḗ diathḗkē” (2 Coríntios 3:6), porque agora a aliança vive no Espírito e não na “letra” que só condena. E as promessas antigas se alinham como constelações a esta nova manhã: “berit ‘olam” — aliança eterna — em Isaías 55:3; Jeremias 32:40; Ezequiel 16:60–61; 37:26, todas convergindo para a mesma realidade que Hebreus proclama: Deus mesmo cura a raiz do problema, dando um coração que guarda o que antes só ouvia.
Assim, 8:7 expõe a necessidade da nova aliança (a primeira não levou o povo à meta), e 8:8 revela a graça da nova aliança (Deus repreende-nos e, ao mesmo tempo, promete: “Eu farei uma aliança nova”). O diagnóstico é severo, mas a terapia é divina: não um ajuste externo, e sim um novo pacto cujo sangue garante o que manda, e cujo Espírito escreve o que ordena. É essa passagem — de uma aliança boa, porém insuficiente para uma aliança melhor e eficaz — que amarra toda a teologia de Hebreus e nos convida a viver nos “dias que vêm” já chegados em Cristo.
O versículo 9 é o coração pulsante da citação de Jeremias que Hebreus expõe. Ele soa assim, e cada expressão acende um lampião. Quando Hebreus diz “não segundo a aliança”, ele aponta para o Sinai e seus desdobramentos. Foi ali que Deus celebrou a diathḗkē (aliança) histórica: Moisés leu “o livro da aliança”, o povo respondeu, e o sangue aspergido selou o pacto (Êxodo 24:3–11). Depois, o Senhor promete “farei uma aliança” e manda Moisés escrever de novo as palavras do pacto (Êxodo 34:10, 27–28). Deuteronômio volta e sublinha que o SENHOR “cortou” (fez) aliança em Horebe (Deuteronômio 5:2–3) e a renovou nas campinas de Moabe (Deuteronômio 29:1, 12). Hebreus 9:18–20 lembra o mesmo rito para dizer: até o primeiro arranjo foi inaugurado com sangue. Paulo, em Gálatas 3:15–19, observa que aliança não se revoga nem se acrescenta arbitrariamente; e, em Gálatas 4:24, lembra que os dois pactos correm como duas linhas pedagógicas na história. Tudo isso ajuda a ouvir a força de ou katà tḕn diathḗkēn: a Nova não é mera cópia melhorada daquela; é de outra ordem.
A imagem seguinte é terna e contundente: “no dia em que os tomei pela mão” — epilaboménou… tês cheirós (tradução: “segurando-lhes a mão”). É a linguagem do Deus-Pastor que pega o povo, como o anjo pegou pela mão Ló e sua família para tirá-los da destruição (Gênesis 19:16). É também o gesto que atravessa as Escrituras: Deus que “toma pela mão direita” do seu servo para dizer “não temas” (Isaías 41:13); a Jerusalém que, órfã e tonta, “não havia quem a tomasse pela mão” (Isaías 51:18), até que o Senhor mesmo a reergue; a noiva do Cântico que “vem do deserto apoiada no seu amado” (Cantares 8:5), figura da dependência do povo resgatado; o próprio Jesus, tomando o cego pela mão para conduzi-lo para fora da aldeia (Marcos 8:23), sinal vivo do Êxodo em miniatura; Saulo, cego, “levado pela mão” (Atos 9:8); o mágico Elimas, temporariamente cego, precisando de quem o “levasse pela mão” (Atos 13:11). O Êxodo inteiro é descrito nesses termos: “vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim” (Êxodo 19:4–5); “guiaste o teu povo como a um rebanho pela mão de Moisés e Arão” (Salmos 77:20); “fez sair o seu povo como ovelhas… conduziu-os seguros… introduziu-os nas fronteiras do seu santo termo” (Salmos 78:52–54; cf. Salmos 105:43; 136:11–14); “apascentará o seu rebanho… tomará os cordeirinhos nos braços” (Isaías 40:11); “no seu amor e na sua compaixão os remiu, os tomou e os conduziu todos os dias” (Isaías 63:9; e 63:11–13 relembra Moisés, o mar, o Espírito guiando). Quando Hebreus fala em “tomar pela mão”, lê todo esse acervo: a aliança antiga foi um Êxodo com a mão de Deus estendida.
Mas a citação vira com dor: “porque eles não permaneceram na minha aliança” — ouk enemeínan (tradução: “não permaneceram, não continuaram”). Esta é a crônica amarga do Antigo Testamento. Ainda ao pé do Sinai, “depressa se desviaram” e fizeram o bezerro (Êxodo 32:8). Moisés profetiza que, após sua morte, o povo prostituir-se-á e Deus esconderá o rosto (Deuteronômio 31:16–18), e que a calamidade virá “porque deixaram a aliança” (Deuteronômio 29:25). Josué avisa que sobrevirão todas as ameaças “se violardes a aliança” (Josué 23:15–16). A história do Reino do Norte conclui: “rejeitaram os seus estatutos… seguiram a vaidade e tornaram-se vãos… até que o Senhor removeu Israel de diante da sua face” (2 Reis 17:15–18). Os Salmos confessam: “não guardaram a aliança de Deus… esqueceram as suas obras… tornaram-se infiéis como seus pais” (Salmos 78:10–11, 57). Isaías resume como diagnóstico cósmico: “quebraram as alianças eternas… por isso a maldição devora a terra” (Isaías 24:5–6). Jeremias repete: “desde o dia em que os tirei da terra do Egito… não ouviram nem inclinaram o ouvido” (Jeremias 11:7–8), tanto que as nações perguntam: “por que o Senhor fez assim?” e a resposta vem: “porque deixaram a aliança” (Jeremias 22:8–9). A própria frase de Hebreus 8:9 está em Jeremias 31:32: “eles invalidaram a minha aliança, embora eu fosse o seu Senhor”. Ezequiel também reconta: Deus “te passou a jurar e entraste em aliança” (Ezequiel 16:8), mas tu “desprezaste o juramento, quebrando a aliança” (Ezequiel 16:59); e no capítulo 20, Deus “vos farei passar debaixo da vara… separarei os rebeldes” (Ezequiel 20:37–38). Tudo isso dá o peso de ouk enemeínan: o problema não era a aliança; o problema éramos nós, incapazes de permanecer.
Daqui nasce a sentença divina: “e eu os desconsiderei” — kagṓ ēmélēsa autṓn (tradução: “eu deixei de me importar, retirei o meu favor”). Não é capricho; é a pedagogia severa do amor justo. Quando Israel diz “a ti nos temos refugiado” mas corre aos ídolos, Deus responde: “vós me deixastes… ide e clamai aos deuses” (Juízes 10:13–14). Em Lamentações 4:16, “o rosto do Senhor os dispersou; ele não mais os atende”; em Amós 5:22, “ainda que me ofereçais holocaustos, não me agradarei”; em Malaquias 2:13, “ele já não olha para a oferta, nem a aceita com prazer”. É o reverso doloroso das promessas de Levítico 26:9 (“olharei para vós e vos multiplicarei”): quando a aliança é desprezada (Levítico 26:15) e Deus é trocado por outros deuses (Deuteronômio 17:2), o pacto cobra a fatura. Profetas e salmistas testemunham o mesmo: “abandonaram a tua aliança” (1 Reis 19:14); “ao ímpio, diz Deus: que fazes tu recitando as minhas leis, visto que aborreces a correção e lanças as minhas palavras para trás?” (Salmos 50:16–17). Jeremias 11:10 chega ao veredito: “quebraram a minha aliança… voltaram às maldades de seus pais”. Ezequiel 44:7 descreve o ultraje cúltico como quebra de pacto; Oséias 6:7 diz: “eles transgrediram a aliança” como Adão. O que Hebreus condensa em ēmélēsa é o que os profetas narram: um afastamento judicial de Deus que visa curar a idolatria pela fome do favor perdido — até que a Nova Aliança repare a raiz.
Mas note como o fio da graça fica teso: o mesmo Deus que “pegou pela mão” para tirar do Egito é quem, ao ver que “não permaneceram”, promete uma aliança que faça permanecer. É isso que Hebreus prepara desde o versículo anterior e levará adiante: a Nova Aliança não copia a antiga “por fora”; ela cura por dentro. A antiga era legítima, selada com sangue (Hebreus 9:18–20), mas, como Paulo explica, “foi acrescentada por causa das transgressões até que viesse a Descendência” (Gálatas 3:19). Em termos de Jeremias, Deus dirá: “porei a minha lei no interior… escreverei no coração” e “de seus pecados jamais me lembrarei” — e Hebreus repete esse refrão em 10:16–17 para que ninguém confunda: é a mesma mão que outrora tomou Israel para fora do Egito que agora escreve na consciência e apaga a culpa. Por isso a velha acusação — “não permaneceram” — encontra a resposta exata: uma obra do Espírito que faz permanecer. E o velho veredito — “eu os desconsiderei” — é engolido pela promessa: “serei o seu Deus e eles serão o meu povo”.
Se você juntar cada uma das peças citadas, verá o quadro inteiro. Êxodo, Deuteronômio e Hebreus 9 mostram o que era a primeira aliança e como foi selada; Gênesis 19, Isaías 41 e 63, Salmos 77 e 78, e Marcos 8 desenham a mão de Deus conduzindo; Êxodo 32, Deuteronômio 29 e 31, Josué 23, 2 Reis 17, Salmos 78, Isaías 24, Jeremias 11, 22 e 31, Ezequiel 16 e 20 confessam como não permanecemos; Juízes 10, Lamentações 4, Amós 5 e Malaquias 2 explicam o que significa Deus não considerar por um tempo. Tudo converge no “não segundo” de Hebreus 8:9: a Nova Aliança não repete o Sinai; ela redime o coração que falhou no Sinai. E é exatamente isso que torna o evangelho tão melhor: a mão que nos tirou do Egito agora nos sustém por dentro, para que a aliança permaneça — não porque somos fortes, mas porque o próprio Mediador escreve a fidelidade onde antes só havia mandamento.
Chegamos ao centro luminoso da Nova Aliança. O texto de Hebreus 8:10, em transliteração com tradução, diz: “Porque esta é a aliança que firmarei (diathḗsomai) com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: darei (didoús, ‘colocarei/doarei’) as minhas leis (toùs nómos mou) na mente (eis tḕn diánoian) deles e sobre (epi) os seus corações (kardías) as escreverei (epigrápsō); e serei (ésomai) para eles Deus, e eles serão (ésontai) para mim povo (laós).” Cada membro da frase é um eixo, e cada eixo conversa com a Escritura inteira.
Quando Deus promete “darei as minhas leis na mente e as escreverei sobre o coração”, Ele contrasta a doação interior com a inscrição exterior do Sinai. Em Êxodo 24:4 e 24:7, Moisés escreve todas as palavras do Senhor e lê o “livro da aliança” ao povo; em Êxodo 34:1 e 34:27, tábuas de pedra são escritas por Deus e Moisés é ordenado a escrever as palavras do pacto. A antiga aliança é, por assim dizer, fora de nós — letra diante de olhos, pedra diante de mãos. Hebreus 8:10 diz que, agora, o que antes estava diante será colocado dentro: “darei na mente… e sobre os corações escreverei”. A Torá já prenunciara esse milagre interior: “O Senhor circuncidará o teu coração” (Deuteronômio 30:6), para que possas amar e viver; Jeremias explicitou: “porei a minha lei no interior e a escreverei no coração” (Jeremias 31:33) e “porei o meu temor no seu coração, para que não se apartem de mim” (Jeremias 32:40). Ezequiel desenha o mesmo movimento com duas imagens gêmeas: “dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo… tirarei o coração de pedra… porei o meu Espírito dentro de vós e farei que andeis nos meus estatutos” (Ezequiel 11:19; 36:26–27). Hebreus, ao citar “didoús” e “epigrápsō”, afirma que chegou o tempo em que o que era exigência tornou-se também dádiva: o Deus que manda amar é o mesmo que circuncida o coração para amar.
Paulo enxerga a mesma virada e a coloca em linguagem ministerial. Aos Coríntios, ele lembra que os discípulos são “carta de Cristo… escrita (engegramméne, gesto afim de epigrápsō) não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne do coração” (2 Coríntios 3:3). Ele chama o regime antigo de “ministério da morte, gravado com letras em pedras” (2 Coríntios 3:7) e contrapõe-lhe o “ministério do Espírito”, de glória superior (2 Coríntios 3:8). Hebreus 8:10 está, portanto, dizendo o mesmo com outras cores: a Lei não perdeu a santidade; mudou de suporte e ganhou poder — de pedra para coração, da letra que condena para o Espírito que vivifica. É por isso que Tiago pode falar de uma “palavra implantada (emphytón, plantada dentro) que pode salvar a vossa alma” (Tiago 1:21) e, antes, confessar que fomos “gerados pela palavra da verdade” (Tiago 1:18); e Pedro explica que fomos “regenerados… pela palavra viva e permanente de Deus” (1 Pedro 1:23). A linguagem de Hebreus — didoús… epigrápsō — encontra aqui a sua obra: Deus dá e escreve por dentro, gerando vida e habilitando obediência.
O mesmo versículo move-se, então, da lei no íntimo para a fórmula do pacto: “serei para eles Deus, e eles serão para mim povo.” Trata-se do juramento que percorre a Bíblia como um refrão nupcial. Ele nasceu, em forma seminal, na aliança com Abraão: “Estabelecerei a minha aliança… para ser o teu Deus e da tua descendência” (Gênesis 17:7) e “serei o seu Deus” ao dar a terra (Gênesis 17:8). Os profetas o ampliam: “Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (Jeremias 31:33 outra vez; Jeremias 32:38), e Ezequiel repete: “para que andem nos meus estatutos… eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus” (Ezequiel 11:20; 36:28; 37:27); até a história nacional é lida sob esse sinal: “daquele dia em diante a casa de Israel saberá que eu sou o Senhor, seu Deus” (Ezequiel 39:22). O evangelho puxa esse fio para a nova família: “no lugar onde se lhes disse: vós não sois meu povo, aí serão chamados filhos do Deus vivo” (Oséias 1:10), e “direi aos que não eram meu povo: tu és meu povo” (Oséias 2:23); Paulo toma esses textos para explicar a inclusão dos gentios (Romanos 9:25–26), e Pedro os põe na boca da igreja: “vós que antes não éreis povo, agora sois povo de Deus” (1 Pedro 2:9–10, implícito em 2:9). Zacarias, olhando à frente, ouve Deus dizer: “eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus em verdade e justiça” (Zacarias 8:8) e: “direi: é o meu povo; e ele dirá: o Senhor é o meu Deus” (Zacarias 13:9). Hebreus 8:10 é, portanto, o cumprimento do “eu serei… eles serão” (ésomai… ésontai) — a forma verbal grega intensifica a certeza: será assim porque Deus mesmo faz o coração assim.
Não é à toa que Hebreus 10:16–17 retoma ipsis litteris essa promessa para ancorar a nossa confiança: “esta é a aliança… darei as minhas leis… escreverei… dos seus pecados jamais me lembrarei.” A casa que Abraão ansiou, “uma pátria melhor, isto é, celestial” — razão pela qual “Deus se chama Deus deles” (Hebreus 11:16) — é a mesma casa agora habitada pela comunidade que vive sob o “eu serei o seu Deus”. Jesus mesmo, ao discutir com os saduceus, apela à fórmula: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó” (Mateus 22:32), isto é, o Deus vivo, presente, de aliança — e em 1 Coríntios 6:16 Paulo aplica Levítico 26:12 à igreja: “habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.” A linguagem do Cântico — “o meu amado é meu, e eu sou dele” (Cantares 2:16) — torna-se metáfora da intimidade pactual que Hebreus descreve: há pertença mútua, não apenas regra a cumprir.
Resta amarrar a identidade do povo: “eles serão o meu povo” não é rótulo vazio; é vocação santa. Desde o Sinai, a vontade de Deus foi: “se obedecerdes, sereis minha propriedade peculiar… um reino de sacerdotes e nação santa” (Êxodo 19:5–6). A Nova Aliança realiza essa vocação por meio da obra do Filho: Ele “se deu por nós, para nos remir de toda iniquidade e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tito 2:14). Por isso Pedro pode dizer: “vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (1 Pedro 2:9). E quando Paulo cita Oséias (Romanos 9:25–26), ele indica que o “meu povo” agora inclui os de longe — exatamente o que a promessa a Abraão insinuava desde o início. Em outras palavras, “laós” em Hebreus 8:10 é o mesmo “povo” que Apocalipse ouvirá: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens; ele habitará com eles; eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles” (Apocalipse 21:3, eco direto do nosso versículo).
Se você juntar as linhas, o desenho se impõe. A parte “darei/escreverei” de Hebreus 8:10 dialoga com o êxodo da pedra (Êxodo 24 e 34) e com a cirurgia do coração (Deuteronômio 30:6; Jeremias 31:33; 32:40; Ezequiel 11:19; 36:26–27), é reinterpretada por Paulo como escrita do Espírito (2 Coríntios 3:3, 7–8) e ganha sotaque de novo nascimento (Tiago 1:18, 21; 1 Pedro 1:23). A parte “eu serei/eles serão” amarra Abraão (Gênesis 17:7–8) aos profetas (Jeremias 24:7; 31:1, 33; 32:38; Ezequiel 11:20; 36:28; 37:27; 39:22; Oséias 1:10; 2:23; Zacarias 8:8; 13:9), passa pela confirmação de Jesus (Mateus 22:32) e deságua na eclesiologia apostólica (1 Coríntios 6:16; 1 Pedro 2:9; Tito 2:14). E, por trás de tudo, permanece a lógica da graça: aquilo que antes nos era pedido, agora nos é dado; o Deus que exigia amor derrama amor; o Deus que escreveu em pedra inscreve em carne. É por isso que, quando Hebreus 8:10 ressoa no seu coração, você não ouve só mandamentos — você ouve núpcias: “Eu me darei a ti por dentro; eu serei teu Deus; tu serás meu povo.”
O oráculo avança: “e não ensinarão cada qual o seu concidadão e cada qual o seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, do menor ao maior deles”. A promessa não abole o dom do ensino na igreja; ela promete um ponto de partida comum que o antigo pacto não dava: a experiência imediata de Deus, plantada por Ele. Por isso, quando Isaías anuncia: “virão muitos povos… Ele nos ensinará os seus caminhos” (Isaías 2:3), vê-se a direção da história; mas, em Isaías 54:13, a visão se estreita e aprofunda: “todos os teus filhos serão didaktoi Theou (ensinados por Deus)”. Jesus cita isso explicitamente: “está escrito nos profetas: kai esontai pantes didaktoi Theou — ‘e todos serão ensinados por Deus’” (João 6:45), pondo a promessa no centro da fé nele. Hebreus 8:11 pega esse fio: a Nova Aliança não depende de um empurrão externo; ela começa com Deus agindo dentro, de modo que o “conhece ao Senhor” deixe de ser um convite de fora para tornar-se uma consciência de dentro.
É por isso que, na economia antiga, multiplicavam-se mestres e chamados à instrução — necessários, santos, mas insuficientes para mudar o coração. Os colonos de Samaria precisaram que lhes ensinassem “o modo de servir ao Senhor” (2 Reis 17:27–28). Davi exorta Salomão: “conhece o Deus de teu pai” (1 Crônicas 28:9). Ezequias sustenta os levitas “que ensinavam a boa ciência do Senhor” (2 Crônicas 30:22). Esdras foi autorizado a ensinar “a todos os que não sabem” (Esdras 7:25). A lista poderia continuar — e continua no próprio Jeremias 31:34, citado aqui. Mas a Nova Aliança promete aquilo que a antiga sinalizava sem produzir: “dar-vos-ei coração para que me conheçam” (Jeremias 24:7); “saberão que eu, o Senhor seu Deus, estou com eles” (Ezequiel 34:30). Até a geografia entra nessa esperança: “a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor” (Habacuque 2:14). E João completa, já no evangelho: “o Filho de Deus veio e nos deu entendimento (dedōken dianoian) para conhecermos o Verdadeiro” (1 João 5:20, transliteração e tradução). É esse solo comum — o conhecimento de Deus concedido — que faz de 8:11 uma notícia tão nova quanto necessária.
Repare ainda na frase “do menor ao maior”. Jeremias usara a mesma baliza para descrever o pecado que atravessara a nação: “do menor ao maior, todos se dão à ganância” (Jeremias 6:13). Em dias sombrios, todos — “homens, mulheres e crianças”, “príncipes e do menor ao maior” (Jeremias 42:1; 42:8; 44:12) — podiam estar alinhados… contra o Senhor. Até em Atos 8:10 se lê o efeito de engano “do menor ao maior” ante a magia de Simão. Pois a Nova Aliança inverte a maré: aquilo que antes corria de alto a baixo como ignorância e idolatria passa a espraiar-se como conhecimento de Deus. É por isso que a promessa conjuga universalidade com intimidade: não mais “emprestado” do vizinho, mas aprendido de Deus. O Novo Testamento explicará isso, pastoralmente, de duas maneiras complementares. Por um lado, Jesus define a vida eterna como conhecer ao Pai e ao Filho (João 17:3) e lamenta: “o mundo não te conheceu” — mas “eu os dei a conhecer” (João 17:25), realizando Hebreus 8:11. Por outro, os apóstolos falam de um magistério do Espírito dentro do povo: “vós tendes uma unção do Santo… e todos sabeis” (1 João 2:20), e mais: “to chrisma (a unção) que recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas como a sua unção vos ensina (to chrisma… didáskei) acerca de todas as coisas” (1 João 2:27). Paulo dirá algo semelhante aos Tessalonicenses: “theodidaktoi — ensinados por Deus — a amar-vos uns aos outros” (1 Tessalonicenses 4:9). O resultado não é anarquia sem mestres (o próprio Novo Testamento estabelece mestres!), mas um povo alfabetizado por Deus: quando alguém ensina, confirma o que o Espírito já gravou; quando alguém aprende, reconhece a voz que o chamou por dentro. Por isso, ecos afins ressoam: “o meu povo saberá o meu nome” (Isaías 52:6); “continua a tua benignidade aos que te conhecem” (Salmos 36:10); “concede-me (dá-me) a tua lei” (Salmos 119:29); “não tendes necessidade de que alguém vos escreva sobre o amor fraternal” (1 Tessalonicenses 4:9 de novo), porque aquele Paideutēs (“educador”) que é a graça (Tito 2:12) trabalha no íntimo.
E por que tudo isso é possível? O versículo 12 responde com a chave do cofre: “pois serei propício (hileōs esomai) às suas iniquidades, e dos seus pecados de modo algum me lembrarei (ou mē mnēsthēsomai) jamais (eti)”. A ordem das frases é teologicamente perfeita: conhecimento de Deus universal porque há perdão real. Onde a culpa permanece, o coração foge; onde a culpa é removida, o coração se aproxima e conhece. A palavra hileōs (propício, favorável), que na Bíblia grega se liga ao universo de expiação, acena para a obra do nosso hilasmós (propiciação): “Ele é o hilasmós pelos nossos pecados” (1 João 2:2, transliteração e tradução). Hebreus voltará a repetir, como selo: “esta é a aliança… dos seus pecados e de suas iniquidades jamais me lembrarei” (Hebreus 10:16–17).
Todos os fios citados nas Escrituras convergem aqui. Davi ora: “dos pecados da minha mocidade não te lembres” (Salmos 25:7) e confessa: “quando as nossas transgressões prevalecem, tu as expias” (Salmos 65:3). Deus responde por Isaías: “Eu, eu mesmo, sou o que apago (exaleíphō, ‘deleto’) as tuas transgressões e não me lembrarei dos teus pecados” (Isaías 43:25, transliteração e tradução); “dissipei as tuas transgressões como a névoa” (Isaías 44:22). Jeremias promete: “purificá-los-ei de toda a sua iniquidade” (Jeremias 33:8) e, num voo poético, assegura: “naqueles dias… se buscará a iniquidade de Israel e não haverá” (Jeremias 50:20). Miquéias canta: “lançarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar” (Miqueias 7:19). Os apóstolos lêem tudo isso à luz do sangue: “por este se vos anuncia a remissão (áphesis) dos pecados; e de tudo do que pela Lei de Moisés não pudestes ser justificados, nele é justificado todo o que crê” (Atos 13:38–39). Paulo resume: “Nele temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão (áphesis) dos pecados” (Efésios 1:7; Colossenses 1:14); e, contemplando o futuro de Israel, cita o próprio pacto: “este é o meu pacto com eles, quando eu tirar os seus pecados” (Romanos 11:27). João, pastoral, desce ao cotidiano: “o sangue de Jesus… nos purifica de todo pecado… se confessarmos, ele é fiel e justo para perdoar… e purificar” (1 João 1:7–9); “temos Advogado… e hilasmós (propiciação) pelos nossos pecados” (1 João 2:1–2). E o Apocalipse põe música nisso: “Àquele que nos ama e nos lavou (lousanti) de nossos pecados no seu sangue” (Apocalipse 1:5).
Quando Hebreus 8:11–12 desce ao seu coração, duas certezas se casam. Primeiro: conhecimento de Deus, de baixo a cima, não como erudição, mas como relação — obra do Espírito que ensina por dentro; de modo que até as relações horizontais (“o próximo”, “o irmão”) deixam de ser muletas e viram confirmadores da voz que o Pai já fez ouvir. Segundo: esse conhecimento repousa sobre um perdão irrevogável: Deus apaga, lança ao mar, não se lembra mais — não por amnésia, mas porque a culpa foi tratada no Sacerdote que ofereceu a si mesmo. Junte as duas coisas e você terá o retrato da Nova Aliança: um povo lavado e, por isso, ensinado; um Deus propício e, por isso, conhecido. A antiga pedagogia dizia “Conhece ao Senhor”; a nova realidade diz “Todos me conhecem, porque Eu mesmo lhes abri o coração e fechei o meu livro de dívidas”.
Índice: Hebreus 1 Hebreus 2 Hebreus 3 Hebreus 4 Hebreus 5 Hebreus 6 Hebreus 7 Hebreus 8 Hebreus 9 Hebreus 10 Hebreus 11 Hebreus 12 Hebreus 13
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