Voz, Som — Enciclopédia da Bíblia Online

Há temas bíblicos que se deixam ver com os olhos, e há outros que se anunciam primeiro pelo ouvido (Ver OUVIDO); “voz/som” pertence a esse segundo reino, onde o sentido chega como vibração antes de virar conceito. Já no princípio do drama humano, a cena do jardim não começa com um argumento, mas com um rumor: em Gênesis 3:8, o encontro com Deus é narrado como algo que se percebe, que irrompe na percepção e desloca a consciência, como se a realidade moral tivesse um timbre próprio. O texto, sem precisar filosofar, sugere que a culpa não nasce apenas de uma lei escrita, mas também de uma presença ouvida, um “som” que atravessa o esconderijo e obriga a mente a se reconhecer diante de quem chama.

Esse fio sonoro cresce e ganha espessura poética quando a Escritura põe “voz” na borda entre criação e revelação: em Salmos 29:3–4, a “voz” do Senhor não é tratada como mera fala, mas como força que ressoa sobre as águas, como autoridade que se comunica em grandeza, não por explicação, mas por impacto. A linguagem do salmo faz o som funcionar como metáfora do domínio: aquilo que governa não precisa se provar; basta soar. Aqui, “voz” é quase um modo de dizer “majestade” em forma auditiva, um gesto de Deus que se percebe como potência, como tremor controlado, como ordem que não perde a ternura, mas também não perde o peso.

No Novo Testamento, o tema não se reduz à acústica de eventos extraordinários, porque a própria experiência espiritual é descrita com a gramática do som. João 3:8 coloca o vento como paradigma do agir do Espírito: não se vê a origem nem o destino, mas se ouve o seu som, e essa audição basta para afirmar que há ação real, ainda que invisível. A passagem não exige que o leitor transforme o Espírito em “força impessoal”, mas usa o som como ponte pedagógica: o que é invisível pode ser reconhecido pelo efeito, e o efeito, aqui, é auditivo; a fé, portanto, não é somente uma visão do que não se vê, mas também uma escuta do que não se controla.

A “voz/som” aparece como moldura de revelação e missão em Apocalipse 1:10, onde a experiência profética é marcada por uma voz “como de trombeta”: não um sussurro decorativo, mas um chamado que corta a normalidade, convoca e estabelece direção. A trombeta, no imaginário bíblico, tem algo de litúrgico e de bélico, de assembleia e de alarme; ao escolher esse timbre, o texto sugere que a revelação não é mero consolo privado, mas comunicação pública do céu para a história, com urgência e autoridade. Assim, do jardim ao culto, do vento ao Apocalipse, a Escritura desenha uma teologia do ouvido: Deus não apenas aparece, Deus também soa; e quando soa, o mundo interior se rearranja, porque a voz, na Bíblia, não é só informação → é presença em movimento.

Significado de VOZ/SOM na Bíblia
“Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor,
e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta”
(Apocalipse 1:10 ACF)

I. As palavras por trás da palavra: o campo semântico de qōl (“voz/som”) e phōnē (“voz/som”)

O ponto de partida lexical exige encarar “voz” como um guarda-chuva semântico, e não como um sinônimo automático de fala humana. Em hebraico, o substantivo “קֹל” (qōl — “voz/som”) aparece no eixo entre acústica física e notícia social: em Gênesis 45:16, a frase “וְהַקֹּל נִשְׁמַע בֵּית פַּרְעֹה” (wəhakkōl nishmaʿ bêt parʿōh — “e o som/rumor foi ouvido na casa de Faraó”) descreve a chegada dos irmãos de José como algo que “se espalha” auditivamente, quase como um eco de informação antes de virar despacho oficial; a “voz” aqui é rumor, repercussão, circulação pública de um fato, e não discurso articulado, o que impede leituras estreitas que reduzam qōl a “fala” no sentido moderno.

No Sinai, a mesma palavra se amplia e se multiplica: em Êxodo 20:18, “אֶת־הַקֹּלֹת” (ʾet-hakkōlōt — “as vozes/os sons”) aparece dentro de uma cena em que o povo “vê” o que é, por natureza, auditivo, e isso revela a elasticidade do termo: “vozes” podem ser entendidas como estrondos, trovões, estampidos, ou o conjunto de fenômenos sonoros que acompanham a teofania, sem que o hebraico se preocupe em criar um vocábulo técnico exclusivo para “trovão”. A pluralização (qōlōt) cria um campo de leitura em que “voz” pode ser o modo narrativo de dizer “som de poder”, o som que não apenas informa, mas impõe presença.

Em Salmos 19:3, a poesia leva qōl ao limite do paradoxo: “בְּלִי נִשְׁמָע קוֹלָם” (bəlî nishmāʿ qōlām — “sem ser ouvida a voz deles”) combina negação e universalidade num mesmo gesto, porque o salmo descreve uma comunicação que não se apoia em linguagem humana e, mesmo assim, “fala” ao mundo; qōl aqui funciona como metáfora do alcance, o “som” da criação que testemunha sem precisar de dicção. O hebraico mostra, com essa construção, que “voz” pode significar tanto vibração audível quanto “presença comunicativa” que se espalha além da boca.

No Novo Testamento, “φωνή” (phōnē — “voz/som”) preserva a mesma amplitude e a explicita com exemplos que não têm nada de garganta humana. Em 1 Coríntios 14:7, Paulo chama instrumentos de “coisas sem vida” e ainda assim diz que eles “dão” voz: “τὰ ἄψυχα φωνὴν διδόντα” (ta apsycha phōnēn didonta — “as coisas sem vida dando som/voz”), deixando claro que phōnē pode ser “som produzido” e não apenas “fala”; e em 1 Coríntios 14:10, “γένη φωνῶν” (genē phōnōn — “tipos de vozes/sons”) abre espaço para a ideia de variedade sonora que pode incluir linguagens e sinais, como se “voz” fosse um gênero amplo cujo critério é ser reconhecível, distinto, portador de diferença.

Esse mesmo vocábulo é usado pelo Apocalipse para desenhar uma cidade que será reduzida ao silêncio: “φωνὴ κιθαρῳδῶν … καὶ φωνὴ μύλου” (phōnē kitharōdōn … kai phōnē mylou — “som de harpistas… e som de moinho”) em Apocalipse 18:22, e “φωνὴ νυμφίου καὶ νύμφης” (phōnē nymphiou kai nymphēs — “voz do noivo e da noiva”) em 18:23, mostram que phōnē cobre música, trabalho, festa, cotidiano inteiro; a “voz” passa a ser o índice sensorial de vida civil, e sua retirada funciona como julgamento em forma de acústica. Nesse quadro, Mateus 24:31 ajuda a ver como o grego pode colar “voz” a instrumentos: algumas tradições textuais trazem “μετὰ σάλπιγγος φωνῆς μεγάλης” (meta salpingos phōnēs megalēs — “com trombeta de grande som/voz”), enquanto outras formas do texto omitem phōnēs e conservam apenas a “grande trombeta”, o que, na prática, confirma como phōnē opera naturalmente como “som” qualificando o instrumento.

II. Voz como som do mundo criado: águas, tempestades, trovões e o “peso” do universo

No livro de Jó, o estrondo do mundo criado não é ruído neutro, mas linguagem de peso: o texto manda ouvir “שִׁמְעוּ שָׁמוֹעַ בְּרֹגֶז קֹלוֹ” (shimʿû šāmōaʿ bərogez qōlô — “Ouçam atentamente, no estrondo da sua voz”), e logo faz o trovão correr pelos céus, “וְהֶגֶה מִפִּיו יֵצֵא” (wəhegeh mippîw yēṣēʾ — “e o ressoar sai da sua boca”). Aqui qōl (“voz/som”) não é só fala, mas “voz” como impacto acústico que atravessa espaço e consciência: o movimento verbal não descreve uma ideia abstrata, mas uma propagação — o som se desloca “até os confins”, e a criação vira sala de audição, onde o temor nasce não do invisível, mas do audível que domina.

Ezequiel amplia esse mesmo vocabulário de maneira quase cinematográfica: o profeta encosta o ouvido no sobrenatural por meio de comparações de som, dizendo que as asas dos seres viventes eram “כְּקוֹל מַיִם רַבִּים” (qōl mayim rabbîm — “como o som de muitas águas”), e ainda “כְּקוֹל שַׁדַּי” (qōl šadday — “como o som do Todo-Poderoso”), até chegar ao ponto em que o ruído das asas e o ruído do exército se tornam uma mesma gramática do tremor. A imagem é decisiva para esta seção: a majestade não é pintada com cor, mas com volume; a presença é medida por intensidade sonora, como se o universo tivesse um “peso” que se manifesta primeiro no ouvido, antes de se impor ao olhar.

Nos Salmos, a água ganha garganta e aprende a falar em metáfora: “נָשְׂאוּ נְהָרוֹת יְהוָה נָשְׂאוּ נְהָרוֹת קוֹלָם” (nāśəʾû nəharōt YHWH nāśəʾû nəharōt qōlām — “levantam os rios, ó SENHOR, levantam os rios a sua voz”), e a progressão prossegue até a “voz” virar rugido repetido, como ondas que voltam e voltam. Logo em seguida, a comparação se inverte: acima dos estrondos do mar, “אַדִּיר בַּמָּרוֹם יְהוָה” (ʾaddîr bammārōm YHWH — “poderoso nas alturas é o SENHOR”): o som natural é grande, mas é rebaixado por um som maior, que não precisa competir em decibéis para ser soberano. A mesma linha reaparece no Salmo 68, quando Deus “dá” sua voz como força: “הֵן יִתֵּן בְּקוֹלוֹ קוֹל עֹז” (hēn yittēn bəqōlô qōl ʿōz — “eis que ele dá, com sua voz, uma voz de força”); a criação ruge, mas o texto insiste que há um timbre que reina sobre todos os timbres.

Habacuque, por sua vez, leva esse teatro acústico ao subterrâneo: diante de Deus, “נָתַן תְּהוֹם קוֹלוֹ” (nātan təhōm qōlô — “o abismo deu a sua voz”), e o verso coloca na boca do profundo um bramido que não é mero efeito de chuva, mas resposta cósmica a uma teofania. De novo qōl (“voz/som”) não funciona como fala articulada, e sim como o sinal audível de uma ordem sendo reconfigurada: montanhas tremem, águas passam, e o “abismo” entra na liturgia do temor com um som que parece nascer do próprio fundamento do mundo.

No Apocalipse, a mesma matéria sonora do mundo criado é transposta para descrever a glória do Cristo e o culto do céu; não se abandona a linguagem da água e do trovão, apenas se muda o palco. Em Apocalipse 1:15, a descrição concentra-se numa fórmula: “ἡ φωνὴ αὐτοῦ ὡς φωνὴ ὑδάτων πολλῶν” (hē phōnē autou hōs phōnē hydatōn pollōn — “a sua voz era como a voz de muitas águas”); aqui phōnē (“voz/som”) carrega o mesmo duplo valor que qōl: pode ser voz pessoal e pode ser som avassalador, e o texto joga justamente com essa ambivalência para dizer que não é apenas “o que” ele diz, mas “como” ele soa. Em Apocalipse 14:2, o ouvido do vidente capta “φωνὴν ἐκ τοῦ οὐρανοῦ… ὡς φωνὴν ὑδάτων πολλῶν… ὡς φωνὴν βροντῆς μεγάλης” (phōnēn ek tou ouranou… hōs phōnēn hydatōn pollōn… hōs phōnēn brontēs megalēs — “uma voz do céu… como voz de muitas águas… como voz de grande trovão”), e a sequência ainda acrescenta o timbre musical de harpas, como se o som natural (águas e trovão) fosse a matéria-prima, e o som litúrgico (harpas) fosse a forma final. Por fim, Apocalipse 19:6 amarra tudo num coro: “ὡς φωνὴν ὄχλου πολλοῦ… ὡς φωνὴν ὑδάτων πολλῶν… ὡς φωνὴν βροντῶν ἰσχυρῶν” (hōs phōnēn ochlou pollou… hōs phōnēn hydatōn pollōn… hōs phōnēn brontōn ischyrōn — “como voz de grande multidão… como voz de muitas águas… como voz de trovões poderosos”), mostrando que, no último horizonte da Escritura, a criação inteira empresta seus sons mais fortes para dizer a majestade que nenhuma metáfora consegue conter.

III. Voz como som do culto: instrumentos, trombetas, celebração e convocação

O som que congrega o povo, no imaginário bíblico, não é ruído neutro: é sinal público, quase uma “assinatura” audível de autoridade e de assembleia. Em 2 Samuel 15:10, o anúncio de um novo centro de lealdade se amarra a um gatilho acústico explícito: “כְּשָׁמְעֲכֶם אֶת־קוֹל הַשֹּׁפָר” (kəšomʿăkhem ʾet-qōl haššōp̄ār — “ao ouvirdes o som do shofar”), onde qōl (“som/voz”) deixa de ser fala e passa a nomear um acontecimento sonoro coletivo, e šōp̄ār (“shofar”) funciona como instrumento de convocação e de proclamação, como se a cidade fosse “chamada pelo ouvido” antes de ser movida pelos pés. Essa gramática do culto e da comunidade ajuda a compreender por que a trombeta aparece com naturalidade tanto em cenas de mobilização quanto em cenas de ajuntamento solene: o som não apenas acompanha a reunião; ele a cria, como um decreto que viaja pelo ar e obriga o disperso a se tornar assembleia.

Quando esse mesmo imaginário é transposto para a celebração, a liturgia se apresenta como uma arquitetura de sons em que instrumentos e vozes se unem para produzir unidade perceptível. 2 Crônicas 5:13 descreve precisamente essa convergência como “um só som/uma só voz”, e o detalhe não é decorativo: a ideia é que a congregação, ao louvar, não oferece ao sagrado um caos de timbres concorrentes, mas uma concordância audível, como se o templo inteiro respirasse no mesmo compasso. Nesse horizonte, “voz” não se limita ao aparelho fonador; ela se torna a manifestação comunitária de um coração comum, e o culto aparece como disciplina do som: o que é interno se organiza externamente, e a adoração se torna “audível” na medida em que se torna comum.

Nos Salmos, a convocação sonora é abertamente entronizatória: ela chama o povo a celebrar Deus como rei, e o faz por meio de instrumentos que, por natureza, são sinais de praça e de procissão. Em Salmos 98:6, a expressão “בַּ֭חֲצֹ֣צְרֹות וְקֹ֣ול שֹׁופָ֑ר” (baḥăṣōṣərōt wə-qōl šōp̄ār — “com trombetas e com o som do shofar”) põe lado a lado ḥăṣōṣərōt (“trombetas”) e qōl (“som/voz”), de modo que a alegria litúrgica não é apresentada como sentimento silencioso, mas como manifestação pública e sonora diante do “Rei”. O culto, aqui, parece uma espécie de “proclamação cantada”: a acústica é teológica, porque a realeza de Deus não fica confinada ao interior; ela exige exterioridade, exige som, exige o ouvido do povo reunido.

Essa mesma teologia do ouvido aparece no registro profético, onde a “voz” é o ponto de inflexão entre visão e missão. Em Isaías 6:8, “וָאֶשְׁמַע אֶת־קוֹל אֲדֹנָי” (wāʾešmaʿ ʾet-qōl ʾădōnāy — “então ouvi a voz do Senhor”) mostra qōl (“voz”) como evento que atravessa o profeta e o desloca: do assombro do templo para a resposta “eis-me aqui”. A ligação com o culto é direta: a cena se passa no ambiente do sagrado, e a “voz” que chama não é mero dado informativo, mas força performativa que cria vocação; no coração do templo, a audição se transforma em envio.

No Novo Testamento, a mesma lógica é refinada por um princípio que regula o som do povo reunido: para convocar, o som precisa ser inteligível; para guiar, precisa ter forma. Em 1 Coríntios 14:8, o argumento é cristalino na própria construção: “καὶ γὰρ ἐὰν ἄδηλον σάλπιγξ φωνὴν δῷ” (kai gar ean adēlon salpinx phōnēn dō — “pois, se uma trombeta der um som indistinto”), onde salpinx (“trombeta”) e phōnē (“som/voz”) são unidos pelo adjetivo adēlon (“indistinto”), e a consequência prática é inevitável: ninguém se prepara para a ação quando o sinal é ambíguo. O ponto, aplicado ao culto, é que a celebração pode ser sonora sem ser caótica; pode ser intensa sem perder nitidez; pode ser pública sem perder sentido. O “barulho santo” não é o volume por si; é a clareza que edifica e orienta a assembleia.

IV. Voz das multidões e da história: rumor, clamor, guerra, cidade e o “barulho social”

Quando as Escrituras querem mostrar a história em movimento, muitas vezes ela primeiro a faz ouvir. Antes do rosto, o rumor; antes da explicação, o estrondo: a massa humana é percebida como acústica — ondas de medo, júbilo, pânico, perseguição, vitória. Esse “barulho social” não é mero cenário; ele é sinal teológico de que algo coletivo está sendo julgado, reunido, advertido, ou conduzido.

Em Isaías 13:4, a cena abre com um panorama quase cinematográfico: “קֹול הָמֹון בֶּהָרִים” (qōl hāmôn behārîm — “som de uma multidão nos montes”), e logo em seguida “קֹול שְׁאֹון” (qōl šəʾōn — “som de tumulto/estrondo”). A voz aqui não é individual; é uma energia coletiva que denuncia deslocamentos históricos, como se a montanha virasse caixa de ressonância do mundo. A própria tradução portuguesa capta a gradação: “Já se ouve a gritaria da multidão nos montes, como de grande povo; uma voz de rebuliço dos reinos das nações” (Isaías 13:4).

Em Jeremias 4:19, o “som social” entra no corpo do profeta como dor física: “כִּ֣י קֹ֤ול שֹׁופָר֙ … תְּרוּעַ֖ת מִלְחָמָֽה׃” (kî qōl šōp̄ār … tə-rûʿaṯ milḥāmāh — “pois [há] som de trombeta … [o] alarme de guerra”). O ruído público se torna angústia íntima: não é apenas notícia de batalha, mas a invasão do terror coletivo na consciência. A versão portuguesa torna isso audível com precisão: “ouviste o som da trombeta e o alarido da guerra” (Jeremias 4:19).

Neemias 4:20 mostra o mesmo instrumento — a trombeta — não como trauma, mas como ordem e convergência, um código sonoro que reorganiza o povo sob pressão: “בִּמְקוֹם אֲשֶׁר תִּשְׁמְעוּ אֶת־קוֹל הַשּׁוֹפָר …” (bimqôm ʾăšer tišməʿû ʾet-qōl haššôp̄ār … — “no lugar onde ouvirdes a voz/som da trombeta…”). O som aqui cria comunidade em tempo real: dispersos no muro, todos se tornam um corpo quando o “qōl” os chama. A tradução portuguesa é direta e concreta: “No lugar onde ouvirdes o som da trombeta, aí vos ajuntareis conosco” (Neemias 4:20).

No Novo Testamento, a multidão não aparece apenas como tumulto; ela também é coro. Em Lucas 19:37, a “voz” vira liturgia pública: “φωνῇ μεγάλῃ” (phōnē megalē — “em voz alta”), e o texto ancora essa acústica no evento visto e celebrado: a alegria se espalha como som, e o “plēthos” (multidão) de discípulos aprende a confessar com volume (Lucas 19:37). Em Atos 2:6, o detalhe decisivo é que o acontecimento começa como fenômeno auditivo: “γενομένης δὲ τῆς φωνῆς ταύτης” (genomenēs de tēs phōnēs tautēs — “tendo ocorrido este som/esta voz”), e então “τὸ πλῆθος” (a multidão) se ajunta — o som reúne, e a reunião vira crise de entendimento e maravilhamento (Atos 2:6). E quando a história chega ao seu ápice simbólico em Apocalipse, a salvação é descrita como uma massa que não apenas existe, mas soa: “clamavam com grande voz” (Apocalipse 7:10) e “uma grande voz de uma grande multidão” (Apocalipse 19:1); a vitória final é um povo transformado em aclamação, e a aclamação é a própria marca pública do reinado de Deus no meio da história.

V. Voz dos seres vivos: animais, pássaros e o coro do cotidiano

A Bíblia deixa claro, já no próprio uso de qōl (“voz/som”), que o mundo não é mudo e que a linguagem da vida não se limita à fala humana: ela estala, rosna, canta, chama, assusta. Em Jó 4:10, a expressão “שַׁאֲגַת אַרְיֵה, וְקוֹל שָׁחַל” (šaʾăgat ʾaryēh wəqōl šaḥal — “rugido de leão e voz de leão feroz”) põe na mesma respiração o som e o poder: o “qōl” aqui não é só ruído, mas sinal audível de força, presença e domínio, como se a autoridade tivesse timbre. E, no contexto do discurso, o rugido que parecia inquebrável é enquadrado como algo que pode ser interrompido, quebrado, silenciado → não por um predador maior, mas pela soberania de Deus que rebaixa o que se impõe pelo som.

No outro extremo do espectro, a Escritura não despreza a música pequena: ela a transforma em gramática espiritual do cotidiano. Em Salmos 104:12, as aves não são decoração do cenário; elas “dão voz”: “מִבֵּין עֳפָאיִם, יִתְּנוּ-קוֹל” (mibbên ʿŏp̄āyim yittənû-qōl — “de entre as ramagens, fazem soar a voz”). O verbo não descreve apenas o canto como fato natural, mas como participação no arranjo do Criador: a criação tem seu coro próprio, e esse coro nasce “entre ramos”, isto é, de dentro da estrutura mesma do mundo. Quando Cântico dos Cânticos 2:12 diz “וְקוֹל הַתּוֹר, נִשְׁמַע בְּאַרְצֵנוּ” (wəqōl hattôr nišmaʿ bəʾarṣēnû — “e a voz da rola é ouvida em nossa terra”), o texto usa a audição como relógio: a estação muda e a mudança se anuncia por som; a vida volta a florescer e esse retorno não é apenas visto, é ouvido.

Eclesiastes 12:4 desloca essa mesma lógica para a fragilidade humana: a velhice é narrada como transformação do ambiente acústico. O verso fala de um mundo em que o “som do moer” se abaixa e, paradoxalmente, um mínimo som desperta: “וְיָקוּם לְקוֹל הַצִּפּוֹר” (wəyāqûm ləqōl haṣṣippōr — “e ele se levantará ao som do pássaro”). Aqui, qōl (“voz/som”) vira medida do corpo: aquilo que antes seria fundo do dia torna-se gatilho; o ouvido passa a viver no limiar, e o cotidiano se torna uma espécie de vigília involuntária. Não é só uma cena doméstica; é uma teologia do desgaste → quando “o som” muda, muda também o modo de existir no tempo.

Jó 39:24 mostra um terceiro aspecto: o som que convoca e governa. No retrato do cavalo de guerra, aparece “כִּי-קוֹל שׁוֹפָר” (kî-qōl šôp̄ār — “que é som de chifre”): o animal é descrito como alguém que não “acredita” que aquele som seja apenas som, porque ali o qōl é sinal de avanço, risco, choque iminente. O texto, assim, põe o corpo do animal como leitor do mundo: ele interpreta timbres e responde a eles, revelando que há sons que carregam comando. A “voz/som” não é só o que se ouve; é o que move.

VI. Voz como dor e denúncia: grito, lamento, culpa e justiça que não dorme

Quando a Escritura fala de “voz” (qōl — “voz”), nem sempre descreve apenas um fenômeno acústico; muitas vezes descreve um fenômeno moral: a realidade que “fala” contra alguém, a dor que sobe como testemunho, a culpa que se torna audível mesmo quando a boca do culpado se fecha. Assim, a “voz” passa a funcionar como linguagem de tribunal na narrativa: ela acusa, denuncia, convoca, e, ao mesmo tempo, suplica por justiça.

Gênesis 4:10 condensa essa lógica com uma imagem que transforma o mundo criado em fórum: “קוֹל דְּמֵי אָחִיךָ, צֹעֲקִים אֵלַי מִן-הָאֲדָמָה” (qōl dĕmê ʾāḥîkā ṣōʿăqîm ʾēlay min-hāʾădāmāh — “a voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra”). Aqui, “voz” (qōl — “voz”) não é som literal de garganta, mas a força pública do crime: o derramamento se converte em fala, e a terra, que deveria receber sementes, torna-se uma espécie de “arquivo” que devolve a acusação. O particípio “צֹעֲקִים” (ṣōʿăqîm — “clamam”) sugere continuidade: não é um grito que passa, é um clamor que permanece, insistente, até ser respondido.

Êxodo 2:23–24 amplia o quadro: a “voz” que acusa não é só a do inocente ferido, mas a do oprimido esmagado por um sistema, cuja dor se torna oração involuntária. O texto descreve a subida do clamor: “וַיֵּאָנְחוּ בְנֵי־יִשְׂרָאֵל … וַיִּזְעָקוּ וַתַּעַל שַׁוְעָתָם אֶל־הָאֱלֹהִים” (wayyēʾānḥû bənê-yiśrāʾēl … wayyizʿāqû wattāʿal šawʿātām ʾel-hāʾĕlōhîm — “os filhos de Israel gemeram … e clamaram, e a sua súplica subiu a Deus”); e, logo em seguida, a resposta divina começa não com espetáculo, mas com escuta: “וַיִּשְׁמַע אֱלֹהִים אֶת־נַאֲקָתָם” (wayyišmaʿ ʾĕlōhîm ʾet-naʾăqātām — “Deus ouviu o seu gemido”). A sequência “gemer” → “clamar” → “subir” → “ouvir” transforma sofrimento em petição objetiva: a “voz” é o canal pelo qual a injustiça entra no campo do juízo divino, sem precisar de retórica humana.

Nos Salmos, essa “voz” moral assume o timbre da oração pessoal: não é mais só a vítima que “fala”, mas o fiel que aprende a falar com o peso do real. Salmos 3:4 (numeração hebraica 3:5) formula isso com simplicidade: “קוֹלִי אֶל־יְהוָה אֶקְרָא” (qōlî ʾel-YHWH ʾeqrāʾ — “com a minha voz clamo ao SENHOR”). O possessivo em “קוֹלִי” (qōlî — “minha voz”) marca apropriação: a aflição não sequestra a fala, antes a empurra para Deus; e o verbo “אֶקְרָא” (ʾeqrāʾ — “clamo”) não descreve mero som, mas ato relacional, a decisão de lançar a vida em direção ao Deus que responde.

Lamentações 3:56 desce ainda mais fundo, como se a “voz” fosse um fio de ar que insiste no fundo do poço: “קוֹלִי שָׁמָעְתָּ אַל־תַּעְלֵם אָזְנְךָ” (qōlî šāmāʿtā ʾal-taʿlēm ʾoznəḵā — “ouviste a minha voz; não escondas o teu ouvido”). A “voz” (qōl — “voz”) aqui não triunfa; ela suplica para não ser abafada, e essa própria súplica revela um dado decisivo da teologia do sofrimento bíblico: a justiça que “não dorme” começa, muitas vezes, no simples fato de Deus não fechar o ouvido.

E há também a “voz” que fere por fora: o coro da zombaria, que transforma dor em espetáculo público. Salmos 22:7 (numeração hebraica 22:8) descreve a multidão não pelo volume, mas pelo gesto humilhante que vira linguagem: “כָּל־רֹאַי יַלְעִגוּ לִי; יַפְטִירוּ בְשָׂפָה, יָנִיעוּ רֹאשׁ” (kol-rōʾay yalʿîgû lî; yap̄ṭîrû bĕśāp̄āh, yānîʿû rōʾš — “todos os que me veem zombam de mim; arreganham o lábio, meneiam a cabeça”). A voz do justo, aqui, é cercada por “vozes” que não precisam de argumento: basta o escárnio, e o mundo parece emitir um veredito. É nesse contraste que o tema se intensifica: a Escritura faz a denúncia soar (a voz do inocente), faz o clamor subir (a voz do oprimido), e expõe a maldade social como ruído litúrgico invertido (a voz da zombaria), preparando o terreno para que a justiça de Deus não seja apenas conceito, mas resposta ao que “se ouviu” na terra.

VII. A Voz de Deus: teofania, revelação e direção (do Sinai ao deserto do coração)

No Sinai, a revelação se descreve como um encontro em que o ouvido antecede o olhar: “וַיְדַבֵּ֧ר יְהֹוָ֛ה אֲלֵיכֶ֖ם מִתּ֣וֹךְ הָאֵ֑שׁ ק֤וֹל דְּבָרִים֙ אַתֶּ֣ם שֹׁמְעִ֔ים” (waydabbēr YHWH ʾălêkem mittōk hāʾēš qōl dĕbārîm ʾattem šōmĕʿîm — “o SENHOR falou a vocês do meio do fogo; vocês ouviam som de palavras”), e o próprio verso sela o contraste: “וּתְמוּנָ֛ה אֵינְכֶ֥ם רֹאִ֖ים זוּלָתִ֥י קֽוֹל” (ûtĕmûnāh ʾênkem rōʾîm zûlātî qōl — “forma vocês não viam, apenas voz”). A cadeia em estado de ligação em “ק֤וֹל דְּבָרִים֙” (qōl dĕbārîm — “som/voz de palavras”) comprime “voz” e “conteúdo” num mesmo feixe: não é ruído sem direção, é som carregado de sentido, e essa pedagogia auditiva funciona como barreira contra a idolatria imagética, porque o encontro se dá pela palavra ouvida, não pela figura possuída (Deuteronômio 4:12).

Ainda em Deuteronômio, a pergunta retórica amplia o espanto: “הֲשָׁ֣מַֽע עָם֩ קֹ֨ול אֱלֹהִ֜ים מְדַבֵּ֧ר מִתֹּוךְ־הָאֵ֛שׁ” (hašāmaʿ ʿām qōl ʾĕlōhîm mĕdabbēr mittōk-hāʾēš — “acaso ouviu um povo a voz de Deus falando do meio do fogo?”). Aqui “voz” é qualificada por ação inteligível, porque “מְדַבֵּ֧ר” (mĕdabbēr — “falando”) prende o fenômeno ao conteúdo articulado: a “voz” não é só potência acústica, é fala que se deixa entender, e o fogo, longe de ser enfeite dramático, localiza o encontro numa arena de tremor e santidade (Deuteronômio 4:33).

O mesmo trecho explicita a direção dessa iniciativa: “מִן־הַשָּׁמַ֛יִם הִשְׁמִֽיעֲךָ֥ אֶת־קֹלֹ֖ו” (min-haššāmayim hišmîʿăkā ʾet-qōlō — “dos céus ele te fez ouvir a sua voz”), e o verbo causativo desloca a ênfase do ouvido humano para o gesto divino que faz a audição acontecer. A “voz” torna-se disciplina, não curiosidade: o verso ainda acrescenta “לְיַסְּרֶ֑ךָּ” (lĕyassĕrekā — “para te corrigir/disciplinar”), como se o som vindo do alto tivesse finalidade moral e formativa, e não apenas efeito de assombro (Deuteronômio 4:36).

Se a narrativa avança até Gibeão, a “voz” divina aparece sem estrondo, atravessando a noite do sonho para abrir um diálogo que expõe o coração: “וַיֹּ֙אמֶר֙ אֱלֹהִ֔ים שְׁאַל֙ מָ֣ה אֶתֶּן־לָ֔ךְ” (wayyōmer ʾĕlōhîm šeʾal māh ʾetten-lāk — “e Deus disse: pede o que eu te darei”). A voz, aqui, não apenas informa; ela cria um espaço de decisão, porque a pergunta convoca responsabilidade e revela desejos: o som divino não substitui a vontade, mas a põe em juízo suave, como lâmpada acesa dentro do peito (1 Reis 3:5).

No Horebe, a Escritura parece desaprender o espetáculo para ensinar o ouvido: depois de vento, terremoto e fogo, surge a expressão paradoxal “וְאַחַ֣ר הָאֵ֔שׁ קֹ֖ול דְּמָמָ֥ה דַקָּֽה” (wĕʾaḥar hāʾēš qōl dĕmāmā daqqāh — “e depois do fogo, um som de silêncio fino”). “קֹ֖ול” (qōl — “som/voz”) é aproximado de “דְּמָמָ֥ה” (dĕmāmā — “silêncio”), como se a voz de Deus pudesse habitar a fronteira em que o ouvido precisa ser purificado para perceber; e, quando Elias reage, a narrativa confirma o retorno à fala direta: “וְהִנֵּ֤ה אֵלָיו֙ קֹ֔ול וַיֹּ֕אמֶר מַה־לְּךָ֥ פֹ֖ה אֵלִיָּֽהוּ” (wĕhinnēh ʾēlāyw qōl wayyōmer mah-lĕkā pōh ʾĒlîyāhû — “e eis que a ele veio uma voz e disse: que fazes aqui, Elias?”). A “voz” não compete com os elementos; ela recolhe o profeta para exame, como quem chama pelo nome em meio ao barulho do mundo (1 Reis 19:12–13).

Quando Isaías é chamado, a vocação nasce nesse mesmo ponto em que “voz” e missão se abraçam: “וָאֶשְׁמַע֙ אֶת־קֹ֣ול אֲדֹנָ֔י אֹמֵ֕ר אֶת־מִ֥י אֶשְׁלַ֖ח” (wāʾešmaʿ ʾet-qōl ʾădōnāy ʾōmēr ʾet-mî ʾešlaḥ — “ouvi a voz do Senhor dizendo: a quem enviarei?”). A “voz” não é acessório místico do templo; ela é convocação ética que transforma audição em envio, e a pergunta ecoa como flecha lançada ao futuro até encontrar disponibilidade (Isaías 6:8).

Nos Evangelhos, “voz” se concentra no grego “φωνή” (phōnē — “voz/sonoridade”), e a fórmula reaparece como selo celeste que identifica e orienta. No batismo, lê-se: “καὶ ἰδοὺ φωνὴ ἐκ τῶν οὐρανῶν λέγουσα” (kai idou phōnē ek tōn ouranōn legousa — “e eis uma voz dos céus, dizendo”), seguida da declaração: “Οὗτός ἐστιν ὁ υἱός μου ὁ ἀγαπητός” (houtos estin ho huios mou ho agapētos — “este é o meu Filho, o amado”) (Mateus 3:17). Na transfiguração, o mesmo padrão culmina no imperativo que reordena o discipulado: “ἀκούετε αὐτοῦ” (akouete autou — “ouçam-no”) (Mateus 17:5). A “voz” não existe para si; ela aponta, define, e exige escuta obediente onde o coração costuma preferir apenas assombro (Mateus 3:17; Mateus 17:5).

Em João, a “voz” volta como resposta audível ao pedido que busca a glória do nome: “πάτερ, δόξασόν σου τὸ ὄνομα… ἦλθεν οὖν φωνὴ ἐκ τοῦ οὐρανοῦ” (pater, doxason sou to onoma… ēlthen oun phōnē ek tou ouranou — “Pai, glorifica o teu nome… veio então uma voz do céu”), e o conteúdo da voz sela a coerência entre passado e futuro: “Καὶ ἐδόξασα καὶ πάλιν δοξάσω” (kai edoxasa kai palin doxasō — “eu glorifiquei e novamente glorificarei”). O som celeste funciona como ratificação pública de uma obediência que caminha para a hora decisiva; a voz não substitui o Filho, mas torna audível o juízo favorável de Deus sobre o caminho que ele assume (João 12:28).

A carta aos Hebreus recoloca “voz” no horizonte do abalo cósmico, retomando o Sinai e ultrapassando-o: “οὗ ἡ φωνὴ τὴν γῆν ἐσάλευσεν τότε” (hou hē phōnē tēn gēn esaleusen tote — “cuja voz abalou a terra naquele tempo”), e a promessa amplia o alcance: “Ἔτι ἅπαξ ἐγὼ σείσω οὐ μόνον τὴν γῆν ἀλλὰ καὶ τὸν οὐρανόν” (eti hapax egō seisō ou monon tēn gēn alla kai ton ouranon — “ainda uma vez abalarei não só a terra, mas também o céu”). A “voz” torna-se soberania em ato: fala que não apenas orienta indivíduos, mas reordena o mundo, removendo o chão falso para que permaneça o que é inabalável (Hebreus 12:26).

VIII. O paradoxo: quando a voz é “quase silêncio” (discernimento e obediência)

No Horebe, o texto de 1 Reis 19:12 põe o ouvido no lugar certo ao nomear um som que parece se contradizer por dentro: “קוֹל דְמָמָה דַקָּה”, qōl dĕmāmāh daqqāh (“voz/som de silêncio fino”). A palavra קוֹל, qôl (“voz/som”), é ampla o bastante para cobrir trovões e sussurros; mas aqui ela se une a דְמָמָה, dĕmāmāh (“silêncio, quietude”), e a דַקָּה, daqqāh (“fina, delicada”), como se a Escritura dissesse que a verdadeira “voz” pode vir sem espetáculo, como lâmina de ar passando entre ruínas de vento, fogo e terremoto. Não é a ausência de som, é um som que não domina — um som que exige discernimento porque não vence pela força, vence pela verdade reconhecida.

O detalhe é decisivo: nesse quadro, “voz” não é apenas fenômeno físico; “voz” é encontro moral. A narrativa organiza os elementos para deslocar o critério da audição: não basta perceber ruído, é preciso discernir o que chama, e a própria forma “silêncio fino” funciona como pedagogia — a presença divina não se oferece como impacto, mas como direção que pode ser recusada se o coração só se move quando o mundo grita. Por isso, quando o texto bíblico fala em קוֹל, qôl (“voz/som”), ele abre espaço para um tipo de obediência que não nasce do susto, mas do reconhecimento interior de quem aprende a distinguir o essencial do estrondoso.

Quando a liturgia de Salmos 95:7 atravessa a boca do povo, a “voz” vira um agora que pesa: “הַיּוֹם אִם־בְּקֹלוֹ תִשְׁמָעוּ”, hayyôm ʾim-bĕqōlô tišmāʿû (“hoje, se ouvirdes a sua voz”). A mesma raiz de “voz/som” (קוֹל, qôl) aparece sem a moldura do Horebe, mas com um corte de urgência: “hoje”. A voz divina, aqui, não é um enigma a ser decifrado por curiosidade; é um chamado que pede resposta no tempo presente, como se a Escritura ensinasse que o ouvido fiel não é o que coleciona sons sagrados, mas o que se deixa conduzir quando a palavra chega.

A carta aos Hebreus retoma esse “hoje” e o coloca no centro da ética do ouvir, agora em grego, com φωνή, phōnē (“voz”): “Σήμερον ἐὰν τῆς φωνῆς αὐτοῦ ἀκούσητε”, Sēmeron ean tēs phōnēs autou akousēte (“hoje, se ouvirdes a sua voz”), seguido da advertência que transforma audição em obediência: “μὴ σκληρύνητε τὰς καρδίας ὑμῶν”, mē sklērynēte tas kardias hymōn (“não endureçais os vossos corações”). Aqui o paradoxo se aprofunda: não é a voz que falta, é o coração que se torna pedra. A “voz” pode ser suave como em 1 Reis 19:12, ou pública como em Provérbios, mas a resistência se dá no mesmo lugar — na recusa de ser movido pelo que foi ouvido.

E Hebreus 4:7 insiste no mesmo nervo, como martelo delicado repetindo o golpe no mesmo ponto: “πάλιν τινὰ ὁρίζει ἡμέραν, Σήμερον… Σήμερον ἐὰν τῆς φωνῆς αὐτοῦ ἀκούσητε, μὴ σκληρύνητε τὰς καρδίας ὑμῶν”, palin tina horizei hēmeran, Sēmeron… Sēmeron ean tēs phōnēs autou akousēte, mē sklērynēte tas kardias hymōn (“de novo determina um dia, ‘Hoje’… hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações”). A voz é apresentada como algo que atravessa longos intervalos e ainda assim chega como presente: o “hoje” não é mero marcador cronológico, é o modo como Deus encosta a palavra no tempo do ouvinte, como brasa que não queima por barulho, mas por verdade.

Se o Horebe sugere a voz que quase se confunde com silêncio, Provérbios 1:20 mostra o outro lado do paradoxo: a “voz” pode estar na praça, e ainda assim não ser ouvida. “חָכְמוֹת בַּחוּץ תָּרֹנָּה; בָּרְחֹבוֹת תִּתֵּן קוֹלָהּ”, ḥokmôt baḥûṣ tāronnāh; bārĕḥōbôt tittēn qôlāh (“as sabedorias clamam fora; nas ruas levantam a sua voz”). O texto não descreve um som tímido: descreve uma voz exposta, no fluxo da cidade, no barulho humano; e, mesmo assim, a Escritura pressupõe a possibilidade de indiferença. Assim, “voz” não depende do volume: a questão é se a vida foi treinada para reconhecer a sabedoria quando ela passa pelo meio das coisas comuns.

Em Provérbios 2:3, o movimento se completa: ouvir a voz não é passividade; é resposta que também ganha voz. “כִּי אִם לַבִּינָה תִּקְרָא; לַתְּבוּנָה, תִּתֵּן קוֹלֶךָ”, kî ʾim-labbînâ tiqrāʾ; lattĕbûnâ tittēn qōleḵā (“se chamares pelo entendimento… e deres a tua voz ao discernimento”). O paradoxo do “quase silêncio” encontra aqui seu desfecho prático: a voz divina educa a voz humana, e a escuta verdadeira se prova quando o coração não endurece e a boca aprende a pedir, a concordar, a obedecer — como quem deixa de ser apenas auditório do sagrado para tornar-se eco responsável do que foi recebido.

IX. Apocalipse e a linguagem sonora: vozes, trombetas, trovões e o fim como liturgia cósmica

Em Apocalipse 1:10–12, a entrada na visão é marcada por uma audição que governa o olhar: “φωνὴν μεγάλην ὡς σάλπιγγος” (phōnēn megalēn hōs salpingos, “uma grande voz como de trombeta”) não funciona como ornamento, mas como sinal de autoridade que inaugura o regime revelacional do livro, pois a voz não apenas fala, ela “convoca” a cena. A própria formulação “ἐπιστρέψαι βλέπειν τὴν φωνὴν” (epistrepsai blepein tēn phōnēn, “voltar-me para ver a voz”) funde percepção auditiva e orientação visual, como se a revelação tivesse, antes de tudo, direção sonora: é a “voz” que dá forma ao espaço, e a visão é arrastada por essa força de chamada, como um coração que bate e organiza o corpo inteiro.

Quando o cenário se desloca ao trono em Apocalipse 4:1–5, o padrão se intensifica: a passagem reintroduz a convocação com “φωνὴ ἡ πρώτη… ὡς σάλπιγγος” (phōnē hē prōtē… hōs salpingos, “a primeira voz… como trombeta”), como se o céu tivesse um timbre régio, e, logo adiante, o próprio trono “emite” fenômenos auditivos: “ἀστραπαὶ καὶ φωναὶ καὶ βρονταί” (astrapai kai phōnai kai brontai, “relâmpagos e vozes e trovões”). A escolha de phōnai (plural) ao lado de trovões sugere que o som não é apenas ruído natural: é linguagem de corte, uma acústica de soberania, em que o reino se torna sensível pelo impacto sonoro que circunda o trono, como se a autoridade fosse percebida primeiro como pressão no ouvido antes de ser compreendida pela mente.

Esse mesmo vocabulário se torna liturgia quando Apocalipse 5:11–12 faz a adoração assumir escala “impossível de contar”: “φωνὴν ἀγγέλων πολλῶν” (phōnēn angelōn pollōn, “a voz de muitos anjos”) desemboca em “λέγοντες φωνῇ μεγάλῃ” (legontes phōnē megalē, “dizendo com grande voz”), em que a grandeza não é só semântica, mas acústica. A cena cria uma teologia do louvor como “massa sonora”: não é apenas conteúdo (“digno é…”), é potência de proclamação, como se a verdade do Cordeiro fosse exibida pelo peso de um coro que ocupa o cosmos inteiro.

O mesmo recurso aparece no desenrolar do juízo: em Apocalipse 6:1, a abertura do primeiro selo vem com um comando que tem textura de tempestade: “ὡς φωνὴ βροντῆς· Ἔρχου” (hōs phōnē brontēs; erchou, “como voz de trovão: vem”). A narrativa, então, usa a “voz” como mecanismo de transição, como um martelo que marca o ritmo do avanço dos selos; e, em Apocalipse 8:5, após o gesto sacerdotal no altar, a resposta cósmica repete o trio sonoro, agora como consequência histórica: “βρονταὶ καὶ φωναὶ καὶ ἀστραπαὶ” (brontai kai phōnai kai astrapai, “trovões e vozes e relâmpagos”), fazendo do som uma assinatura de juízo, quase um “carimbo” sensorial que sela a passagem do culto celeste ao abalo terrestre.

Em Apocalipse 9:9, a imagética sonora desce do trono para o campo de batalha e a violência ganha “trilha”: “ἡ φωνὴ τῶν πτερύγων… ὡς φωνὴ ἁρμάτων” (hē phōnē tōn pteryōn… hōs phōnē harmatōn, “o som das asas… como som de carros”). Aqui, phōnē cobre “som” tanto quanto “voz”, e essa elasticidade lexical permite que a ameaça seja descrita como experiência auditiva antes de qualquer descrição psicológica: o terror vem como estrondo que anuncia aproximação. Quando Apocalipse 11:15 desloca o foco para o triunfo, o céu se enche de anúncio: “φωναὶ μεγάλαι ἐν τῷ οὐρανῷ” (phōnai megalai en tō ouranō, “grandes vozes no céu”), e a vitória aparece como proclamação pública, não como segredo místico: a realeza é declarada em voz alta.

A culminância judicial em Apocalipse 16:17–18 volta a amarrar som e soberania: “φωνὴ μεγάλη… λέγουσα· Γέγονεν” (phōnē megalē… legousa; gegonen, “uma grande voz… dizendo: está feito”) põe a conclusão do juízo na boca de uma voz que procede do espaço do governo (“do templo… do trono”), e imediatamente o texto retorna ao repertório acústico de abalo (“ἀστραπαὶ… φωναὶ… βρονταί”, astrapai… phōnai… brontai). O efeito literário é claro: o fim não é descrito apenas como evento; é proclamado como decreto, e a criação responde com barulho de ruptura, como se o universo fosse um salão que treme quando o rei termina a sentença.

Quando Apocalipse 18 desloca o juízo para “Babilônia”, a paisagem sonora passa a ser também paisagem social: o anúncio da queda vem “ἐν ἰσχυρᾷ φωνῇ” (en ischyra phōnē, “com voz forte”), e, logo depois, Apocalipse 18:4 faz soar um chamado de separação: “ἄλλην φωνὴν ἐκ τοῦ οὐρανοῦ… Ἐξέλθατε, ὁ λαός μου” (allēn phōnēn ek tou ouranou… exelthate, ho laos mou, “outra voz do céu… saí dela, povo meu”). Essa dupla “voz” (uma que anuncia a ruína e outra que chama o povo) transforma o som em instrumento de discernimento: a audição é posta como critério de fidelidade. Em seguida, Apocalipse 18:22–23 descreve a punição como silêncio econômico-cultural: “φωνὴ κιθαρῳδῶν… καὶ σαλπιστῶν” (phōnē kitharōdōn… kai salpistōn, “som de harpistas… e de trombeteiros”) deixa de existir, e até “a voz do noivo e da noiva” é retirada; versões modernas oscilam entre traduzir phōnē como “voz” e “som” nesse trecho, justamente porque a ideia é a cessação completa do ambiente humano — o desaparecimento do que fazia uma cidade “soar viva”.

O clímax litúrgico de Apocalipse 19:1 e 19:6 devolve a “voz” ao registro de culto cósmico: “ὡς φωνὴν μεγάλην ὄχλου πολλοῦ” (hōs phōnēn megalēn ochlou pollou, “como grande voz de grande multidão”) e, depois, “ὡς φωνὴν ὑδάτων πολλῶν… ὡς φωνὴν βροντῶν ἰσχυρῶν” (hōs phōnēn hydatōn pollōn… hōs phōnēn brontōn ischyrōn, “como voz de muitas águas… como voz de fortes trovões”). A vitória é narrada como avalanche sonora: o louvor toma emprestado o rugido do mar e o estrondo do céu para dizer que o triunfo não cabe numa fala baixa. Comparações de traduções evidenciam essa intenção ao alternarem “voice” e “sound” nesses versículos, tentando capturar a fusão entre linguagem e impacto acústico. Nessa linha, leituras acadêmicas ressaltam como a imagética de Apocalipse carrega teologia e forma literária inseparavelmente, de modo que a “voz” não é detalhe, mas meio pelo qual o livro faz o leitor sentir a soberania e o juízo como realidade.

Em Apocalipse 21:3, a renovação do mundo é anunciada do modo como o livro ensinou a esperar o decisivo: “φωνῆς μεγάλης ἐκ τοῦ θρόνου” (phōnēs megalēs ek tou thronou, “uma grande voz do trono”). O destino escatológico não é apresentado como ideia abstrata, mas como proclamação audível que procede do centro do governo; depois de trombetas, trovões, clamores, silêncios impostos e coros incontáveis, a história termina como começou: pela voz que institui realidade, como se o mundo novo fosse inaugurado não por um mero cenário, mas por uma palavra sonora que o “faz existir” diante de todos.

X. Tradição judaica posterior: bat qōl (“filha da voz”) como categoria interpretativa

Na linguagem rabínica, bat qōl (“filha da voz”) nomeia uma “voz celeste” que anuncia juízo ou vontade divina, inclusive em controvérsias jurídicas, e a própria tradição faz questão de distingui-la do profetismo clássico; por isso a expressão é, ao mesmo tempo, uma tentativa de dar forma verbal ao invisível e uma confissão de que se trata de um modo derivado de comunicação. O ponto decisivo para não forçar a Escritura é este: o termo “bat qōl” não aparece no texto do Antigo Testamento, embora a “voz” de Deus seja narrada com frequência nas teofanias e nos relatos proféticos, e é justamente depois, na recepção judaica, que a categoria ganha corpo para falar de uma voz que “vem de parte nenhuma”.

Quando o texto bíblico apresenta “voz do céu”, ele o faz sem a etiqueta posterior, e com densidade narrativa própria. Na história de Nabucodonosor, a cena é de palavra interrompida por soberania: “While the word was in the king’s mouth, there fell a voice from heaven” (Daniel 4:31). (SIMON-SHOSHAN, These and Those Are the Words of the Living God, 2021, pp. 382-410). Ali, o aramaico do versículo concentra o impacto em três golpes curtos — “קָל מִן־שְׁמַיָּא נְפַל” com a transliteração qāl (“voz”) min (“de”) šəmayyā (“céus”) nəpal (“caiu”) — como se a frase fosse um trovão gramatical que desce sobre a boca do rei. No batismo de Jesus, o relato não sugere “eco”, mas declaração filial explícita: “καὶ ἰδοὺ φωνὴ ἐκ τῶν οὐρανῶν λέγουσα· Οὗτός ἐστιν ὁ υἱός μου ὁ ἀγαπητός, ἐν ᾧ εὐδόκησα” com a transliteração kai idou phōnē (“e eis voz”) ek tōn ouranōn (“dos céus”) legousa (“dizendo”) — e a frase central, “Οὗτός ἐστιν ὁ υἱός μου ὁ ἀγαπητός”, em transliteração houtos estin ho huios mou ho agapētos (“este é o meu Filho amado”). (Mateus 3:17). E no caminho de Damasco, a “voz” não paira como ruído cósmico, mas fere a consciência pelo nome repetido: “ἤκουσεν φωνὴν λέγουσαν αὐτῷ· Σαοὺλ Σαοὺλ, τί με διώκεις;” com a transliteração ēkousen phōnēn (“ouviu uma voz”) legousan autō (“dizendo-lhe”) Saoul Saoul (“Saulo, Saulo”) (Atos 9:4).

É precisamente por existirem, na Escritura, cenas tão nítidas de “voz do céu” (Daniel 4:31; Mateus 3:17; Atos 9:4) que a tradição posterior pôde enxergar nelas uma espécie de parentesco com a categoria rabínica, ainda que o parentesco não seja identidade. Na recepção talmúdica, bat qōl (“filha da voz”) aparece como fórmula recorrente: “יָצְתָה בַּת קוֹל וְאָמְרָה” com a transliteração yāṣĕʾāh bat qōl (“saiu uma filha da voz”) wəʾāmrāh (“e disse”), e o inglês do próprio compêndio registra: “A Divine Voice emerged and said…”. (Bat Kol: The Voice of Heaven in Rabbinic Literature de Dovi Seldowitz em Sefaria.org) Esse tipo de ocorrência mostra por que alguns intérpretes, olhando para trás, chamam de bat qōl (“filha da voz”) qualquer “voz celeste” narrada em chave de revelação; mas, do ponto de vista metodológico, a Bíblia descreve o fenômeno como qōl (“voz”) ou phōnē (“voz”) no enredo e na teologia do próprio livro, enquanto bat qōl (“filha da voz”) é um nome interpretativo da tradição para categorizar e discutir como o céu “fala” quando a profecia, na percepção rabínica, já não opera do mesmo modo.

Com isso, os três textos citados na fonte — Daniel 4:31, Mateus 3:16–17 e Atos 9:4 — podem ser lidos com um duplo respeito: primeiro, como Escritura em sua literalidade narrativa, onde a “voz” não é metáfora decorativa, mas evento que reordena o mundo (o rei é abatido, o Filho é identificado, o perseguidor é desarmado); depois, como ponto de contato para a história da recepção, onde a tradição posterior, ao dizer bat qōl (“filha da voz”), tenta circunscrever a mesma realidade de um Deus que se faz ouvir sem se deixar ver, porém sem que esse rótulo seja retroprojetado como se fosse vocabulário bíblico.

A. Bat Kol: Filha de uma Voz/Eco [Celestial]

A literatura rabínica chama bat qōl (“filha da voz”) de um modo de “fala do Alto” que não se confunde com profecia clássica: não é a voz do profeta em êxtase, nem a voz de Sinai como evento fundador, mas uma espécie de ressonância celeste que se deixa ouvir quando o céu fala “por eco”, e a terra aprende a discernir o que foi dito sem reduzir isso a mero pressentimento. A própria escolha do termo coloca lado a lado בת קול, bat qōl (“filha da voz”) e קול, qōl (“voz/som”), como se dissesse: há “voz” e há uma “filha” dessa voz, uma derivação que conserva autoridade, mas já não coincide com o mesmo grau de revelação.

É nesse horizonte que o Talmud descreve a passagem para uma era “pós-profética”: “After the latter prophets Haggai, Zechariah and Malachi had died, the Holy Spirit ceased from Israel. Nevertheless, they communicated with them by means of a bat qol.” (Jay Rovner, “Hillel and the Bat Qol”, p. 3). O hebraico da cláusula-chave condensa a teologia do intervalo: “פסקה רוח הקודש מישראל” — pāsqâ rûaḥ haqqōdeš mi-Yiśrāʾēl (“cessou o Espírito Santo de Israel”), e o que resta como via atenuada é “בת קול” — bat qōl (“filha da voz”). Por isso, quando a cena de Jericó coloca os sábios ouvindo uma declaração do céu e, em seguida, reconhecendo Hilel como alvo desse elogio, o texto não constrói um oráculo “preditor”; ele encena um juízo: a dignidade pessoal é afirmada, mas a geração é declarada indigna, como se a revelação ecoasse e, ao mesmo tempo, se recolhesse. (Bava Batra 118a:1)

Em Berakhot 3a, a bat qōl reaparece com outra coloração: não como selo de grandeza individual, mas como lamento que atravessa ruínas, fazendo do som um gesto de julgamento e compaixão. O motivo é decisivo: a voz não vem para revelar um “segredo do futuro”; ela vem para dizer o peso espiritual do presente, como se a ausência de profetas não significasse silêncio absoluto, mas uma presença que fala em registro menor, às vezes ferido, às vezes pedagógico. Nesse ponto, a linguagem rabínica se encosta no vocabulário de šĕkînâ (“Presença”) — שכינה, šĕkînâ (“Presença”) — para sugerir que há comunicações divinas que acompanham o exílio não por espetáculo, mas por “eco”.

Bava Metzia 59b é o lugar em que a bat qōl se torna, paradoxalmente, o teste da própria autoridade da interpretação: a narrativa admite uma voz celeste em meio ao conflito haláchico, mas recusa que ela feche a controvérsia “por decreto”. A recusa se ancora em duas frases bíblicas que viram princípios: “לא בשמים היא” — lōʾ baššāmayim hîʾ (“não está nos céus”) em Deuteronômio 30:12, e “אחרי רבים להטות” — ʾaḥărê rabbîm lehaṭṭōt (“seguir a maioria para inclinar [a decisão]”) em Êxodo 23:2; a primeira impede que o direito vire teofania contínua, a segunda impede que a comunidade perca sua responsabilidade. O efeito é fino: a bat qōl pode soar, mas a Torá não se torna refém do céu; o céu, por assim dizer, honra o pacto interpretativo que a própria Torá instituiu.

Se a disputa de Bava Metzia 59b mostra limites, Pirkei Avot 6:2 mostra frequência: uma bat qōl “sai” do Horebe como advertência moral cotidiana, e o lugar escolhido é simbólico porque Horebe é o nome do Sinai visto do lado da exigência. Assim, a voz que antes marcou um acontecimento irrepetível se converte em chamado repetido, não para produzir novos mandamentos, mas para denunciar a indiferença diante do que já foi dado. O texto, assim, move o tema da “voz” para a consciência: a revelação maior já aconteceu; o eco insiste para que o ouvido não se atrofi e a obediência não se dissolva em rotina.

A conexão com a Escritura aparece quando se observa que o Tanakh já conhece “voz” como evento sem imagem: “קול דברים אתם שומעים” — qōl dəbārîm ʾattem šōmʿîm (“vós ouvis a voz de palavras”) em Deuteronômio 4:12, onde a audição é elevada acima da visão para impedir que o divino seja capturado por forma. A tradição posterior lê esse primado do ouvir como terreno fértil para compreender por que, em Daniel, “uma voz” pode “cair do céu” sobre reis e impérios, e por que composições místicas retomam esse motivo com força dramática: numa coletânea na Sefaria que cita a linguagem do Zohar Chadash, “בת קול יוצאת ומפוצצת בפלטין של נבוכדנצר” — bat qōl yōṣēʾt û-məpōṣeṣeṯ bəpalṭîn šel Nəḇûḵaḏneṣṣar (“uma bat qōl sai e ressoa no palácio de Nabucodonosor”), como se o eco celeste atravessasse a pompa humana para lembrar que o trono não é absoluto.

Quando o Kuzari (3:11) fala de graus e de mediações do contato com Deus, o tema ganha linguagem medieval: a bat qōl pode ser associada a uma forma de comunhão inferior à profecia plena, mas ainda assim real como “sinal” e como direção; a mesma imagem retorna: não é a chama do Sinai em seu auge, mas um eco que, em tempos de rarefação profética, mantém viva a ideia de que a vontade divina pode ser proclamada sem que a revelação se transforme em ruído arbitrário.

Bibliografia

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GALVÃO, Eduardo. Voz. In.: Enciclopédia da Bíblia Online. [S. l.], 10 abr. 2017. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

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