Zeboim — Enciclopédia da Bíblia Online

ZEBOIM

A região de “Zeboim” na Bíblia não é um único ponto, mas um mesmo nome português que abre três lugares distintos: primeiro, a antiga cidade do vale de Sidim, cujo nome hebraico é tsebhoyim (“lugar selvagem”), uma das cinco cidades-estados do “Distrito”, ligada à fronteira cananeia e à campanha de Quedorlaomer, na qual seu rei Semeber se alia a Sodoma, Gomorra, Admá e Bela (Zoar), é derrotado na baixada de Sidim, e mais tarde é lembrada como destruída junto com Sodoma e Gomorra, tornando-se em Moisés e em Oséias exemplo de juízo (Gênesis 10:19; Gênesis 14:2, 8, 10; Deuteronômio 29:23; Oséias 11:8), com localização exata desconhecida, embora se proponha a região sul do mar Morto; segundo, uma localidade no território de Benjamim mencionada entre Hadide e Nebalate e junto de Lode/Lida, reocupada após o retorno do exílio, cuja grafia hebraica é tsebhoim (“lugar selvagem”), e que alguns preferem entender no sentido de tsebhoim (“hienas”), permanecendo incerta sua localização (Neemias 11:34; também Neemias 11:31, 35 na enumeração correlata); terceiro, o vale de Zeboim no mesmo território benjamita, perto de Micmás, por cujas estradas saqueadores filisteus faziam surtidas nos dias do rei Saul “para o termo que olha para o vale de Zeboim, para o ermo”, e que talvez corresponda ao uádi Abu Dabaʽ (“vale do pai de hienas”), preservando no relevo a memória do nome (1 Samuel 13:16-18), enquanto a Septuaginta registra a forma Saboeím como eco antigo dessa toponímia.

Região de Zeboim na Bíblia
Ponte em ruínas sobre o Wadi Abu ed Diba
Esboço do artigo:
  1. “Zeboim” como nome que cobre mais de um lugar: por que a leitura exige cautela antes de mapear qualquer referência (Gênesis 10:19; Neemias 11:34; 1 Samuel 13:16-18).

  2. Zeboim como ponto no “termo dos cananeus”: o nome aparece como marco geográfico numa cadeia de topônimos (Gênesis 10:19).

  3. Zeboim como localidade de Benjamim no pós-exílio: a lista de povoados e o peso do nome numa geografia restaurada (Neemias 11:34).

  4. O vale de Zeboim no conflito com os filisteus: o relevo, a estrada e o “ermo” como moldura narrativa (1 Samuel 13:16-18).

  5. Zeboim na memória do julgamento sobre as cidades do “Distrito”: o nome junto de Admá, e a carga teológica do exemplo (Gênesis 14:2, 8; Deuteronômio 29:23; Oseias 11:8).

  6. Pistas de localização e permanência do nome: hipóteses e limites do que o texto bíblico permite afirmar (passagens do item 2–5).

Abertura: por que “Zeboim” exige atenção antes de qualquer leitura

Gênesis 10:19 traz “Zeboim” como parte de uma enumeração que funciona como cordão de marcos, uma linha que o texto estende no mapa por meio de nomes: “... Sodoma e Gomorra, Admá e Zeboim, até Lasa.” No hebraico, o nome aparece na forma וּצְבֹיִם, inserido nessa cadeia de limites: ... בֹּאֲכָה סְדֹמָה וַעֲמֹרָה, וְאַדְמָה וּצְבֹיִם--עַד-לָשַׁע — bōʾăkā səḏōmā waʿămōrā wə-ʾaḏmā û-ṣəḇōyim ʿaḏ-lāšaʿ — “indo para Sodoma e Gomorra, e Admá e Zeboim, até Lasa.” A primeira atenção, aqui, é quase visual: a tradução portuguesa “Zeboim” parece uma peça única, mas o texto hebraico já sugere que se está diante de uma forma específica (ṣəḇōyim), alojada num enunciado de fronteiras (gəḇûl, “termo/borda”) em que a sintaxe é paratática, como quem finca estacas com o repetido “indo para... até...”. A Septuaginta não “explica” o nome: ela o translitera, preservando o eco do som em letras gregas — “... Αδαμα καὶ Σεβωιμ ἕως Λασα” — Adama kai Sebōim heōs Lasa — “Adama e Zeboim, até Lasa.” Assim, desde a primeira ocorrência-base, “Zeboim” já pede uma leitura que não confunda som com referencial: o nome funciona como marcador de rota, e não como descrição; como pedra do caminho, e não como retrato do lugar.

Neemias 11:34 desloca o mesmo nome português para outro quadro: não mais uma borda antiga, mas uma lista administrativa de povoamento, um inventário de retorno e reassentamento. Na Bíblia em português: “Em Hadide, em Zeboim, em Nebalate,” e, no hebraico, os topônimos aparecem em sequência curta e seca, quase sem respirarem entre si: חָדִ֥יד צְבֹעִ֖ים נְבַלָּֽט׃ — ḥāḏîḏ ṣəḇōʿîm nəḇallāṭ — “Hadide, Zeboim, Nebalate.” A segunda atenção, aqui, é filológica: o “Zeboim” de Neemias não está grafado como o de Gênesis 10:19; a forma agora é ṣəḇōʿîm, com ʿayin na transliteração, correspondendo ao hebraico צְבֹעִים, e isso impede que o leitor trate “Zeboim” como se fosse sempre o mesmo termo hebraico por trás do mesmo termo português. A sintaxe da frase hebraica reforça o caráter de lista: não se narra, não se descreve, apenas se registra; e, justamente por registrar, ela fixa a pergunta central do artigo: quando a tradução portuguesa diz “Zeboim”, está sempre apontando para o mesmo lugar, ou está cobrindo, com um único rótulo, realidades distintas?

1 Samuel 13:18 acrescenta a terceira nuance ainda dentro desta abertura: não é uma cidade listada nem uma fronteira enumerada, mas um vale, uma depressão do terreno que se torna corredor de movimento militar. O texto em português, na passagem-chave, diz: “... pelo caminho do termo que dá para o vale Zeboim na direção do deserto.” No hebraico, o foco recai sobre a expressão “vale de Zeboim” e o seu vetor “para o ermo”: ... עַל־גֵּ֥י הַצְּבֹעִ֖ים הַמִּדְבָּֽרָה׃ — ʿal-gē haṣ-ṣəḇōʿîm ham-miḏbārāh — “para o vale de Zeboim, na direção do deserto.” A mesma grafia hebraica de Neemias reaparece (ṣəḇōʿîm), agora dentro de uma construção que prende o nome ao relevo: é “vale”, e o hebraico amarra a visão do movimento (“vira para o caminho...”) ao horizonte (“que dá/olha para...”), como se a frase desenhasse, com palavras, a curva do terreno. O resultado, para a leitura do artigo, é decisivo: antes de perguntar “onde ficava Zeboim?”, é preciso perguntar “qual Zeboim?” — o da borda cananeia de Gênesis, grafado צְבֹיִם (ṣəḇōyim), ou o do território de Benjamim, grafado צְבֹעִים (ṣəḇōʿîm), ora como cidade (Neemias), ora como vale (1 Samuel). Só depois dessa triagem o nome deixa de ser neblina e se torna coordenada; deixa de ser um som repetido e passa a ser um ponto exato, cada qual com seu texto, sua gramática e sua história.

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GALVÃO, Eduardo. Zeboim. In.: Enciclopédia da Bíblia Online. [S. l.], 20 abr. 2017. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

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