Estudo sobre Apocalipse 3:11-13

Apocalipse 3:11-13

Às duas palavras de consolo sucede-se finalmente uma exortação, que evoca Ap 2,10: Venho sem demora (“Eis que venho subitamente” [tradução do autor]) (cf. Ap 1.3). Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa (“grinalda”). A expressão poderia ser entendida de tal maneira como se a igreja já possuísse a grinalda. Contudo nenhum competidor corre com a coroa; e Filadélfia ainda não se encontra no alvo. Os louros da vitória já foram “depositados” (2Tm 4.8) e serão “preservados no céu” para ela (1Pe 1.4), porém ainda não lhe foram impostos. “O atleta não é coroado se não lutar segundo as normas” (2Tm 2.5). A igreja ainda poderia perder muitas coisas: o evangelho, a perseverança por Jesus, o amor aos inimigos, a independência de honra e fama, e em suma, por isso, a grinalda da vitória.

Com essas observações fizemos a transição para o oráculo do vencedor: Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus. Conforme o v. 9 o Senhor fala novamente a respeito do seu procedimento. É uma ação criadora, como também o conhecem Isaías e o AT. No v. 9, a ação referiu-se aos adversários, aqui refere-se à comunidade vencedora. Anuncia-se a ela uma transformação de figura. Sua atual e momentânea figura (v. 3) não é sua figura definitiva. “Ainda não é manifesto o que havemos de ser” (1Jo 3.2). Pois semeia-se corruptível, em fraqueza e desonra, porém ressuscitará incorruptível, em poder e glória (1Co 15.42,43).

A respeito da nova estatura pode-se falar apenas em metáforas, no caso na metáfora da coluna. O termo não alude à função de sustentáculo (como, p. ex., em Gl 2.9; 1Tm 3.15), porém, conforme 1Rs 7.15-22; 2Rs 25.13-17; Êx 13.21; Jr 1.18 à sua função de sinal. Ela é uma testemunha destacada, visível de longe, e impossível de derrubar. Depois do testemunho fiel apesar da pouca força (v. 8), o vencedor será agora uma testemunha glorificada de Deus.

A coluna está erigida no santuário (“templo”). Fica esclarecido, a partir de Ap 21.22, que aqui tudo se move num quadro simbólico, pois na consumação não haverá mais santuário (cf. o comentário a Ap 11.1). Talvez haja uma alusão à situação contemporânea. Era permitido que os sumo sacerdotes do culto ao imperador mandassem erigir para si uma coluna memorial no templo. Também no presente texto trata-se da ideia de que o Senhor honra o servo fiel. “Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará” (Jo 12.26). E daí jamais sairá. Triunfa a preservação (v. 10). O lado de fora, onde se debatem os blasfemos (Ap 22.15), ficou, pois, totalmente afastado. Os vencedores permanecem no serviço para sempre. “Habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre” (Sl 23.6).

O aspecto seguinte talvez faça conexão com o fato de que as colunas memoriais nos templos daquele tempo recebiam inscrições com o nome do pai, o local de nascimento e o ano de serviço. Por outro lado, a comparação da coluna já é abandonada, passando-se a desenvolver amplamente a breve menção do novo nome feita em Ap 2.17: a mera menção torna-se uma inscrição (na testa, em Ap 9.4; 14.1; era a forma com que na Antiguidade as pessoas identificavam seus escravos e assumiam publicamente seus serviços e sua proteção). Escrever solenemente significava tornar algo irrevogável. “O que escrevi escrevi” (Jo 19.22). Além disso, em contraposição a Ap 2.17, de um nome formam-se três. Cada um deles expressa uma parte da autoridade. Plenitude de nomes significava plenitude de poder. Finalmente o novo nome revela-se como o nome de Deus (num desdobramento trinitário?).

O primeiro nome: gravarei também sobre ele o nome do meu Deus. Dessa maneira confirma-se Jo 20.17: “Meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus” (cf. nota 128). Agora Filadélfia é incontestável e irrevogavelmente igreja de Deus. E o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus (Ap 21.2,10). Sua cidadania, que até agora estava oculta (Fp 3.20; Gl 4.26; Hb 12.22), torna-se patente. E o meu novo nome. Finalmente eles serão participantes do novo nome de Jesus (Ap 19.12,13,16), ou seja, na sua nova vigência. Governarão com ele.

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Nessa mensagem, como no livro de consolação de Isaías, o assunto é certificar da condição de salvos: “Tu és meu!” Isso o Espírito afirma precisamente a uma comunidade, à qual os importantes (os judeus) o negam. Sua voz não coincide com a voz da devoção humana, pois ele entende mais do amor de Deus em Jesus Cristo que a religiosidade humana jamais seria capaz de sonhar. Dessa primeira promessa decorre a segunda: “Tudo que é meu, é teu!” Como Deus não nos daria tudo com Cristo e não nos faria participantes de toda a plenitude do seu nome? Quem é filho, também é herdeiro.